sexta-feira, abril 29, 2005

Escolher sapatos [2ª parte]

Num pé é que começa o resplendor
da lenta sedução. É o meu fetiche:
a fáscia, a arcada, a curva do abductor,
o subtalar (o resto que se lixe:

os seios já impondo o seu domínio,
as mãos quando nos tocam, a voraz
oscilação das ancas, o fascínio
da coxa irreprimível e audaz,

as nádegas, o torso, o odor do sexo,
os lábios, os joelhos ou os dentes):
diante dum flexor ou do complexo

tricípete sural – fique-se mudo.
(Mas elas sabem lá – as displicentes! –
que às vezes um sapato fode tudo...)

Escolher sapatos


www.aerosoles.com

A sandalinha é a preta. Comprei-a há um mês, e ainda não a estreei. Precisava de um outro par meia-estação. Mais contido, mais primaveril, mais "meio caminho". Branco. Creme. Um par de sapatos tem de permitir todas as combinações cromáticas possíveis.
Usar sapatos é uma ciência requintada. Um par de sapatos, como uma peça de roupa, não se limita a proteger. Possui uma linguagem própria, que se entende ou não. Que revela ou esconde. Veste ou despe um pé. E um pé de mulher detém certo poder. É preciso saber usá-lo, ou seja, saber muito bem como se quer vesti-lo e despi-lo e quando e onde.

Na última semana, em busca do par de sapatos perfeito para a Primavera, entrei em cerca de 40 lojas. Ora, isto, supondo que cada uma dispõe, para mulheres, de um stock de 50 exemplares diferentes, terei visto, até hoje, 2000 pares de sapatos e sandálias. Nenhum era o que procurava! Ou demasiado arejados ou excessivamente fechados. Ou de salto muito alto e desequilibrante ou com ele raso, baixo - o que, como se sabe, não enaltece o rabo, e não colabora, em nada, para o movimento pendular de que tanto gostamos. Ou muito design futurista ou muito retro enfeitado.
Não pode ser! Tem de haver aqui alguma sensatez, algum meio-termo. Tem de existir o sapato de Primavera que procuro: suficientemente casual para usar com calças de ganga, mas com o toque juvenil-romântico que possibilite combiná-lo com uma saia de linho cor-de-rosa. Um sapatinho que se possa calçar no emprego, sem ser muito vistoso, mais avec quelque chose que permita levá-lo à vernissage sem parecer que se cai ali directa do trabalho.
Ou seja, o sapato que me escapa; ou que, para meu mal, ainda ninguém engendrou, o que me obriga a continuar com os de Inverno ou, em alternativa, a estrear as sandalinhas fetichistas que estava a guardar lá mais para diante.

Resta-me informar que o meu número é o 37 e meio.

quinta-feira, abril 28, 2005

Pêssegos maduros

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Gustave Courbet, The Sleepers, 1866

Isto há-de ter uma explicação



Estudos recentes demonstram o que Emmeline Pankhurst e suas amigas muito anti-românticas sabiam à exaustão há mais de cem anos: que o desejo ataca indiferentemente meninos e meninas; que ao prazer é por igual que sucumbem homens e mulheres; e que, afinal, uma rapidinha ocasional, com um parceiro de circunstância, pode ser para as senhoras uma das experiências sexuais mais gratificantes e de mais futura memória.

Pois agora, depois de tanta conquista, de tanto código revisto, as cavalheiras queixam-se que a média do encabanço se contém nuns míseros e escandalosos quatro minutos – e que já não há romantismo...

Os desmoralizados


Alice Neel, Richard in the era of the corporation, 1979

Os homens sofrem do chamado "complexo de filho único", mesmo quando são o terceiro rebento entre cinco irmãos. O excesso de mimo funda-se em nunca terem necessitado de ir à luta, porque, ao nascerem, estava tudo de perna aberta para os receber, para lhes dar sem pedirem, porque eram varões...
Ora, não ir à luta, não refilar, não ter de quebrar elos, receber tudo de mão beijada, ser-se o orgulho da mamã e a realização do papa, paga-se caro! Não sonham alto. Não querem alto. E quem não sonha alto e não quer alto, não vai além! Amolece.
Os homens estão cercados, condenados, e eles sabem-no. Esbracejam, o que de pouco lhes vale. Em Portugal, nós somos já mais de metade dos dez milhões, mais de metade dos contribuintes, mais de metade dos diplomados, mais de metade da massa cinzenta! São factos estatísticos comprovados pelo último censo. Contra isto, batatas! A verdade é que eles, hoje, quando precisam de um urologista, vão à urologista, e quando são levados a tribunal derivado das apreensões de carta por excesso de velocidade, levam a advogada, oficiosa ou não, que tem a espinhosa missão de defender o indefensável, perante a juíza; presente na sala estará, também, a agente de polícia que os apanhou em flagrante.
O gerente da empresa de aluguer imobiliário onde entregam a renda mensal é uma gerenta, e os professores dos filhos são professoras deliciosas, encantadoras, que lhes entontecem a cabeça, perfumadas, enquanto se movimentam rente ao quadro, para cá e para lá, nas reuniões de encarregadas de educação.

E o pior é que estamos cada vez mais bonitas, mais sedutoras, e com a língua mais solta; já não ficamos à espera que se decidam, tomamos iniciativas, não dependemos deles, dizemos-lhes o que bem queremos: chegámos ao ponto de lhes mandar piropos!
Começa a ser preciso muito jogo de cintura! Antigamente era-lhes mais fácil: conseguiam, pensavam eles, distinguir entre feministas e casáveis. As feministas eram feias, peludas, com a voz grossa, ou muito magras ou muito gordas, brutas e sempre com mau feitio; as casáveis eram lindas ou mais ou menos; rapavam a pelunça como deve ser, excepto no Inverno; falavam agudo como a Júlia Pinheiro; quer fossem magras, quer gordas, acabavam iguais, ou seja, gordas; mas sempre caladas, conformadas, sossegadas, e não faziam coisa alguma sem autorização. Agora, leram, estudaram, emanciparam-se (a conjugação pronominal reflexa fala por si!) e estão todas misturadas: as feministas rapam as pernas e o buço, e falam doce; as outras deram em ser umas brutas que não colaboram em nada que um gajo lhes peça, para além de que passam o dia a dizer que têm direitos!
Para eles, realmente, o mundo está às avessas! Já nada é normal. Não existe ordem. Não sabem nunca com o que contar. Sentem-se perdidos.
É que nunca, por nunca ser, estamos satisfeitas! Reclamamos mais, exigimos sempre. Conhecemos bem o texto da Lei; sabemos que, à excepção uma ou outra coisita, imemorialmente legalizada - gostem, não gostem - pouco mais pode abarcar. Já nem conseguimos pedir muito. Temos os mesmos direitos e deveres. E se sonharmos que se coloca a hipótese de no-los negarem, enxovalharem, empunhamos os nossos exemplares da Constituição da República e do Código Civil e mais não sei quê da Família e do Trabalho e fazemos descomunal barulho. Juntamo-nos, escrevemos, telefonamos, enviamos mails, denunciamos nos blogs e nos jornais e onde quer que tenhamos voz (porque temo-la por todo o lado!) E isto, podem tomá-lo como certo!
Crescemos, lutámos, trabalhámos para chegar "ao que se vê". Não ficámos debaixo das saias da mamã, a comer a sopa da mamã, a ter a roupinha passada a ferro pela mamã. Fomos as revoltadas, as ovelhas negras, deixámos de receber amêndoas na Páscoa, fizemos "o nosso bastardozinho" quando nos apeteceu, o qual até criámos em regime de "maternidade celibatária", sem dar contas a ninguém, a não ser ao patronato, que nunca nos facilitou meia hora!
Venham, agora, fazer-nos olhinhos oleados e iletrados, enquanto debitam "ciência de garagem", sorrindo idiotamente, "a senhora está com as jantes todas raspadas dos lancis!"; "a senhora quer que lhe mude o filtro do habitáculo?" - e deitam o olho à monumental peitaça descoberta pela blusa de Primavera; "olhe que senhora já precisa que lhe mude as velas!" - engolem em seco, porque a corrente de ar nos levantou a saia transparente até à virilha; "a senhora está com a direcção toda desalinhada, não sente a trepidação?", ao mesmo tempo que nos miram a calça justa no rabo!
Querem o quê? Quem se habitua a cavalo, já não anda de burro!
Ao menos, escrevam-nos uma carta, com mais de quinze linhas, sem erros de morfologia ou sintaxe! Jurem-nos que, por nós, até vão concluir o nono, à noite, em regime de unidades capitalizáveis. Ofereçam-se para serviço voluntário aos sem-abrigo, em Santa Apolónia!
Porque isto subiu de nível, incontestavelmente, e agora já não se trata só do direito a sermos bem fodidas - e jamais por escassos quatro minutos, que nem dão para aquecer o motor da asa esquerda*. Trata-se de sermos bem fodidas, e de, cumulativamente, nos intervalos, saberem discutir uma pouca de arte, em geral; direitos humanos, ao pormenor... Se não sabem recitar de cor um poema, seduzam-nos com alguma mestria em física nuclear... Apresentem-nos qualquer coisinha que transcenda o mero substituir de um pneu furado!

As tropas sentem-se desmoralizadas! Pudera!
Desvalorizaram-nos quando quisemos ir à escola. Ridicularizaram-nos à data de conclusão dos cursos. Subestimaram o valor do nosso trabalho. Agora, é tarde!
Já não vale a pena tapar o sol com a peneira: para eles é, de facto, uma guerra perdida! Resta-lhes a liberdade de expressão, e não lhes resta muito...

* Segundo a revista Maria, de ontem, p. 48, "Uma sessão normal de sexo dura perto de quatro minutos. Durante esse período perderá perto de 28 calorias, o que equivale a pouco mais do peso calórico de uma maçã."
Quatro minutos?! Estão a brincar! Aprendam a perder tempo! Apliquem-se! Treinem-se! É que, desde que lemos a Maria, (é semanal e vai na edição 1381!!!) já nem sequer fazemos o favor de fingir que estamos a gostar!

quarta-feira, abril 27, 2005

Os direitos

As mulheres estão cada vez mais bonitas – e são cada vez mais sedutoras. Calçam chinelinhas de salto alto deixando adivinhar o pé ao oscilar, desceram a cintura da calça de modo a insinuar uma fita com a marca da cueca, subiram a base da t-shirt acima do umbigo, alargaram a linha inferior do decote baixando-a concomitantemente, usam vestidos opacos muito justos com uma abertura vertical rasgada de costa a costa, abusam da transparência deixando em fundo a calcinha ou o soutien irrompendo – enfim, cativam-nos o olhar e levam-nos na cantiga.

Ora as mulheres só podem vestir assim, só podem permitir-se o poder de nos seduzir de modo tão desenfreado, porque lutaram; isto só é possível depois de um demorado processo de conquistas sucessivas, de muita e acirrada luta, que começou no sufragismo e foi por aí fora até ao que se vê, ainda que na base de tudo estivesse um outro direito mais universal e mais que legítimo: o direito das mulheres a serem bem fodidas. E emanciparam-se, e engatam-nos, e cultivaram-se, inundaram as universidades e saem de lá aos magotes, e lêem. E depois de tudo isto, ah, acusam-nos de que a sociedade as desmerece e desacredita na publicidade e na imprensa, e que os homens criaram o feminino mito da beleza e da estética, e que é preciso recomeçarem a luta pela conquista de direitos que afinal se lhe retiram.

