quinta-feira, junho 30, 2005


Foto - Henk Braam, Agra, Índia

No início, quando caminhávamos nus, éramos nada, possuíamos nada, e não havíamos provado o fruto da árvore do bem do mal, o mundo era perfeito.

Isabel(l)a

Meg

Halle

Kate

Naomi

Elisabeth Taylor

Não me olhes só da bancada lateral

Oh, a salada russa que resulta da entrada em campo das equipas treinadas por João César das Neves e por Gloria Steinmen... Eu às vezes fico só na bancada, a ver, um bocadinho afastado do centro do terreno, e depois começo a desenfiar-me como quem não quer a coisa, dizendo de mim para mim «eu vou mas é ali já venho», e desapareço a mamar uns finos. Mas acontece que chegue a ficar por algum tempo a ver o espectáculo, divirto-me com os ícones desenhados nos estandartes, e com as frases feitas das claques, e com a lama borbulhando em redor de uns e outros quando progridem ou tropeçam pensando que dançam sem tocar o chão. Dum lado a repressão de nós em nós mesmos e daquilo que mais verdadeiramente somos, do outro a ideia estapafúrdia de que não pertencemos a ninguém e de que a liberdade é não haver regras – nem menstruais. No fim tomam-se duches nos balneários e, civilizados, chegam a cumprimentar-se um bocadinho à distância, e sucede que até acabe por dar gosto de ver.

quarta-feira, junho 29, 2005

Os Testemunhas de Jeová

A quem pertence um ser humano? Aos pais, ao Estado, a ninguém?

Por exemplo, a decisão dos pais é suficientemente soberana para decidir:

- que um filho adolescente possa tirar a carta de ligeiros aos 15?
- contratar com terceiros o casamento de um filho?
- que a escolaridade obrigatória é desnecessária?

Há inúmeros casos em que a decisão do Estado, felizmente, deve sobrepor-se à dos pais.
Com que direito, em nome dos preceitos de uma religião, os pais podem arrogar-se o poder de decidir sobre a vida ou morte de um filho?
A criança chega ao hospital a necessitar de urgente transfusão sanguínea, da qual depende a sua sobrevivência: os pais têm o direito a decidir que "não, não senhor, não leva transfusão nenhuma, porque a gente somos Testemunhas de Jeová", ou cabe ao estado a obrigação de decidir que "sim, leva sim senhor", porque aquele é, antes de filho, uma entidade, um cidadão?

Concordo absolutamente que os adultos (e sejamos optimistas: consideremos que se é adulto aos 18!) tenham poder de decisão sobre a sua existência. Concordo que o deixem escrito, que a informação passe a constar das bases de dados dos hospitais internacionais – não sei se os hospitais do Burundi têm bases de dados; à cautela, à cautela...
Que cheguem à urgência, todos estraçalhados, sem ponta por onde se lhes pegue, e que afirmem, “eu cá não recebo sangue alheio, que isso ainda pode ser de preto”.
Que cheguem à urgência, esvaídos e inconscientes, e que a família, ou a base de dados, possua documento, reconhecido notarialmente, comprovando que não autoriza transfusões, “porque isso ainda pode ser sangue de alguma cabrazana”. Inconscientes ou não, têm esse direito. Os testamentos também se fazem em vida, a pensar na morte.
Se são maiores e donos de si, decidam livremente. Agora, que tenham poder para tomar decisões, com consequências tão graves, sobre quem ainda não se pertence, parece-me imoral.
Nestes casos, o Estado deve garantir que os menores possam chegar à idade em que serão senhores de si, para que, nessa altura, possam escolher a quem desejam pertencer: aos pais, ao Estado ou a ninguém.

Os católicos


Segundo notícia publicada na edição de hoje do Diário de Notícias:

Os senhores bispos pensam que a Educação Sexual nas escolas vai desencaminhar a juventude. Há quanto tempo os senhores bispos não vão às escolas?
No tempo em que os senhores bispos andavam na escola ou no seminariozinho, e a palavra sexo era impronunciável, não se lhes excitava a imaginação?
Colocar sob controle dos Encarregados de Educação a escolha dos professores da disciplina, seria divertido. Gostava de ver a fila de candidatos aguardando a entrevista com os representantes das Associações de Pais para ver testada a idoneidade moral. “O senhor é casado? Não? Então e mantém relações sexuais fora do casamento? Ah, não! Bem!”
Enquanto isso, os putos, no pátio, comentariam as candidatas, “Eh, pá, caralho, moca-me bem a loura grossa! Foda-se, chupava-lhe os ossos”, e, em simultâneo, movimentando a pélvis, mimariam segurar, com a esquerda, a anca traseira da senhora, aplicando palmadas com a direita. Isto se não fossem canhotos, que agora há muitos, todos sobredotados.
Os pais querem lá saber da escola (90% dos pais não pôe lá os pés)! Uma amiga minha, Directora de Turma, num ano lectivo inteiro, recebeu dois Encarregados de Educação!
Quando os senhores bispos escrevem a famigerada cartinha que considera fulano de tal, licenciado em História de Arte, e sem emprego, adequado para candidatura às funções de professor de Educação e Moral Religiosa Católica, conhecem realmente quem estão a indicar? Conto uma história ilustrativa: o ano passado, a tal amiga teve um colega, professor de Moral, louro, de olhos azuis, bonitão. Era das Matemáticas. O rapaz arranjou namorada, a qual, por sua vez, tinha outro namorado, o oficial, que não podia largar assim de um momento para o outro; a família, os bens já adquiridos em comum... Mas o professor de Moral lá a ia namorando, e contava os pormenores à minha amiga, embora ela dispensasse. Ora um dia, em plena travessia do pátio, entre pavilhões, num intervalo, o louro da Moral, veio de mansinho, agarrou-a bem pela cintura, detendo-a, encostou-se-lhe bem por trás e disse-lhe, “estás a sentir isto: foi o que lhe fiz a ela ontem.”
Este jovem louro pode ensinar moral católica? Cá para mim, sim.
E Educação Sexual? Para o senhor bispo, não, "esse devasso".

