terça-feira, março 07, 2017

Objectos perdidos

Andei a arrumar e limpar a casa. Trabalho para caramba! Encontrei objectos perdidos atrás dos móveis, debaixo da cama, dentro de sacos guardados em sítios inenarráveis: o alicate de cortar as unhas às cadelas, um relógio swatch que julgava perdido na rua, chinelos de quarto que andavam sem parceiro, documentos importantes, lápis, borrachas, esferográficas, o carregador da bateria da máquina fotográfica, graças a Deus, enfim, um mundo de coisas perdidas há meses.
O que também tem andado completamente perdido, e não encontrei em lugar algum, mas, atenção!, procurei atrás de todas as portas, até arrastei o sofá e abri gavetas, foi a minha libido. É provável que a tenha perdido fora de casa. Não sei. Nem me lembro quando foi a última vez que lhe pus os olhos em cima. Vou pedir à minha mãe que lhe reze um responso ao Santo António, que costuma resultar. Se não aparecer, o responsável pelo seu desaparecimento padecerá de grande urticária. É isso.

Esclarecimentos teológicos

Almoço de sexta-feira santa.

Mãe - O José Gabriel anda no Norte a mostrar as procissões.
Isabela - O José Gabriel?! Quem é o José Gabriel?
Mãe - ... aquele do programa da manhã... na televisão.
Isabela - Não sei...
M. - Aquilo é lindo no Norte. As festas, as procissões, e eles andam por lá a filmar tudo.
I. - (pensei, mas não disse, que precisava de uma profissão dessas - andar por todo o lado a filmar tudo) Hum, hum.
M. - Andam a filmar por todo o Portugal, mas o Norte é a parte mais bonita.
I. - Oh, mãe, por que é que se fazem procissões?
M. - O quê?!
I. - O que significam as procissões, as pessoas todas atrás do andor...
M. - São coisas muito antigas...
I. - Eu sei, mas o que é que significa?
M. - Sempre existiram, as procissões sempre existiram. É uma tradição sair o Corpo de Deus da igreja e andar com ele pelas ruas.
I. - Sim, mas por que não adoram o corpo de Deus na igreja? Porque não fazem o ritual lá dentro? É uma forma de espalhar a fé?
M. - Olha, é uma coisa muito antiga, sempre se fez assim, desde o tempo em que eu era pequena.
I. - Pronto, okay.

O novo mundo

Thomas Beatie


O que perturba o meu olhar nas imagens do homem-grávido? A extrema beleza do seu rosto, encimando um corpo de homem muito redondo e grávido; as cicatrizes visíveis no lado esquerdo da barriga e sob as mamas; o tamanho da barriga ampliado pela ausência das mesmas. A gravidez que me foi vedada.

A natureza é caprichosa. Tem o seu feitiozinho. Permite que um útero atrofiado pela testosterona possa hospedar um feto, e bem, e pari-lo. No entanto, mulheres jovens submetem-se a violentos tratamentos hormonais e não conseguem manter os embriões nelas colocados através da fertilização in vitro, e mulheres de todas as idades, com aparelhos reprodutores aparentemente normais, não conseguem reproduzir-se através da abençoada fornicação regular.

Thomas Beatie inseminou-se caseiramente com esperma encomendado via net, mais a ajuda da esposa, e o sucesso está à vista. Venham cá dizer-me que Deus Nosso Senhor está contra as mudanças de sexo. É evidente que se está nas tintas! Eu nem imagino o que é que a Igreja Católica fez com este caso! Excomungou a mãe, que também é pai, porque transgrediu as leis divinas ao mudar de sexo? Parece-me lógico. Mas terá, igualmente, de o abençoar pelo milagre da maternidade. Todas as mães são iguais para a benção do Senhor! Enfim, tudo isto me comove tremendamente.

Já todos percebemos que não somos livres. O fascismo rodeia-nos, transcendendo a esfera política. O social é fascista. Andamos todos a toque do que os outros decidiram, não sabendo quem, nem porquê, pelo que a liberdade individual é mais difícil de alcançar que sete medalhas de ouro nos Jogos Olímpicos. Construímos toda a nossa vida sobre estes princípios segundo os quais se espera que vivamos, porque é assim, é assim que é, e não se discute.

Eu, muito sinceramente, para ser livre necessitava que a minha mãe, os meus amigos, os meus colegas de trabalho e os meus vizinhos me deixassem. E, simplesmente, não deixam. Tenho a obrigação de corresponder ao que esperam de mim. A uma ideia de mim. Há regras. Tenho de me pentear (não penteio), não rir alto (rio como me apetece), fazer afirmações inteligentes e sérias (adoro dizer disparates), não saltar dos eixos (não consigo manter-me neles por mais de 6 horas seguidas). De alguma forma, defraudo sempre as expectativas de alguém.

As pessoas têm sempre a sua opiniãozinha sobre a vida alheia. Por exemplo, à D. Vitória, vizinha da minha mãe, incomoda-a bastante que eu tenha agora duas amolgadelas no carro. No meu carro. As minhas amolgadelas. E isto são coisas vulgares. Imagino se me desse para aparecer lá no prédio com um namorado negro ou uma namorada branca ou, meu Deus, se dentro dos limites do que é a minha esfera de liberdade individual, eu tivesse compreendido, a certa altura, que tinha de mudar de sexo biológico. Haveria uma certa lutazinha a travar!





