terça-feira, maio 31, 2005

Novas matrículas

Eu também tenho uma história de matrículas: quando era pequena, aí pelos sete, correu o boato - nunca cheguei a saber se era verdade! - que quem conseguisse reunir numa folha, umas a seguir às outras, com esferográfica Bic, 1000 matrículas de carro ganhava um brinde qualquer da Coca-Cola! Uma bicicleta, acho.
Eu cá, ia para a esquina da avenida 24 de Julho com outra qualquer, que não me lembro, mas que ficava mesmo junto à Mesquita e às Finanças e à Escola Especial, recolher dados das chapas verdadeiras, isto se a minha mãe me deixava, o que era raro; se não deixava, fazia como os outros, inventava: MLF-32-25; MIH-04-78; MEP-43-10... mas nunca cheguei às 1000, não sei porquê. Se calhar porque, aos sete, mil é um número muito grande.
Passava tardes nisto.
A verdade é que nunca tive bicicleta.
A verdade é que nem sei andar de bicicleta.

Mas como (não tenho dúvidas e ) raramente me engano...


Simone de Beauvoir

No dia em que um homem, um qualquer!, no delírio dos 39º de febre, mostrar espírito de missão e sacrifício para se levantar e ir ao respectivo blog editar um texto de 7 linhas, e puder prová-lo!, eu admitirei a muito eventual possibilidade de questionar, aqui ou ali, uma ou outra das teorias de feminismo social de Simone de Beauvoir, Kate Millett, Shulamith Firestone, Luce Irigaray, Elaine Showalter and so on.

Âmbito, 2

Eu e a Isabela por uma vez parece estarmos de acordo. Um blog serve para quê se não for para nos insinuarmos no mundo e tirarmos proveito dele (do mundo)? Este, O Mundo Perfeito, é o meu quarto blog: sou costumeiro e useiro, e vou fechando as lojas para obras quando a coisa começa a não dar - não sei se me faço entender.

Tive um blog sobre a punheta, pela razão simples de que as meninas achavam piada, a-brincar-a-brincar, e à mor delas, da punheta e da brincadeira, recebia propostas que me ia prestando a aceder fora dos automatismos; mas depois caiu no rame-rame (e a piroca doía-me) e encerrei.

Mais tarde abri um blog sobre livros técnicos: untei os editores, gabava-lhes as capas, falava bem dos volumes sobre vernalização e fosfatos que metiam nas prateleiras do hiper, atingi as 120 páginas únicas/dia, fui a dois lançamentos no Bairro Alto - e acabei por ver editado, com pompa e circunstância, na Feira do Livro de 2004, o meu (já devem ter ouvido falar) «Tratado Sobre a Condução da Meloa com Duas Guias em Estufa»: fechei a seguir.

Depois foi o filão do Turismo: criei uma treta sobre viagens na América Latina, com muito típico e cabaninhas em caniço e o caralho em cujas imediações rastejavam cobras amestradas dos documentários, e o sol pondo-se, meti-me numa sociedade por quotas de emissão de vauchers - enriqueci. O blog, disfarçado de registo poético e antropologia (pagávamos a um estagiário a recibos verdes pago pelo Centro de Emprego) ainda aí está - mas não dou o link, que é para que permaneça na obscuridade, e eu já lá não escrevo.

Meti-me agora, guloso de ver no que davam as mensagens de mail, e com esperanças, no Mundo Perfeito. Nada: os mails vêm todos endereçados à Isabela, que parece que tem mel na sintaxe. Pondero, por conseguinte, riscar-me da inscrição.

Se um blog não serve para dar umas quecas, para marcar encontros na praia em fins de Novembro enquanto o povão deambula pelo Colombo ou pelo Forum - serve para que raio de ocorrência? Sim, a gente anda aqui a fazer o quê?

domingo, maio 29, 2005

Âmbito

Há limites. Há coisas com que uma pessoa, por mais voltas que dê, não pode concordar.
O Controversa Maresia mandou publicar, em Diário da República, uma portaria regulando a actividade bloguística.
Transcrevo o artigo 4º, e vejam lá se encontram nisto alguma graça:
"Âmbito de aplicação
1. Um blogue não deve expor intimidades do blogger.
2. São estritamente proibidas, fotos do próprio, de familiares ou de animais de estimação.
3. Letras de canções e poemas, devem ser evitados.
4. Um blogue não pode servir para pagar favores, nem para fazer amigos, mover influências, dar umas quecas, massajar egos ou brincar com templaites e, muito menos, para despejar insignificâncias. "
Mas, afinal, vamos lá ver, uma pessoa anda na blogosfera para quê?

Consolação


Palmilhavas milhas de labirintos no meu corpo, a noite e manhã e a tarde, e desvendavas mistérios para uso comum.
Saboreava esses instantes e aqueles em que, puxando, apertando a glande entre a língua e o palato, sentia o teu pénis pulsar completo e indefeso, no nicho que a minha boca e mãos e dedos compunham para ti.
E mais do que tudo, mais do que tudo, queria esses teus momentos de mercê absoluta, em que perdias o nome, a idade, o nascimento e eras, tremendo, apenas meu, apenas um, e sobre mim recaía a decisão da nossa vida ou morte.
E esse poder descontrolava-me a um ponto que se reflectia no teu órgão, na abertura da tua uretra, que era inteiramente minha e eu tinha e eu esgotava para nosso eterno consolo.

sábado, maio 28, 2005

E hidratar

Bem, fui tomar banho. De vez em quando - convém.

Jardins de delícias



Tenho medo de aranhas, osgas e baratas. De ratos, de cobras e enguias. Tenho medo de filmes de terror, de ficar sem net, do preço da gasolina, da idade da reforma, do congelamento das progressões na carreira...
De homens não tenho medo, nunca tive - tirando o meu pai, ou, se calhar, por causa dele; jamais perco uma oportunidade para lhes mostrar quem é que os tem bem cheios, bem pretos, bem no sítio!
Mas, admito, existe uma situação (ok, talvez duas!) em que fraquejo perante o macho, em que concedo serem as suas armas as mais fortes, e me dou de imediato como vencida: quando descalçam os sapatos!
Senhor, mais valia enviarem-me para qualquer gazeamento da I Guerra Mundial; preferível La Lyz!

A questão de saúde pública que hoje pretendo aqui trazer, agora que o tempo aquece e se justifica amplamente, tem a ver com o ininteligível motivo por que não apresentam, os homens, pés macios, bem tratados, apresentáveis, como as mulheres. Pés que apeteçam olhar, com uns dedos lindos a sobressair fora da sandalinha, que apeteçam beijar e tudo.
Onde é que os homens foram desencantar a ideia peregrina de que os pés são para trazer entalados em sapatos irrespiráveis durante todo o ano? E que é suficiente lavá-los de vez em quando?
Conheci um funcionário público de secretaria, um homem asseado, que a primeira coisa que fazia, ao chegar a casa, todos os dias, pontualmente às 18h00, era depositar os pezinhos moles no bidé e lavá-los religiosamente com sabão de glicerina. Não eram pés, eram duas tiras de choco, brancas, mortas, feias...
Nós, mulheres, estávamos bem arranjadas se nos limitássemos a lavar os pezinhos. Era adeus fetiche!
Os pés dos homens são tão lindos como os nossos, mas é preciso que os deixem medrar, que os deixem ser lindos. Que usem sandálias quando é para usar sandálias e sapatos e botas quando é para usar sapatos e botas. Que cuidem deles como nós cuidamos, que cortem as unhas em vez de as arrancar, que lhes dêem uma forma, que lixem as calosidades, inclusive no calcanhar e na planta do pé (uma vez por semana - depois do banho!), e depois os hidratem, massajando-os com um creme mais ou menos gordo (todos os dias). Que os deixem apanhar sol, ficar morenos! Que lhes ofereçam um banho especial de folhas de eucalipto esmagadas ou de rodelas de limão ou de óleos naturais, de vez em quando. E se não souberem fazer nada disto ou não estiverem para tanto, entrem num(a) pedicure e diponham-se a gastar 10 euros para usufruir de pés decentes e desejáveis. Mas arranjem-nos, valorizem-nos!
E se têm pé-de-atleta, apliquem-lhe o Canesten, se faz favor, de manhã e à noite. Sim, pode ser com o hidratante. E vão ao médico, e peçam o anti-fúngico em comprimidos. Mas não nos matem de mau cheiro, por amor de Deus! Um par de peúgas de homem por lavar, dentro de uma casa, equivale a 10 caixotes do lixo entulhados na cozinha, com restos de sardinha, há pelo menos cinco dias!

Os pés não são rodas de tractor, são partes sensíveis do corpo. Lugares sensuais que não queremos desperdiçar por nada. Porque nós, no corpo dos homens, aproveitamos tudo. O centímetro que está ali adiante, e já lá chegamos!, pode ser ainda melhor que este aqui, este agora, debaixo dos nossos lábios. Queremos todos os bocadinhos; brincar com eles horas a fio.
Também queremos trincar-lhes os dedinhos dos pés. E outras brincadeiras, que agora talvez não seja hora... Mas queremos dedinhos e curvinhas apresentáveis, macios, saborosos, e não cepos grossos de madeira, escamados e encardidos.
Portanto, ó jardins de delícias!, tratem dos pezinhos agora, que nós, prometo eu, tratamos de vós depois.

Os mais belos pezinhos do mundo



Se a RTP e a RDP merecem subsídio estatal, penso que não seria despiciendo, nós, nO Mundo Perfeito, sermos agraciados com um apoio ministerial, nem que fossem uns bilhetes de cinema, uns convites para o teatro, uns livros mesmo com páginas trocadas, qualquer coisa que compensasse as horas que a gente não dedica à agricultura nem à arte.
Ou um patrocínio. A gente não se importava com um patrocínio da Bayer, da Sapec ou da Biochem.
Mas, logo a seguir, penso na crise, na Europa, no Terceiro Mundo; lembro-me que Camões nem a tença recebia, que Pessoa devia em todas as tascas de Lisboa... e lá me conformo.

Hoje, preocupada com a saúde dos adoráveis pezinhos dos meninos, colocando mesmo a hipótese de uns pés de homem bem brunidos poderem atiçar ganas fecundativas e contribuir para o incremento da taxa de natalidade - e se precisamos de população activa/contribuinte, nos próximos anos! - , sugiro duas excelentes marcas de produtos unissexo para cuidados de pés e unhas:

- Gehwol: um clássico! Adquire-se em lojas de produtos naturais, vulgo ervanárias, ou mesmo em casas especializadas em artigos de ortopedia. Os produtos Gehwol realizam autênticos milagres nos pezinhos, e existem para todos os fins: hidratar, alisar, amaciar, desodorizar, reparar fissuras, amaciar unhas, etc., etc. A autora deste texto deve a sua excelência podológica ao melhor ADN da Estremadura e à indiscutível qualidade da marca alemã.