Eles não

Vamos imaginar um universo de mil homens. Uma mulher consegue facilmente seduzir 99% deles. Normalmente, os dez que não conseguimos, são os que verdadeiramente queremos, aqueles por quem faríamos todas as loucuras, tipo deixar de ser feminista, tipo vestir a burka, tipo renegar Deus, o pai e mãe, etc.
Acontece que:
- ou eles querem, mas não podem.
- ou eles podem, mas não querem.
- ou nem querem nem podem.
- ou são uns grandes filhos-dum-cabrão e mais valia não quererem nem poderem.

Elas não

As senhoras pensam que conseguem seduzir seja que homem for. Erro. Mentira. Isso só acontece em 99% dos casos. O que significa que num universo de 1000 tentativas, é um supor, haverão de ter em média uns dez sujeitos a mandá-las dar a volta ao bilhar grande. Estas coisas têm que se dizer.

Mas as senhoras não gostam de se confrontar com a realidade dos factos. E então inventaram essa coisa fabulosa de fazerem de conta que o homem tem que investir muita lábia, muito em creme que se espalha nas rugas sob-oculares, um cibo em educação literária (não que em regra lhes interesse de modo intrínseco, mas fica bem uma Agustina em cima da mesa nas esplanadas), um módico em roupas e óculos displicentes, etc., para depois se virem com esta terrível de que «não consegui resistir». Não são elas que vão de caçadeira e cartucheira à cintura, mais duas granadas ofensivas de cavilha já quase no ponto de saltar na carteirazinha Hermés – não, elas só caem no laço armadilhado, coitadas, desprotegidas, que não souberam atempadamente defender-se da canção do bandido. Elas, avançando-nos com decotes de palmo, calcinhas insinuando-se acima das calças descidas no cós, mostrando o pezinho quase descalço nuns chinelos de salto alto abertos de lado, alçando a perna como quem não quer a coisa até lhes vermos, do joelho por aí acima, ainda que míopes, o umbigo – e depois que até iam mas era inocentemente e que «foram caçadas». Uma vez, sem querer, tendo-me caído ao chão uma moeda de cinquenta cêntimos ao arrumar o troco do tabaco – toquei de ladegues ao baixar-me no braço duma cavalheira que (estávamos num bar de média-luz) me atacou logo acto contínuo, apertando-me, esticando-se a dizer «eu sempre me pareceu que os teus sentimentos por mim eram puros».

É essa a pose: atacar no limite, sem concessões, e depois se houver a mínima rejeição (1% é 1% - uma descida no défice deste montante salvava o governo da República) vêm-se logo com a conversa de que «ele bem me queria fazer a folha mas comigo vem de carrinho, quem é que o gajo pensa que é?».

As mulheres são um perigo


Swordfish, 2001

Hoje esgotei o tempo.
Apliquei a máscara capilar "especial brilho"; passei o habitual creme hidratante pelo corpo: White Musk, lait scintillant pour le corps; usei o hidratante podológico e o creme facial de dia, claro.
Até aqui tudo bem.
Perdi meia hora a escolher a roupa: decidi-me pela saia rosa, com a blusa branca. Calcei as minhas "sandálias Marilyn" brancas. Coloquei os brincos rosa-translúcido e uma écharpe, também rosa, esvoaçante, mais o anel com as pedras brancas opalescentes. Gostei do que vi.
Até aqui tudo bem.
O pior é que gora tenho que me ir pintar. Espalho uma base para disfarçar irregularidades da pele e fixo-a com pó do mesmo tom. Ponho um toque de sombra branca nas pálpebras, depois o rimel transparente, que apenas separa e alonga as pestanas, a seguir o gloss rosado, muito brilhante, e, por último o baton corrector de olheiras.
Mas até aqui tudo bem.
O problema é que, esta tarde, tenho uma reunião na minha associação (feminista), e não quero aparecer de qualquer maneira. Uma reunião conjunta com outras associações. Até ontem, tínhamos recebido a confirmação da Faces de Eva - Centro de Estudos sobre a Mulher, da Associação Mulheres em Acção, da Comissão para a Igualdade e para os Direitos da Mulher, da Associação Portuguesa de Estudos sobre a Mulher, do Movimento Democrático de Mulheres, da Rede Lilás, da De Mulher para Mulher - Jovens para a Igualdade, da Associação das Mulheres Agricultoras Portuguesas, da Associação Portuguesa de Mulheres Empresárias, da Associação Portuguesa de Mulheres Cientistas e da Associação Portuguesa de Mulheres Juristas.
Da Ordem de Trabalhos constam os seguintes pontos:
1) O feminismo existe? (se concluirmos que sim, e só nesse caso, passaremos ao ponto seguinte.)
2) Os/As feministas têm sido úteis para a instauração/manutenção de equilíbrios sociais, económicos e políticos? (se concluirmos que sim, e só nesse caso, passaremos ao ponto seguinte.)
2) O feminismo poderá considerar-se um movimento sócio-politico, transpartidário, trabalhando na área dos direitos humanos universais?
(se concluirmos que sim, e só nesse caso, passaremos ao ponto seguinte.)
3) Como sensibilizar homens e mulheres para o reconhecimento e exercício cívico dos direitos humanos básicos consagrados na Declaração Universal dos Direitos do Homem?

