domingo, dezembro 31, 2006

Assassinos assassinam assassino


Ando aqui a ver se digiro os poucos segundos da gravação vídeo da execução de Saddam Hussein.
Não digiro, como nunca digeri as de Ceausescu, há 17 anos, nem as fotos do cadáver de Mussolini pendurado pelos pés! Uma execução é um assassinato, sempre um assassinato, e o facto de se encontrar legitimada por um tribunal internacional não lhe rouba atributos.

Sei que este argumento está batido, mas permitam-me bater de novo, porque preciso; se a Razão não é um conceito vazio, como pode um tribunal, seja ele qual for, atrever-se a julgar crimes de morte sentenciando-lhes a morte?! Saber que a pena de morte é praticada pelo mundo fora não atenua a minha preocupação, porque, no caso de Saddam, não se trata da muito duvidável Justiça particular de um estado soberano, mas de instâncias devidamente autorizadas pelo Ocidente, e por ele encorajadas. Já não é a China ou o Faroeste, porque têm lá aquela cultura...
Não se questiona a culpa, mas a forma como se expia uma culpa. Se uma execução simboliza a vitória do Bem sobre o Mal, se através dela se pensa realizar a Justiça, tudo o que a minha civilização me ensinou, todos os valores que me levou a defender, estão distorcidos; li os livros errados, e aprovaram-me indevidamente nos exames formais, e informais, a que me submeti; peço desculpa, mas afinal compreendi mal as mensagens transmitidas. Porque, das duas, uma: ou eu estou errada, ou a tecnologia digital, e mais a nanotecnologia, e outros milagres do mesmo foro, não passam de pinceladas cosméticas sobre uma idade mental humana descaradamente medieval. Há momentos em que isto se torna tão nítido, tão nítido, que nem a pior gravação vídeo consegue escondê-lo.

sexta-feira, dezembro 29, 2006

O poder na gaiola do sexo



Uma excelente realização sexual tem efeitos visíveis nos homens e nas mulheres, transcendendo largamente as sensações de mero prazer físico, objectivamente as menos relevantes, ou de alívio pela necessidade satisfeita. Os agentes experimentam não apenas satisfação, mas poder, e uma certa ideia de invencibilidade: pertencem ao mundo e o mundo pertence-lhes.
A realização sexual proporciona efeitos semelhantes aos da euforia da vitória, tal como uma dose de boa cocaína, e transforma-se, progressivamente, numa adição. Sexo pede mais sexo. Quem mantém relações sexuais periódicas, e as interrompe, subitamente, sabe que a quebra origina, inicialmente, carências físicas e psicológicas bem reais, as quais se podem ir tornando menos relevantes, com o passar do tempo, até, eventualmente, se diluírem ou transformarem noutras ordens volitivas conscientes. Ou não. Isto, no que respeita às mulheres.
Um dos fenómenos que, ao longo dos anos, tenho podido observar nas mulheres com parceiro sexual regular e satisfatório, e que atesta bem a forte relação entre sexo e poder, manifesta-se em comportamentos de autonomia, que estas demonstram, pela primeira vez, relativamente ao outro exterior à relação. Os outros, como as amigas, amigos, familiares, colegas, tornam-se, de repente, dispensáveis; figurantes de passagem rápida. O mundo centra-se na pessoa com a qual se desenvolvem os trâmites sexuais; tudo começa e parte daí. A outra pessoa é aquele com quem se teve ou se vai ter sexo, com que se esteve ou se vai estar em total intimidade, com quem ela se diluiu ou se vai diluir. Enquanto dura, é romântico!
É nesta altura que a maior parte das raparigas se afasta das amigas.
Entre muitas raparigas, sobretudo as que vêm de uma educação tradicional, as amigas ainda são encaradas, pelas próprias, e pelas famílias, como companheiras para passar tempo inofensivo enquanto não chega o eleito. Chegado o eleito, a agenda de encontros altera-se substancialmente para o lado do salvador, e tem início uma outra era.
Normalmente, voltam às amigas após os divórcios. Eu já fui a amiga preterida, oh, meu Deus, não tenho dedos que cheguem para enumerar os casos! Creio que só não me aconteceu ser a que pretere, porque, exactamente igual às outras, tive algumas particularidades que impediram, digamos, o amadurecimento de relações. Não vale a pena estar agora aqui a chafurdar na lama.
As mulheres tendem a centralizar as relações amorosas, construindo uma caixa de afectos onde o sexo tem um papel essencial, e dentro da qual se encerram com o objecto do seu amor. Essa caixa é o seu maior tesouro, a sua fonte de energia, poder e satisfação. Os homens, por seu lado, passado o encantamento sexual, que passa mesmo, e para ambos, mais tarde ou mais cedo, e por motivos diversos, tendem a rasgar a caixa por dentro, abrindo janelas por onde conseguirem. As mulheres têm um verdadeiro horror às correntes de ar.
O encerramento em relações, a dependência delas, tem, no entanto, custos muito mais elevados para as mulheres do que para os homens. Quando uma relação termina sem conserto, é mais frequente as mulheres já terem destruído a sua rede de relações anteriores ao envolvimento. Isto, com os homens, raramente acontece. Os homens estabelecem relações menos emocionais uns com os outros, e estas sobrevivem melhor aos longos períodos de hibernação na gaiola do sexo.


