quinta-feira, março 31, 2005

Alguns homens sensíveis

Quando era necessário matar uma galinha ou um coelho para o jantar, o meu pai metia a cabeça na porta da cozinha, e pedia condoidamente à minha mãe: vai lá tu, filha!
A minha mãe - que tinha auxiliado os pintainhos a sair da casca; que tinha curado, a papa de enxofre com azeite, a sarna da coelhada; alimentado todos; limpo o esterco a todos - lá vinha, com má cara, preparada para a matança; o facalhão ou a moca na mão, salvo seja. E enquanto o meu pai saía de casa comigo pela mão, para não sermos sujeitos à violência do massacre, ao gorgolejar, a minha mãe metia o chinelo nº 38 em cima do pescoço da franga, e separava-lhe, num primeiro impulso, o pescoço do resto da carcaça – a qual ficava ainda a saltear entre os pés de couve galega, esvaindo-se em sangue; em alternativa, agarrava um coelho não sei lá como, nem quero saber, e dava-lhe umas pancadas surdas na cabeça, enquanto este estrebuchava.
Enfim, a minha mãe não era uma selvagem, não gostava de matar, mas, se tinha de ser, tratava do assunto.
De seguida, escaldava uma panela de água, depenava a ave, metia-lhe a manápula pela boca do corpo, arrancava-lhe o bandulho de uma só penada, e arranjava-a como tinha de ser; ou pendurava o coelho num prego estrategicamente espetado na parede, golpeava-o, esfolava-o como se despisse uma camisola de inverno, e as vísceras caíam-lhe ainda em fumo.
Quando o meu pai chegava comigo a casa, depois de termos andado a aliviar a culpa e a cobardia fazendo festas aos cãezinhos e gatinhos da vizinhança, já o guisado estava pronto, e uma pessoa podia sentar-se a comer sossegadamente.
Graças a Deus, o meu falecido pai era um homem sensível, e ficou-me esse exemplo. O meu pai era um poeta, não manchava as mãos com sangue; não sentia, como os outros homens, o prazer de matar!

Inverso proporcional

O pronto-a-vestir unisexo nunca foi lá grande ideia. Por exemplo, as calças de ganga!
O problema das calças de ganga, no que toca a mulheres e homens a sério, resulta de uma questão de simples inverso proporcional. Facilmente se resolveria.

- Para mulheres: acrescentar, no corte do rabo, os 10 centímetros que sobram na cintura.

- Para homens: acrescentar, no talho da cintura, os 10 centímetros que sobram no rabo.

Uniformes

Hoje em dia já é possível entrar num pronto-a-vestir para homem sem morrer de tédio: ele são as camisas cor-de-rosinha, e até mesmo de fantasia, de bom gosto, amorosas; os pullovers amarelinhos; os casaquinhos de malha verde-esmeralda, os fatos salmão...

Os clientes entram, hesitantes, olham de longe para os manequins, depois para as prateleiras, mantêm as mãos nos bolsos das calças de ganga seguras abaixo da barriga, não desdobram nada, não sentem as texturas na ponta dos dedos: chamam a menina, ou a “borboleta” de serviço, que só estão ali enquanto não se transformam em estrelas de cinema!, e dizem-lhes, com um ar desinteressado, “podem ser duas diferentes: ali a azul-escura com riscas brancas aos quadrados, e a outra, mais ao lado, azul-acinzentada, com riscas brancas na vertical. Agora veja lá é se isso é para o meu número!”

Os cuidados

Um ex-amigo meu ficou escandalizado, quase amarelo, e depois verde, quando me viu correr atrás da galinha; apanhá-la num alvoroço de penas, cacarejos e pó levantado; e, empunhando a faca na mão dextra, lhe pedi (a ele) que agarrasse no pequeno alguidar e recolhesse o sangue: ora o que tínhamos combinado era, nem mais nem menos, que uma cabidela... Mas aquilo meteu-se-lhe com a azia – e apenas teve tento, antes que se despedisse de vez, e antes ainda que eu agenciasse fazer-lhe um golpe (a ela) no pescoço já em torção, de dizer «que nunca pensei assistir a tamanha selvajaria e logo vinda de ti». Era bom rapaz, dávamo-nos bem, tive pena – é gestor duma empresa importadora de paté.