Eu procuro resumir a coisa solidarizando-me, procurando compreendê-las, com as feministas do núcleo duro que se recusam a empinar as tetas ou a rapar os pêlos da axila, e que verberam a chinela de salto. Estas não as papam os mecânicos das oficinas com o olhinho tremeluzente no intervalo de consertar o carreto das mudanças dum Audi, nem a publicidade as menoriza enquanto pessoas. Agora a contradição de mostrarem o umbigo aos transeuntes e em simultâneo clamarem contra o abuso do umbigo nos calendários de parede, não é demanda que me pareça que nos cumpra a nós, homens, dirimir.

Viagem


Foto: Tyla
http://galerias.escritacomluz.com

Não sou verdadeiramente fiel a nenhuma causa: periodicamente mudo, vou mudando; depois, as causas já não se ajustam.
Não consigo ser católica, nem evangelista, nem nada: penso que talvez seja cristã - que talvez pertença a uma crença informal, sem pompa, sem artifício; uma que se chama "verdade"; que se chama "não faças ao outro o que não queres que te façam a ti".
Não me passa pela cabeça manter opiniões conservadoras, embora, muito de vez em quando, uma ou outra conservadorice me pareça ter sentido. Com conta, peso, medida. Mas isto, admite-se muito baixinho.
Não voto no mesmo partido... Todos os anos mudo de emprego e de colegas.
Não gosto de frequentar sempre os mesmos sítios. De fazer sempre as mesmas coisas. Gosto de pessoas; não me importava de transportar, na minha viagem, pessoas.
Habituei-me a saltar de um lado para o outro, a ter sempre uma mala pronta debaixo da cama e uma faca debaixo da almofada; habituei-me a não ser só uma, ser muitas, adaptar-me ao que era necessário, quantas vezes fossem necessárias.
Mudar de pais. De país. De mão. De chão. De casa. De amigos. De escolas. De estradas. De rios. De céus. Tantas, tantas vezes. Como é que é não mudar? Estar sempre no mesmo lugar?
Tenho tão pouca tralha, mudo-me tão facilmente. Estou sempre pronta.
Estou sempre pronta para Sul, onde se pode ser uma coisa e o seu contrário, onde o homem que de dia esquarteja, a frio, o corpo de irmãos, à noite fode as mulheres com avidez, desejo e amor e fogo, todos misturados, e já não é o mesmo homem que matou.
Para o sul, onde, de manhã, nunca sabemos se ao fim do dia continuaremos vivos. Mas, até lá...
Sempre para o sul: uma língua de sangue, de terra, de odor quente.
Para sul, onde eu pudesse ser também o meu contrário. O prolongamento mais doce do meu corpo. Um corpo. Carne. Tetas. Nenhuma hesitação. Nenhum medo.

terça-feira, abril 26, 2005

O público e o privado


Foto: Lhacer

A teoria e a prática. O que digo; o que sinto. O que digo; o que penso. O que sinto e penso; o que faço. O que escondo; o que revelo.
O espelho do quarto prende a figura, enquanto a enfrento. Vejo-me duplamente: o que eu sou e o que sou! Ambas dialogam baixíssimo, recolhidamente, no meu corpo cerebral. Nada se repele ou se rejeita. A diferença é criadora.

segunda-feira, abril 25, 2005

Tudo normal!

1) Inquérito entregue à saída da FNAC:
Qual a secção que visita mais? Quanto gasta por mês? Por que escolhe esta livraria? O costume... Desde que não perguntem qual o rendimento líquido mensal (porque há limites, mesmo no anonimato!), uma cristã animada de boa vontade até se dispõe a perder uns minutos, enquanto bebe um café.
Ultima questão do inquérito: Quem é que faz as comprinhas, é você (quem está a preencher o inquérito) ou o cabeça de casal?

2) Cartão da Springfield (para acumular pontos – tipo Galp, Shell, Cortefiel, FNAC, enfim, umas 123 cadeias diferentes! - mas que nunca trago comigo...):
- Não quer o nosso cartão? Adira! Não tem custos! Tem a certeza?! Dá muitas vantagens. Sempre que comprar artigos para o seu marido, filho, namorado da filha, irmãos, amigos, colegas... No Natal dá muito jeito; depois tem os bónus...
- Ok, vá lá, se não tem custos, pode ser! - respondo eu, com aquele sorriso de "está bem, leva lá a bicicleta e não me chateies mais".
- Então diga-me o seu nº de BI? O nome? A morada? O telefone? É casada?
- Não!
Olha melhor para mim e risca, com desenvoltura, uma cruzinha no quadrado “outros”; reparo que o impresso contempla 3 hipóteses para o estado civil: solteiro, casado e... outros.
Ainda articulo um hãaann...., mas para quê complicar?

As idealistas


Maria Lamas (1893-1983) foto de San Payo, 1930.
(capa do nº3 da revista Faces de Eva, UNL-FCSH)

Carta de Maria Lamas a Eugénio Ferreira *
"Paris, 29 de Março de 1968
Muito Querido e sempre lembrado Amigo:
(...)
Sim, vale a pena lutar para que os nossos sonhos de vida melhor e de paz entre todos os homens se concretizem numa realidade clara e justa, que torne possível a realidade tormentosa e desumana que estamos vivendo. Vale a pena acreditar, viver a amizade a solidariedade, em cada instante da existência, dar e receber afecto e confiança, que é a maneira de ir construindo em nós mesmos o mundo novo a que aspiramos, e de ajudar os outros a construí-lo também em si próprios, quando têm o mesmo ideal. E os laços criados por esta solidariedade e afecto resistem ao tempo, às vicissitudes dos destinos inquietos e atormentados, transformando-se numa força protectora, mesmo quando deixa de haver contactos e notícias directas. Basta que o encontro se tenha dado entre pessoas de boa vontade, com idêntica sensibilidade e sincero anseio de servir a dignidade humana.
Este encontro deu-se connosco, querido Amigo. Sempre o senti. E a sua amizade passou a ter logo um lugar insubstituível no mundo fraterno onde vivo, interiormente, e fora do qual me sinto exilada - muito mais do que vivendo num País estrangeiro. (...)"

Mulheres que fizeram Liberdade


Barreiro, 1943 , "A polícia obrigando as famílias dos operários grevistas a abandonar as imediações das fábricas."

Nas imagens que guardamos da Revolução, e que hoje aparecerão na Imprensa e nos blogs, as mulheres são o objecto decorativo que aplaude, distribui cravos, beija, sorri, abraça soldados. Dão colorido ao preto-e-branco. Repartem o pão e o vinho que os soldados recebem; cumprem o papel para que a natureza as talhou... gerar os homens que (lhes) roubam ou oferecem a liberdade, vesti-los, alimentá-los... Tudo isto estaria muito certo (a nobreza de uma dádiva de pão, de vinho, de vida...) num mundo que não toldasse tudo o resto que realizaram, realizam. Fazem!
O 25 de Abril começou quarenta anos antes!, e, à excepção de Maria Lamas, a História não deu, até a hoje, a justa visibilidade às mulheres que o prepararam, que colaboraram activamente nas diversas etapas dos movimentos oposicionistas ao Estado Novo!
Quem foram as camponesas e operárias que arriscaram protestos e greves? Catarina Eufémia. Que outras?
A acção clandestina, no interior do Partido Comunista, foi amplamente assegurada pelas "companheiras", as quais mantinham, no interior das "casas", a necessária aparência de normalidade para que funcionassem como tipografia, armazém de propaganda, local de reunião. Quem eram as companheiras? Quem escreveu a sua história?
Fala-se muito dos prisioneiros políticos, pouco de prisioneiras. Muito dos exilados, pouco das exiladas.

Mulheres em Tempos Sombrios. Oposição Feminina ao Estado Novo, de Vanda Gorjão, editado pela Imprensa de Ciências Sociais, em 2002, constitui um importantíssimo estudo sobre o papel desempenhado pelas mulheres na acção contra a Ditadura.
Penso que seja, até agora, em Portugal, a única obra que surgiu como resultado de uma investigação séria sobre o assunto. Encontram-na aqui.

sábado, abril 23, 2005

O amor

Encontro

Não te busquei, não te pedi: vieste.
E desde que eu nasci houve mil coisas
que a meus olhos se deram com igual
simplicidade: o Sol, a manhã de hoje,
essa flor que é tão grácil que a não quero,
o milagre das fontes pelo Estio...
Vieste (O Sol veio também, a flor,
a manhã de hoje, as águas...). Alegria,
mas calada alegria, mas serena,
entendimento puro, natural
encontro, natural como a chegada
do Sol, da flor, das águas, da manhã,
de ti, que eu não buscara nem pedira.
E o Amor? E o Amor? E o Amor?
- Vieste

Sebastião da Gama

sexta-feira, abril 22, 2005

"Francisco Clooney" (e outras...)


Francisco José Viegas
(se o apanhasse na rua, a amenos de 120 cms, levava-o para... "Lourenço Marques" - Hotel Polana!!!)

Comprei o Longe de Manaus, do Francisco José Viegas, o "George Clooney português".
Não é por ser bom escritor, que é (embora não o quisesse para escrever...), mas o marketing tem sido intenso, e pronto, sempre é o Francisco J.V., sempre existe uma foto igual a esta, mas maior, mais nítida, logo ao abrir do livro... Dá para mandar fazer uma ampliação de boa qualidade e afixá-la na parede do escritório!
Entretanto, como aquilo é a FNAC, vai-se passando pelas outras capas, folheeando, lendo badanas, primeiras linhas, citações, etc.
Peguei num título de uma autora portuguesa, cujo nome desconhecia. Marta Medina, O Escritório. O critério foi exactamente este: mulher, portuguesa, não conhecia. Não vou estar aqui a explicar, mas tenho motivos para querer saber quem são as mulheres que escrevem em Portugal, e sobre quê - esta não estava no escaparate da chamada literatura light, onde quase sempre as encaixam, tal como a uma boa parte dos blogs divertidos que passam a papel... Procurei informação sobre a autora: descobri que é advogada numa empresa importante (estava lá escrito que a empresa era importante; não fôssemos pensar que era um negócio de esquina!), que já deu aulas de Direito, mas apenas como monitora (não fôssemos pensar que era catedrática!); que nasceu em Angola, em 1950 e não sei quantos e, note-se, que foi federada de natação, acho mesmo que campeã, e que praticou dança moderna!
Não saberei é dizer como escreve: larguei o livro como se me queimasse as mãos! Aquilo, assim de repente, apanhou-me, desarmou-me!
Pergunto: alguém se lembraria de escrever, na informação biográfica sobre o Francisco José Viegas, que jogou futebol, à defesa, e enquanto amador, no "Estrelinhas de Chaves"?; que faz colecção de charutos e cigarilhas, e que os guarda na gaveta inferior direita da secretária?; se aparecer, por aí, amanhã, um Bernardo Luís Colibri e Sousa, a revelação literária do ano, escreverão, na badana, que já praticou danças de salão, e que agora deu para o tai-chi, depois de se ter cansado do ballet?
Há aqui uma clara estratégia (des)informativa, muito comum no que respeita às autoras, que escapa ao meu entendimento. Ou talvez não...
Felizmente, não escrevo, porque imagine-se a seguinte informação: "andou a fazer aeróbica, nos anos 80, mas desistiu por manifesta preguiça"; "tem três cadelas, uma sofre de displasia da anca"!
Bolas! Até tremo!