A vida dos outros constitui sempre uma grande história. Casamentos, divórcios, nascimentos, tudo bem desde que dentro das regras. O que as transcende é pecado, aberração, doença ou não parece bem. Nunca se trata apenas da nossa vida, assunto que nos cabe só a nós, e que não interferindo no percurso dos outros, se encontra dentro do chamado limite das liberdades individuais. Dou um exemplo: é-me permitido realizar operações plásticas e mudar completamente o meu aspecto. Posso aumentar as mamas, diminuir o rabo, transformar o nariz, tirar a papada, aumentar a testa, diminuir as orelhas, esticar a barriga, subir as bochechas, pálpebras e sobrancelhas, aumentar os lábios, delinear a cintura, arrancar verrugas, repuxar os olhos à chinesa, tirar os joanetes, enfim, escortanhar-me toda. Tenho essa liberdade. É um direito que me assiste. Agora o que não me assiste nada é querer mudar de sexo. Trata-se igualmente do meu corpo e da minha mente, mas se pretendo mudar de sexo, é certo que partirão do princípio de que padeço de uma patologia mental gravíssima e mo proibirão. Em Portugal, e em muitos países, é assim. Sou culpada antes de ser inocente. Tenho de ser o que os outros acham que devo ser. É por isso que não somos livres. Na verdade, uns mais, outros menos, nunca somos só o que desejaríamos ser.

A mim basta-me que alguém se sinta um homem ou uma mulher para que o seja. Quem sou eu para duvidar do que sentem profundamente os outros relativamente à sua identidade de género ou sexual? Quem sou eu para impor a outros uma experiência humana que os repugna, que não lhes pertence?





Os direitos, liberdades e garantias dos cidadãos são mutáveis e aleatórios. Dependem da época, cultura e estádio socio-político do sistema no qual vivemos. Um transsexual grávido é motivo de grande perturbação social, hoje, mas daqui a umas décadas nada obstará a que homens como Thomas Beatie se candidatem a barrigas de aluguer. Nos anos 60, uma mãe solteira era uma pária social. As raparigas que engravidavam iam parir longe, dando os filhos a criar a amas. Isto, se tivessem de seu. Caso contrário, havia sempre a roda dos enjeitados.

Agrada-me a desorientação dos momentos de convulsão social, os conflitos de identidade pessoal, cultural, política, religiosa. Predomina um sentimento de perda, de insegurança; é necessário prover às necessidades de sobrevivência básicas; tudo corre num turbilhão e parece que o mundo se perdeu. É o Apocalipse. É de facto o Apocalipse, porque algo morre, enquanto algo nasce. São alturas propícias à alteração de convenções, de visões do mundo. Ao longo da história da humanidade, sucedem-se épocas de mudança que implicaram uma grande violência. Foram momentos de progresso mesmo quando se basearam em algo indiscutivelmente mau. As cinzas dessa morte fertilizaram a germinação de novos filhos. Há um processo de água e fogo encadeados, que se apagam e ateiam sucessivamente, se infectam e purificam, e constituem um contínuo de progresso.

O caso dos transsexuais grávidos - nos EUA, agora em Espanha, interessa-me muito. Constitui uma revolução na forma de encarar a família e a procriação, porque permite separá-las. Aliás, a taxa de natalidade do mundo ocidental precisa desesperadamente desta separação. Interessa-me que o transsexual americano nestas imagens, e que já se encontra grávido do segundo filho, seja a mãe biológica da criança que pariu, bem como seu pai afectivo. Interessa-me que a criança não tenha qualquer ADN da mãe afectiva, e que não se faça a menor ideia sobre quem é o pai biológico. Estes acontecimentos põem-me perante a realidade de uma cultura em mudança, e de relacionamentos que se baseiam em verdadeiros laços afectivos, os quais transcendem os antigos laços de sangue, tão inseguros quanto estes.




A solidariedadezinha

Chegou hoje ao meu conhecimento que o Banco Alimentar contra a Fome, ao saber da existência de um projecto de protecção a animais abandonados, chamado, e bem, Banco Alimentar Animal, resolveu, através de uma dispendiosa sociedade de advogados, impedir a associação animal de usar a designação banco alimentar, como se se tratasse de uma marca na sua posse, acenando-lhes com processo judicial.