- Vichy foot care: uma novidade que acabou de chegar às farmácias. Nunca usei, mas é Vichy, portanto, uma alternativa de qualidade a considerar.
As farmácias têm sempre inúmeros produtos para este fim. Bem como os hipermercados. Em casos menos graves, não é a marca que faz a diferença, mas o bom uso, o uso regular.

- A Body Shop, igualmente. É uma questão de entrar e ir lendo as etiquetas afixadas nas prateleiras. E perguntando, claro. Nos últimos anos aprendi que perguntar, resulta. Dizem-nos sempre mais qualquer coisa que não está escrita, transmitem-nos impressões pessoais e de outros clientes, por vezes úteis, e oferecem amostras diversas.

E agora, que vos deixei know-how, bem como receituário adquado, e a bem da humanidade, percam tempo com os pezinhos. E em vez de resmungarem, sentados na banheira com a lixa na mão, e o pé direito apoiado no joelho esquerdo, pensem nos beijinhos que vão receber, e que, se calhar, vão começar pelo lugarzinho de que se estão agora a ocupar. Apenas começar... digo eu!
E quando se começa por aí, meus queridos, só é possível subir!

Vichy foot care (nas farmácias).

sexta-feira, maio 27, 2005

Perfeição

Aconselho uma descida do cursor ao longo destas páginas, só para que se vislumbre, e comprovadamente, em qual dos lados reside a busca de equilíbrio, o alinhamento, a arrumação.
Comparem bem a mancha gráfica dos textos de uma metade, com a mancha dos da outra. Há pequenos gestos de alinhamento, de respiração, de abertura que falam por si.
Parece-me.

quinta-feira, maio 26, 2005

Amo-os

Os homens são viciantes. Experimentamo-los uma vez e o tóxico prende.
Quanto mais vou vivendo, mais lhes admiro a leveza absolutamente sustentável do ser.
Às vezes parecem-nos superficiais, levianos, algo amorais, dada a facilidade com que atravessam situações dúplices, tríplices, sem aparentar dor de consciência, grama de preocupação, mas a impressão é errónea. Por exemplo, não é verdade que os homens desejem, em simultâneo, várias mulheres. Há ideias-feitas sobre a masculinidade que convém desmascarar: a um homem bastam perfeitamente duas mulheres. Chega. Uma em casa e outra na rua.
Só uma percentagem irrelevante nas estatísticas apresenta arcaboiço físico e mental para se aguentar à bronca com mais de duas.
A facilidade com que gerem múltiplos problemas que se sobreponham... Adoro-os! Um homem consegue passear-se pela Avenida da República com ar sereno mesmo que tenha o carro empanado ao quilómetro 125 da EN 10, não saiba como pagar a hipoteca da casa nesse mês, tenha engravidado a vizinha do 5º esquerdo, o filho mais novo esteja com rubéola, a mulher tenha acabado de ser despedida e sofra de depressão reactiva, os agentes fiscais andem com ele à perna por causa dos impostos de uma ex-empresa de informática... Que serenidade! São fascinantes!
Situações inesperadas, tarefas que nunca realizaram... Nós antecipamos, planeamos, avaliamos consequências, eles não, atiram-se ao bife e, se sobrarem peças, tudo bem, desde que que não coxeie, não chocalhe.
Porque não sabem fazer tudo, não se pense. Já conheci homens que não sabiam substituir um pneu, colocar um varão na parede, ataraxar um parafuso numa prateleira, mas quem é que disse que não o fizeram?!
A permanente disposição para atamancar, desenrascar... Estou a ouvi-los, "ora vamos lá ver, amor, então é este armário que queres montar, querida? Ora deixa-me cá ver..." E juntam as peças sem olhar para as instruções. E pegam nas ferramentas, mal ou bem, e desembrulham-se, "isto deve encaixar aqui, se não for aqui, é ali". Deliciosos. São deliciosos. Perco-me com eles!
A minha prima tirou a carta há um mês. Ainda não conduz na perfeição. Não arruma bem às arrecuas. Ontem parece que largou o Fiat um bocado mal estacionado, frente ao prédio, com a roda direita do eixo traseiro ligeiramente sobre o lancil. Nada de especial. O marido, que não sabe conduzir, mas que há um mês a acompanha em viagens de treino, pós-exame, envergonhado com o estacionamento defeituoso da mulher, logo ali em frente à porta, decidiu remediar sozinho a situação; ele, que, claro, aprendeu a conduzir após um mês de passeios curtos no lugar do morto. Meteu-se no Punto, rodou a chave na ignição, aliviou o travão de mão e, agora, em estado de choque, diz que não se lembra como é que derreteu o carro da mulher, mais o da frente e o de trás, nem como é que foi parar acima do capot do Ford que se encontrava estacionado no passeio do lado contrário.

As coisas do amor

Morro de sede. Acordo como se tivesse adormecido num deserto de que só sabemos o nome. E tenho nos pulsos uma pequena cicatriz amarela. Só o amor pode trazer aos lábios esta sede implausível, aos pulsos esta tão improvável cicatriz.

Isso é mais que certo

As mulheres são fascinantes por muitas outras razões. Mas a constante e reiterada insatisfação não é das menores: vá lá tê-las no ponto... Primeiro, por exemplo, queixam-se que lhes damos pouca assistência, e que perdemos mais tempo em redor das velas e dos celindros da viatura do que em rondando-lhes a chocha; depois, ou concomitantemente, queixam-se de que lha pomos em brasa por um uso excessivo. A quem as atura (e lá dizem os textos bíblicos) o Éden reserva um dos melhores lugares, com vista e sem reuniões de condomínio.

O meu "consultório íntimo"


Foto de Henri Cartier-Bresson

Enquanto o resto do País se preocupa com o deficit, os novos valores do IVA, as reformas, em suma, o apocalipse!, (a-quase-mais-perfeita) metade deste blog vai aprofundando conhecimentos sociológicos através da leitura atenta do famoso "Consultório Íntimo" da revista Maria. Provavelmente, o mais encantador "consultório íntimo" do mundo!
Deixava de bom grado as minhas trinchas, os meus pincéis, os meus óleos e acrílicos, os meus projectos e suportes, para me dedicar de alma, e corpo, e a tempo inteiro, ao serviço do referida secção da revista, não só redigindo as respostas - não posso concordar com a actual psicóloga de serviço! - como dando apoio pessoal, humanizado, a todos estes problemas que, justificadamente, afligem leitoras e leitores.
Esta semana, duas senhoras de Lisboa lastimam-se da ardência conjugal dos maridos. Os casos merecem compreensiva atenção e resposta.

Primeiro:

Desde há uns tempos o meu marido parece um louco na cama. Eu ate gosto, mas, aos 45 anos, ele parece estar no auge da potência. Acho que não consigo saciá-lo. Que devo fazer?

Bem, minha senhora, se isso é a crise de meia idade, bendita crise, bendita meia idade!
Estou a ver duas soluções: primeira - relaxe e aproveite; se acha que não consegue saciar o seu marido, deixe correr, e aceite a dádiva de abundância que essa verdadeira gema sexual lhe pretende proporcionar; segunda - se o assunto a incomoda sobremaneira, e não consegue dar conta dele, faculte-me o numero de telemóvel do seu marido: contactá-lo-ei para marcar o início de uma terapia adequada, fazendo todo o acompanhamento pessoal.

Segundo:

O meu marido está a ficar insuportável! Fazemos sexo quando chegamos do emprego, enquanto cozinho, durante o duche e até em locais publicos! Nem me larga quando estou menstruada! Preciso de descanso, pois ele deixa-me dorida. Como devo proceder?

Minha cara senhora, minha cara senhora... quando diz "enquanto cozinho", refere-se ao descasque das batatas ou à fase em que vigia o estufado? Trata-se de um pormenor que me preocupa. É perigoso em qualquer dos casos. Cuidado com a chapa do fogão, que às vezes escalda as mãozinhas. Parece-me uma situação insuportável para si, coitada, mas, se me facultar o número de telemóvel do seu marido, contactá-lo-ei para marcar o início de uma terapia adequada, cujo acompanhamento pessoal tomarei a cargo, ao longo de todas as fases do tratamento.

quarta-feira, maio 25, 2005

Um desejo (o fim da tarde)


Foto - Pascal Curtis (em Xupacabras)

Apagar-se o ruído muito agudo do sol, a metralhada de vozes e egos e assinaturas iguais ao bilhete de identidade.
Não ter identidade alguma.
Ser sempre nada.
Adormecer contra janelas abertas: regressar ao tempo.

terça-feira, maio 24, 2005

Manual

Em estando-se atrapalhado com a menina nos braços, e sendo obviamente desapropriado enlanguescer a coisa com um «amo-te» intempestivo, ou com expressões sinceras do género das já enunciadas aqui sem aprovação feminina que se visse, recomenda-se o «mon amour». É suficientemente doce e descomprometedor – e elas gostam. Mais ainda agora que o francês começa a entrar em desuso – dá-nos assim um ar de último-romântico desavindo com a materialidade e a superficialidade do mundo actual, em que a economia comanda tudo («menos o amour», responderemos nós, claro, se for a menina a levantar a questão).