Se concluirmos pela inexistência do feminismo (ponto 1), vamos todos dedicar-nos à ecologia ou à defesa dos animais - esperamos que ninguém conteste tais movimentos humanistas!


Thelma & Louise, 199(e qualquer coisa, que agora não tenho tempo de ir confirmar).

Uma hora depois:

- a Espelho acabou de me esclarecer: 1991. É verdade, fica aqui a ligação.

Olhar os olhos dos outros

Este texto foi-me enviado por uma leitora do blog. Escrevia-me ela que esta experiência estava, de alguma forma, relacionada com o mundo perfeito. Obrigada, Alma. Gosto tanto da alma tua história!
Uma história, com moral: na rua que faz esquina com esta onde ainda vivo, há uma espécie de clube desportivo da zona, dá-me ideia que é um sítio onde as pessoas da freguesia se juntam para jogar às cartas e falar de futebol. Sempre à porta, todos os dias, está um homem, nem novo, nem velho, que anda mal e precisa de muletas, gordo e despenteado, que praticamente vive na beira daquela porta. Desde Fevereiro, não houve dia em que eu não passasse ali e não o visse. Irritava-me. Achava-me controlada por ele. Desviava sempre os olhos, como se ele não existisse, e atravessava a estrada para o outro lado, antes de chegar à dita porta. Mesmo enquanto atravessava a estrada, não virava o rosto o suficiente para o ver. Ou seja, quase que preferia ser atropelada por não ver bem a estrada, a virar-me e dar-lhe o gosto de me ver a cara. Isto, todos os dias, umas vezes carregada, outras vezes com o pão, dezenas ou centenas de vezes.
Há dois dias, quando voltava a passar naquele sítio, dei de caras com ele. De repente, como se pensasse para mim mesma ("eu vou estar fora desta rua daqui por alguns dias, por isso, porque não?), acabei por lhe dizer "olá". Sem grandes euforias ou sorrisos, apenas um olá, a olhar bem para os olhos dele. Não foi só falar-lhe, eu olhei-o nos olhos, pela primeira vez! Hoje, quando passei lá, ele estava a falar com umas velhotas. Quando me viu, do outro lado da estrada, soltou-me um grande "olá, como estás?", com o maior sorriso desdentado que se possa imaginar, levantando a muleta no ar para dar mais força ao cumprimento, e havia uma satisfação tal, uma sensação de amizade tão grande, que quase me fez vir lágrimas aos olhos.
Moral?
Alma

terça-feira, junho 28, 2005

Milénios de experiência I (2ª parte)

Eu é mais «urgggh».

Os nossos queridinhos

Os nossos queridos provocam-nos muito. Tanto. Desassumidamente, os cobardes.
Se reagimos, doidas, os nossos amores esclarecem não ter pretendido chegar onde pensámos: foi equívoco nosso! Não nos era dirigido. A ninguém, aliás. Era apenas uma ideia geral, uma tirada literária.
Quando gostamos muito dos nossos queridos, e apenas nessa fatalidade, fazemos de conta que acreditamos.

O meu amor ideal

- Não precisa de ser bonito, desde que saiba falar e escrever sensualmente. Tem de ser criativo, aventureiro e paciente.
- Heterossexual; solteiro ou divorciado sem vícios.
- Dependente (de mim) e sem autoridade (sobre mim).
- Que não goste de ver bola nem basquetebol - na t.v. nem nos estádios e pavilhões.
- Capaz de manter uma conversa que não meta carros, motas, gajas, fundos de investimento, e as superficialidades do costume.
- Romântico, mas selvagem.
- Que alinhe. Que alinhe. Que alinhe. Que alinhe.
- Que seja fiel, mas que não me peça fidelidade.
- Meigo e bem-humorado.
- Feliz pela mera satisfação de todos os meus caprichos.
- Não precisa de ser melómano, basta que goste de ler jornais, livros e ver cinema. Se não gostar de livros e cinema, tenho as minhas amigas cultas, que se lixe!
- Capacidade para lidar total e naturalmente com o horror existencial, seja lá isso o que for.
- Que goste de tratar da cozinha e de pagar almoços e jantares e lanches, e que não chateie muito com a praia, a não ser que seja sossegada.
- Que nunca use expressões como “suposta emancipação do papel social”; que não associe feminismo a hard core ou insatisfação.
- Que não dê opiniões sobre o que como, bebo, tomo, etc. Muito menos sobre adoçante no café, a acompanhar um pastel de nata.
- Que se preocupe totalmente com a minha felicidade. Que se dedique a ela.
- Que seja capaz de arrumar a bandalheira que faço por todo o lado, inclusive nas prateleiras do wc.
- Que todas as noites me saiba aquecer como deve ser, para não ter de me deitar artilhada de flanela e meias.
- Que não seja apaixonado por colecções, sejam elas de que forem.
- Que nunca complique; que me ouça e dê razão, sempre, deixando-me berrar à vontade, mas mantendo sempre o fair play.
- Que seja muito racional, para que eu possa ser maluca à vontade.
(Este post continua a inspirar-se neste.)