Pois destes sucessos acontecem-me repetidas vezes. Sou agricultor, vivo no campo, e o campo para mim não é bem aquele sítio onde se vai passar um fim de semana, lá de tempos a tempos, levando da cidade, comprados com multibanco, os víveres, e uma cadeirinha de palha a descansar as costas e o espírito da rotina funcionária, e charutos. Não: a gente lavra, a gente escarifica, a gente poda, a gente alimenta a capoeira e o curral – e, em sendo tempo, o mais certo será que esfole um coelho ou espete uma faca de capador nos gorgomilos dum reco. E assim do reco é que vêm as chouriças que alguns dos meus amigos tanto gostam de petiscar lá em casa assadas em aguardente de vinho verde, se não se lhes explicar que o bicho morreu e lhe custou morrer – e se o não virem no estertor.

Claro, vou tendo os meus cuidados – gosto de receber em casa e tratar bem quem recebo, e que voltem. Com gente da cidade, e sobretudo se vislumbro que sejam simpatizantes da protectora, concedo que os piruns e as pintadas é só para fazer ambiente, que a quinta é assim como se fosse pedagógica; e que aos bácoros, oh, a gente ganha uma amizade que o menos que nos passa pela cabeça é assá-los num forno de lenha, ainda pequerruchos, refrescando-os com umas colheradas de água fria para que a pele não rebente e resulte estaladiça; e depois, à mesa, ainda os poupo aos pormenores da cozedura dupla do butelo e de como a mistura de suã, rabo e barbela se enche no bucho ou no intestino grosso (há quem prefira na bexiga – que não recomendo tanto); e, em servindo laburdo, abstenho-me de cortar as iscas em bocados pequenos à vista de alguém que estime como amante da fauna doméstica, e sensível.

Eles deliciam-se. E, concomitantemente, às vezes já um bocadinho embalados por um tinto de uvas pisadas no lagar da casa, deliberam sobre «gente sanguinária que é capaz de matar um animal com as próprias mãos, a sangue frio, ou caçar» – repetindo no faisão assado; às vezes – sabendo que a caçadeira que vêem pendurada num prego na parede da adega «tem para mim um valor especificamente estimativo» – perguntam-me onde compro eu as perdizes que gosto de lhes servir com molho de vilão: se é no Carrefour...

quarta-feira, março 30, 2005

Coisas impressionantes



Há homens que gostam de badminton e que não se coíbem, mesmo em público, de explicar as regras do jogo e de gabar-lhe o colorido grácil, fazendo questão (este aspecto é fundamental) de realçar as decisivas diferenças entre «a pena» e «o volante».