Palavras mágicas


Isto do amor e da paixão é tudo uma grande maçada para a qual não fomos preparados!
A cultura ensinou-nos a desgostar, trair, a dissimular; treinou-nos para a melhor aparência de sensatez e de modéstia, não a verdadeira sensatez ou modéstia; a melhor forma de falar e nada dizer. Em alternativa, não falar. E é nisso que somos peritos. O que interessa é chegar à hora de fechar os olhos, passe o eufemismo, sem ter sido inconveniente, sem ter pronunciado uma palavra comprometedora. Como se fôssemos ingleses. Álvaro de Campos explica isto maravilhosamente no Poema em Linha Recta.
No Reino Unido não sei como é (o mais próximo que daí estive foi em transfer, no aeroporto de Gatwick, entre funcionários de origem paquistanesa). Não sei se se chamam “you, son of a bitch”, a cada esquina, mas, em Portugal, chamar a alguém filho da puta é cool; “ó meu grande cabrão”, por exemplo, é uma expressão de ternura. Inversamente, dizer “meu amor” é absolutamente ridículo. Os amantes mimoseiam-se com ternuras como “és um estúpido” ou “ó minha gorda”, em lugar de “amo-te” e “ó minha querida”. As pessoas tratam-se tão mal que nem dão por ser maltratadas. E vivem assim, sem nunca chegar a perceber por que são infelizes, uma existência de generalizado amor-tabu. De horror à expressão amorosa.
O verbo amar é o exemplo gramatical usado para se ensinar toda a primeira conjugação, nomeadamente nas línguas românicas, mas é um verbo parecido com o Latim: morto; não se fala, logo, esquece-se. Usa-se apenas a título de exemplo. Não passa pela cabeça de ninguém afirmar, a meio de uma conversa de café, “eu cá, amo a minha irmã”! Muito menos, “amo o meu cão, as roseiras do meu jardim ou as paredes da casa que construí”. Não faltava mais nada. Aqui ninguém ama nada nem ninguém. Quanto muito, “gosta-se de”.... No auge da paixão, “adora-se”. Mas adora-se sem se saber o que significa adorar, apenas porque parece um bocado mais forte, mas não mete ao barulho a palavra interdita: amor. Amor, assim mesmo, um “amo-te” redondo, só nós, meninas, é que ainda nos aventuramos. Os homens dão-nos o desconto, porque somos assim, ou seja, mulheres, e trazemos acoplado o problema do excesso de expressão: se não falamos, rebentamos. Mas não são eles que se vão habilitar a devolver “amo-te” a torto e a direito. Porque isso do “amo-te” é um grande compromisso. Portanto, como resposta, ouvimos o habitual “também gosto muito de ti” ou “és muito especial para mim”.
Sinceramente, tenho algumas saudades das fotonovelas da minha infância, o Corin Tellado, se não me engano, e outras, com histórias sempre iguais. Acreditei piamente naquilo; convenci-me que um dia também me haviam de dizer, como lhes diziam a elas, e quero lá saber se era para as convencer, se era lamechas e ridículo “amo-te como nunca amei ninguém!”
E, sou sincera, até lá...

domingo, maio 22, 2005

Luz


Foto - Edouard Boubat


Não sou corajosa: tencionei, por instinto, arremessar-me vida dentro e pretendi que ela me trespassasse de igual forma. Por instinto, por fome e abrigo, como o Cavaleiro da Dinamarca, que avistou muito antes, muito ao longe a luz do seu quintal, sempre a mesma luz, emanando de um mesmo lugar, que era a sua cabeça, e que esperava por si.
Não sou corajosa, tenho vontade. Não sou corajosa, odeio o medo. Não sou corajosa, acredito; entrego.

Na direcção da luz bussolar que paira, que enxergo distintamente, arrisco, por inteiro, dois ou três luxos a que nos vedamos, julgando que nos protegemos: lançar-me sobre os abismos, voar sem asas, consciente da altura, das escarpas, da solidez fatal das lajes; escolher vias que não sei onde terminam, se têm saída, se são transitáveis sequer. Não por ser corajosa, mas porque o Amor tem rosto de homem e de mulher, e vela por mim, lava as minhas feridas com água muito pura das nascentes, e porque, a esse Amor, tartamudeio, constante e alternadamente, amo-te, salva-me, amo-te, salva-me e Ele, sem falha, ama-me, salva-me.
E porque sei isso, sei que não devemos proteger-nos dos minutos que atravessam, agora, os poros da nossa mão direita.

sábado, maio 21, 2005

O amor

Às vezes gostava que a minha colega de blog compreendesse melhor os homens (e lhes perdoasse) quando não escrevem poemas nem falam por diminutivos doces e dizem «papava-te toda até ao acém» a tropeçar de ternura.

sexta-feira, maio 20, 2005

Na blogosfera corre

Na blogosfera corre uma discussão interessante a propósito dum manual de educação sexual que anda por aí, e que parece que incita à masturbação e à descoberta precoce das zonas erógenas ou lá que é e que os orifícios não sei quê. E eu lembrei-me do «Mestre».

(Desculpem, isto é só um parêntesis. O Mestre topava que um aluno se especava assim a olhar o quadro com o ar aboleimado de quem sofre de paixão – e chegava-se a ele, pedagógico, desejando-lhe «que não fosse caso crónico» como quem diz «deviam-te era nascer umas borbulhas na ponta da piroca». E proibia-o concomitantemente de escrever uma linha até «que estivesse curado». Era o único professor que tratávamos por «Mestre». Com as meninas, sim, condescendia: essas é de supor que exteriorizassem a paixão, até porque muitas vezes a paixão das meninas decorria sobretudo dessa necessidade, a de se exteriorizar. E por isso, corrigindo-lhes as prosas, limitava-se a chamá-las à pedra a propósito do excesso de galicismos e metáforas campestres – ah, e dos pontos de exclamação e das reticências como regra de fim de frase. Quanto aos rapazes, já disse, deixava de respeitá-los se visse que se atoleimavam sem disfarce, que se deixavam assim render-se-lhes, que lhes davam azo a que mais tarde fossem elas a pegar nos fios de títere dizendo «oh meu bonifrates quiducho, ó-í-ó-ai». E impedia-os de que escrevessem uma linha enquanto a paixão (ele dizia «o estado de conice») se mantivesse activada. Porque nesse estado só escrevemos asneiras de que nos arrependemos, pela simples razão de que escrevemos mal quando estamos doentes. Contava o Mestre que a um ex-amigo seu apanharam certa vez um bilhete manuscrito dirigido à ninfa da Secretaria, em que falava no desejo de «oscular os seus puros e excelsos pulsos de nácar» e confessava «arder num estufim de mariposas na saudade de a rever». Ora parece que o tipo, antes da paixorra, se respeitava e que até nem escrevia desasado. E então...

Peraí: mas isto vinha a propósito de quê?)

Nenhuma palavra de amor é... ridícula!


Foto de Man Ray

- O bebé já não gosta da menina!
- Gosta sim, gosta muito, muito da sua cerejinha linda!
- Quanto?
- Oh amor, gosta muito, muito, muito...
- Docinho...
- Moranguinho...
- Pesseguinho...
- Queridinha, é tão bom ouvir as tuas palavrinhas, assim, baixinho...
- Hum, hum...
- Gostas de mim, amor?
- Hum, hum... sabes bem que és a minha patanisca fofinha...
- E tu és a minha passarinha dos montes... e a minha rosa do deserto...
- Pois sou...

O Sol de hoje

A FORMA JUSTA

Sei que seria possível construir o mundo justo
As cidades poderiam ser claras e lavadas
Pelo canto dos espaços e das fontes
O céu o mar e a terra estão prontos
A saciar a nossa fome do terrestre
A terra onde estamos - se ninguém atraiçoasse - proporia
Na concha na flor no homem no fruto
Se nada adoecer a própria forma é justa
E no todo se integra como palavra em verso
Sei que seria possível construir a forma justa
De uma cidade humana que fosse
Fiel à perfeição do universo.
Por isso recomeço sem cessar a partir da página em branco

E este é meu ofício de poeta para a reconstrução do mundo

Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Nome das Coisas

Paulinho

As minhas ex-mamas antecipativas toda a vida se comoveram com o alexandrino, viesse ele do Luísinho ou do Paulinho. Quando um deles me entregava ao ouvido o sussuro do alexandrino, oh Deus, ganhava o imediato direito a afundar a mão nos prodigiosos lugares redondos, escuros, tépidos, que ele e a minha vontade quisessem; quando, num momento verdadeiramente inspirado, me recitava, «quando me tocas meu amor/ é como se as roldanas do tempo se desmoronassem/ nos teus nomes/ até que uma luz imprecisa regresse/ a essas mãos onde a respiração da tarde/ começa vagarosamente a arder», meu Deus, Senhor, santa Eulália, eu já não era eu, que se lixasse; era o núcleo da tempestade, portanto, viesse tudo, viesse de todas as maneiras, viesse até ao seu esgotamento.
O Paulinho, só à conta do alexandrino, foi comigo ao Paraíso meia dúzia de vezes, e voltámos sempre os dois em estado de máxima dependência tóxica.

Mas houve o amaldiçoado dia em que o Paulinho se enganou e, sem querer, claro, num daqueles desabafos próprios de início de corrida, saiu-lhe a frase preferida do Zé Verruga, a que tantas vezes ouvira cantarolada, em coro jocoso, na tasca do Xico da Preta, «até te refodia a cueca toda candavas de lado a bater coa jante no celindro!». Saquei-lhe, de imediato, ambas as mãos do meu rabo, que era onde as tinha, fulminei-o com os olhos verde-amarelos, repeti mentalmente, em segundos, cada sílaba desta frase, para melhor absorver a semântica: "refodia<-te> a cueca toda" e "candavas de lado a bater coa jante no celindro", não lhe dirigi uma palavra - que palavra?! - e deixei-o encostado ao muro de trás da escola, eram 8 da noite, sozinho com a sua bela tirada à Bocage...

Foi até hoje. O Paulinho nunca mais me viu rabo nem olhos.
Não passo pela mulher dele, aquela encantadora senhora, sem pensar "coitada, as indelicadezas que deve suportar ao brutamontes tarado, insensível."
E há, é um facto, homens muito ordinários. Como o Paulinho, que agora é gerente dum banco aqui perto. Olhando para eles, assim ao balcão, ninguém diz, mas a mácula permanece, o "eixo do mal" continua alojado naquele peito...

Não é o caso do meu amor, que esse usa cremes de dia no seu rosto queridíssimo, e malas de aventureiro, onde transporta as minhas coisinhas lindas, se necessário, e me fala ao ouvido só as palavras mais doces como tâmaras, e mornas como a areia do deserto - na zona do oásis. E me diz "bom dia", em árabe, e "és a minha luz" em francês, isso tudo de madrugada, logo às 10 da manhã. Ou as duas coisas em árabe, em agás aspirados, ou então as duas em francês, com o sotaque sensual que nos começa a desabotoar sozinho o camiseiro. E que, entetatanto, me vai lendo, baixo e lento, poemas do Ramos Rosa, do Sebastião da Gama e da Sophia... Porque, assim, povoa-se o amor de arte, nobreza, majestade, e ele vê-se crescer. Cria-se um jardim propício que lhe é dedicado, um lugar mágico para lá do real, onde queremos ser indubitavelmente seduzidas e amadas pela metáfora do Ramos Rosa.

O que eu sei é que o Paulinho perdeu um belo petisco. Na verdade, perdeu-se. Tivesse ele ficado pelo alexandrino, que seguia bom caminho e seríamos todos mais felizes (ele, de certeza).

quinta-feira, maio 19, 2005

Talvez, ainda


Foto Edouard Boubat

Seja possível.
Penso ingenuamente.