segunda-feira, junho 27, 2005

Milénios de experiência I



Os nossos queridos não nos querem para falar.
Eis todo o vocabulário de que precisamos para comunicar com o cromossoma oposto - para que a comunicação se torne mais eficaz devemos ser capazes de articulá-lo em diferentes tonalidades e timbres vocais: mais ou menos roucos, mais ou menos lentos, mais ou menos aflitos, mais cristalinos ou opacos:

- (oh) sim, (oh) sim, (oh) sim
- mais
- (oh) meu deus
- dá-me (alternativa: tudo ou toda!)
- fode-me (alternativa 1: dá cabo de mim, tem-me, possui-me; alternativa combinável com outras alternativas: toda, sem piedade, à bruta, etc.)
- (oh) agora
- aaahhh, ooohhh, aaaiiii, uuuiiii

Se, apesar do nosso empenho verbal, o vocabulário não resultar numa comunicação acima do satisfatório, aconselho a devolução da mercadoria dentro dos prazos estipulados pela Lei.

(Como eles dizem que nos querem: aqui.)

Milénios de experiência II

L., este é para ti.

Os nossos queridos não nos querem doentes, tristes, amarguradas, solitárias nem inseguras.
Logo, nunca estamos com as dores do período; não lamentamos a passagem do tempo sobre o tempo em fomos novas e relativamente felizes, porque ainda críamos no amor; não revelamos desacreditar que alguém nos queira, a não ser para meia dúzia de fodas descomunais; não tomamos consciência de que os homens são secularmente iguais, mesmo quando se julgam especiais; nunca, nunca engordámos um quilo, na última semana, por termos passado noites a comer chocolates, enquanto escrevíamos posts.
Se sentimos dores, não são dores, é a voz que se some no desejo por eles; se experimentamos tristeza, amargura ou solidão, não experimentamos: fomos sair com dois amigos, um deles nosso namorado há uns anos atrás – o outro, ofereceu-nos, há dias, na brincadeira, claro, uma pulseirinha cor-de-rosa; adoramos a vida, os dias, sobretudo quando estamos junto do nosso querido; não engordámos, estamos é mais voluptuosas, o que podem observar perfeitamente com as mãos: as nossas belas maminhas, que são só deles, aumentaram de tamanho e transbordam do soutien.
Rematar todas as frases com um diminutivo: leãozinho, gatinho ou, e esta garante sucesso imediato, “meu macho cobridor; meu único dono”.
Isso tudo até lhes metermos a aliança no dedo. A partir dessa altura...
(Como eles dizem que nos querem: aqui.)

Milénios de experiência III


Os nossos queridos afirmam não compreender as mulheres; consideram-nas mistérios intangíveis. Baralham-se. Não sabem em que acreditar. Conhecem aquilo para que servimos, mas, quem somos? Afinal, o que queremos?
Resta-lhes acreditar na verdade que lhes transmitimos: a que não alcançam sozinhos.
Usemo-lo em nosso favor. Digamos-lhes que somos lindas e compreensivas.
Eles duvidarão sempre do que conseguem pensar sem ajuda.

(Como eles dizem que nos querem: aqui
.)

Bem, mas na verdade...

Que as meninas, durante o Verão, invistam nas unhas dos pés o melhor da sua criatividade artística – não é coisa que me pareça mal.

S. João, 2

Explica João César que «a mulher foi influente em épocas [em?] que preferiam a honra ao sucesso». Pois, mas ninguém liga. A riti e a catarina (e isto é só um exemplo – 2, aliás) deviam era de fechar os blogues, recolherem-se à prece, ao cilício e ao silêncio regenerador das celas monásticas e, na honra, serem influentes e anónimas deixando aos cavalheiros machos a chatice de terem sucesso e reconhecimento e andarem por aí de pau de lódão a rebater na moleirinha os «homens efeminados» que nem apalpam nas nádegas as gajas de costumes quanto mais desinvesti-las a chicote de piça de porco em elas (e as legítimas) «estarem a pedi-las».

S. João, 1

O Salvador da Pátria alerta: «Recusa-se já a existência de atitudes típicas de cada sexo». É é, a brincar a brincar qualquer dia deitam-nos de costas e são elas (putedo!...) que manobram a arte mexendo, oh, as ancas impudicas ao invés de amouxarem a chocha ao nosso alto e esclarecido critério macho.

A sede

Desejo-te
como se as nascentes
de súbito
lavrassem no deserto
e tivéssemos
sede.

O que não muda

O comboio corre ao longo do vale. Deve ser no Outono: há folhas amarelas, castanhas, vermelhas. E uma ligeira névoa que se ergue nas margens do rio adivinhado à distância pelo perfil dos amieiros, dos salgueiros, dos choupos, dos olmos, dos freixos com as suas folhas em número ímpar. O comboio corre ao longo do vale e a paisagem muda

quase sem mudar: porque as árvores se repetem, sendo outras: porque, ao fundo, a mesma cumeada recorta o horizonte em suaves modulações. E invade-te uma estranha nostalgia: e cedes ao poder da repetição, da monotonia, do tempo que muda

quase sem mudar. E pensas: é isso

o amor: a repetição de gestos que não se repetem; a repercussão de vozes antigas ecoando no vale; a paisagem que muda enquanto a viagem prossegue; o tempo que muda e recomeça. E pensas: é isso

o amor: essas lágrimas onde a felicidade e a nostalgia se misturam no sentimento confuso de que é possível, sempre,

recomeçar

a partir das mesmas coisas, das frases que já se disseram

e repetiram

mais que uma vez.