Questões ultrapassadas

Qual será a explicação "natural", objectiva para o facto de, num mundo perfeito, cheio de homens e mulheres iguais entre si, e no qual movimentos feministas se tornaram realidade tão datada, tão ultrapassada, acontecer que:
A qualificação aumenta desigualdade entre sexos in Diário de Notícias, 16/04/2005

Pachorra

Compram (e talvez leiam!) o Jornal de Negócios e o Diário Económico...
Nasceram em 1960, mas interessam-se, sabem de cor o resultado do jogo final de taça, Benfica-Belenenses, em 7 de Julho de 1940... e em 41... e 42... Por exemplo...

Isabela´s secret

Que percebam bem: nós nunca estamos certas... nunca lhes pertencemos... Mas eles são nossos!

quinta-feira, abril 21, 2005

Do que eles gostam...



Quando gostamos de um homem, ficamos que não podemos.
...capazes de lhes sangrar o galináceo para o sarrabulho, mesmo que sejamos vegetarianas, que não possamos ver sangue...
...capazes de lhes lavar as cuecas e as peúgas, à mão, com detergente para roupa delicada...
Quando gostamos de um homem, ficamos um bocado narcotizadas, um bocado desarrazoadas: espécie de queimadas africanas que se estendem por quilómetros, devoram a terra e deixam rasto; fogo posto sem pensar; tesouro descoberto no silêncio, na escuridão, que se dá com mil brilhos; mãos cheias de rosas de Abril, cheiradas de um só fôlego, desfolhadas, esmagadas com lábios; o mel mais claro e puro da urze, da laranjeira...
Somos irresistíveis, estonteantes, qualquer coisa para além da glória. Impossíveis de satisfazer... Queremos tudo: os gestos, as palavras. Tudo. O pacote inteiro. O deluxe.
As palavras são fundamentais. Uma mulher pode viver de palavras. Qualquer bom filho-da-mãe sabe isto. Não devia sequer lembrar, ao inimigo, como usar armas! Sou tão honesta!
Consequências da nossa excepcional paixão: telefonar-lhes 48 vezes por dia, mesmo que trabalhemos no mesmo edifício, só para lhes dizer que os amamos e temos saudades; para os ouvirmos dizer que nos amam, que têm saudades; para desabafarmos que, mal cheguemos a casa (dele ou nossa - nesta fase!), abraçá-los-emos, e...
Eles, mudos! "Sim, sim, eu também"; "mais logo; está quase; antes tenho de passar pelo «Ginja», que o Tó Bé faz anos!"; "depois, logo e vê!"
Ao almoço, no refeitório: "Doce, não aguento mais; vamos viver juntos; não me importo com os teus cães; não faz mal que ressones e que sejas sonâmbulo!".
Somos dadivosas! Todas feitas de amor, para o amor. Substância macia, transparente, completa - quer sejamos presidentes da Comissão para a Igualdade e para os Direitos da Mulher (CIDM), secretárias de direcção no Millenium BCP ou activistas da União de Mulheres Alternativa e Resposta (UMAR). Magníficas!
Mas a nossa excelência é desbaratada, irreconhecida: assim que eles nos percebem no papo, desinteressam-se! Já não podem viver connosco; já não têm tempo para nos telefonar nem para ir ao cinema. Param de nos mandar flores da Romeira Roma; de nos oferecer mimos da Casa Batalha, que tanto apreciamos: anéis, broches, brincos... Nem falamos de joalharia a sério! De um anel de míseros 250 euros!
De repente, começam a conjugar os verbos todos na negativa: "não posso; não consegui; não me lembrei; não sabia..."

A partir desse momento, temos uma única solução: dar-lhes desprezo, ignorá-los, fazê-los sentir que são a existência mais desinteressante à face do planeta. Que qualquer amostra de lingueirão tem mais atractivos!
A receita consiste em evitá-los; sair das salas em que entram; não frequentar aquelas onde sabemos que, com toda a probabilidade, estacionarão - se for mesmo inevitável entrar, fazê-lo rapidamente, atravessando com o passo ágil, o pescoço alto, os olhos colados ao infinito abstracto, um ligeiro sorriso geral de Mona Lisa, aparentando não perceber que nos estão a contemplar, 30 centímetros à esquerda; se for obrigatório parar, voltarmo-nos de costas, ou só a meio corpo, e responder, rindo glamorosamente, por muito desinteressante que seja a peça. Mostrarmo-nos divertidas, descontraídas...
Estar lindas. Estar frescas. Estar muito melhor do que quando nos interessávamos por eles. Do que quando nos oferecíamos e nos podiam ter. Porque até queríamos ser tidas. Porque agora já não podem, já não queremos! Eles que o sintam totalmente!
Sempre, fugir com os olhos; nunca permitir que se cruzem; negar o sorriso, o brilho, a clareza da nossa presença. Se nos vêem ao fundo do corredor, e caminham na nossa direcção, entrar por uma porta qualquer, pode ser o departamento jurídico ou as escadas de serviço... Se o confronto for inevitável, mastigar, sempre andando, e sem esperar resposta, um "Olá. Tudo bem?!"
Deixá-los plantados a olhar para essa vertigem de nós, passante, indiferente ao amor, esquecidas daquela tarde, daquela música.... Como é que se chamava? Sometimes it snows in April??? Oh, já não nos lembramos!

A partir deste momento, encaram uma única solução: começar a seguir-nos os passos; os movimentos pendulares da anca; a procurar-nos o rosto avidamente; a arranjar pretextos para ir à nossa sala entregar-nos resmas de papelada...
Não é que os seus olhos de cão esfomeado - pedintes, abandonados, interrogativos - nos sejam indiferentes! Mas não podemos ceder. Eles que nos venham comer à mão, e que venham mansinhos...
Mais dia, menos dia, convidam-nos para um café - que até podemos aceitar, desde que demonstremos pressa, enfado! Perguntar-nos-ão, "por que estás tão distante? Nunca te vi assim..."
"Distante, eu?, estás parvo!; se soubesses a quantidade de trabalho que tenho, logo vias..."
"Isa, estou a precisar tanto de falar contigo, mas aqui não, na minha casa... Amanhã? Este fim-de-semana..."
"Sim, sim, claro; depois, quando estiver mais leve de trabalho, aviso-te... Este fim-de-semana vou para fora!"

Assim é que eles gostam! Gostam de levar porrada!
Depois, vão para casa, desaustinados, escrever livros de poesia dos quais constituímos objecto poético: poemas sobre o sol que habita os nossos olhos, os fios de ouro reluzente das nossas ondas capilares, as covinhas infantis do nosso sorriso, os arabescos sensuais que as nossas mãos desenham no ar, o nácar das nossas unhas, a gentileza dos nossos pés...
Deus lhe valha: miramos mãos, unhas, pés e nada encontramos de invulgar; mas seja! Até vestimos uma saia no dia seguinte... Até compramos uns sapatos abertos... Inquieta-os?! Que pena!

De repente deixamos de ter celulite, a nossa pele torna-se a mais macia e, a nossa voz, morna e musical...
E se aparentarmos não perceber o objectivo daquilo, se o trabalho for bem feito, acabam por confessar-nos, "sabes, estive a pensar; acho que devíamos ir viver juntos! Tenho saudades tuas!"
Mantenhamo-nos em silêncio, com os olhos fixos na bica - vá, só mais um pouco, está quase!
Levantemo-los só quando disserem, "e não é só isso, fofinha, eu amo-te, sabes bem - e não aguento mais a forma como o Manel Zé olha para ti!"

Nesse momento, temos duas hipóteses. Pessoalmente, prefiro a segunda.
Primeira: não lhes respondemos, puxamo-los à mão larga, e assentamos-lhes o beijo da vida deles e da nossa; mordido e lambuzado!
Segunda: "Desculpa, distraí-me. Estavas a dizer o quê? Estou tão cansada, hoje. Ontem à noite, fui ao cinema com o Manel Zé e, a seguir, ainda fomos tomar um copo!"

A ruga

O romantismo das mulheres chega a ser romântico. E em quatro gerações vai lá – se entretanto não der tudo em paneleira: mocinhos bonitos, cuidadosos na linguagem, atenciosos com os ramos encomendados na Romeira Roma remetidos por estafeta a meio da tarde, amantes da poesia lírica e da sinédoque, vestidos com uma roupa estonteantemente displicente e, sobretudo, cuidadosos com a cútis e a ruga sob-ocular, encharcando-se de manhã com boiões de creme a quatro contos a amostra.



Este é o sonho: um namorado que possam levar ao cinema ou ao restaurante frequentado pelas amigas deixando-as com a baba de camelo a escorrer dos cantinhos da boca – dizendo «já viste? O gajo usa de certeza a Pro-Vitamina B5...». É isto que desejam nos meninos. E pensam, pois, que isto será mais coisa menos coisa o que os meninos desejam nelas, que um creme lhes desapareça com as rugas de expressão e lhes trate da rídula – e não um par de mamas generoso ou uma coxa que se levante, ambiciosa (refractária à dieta e indiferente ao vegetal cozido em vapor), parecendo no seu balançar semelhar o compasso do pêndulo em movimento ligeiramente acelerado.