terça-feira, março 29, 2005

A lida da casa


Do que eu precisava era de um homem que me ficasse em casa a alimpar o pó, a lavar as cuecas e os collants, enfim, a tratar da lida.
O meu ordenado chegava bem para dois, porque, ficando ele em casa, poupava-se em imperiais e "pipis" com a malta do escritório, todas as tardes, à saída do emprego, e em maços de SG para enganar o stress. E, analisando bem a utilidade das tarefas, passar o dia à secretária a ler o Diário da República, a assinar circulares e despachos, “deferido; indeferido; para análise no departamento de gestão...”, não confere grande realização pessoal, nem se lhe pode chamar, propriamente, uma profissão!
Hoje em dia, um homem que trabalhe fora de casa, não compensa. Eu facilmente garanto o sustento a qualquer um; faculto-lhe cartão de crédito, com plafond razoável, para se divertir no Aki, no Maxmat, em armazéns de peças diversas; tudo isso, é claro, depois de ter cumprido as obrigações domésticas diárias: fazer a cama; meter a roupa na máquina; lavar as malhas e peças delicadas, à mão, com Soflã; passar a ferro; ir com as cadelas à rua...
As mulheres trazem a cabeça demasiado preenchida de questões sérias, graves, inadiáveis, inseparáveis do colectivo empenho feminino para salvar o planeta, aperfeiçoar a sociedade que alguém lixou, ao mesmo tempo que lhes vedava o acesso ao liceu.
Entretanto, conseguiram contornar a Lei, estudar, e especializar-se em áreas do saber, as quais, os homens, pela sua natureza, não têm capacidade para alcançar. Portanto, privilegie-se a lógica, a objectividade, quanto mais não seja por uma questão de simples gestão, de pura economia; no mundo perfeito, os homens devem ficar em casa, desimpedindo o caminho para realizar aquilo de que são manifestamente incapazes: apreender o mundo e resolvê-lo.
Claro que contamos com a sua colaboração para que tenhamos sucesso na nossa difícil empresa! Mas, nos bastidores, em casa. Evitando que nos preocupemos com questões práticas, contudo menores, como, por exemplo, o jantar. O que pode existir de mais gratificante na vida de um homem senão estar por detrás de um grande mulher? Cozinhar para ela, agradar-lhe em tudo, senti-la feliz e completa?; isso sim, pode realizá-lo, justificar toda a sua existência masculina.
Ao metermos um homem dentro de portas, garantindo-lhe segurança e bem-estar, em suma, sustentando-o, temos objectivos bem definidos. Chegámos à conclusão que procurar sexo fora de casa é um factor de stress acrescido – pode diminuir o nosso rendimento no trabalho. Por isso, queremo-lo disponível, à mão. Quando chego à minha suite, no quinto andar, esgotada de um dia de trabalho e cheia de tusa, quero abrir a porta, pendurar a gabardina, pousar a mala na entrada, chamá-lo à porta da cozinha, “anda cá, filho!”, e amandar-lhe uma bem aviada. É o mínimo.
Estando ele em casa o dia inteiro, sem preocupações, só lhe pedia que tivesse a comidinha pronta a horas, que não se pusesse com lamúrias de que eu não lhe dava carinho e atenção suficientes – seria injusto, porque, na cama, deixo sempre que um homem seja todo meu!
Teria o cuidado de escolher um que gostasse de bricolage, de manusear ferramentas para arranjos, poupando, assim, em biscateiros, sempre que fosse preciso consertar uma porta, reparar um vidro partido, ou mesmo, levar o carro à inspecção, substituir as lâmpadas dos faróis, trocar os pneus. Se soubesse meter o IRS era perfeito.
Após o jantar, se, no Biography ou no canal História, não estivesse a passar um documentário interessante sobre Virgínia Woolf, Anais Nin, Anna Arendt, Frida Kahlo, ou a primeira vaga de sufragistas britânicas – ou até mesmo, no Odisseia, sobre a extinção da fauna montanhesa, levada a cabo por caçadores inconscientes atraídos pelo cheiro a sangue - não me incomodaria ajudá-lo a lavar a louça, a secá-la; porém, quanto à partilha de tarefas domésticas, não é que me oponha, mas... tudo com conta, peso e medida.
E, por favor, que não me viesse com a história do casamento e dos filhos. Com a eterna questão da sua segurança, caso eu morresse de repente! Hoje em dia, ninguém se casa. Nós não queremos prisões nem dias repetidos. Não nos moam o juízo com as urgências do relógio biológico, do instinto de paternidade; se, para se realizarem, enquanto homens, precisam de filhos, adoptem-nos, amamentem-nos a biberão, mudem-lhes a fralda, levantem-se de noite para os aturar, tratem-lhes das otites, da muda dos dentes, limpem com Cif os riscos que fizerem na parede a lápis de cera; mas, por favor, não nos venham é chamar constantemente à porta do escritório, que a criança isto, que a criança aquilo, porque problemas já nós temos no trabalho. Pomos em casa o dinheirinho todos os meses, não pomos?! Logo, queremos ler os jornais em sossego, consultar os relatórios da Oikos, escrever a poesia feminista que a futura geração analisará na escola; no máximo, concedemos ocupar-nos da educação das crianças, ao fim-de-semana; ser o "sim" ou o "não". Mas não nos telefonem para o emprego com mariquices do género, “o que é que queres para jantar”, sobretudo nas alturas em que estamos enfronhadas na resolução de erros que os nossos tarefeiros, todos morenos, enormes, cheios de pelo, e com o 12º ano incompleto, deixaram passar; não nos apareçam é na sede da Associação Para Um Mundo Justo, antes de qualquer reunião importante, só para nos perguntarem se gostamos da nova marca de pneus que acabaram de adquirir...
Não temos tempo para isso: estamos ocupadas a fazer andar o mundo! Ou seja, a reconstruí-lo, para que as nossas filhas, que eles estão a criar, o encontrem perfeito!