Escrevam-se alexandrinos, pois...

A Natureza faz as coisas pelo melhor; e nós, pela Cultura, tendemos a desbaratar e a asneirar. Veja-se o caso da homossexualidade: a homossexualidade não é uma invenção da Cultura; mas o casamento público entre homossexuais, com cerimónia e cânticos, é; e o Alex também. Eu não desejaria que às mulheres fosse vedado o direito de estudar nos Politécnicos e exercerem lugares de chefia. Mas também desejaria que não me desejassem elas ver-me capado, dócil, a escrever em francês, a falar devagarinho com voz melíflua de cana rachada e a escrever de empreitada, como se «brotassem de dentro», poemas damor. Ora, quando se é sincero não se fica a espalhar o verniz e a acicatar a veia lírica: deixa-se prosseguir o que há em nós da fase palafítica. Por isso comovo-me até às lágrimas quando um tipo que andou na tropa vê passar uma senhora boa como o milho e lhe sai um profundo e sincero «isto é que é material de guerra do bom!» - sabendo do que fala. E entristeço-me, desconsolo-me, se elas preferem poemas, que por definição decorrem da mentira, da invenção, da efabulação, da goma e do embuste. Na semana passada, quando a engenheira do Ministério me apareceu lá em casa a falar de cerejas, e de vernalização, e indução floral, eu rebaixei-me a escrever-lhe uns versos, porque já sei do que a casa gasta: «quando me tocas meu amor/ é como se as roldanas do tempo se desmoronassem/ nos teus nomes/ até que uma luz imprecisa regresse/ a essas mãos onde a respiração da tarde/ começa vagarosamente a arder». Ela comoveu-se. E deitou-se-me logo. Ora confesso que eu seria muito mais sincero se lhe dissesse mas era «até te refodia a cueca toda candavas de lado a bater coa jante no celindro!».

Acontece que uma coisa não se dá com a outra, e as meninas preferem a verdade das mentiras. É a vida – escrevam-se alexandrinos...

Cavernícolas



Gosto de homens. Tenho de admitir. Gosto mesmo. E é por gostar que me preocupo, que aconselho - que aqui venho como uma mãe! Porque neles, nem tudo são rosas. Há muita jardinagem a pedir para se realizar.
Um aspecto do génio masculino que me incomoda bastante, e que tem deixado o planeta, física e humanamente de rastos, é o fascínio pela guerra. Os homens gostam de guerra. De material de guerra. Gostam de conduzir tanques, disparar armas, fazer pontaria ao alvo. Gostam de manejar as peças; sentir-lhes o toque do metal, dos pormenores lavrados; distingui-las pelo som, eficácia, rapidez do disparo ou do gatilho. Gostam do cheiro a sangue.
Lembram-se das recentes descrições de soldados americanos no Iraque, avançando pelo território disparando incessantemente, gritando, como em transe, canções de morte e sangue e destruição? Eu lembro-me. Não pude acreditar que fosse possível cantar e gozar enquanto se destroem vidas. Os momentos de vida e de morte são igualmente sérios e sagrados. E iguais.
Tal reacção de gozo, excitação perante a morte, desculpem!, não tem só a ver com adrenalina de vitória, de aventura, mas com o prazer da guerra enquanto prazer da morte.
Não será assim com todos, certo. Muitos há que conseguiram ultrapassar o estado cavernícola, graças à influência das mulheres com quem se relacionam; esses são os que caminham, a passos largos, para uma existência já um tanto palafítica.
Mas mesmo esses, gostam de se envolver à porrada. E, se não a praticam, dizem muitos palavrões, que é uma forma de andar à porrada sem usar os punhos. E sabem fazer cocktails molotoff, que é arte que não passa pela cabeça de ninguém.

Não é por falta de jeito que as mulheres não vão caçar às quintas de madrugada e ao domingos, é porque até se agoniam de ver o bicho morrer. A gente agonia-se com aquilo de estar ali a roubar a vida ao bichinho que ainda esperneia, ainda por cima para nada; a sentir o cheiro enjoativo do sangue quente. Vamos lá ver, que mulher pode sentir prazer em enterrar o cebolão no coração do suíno? Os homens, sim!. Eles adoram a matança, aquele ritual de enterrar a faca e ter nas mãos, naquele instante, o poder de retirar a vida, devorá-la... Até se lhes entesa o pau, caraças! Ora, isto, não me parece muito saudável do ponto de vista psicológico. Até me parece uma valente tara!
Uma mulher não mata, porque atingiu um estado civilizacional em que não só não concede nobreza alimentar à carne, como, se precisar de a consumir por algum motivo que lhe será alheio, sabe que pode ir ao Jumbo comprar já embalado, e sem sangue. Mas uma mulher sabe mais, sabe que o sangue gera sangue; a morte, morte, e, por isso, dirige-se, logicamente à secção do empadão de soja, do guisado de tofu com beringela, dos panados de seitan com ervilhas, das favas guisadas com todos (todos os legumes!)...
Porque os homens é que gostam de comer carne, para depois desejarem muita carne, acumularem materialidade boçal que justifique um batalhão... Nós, as mulheres, somos doces. Nós, as mulheres, não gostamos de porrada. Gostamos que falem connosco devagar, suave, e que nos escrevam poemas. Nós, as mulheres, gostamos de nos envolver, sim, mas é com os homens, e muito, sim, mas é na cama (ou noutro lugar qualquer, não somos esquisitas!). Aí adoramos o confronto. Nós queremos é meter-nos com eles na cama como umas ratas em ninho de ratos, e os parvos na rua à porrada! Depois admiram-se que, de vez em quando, tenhamos de nos acalentar umas às outras. Também não é que nos custe: temos bom gosto, sabemos o que é bom... e aprendemos, há muito tempo, que, na "matança" do amor, o enterrar da faca assume, por vezes, carácter facultativo. Não digo sempre, mas para desenfastiar...
Ora esta conversa vem toda a propósito de eu, hoje, vindo a subir, afogueada, a rua das Flores, aqui no meu bairro, escutar, de dois senhores, que me viam passar, mirando-me como se mira a montra de um stand de tanques de combate ou coisa assim, o seguinte comentário, "isto é que é material de guerra do bom!"
E a expressão remeteu-me imediatamente para questões de ordem linguística: a importância da gíria sócio-profissional, a expressividade dos recursos de estilo, nomeadamente da metáfora. A adaptação da dita gíria e recursos de estilo aos contextos... E nós sabemos que estas coisas nunca são por acaso.

quarta-feira, maio 18, 2005

Ainda os morangos



Isto dos morangos lembrou-me a engenheira das mamas antecipativas – quer dizer, que chegam sempre, voluntariosas, indóceis, emancipadas, uns bons dois ou três minutos antes dela às reuniões. Mas falemos dos morangos. Dos morangos, portanto, eu temo sobretudo a podridão cinzenta; os leitores, em regra, não; porque a podridão cinzenta (que a engenheira das mamas antecipativas designa por Botrytis qualquer coisa) ataca-se facilmente à força de fungicidas que detenham percentagem razoável de substâncias activas da família da hidroxianilida (se vocês andassem nos corredores dos subsídios também não se vos dava estudar as bases).

Mas a podridão, já se vê, não chega geralmente ao frigorífico do consumidor que espuma pelos cantos da boca seduzido pelo tamanho do fruto, e pelo brilho do encerado, e diz é um quilinho-faz-favor cagando-se para os resíduos que consumirá, e que em certos casos diluirá em vinho do Porto ou (recomendo) um cibo de suminho de laranja – e, não raro, muito açúcar, dando-se então o caso de o sabor intrínseco do fruto não atrasar muito nem adiantar grande coisa e que se foda.

Mas a Botrytis não ataca apenas na fase de produção: ah, e então aí os leitores até se passam, pois o bolorzinho continua actuante após a colheita mesmo a temperaturas muito baixas – e há que remeter a compra ao frigorífico; e isso sabem vocês, e intuem, mesmo sem a engenheira das mamas antecipativas vos explicar o processo, que o melhor mesmo é não facilitar e guardar os morangos no congelador: sim sim, a putrefacção causada por um Rhizopus não se comove se as temperaturas onde gatinha não descerem aos, digamos, cinco ou seis graus negativos.

Eu produzo em pequenas parcelas, sem a ganância do alargamento da época de produção, sem brometos de metilo a garantir a solarização do solo, sem fungicidas – porque como o morango ao prazer e não ao quilo, porque é recolhê-lo em pequenos quantitativos e automaticamente papá-lo, e porque só o seu sabor intrínseco em boa verdade me alvoroça. Consumo menos que outros que facilitam no processo ou vão às compras? Sim. Mas não se preocupem com isso (eu era para guardar segredo, mas já que estamos aqui que ninguém nos ouve): as fontes de flavonóides que o morango garante – e um anti-oxidante é sempre um anti-oxidante, claro – tenho-as eu garantidas por via dos morangos, quer dizer, das mamas antecipativas da minha conselheira pessoal do Ministério da Agricultura, que até ma leva a casa (ele, o Ministério, a ela, a engenheira) pagando-se com o orçamento público os consumos de gasóleo inerentes.

terça-feira, maio 17, 2005

Vou ali

Pois estava eu a preparar um desabafo sobre o clima, que primeiro é a seca e depois a chuva e as baixas temperaturas, quando topo com as caixas de comentários em estado volátil. O amor, sim – isto a gente nota à distância, e distingue a olho nu se é de facto amor ou facécia, como a literária dos meus anteriores e descarnados posts. E portanto, assim como chego – zarpo em passo de corrida. Já sei, já sei, os leitores estarão mais do que evacuando-se para os meus problemas com os tubérculos e o padrão de enxerto dos pomares, e se chove ou não chove, e se estou sujeito aos ataques do pulgão ou da aranha vermelha. Eis porque solicito licença que vou ali já venho– mas entretanto deixem-se estar à vontade...

domingo, maio 15, 2005

Tão, tão perfeito...


Ai, ai, o que é que eu faço à minha vida! E logo eu, que não sou a 100nada! Porque isto está a ficar parecido!
E logo eu, que não sou a Nicole Kidman!
E agora, o que é que eu faço?

Espírito

Às vezes, um ninho de paz na voragem da tempestade.
Quase sempre, uma voragem de tempestade na concha aberta da paz.

Tudo


Foto de Michelle Gigure, em Xupacabras
(em que outro lugar poderia eu encontrar corpos tão intensamente amados/ amáveis?!).