domingo, junho 26, 2005

A língua pelo céu da boca



Escrever um romance tem a sua técnica. Não que pessoalmente a saiba usar, confesso que não sei, mas reconheço-a!
Ter lido muito não faz de nós escritores. Quanto mais se lê, mais se reconhece que não se sabe escrever, e melhor se conclui que se publica excessivamente para a qualidade do que é oferecido.
Por muito que nos debrucemos, das nove às cinco, sobre o teclado do computador, uma obra não sai apenas por insistência nossa: pede para sair. Depende do nosso trabalho, não da nossa exclusiva vontade. E isso não sei explicar.
Não saímos escritores porque decidimos tornar-nos famosos, vender livros, dar entrevistas para as revistas de letras. Não ficamos escritores após uma sessão de fotos a preto-e-branco que servirá para o marketing do nosso livro. Conseguir escrever duas frases sem problemas maiores de sintaxe não nos garante uma entrada na História da Literatura - e às mulheres raramente garante!
Precisamos, para além de bom "ouvido", de excelente intuição e de uma boa história. E, boas histórias, têm de começar mal, acabar mal, e debruçarem-se sobre o que se considera O Mal.
Não se escrevem boas obras sobre O Bem; não directamente. Chega-se ao Bem pela travessia do Mal. Nesse caso é possível. Uma boa história faz-nos passar pelas passas do Algarve. Não nos sossega. Os livros do Dalai Lama e todos os outros sobre auto-ajuda, os quais têm uma secção destacada, e de velas acesas, na FNAC, não são romances, são livros doutrinários - e claro que têm a sua função - aconselho. Tenho alguns cá em casa. Já me serviram bastante, a sério. Mas um romance, um romance daqueles que ficam a ecoar para sempre na nossa memória, isso... é a pedra filosofal.
A arte, como a publicidade, não pode prender-se a uma grande moral. Há limites; há sempre limites, mas a obra de arte é intrinsecamente livre ou não seria arte. Uma moral amoral.
Lolita, de Vladimir Nabokov é isso. Não tem falhas de argumento nem de estilo. Não é mero fruto da inspiração. Houve ali muito suor.
Este começou por ser o primeiro parágrafo de um dos melhores romances do século XX. Excelentemente escrito: coloquialidade, períodos curtos, velocidade, ironia. Repare-se no pormenor fabuloso que consiste na descrição da morte da mãe: duas simples palavrinhas "piquenique, faísca" - e a cena revela-se totalmente:
Nasci em Paris, em 1910. O meu pai era pessoa branda e indolente, uma salada de genes rácicos: cidadão suíço de mista ascendência franco-Austríaca, com umas gotas do Danúbio nas veias. Daqui a um instantinho mostrar-lhes-ei alguns deliciosos postais ilustrados, de um azul muito brilhante. Era dono de um luxuoso hotel da Riviera. O seu pai e dois avós tinham vendido vinho, jóias e seda, respectivamente. Aos trinta anos desposou uma jovem inglesa, filha de Jerome Dunn, o alpinista, e neta de dois párocos de Dorset, especialistas em assuntos obscuros - paleopedologia, um, e harpas eólicas, outro. A minha muito fotogénica mãe morreu num singular acidente (piquenique, faísca) quando eu tinha três anos (...)
Certamente o romance teria tido sucesso se começasse desta forma. Mas não começou, não começa. O autor mudou de ideias, lá teve as suas boas razões!, e redigiu um dos mais perfeitos e belos parágrafos iniciais de toda a história da literatura. Este é o verdadeiro primeiro parágrafo da obra:
Lolita, luz da minha vida, fogo da minha virilidade. Meu pecado, minha alma. Lo-li-ta: a ponta da língua faz uma viagem de três passos pelo céu-da-boca abaixo e, no terceiro, bate nos dentes. Lo. Li. Ta.
Pela manhã, um metro e trinta e dois a espichar dos soquetes; era Lo, apenas Lo. De calças práticas, era Lola. Na escola, era Dolly. Era Dolores na linha pontilhada onde assinava o nome. Mas nos meus braços era sempre Lolita.
Quem é que não dava a porra de uns anos de vida para ter escrito estes dois parágrafos?! Até o Saramonho, a quem não sobrarão muitos, Deus me perdoe!
Experimentem ler alto, não em silêncio. É uma cançoneta. Um poema.
O segredo deste parágrafo não é segredo, está à vista: contaminação de géneros literários: poesia, ritmo, paralelismo simbólico: luz/vida; fogo/virilidade; pecado/alma; uma viagem/língua; céu-da-boca/dentes, e, no final, explodem as três sílabas, como notas musicais: Lo-li-ta!
Quanto tempo perdeu Vladimir Nabokov à volta deste singular parágrafo?! Algumas horas, alguns dias, voltou a ele incessantemente, durante meses, até conseguir este primor de economia narrativa?
Frases curtas, sincopadas, logo seguidas de uma um pouco mais longa, mas não muito mais, o suficiente, apenas. Uma escrita tão sensual como o desejo que conta em crescendo: Lo, Lola, Dolly, Lolita... a língua, o céu-da-boca, os dentes, os braços, Lolita. Não é um ritmo qualquer, é o do corpo sexual: desliza.
Dificilmente se escreve assim à primeira. São precisos anos. O "ouvido", o corpo e o espírito precisam de ter vivido história, desejo, frustração, de ter perdido muito e ganho pouco. Não se aprende grande coisa ganhando. Quem ganha muito, escreve pouco. A perda ensina a escrever. Ou a dançar ou a desenhar. Sem perda, não tínhamos arte, apenas decoração - e mesmo a decoração, ainda pensarei melhor nisso!
Em Nabokov parece-me nada ser por acaso. Até a perfeição eufónica do seu nome: Vla-di-mir Na-bo-kov. Algumas coisas não podem ser mera coincidência!
Por exemplo, o meu nome, I-sa-be-la! A língua também viaja pela boca, não viaja?!