O problema das pensões

Sempre foi metódico. Andava ainda na escola primária e já arrumava os papéis em arquivadores. Licenciou-se em direito. É rigoroso, disciplinado, austero. Passa o tempo enfiado nos Códigos, nos arquivos, nas sebentas de resumos. Não se lhe conhecem tempos livres (só tempos livros). E quando a mulher, uma bela tarde (que é como quem diz) lhe disse que já não aguentava partilhar os seus dias com uma máquina sem sentimentos, e que lhe era impossível viver sem as provas quotidianas do amor ou do afecto – ele ainda balbuciou qualquer coisa a propósito «do amor que não se extingue com o tempo ou com a rotina», invocando um obscuro artigo do Código Civil. A mulher saiu nesse mesmo dia de casa, aos berros, chamando-lhe «oh meu filho da puta e andei eu estes anos todos a aturar-te e a dilapidar o viço» – exigindo uma pensão em números pingue. Ele acabou por conceder. Mas lá no escritório haveria de confessar que só por caridade, «e para não a expor», é que não enrolou a megera num processo de litígio: de acordo com o artº 1288º do Código Civil, como explicou, desde que invocada a usucapião os seus efeitos retrotraem-se à data do início da posse (e ela tinha-lhe dito que sim há mais de 25 anos).

Esta história é verdadeira.

A cozinha

Os homens é que são os grandes cozinheiros? Não. Ninguém melhor que as mulheres se entende com o refogado, o ponto, o assado, a marinada, a cozedura do legume. Mas isso era no tempo em que as mulheres tinham tempo; isso era no tempo em que uma reunião do conselho de administração ou um gato na contabilidade da empresa de cerâmica as não retinham ao fim da tarde e elas não rumavam ao supermercado, numa lufa-lufa, aflitas com o horário, a caminho de casa, a comprar a pronto a base da piza ou os pastéis congelados e telefonando aflitas ao cônjuge «que vá pondo a mesa e se já foi buscar as crianças».

Muitos homens desejariam ficar em casa a trinchar o pato, com tempo antecedente para moer o gengibre, dissolver a farinha na água, juntar o vinagre e a soja – e deixá-las, tão decididas na carreira e no sucesso, a tratar da vidinha e do cheque, a catalogar os processos e a redigir pareceres, ou a atender telefonemas e a preparar a agenda, e depois presenteá-las com o pitéu quando chegassem derreadas do trabalho e da rotina. Mas, trabalhando ela, necessário se faz que também ele tenha o emprego ou exerça a tempo inteiro a profissão liberal: porque, trabalhando ela, aumenta por quatro a despesa nas extensões, no ginásio e no vestido – que mulher nenhuma que se preze chega duas vezes ao emprego com o mesmo colete e o cabelo sem uma arremeluja nova. Um ordenado chegava, se um ficasse no lar a tratar do fogão; assim trabalham os dois e os dois ordenados andam à queima.

Os homens lá foram, pois, aos poucos, passando à cozinha – que chegando em simultâneo a casa, já tarde, alguém há-de rondar a cabidela se um deles tiver ainda que perder meia hora acrescida a desmaquilhar a face ou descolar as pestanas. Só por isso cozinham melhor: é se querem.

segunda-feira, março 28, 2005

Inocentes!