E depois queixam-se.

quarta-feira, abril 20, 2005

Lindos



Acabou-se o "feios, porcos e maus"! Agora queremo-los jeitosos, lavadinhos e bem mandados.
Homem que não reúna estas três particularidades, reduz gravemente as suas hipóteses de acasalamento; e é pena, porque, em épocas de escassez, aproveita-se a fruta comestível, mesmo que lá tenha o seu ácido.
A questão preocupa-me. Não é fácil, para eles, ultrapassar problema tão congénito. São feios, já se sabe. Uma mulher só afirma que um homem é bonito em dois casos: primeiro - ele é actor, cantor, bailarino e gasta mais, numa semana, em tratamentos estéticos, do que a Elsa Raposo em toda a sua vida; segundo - está apaixonada, portanto completamente cega, e tanto faz.
As minhas amigas mostram-me as fotos dos namorados, embevecidas, "É lindo, não é?; não o achas parecido com o Mick Jagger?!" E eu, arrepanhando os lábios e os cantos dos olhos, respondo, "é, é; é lindo como o Mick Jagger!"
Mas, hoje em dia, não há nada que não possa ser melhorado, atenuado.
Nós, as raparigas, também temos as nossas imperfeiçõezinhas!; ligeiras, é certo... Mas, vejamos: ligeiras por que motivo? Porque nos besuntamos diariamente, após o banho, com creme para o corpo, para as pernas, para os pés e para as mãos; acrescentamos os da cara, de manhã, antes de sair, com protecção UV; e os da noite, antes de deitar, extra-hidratantes; usamos, por dia, cinco tipos de cremes diferentes para tratar a cara: o desmaquilhante, a loção tonificante, o creme de dia, o creme de noite, o creme contorno de olhos. Depois temos as máscaras relaxantes, hidratantes, tonificantes, reparadoras e vitaminadas - semanalmente. Reparem, não estou a falar de maquilhagem! Isto são produtos essenciais, equiparáveis ao pão e ao leite, indispensáveis à sobrevivência de qualquer ser humano; levamo-los na mochila mesmo que façamos inter-rail ou campismo - não deveriam, nunca, pagar IVA acima dos 5% .
E por que não fazem, os homens, o mesmo, considerando a panóplia de cuidados de beleza que, neste momento, encontram no mercado? Por que não tratam do seu corpo, da sua cútis? Aqui começa a culpa! São feios, mas poderiam não ser tanto. Podiam dar um jeitinho.
Não é por acaso que o George Clooney, o Richard Gere e o Kevin Costner conseguem manter aquela ultra-digerível aparência de 40, aos quase 60; não é à toa que continuamos a alimentar a bilheteira do Harrison Ford e do Sean Connery, os quais, aos 70, ou quase lá, nos mantêm na ilusão de uns 50 muitíssimo saborosos! Ser bonito requer o seu labor, o seu cuidado. Nós, miúdas, graças a Deus, nascemos a saber isto!
Não estamos à espera que os portugueses sejam o George Clooney; estamos conformadas, mas, caramba, podiam poupar nas imperiais e gastar nuns cremes de limpeza facial, nuns hidratantes; melhorarem aquelas caras cheias de escamas e precocemente enrugadas.

Ora bem!



Tomando como referência a Imprensa do último fim-de-semana, gostaria de recomendar, aos meus leitores, os seguintes produtos - poderão dar-se milagres:

Para porta-moedas de baixa cilindrada

- Nívea for men - Creme Energy Q10 (cuidado do rosto)

Energia para a sua pele:
- energia, força e protecção para a pele cansada
- aumenta o nível de energia das células da pele
- contém a co-enzima Q10 natural da pele e filtros UV

(Não sabemos o que é a co-enzima Q10 natural da pele? Paciência, eu também não sei o que é a procysteína do meu Novadiol Vichy anti-taches - soin de jour, e ponho-o!)

Eis onde procurar informação sobre o produto:www.NIVEA.pt/formen


- Nivea for men - Contorno dos olhos Q10 (cuidado do rosto - revitalizante)

Noites longas... sem marcas.
Inovação no cuidado dos olhos.

- Elimina com eficácia olheiras, papos e rugas do contorno dos olhos
- Revitaliza instantaneamente os olhos cansados
- Hidratação prolongada do contorno dos olhos

Informação sobre o produto: seguir o link acima indicado.

Para porta-moedas de média cilindrada

Este é mais caro, mas melhor. A Vichy dá sempre outras garantias. Homem que fosse meu, não punha no corpo nada abaixo de Vichy. E o marketing é interessante:

A firmeza da pele depende do seu stock de silício: SILICIUM – R

Silício mais licopeno – cuidado regenerador refirmante (não conhecem o licopeno??).
O primeiro tratamento para recarregar a pele em sílicio e esticar de novo as zonas relaxadas.
Fornece diariamente silício para reforçar a camada de sustentação da pele e estimular a renovação celular.
- 27% de relaxamento*
*Teste realizado na região inferior do queixo de 27 homens com uma média de idade de 54 anos.

Informação aqui: www.vichyhomme.com

Para porta-moedas de alta cilindrada

(Se houver algum, entre os meus leitores, encorajo a que me dê notícia do seu problema pessoal, escrevendo directamente para o meu e-mail! Só para solteiros, divorciados e viúvos novos! E solteiros, só sem defeito!)

Às minhas leitoras, aconselho que arrastem, ainda hoje, namorados, maridos ou similares até à farmácia de serviço mais próxima (ou loja Sephora, Douglas, etc.), e lhes comuniquem, “levas este, amor, que te estica de novo as zonas relaxadas”; “querido, olha que te reforça a camada de sustentação da pele”.
Eu sou muito sincera!, homem que seja meu não parte para o “Encontro anual de caça ao javali”, sem levar o creme hidrante para o corpo, o creme de dia e o de noite, e a loção de limpeza; homem que me passe pelas mãos, pode ser o maior filho dum cabrão que o século conheceu (já não estranho!), mas javardo, relaxado, isso é que não!

Oh, meu Deus... Santa Maria Imaculada!

O eleito

Não é porque seja português, credo, que senti essa imensa desilusão ao saber que D. Policarpo não seria o eleito: mas porque trasnspira dele uma profunda humanidade; porque qualquer coisa parece nele ligar-nos a Deus através das coisas terrenas, corpóreas, concretas; porque fuma e se confessa viciado; porque gosta de futebol; porque é um adepto do jogo da bola.

Em contrapartida, Joseph Ratzinger dá aquela impressão de quem saiu da barriguinha da mãe directamente para o berçário da Sala dos Infantes da Capela Sistina e aprendeu a ler num missal; e sabemos que não pode estar próximo de Deus quem se sente e se adivinha tão longe da terra.

A carteira

É claro que o futebol é também, ou sobretudo, uma intensa e feliz irracionalidade. Mas recomendaria a prudência que não fôssemos tão descuidados com as coisas da bola que já não são da bola. Tem sido impressionante ver como: defendemos publicamente, com convicção, um dirigente do nosso clube que esteja, é um supor, formalmente acusado de corrupção pelas devidas instâncias, assegurando que tudo não passa de manha dos adversários, esses filhos da puta imbijósos inventores de boataria; acusamos de imediato, ao mais ligeiro rumor, o dirigente do clube adversário de quem se diz que talvez etc., assegurando que isso é mais que certo e que há muito o sabíamos já de fonte certa.

Ainda, enfim, que estando a gente ao pé de um desses dirigentes do nosso clube a quem acabámos publicamente de garantir uma pureza virginal, e uma honestidade a toda a prova, automaticamente levemos a mão ao bolso de trás, a defender a carteira – não vá dar-se o caso.

terça-feira, abril 19, 2005

Parece que já havemos Papa

Claro que não nos podem ser indiferentes os resultados da eleição que acaba de ver a luz ao cimo da chaminé com o anúncio de que havemos Papa: do ponto de vista político, e mal acomparado, a importância da demissão de seis ministros de Berlusconi ou o futuro de Barroso na Comissão Europeia estão para a escolha de um Papa como as sucessivas cartas do Presidente do Partido Nacional Renovador (João M. Franco) publicadas na secção «Tribuna Livre» do Diário de Notícias estão para os editoriais do Washington Post em plena campanha para as presidenciais nos Estados Unidos.

A democracia

Luís Delgado rejubila com o Conclave; com o processo; com o refinamento: «Não há, numa Igreja, processo mais democrático do que aquele que decorre na Capela Sistina, onde 115 príncipes escolhem o seu rei e chefe universal», numa reunião «presidida pelo Espírito Santo, que ilumina e escreve o escolhido pela mão dos cardeais». Este é o sonho de Delgado: uma eleição que decorra sem a chatice das «campanhas, comícios ou programas de Governo». Num mundo perfeito, pois, umas eleições para as legislativas (é um supor) decorreriam mais ou menos assim: sem debates nem discursos, sem discussão, sem apresentação de propostas de governo, sem contraditório – decididas numa sala fechada à chave por 115 marmanjos reunidos sob a inspiração do Espírito Santo – e com ele, dr. Delgado, claro, a escorrer concomitantemente baba democrática pelos cantos da boca.

Só pode ser blague

Oiço dizer, já corre mas não acredito, que a confusão quanto à cor da fumaça que tem saído da chaminé da Capela, que começa por ser branca, e só depois cinzenta, e só depois, enfim, negra, se deve nem mais nem menos que a D. Policarpo, que acto contínuo após a votação, e antes ainda de se começarem a queimar os boletins, corre à salamandra já acesa e fuma (devora) de empreitada duas cigarrilhas seguidas aproveitando o respiradouro para, disfarçadamente, expelir o fumo.

segunda-feira, abril 18, 2005

Futurologia: a educação



Uma amiga de longa data, professora de Português, e fã deste blog, pediu aos seus alunos (ensino secundário) a redacção de textos subordinados ao tema "Um Mundo Perfeito".
Os alunos desenvolveriam a sua concepção de um mundo perfeito, abordando áreas como a educação, saúde, política/economia, amor/relações sociais.

Contexto de aplicação: actividade "Oficina da Escrita".

Objectivos:
- conhecer, para posterior análise, em grupo-turma, a forma como jovens suburbanos, com idades compreendidas entre os 16 e 18 anos, concebem um mundo perfeito.
- imaginar soluções coerentes/eficazes para problemas actuais.
- estimular o desenvolvimento do pensamento e expressão criativos.
- desenvolver capacidades ao nível da expressão escrita.
- aplicar dois modos verbais: o condicional e o Conjuntivo (Pretérito Imperfeito).
(- satisfazer a curiosidade pessoal da professora; corrigir trabalhos diferentes, que a estimulassem e divertissem um bocado!)

Critério de selecção das frases transcritas: surpresa, incredulidade, ter parado numa frase mais tempo do que o normal num trabalho de correcção.
Juízo de valor: nenhum; a minha amiga já se deixou disso.

Nota importante: a transcrição respeita, na íntegra, a morfologia, sintaxe e semântica empregue pelos alunos.

Resultados (o que pensam sobre a educação no mundo perfeito):

"A informação era implantada directamente no cérebro por um pequeno cabo ligado na nuca."

"Ao nascer as pessoas seriam internadas numa colónia de férias onde haveria um tratamento intensivo, tipo lavagem ao cérebro de forma a ficarmos ensinados."

"As férias deviam ser quando quiséssemos."

"Os alunos mais rebeldes, teriam um outro apoio. Estes seriam avisados das suas atitudes menos correctas, caso não mudassem seria-lhes propostas actividades de apoio social, se não obedecessem teriam um guarda-costas."

"Não existiram escolas, quando as crianças e os adolescentes precisassem de ajuda iria uma professora a casa."

"As escolas deviam ser 10 vezes maiores, deviam haver 3 pavilhões desportivos com ginásios de musculação, um de futebol e andebol, outro de basket e vólei e outro de badminton e ténis e devia haver uma piscina com todo o material necessário, devia de haver uma sala de jogos de vídeo, o bar devia ter 2500 m2 com mesas e empregados de mesa e devia ter um refeitório no segundo andar com comida de várias culturas 5 estrelas, devia haver elevadores e escadas rolantes em todos os pavilhões os quadros eram electrónicos à medida que os professores escreviam no computador aparecia tudo no quadro, assim já não precisávamos de retroprojectores e etc... Cada pavilhão devia haver 7 andares , cada um com 10000 m2."

"Os professores iriam dar aulas a casa; evitava que os alunos ficassem a dormir, e caso os alunos estivessem doentes não perderiam matéria."

