
Uma excelente realização sexual tem efeitos visíveis nos homens e nas mulheres, transcendendo largamente as sensações de mero prazer físico, objectivamente as menos relevantes, ou de alívio pela necessidade satisfeita. Os agentes experimentam não apenas satisfação, mas poder, e uma certa ideia de invencibilidade: pertencem ao mundo e o mundo pertence-lhes.
A realização sexual proporciona efeitos semelhantes aos da euforia da vitória, tal como uma dose de boa cocaína, e transforma-se, progressivamente, numa adição. Sexo pede mais sexo. Quem mantém relações sexuais periódicas, e as interrompe, subitamente, sabe que a quebra origina, inicialmente, carências físicas e psicológicas bem reais, as quais se podem ir tornando menos relevantes, com o passar do tempo, até, eventualmente, se diluírem ou transformarem noutras ordens volitivas conscientes. Ou não. Isto, no que respeita às mulheres.
Um dos fenómenos que, ao longo dos anos, tenho podido observar nas mulheres com parceiro sexual regular e satisfatório, e que atesta bem a forte relação entre sexo e poder, manifesta-se em comportamentos de autonomia, que estas demonstram, pela primeira vez, relativamente ao outro exterior à relação. Os outros, como as amigas, amigos, familiares, colegas, tornam-se, de repente, dispensáveis; figurantes de passagem rápida. O mundo centra-se na pessoa com a qual se desenvolvem os trâmites sexuais; tudo começa e parte daí. A outra pessoa é aquele com quem se teve ou se vai ter sexo, com que se esteve ou se vai estar em total intimidade, com quem ela se diluiu ou se vai diluir. Enquanto dura, é romântico!
É nesta altura que a maior parte das raparigas se afasta das amigas.
Entre muitas raparigas, sobretudo as que vêm de uma educação tradicional, as amigas ainda são encaradas, pelas próprias, e pelas famílias, como companheiras para passar tempo inofensivo enquanto não chega o eleito. Chegado o eleito, a agenda de encontros altera-se substancialmente para o lado do salvador, e tem início uma outra era.
Normalmente, voltam às amigas após os divórcios. Eu já fui a amiga preterida, oh, meu Deus, não tenho dedos que cheguem para enumerar os casos! Creio que só não me aconteceu ser a que pretere, porque, exactamente igual às outras, tive algumas particularidades que impediram, digamos, o amadurecimento de relações. Não vale a pena estar agora aqui a chafurdar na lama.
As mulheres tendem a centralizar as relações amorosas, construindo uma caixa de afectos onde o sexo tem um papel essencial, e dentro da qual se encerram com o objecto do seu amor. Essa caixa é o seu maior tesouro, a sua fonte de energia, poder e satisfação. Os homens, por seu lado, passado o encantamento sexual, que passa mesmo, e para ambos, mais tarde ou mais cedo, e por motivos diversos, tendem a rasgar a caixa por dentro, abrindo janelas por onde conseguirem. As mulheres têm um verdadeiro horror às correntes de ar.
O encerramento em relações, a dependência delas, tem, no entanto, custos muito mais elevados para as mulheres do que para os homens. Quando uma relação termina sem conserto, é mais frequente as mulheres já terem destruído a sua rede de relações anteriores ao envolvimento. Isto, com os homens, raramente acontece. Os homens estabelecem relações menos emocionais uns com os outros, e estas sobrevivem melhor aos longos períodos de hibernação na gaiola do sexo.
Fotos de Vlastimil Kula