Se o mundo fosse perfeito, a esta hora estava no melhor bar do subúrbio, eleito por mim, e ao meu lado demorava-se um gajo como deve de ser, a pagar-me uns cocktails, a gabar-me qualquer coisa, mesmo que fosse mentira, só a atordoar-me o suficiente para que baqueasse na sua cama.
Claro que eu deixava – isentava-me de gastos com as cervejas que estaria antecipadamente disposta a pagar-lhe para o meter na minha! (Os machos a sério bebem cerveja, mesmo que tenham ao alcance o néctar dos deuses!)
Agrada-lhes pensar que tudo depende das suas artes oratórias, que nos estão a dar a volta com uma grande pinta, que não passamos de doces cabritinhas domésticas, conduzíveis: bem trabalhadas, podemos regressar ao estado selvagem! - raramente lhes ocorre que estão ali porque nós quisemos, nós é que estamos a atordoá-los, nós é que lhes vamos fazer a folha, mas deixá-lo... neste caso, que não haja escrúpulos!, olhe-se ao fim, não aos meios.
O que interessa é que a coisa se faça. E, de preferência - o que já é mais raro - bem feita!

O Urso

Estaremos todos de acordo: as mulheres e os homens devem ter direitos iguais; as tarefas domésticas devem ser partilhadas; nenhuma mulher, por ser mulher, deve ser prejudicada no acesso ao emprego ou no exercício da sua profissão; etc (ainda ontem deu um filme na um).

Acontece que tudo isto é contranatura: chegámos lá quando a sociedade começou a produzir excedentes e o casal – pagando, é claro – deixou de ter que discutir quem vai matar o veado para o jantar e quem vai coser os losangos da colcha, quem vai cortar o carvalho e rachar a lenha e quem vai lavar a fralda, quem tem que haver-se com o bandido que ronda a adolescente da casa e quem vai aquecer o leite. Até aí, as senhoras – oh, oh – não se preocupavam com a divisão das tarefas domésticas, nem com a igualdade, nem com o sufrágio – e seria certo que diriam, vendo o urso a rondar o saibro do pátio: vai lá tu, filho. Pois é: não andavam em comício, não presidiam a reuniões de comité, e ficavam em casa, e ficavam muito bem, muito descansadamente a alimpar o pó e a preparar os bifes que o macho trazia (as mãos ainda com sangue do bicho escorrendo) num bornal; algumas até já nem se casam, porque a espórtula lhes permite comprar feito o que anteriormente delegavam.

Pois agora, cultos, com dinheiro certo ao fim do mês e décimo terceiro mês, mais férias, ADSE ou subsídio de desemprego, com costeletas de carneiro no talho e aquecimento central, e com polícia de ronda nocturna – já nos damos a esse luxo de sermos iguais, de exigirmos direitos iguais, de promulgar legislação em que se deixa ao arbítrio livre do casal decidir quem é que legalmente falta ao emprego e quem é que fica no lar, ex-doce lar, a tomar conta do infantil.

É um avanço. E estará muito certo. Mas num mundo perfeito as mulheres só saíam à noite para a gente lhes pagar um copo e lhes gabar o vestido curto, e a curva do joelho.

domingo, março 27, 2005

«E Deus criou a mulher!»