"Tanto os professores como as aulas deviam de ser mais divertidos, quer dizer, como é possível ter noventa minutos de aula sem pelo menos uma piada? No Verão, as aulas eram dadas na praia ou no campo e podia também existir um clube do género da New Wave. No inverno as escolas deviam ter aquecimento central e uma capota automática."

"Todos deveriam nascer ensinados, de acordo com as capacidades dos seus pais, não existiriam escolas. Quando as crianças precisassem de aprender, bastava colocar instrumentos de alta tecnologia, pelas orelhas, de modo a serem-lhes transmitidos conhecimentos. Assim todos teriam oportunidade de serem inteligentes e teriam mais tempo para se dedicarem ao que mais gostam de fazer, como por exemplo, praia, dormir, comer, dansar, namorar... O tipo de escolas que poderiam existir seriam centros de convivência entre adolescentes."

"Cada aluno no início do ano tinha uma secretária com um computador pessoal."

"Já teria sido descoberta uma maneira de clonar a inteligência de um ser adulto, de modo a que pudesse ser implantada num feto, evitando assim perder cerca de 15 anos de vida em aprendizagem escolar e outras educações."

"Os alunos deveriam ter os horários com furos, pois se agora na actualidade, já nos resta pouco tempo de descanso, quanto mais, se nos tirarem os furos, e poderia ser que assim os resultados da notas aumentassem."

"Deveríamos ter super-heróis com estilo, que nos ajudariam a destruir os planos maquiavélicos de storas de Físico-Quimica diabólicas."
(A rubrica "Futurologia" terá continuação nas próximas actualizações deste blog. Estão ainda por editar os capítulos referentes ao amor, saúde e política. Todos eles prometem!)

A educação

Um bom princípio para a educação das crianças, nos dias que correm (sim, velozes), é admitir como ponto de partida que não há nada a fazer: o resultado é igual, estabelecendo rigorosos e exigentes princípios ou deixando andar a coisa: elas é que sabem; e, deixando andar a coisa, poupa-se no stress e no psicanalista; e sobra tempo para se reler um clássico russo do século XIX, para rever os filmes de Nicholas Ray e para treinar no arroz de sarrabulho de Ponte de Lima, apurando o exacto desfiar das carnes cozidas. Isto aprendi com dois casais meus amigos que têm os infantis, digamos, num ponto civilizacional mais ou menos idêntico, não obstante a educação e o empenhamento tão diversos. Em ambos os casos a criançada: reclama (e tem) roupas de marca desde o final da creche, desfilando nos recreios, ao som do «atirei cum pau ao ga, to, to», os seus Pili Carrera e Petit Patapon; usufrui de telemóvel desde os dez anos, actualizando versões sucessivas e deixando aos papás os modelos decrépitos; passa horas nos chats, escrevendo coisas como lol, oi, kero, etc; não cumprimenta os adultos antes que lhes repitam dezasseis vezes «então não dizes boa-tarde, filhote?»; recusa o peixe cozido e o legume, e não abdica da lasanha e da pizza, preferencialmente pré-confeccionadas e com monstros verdes no rótulo; tem televisão no quarto e vê as novelas da TVI – que, de facto, são escritas e produzidas para a sua idade mental; e faz (a criançada) o que muito bem lhe apetece e sobra-lhe tempo.

A diferença, portanto, é que um dos casais sempre se prestou acto contínuo a ceder às exigências e murmurando um «e desanda» – e é feliz; e o outro primeiro discute, retorque, explica, argumenta, contrapõe e finalmente cede à exigência – e anda fodido-da-vida da molécula cerebral.

domingo, abril 17, 2005

MILITANTES (3)

Partido Comunista

O Comité Central ficou com um senhor menino nos braços: como votar uma moção de repúdio ao médico (do partido) que devolvera a voz e o verbo, depois de um tão prometedor estado de afonia, a Jerónimo de Sousa?

MILITANTES (2)

PPD/PSD

O presidente da Mesa do Congresso, fulo, explicou pela décima vez que os votos em Francisco Sá Carneiro, face às regras estatutárias, teriam que ser necessariamente considerados nulos.

MILITANTES (1)

Partido Popular

Era tão cuidadoso, tão atento à doutrina, tão escrupuloso, que metia um preservativo para tocar à punheta.

Idealismo



No mundo perfeito não se agredia, fugindo.
No mundo perfeito seria possível compreender o que motiva uma agressão; por que se atira com uma porta na cara de alguém.
Pior que o estrondo, a violência de uma porta batida, é não saber por que a batem.
Costumam acusar-me de idealismo! No mundo perfeito, o idealismo não constituiria motivo de acusação!

O instinto maternal



Por uma questão de negócios conheci recentemente uma rapariga da minha idade.
Encetámos logo grande conversa, porque a nós, raparigas, um negócio não nos impede de contarmos a vidinha toda umas às outras, enquanto assinamos papelada e pagamos taxas.
A minha recente amiga tem uma bebé de quatro meses. Uma bebé cor-de-rosa, de veludo, sorridente, enfim, uma bebé fascinante, confesso! Seduziu-me, a ponto de dar comigo a fazer gu-gu-da-da-ri-ti-ti...
Nunca fiz isto - nunca passo do sorriso amarelo! - e sei que é descer muito baixo, mas confesso...

Sim, é verdade, eu nunca tive grande espírito maternal. E este enunciado é já uma hipérbole: eu nunca suportei crianças! Eu não sei pegar numa ao colo!
Primeiro, pensei sempre em mim; se tinha disponibilidade mental para abdicar de uma vida pessoal e de um lazer que nunca me foram autorizados. A minha resposta interior foi sempre "não". Um rotundo, decisivo, absoluto "não".
Se pelos trinta, por meras questões de solidão, me passou pela cabeça a ideia de que seria agradável ter uma criança, pensei numa já crescida, aí pelos seis, sete, com a qual fosse possível estabelecer um diálogo, e, apenas, uma menina. Uma bonequinha que eu pudesse vestir e despir e dar banho e deitar e dizer muito mal sobre os homens e educar para o novo mundo, levando-a comigo para todas as acções feministas, ecologistas, culturais, etc. Vendo isto à distância, apercebo-me que, de novo, pensei em mim, não na criança!
Isto foi aí pelos 35, durante um ano, e, felizmente, passou-me!

Mas a semana passada, não sei porquê, a bebé da minha recente amiga trouxe-me o incómodo desejo de ter uma igual. De a cheirar, beijar, ter vontade de lhe comer os pés e as mãozinhas, abdicar de tudo por ela. Sobretudo a parte do "abdicar de tudo".
E isto é estranho, muito estranho. Espero que me passe rapidamente.

sábado, abril 16, 2005

Fusão (ilustrada)


Munch

"Um eléctrico chamado desejo"

"Closer"

Klimt

Robert Doisneau

"A Um Passo da Eternidade"

As namoradas

Num programa da TVI, Teste de Fidelidade, a namorada vê um vídeo com o quiducho a amandá-lo à sedutora. E repete, escandalizada, «ai que palhaço, meu; que mentiroso, meu; não acredito, meu». Quanto mais ele a encaixa, quanto mais a afaz, quanto mais a ronda e desinveste, quanto mais lhe desespe a lingerie, mais a namorada traída (ou alguém por ela) insiste no «meu», já redundante, já pleonástico, não abdicando ainda assim do irracional sentimento de posse ou de pertença.

sexta-feira, abril 15, 2005

O tempo das Camilas


Este blog tem mantido uma discreta atenção relativamente ao casamento de Carlos e Camilla. Mas o assunto é sério!
O triângulo de amor e ódio que envolveu Diana, Carlos e Camilla constitui uma história exemplar, e merece especial referência.
Façamo-la, antes que acabe a segunda lua-de-mel de Carlos!

Seguimos o casamento de Carlos e Diana, pela televisão, no longínquo ano de 1981. Conhecemos todos os preparativos. Comprámos todas as revistas e vimos todas as fotografias: noivos, vestidos, jóias, convidados... Diana era linda e a situação era perfeita - tão de acordo com o que nos ensinaram! Casar virgem e para sempre, com um homem que fosse alguém na vida; que nos respeitasse; nos pudesse amparar, se fosse preciso; nos desse filhos - constituir com ele uma família e ser feliz, sem amargos de boca! E, nos amargos de boca, ceder resignadamente.
Diana era virgem, o olhar doce, o sorriso tímido e inocente; meiga e submissa!; exercia a profissão ideal para uma menina, uma senhora: educadora de infância; adorava crianças. Cumpria todos os requisitos necessários para se tornar a princesa perfeita, o modelo de mulher.
Em 1981, o mundo parou para o casamento de Carlos e Diana, em 1941.
Explico: Diana casava mal; casava com o homem errado para um sonho que a época já ultrapassava. Não sabemos, com exactidão, como muda o pensamento, nem o que o altera; mas verificamos que muda, efectiva, periodica, radicalmente. E as estruturas (as sociais, as outras...) ou acompanham tais movimentos de mudança ou desagregam-se.
Diana casou, esperando viver num status de conjugalidade próprio dos anos 40 - o da rainha Isabel II - e foi isso que falhou redondamente. Para que Diana pudesse vir a ser a mulher e princesa que se esperava, Carlos teria de ser um outro homem, de um outro tempo antanho. E Diana também, mas na altura nenhum deles podia, ainda, ter grande consciência da mudança que os envolvia: estavam na mudança, eram a mudança!
Imaginemos um cenário diferente. Se Carlos a tivesse traído com Camilla, voltando para casa, manso e carinhoso, pedindo perdão, dizendo, "é de ti que eu gosto, querida, as outras são mera distracção! Perdoa-me as fraquezas de homem!", ter-se-ia o casamento aguentado? Não sabemos! É provável que não. Mais tarde ou mais cedo, Diana, como as outras dianas, acordaria do sonho e daria consigo nos anos 80!
Se houve, em Carlos, incontestável pioneirismo, no lugar que ocupava - e eu estou em crer que sim; honra lhe seja feita - consistiu em não ter fingido ser o que não era. Revelou-se sensível, contemplativo, passivo, carente - características tradicionalmente femininas; logo, Carlos nunca terá procurado uma "Diana" igual: frágil, tradicionalmente feminina. Não faz muito sentido. Dificilmente a terá desejado; terá gostado dela; tê-la-á considerado bonita, excelente mãe dos filhos de ambos... mas não a amou, não fingiu amá-la, não cedeu às chamadas de atenção de Diana! Para ela, foi o Inferno; para Carlos, não terá sido fácil.
Carlos desejava, nitidamente, uma Camilla, uma mulher que não tivesse dúvidas, que em vez de lhe perguntar "por que não me dizes amo-te?", lhe comunicasse, determinadamente, "estou doida por ti: não quero saber se me amas ou não!".
Neste contexto, Diana esteve condenada desde o início. Diana era linda; era doce, mas nunca passou do seu nome: Diana Spencer, a educadora de infância. Como podia ela competir com a fogosa e independente Camilla Parker Bowles?
Camilla Parker Bowles! É um nome saboroso! Tem classe, nobreza, musicalidade. Não era deslumbrante, como Diana, mas caminhava agilmente, falava alto; não pedia licença, agia; não sorria timidamente, dava uma gargalhada - e isso terá fascinado o Príncipe. Afinal, Camilla era tudo o que lhe exigiram, tudo o que nunca conseguiu ser: livre, descontraído, seguro de si, dono, rei...
Uma inversão dos papéis? Não, uma liberdade dos papéis! Eu diria, elasticidade, movimento. Eu diria, mudança!
Diana era boa rapariga, e eu tenho pena dela. Acreditou num sonho que não pôde ter; a mundividência que o gerou estava exaurida.

