O Génesis é o meu livro preferido da Sagrada Escritura. Depois do Génesis vem o Êxodo, que, só para situar, contém a história das pragas sobre o Egipto; e isso é giro; mas logo se segue um livro de terror, o Levítico, muito apropriado para a Páscoa, no qual o Senhor desenvolve, minuciosamente, os procedimentos a seguir quanto ao sacrifício do cordeiro pascal; quais as partes para si e as que devem ser queimadas fora da cidade (por exemplo, pele, intestinos e respectivos excrementos). Se o panorama, até aqui, não se pode considerar entusiasmante - geração sobre geração, sobre geração - para diante agrava-se, pelo que aconselho a comprar o resumo da Porto Editora ou, em alternativa, a saltar directamente para os Livros Sapienciais; por exemplo, o Cântico dos Cânticos; embora seja uma intrujice pegada, tem certa eufonia, lê-se bem: a gente sabe que o esposo e a esposa, ao fim de três anos de elogios à força de um, e beleza de outro, engordam para além do razoável, e rosnam toda a vez que se cruzam no corredor... mas, desde que descobrimos que os lindos poemas do Eugénio de Andrade não eram para nenhuma Virgínia... ficámos por tudo.
Não é preciso ter lido muito, ou desenvolvido sobremaneira o raciocínio lógico-dedutivo, para se concluir que quem escreveu o Génesis não entendia peva de literatura, ignorando um dos conceitos básicos - o de verosimilhança narrativa.
Ou a história está mesmo mal contada (e o erro é do escritor!) e desmerece o Senhor, ou o Senhor não era perfeito (e, nesse caso, o erro é do próprio Senhor). Ou as duas coisas. Vejamos: se, no primeiro dia, Deus criou a luz e as trevas; no segundo, separou céu, terra e água; no terceiro, fez aparecer “verdura, erva com semente, árvores frutíferas” que dessem “fruto sobre a terra, segundo às suas espécies e contendo semente”; no quarto determinou estações, dias e anos, sol, lua e as estrelas; no quinto, peixaria e a passarada, tudo com a ordem de crescer e multiplicar-se; no sexto, a bicharada toda, dividindo-os logo em domésticos, ferozes e répteis – e se só depois disto tudo!, no último dia, já ao pôr-do-sol, se lembrou de fazer o homem, para que guardasse e cultivasse o Seu feudo, somos levados a concluir que não investiu grande coisa na espécie humana! Sumariamente, criou um escravo para lhe tomar conta da herdade enquanto gozasse o sétimo dia. O homem, nas condições em que foi fabricado, não podia sair, portanto, grande espingarda.
Sou sincera, se Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, não encontro razão para tanta adoração, tanta abnegação, tanto sacrifício! Ou Deus não é perfeito, e alguém nos tem andado a comer as papas na cabeça, ou estava com um esgotamento sério. A memória faltava-lhe, sem dúvida: como é possível que, ao criar o homem, não recordasse as palavras que pronunciara nos dias anteriores, ordenando, aos restantes seres concebidos, crescimento e multiplicação?! Não pretendia Ele que o homem experimentasse o gostinho de se multiplicar?! Não se compreende! Disse-lhe apenas, “pá, olha, desenrasca-te; amanhã é sábado, quero levantar-me mais tarde, sornar o dia inteiro; come uns kiwis!, mas, atenção, não te aproximes da árvore ao centro; essa é só minha e de lá não poderás comer!”. Ora, isto é, no mínimo, desdivino, para além de anticonstitucional; não lhe ter deixado uma palhota sequer, uma enxerga, nada com que se entretivesse...
Adão, proibido de comer da tal árvore-maravilha, e destituído da necessária esperteza para desobedecer, via coelhos e coelhas no truca-truca, o galo a saltar para a espinha da galinha, o leão montado na leoa por trás!, e pensava, se é que se pode chamar a isso pensar, “falta-me qualquer coisa, não sei o quê, mas qualquer coisa!”
Não sabemos quanto tempo Adão viveu nesta solidão, nem como resolveu o problema - embora eu tenha cá as minhas suspeitas: mas algo não correu bem, porque, a certa altura, o Senhor concluiu não ser “conveniente” que o homem estivesse só!, sendo que resolveu oferecer-lhe uma auxiliar semelhante a ele. Teve, então, a ideia de hipnotizar o homem, de lhe arrancar uma das costelas e preenchê-la de carne. A ideia de Deus era só esta: preenchê-la de carne! Mas, ou porque tivesse já descansado bastante, e a cabeça se encontrasse fresca, ou porque nesse dia se sentisse artisticamente inspirado, criou a mulher. E todos sabemos como, em momentos de génio, é possível surgirem obras tão, tão perfeitas, que se tornam capazes de escapar autonomamente às intenções do autor... Porque, repare-se, a mulher foi feita já fora do plano da criação – era uma escultura de carne, uma peça de arte que saiu bem demais e se animou. Foi nesse momento de glória artística, que, e aqui aplica-se, objectivamente, a interjeição “Graças a Deus!”, a Terra começou a ter algum interesse e a perder a monotonia.
Deus levou a mulher ao homem e este, quando a viu, arregalaram-se-lhe os olhos, embora não percebesse, ainda, para que servia. Era ignorante, não por sua culpa!, mas o olfacto e as hormonas de bicho, diziam-lhe que aquilo era bom; logo veria que utilidade dar-lhe. Sempre eram duas mãos extra para o ajudarem a tirar a pele aos kiwis.
Mas a mulher era de alimento; trazia uma fome inextinguível (que permaneceu insaciada ao longo das gerações! - sabendo-se como o homem foi criado, facilmente se compreende porquê!), e intrigou-se com aquela árvore de belos frutos de onde não se podia comer. Aproximou-se, contemplou a serpente com a cabeça levantada e gostou do que viu. Para além do mais, a serpente falou-lhe docemente. Não só levantava a cabeça, como articulava em sussurro, e dizia-lhe, suave, “come...”, porque, se comeres, “abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como Deus, ficareis a conhecer o bem e o mal”. E a mulher viu “que o fruto da árvore devia ser bom para comer, pois era de atraente aspecto, e precioso para esclarecer a inteligência, agarrou do fruto, comeu, deu dele a seu marido (...). Então, abriram-se os olhos aos dois”. Foi nesse instante, só nesse instante, e finalmente, que o homem compreendeu o que a mulher já calava há uns tempos – que estavam ambos nus e que havia nisso certa utilidade!
Eis, portanto, onde quero chegar: não tivesse a mulher nascido esfomeada e impaciente, não desejasse e procurasse ela saciar a sua fome com intuição e arte, e o homem não só não teria vingado, como jamais faria, hoje, uma pálida ideia dos motivos por que se pode dizer que a vida é bela!
Ainda ele esgaravatava o chão, obediente, já ela procurava a sublime ciência que os iria salvar. Não fosse ela, estaria a roda por inventar!