sábado, junho 25, 2005

Mudar

Não regressamos ao que fomos. Mudamos mesmo nos dias em que parecemos iguais.

sexta-feira, junho 24, 2005

Necessidades

Hoje precisava tanto que me:
- verificassem a pressão dos pneus.
- calibrassem as rodas.
- alinhassem a direcção.
- mudassem o óleo do motor.
- limpassem a bateria.
- desempanassem totalmente .

Baterias

Uma amiga pede-me ajuda: vem esbaforida: o carro está sem bateria. Juro: pensava que já não havia problemas desses. Sim, antigamente acontecia. Mas isso era no tempo em que se enjoava nas viagens de automóvel com mais de quinze quilómetros - e a gente precatada se socorria de comprimidos. (Já me lembro: enjoava-se por «causa das lombas».)

quinta-feira, junho 23, 2005

Graça

Transponho a porta do quarto como se mergulhasse no Ganges; descalço-me, dispo-me, o meu corpo rasga religiosamente o cheiro viscoso à água da noite, da manhã, que se fecha sobre mim, rápida, enquanto passo - e coloco no dedo o anel sagrado e rezo e afundo-me e renasço esgotada para respirar de novo.

Sei lá

Ninguém traiu ninguém, está descansado.
Não penses que lamento o abandono.
Repara: estou bonita; hoje é feriado;
pensar em ti assim só me dá sono

ou traz-me num sorriso a ironia
das coisas tão alvares que nós dissemos
pensando que um do outro dependia
o ser feliz. Mas não. Nós nem nos demos

(demorou muito a perceber que não)
em quanto em nós havia que se desse.
Por isso vai em paz. Xauzinho. Esquece,

que o tempo agora é de curtir o Verão
e tu és já a cinza do passado.
(Mas foda-se, foi bom ter-te a meu lado...)

quarta-feira, junho 22, 2005

O mundo todo

Eu quero que te dispas em segredo
tirando pelos ombros a t-shirt
como se apenas acordasses cedo
e nada te movesse (o amor, um flirt,

o lume, o afecto, o fogo da paixão).
E que depois a saia te caísse
aos pés dum modo displicente e não
houvesse um movimento que traísse

o ardor, a labareda da nudez
insinuando-se nos dedos ávidos
como se esta fosse a primeira vez.

E que ficássemos assim: impávidos
nas águas do silêncio junto à foz.
E que o mundo todo fôssemos nós.

É isso?

O que é o amor? A felicidade sem cláusula, as iluminadas vertentes de um corpo protegido pela sombra, o sexo e a sua imponderável matéria volátil, a beleza de um rosto que nos olha sem a protecção das máscaras, a partilha, a presença, o afecto, o encontro?

É isso, o amor? Mas assim não é fácil?

Iguais

O mundo não se divide em Norte e Sul; o mundo não se divide em homens e mulheres; o mundo não se divide em pretos e brancos; o mundo não se divide em rural e urbano.

Deixemos a Lineu, entregue ao universo das espécies vegetais, o vício e o rigor da catalogação.

Uma catalogação criteriosa, debruçando-se sobre a espécie humana, haveria de formar grupos coerentes onde coexistiriam, incluídos na mesma chaveta, alguns homens e algumas mulheres, alguns pretos, alguns brancos e alguns amarelos, alguns mocinhos das berças e alguns rapazolas do centro das urbes, engenheiros de física nuclear e serventes de pedreiro; haveria, neste mesmo grupo, quem lesse poemas e corresse as editoras à procura dum selo, e quem se viesse de puro romantismo e sedução só de ver uma grua movimentando a lança carregada de paletes de tijolos destinados à construção dum silo. Neste grupo tão aparentemente heterogéneo, díspar, algo de irredutível os poderia unir num mesmo destino e numa mesma ambição – e separá-los nas suas aparentes semelhanças.

O mundo perfeito haveria de ser assim: juntava numa mesma chaveta os que são iguais nas suas imensas diferenças.

Aturá-las...

Ó Isabela: não me fodas...