O Génesis é o meu livro preferido da Sagrada Escritura. Depois do Génesis vem o Êxodo, que, só para situar, contém a história das pragas sobre o Egipto; e isso é giro; mas logo se segue um livro de terror, o Levítico, muito apropriado para a Páscoa, no qual o Senhor desenvolve, minuciosamente, os procedimentos a seguir quanto ao sacrifício do cordeiro pascal; quais as partes para si e as que devem ser queimadas fora da cidade (por exemplo, pele, intestinos e respectivos excrementos). Se o panorama, até aqui, não se pode considerar entusiasmante - geração sobre geração, sobre geração - para diante agrava-se, pelo que aconselho a comprar o resumo da Porto Editora ou, em alternativa, a saltar directamente para os Livros Sapienciais; por exemplo, o Cântico dos Cânticos; embora seja uma intrujice pegada, tem certa eufonia, lê-se bem: a gente sabe que o esposo e a esposa, ao fim de três anos de elogios à força de um, e beleza de outro, engordam para além do razoável, e rosnam toda a vez que se cruzam no corredor... mas, desde que descobrimos que os lindos poemas do Eugénio de Andrade não eram para nenhuma Virgínia... ficámos por tudo.
Não é preciso ter lido muito, ou desenvolvido sobremaneira o raciocínio lógico-dedutivo, para se concluir que quem escreveu o Génesis não entendia peva de literatura, ignorando um dos conceitos básicos - o de verosimilhança narrativa.
Ou a história está mesmo mal contada (e o erro é do escritor!) e desmerece o Senhor, ou o Senhor não era perfeito (e, nesse caso, o erro é do próprio Senhor). Ou as duas coisas. Vejamos: se, no primeiro dia, Deus criou a luz e as trevas; no segundo, separou céu, terra e água; no terceiro, fez aparecer “verdura, erva com semente, árvores frutíferas” que dessem “fruto sobre a terra, segundo às suas espécies e contendo semente”; no quarto determinou estações, dias e anos, sol, lua e as estrelas; no quinto, peixaria e a passarada, tudo com a ordem de crescer e multiplicar-se; no sexto, a bicharada toda, dividindo-os logo em domésticos, ferozes e répteis – e se só depois disto tudo!, no último dia, já ao pôr-do-sol, se lembrou de fazer o homem, para que guardasse e cultivasse o Seu feudo, somos levados a concluir que não investiu grande coisa na espécie humana! Sumariamente, criou um escravo para lhe tomar conta da herdade enquanto gozasse o sétimo dia. O homem, nas condições em que foi fabricado, não podia sair, portanto, grande espingarda.
Sou sincera, se Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, não encontro razão para tanta adoração, tanta abnegação, tanto sacrifício! Ou Deus não é perfeito, e alguém nos tem andado a comer as papas na cabeça, ou estava com um esgotamento sério. A memória faltava-lhe, sem dúvida: como é possível que, ao criar o homem, não recordasse as palavras que pronunciara nos dias anteriores, ordenando, aos restantes seres concebidos, crescimento e multiplicação?! Não pretendia Ele que o homem experimentasse o gostinho de se multiplicar?! Não se compreende! Disse-lhe apenas, “pá, olha, desenrasca-te; amanhã é sábado, quero levantar-me mais tarde, sornar o dia inteiro; come uns kiwis!, mas, atenção, não te aproximes da árvore ao centro; essa é só minha e de lá não poderás comer!”. Ora, isto é, no mínimo, desdivino, para além de anticonstitucional; não lhe ter deixado uma palhota sequer, uma enxerga, nada com que se entretivesse...
Adão, proibido de comer da tal árvore-maravilha, e destituído da necessária esperteza para desobedecer, via coelhos e coelhas no truca-truca, o galo a saltar para a espinha da galinha, o leão montado na leoa por trás!, e pensava, se é que se pode chamar a isso pensar, “falta-me qualquer coisa, não sei o quê, mas qualquer coisa!”
Não sabemos quanto tempo Adão viveu nesta solidão, nem como resolveu o problema - embora eu tenha cá as minhas suspeitas: mas algo não correu bem, porque, a certa altura, o Senhor concluiu não ser “conveniente” que o homem estivesse só!, sendo que resolveu oferecer-lhe uma auxiliar semelhante a ele. Teve, então, a ideia de hipnotizar o homem, de lhe arrancar uma das costelas e preenchê-la de carne. A ideia de Deus era só esta: preenchê-la de carne! Mas, ou porque tivesse já descansado bastante, e a cabeça se encontrasse fresca, ou porque nesse dia se sentisse artisticamente inspirado, criou a mulher. E todos sabemos como, em momentos de génio, é possível surgirem obras tão, tão perfeitas, que se tornam capazes de escapar autonomamente às intenções do autor... Porque, repare-se, a mulher foi feita já fora do plano da criação – era uma escultura de carne, uma peça de arte que saiu bem demais e se animou. Foi nesse momento de glória artística, que, e aqui aplica-se, objectivamente, a interjeição “Graças a Deus!”, a Terra começou a ter algum interesse e a perder a monotonia.
Deus levou a mulher ao homem e este, quando a viu, arregalaram-se-lhe os olhos, embora não percebesse, ainda, para que servia. Era ignorante, não por sua culpa!, mas o olfacto e as hormonas de bicho, diziam-lhe que aquilo era bom; logo veria que utilidade dar-lhe. Sempre eram duas mãos extra para o ajudarem a tirar a pele aos kiwis.
Mas a mulher era de alimento; trazia uma fome inextinguível (que permaneceu insaciada ao longo das gerações! - sabendo-se como o homem foi criado, facilmente se compreende porquê!), e intrigou-se com aquela árvore de belos frutos de onde não se podia comer. Aproximou-se, contemplou a serpente com a cabeça levantada e gostou do que viu. Para além do mais, a serpente falou-lhe docemente. Não só levantava a cabeça, como articulava em sussurro, e dizia-lhe, suave, “come...”, porque, se comeres, “abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como Deus, ficareis a conhecer o bem e o mal”. E a mulher viu “que o fruto da árvore devia ser bom para comer, pois era de atraente aspecto, e precioso para esclarecer a inteligência, agarrou do fruto, comeu, deu dele a seu marido (...). Então, abriram-se os olhos aos dois”. Foi nesse instante, só nesse instante, e finalmente, que o homem compreendeu o que a mulher já calava há uns tempos – que estavam ambos nus e que havia nisso certa utilidade!
Eis, portanto, onde quero chegar: não tivesse a mulher nascido esfomeada e impaciente, não desejasse e procurasse ela saciar a sua fome com intuição e arte, e o homem não só não teria vingado, como jamais faria, hoje, uma pálida ideia dos motivos por que se pode dizer que a vida é bela!
Ainda ele esgaravatava o chão, obediente, já ela procurava a sublime ciência que os iria salvar. Não fosse ela, estaria a roda por inventar!