Não sabias resistir ao odor intenso, morno, doce e salgado que se soltava do interior das minhas coxas, ao sumo maduro que vinha do meu sexo fêmeo e se espalhava pela sala, pairando húmido sobre todas as coisas, como se o lugar onde nos mantínhamos completamente fechados, com o desejo desaçaimado, estivesse repleto de rosas e cravos colhidos na nossa véspera.

L' être sauvage


Foto de Aline Paumard

A escrita torna-nos selvagens. Regressamos a uma selvajaria de antes da vida. E reconhecemo-la sempre, é a das florestas, tão velha como o tempo. A do medo de tudo, distinta e inseparável da própria vida. Ficamos obstinados. Não podemos escrever sem a força do corpo. É preciso sermos mais fortes que nós para abordar a escrita, é preciso ser-se mais forte do que aquilo que se escreve. É uma coisa estranha, sim. Não é apenas a escrita, o escrito, são os gritos dos animais da noite, os de todos, os vossos e os meus, o dos cães. É a vulgaridade maciça, desesperante, da sociedade. A dor é, também, Cristo e Moisés e os faraós e todos os judeus e todas as crianças judias e é, também, o lado mais violento da felicidade. Acredito nisto, sempre.

Duras, Marguerite (1994)
Escrever
Lisboa:Difel

sábado, maio 14, 2005

Um só tempo, para sempre


Foto em www.fleshandcolor.com

Era uma vez a primeira Primavera do mundo. Os amantes conheceram-se nessa Primavera e fizeram amor na terra em cima das flores debaixo das árvores cheias de flores e de ovos. Continuaram a fazer amor no Verão debaixo das árvores carregadas de frutos e de folhas no meio dos grilos e das cigarras, no mar e nas searas. Quando veio o Outono, continuaram a fazer amor na terra, as folhas caíam sobre eles e eles não se importavam, até gostavam. No Inverno, a neve caiu sobre eles e tapou-os completamente. Era o último Inverno do mundo, um Inverno que durou para sempre. A neve cai sempre sobre a neve sobre os amantes e os amantes fazem amor dentro da neve para sempre.

Adília Lopes (2000), Irmã Barata, Irmã Batata
Coimbra:Angelus Novus

Religião


Lago Natron, Ol Doinyo Lengai, Arush, Tanzânia
Foto de Christian Edouards em a mega fauna

Quero voltar contigo ao princípio do mundo, à deriva dos continentes, à mutação das espécies, quero voltar contigo ao chão de barro, à rocha, ao fogo, à gruta, quero voltar contigo, amor, à colina de sol e vento dos antepassados, onde nos olhámos, sós, olhámos bem dentro, parados, olhámos como olham dois animais pela primeira vez, e cheirámos e lambemos os sexos mútuos sem maldade, como se fazem os animais, de todas as vezes, para nos reconhecermos tanto, quero voltar contigo ao amor, a esse lugar onde lamber o sexo é tão puro, tão agrestemente puro e perfeito. Tão sagrado. Amor.

Lago Ubari, Líbia
Foto de Marchat Loia em a mega fauna.

Arusha, Tanzânia.
Foto de Jessi Vittegleo, em a mega fauna.

sexta-feira, maio 13, 2005

Queda livre


Grand Canyon (USA)

Para o meu amigo Bin Tex, de amegafauna.

Sonho periodica e recorrentemente com dois tipos de paisagem distanciadas no espaço, algo diferentes, não excessivamente: as estradas de terra vermelha batida, as de África, onde caminho sempre descalça, sempre de tranças louras e calções de sarja de algodão branco, manchados do pó da estrada; o Grand Canyon onde nunca fui, onde só vou nos filmes de Hollywood.
A minha África vermelha de pó é, em largura, um precipício vasto como o Grand Canyon.
E o que te quero dizer e tu não sabes, nem tu, nem mesmo tu, mas que eu sei, é que já sou capaz de me atirar por eles abaixo e cair de pé, mesmo quando chego, ao meu lado, completamente estatelada. E gostaria de experimentar se a queda real poderá transcender a figurativa.
É um sonho. Selvagem outra vez.

Grand Canyon (USA)

Grand Canyon (USA)

quinta-feira, maio 12, 2005

"Porque tu vais de mão dada com os perigos"

dois segundos sou tomada atravessa-me esse relâmpago de lucidez leva-me
esse abismo que se retém esse lume lento bravo essa coisa tão voluntária de carne e água
deambulando como se até estivesse perdida como se até
retornando por vício por destino inaprendido a um mesmo ponto de luz fixa alta imutável um cabo um farol algures abaixo dos meus pés
mil quilómetros a sul do meu corpo
onde sou o mundo perfeito onde sei que sou que serei sem tempo
o mundo perfeito

Manhã clara

Estatuto de Autonomia

Eu quero andar
cos zapatos
nas miñas mans,
neste desamor que
é tamén autonomia.
(...)

Lupe Goméz, Pornografia, 1995

Aqui, na terra


Vincent van Gogh, Nuit Etoilée

choveu pela noite longa. não sei se nos outros planetas as estrelas puderam revolver-se.

Eu, agora


Fotografia de Jean Dieuzaide

quarta-feira, maio 11, 2005

A menina da Direcção Regional

Ontem foi dia de visita «de campo» da menina da Direcção Regional de Agricultura. E então sucede que a menina não gosta de futebol («não é que não goste, tá' ver, mas parece-me monótono, o único objectivo é introduzir um golo e depois às vezes os contendores aleijam-se e repreendem o árbitro») nem de política («não é que não goste, tá' ver, mas eles são todos iguais») e o assunto falhava. O constrangimento começava a pesar sobre a toalha da mesa do almoço. Esgotada a conversa sobre o subsidiozinho lá me predispus a mudar de estratégia e demandei-lhe, um cibo a despropósito, é certo, mas não muito, se não gostava do Camilo, pois curiosamente na visita anterior tinha-lhe citado uma tirada da Brasileira de Prazins que se lhe deve (à menina da Direcção Regional) ter entretanto obliterado. E ela, coisa que não tivesse antevisto, olhou-me assim como quem diz «o Camilo que andou comigo no décimo segundo e tinha umas borbulhas no queixo que espremia durante as aulas de Física?». Não vale a pena. Eu começava a desistir concentrando-me na anchova escalada quando ela recomeça «...sim [não apanhei o início da frase], bem certo é que vivemos numa sociedade que já não desabafa e perdeu o sentido da confidência e da partilha, da partilha das coisas íntimas, da confissão e discussão dos problemas que nos afectam, tá' ver?». Eu nestas coisas fico logo de pé atrás e temo, deixo-as andar. Aquilo, claro, era tirado dum livro de auto-ajuda, e quem lê estes livros precisa de ajuda, que a menina deveria andar a ler aos capítulos a ver se na decifração do calhamaço poupava em anti-depressivos ou demonstrava em público inteligência e perspicácia e respondi-lhe que sim, até por razões deontológicas (tenho um primo direito que acaba de concluir a especialização em psiquiatria). «E se não nos relacionarmos, tá' ver, se nos fecharmos em concha, tá' ver, como é que nos damos a conhecer uns aos outros, como é que criamos liames profundos?». E eu a confirmar-lhe que sim, e realçando que no meio disto tudo o que mais me preocupava ainda era esta nossa incapacidade de «criar liames profundos»...

Foda-se, o que não se aguenta por mor dum subsídio à amêndoa produzida em modo biológico – e o ministro a dar-lhe com a modernização do sector...

Ninho de instinto



Sou um bocado choramingas!
Acabaram de me contar, via telefone, o seguinte fait-divers da vida real, que passou, há duas horas, num canal da televisão espanhola:
- lá para a Tailândia, ou coisa que o valha, uma cadela, acabada de parir, encontrou na floresta um bebé recém-nascido, abandonado para morrer: abocanhou-o com cuidado (pensa-se!, porque a criança não se encontra magoada) e carregou-o para o ninho dos seus cachorrinhos, local onde o depositou e onde foi encontrado pelos humanos.

Não me deram mais pormenores, mas, na minha cabeça, imagino a história completa: o bebé indesejado e impossível no momento em que é escondido, embrulhado numa trouxinha velha; a cadela a seguir o rasto do cheiro a parto, a sangue, que esse ser traz ainda na pele tenrinha; a cheirá-lo e lambê-lo; a procurar, instintivamente, forma de transportar, abocanhada, aquela cria frágil; imagino o percurso que fez com o bebé pendurado (isto faz-me lembrar qualquer história da minha infância, não sei! - a história do lobo mau que afinal não era mau)...

Tenho pena que a criança tenha sido retirada do ninho dos cachorros. Deve ser tão quentinho e tão doce estar ali misturado com os outros cachorrinhos. Escrevi "outros" sem querer. Só agora reparei!
Mas eu gostaria de ter disputado a teta de uma cadela com os meus irmãos cachorros; gostaria de ter aprendido a falar a mesma língua.

Durante muitos anos, já muito adulta!, desenvolvi uma fantasia que me ajudava a adormecer - às vezes, ainda me ajuda: imaginava que era aceite numa matilha de lobos, e que dormia com eles, a monte, em plena serra; ao relento, mas muito quente, aninhada no meio de todo aquele pelo e calor de bicho. E havia, nessa fantasia, um comprazimento tão grande, um conforto, um entendimento que me adormecia. Era um bicho entre aqueles bichos e não era mais nada. Ser bicho foi um pensamento que sempre me agradou. Ser selvagem.
l

Fragmento para um discurso amoroso


Calendário Pirelli em http://monsieurphoto.free.fr

Passou, leves, os lábios pelas marcas muito antigas e recentes do rosto tão querido... prendeu-o com ambas as mãos, porque o queria voluntário; beijou os olhos fechados que tremiam, como tremem os olhos fechados, se tocados, e pareceu-lhe que ficavam menos tristes; bebeu, fluido, o odor escuro do cabelo, da nuca, que acordava lentamente - e esse momento único foi de terra.

terça-feira, maio 10, 2005

O mundo

devia-te dizer mais vezes o quanto te amo
todas as vezes todos os dias muitas vezes
que te amo e
que tu sorrisses que ficasses assim
só ausente na tua imaterialidade pura
só suspensa das minhas palavras enunciadas a medo
porque te amo tanto
eu amo-te tanto que chego a assustar-me que
chego a assustar-me de seres tu a minha vida de
eu ser apenas no que tu me fores meu amor do
que tu fores de mim
que chego a temer que o mundo
possa quebrar esta pedra de gelo incandescente
que é tu estares a meu lado
e respirares o mesmo ar
e adormeceres quando finjo adormecer
para ficar a teu lado meu amor
a ver-te dormir

Que nada lhes falte

«Durante todo o jantar, os homens devem zelar porque nada falte às senhoras que estão junto deles. Não se sentam à mesa senão quando elas estiverem já sentadas e não desdobrarão o guardanapo senão depois delas o terem feito.»