terça-feira, junho 21, 2005

C. B. e Isabela: a verdade!


E se a Isabela fosse um homem?, perguntava um anónimo há uns tempos? Posso ir mais longe: e se afinal, C.B., esse senhor menos assíduo, falasse fininho e fosse a minha legítima esposa?
Têm questionado a nossa identidade sexual, os nossos papéis: as pessoas lá têm a sua intuição!, percebem incoerências que acabamos por não controlar na pressa do post diário. A teia tem a malha larga, digamos.
Comecemos pelo C.B. Concordo que denota pouca consistência como personagem: oferece demasiado espaço à sua companheira de blog; não se impõe, deixa-a tomar as rédeas, “espraia-te para aí à vontade, miúda”, diz. Uns dias escreve poemas, os mais belos a seguir aos mais belos, às vezes dá-lhe para as agriculturas e vem, indignado, reclamar dos subsídios e burocracias comunitárias, bem como das engenheiras de salto alto que lhe aparecem na herdade e nas quais encontra uma única utilidade, nós bem sabemos qual; outros, solta-se-lhe uma nostalgia de macho cavernícola, e invectiva a fêmea, rasteirando a outra metade do blog, contrariando-a gratuitamente, enquanto sonha com o par de mamas da Laetitia Casta, as pernas da Latitia Casta, os olhos da Laetitia Casta... Convenhamos que a bela anca, a pele macia, a Laetitia Casta inteira a rojar-se pelo chão da caverna... só se for em nome da arte, do cinema e da fotografia de autor!
Personagem com defeitos de construção, mal elaborada; dir-se-ia pouco à vontade neste formato. Humana, apesar de tudo. Muito mais falha, portanto muito mais humana que essa Isabela.
Esse doce monumento chamado Isabela! Esse “fascinante” animal, “luz”, “vulcão”. Feminista e fêmea sem recurso. Por um lado, imbuída de um espírito de missão que pretende assinalar e cauterizar os males masculinos; por outro, sedutora e seduzível, desejável e desejante, perigosa, porque poderosa. Que mulher, meu Deus! Sejamos sinceros. Parece-vos real? Acham que este ser feminino, este rasto de fêmea olorosa e autónoma pode existir no nosso mundo? Não se percebe, à primeira, que a Isabela é demais!
Hoje, dia em que me abstive de trabalhar, e tenho tempo livre, decido contar toda a verdade.
A Isabela sou eu, Isolino, 42 anos, casado, professor de História de Arte há 20. A Isabela é a minha criação. Até hoje, a melhor coisinha que criei. Essa Isabela, se fosse real, seria minha, porque criei-a para mim, para o meu desejo, para a minha imperfeição. Se a Isabela existisse, meu Deus!, a minha Carla, que veio do Barroso e anda agora lá por fora a borrifar as alfaces, ficava em maus lençóis matrimoniais. E eu gosto da Carla! Se essa Isabela, essa escultura de sensualidade, sensibilidade, desejo, inteligência e risco existisse, eu estragava a minha vida, punha-a de pantanas, porque teria de ser minha e eu dela. Para sempre, minha. Para sempre colado aos seus olhos, lábios, a fazer-lhe tranças nos cabelos de ouro fino que lhe inventei, a repetir-lhe ao ouvido que a amava, como nenhum homem, nunca, lhe diria, nunca, e não saberia respirar sem o seu cheiro doce de fêmea, andar sem o som incerto dos seus passos quebrados, escutar o que não fosse a sua voz lenta e meiga. Isabela, o equilíbrio perfeito entre o excesso e a contenção: o mundo perfeito. Isabela: cede, mas não baixa; entrega, mas não perde; temo-la, mas nunca certa. Pede luta, conquista. Quer duelo. Dá trabalho. E, por ela, quero lutar, conquistar, duelar, ter trabalho. Vencida a guerra, que troféu, essa mulher nas minhas mãos! Morria para ter essa mulher. Quem não morria para ter essa "mulher cem por cento"? Se existisse, se eu, um de nós, amigos, conseguisse tê-la, o êxtase de Santa Teresa seria nada.
A Isabela foi desenhada para que cada um de nós se sentisse mais homem. É uma mescla bem conseguida das minhas divas; um pouco de cada uma: Marilyn Monroe, Brigitte Bardot, Elisabeth Taylor, Isabela Rosselini, Jane Fonda, Anita Ekberg, Susan Sarandon... Estudei-as bem. Fotos. Filmes. Documentários. Fotografias. Confesso. Adoro estas mulheres. Adoro mulheres.

A minha Carla não está mal! É uma morena rebolona de cabelo crespo, jeitosa, fogosa. Dorme-se bem com ela. Gosta. E tem força. Não me queixo. A Isabela não passa de uma Carla com mais brilho, mais tinta, mais penteado, melhor vestida e calçada, com mais cremes, menos terra nas unhas, e educada, certo; A Carla veio da província, e isso marcá-la-á para sempre. Estudou pouco. Fui professor na terra dela. Trouxe-a comigo, porque me quis. Ela é que me quis; fui escolhido e deixei-me ir. Depois, arrebatei-a à solidão dos montes e dos rios.
Pura. Objectiva. Outras vezes, lírica. Escreve bem. Escreve os posts do C.B. E como me surpreendo que esta mulher sem tempo, que trata da horta, do pomar, do filho, da cozinha, da lida e me pergunta que camisa quero passada e se juntei as cuecas para lavar, escreva o que escreve e como escreve! Porque a personagem C.B. não mantém uma linearidade temática, mas qualidade, senhores e senhoras, vamos lá ver, eu sei o que é qualidade! A Carla escreve bem seja o que for, precisa é de tempo. A Carla sai do quintal, desembrulha-se com as tarefas da casa, pega no lápis enquanto eu ocupo o pc a inventar essa Isabela e mais o que gostaria que ela me fizesse, e anda ali 4 ou 5 dias de volta de um poema, de um texto. Aquilo demora, mas quando sai, sai bem, sai sem mácula. Tortura-se, bem vejo, mas como admiro esta mulher que veio do cu do mundo, sem nada, a não ser intuição animal e, apesar de tudo, tem esta “mão”. A Isabela é uma boneca que desejamos, uma caricatura; nunca, na verdade, chegará aos pés de uma mulher real, de carne, cujo talento eu não construí, que não bamboleia as ancas, que se enterra na lama do quintal a plantar cebolinho...
Eis toda a verdade. Sei que após esta revelação dificilmente enfrentarão a Isabela ou o C.B. com o mesmo olhar. Corro o risco inevitável. Mas a Isabela continuará a Isabela, apesar da barba na cara e do par de tomates, tal como o C.B. se manterá C.B., agora com a vozinha mais aguda. Estou a ouvi-lo(a) lá fora chamar o miúdo para a banheira!
A Carla, que me incentivou a criar este blog, que achou que eu precisava de gastar certas energias malfazejas (ela é que o nomeou, para dizer a verdade!) não vai gostar de saber, logo à noite, que revelei toda a verdade.
Carla, desculpa, sabes que só vivo com a verdade. Tu és, tu sabes, a minha Isabela! És tu o meu risco. Amar, amar é a ti, Carla. É a ti que amo!