Fotos de Vlastimil Kula

quarta-feira, dezembro 27, 2006

Consumir para viver

Os Portugueses gastaram mil euros por segundo durante o período de compras de Natal.
(notícia de hoje)


O Natal não era uma orgia de dinheiro a escorrer dos bolsos. Era um tempo para as crianças brincarem, para se maravilharem. Havia magia no Natal, com menos iluminação, menos purpurina, menos presentes. Era a magia do Feiticeiro de Oz, não a de Harry Potter e o Prisioneiro de Askaban. Eram estéticas e conteúdos muito diferentes.

Não preciso de ir tão longe quanto a minha infância; situo-me na última metade da década de 70, quando fui adolescente, e nos oferecíamos prendas modestas, as que podíamos, mas também as que eram tradição oferecerem-se: meias, cuecas, collants, luvas, cachecóis, livros e discos, coisinhas para o enxoval, e quando vinha um conjunto de lençóis era uma prendazorra! Gastávamos quinhentos escudos numa prenda, vá lá, mil, e era muito.
Não se pensava ganhar um subsídio de Natal para o desperdiçar imediatamente numa alegada generosidade natalícia, mascarando a obrigação do consumo. Hoje, é quase impossível não o fazer, em maior ou menor grau: existe enorme pressão social nesse sentido. Hoje, os almoços de Natal não se fazem sem que cada um leve uma prendinha de 5 euros, a qual sairá em sorteio a alguém que não precisará dela para nada. Tenho cá em casa alguns objectos que ofereço a quem os reclame, e que me calharam em ocasiões semelhantes.

A verdade é que não precisamos da maior parte das prendas de Natal que nos são oferecidas. Preferíamos que nos tivessem dado um queijo ou uma garrafa de azeite. Isto quando não somos os próprios a gastar dinheiro em prendas caríssimas que não têm utilidade alguma para outros. E, claro, a economia vive disto. As empresas podem dar-se ao luxo de pagar subsídios de Natal, bem como de férias, porque esses valores entram rapidamente no mercado, retornando no mês seguinte.
Se, na Primavera, se inventasse um feriado para qualquer outro valor positivo, como o amor e a família, e o mercado realizasse um esforço de marketing na promoção da data, como se fez para o de São Valentim, que, quando era pequena, literalmente não existia, as empresas poderiam perfeitamente pagar aos funcionários um terceiro subsídio, porque o retorno seria certo, e a mercadoria devidamente consumida; as finanças ferveriam! O que interessa é que todos vivam felizes, sobrevivendo de postos de trabalho onde se ocupam a produzir para alimentar a engrenagem de uma viciosa economia de mercado, sem a qual o sistema não sabe funcionar. E o que também interessa, claro, é que o vulgar trabalhador-consumidor não tome grande consciência dessa forma de escravidão. Que diga apenas, na brincadeira, na bicha da ponte, como se não fosse verdade, "oh, sou um escravo"!

terça-feira, dezembro 26, 2006

Consultório sexual

Continuo a maravilhar-me com a leitura do consultório sexual da revista Maria, e pretendo partilhá-la com os estimados leitores.


Está a passar das marcas!


É melhor o mel, porque faz bem à garganta!

segunda-feira, dezembro 25, 2006

Crtl+alt+del

Quando ligo o computador, a primeira janela que me aparece, logo a seguir à inicial, do Windows, é a do Windows Live Messenger; aquela que permite mudar a conta de hotmail, bem como o estado em que queremos ser vistos on line.
Contém, ainda, um pequeno menu de três opções, cuja primeira nos deixa escolher uma das seguintes acções: "memorizar-me" ou "esquecer-me". A segunda tenta-me demasiado.

domingo, dezembro 24, 2006

Prendas para Isabela

Okay, está bem, então preciso de uns collants opacos quentinhos; de duas camisolas interiores, uma branca, outra preta, em rendinha francesa; e de umas cuecas de gola alta, daquelas tipo cinta, que apertem a barriga, mas tão confortáveis que pareça que não as temos vestidas.


Cuequinhas da Isabela

Onde é que vamos parar?!

A minha mãe encomendou-me uma prenda de última hora para uma vizinha que lhe faz uns favorzinhos, e eu lá fui para a rua, porque acho que os favores devem ser retribuídos, e qualquer altura serve, ou resta-nos a gratidão eterna, que sai sempre muito mais cara.
E para meu espanto, no meu bairro da lata, e num Domingo, apenas 95% das lojas se encontravam abertas.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...