A história e destino do casamento de Diana e Carlos é comum a 50% (? - limitei-me a atirar uma percentagem!) dos casamentos realizados nas últimas duas décadas. O conceito de conjugalidade assente no casamento tradicional já, há muito, mostrou ter falhado - não se dá bem com este tempo.
O problema não está no amor, nem no "para sempre". Todos nós queremos amar e ser amados para sempre! Quem não deseja o amor?! O problema está no "para sempre, como?; em que condições?". O problema está na falta de elasticidade dos comportamentos; no fechamento ao exterior; isso é muito pior que a rotina do lavar a louça, do levar o lixo ao contentor, do fazer sempre as mesmas coisas, da mesma maneira, às mesmas horas, todos os dias.
O "problema" está na experiência da democracia; a qual transcendeu o domínio da coisa pública e entrou na esfera privada.
Para além disso, em tempos tão pouco agrários, tão pouco comunitários, a liberdade individual transformou-se num bem indiscutível! A frase chave deste tempo será, provavelmente: "o que é que os outros têm a ver com isso?" A extinção ou excessiva limitação das liberdades individuais tornou-se inaceitável.

Camilla foi, para Carlos, um enorme espaço de liberdade. E vice-versa. Ambos detestavam os respectivos casamentos! Camilla não esperou grande coisa, não alimentou ilusões, não se tornou bulímica - aproveitou o que podia! Duvido que alguma vez tivesse imaginado ver o Príncipe de Inglaterra suportar as consequências sociais, políticas e económicas de um divórcio real! Duvido que lhe tivesse passado pela cabeça a ideia de vir a realizar segundas núpcias, em Windsor, sob o olhar vencido de Isabel II!
Camilla não precisou de se esforçar: o tempo fê-lo sozinho!
Quem é o herói (a heroína!) desta história? Diana, a virgem, a bela, a boazinha? Não! Camilla, a licenciosa, a feia, a má. A que não sonhou o sonho. Enquanto Diana gerava herdeiros à coroa; Camilla gozava.
Este é o tempo das Camillas. Todas queremos ser, se calhar somos já, Camillas.
Como é possível não simpatizar com Camilla Parker Bowles? O seu percurso de vida dá uma história a sério; o de Diana, uma novela barata.
Isto só terminaria melhor se Carlos e Camilla, não sentindo qualquer necessidade de casar, vivessem felizes para sempre...

História mínima

para o Luís Ene

A senhora tirou inculcas e começou a ter razões ponderosas para acreditar que o cavalheiro seu marido andava a mijar fora do penico. Então chegou ao mercado em hora de ponta, fisgou a megera e chamou-lhe, aos berros, «ó sua granda filha da puta que se andas faltada chupa na cana doce a ver se gostas que ta fodo». Depois saiu, altiva, redimida, balançando a anca. Entrou em casa, esfregou o chão, limpou a poeira do aparador, cozinhou umas pataniscas de bacalhau com açorda para o cavalheiro seu marido, lavou a loiça, viu com ele os resumos da UEFA, deitou-se a seu lado, adormeceu, acordou e preparou-lhe a torrada e o xarope. E quando ele ia a sair a caminho dos Serviços, já atrasado, resmungando leves impropérios, ajeitou-lhe ainda o nó da garvata e pediu «que não venhas tarde para o almoço, môr, é arroz de polvo e depois seca».

quinta-feira, abril 14, 2005

Quando tu me vires no futebol

Ao exibir o cartão amarelo, o árbitro, se for justo, quer significar que a virilidade (a masculinidade) é permitida mas não deve, nunca, ser ostensiva. Quando puxa da cartolina vermelha, se for justo, deve sempre lamentar-se de estar a impor (legitimamente) um limite à biologia e aos instintos naturais de preservação da espécie, compreendendo embora que a Cultura do nosso tempo não está já disponível para aceitar aquilo que poderemos designar por «excessivo». Num certo sentido assim é que está certo - procurar equilíbrios de bom senso sem especial pendência para um dos lados da balança em cujos pratos se dirimem a civilização e a barbárie (eu ia a dizer «a biologia»).

quarta-feira, abril 13, 2005

Prece por graça concedida


Fotograma do filme Constantine (que não vi, apesar do Keanu Reeves!) .
Esta é a lindíssima Rachel Weisz.

Obrigada, Deus(a) sem religião, por me teres permitido nascer mulher; ser autónomo, inteligente, lúcido, sensível - perfeito!; capaz de aprender, de errar e reaprender; falhar e acertar; destruir e reconstruir; de não precisar de homens para reinstalar o Hello e o Picasa! Consciente na admissão dos erros, falhanços e destruições, da mesma forma que admite sucessos e reconstruções!
Bem-aventuradas as mulheres desenrascadas. As solteiras, as casadas, as amigadas...
Bem-aventuradas as que não desistem.

Biologia para agricultores

On ne naît pas une femme: on le devient. Aucun destin biologique, psychique, économique ne définit la figure que revêt au sein de la société la femelle humaine; c’ est l’ensemble de la civilization qui elabore ce produit intermédiaire entre le mâle et le castrat qu’ on qualifie de féminin.[1]

Intriga-me a curiosidade mórbida que cada um dos meus vizinhos tem sobre as pessoas com quem durmo (ia dizer fodo, desculpem!). Não percebo o interesse.

A mim tanto se me dá que o Sr. Marques sodomize o Bernardo, do 2º dto, que está no 3º ano de Filosofia; que a Dona Maria do Céu e a Dona Maria da Piedade, do número três, brinquem com as bichaninhas uma da outra, todas as tardes; dia sim, dia não; como que o GNR de bigode, da cave esquerda, faça a mulher, à canzana, nos dias de folga... Façam o que quiserem, como quiserem, quando quiserem, desde que o façam com consentimento mútuo, e, de preferência, com pouco barulho!
Não me incomoda nada que aqui o Zezinho, do 4º esq., passe os fins-de-semana no regabofe com a namorada, enquanto os pais vão à terra; acho é que podiam baixar o volume, porque a banda sonora ouve-se toda no meu quarto, e aquilo não é para qualquer um – uma pessoa que não soubesse rezar o Pai-nosso e a Ave-maria poderia cair em tentações! Quem diria que o Zezinho, aquele menino tímido, introvertido de há 20 anos, fosse capaz de proporcionar tão sonora alegria à namorada: uma rapariga de óculos, com ar estudioso e católico!

Esta introdução vem a propósito da absoluta necessidade, da cultura falogocêntrica, em controlar a sexualidade das mulheres, em geral; e, em particular, das que, se destacam em áreas que, para os essencialistas biológicos, não lhes pertenceriam, dada a sua "natureza feminina": gritar, por exemplo, como Andrea Dworkin, atirar umas verdades incómodas, trancender a sua função biológica de parir e amamentar!
Uma mulher pode ter acabado de receber o Prémio Nobel, mas o que interessa é saber com quem a gaja dorme e se gosta de foder! Quantos homens e/ou mulheres teve. Importante é arranjar forma de as reduzir a uma insignificância qualquer. Chamar-lhes, com sarcasmo e cinismo, "sumidade"!
O Papa também acabou de morrer. Ninguém está interessado em falar da sexualidade do Papa? Supostamente, também não fodia... O Papa fez mais pelo mundo do que Andrea Dworkin? Teríamos de ver bem que interesses serviram um e outro. Qual deles “iluminou” mais, fez mais "milagres"?
(Não se preocupem - já recebi em casa a carta de excomunhão! Acho que não me posso casar pela Igreja; dizia lá!)

O que nos interessa se Dworkin era ou não lésbica, se fodia ou usava a cama para descansar entre conferências feministas? Quando morre um homem importante, um ícone qualquer, costumam referir-se às suas preferências na cama? Não, protegem-se-lhe as idiossincracias sexuais, e nunca se escreve, nunca, jamais, que o gajo era um sado-masoquista dos piores ou a maior bicha da Península Ibérica! Agora, a Virgínia Woolf e a Marguerite Yourcenar eram fufas. A Anais Nin e a Marguerite Duras, era o que viesse à rede...
Isto fode-me a sério!

O meu corpinho é meu; tão meu como o meu espírito. E com ambos faço o que me der na real gana. Sou totalmente dona de mim, e isso é que custa aos gajos! A posse que eu possuo sozinha.

Pela biologia, uma mulher nasce dotada de aparelho reprodutor e, de facto, pode reproduzir, se quiser; pela biologia, uma mulher nasce com o mais belo apetrecho orgânico criado pela natureza: um par de mamas; que ela usará para amamentar, se quiser. Porque o corpo das mulheres, o meu!, não pertence à merda da sociedade, nem aos homens, nem às outras mulheres; tal como, inquestionavelmente, o corpo dos homens lhes pertence em exclusivo! No que toca aos machos, a questão nem se põe. Um homem deve ou não desperdiçar sémen? Isso, sim, é um assunto de Estado! Um espermatozóide, desculpem lá, é metade de uma vida! Mas o assunto não vai à Assembleia da República nem é objecto de referendo. Os gajos não são julgados e sujeitos a pena de prisão por terem batido umas às escondidas!
- Então, olha lá, pá, o que é que andaste a fazer para vir aqui parar? Mataste? Roubaste? - pergunta o companheiro de cela.
- Tenho vergonha de dizer, ó 95... foi muito pior... estou arrependido... não imaginas como sofri! Mas teve de ser, não tinha outra saída: quando tinha 14 anos (soluços!) , num só mês amandei duas punhetadas valentes...! Agora denunciaram-me! Hoje já não o faria! Porque, acima de tudo, está o aumento da taxa de natalidade; acima de tudo, não matar metade de um filho... desperdiçar um espermatozóide ou matar uma criança que acabou de nascer, é a mesma coisa!
Chegar ao mundo equipadas com um aparelho reprodutor e a capacidade de amamentar não significa nada mais para além disso – reproduzir e fornecer leite! Os machos, se quiserem, podem ficar em casa criando a prole que fazem connosco; que, às vezes, até fazem sozinhos, enquanto olhamos para o tecto sem dar por nada! Podem muito bem, devidamente aculturados, ficar com o leitinho no biberon, já devidamente bombeado da teta materna, mudar a fraldinha, levantá-los para o arroto, levá-los ao jardim no carrinho, enquanto nós estamos a trabalhar, como eles sempre trabalharam, embora melhor.
Ou, em alternativa, deixam-se as crianças nas creches, onde encontraremos educadores e educadoras de infância habilitados(as), e onde estão muito bem! Porque nós queremos os homens livres, independentes e satisfeitos! Não que eles nos desejem o mesmo, mas nem todos podemos atingir, ao mesmo tempo, a mesma maturidade civilizacional!