Baronesa de Espinheira, in «Tratado de Boas Maneiras, de Etiqueta e Civilidade». Editorial Crisos, Ermesinde.

A caça

Bem explicava a Baronesa de Espinheira que «a caça ao marido, por parte da menina casadoira ou de sua mãe, é tão antipática como a caça ao dote por parte do homem». Mas à senhora Baronesa, já se sabe, davam-lhe ouvidos moucos.

segunda-feira, maio 09, 2005

O orgulho (brando)


Foto de Stefan Rohner.


Fêmea. Diz fêmea e reconhece a mulher, a criatura de intacta razão e sonho que envolve e abriga.
Diz fêmea e consome o orgulho, para que os homens, tão confusos, tão materiais, ainda, possam experimentá-lo ainda, ainda, ainda, como se valesse a pena, como se fosse uma qualidade que nos ensinaram em casa, "sê orgulhoso, teimoso, não cedas, levanta sempre a cabeça acima de todos os outros..."; oh, o judaísmo-cristão: o caminho certo da dor!
O orgulho, uma réstia de consciência inútil que a fêmea lhes oferece, para que possa, ela, vencer essa luta perdida à partida, e, eles, delicada, fragilmente, perdê-la. Quebrar o granito do medo, dos muros que não guardam. Tão simples. Tudo tão simples, afinal.
A fêmea, criatura, que engoliu o orgulho a seco, todos os dias - um pedaço certo e sanguinolento: uma massa de carne maligna cravada na garganta, atada à voz em nó apertado; que não permitia respirar nem sorrir. Nem dormir nem pensar nem viver. Tolhia o coração, serrava o peito.
A fêmea, a quem o orgulho roubava a vida, a poesia completa, a verdade que proferimos sem saber o que dizemos...
Imagina, agora, se puderes, a fêmea, essa mulher sem orgulho, que abranda o teu, tão sólido; serias capaz de, ao calmá-lo, erguer, um pouco, às vezes, a barreira contra o mundo; fruir a alegria calma dos dias de ouro que te são devidos, de um fragmento secreto, só teu, deste mundo perfeito?
Uma frase de cristal sussurrada sem medo, as mãos afagando o triângulo sensível, agora doído, do teu rosto. Sentir-te-ias feliz? Sem culpa? O que poderia arriscar dizer-te, agora, a fêmea sem orgulho?

domingo, maio 08, 2005

Como salvação



O Amor

O amor foi
um trallazo moi forte
que rompeu a
ventá. E quedou rota
para sempre. Eu limpei
do chan
os cristais. Corteime
con eles
en tódolos dedos.

Lupe Goméz, Pornografia, 1995

Os bloggers

Uns iniciam blogs para combater a predominância blogosférica da esquerda.
Outros mantém blogs para dar porrada nas incursões blogosféricas da direita.
Os da direita mostram carradas de miúdas boas e "ameaçam" que lhes pagariam uns jantares, se elas deixassem; os da esquerda mostram pouquíssimas miúdas, não acreditam no poder da imagem, e manifestam desprezo pelos blogs coloridos - mas também não mostram miúdos...
Depois, há os photobloggers, que não são da direita nem da esquerda, pelo menos que se perceba, e que mostram miúdas e miúdos – mas numa perspectiva artística!
Gosto muito dos photobloggers...
Eu, que estou aqui para me divertir (e arranjar filiados para um partido feminista!); eu, que mostro montanhas de miúdas e miúdos, roubados aqui e ali, com que ilustro posts de 2 páginas A4 (a ver se alguém lhes pega!), serei o quê?
Tanto esforço, tanto creme perfumado, tanta roupa, tanto sapato de salto alto, e a mim ninguém ameaça que me paga jantares! Isso é que eu sei!

Mudanças


Burt Lancaster

O magnífico, imponente, carregador moldavo que fez as mudanças da minha amiga, ontem, parecia um Burt Lancaster de 20 anos (naquele épico de Hollywood, um que "passa" sempre na Páscoa, o do cristão que é levado como escravo para as galés, onde o espera morte certa - safa-se...).
Carregava com destreza, magnificência, força de touro - suponho que hoje ainda as mantenha!...
Não falava português, mas explicou-me visualmente, tim-tim por tim-tim, que, embora mal falasse a língua - apenas o básico para o serviço, e não se podia exigir mais!: à direita, à esquerda, para cima, para baixo, mais devagar, cuidado, aí não, ali, aqui... - sabia usá-la criativamente, tal como às mãos, que se exprimiam num Português materno, fluente, eficaz, um pouco nervoso.
A minha amiga ficou satisfeita com o serviço, e não saiu caro. Acho que vou (voltar a) precisar dele para as minhas mudanças

A bola: revisões da matéria dada

Tudo o que sei sobre futebol, aprendi esta semana, em explicações à hora do almoço! Espero ter percebido bem.
Fiz este resumo da matéria para me ajudar a estudar: na próxima semana vou ter teste e convinha-me passar!

O campeonato nacional tem 18 clubes (são só os da 1ª divisão!), que jogam 34 jogos, uns dentro, outros fora (saber quando é que são dentro!). São 34 jogos e não 36, ou seja, 18x2, porque cada clube não pode jogar consigo próprio!; portanto, são 18 clubes, mas cada clube só pode jogar com os outros 17! Logo, 17x2=34!

Quando chegamos a esta época, estamos no final do campeonato nacional. É uma altura importante, porque vai decidir não só o campeão, como o posicionamento dos restantes clubes no dito campeonato, determinando a sua participação na Liga dos Campeões e na taça UEFA.
A UEFA é uma espécie de associação dos clubes europeus; disputam esta taça os clubes classificados no 3º e 4º lugar nos campeonatos de cada país (incluindo os do Leste).
Na próxima semana vai haver um jogo da UEFA cá em Lisboa; é um jogo do campeonato anterior, e o Sporting participa. Parece que é uma coisa muito importante. (Agora já não me lembro se é a final. É com um clube de Moscovo, com um nome impronunciável. Não sei se estou a fazer confusão, porque é muita matéria. Mas não deve ser a final com o Sporting, porque então o Sporting poderia vir a ganhar uma taça UEFA, não é? Mas parece-me que o jogo é em Alvalade, e isso deve querer dizer que o Sporting joga. Bem... )

A Liga dos Campeões, por algum motivo desconhecido, é mais importante que a taça UEFA, e nela participam os campeões e vice-campeões dos campeonatos dos países europeus (incluindo os do Leste); e agora, deixa-me ver, eu não queria errar: os latino-americanos entram em qualquer sítio, não sei se é aqui, se é na taça inter-continental, que é disputada entre o clube que vence a Liga dos Campeões e o melhor da América Latina. Não, mas então não teria sentido os latino-americanos entrarem na Liga dos Campeões, porque o vencedor podia ser o Brasil, e imaginemos que o Brasil era o melhor da América Latina, com quem é que o Brasil jogava? Ok, há aqui um gato qualquer. Esta parte da matéria não está clara. Bem, a Liga dos Campeões é uma amálgama de clubes que jogam entre si, e que não são apenas europeus, deve ser assim. (dúvidas a esclarecer)

O ano passado, o Porto venceu o campeonato nacional, a taça UEFA e outra, que deve ter sido a Liga dos Campeões. Este ano, o campeonato nacional pode ser ganho pelo Sporting ou pelo Benfica, tudo depende do jogo que vão ter para a semana, isto porque o Benfica perdeu hoje. Vai ser um Sporting-Benfica. Mas como é que o Sporting, coitadinho, vai jogar 2 jogos importantes na mesma semana? Qualquer coisa está mal lá para trás! Não deve ser possível que um mesmo clube esteja a tentar safar o campeonato nacional deste ano e o europeu do ano anterior. Isto é muito confuso (esclarecer).
Segundo percebi, se empatarem, decide-se tudo num outro jogo, o último, na semana de 18/05. Se um deles ganhar, pode considerar-se logo vencedor nacional, embora ainda tenha de ir jogar o tal outro jogo. Portanto, resumindo, parece que, este ano, o Sporting e o Benfica é que estão encaminhados para ir à Liga dos Campeões, sendo que um deles vai ganhar o campeonato nacional. O Porto e outro qualquer, tipo um clube do Norte ou este aqui de Setúbal (esclarecer antes do teste) vão à UEFA.
Concluindo, os jogos do campeonato nacional são ao fim-de-semana. Os outros jogos são à quarta-feira; mas às vezes são à terça ou à quinta, depende.
Nunca se sabe, isto também pode sair.
Sinto os conhecimentos pouco solidificados, num ou noutro ponto...

sexta-feira, maio 06, 2005

O voo das aves

gostava que me dissesses apenas
sim como quando chegavas cedo a tremer de frio
«às vezes os teus olhos e o mundo confundem-se»
e que a passagem das aves por um instante te pudesse sobressaltar
com medo de que as suas sombras
céleres
desenhadas no cimento do terraço
me levassem nesse voo em formação ordenada
e eu me transformasse
em matéria volátil

A tua água


Foto de Patrick Demarchelier

quinta-feira, maio 05, 2005

Dormindo



o fôlego enleado em fios de cabelo - o calor que as coxas embebem, abraçadas - o aroma levemente telúrico da carne húmida - o sexo macio rente às nádegas - a névoa de dormência mútua que transmuta dois sonos numa única viagem - treme - respira

Esta noite

os olhos que te viram partir sim escondendo as lágrimas sim
tentando em vão apagar memórias
são ainda os mesmos olhos que num sobressalto pelo fim da tarde
se o rumor de uma ave cruza o pequeno espaço do pátio
se erguem para ver se és tu que regressas
são os mesmos olhos sabes que em subindo ao terraço
vigiam os caminhos da encosta vigiam o vale
vigiam as sombras que as luzes minúsculas da cidade projectam nas águas
como pequenas luzes amarelecidas nos seus nomes
é assim sabes o que seria de nós o que seria da vida se
não conseguíssemos pôr de parte o orgulho
o que seria de mim se o orgulho me precedesse quando movo as mãos
por exemplo à procura de um objecto que
as tuas mãos tocaram nos meses de novembro
se não tivéssemos forças para espremê-lo até ser volátil
o que seria de nós se não conseguíssemos amassar o orgulho como se
amassa o pão nas manhãs de domingo
eu sei lá o que digo meu amor disperso-me sabes
perco-me nas minhas próprias frases
eu falava do orgulho
dizia que não te peço mais nada
não te peço mais nada não te peço que me recordes não te peço que reconsideres
não te peço que me ames peço-te meu amor
peço-te
apenas te peço que adormeças devagar esta noite dizendo apenas o meu nome
que adormeças como se eu estivesse ainda a teu lado
e por um instante mudasses a cabeça de lugar
sentindo a minha respiração nos teus ombros

