Ticiano, Vénus com organista e CupidoO surrealismo dos homens chega a ser surrealista.
Pensam eles, desde que começaram a alambazar-se com a coxa "irreprimível e audaz", a barriguinha à Ticiano, o rabo farto, tudo devidamente recheado, que nos estão a fazer um grande favor. Acho-lhes piada.
Agora já não os podemos acusar de desdenhar a fartura, de se deixarem levar pelos modelos culturais hedonistas. Não, agora são uns bonzões, uns pacholas, uns modernos - até gostam da carnuça. Gostam de mulheres naturais, sem maquilhagem, sem produtos de beleza corporal; se pensamos e agimos ao contrário, continuando a embebermo-nos, matinalmente, em White Musk, lait scintillant pour le corps, da Body Shop, é porque não passamos de umas tontas, presas, ainda, ao padrão que acorrentou os nossos corpos durante o tempo das revoluções. A nossa insistência em manter uma beleza que já não valorizam, pelo menos da mesma forma, diz-lhes que não evoluímos. Acho-lhes piada.
Gostava de ver o que acontecia se, naturalmente, deixássemos de nos preocupar com a maciez das mãos com que os tocamos, se desprezássemos o vegetal cozido que vai conservando alguma graça na "voraz oscilação de ancas", o anticelulítico que ilude a "coxa irreprimível e audaz"; havia de ser lindo se, apesar do actual discurso que eles nos destinam (e que não é exactamente o mesmo que mantêm com os outros gajos, sobre gajas!), não fizéssemos por levantar as mamas e as nádegas, e não redobrássemos os abdominais que lhes oferecerão o torso que consideram apresentável, dentro da chamada categoria "bem servida"; se não mantivéssemos os lábios frescos, joelhos e cotovelos sem calo, dentes sem cáries e o sexo sem candidíase, surpresa com que periodicamente eles nos presenteiam; havia de ser lindo.
Acham que fazem um favorzinho à vida real: não se importam que a fruta seja de maior diâmetro, desde que cumpra as normas da CE; ou seja, brilho de cera, nada de toques nem dedadas. Ou seja, devidamente hidratada, depilada, perfumada. Acho-lhes piada.
A questão assenta, continuamente, no desejo que os meninos e as meninas albergam em igual proporção. Nesse desejo para eles tão volátil. Sim, vão gostar de nós eternamente, manter-se connosco para sempre, para o bem da família, dos filhos, da consciência da moral e bons costumes, não duvidamos (sabemos que os temos seguros, porque, felizmente, o divórcio, as divisões de tralha, as pensões para as crianças são uma trabalheira!); mas estamos cientes de que, enquanto nos abraçam, em pleno centro comercial, e nos ciciam, ao ouvido, "querida, tu é que sabes, tu é que mandas", nesse exacto momento, à nossa frente, contudo, nas nossas costas, grudam o olho abrasado à "beleza natural" que circula sobre uns tacões da moda, cabelos soltos levantando-se na corrente de ar deslocado. E à noite, quando lhes abrimos as pernas, fodem-nas a elas, não a nós, as maravilhosas e satisfatórias Vénus de Ticiano.
A questão, no final, é o desejo. O deles, sim, mas também o nosso. A questão é, afinal, aquilo que precisamos de continuadamente fazer ao nosso corpo para conquistar o direito a ser bem fodidas, magistralmente fodidas, como gostamos e queremos, e sem hipocrisia. O direito a ser não apenas eternamente companheiras, mas, para sempre, a "beleza natural" que circula ao vento, e à qual o desejo dos seus olhos e da sua alma completa se prende.
Na verdade, desprezamos os tais 4 minutos de obrigação e alívio, que acontecem porque estamos ali logo ao lado e, em aflição, "a cavalo dado não se olha ao dente". Não queremos ser úteis na qualidade de paramédicas. Na chamada prestação de cuidados básicos de saúde, basilar tratamento de urgência, apenas para manter intactos os sinais de vida, e depois, "pronto, já está!". Mero pronto-socorro.
O pessoal paramédico, às vezes, nem acredita na velocidade a que acabou de ser cilindrado, e fica de olhos abertos, um bocado vazios, a pensar que, realmente!, a vida, o amor são fodidos!