Quando a minha consciência acordou e me interroguei sobre as diferenças que existiam entre mim e os meninos, descobri apenas uma: eles tinham uma pilinha e eu não. Na altura não fiz juízos de valor, embora não visse utilidade naquilo; hoje já faço: felizmente, não tenho esse penduricalho mal jeitoso! De resto, não havia nada que o Manelinho pudesse fazer ou pensar que eu não pudesse fazer ou pensar. E, se me tivessem explicado muito bem, “tu és uma menina, tens de ser forte e não chorar!"; "tu és uma menina e tens de ter força para trabalhar e sustentar a tua família"; eu seria forte, não chorava, desenvolvia a necessária força muscular para carregar bilhas de gás, e sustentava a família... Aliás, relativamente ao que acabei de enumerar, mesmo sem a aculturação necessária, só não cumpro um item.
Se o meu pai me tivesse chamado para o ajudar a mudar as lâmpadas dos faróis, eu saberia mudar lâmpadas de faróis... Se, ao Manelinho, o tivessem ensinado a fazer rendas e bordados, e a gostar muito de bebés, ele quereria fazer rendas e bordados, e, aos 17, começava a deter-se frente às lojas de roupinhas, deliciado com umas botinhas de lã esmeralda. Que pena o Manelinho não ter vindo devidamente equipado para parir! Haveria justiça. "Tens tu ou tenho eu?" No meu caso, não havia grande discussão, tinha ele! Eu ajudava, óbvio. Até podia apertar-lhe a mãozinha na sala de partos, e dizer "força, força; está quase; tu és capaz, força!"

Metade deste blog gostaria de informar que não está de luto. Algumas pessoas, as que gritam, as que chateiam com razão, as que vieram cá fazer alguma coisa, as que realmente interessam, "libertam-se da lei da morte".

[1] BEAUVOIR, Simone de (1949), Le Deuxième Sexe II. L´Expérience Vécue, Paris: Gallimard

terça-feira, abril 12, 2005

A Martinha

Metade deste blog deve estar de luto, digo eu: com atraso, fico a saber por aqui que morreu Andrea Dworkin, essa temida feminista tão enraizada na herança de Simone de Beauvoir.

Hão-de desculpar que um agricultor – posto que medianamente culto, leitor de Stendhal e conhecedor do capítulo final do Ulisses, de Joyce – fique sempre um cibo embasbacado com uma suposta modernidade que perora contra «o regresso ao biológico», no entendimento de que a mulher se deve afirmar sobretudo na arena do combate cultural, sendo-lhe, pois, permitido ter bigode, se o bigode lhe provém de uma afirmação de cultura e não da pobre da biologia e de um determinismo genético de que, até ver, não veio ainda especial problema ao mundo civilizado, permitindo por exemplo às meninas manterem mamas de gente porque meia dúzia de gerações pretéritas não recusou ainda de vez, em nome da cultura, amamentar.

Pois morreu a Andrea, essa sumidade que achava ainda que o cenário que rege a sexualidade do nosso tempo se pode definir pela força de um pénis «visitando uma mulher que não parece querer a visita». Bem sei que a Andrea não gostava de cama, senão para descansar, dormindo, entre um comício e a redacção de panfletos. Mas não se me dava que ela, a Andrea, tivesse conhecido a Martinha, que conversassem, que lhe perguntasse como lhe funcionava o sistema biológico, e depois então que me viesse para cá com estas conversas de merda sobre o «predomínio do cultural».

Abocanhar um incentivo

Primeiro acabamos com o mundo rural – o que sai caro, o que nos empobrece, mas que se faz sem grande esforço, deixando apenas avançar a ignomínia, forçando a assimetria, facilitando por omissão ou recebendo-se luvas a especulação imobiliária, o investimentozinho estruturante, o subsídio dirigido, a zonazinha de expansão urbanística, o que se sabe. Depois desenhamos uns programas de desenvolvimento rural atados à pressa como chouriças de salsicharia para apresentar numa reunião de Bruxelas – e dá-se o caso, por exemplo, de em consequência me aparecer aqui um menino do Ministério da Agricultura, com sapatinho de vela Rockport e camisa de quadrados largos, com as mangas puxadas numa única dobra a deixar antever o rectângulo da Tommy impresso displicentemente no forro, a explicar-me como devo conduzir os pomares em protecção integrada e, preenchendo uns impressos, «abocanhar um incentivo». Claro que lhe prego dois berros, só para ver se estes meninos já começam a ser homens e têm pelo menos a dignidade de se virarem a quem lhes berra defendendo as suas convicções e berrando por igual, mas: não, cagam-se todos; primeiro cagam-se todos; depois gaguejam; depois, já recuando, e já salvaguardados pela porta aberta do carro com letreiro EP pago e mantido pelo erário público, é que murmuram qualquer coisa do género «é por isso que este país não vai a lado nenhum».

O filho da puta: que se vivesse num país decente e quisesse trabalhar na agricultura, o mais certo era que tivesse que trabalhar na agricultura: e não, oh oh, num gabinete com ar condicionado onde discute com o chefe de divisão que veio como ele da Tapada da Ajuda ou do Politécnico de Santarém, fazendo pausas para o café de máquina, «como é que se põem estes agricultores a fazer qualquer coisa de jeito» - combinando depois, sem modulações, uma partida de golfe para as quatro («sempre teremos tempo para bater uns nove buracos, ah?»), que o horário contínuo da DRA está ajustado a estes desideratos.

segunda-feira, abril 11, 2005

Pensamentos de Nostradama (profecia?)


Marques Mendes, Luís Filipe Menezes e António Borges. Nossa Senhora dos Aflitos!!! O panorama partidário para os próximos anos é sombrio. Seria mesmo necessário que o PS fizesse asneira da grossa...

O PSD sofre de um problema oftalmológico vulgar, facilmente resolúvel: miopia conjugada com astigmatismo. O PSD tem, há anos, um único cidadão capaz de pôr ordem naquele galinheiro de testosterona mal usada; um único cidadão capaz de governar com sensatez, visão de conjunto e a necessária justiça; capaz de enfrentar uma oposição cheia de testosterona... mal usada. O PSD tem, provavelmente, o melhor político deste País e desbarata-o; teme-o! Todos os outros partidos sabem e, claro, todos estão caladinhos.
Esse cidadão, esse político é, na realidade, uma cidadã, uma política, e chama-se Manuela Ferreira Leite. E enquanto Manuela Ferreira Leite não for candidata à liderança, e não a alcançar, esqueçam... não gastem mais euros na organização de congressos!

Nota: sugestão para atribuição de cargos a outras políticas que efectivamente trabalham (actualmente, só as mulheres sabem fazer política!), isto caso Manuela Ferreira Leite alcançasse a liderança e vencesse eleições: Leonor Beleza, na Justiça (nunca na Educação nem na Saúde!; é preciso ter cuidado com o que se dá a esta mulher!); Teresa Patrício Gouveia, na Educação ou na Saúde. As restantes pastas seriam distribuídas maioritaria, preferencialmente, por mulheres. PSD's, independentes, de outros partidos, por que não?!...

Por exemplo, Heloísa Apolónio, dos Verdes, precisava de largar aquela medonha coligação de testosterona mal usada. Dentro de quatro anos estará pronta a disputar qualquer cargo.
Outra hipótese, e esta seria mesmo excelente, consistiria em convencer Manuela Ferreira Leite, Teresa Patrício Gouveia e Leonor Beleza a passarem-se para os Verdes, que assim abandonariam a coligação - o PCP é um excelente partido; precisamos dele; mas tem manifestado grandes preocupações com o Ambiente?!
O ideal seria os Verdes concorrerem autonomamente e ganharem com maioria absoluta.
Neste cenário ideal seria irrelevante que um ou outro partido detivesse o poder, porque, fosse qual fosse, estaria bem entregue!

Lembremos outro nome: Ana Benavente, do PS; adoro esta mulher - dava a melhor Presidenta da República que este País alguma vez veria!
Isto, sim, seria o mundo perfeito!

domingo, abril 10, 2005

Manhã


Sol de domingo.
Perfume a gel de banho com vapor de água e algodão turco. Café com leite. Pão de centeio com doce de pêssego. Annie Lennox. Janelas de par em par.
Banho em série a três sacos de pulgas. Rua.

Casulo


Receber a manhã metida na cama. Atravessar o teu medo como um anjo de luz. Reconstituir contigo o beijo, o rosto, as mãos.
O peito inteiro; o espírito errante.

sábado, abril 09, 2005

Saltos altos



A Igreja já é aquilo que a gente sabe. Imagine-se que se começava a dar de barato o conceito de «igualdade de género», o princípio da «ordenação das mulheres»...

sexta-feira, abril 08, 2005

Cristiana, (mais) uma mulher iluminada!

Edição de 08/04/05 do jornal Público, p. 12

Artigo de opinião, por Cristiana Wagner

(...) Contudo, o seu pontificado está repleto de contradições. A forma como ele dirigiu a Igreja internamente foi muito dolorosa para aqueles que tinham esperança numa reforma real. Infelizmente, apesar de ele próprio ter participado no Concílio Vaticano II, João Paulo II ignorou os apelos vindos do movimento mundial de católicos de base, que procuravam fortalecer o espírito de abertura e inclusão que se iniciou após o concílio.
Embora estivesse empenhado em mudanças no mundo, em geral, e no diálogo com esse mesmo mundo, a nível da própria Igreja ele fortaleceu as suas estruturas centralistas e autoritárias. Tudo isto criou um clima de temor e de rigidez. Não manifestou qualquer vontade em entrar num diálogo sério com "os católicos do Vaticano II", tais como as mulheres católicas que procuram a igualdade, os teólogos reformistas e o Movimento Internacional Nós Somos Igreja. As teologias que brotaram no espírito do Concílio Vaticano II, tais como a teologia da libertação, foram sistematicamente suprimidas sob o seu pontificado. (...)
Os direitos humanos na Igreja: João Paulo II foi um promotor dos direitos humanos na vida secular; mas não aplicava estes princípios à própria igreja. Entre os direitos humanos que clamam por reconhecimento dentro da Igreja estão: a igualdade de género - incluindo a ordenação de mulheres, o fim do celibato obrigatório para os sacerdotes, liberdade de consciência e de discurso, o direito a um julgamento justo, o direito a que a orientação sexual seja respeitada (...)

Ena, pá!

Edição de 08/04/05 do Jornal Público, página 8:

Sampaio fala em personalidade ímpar

O Presidente da República, Jorge Sampaio, destaca o Papa João Paulo II como a mais significativa personalidade do século XX. (...)


Confissões ao ar livre

Alguns dos fiéis que ontem esperavam na fila para poder ver o corpo do Papa aproveitaram a demora para se confessar. Vários padres, sentados em cadeiras de plástico, ouviam as confissões dos crentes ajoelhados ou sentados à sua frente. Muitos eram jovens. Até os jornalistas aproveitavam a oportunidade. "Há muito tempo que não falava com um padre. Estou aqui há uma semana a trabalhar e pensei que este era um bom momento para fazê-lo", disse à AFP um operador de câmara que não quis ser identificado.