Uma mala



A minha não o faz por mal. É atenciosa. E sabe que nas coisas do amor devemos ser presentes, e que o amor é sobretudo uma especial atenção e um especial cuidado com as pequenas coisas diárias. Eu sei que não faz por mal. Que é por amor. A verdade é que me oferece, de quotidiano, coisas múltiplas e espantosas: bonequinhos de madeira com um papelinho colado na base a dizer «o amor é...», postais impressos aos milhões com uma anedotazinha específica (do género «tu és o melhor jogador do mundo», acompanhando-se a frase com o desenho dum sujeito de calções, gesso e muletas), isqueiros enfiados em suportes decorativos, pequeninas peças de porcelana (porquinhos para a estante das facturas da palha, anjinhos armados em Cupido para pendurar no retrovisor da station, elefantezinhos de alevantada tromba metafórica...), exemplares geológicos a imitar ao fóssil, porta-chaves com pompons... É por isso que me divido. Porque o faz por amor. Eu sei. E são tantas coisas que a páginas tantas também eu acabo por ter necessidade damá-la.

quarta-feira, maio 04, 2005

Miss Maio



Isto anda mau. O pessoal anda todo a sofrer de síndroma pré-menstrual.
Eu, sobretudo, mas nem a esse luxo me posso entregar.
Eu, que passei a tarde a discutir representações do feminino na literatura do século XIX, a urgência de um novo feminismo e as armadilhas do patriarcado! - vejo-me na contingência de fazer uso do discurso icónico do mesmo patriarcado com o objectivo de levantar a moral às tropas.
Ainda pensei colar aqui uma florzinha com umas palavrinhas cristãs, sobre o lindo dia de sol que vai estar amanhã, sobre a bonança que se segue à tempestade, mas pensei melhor: o que é que recupera eficazmente, sem falha possível, a moral às tropas? E lembrei-me da Marilyn no Vietnam ou na Coreia ou lá-onde-é-que-era a cantar para uns do "Apocalipse Now". Estou a ver-lhe bem o vestidinho e respectivo decote. Um decote realiza milagres. Constipações também, mas a minha vida pessoal não é para aqui chamada...
Enfim, só hoje, e porque isto é serviço público!, e porque valores mais altos se levantam!, perdoe-se o mal que me sabe, pelo bem que lhes faz.

Aparência

A Primavera é perfeita.
Súbitas constipações, espirros e alergias ao pólen constituem óptima desculpa para olhos vermelhos.

Segundo segredo de Isabela

Fazer vida de artista.
Em dias opacos realizar os gestos de sempre: levantar, lavar, vestir, pentear, disfarçar as olheiras, comer, sair, caminhar, falar, sorrir, gracejar.
Tenha o pai morrido de madrugada... the show must go on.

Em quinquagésima mão, e depois?!

Revista Maria, edição nº 1382, semana de 4 a 10 de Maio, €0,65, (crucifixo banhado a ouro por apenas + €1,25).

Página 1, rubrica “Em Primeira Mão”

Título: Diana e Carla têm novos amores

Corpo da notícia: As participantes do Big Brother 4 estão a aproveitar da melhor forma os efeitos da Primavera. Depois de uma relação conturbada com Zé, Diana tem novo namorado. O jovem chama-se Marco e a ex-concorrente do programa da TVI diz-se muito contente com o novo amor e a nova vida, pois as mudanças não se limitaram ao plano amoroso, estendendo-se ao profissional. É que Diana interrompeu os estudos na faculdade para começar a trabalhar numa loja. Por outro lado, a atraente Carla, que proporcionou algumas cenas tórridas durante o reality show, confessa também ter encontrado a sua alma gémea em Ricardo e o casal já vive junto. Parece que, desta feita, as meninas encontraram a merecida felicidade.

Profissão dos alvos de notícia: ex-concorrentes de programa de televisão e atraentes.

Assunto que motiva a notícia: novos namorados - o Marco (será o da Marta?) e o Ricardo (o das “cenas tórridas” também era Ricardo, ou são as anestesias gerais que já se fazem sentir?).

Culpado dos acontecimentos relatados na notícia: os efeitos da Primavera.

Informação suplementar que enriquece a notícia: estão muito contentes – tanto que a primeira até largou a faculdade para trabalhar numa loja; a segunda encontrou a sua vigésima-quinta alma gémea com quem faz a sua quadragésima-sexta tentativa de vida em comum.

Moral da notícia: encontraram a merecida felicidade.

terça-feira, maio 03, 2005

"Mais olhos que barriga"



Paradoxal: querem comer fora, mas não conseguem dar conta da mercearia que têm em casa; no Alentejo chamam-lhes garganeiros!

Desejar amá-la



Quantas mulheres conhecemos que não usem mala? Uma? Nenhuma?!
A maior parte de nós terá respondido "nenhuma". Não acontece por acaso. As mulheres são seres práticos e objectivos: antecipam, previnem: sabem que uma mala é um kit de sobrevivência! O McGyver, por exemplo, não o sabia, e às vezes via-se bem enrascado! Todos sabemos que uma mulher, à excepção de um pneu furado, coisa para a qual, admito, nos falta um gene - o da sujidade -, nunca se enrasca! Mas, de qualquer forma, temos métodos infalíveis, que não divulgarei aqui, para (nos) reparar(em) os pneus!
A bem dizer, qualquer mala nos serve: de mão ou de tiracolo, mochila ou saco; grande ou pequena; de pele, plástico, tecido ou corda; do que precisamos é de uma mala na qual possamos transportar e guardar os objectos que asseguram a diária existência biológica, económica e social.
Ora a questão que aqui se põe é a seguinte: como é que os homens podem andar na rua de mãos sacudidas? Como sobrevivem eles sem mala (nos anos 80 lembro-me de os ver andar de pochette)? Residirá aí a justificação para os chumaços que exibem nos bolsos? Onde raio transportam eles os seguintes objectos unisexo sem os quais é impossível sair, e passo a listar(??):
- chaves de casa
- chaves do carro
- telemóvel
- porta-moedas
- carteira com documentos, cartões de toda a espécie, cheques, fotografias da família, talões multibanco, facturas de compras, guias para levantar radiografias, etc., etc.
- esferográfica e bloco para anotações
- livro e lápis para sublinhar
- baton (hidratante)
- escova de cabelo
- aspersor de perfume
- tablete de Ben-U-Ron
- tablete de Nimed
- garrafa de água
- embalagem de soro fisiológico para as lentes de contacto
- lenços de papel
- óculos escuros ou de ver ao perto ou de ver ao longe
- caixa de adoçante para café
- caixa de fio dental
- pequena máquina de calcular
- cigarros e isqueiro (caso fumem)
- cêntimos, clips e elásticos (caídos)
- conta da luz, lista do supermercado, uma carta de amor
- alguns post-it amarfanhados com números ou recados escritos
- coisinhas que se vão arranjando aqui e ali (uma seixo da praia, uma noz, um rebuçado de mentol, um bonequinho de madeira que uma menina nos ofereceu...)

Como estimaria desvendar esses profundos, nebulosos segredos do eterno masculino!

Ainda os quatro minutos



Não digo em quatro minutos. Mas em duas horas, menina, fazia-lhe o cadastro. Juro pela blogosfera e pela coca cola, que não me deixam mentir.

segunda-feira, maio 02, 2005

Túnel de luz e silêncio


Foto em http://www.fleshandcolor.com


A acção decorre neste momento.
Não a conheço. É uma mulher morena, bronzeada, alta, imponente. Veste um fato de saia e casaco de sarja branca, justo. Traz uns enormes óculos escuros de armação branca.
Recostada num sofá individual branco, descai o busto negligentemente, entreabrindo as pernas de frente para as enormes janelas franqueadas à brisa feliz da Primavera; as cortinas de fino algodão branco, translúcidas, esvoaçam como as de uma casa de praia à beira-mar.
As mãos morenas, com irrepreensíveis unhas brancas, abandonadas abertas para o lado de fora; os cotovelos apenas pousados nos braços do sofá. Como alguém que se oferece para receber uma dádiva invisível.
Acabo de chegar de fora, de longe, onde sempre estive. Entro na imensa sala branca de paredes indefinidas e contemplo-a de perfil. Crianças correm de um lado para o outro, à sua volta, ruidosas, em desassossego. Não são nossas. A mulher, como um robot desligado, não se incomoda, não se sobressalta.
A voz de uma outra mulher, que atravessa a sala, apressada, carregando à cintura uma trouxa de roupa para lavar, informa-me, indiferente, "esta é a filha do teu pai". Ouço e corrijo de imediato, mentalmente, "esta é a outra filha do meu pai". Olho-a. Recordo as múltiplas, nunca assumidas infidelidades do meu pai. Acrescento para mim, "pode ser!"
Activada pela voz que passou, a mulher majestosa levanta-se imediatamente, alisa a saia antes de se endireitar, volta-se de frente para mim e estende-me o braço, sorrindo, olhando-me por cima dos óculos. É bonita, caramba.
É uma mulher enorme, inteira, com um longo e farto cabelo escuro, umas longas pernas bem torneadas, como uma miss das ex-colónias, como a Ana Paula Almeida, como a Riquita... Sinto-me insignificante perante o esplendor sensual daquela filha do meu pai. Que mulher fabulosa!
Assim que me estende o braço, as frentes do casaco, desabotoado, mas encostado ainda ao peito, abrem-se completamente, e expõem todo o seu tronco: e vejo-a nua da cintura para cima. Entende-me o braço, mas eu não posso responder com o meu, porque agora olho apenas aquele espaço nu até ao recorte púbico que a saia descaída permite. Um nu escultórico, de mármore: as mamas crescidas e cheias, espetadas na minha direcção como setas, os pequenos mamilos tesos, de um castanho quase rosa, o abdómen musculado, esticado, o ventre liso, a perfeita curva da anca.
E como se, consciente de tanta majestade, tivesse desejado tornar-se irreal, toda a sua pele brilha sobre o bronzeado, acrescentada de luz. Uma finíssima película de pó prateado cobre-lhe o pescoço, as mamas, o abdómen, o ventre, as ancas, cada milímetro da generosa pele. Pinta-a. Veste-a de nudez. E tal nudez é o tesouro.
Mantém o braço estendido na minha direcção. Continua a sorrir, a olhar-me por cima dos óculos, que ainda não tirou. Quer ser minha amiga, embora não mo tenha dito. Vai dizer-mo agora. Não trocámos uma palavra. Mas vai falar agora.
Sinto medo. Sinto muito medo da filha do meu pai.

domingo, maio 01, 2005

Pertencer a outro

Ontem, evocaram-me, pela primeira vez, não pelo meu nome próprio, mas enquanto “a mulher de...”.
Foi estranho, assim à primeira, mas penso que me habituarei rapidamente.
Mudei de apelido, como convém. Nunca tinha revelado o de “solteira”, e agora também já não vale a pena; fica o de casada, pelo qual desejo ser conhecida.
Sou a mulher do Blog, portanto, Isabela Blog.
Terei razões para sentir, como sinto, que sou traída?