A Quinta das Celebridades

José Eduardo Moniz confidenciou na roda de amigos íntimos que Gonçalo da Câmara Pereira foi uma escolha de recurso. Que até ao último momento esteve na expectativa de que Santana Lopes não regressasse à Câmara de Lisboa.

A vida real

Carlos estava apaixonado por Délia. Délia estava apaixonada por Eduardo. Carlos assassinou Eduardo metendo-lhe nas fontes um balázio de Smith ponto 38. Délia, fragilizada, carente, apaixonou-se por Fernando. Fernando, oh oh, apaixonou-se por Carlos. Carlos foi no embalo. Délia suicidou-se com uma dose de 605 forte. A novela entrou num rame-rame, com a cozinheira a fazer-se ao motorista, com o motorista a fazer-se ao mordomo. As audiências desceram a pique. Chamado à administração da TVI, Manuel Arouca foi demitido com justa causa. Entrevistado pela Sábado, o autor confessou que tudo fez para evitar os desenlaces, mas que foi ultrapassado pelas circunstâncias.

D. Sebastião

Sábado de manhã. A mulher de António Vitorino pede-lhe que faça as torradas e o café. António Vitorino explica, civilizadamente, com um sorriso, que não está disponível para fazer as torradas e o café. A mulher de António Vitorino faz as torradas, prepara o café e pede a António Vitorino que estenda a toalha sobre a mesa do pequeno almoço. António Vitorino explica, civilizadamente, com um sorriso, que não está disponível para estender a toalha – e vai à casa de banho. Da cozinha, em voz alta, a mulher de António Vitorino pergunta-lhe se não quer ajuda para limpar o cu – não vá dar-se o caso de não estar disponível.

sábado, março 26, 2005

«Faça-se a Luz»

O mundo perfeito cinge os corpos; abre-se, elástico, à sua passagem; retoma a forma intemporal; respirando, alimentado de vida própria, suspenso, alado, atmosférico: electricidade; pólos opostos, convergentes; positivo e negativo; claro e escuro; o mesmo. A árvore e a terra onde se enraíza; o fogo e a água que o controla. O mesmo. Uma mulher, um homem – disparidade em confronto paradoxal, ansiando ligar-se rasteiramente numa mesma paz, num mesmo nome: claridade cega, energia pura.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...