Solução para a crise

Edição de hoje do jornal Público - título na página 4:

Vendem-se encíclicas e porta–chaves, os hotéis estão esgotados, o negócio corre bem

(...) Um dos objectos com mais saída, adiantou (o proprietário de uma loja), é um porta-chaves com uma imagem de plástico do Papa que, conforme o ângulo de visão, se transforma numa imagem da Basílica de São Pedro: 2,50 euros (...)

Lamento não poder leixar o link, mas este artigo só está disponível para assinantes on-line.

Vaticano português

O cardeal-pariarca, D. José PoliKarpo, (esperamos que seja!), revelou planear trazer o Vaticano para Braga, ou Fátima, caso venha a ser nomedo sucessor de João Paulo II; decisão ainda em aberto. É sua intenção abrir extensões na Praça do Comércio, e em local do Porto considerado adequado, de preferência numa ladeira bem puxada, perto da Ribeira.
Outra das hipóteses sobre a mesa, passa pelas instalações da Universidade de Coimbra, para cuja biblioteca (a de talha dourada!) seria facilmente transferido o tecto da Capela Sistina, aí encaixado, mais puxão menos puxão, por mão-de-obra portuguesa; quer dizer, africana; quer dizer, do Leste. A Universidade de Coimbra passaria a ocupar as instalações da Universidade Moderna, em Lisboa; e a Universidade Moderna deslocava-se para a sede do CDS-PP, partido que ocuparia o vão de escada da residência do Dr. Paulo Portas.

Devastação florestal


Hoje, no jornal Público, p. 2:

No caixão
O corpo do Papa é colocado em três caixões, depositados no interior de um sarcófago de mármore.

Uma imagem produzida em computador , acompanhada de setas explicativas, informa que o primeiro caixão é em cedro, e simboliza a humanidade papal; o segundo é em chumbo, pesa 400 quilos, e nada simboliza; o terceiro é em nogueira, e representa a dignidade (papal); o quarto - o tal sarcófago de mármore!

O meu santo pai seguiu num caixãozinho de pinho, disfarçado de “qualquer coisa mais digna” à força de Cuprinol e verniz barato.
Não me pareceu que, considerando o fim a que se destinava, fosse necessário ser mais papista que o Papa.

quinta-feira, abril 07, 2005

Trono

Este meu fascínio pela monarquia sairá reforçado no próximo fim de semana: consumado o casamento, Camilla será automaticamente rainha quando Carlos suceder a Isabel II.

Quanto ao Motherwell, enfim



Em dois dias, juro, só na rádio, ouvi: uma ONG derramada com o facto de a educação ambiental não ser uma disciplina obrigatória desde a escola primária; o Miguel Ângelo Delfim enxofrado porque na escola não se ensina música como deve de ser, e que a música haveria de constituir-se como disciplina nuclear desde tenra idade, senão não se entende a letra dos Prisioneiros; o Governo anunciar que o Inglês passará, a breve prazo, a ensinar-se aos infantis; os Automobilizados clamando que isto só se resolve quando as questões associadas ao código e aos comportamentos cívicos na estrada forem uma prioridade do sistema escolar; um físico perorando sobre a necessidade de se aproveitar o Ano Internacional da Física para instituir a disciplina como curricular desde os seis anos; um director de museu explicando que não é possível que um adulto aprecie arte abstracta se a escolaridade obrigatória não o motivou para a descoberta dos segredos da estética e da fruição de Motherwell.

Se esta gente mandasse, os moços dormiam na escola desde os quatro anos e apresentavam provas de doutoramento aos doze.

quarta-feira, abril 06, 2005

O vácuo (trabalho de campo sobre identidade masculina)

Sou funcionária pública; trabalho num organismo estatal da máxima importância, o qual prefiro não identificar, como compreenderão – não suporto a ideia de me expor, de ficar à mercê de comentários murmurados no corredor, quando passo. Tenho um estatuto hierárquico a salvaguardar.
Fico sempre a trabalhar até mais tarde, porque a maior parte dos meus colegas e inferiores hierárquicos são do sexo masculino; tem de sair à hora; nem um segundo a mais - precisam de ir buscar os filhos à escola, ou dar um salto ao Lidl para comprar um pacote de creme de marisco e fazer uma sopa de peixe! Vou tolerando isto porque defendo a igualdade de oportunidades, a inexistência de tectos de vidro.
Um deles, por acaso, dá-se comigo, deve estar aí a aparecer, enquanto a mulher, que é professora, coitada, fica em casa a moer os olhos, com caligrafias ilegíveis, até às 3 da manhã. Claro que me traz sempre umas sobremesas compradas na melhor pastelaria do bairro, e vem com o banhinho tomado, jantado; comido não.

No escritório tenho sempre os jornais do dia. Leio-os de manhã, assim que chego. Sublinho notícias para arquivo. Passo aos restantes colegas, democraticamente.
Tenho um auxiliar que me faz os recortes – normalmente assinalo a vermelho o que pretendo ver recortado e arquivado, e, ao final do dia, o moço já tem aquilo acabado. Não com perfeição, já se sabe!; os índices pejados de erros ortográficos, enfim... Tem o 12º, mal tirado... tentou entrar para Medicina... não conseguiu; felizmente tinha uma tia no Ministério que lhe arranjou esta avença...
Bem, hoje não houve tempo para ler os jornais de manhã, tive uma reunião importante: pensei deixar tudo para o fim da tarde. Peguei neles já eram umas sete avançadas. Estavam os jornais estrategicamente recortados, o que me surpreendeu.
Li as notícias que me interessavam, assinalei algumas para o arquivo (“amanhã o Nuno Humberto tratará disso!”). O último que li foi o Diário de Notícias. Gosto de terminar com o jornal de referência. Equilibra a restante informação. Habituei-me assim. No DN li, com gosto, e assinalei, as seguintes notícias e dossiers:

- Menchu ganha processo inédito na Guatemala – Nobel da paz de 1992 foi insultada em 2003 por cinco políticos do seu país (“Quem é que fechou ontem a edição? Como é que este subtítulo passou?”, pensei), p. 20.

- Quercus quer criar microrreservas biológicas nacionais. Nova figura legal preserva espaços pequenos e privados de fauna e flora, p. 24.

- Ministra garante inauguração de Faro Capital da Cultura, p. 39.

- Reportagem Ambiente (sobre o Jardim Botânico de Coimbra), pp. 52/53.

Quando terminei, abri a mala, tirei a escova, passei-a pelo cabelo, puxei umas ondas para a testa, como se estivesse acidentalmente despenteado; desapertei os colchetes do soutien (não me dou nada bem com o wonderbras; mas hoje teve de ser!), avivei o baton, obviamente, e pousei os olhos numas folhas amarelinhas ao meu lado direito. É a cor preferida do Nuno Humberto: lá estavam os índices dos recortes relativos às notícias que não assinalei de manhã, acompanhados das respectivas!!!
Fiquei por segundos siderada com a eficiência do Nuno Humberto – certo, ele já está comigo há oito meses!, mas adivinhar o que penso ser relevante para arquivo! - e peguei nas folhas. Transcrevo o índice, apenas:

“Diário de Noticias, edisão de kuarta feira, 6 de Abril de 2005 – Nuticias çelessionadas pela diretora:

- Estudo. Jovens dos EUA adoptam sexo oral, p. 24.

- Enakarhire e Pinilla na comitiva leonina, p. 33.

- UEFA. Feyenoord joga à porta fechada, p. 33.

- Carlos e Camilla. TVI transmite casamento real, p. 45.

- Venda.Algarve – Portimão – uma viatura da marca Toyota, modelo Hiace, de matrícula RP-63-66, com motor partido e em avançado estado de corrosão, p. 81.

- Abelinha!!!... Teenager... 18 aninhos. Doce como o mel!!! Sou tudo aquilo que procuras!!! 2ª oportun. 912311886, p. 84.

- Vin Diesel é o chupeta nesta comédia de acção. Nos cinemas a 7 de Abril, p. 85."

Folheei os recortes. Na notícia da página 84 (um anúncio!) reconheci a caligrafia do meu inferior hierárquico, um homem aparentemente tranquilo, que passa os dias dedicado a projectos que guarda no pc. Apenas algumas letras..., não consegui perceber que palavras formariam, porque a tesoura interceptou-as: “chupav”....., e, na linha debaixo, “tod...”
Mas era a letra dele. Miúda, aberta, legível, infantil... Inconfundível.

Se elas o dizem

A ler: um excelente retrato da vacuidade feminina.

Os meus homens

Não percebo por que motivo a maior parte das mulheres gosta dos mesmos homens.

Exemplo: vou ao cinema, descontraidamente; ou estou a “ler” a Première, para saber o que vem aí, e descubro uma estampa que me faz ficar desassossegada. Normalmente é um morenão, de olhos castanhos, alto e bem constituído, com um sorriso “sincero”, que diga algo como, “estou aqui a rir-me, mas na verdade sou muito tímido e estou mesmo a precisar que venhas tomar conta de mim!” Claro que não digo nada a ninguém; agora já não digo.
Mesmo assim, no mês seguinte, entro num blog a votos para apurar quem é o homem mais delicioso do universo, e descubro que elas votaram no “meu” actor. O meu actor, afinal, também é o delas, também é cobiçado por elas! E eu pergunto, com tantos actores no mundo, porquê o Colin Firth, porquê o Benicio Del Toro? Por que não podem permanecer só meus? Um segredo entre dois (podia ser entre três): “tu és lindo, eu amo-te para sempre, com todas as forças do meu ser; possui-me já, agora, aqui!” e ele(s), “nunca te vi mais gorda, nem sei que existes, nem onde fica a cidade de Portugal, mas deleita-te à vontade, que é à conta de gajas como tu que compro mansões em Beverly Hills!”

Por exemplo, o Keanu Reeves, o falecido River Phoenix, o James Spader - eu é que os descobri a todos, todinhos. Cometi foi o erro de levar para o emprego a Première, com as fotos – no tempo em que para ter uma assinatura da Première era preciso mandar um cheque em francos para um cedex em Paris! – e de traduzir de alto a baixo os artigos, em grupo, à hora do almoço, enquanto elas repintavam as unhas e retocavam o baton; a seguir ... roubaram-mos. Passaram-nos para a praça pública, para as fantasias eróticas de todas, do mundo inteiro.

Isto é um fenómeno tramado, não se percebe. Alguém devia estudar o assunto.
Imaginemos que eu e a minha melhor amiga vemos o mesmo filme, mas em separado. Não interessa quem é o realizador, qual é o tema, até pode ser um filme de autor! – a primeira exclamação ao telefone é sempre: “Viste?! O Gael Garcia Bernal nunca esteve tão bem! O Gael Garcia Bernal está lindíssimo! O Gael Garcia Bernal é o melhor actor da actualidade!”
Se vamos juntas, durante a sessão reparamos que a outra presta muita atenção ao écran; alimentamos a ilusão de que esteja emocionadamente presa pela trama, pelo suspense; mas, mal termina e começa a ficha técnica, endireitamo-nos na cadeira, esticamo-nos, regressamos devagar ao mundo real, olhamo-nos, e, em total sintonia, dizemos apenas, “ele é lindo, não é?”.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...