Os outros (a que pertencemos)

Hoje disseram-me, “os bloggers não pensam em mais nada, vivem completamente dependentes do computador!”.
E eu concordei; era um bocado verdade; a maior parte deles passa-se, “realmente, eles queimam as pestanas em frente ao ecrã”.
Responderam-me, “eles não, vocês... tu queimas as pestanas frente ao ecrã... larga o computador!”
Nesse instante percebi que, se calhar, vivo um casamento de grande dependência; terei perdido completamente a autonomia? O Blog não só me trai com mais alguém, de certeza, como exige uma atenção constante. Não me larga. Pede resposta atrás de resposta. Faz enorme chantagem emocional.
A vida (a dois?) não é fácil.

Para sermos bem fodidas...


Ticiano, Vénus com organista e Cupido

O surrealismo dos homens chega a ser surrealista.
Pensam eles, desde que começaram a alambazar-se com a coxa "irreprimível e audaz", a barriguinha à Ticiano, o rabo farto, tudo devidamente recheado, que nos estão a fazer um grande favor. Acho-lhes piada.

Agora já não os podemos acusar de desdenhar a fartura, de se deixarem levar pelos modelos culturais hedonistas. Não, agora são uns bonzões, uns pacholas, uns modernos - até gostam da carnuça. Gostam de mulheres naturais, sem maquilhagem, sem produtos de beleza corporal; se pensamos e agimos ao contrário, continuando a embebermo-nos, matinalmente, em White Musk, lait scintillant pour le corps, da Body Shop, é porque não passamos de umas tontas, presas, ainda, ao padrão que acorrentou os nossos corpos durante o tempo das revoluções. A nossa insistência em manter uma beleza que já não valorizam, pelo menos da mesma forma, diz-lhes que não evoluímos. Acho-lhes piada.

Gostava de ver o que acontecia se, naturalmente, deixássemos de nos preocupar com a maciez das mãos com que os tocamos, se desprezássemos o vegetal cozido que vai conservando alguma graça na "voraz oscilação de ancas", o anticelulítico que ilude a "coxa irreprimível e audaz"; havia de ser lindo se, apesar do actual discurso que eles nos destinam (e que não é exactamente o mesmo que mantêm com os outros gajos, sobre gajas!), não fizéssemos por levantar as mamas e as nádegas, e não redobrássemos os abdominais que lhes oferecerão o torso que consideram apresentável, dentro da chamada categoria "bem servida"; se não mantivéssemos os lábios frescos, joelhos e cotovelos sem calo, dentes sem cáries e o sexo sem candidíase, surpresa com que periodicamente eles nos presenteiam; havia de ser lindo.

Acham que fazem um favorzinho à vida real: não se importam que a fruta seja de maior diâmetro, desde que cumpra as normas da CE; ou seja, brilho de cera, nada de toques nem dedadas. Ou seja, devidamente hidratada, depilada, perfumada. Acho-lhes piada.

A questão assenta, continuamente, no desejo que os meninos e as meninas albergam em igual proporção. Nesse desejo para eles tão volátil. Sim, vão gostar de nós eternamente, manter-se connosco para sempre, para o bem da família, dos filhos, da consciência da moral e bons costumes, não duvidamos (sabemos que os temos seguros, porque, felizmente, o divórcio, as divisões de tralha, as pensões para as crianças são uma trabalheira!); mas estamos cientes de que, enquanto nos abraçam, em pleno centro comercial, e nos ciciam, ao ouvido, "querida, tu é que sabes, tu é que mandas", nesse exacto momento, à nossa frente, contudo, nas nossas costas, grudam o olho abrasado à "beleza natural" que circula sobre uns tacões da moda, cabelos soltos levantando-se na corrente de ar deslocado. E à noite, quando lhes abrimos as pernas, fodem-nas a elas, não a nós, as maravilhosas e satisfatórias Vénus de Ticiano.

A questão, no final, é o desejo. O deles, sim, mas também o nosso. A questão é, afinal, aquilo que precisamos de continuadamente fazer ao nosso corpo para conquistar o direito a ser bem fodidas, magistralmente fodidas, como gostamos e queremos, e sem hipocrisia. O direito a ser não apenas eternamente companheiras, mas, para sempre, a "beleza natural" que circula ao vento, e à qual o desejo dos seus olhos e da sua alma completa se prende.

Na verdade, desprezamos os tais 4 minutos de obrigação e alívio, que acontecem porque estamos ali logo ao lado e, em aflição, "a cavalo dado não se olha ao dente". Não queremos ser úteis na qualidade de paramédicas. Na chamada prestação de cuidados básicos de saúde, basilar tratamento de urgência, apenas para manter intactos os sinais de vida, e depois, "pronto, já está!". Mero pronto-socorro.

O pessoal paramédico, às vezes, nem acredita na velocidade a que acabou de ser cilindrado, e fica de olhos abertos, um bocado vazios, a pensar que, realmente!, a vida, o amor são fodidos!

Futurologia: o amor



Iniciei, há uns tempos atrás, a coluna "Futurologia".
O primeiro capítulo versou o tema "educação no mundo perfeito".
O de hoje mostra-nos como encaram os jovens o "amor perfeito" - alunos(as) do ensino secundário.

De acordo com informações da professora que realizou o trabalho, as raparigas responderam com grande facilidade ao tópico; por outro lado, os rapazes pediram para o trocar por qualquer outro tema, afirmando não saber o que escrever, não ter ideias...

Penso que a identidade de género do autor(a), ou, se quiserem, as marcas culturais e sociais associadas às características biológicas de cada sexo são, aqui, facilmente identificáveis. Parece-me poder extrair-se alguma "moral da história" Não só pela clara diferenciação ao nível das atitudes, de acordo com o sexo, como também pelas noções de amor que apresentam: a fidelidade, a necessidade de evitar o divórcio, o amor para sempre... Fico na dúvida sobre se tudo isto enforma uma tendência social generalizada ou se reflecte apenas a ingenuidade de quem pensou e escreveu.

Imagino, também, o que escreveria sobre o amor no futuro, num mundo perfeito! Necessitaria de dois textos distintos: um primeiro sobre o que penso virá a ser, e no qual seguiria de perto as teorias de Giddens sobre "sexualidade plástica"; um segundo centrando-me no que queria para mim, ignorando totalmente o que se passasse no mundo, em geral.
Lá estão a teoria e a prática, de novo, em conflito. Nem sempre quero para mim aquilo que defendo teoricamente!

Se calhar, devíamos pensar nisto tudo.

(Nota: a transcrição respeita, na íntegra, a morfologia, sintaxe e semântica empregue pelos alunos.)

- "Deveria de haver uma onda hippie neste mundo actual."

- "Havia sempre sexo no primeiro encontro."

- "Se por acaso alguém trai-se alguém, este seria perdoado, pois errar é humano."

- "Deveria haver um rapaz ideal para cada rapariga, de maneira a que não houvesse indecisões e inseguranças que só atrapalham uma relação. Deveria haver um padrão de rapaz/rapariga que fosse quase perfeito(a). (...) Também não deveriam existir entraves às relações. Não poderiam haver relações de dualidade, Para isso deveria ser implantado um chip no corpo do homem/mulher pertencentes ao casal, para que se pudesse identificar, através da tecnologia avançada, onde está o outro, o que está a fazer, de maneira que existisse maior proximidade e cumplicidade entre o casal."

- "As curtes não deixavam de existir pois são necessárias para que não nos sintamos presos, comprometidos para sempre. Para evitar os divórcios, implantava uma lei em que, cada casal apenas se podia casar após cinco anos de namoro e um ano a viver juntos. Todo o amor era correspondido e ninguém sofria por ele."

- "As pessoas que se amassem não teriam vergonha de o demonstrar, e as outras pessoas não ficariam com um ar chocado por ver humanos a amarem-se. Estou a referir-me, por exemplo aos namorados que se beijam e acariciem na rua, por entre outras coisas normais."

- "Um casal ao decidir-se unir, unir as suas vidas, deveriam assumir um compromisso em que a pessoa que ele amasse seria parte do seu corpo. Assim deveriam-se respeitar, compreender-se mutuamente, fiéis e que o amor sentido fosse eterno, em que as pessoas veriam o seu par mais que um namorado ou marido, mas sim como um eterno amigo, a quem amariam, tendo sempre com quem contar."

- "Inventariamos também formas de corrigir o mau funcionamento cerebral pois a homossexualidade é um problema cerebral. Senão só existiria um sexo em vez de dois. Os problemas dos amantes nas relações não seria problema pois com a máquina poderia tratar todos os infiéis."

- "O amor deveria ser visto como uma pedra preciosa única com valor superior a tudo. Assim o estimaríamos até ao fim das nossas vidas, pois nunca encontraríamos nada igual. Depressa acabaria a infidelidade e o desrespeito pelo companheiro, tornando-se assim tudo mais cor-de-rosa. Caso contrário seria condenado à pena de morte, deixando de fazer parte da nossa sociedade."

- "Amor não é imortal/ acaba por morrer um dia/ e quem sofre no final/ é quem não esqueceu ainda."

- "As pessoas que querem casar cedo, sem conhecer devidamente o seu parceiro, deveriam ter a certeza do passo gigante que vão dar, o casamento, pois por vezes vão fazer a maior asneira da sua vida. Antes desse enorme passo, deveriam fazer testes ou desafios aos seu companheiro, para verem se o amor é verdadeiro ou se não passa de uma grande mentira, pois o casamento é para durar para toda a vida."

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...