Os advogados da Ajuda Alimentar contra a Fome escrevem que:
«A alegada confusão «poderá ofender os milhares de dadores e voluntários do Banco Alimentar Contra a Fome», que podem associar a iniciativa do Banco Alimentar Animal à actividade do Banco Alimentar contra a Fome, «criando ainda a ideia de que a contribuição e ajuda das pessoas mais carenciadas [sic] se poderá equiparar ao apoio a animais, o que não é aceitável».
Tenho de parafrasear a mensagem para perceber bem: a designação Banco Alimentar Animal pode ofender os dadores e voluntários ao levá-los a pensar que a solidariedade animal e humana são equiparáveis, o que é inaceitável. Portanto, não queremos confusões. Ajudamos pessoas, mas não animais. Ajudar animais não dá prestígio, e tanto não dá que até estamos com medo que os nossos doadores se ofendam.
É mais ou menos o mesmo que proibir a existência de um documento intitulado Direitos do Animal porque já existe um outro chamado Direitos da Criança ou do Ser Humano. Pode ofender os seres humanos e as crianças.
Isto aborrece-me, porque em tempos pensei criar um Banco Alimentar da Blogosfera ou mesmo um Banco Alimentar para os Pássaros do Bairro, mas não pretendo levar com um processo da parte de que tem finanças para custear advogados tão ilustres.
Não sei se já aqui escrevi que tenho uma intuição de cão rafeiro, e que falho apenas em 20 por cento dos casos. Se calhar já, e não vos queria maçar outra vez, mas a verdade é que tenho mesmo uma intuição de rafeiro e me engano pouco. Sou como o Cavaco, mas em gordo, e em fêmea, e um bocado mais inteligente. Se me tivessem posto a farejar vestígios de cadáver no caso Maddie, já Kate e Gerry McCann... teriam visto o final ao caso.

Há uns anos que tenho esta coisa contra o Banco Alimentar contra a Fome, e não sei explicar porquê. Nunca me fizeram mal. Escapa a qualquer tentativa de entendimento racional da minha parte. Quem me conhece sabe que sou toda das solidariedades. Mas o Banco Alimentar contra a Fome...
Agora que percebi o formato selectivo da solidariedade que prestam, e como sou um cão muito rafeiro, tornou-se tudo claro de repente: os donativos que tiver a fazer serão encaminhados, doravante, para o Banco Alimentar Animal. Não vou dizer que tenho muita pena. Tenho pena é dos animais cuja referência pode ofender a solidariedadezinha.


Sobreviver I

A faculdade humana de cavar um nicho para si, de segregar uma carapaça, de levantar à sua volta uma ténue barreira de defesa, mesmo em circunstâncias aparentemente desesperadas, é espantosa e mereceria um estudo aprofundado. Trata-se de uma preciosa capacidade de adaptação, em parte passiva e inconsciente, em parte activa: pregar um prego em cima da cama para pendurar os sapatos à noite; estipular pactos tácitos de não agressão com os vizinhos; intuir e aceitar os hábitos e as leis de cada Kommando e de cada Block. Graças a esta actividade, passadas algumas semanas, consegue-se alcançar um certo equilíbrio, um certo grau de segurança perante os imprevistos: conseguiu-se um ninho, o trauma da transferência está ultrapassado.

Primo Levi, Se Isto é um Homem, 2001, Lisboa, Editorial Teorema, col. Estórias, tradução de Simonetta Cabrita Neto, p. 57

Amo-te como nunca amei ninguém



Às vezes perguntam-me o que lia eu quando era pequena e ficam à espera que eu diga Cervantes, Urbano Tavares Rodrigues, José Rodrigues Miguéis, Alves Redol, mas eu respondo que lia fotonovelas Corin Tellado e livros do Tio Patinhas, da Mónica, do Cebolinha, do Riquinho, do Mandrake, do Tarzan, do Super-Homem, e mais romances de faca e alguidar da Sarah Beirão. Claro que também li os autores lá de cima, mas não tem piada nenhuma enumerá-los. O que tem piada são as fotonovelas Corin Tellado, com as quais eu aprendi que se dizia, "Amo-te como nunca amei ninguém", e que os homens se iam embora com outras, e as mulheres ficavam a amá-los para sempre; e, quando regressavam, elas perdoavam-lhes tudo, enquanto eles as abraçavam e lhes diziam, "tu, sim, és a mulher da minha vida!" Acho que as expressões "possuir-te", "seres minha", também as aprendi nessa altura, embora não fizesse grande ideia do significado. Eu achava que o mundo dos adultos era mesmo assim, e não diferia muito. Já me estava a preparar para dizer "amo-te como nunca amei ninguém". Grande escola! Mas não resultou, não resultou.
Lembro o assunto porque li hoje que a autora das novelas Corin Tellado morreu, e, caramba, não consigo ignorar o que eu gostava de ler aquilo, emprestado, aos molhos.

Descendo a avenida do gimnodesportivo

Na condução em cidade estamos sempre a parar em semáforos e bichas, e costumo manter o pé a jeito sobre a embraiagem, preparada para arrancar, em ponto, ou meio ponto. Mas depois lembro-me que o meu pai também tinha este hábito, e que a minha mãe passava a vida a ralhar-lhe, dizendo, é assim que rebentas com as embraiagens todas, e então tiro o pé.
Considero esta impossibilidade de nos libertarmos de lembranças aparentemente insignificantes do passado, simultaneamente engraçada, comovente e trágica. A minha mãe já não se deve lembrar. O meu pai não ligava ao assunto. Se calhar até não se rebentam embraiagens assim. Mas na minha memória há uma embraiagem prestes a ser destruída mediante a pressão do meu pé, e isso existe em mim como uma ferida ou uma bofetada que não posso compreender.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...