Por estas e por outras é que me venho sozinho!

O cavalheiro chega a casa e depara com a senhora sua esposa «a masturbar-se na mesa da cozinha». E embezerra, «escandalizado». Ora a caixa de comentários começa de imediato a teorizar sustentado-se no politicamente correcto: e o politicamente correcto é: a), que se ela assim procede é porque anda faltada de peso; b), que ele apanhando-a a entocar o clavicórdio haveria era logo de lhe saltar em diante e concluir puxando do marsápio entesoado o que, com seus recursos próprios digitais, ela diligentemente levava em curso.

Não parece ocorrer a ninguém (nem à Isabela, a dar-lhe com a divisão das tarefas) que a senhora se masturbe: a), independentemente de andar com falta de montanço; b), sem necessidade nenhuma de partilhar uma tarefa que sozinha leva por diante com de leite próprio, auto-suficiente.

O prazer é como um jardim de caminhos que se bifurcam: múltiplos são os caminhos. E a execução do rito (para usar um termo de Onan na saudosa Seita de Fénix) é um deles: talvez o mais purificador da alma e o que mais nos liberta do peso terreno, material, lodoso, dos corpos.

Ora o essencial é isso, e isso parece ninguém discorrer: que o mastruçanço não é substituto de coisa nenhuma; que vale por si mesmo; e que em certas coisas (como seja o caso) mais vale só que bem acompanhado.

segunda-feira, junho 20, 2005

Por estas e por outras é que vivo sozinha!


Foto - Adolf (em Xupacabras)

Esta questão é colocada por um leitor, ao consultório da revista Maria, edição de hoje.

No outro dia fiquei escandalizado, quando cheguei a casa e vi a minha mulher a masturbar-se na mesa da cozinha enquanto fazia o jantar. Ainda não conseguimos falar no assunto.
( p. 70)

Caro amigo, pelo que posso deduzir, o cavalheiro ficou escandalizado pelo confronto com o acto onanista da sua senhora. Não imaginou que ela pudesse dar-se a essa vergonha! Meu amigo, se a esta altura da relação o senhor e a sua esposa não são capazes de falar sobre masturbação, e se tal lhe parece escândalo e andam os dois envergonhados, parece-me a mim que a sua senhora tem boas razões para se andar a esfregar na mesa da cozinha. Eu cá, se estivesse no lugar dela (e duvido que estivesse, porque tinha-o rifado à terceira tentativa!) esfregava-me por qualquer superficiezinha convexa que me aparecesse.
Pergunto, o senhor dá-se ao trabalho de tocar com a sua virginal mãozinha anti-onanista na pombinha da sua senhora, só para verificar a existência de condições necessárias à prestação de serviços mínimos? Não lhe pergunto se já experimentou mergulhar... Desculpe! E a sua senhora, tem autorização para verificar a consistência da sua capacidade para a prestação de serviços mínimos?
De qualquer forma, caro amigo, pense que a vida é curta e estamos aqui para rejubilar; um bilhete de cinema já custa 5 euros; uma boa garrafa de vinho, outro tanto; o queijo da serra não se lhe pode chegar e uma pessoa tem direito ao seu divertimentozinho gratuito.
E depois, sabe, a culinária, numa base diária, também se torna fastidiosa. Eu, no seu caso, tinha entrado da cozinha e solicitado a partilha das tarefas. O senhor nem imagina a quantidade de tarefas que se podem partilhar numa cozinha. Estou a lembrar-me de algumas, neste momento; agora, desculpe lá, vou ali pôr um chazinho ao lume, mas já venho. Deixe-se estar aí sentadinho.

Finalmente, uma coisa a favor!


Jenny Saville, Plan, 1993

Revista Maria, a minha preferida, última edição, página 76:
As mulheres de "curvas" mais acentuadas têm tendência a viver durante mais tempo do que aquelas que têm pouco ou nada curvilíneo. Os investigadores descobriram também que as pessoas do sexo feminino com as ancas mais largas, estão protegidas contra as doenças do coração (pessoalmente acho que não há curva nem anca que nos proteja contra as "doenças do coração"!).
Mas saber que, afinal, posso começar a poupar nos cremes adelgaçantes, é notícia que me deixa encantada.

Seria simples

Deus precisou de seis dias para criar o mundo e saiu isto.
Alguns, criam-no em cinco minutos.
Eis um exemplo de O Mundo Perfeito: é prata da casa, peço desculpa!

domingo, junho 19, 2005

Da perfeição do mundo


Foto de Henk Braam - A Mother and her Children in Colaba, India

Já não me lembro por que chamámos a isto O Mundo Perfeito. Sei que passo o tempo preocupada com o enquadramento dos textos no que julgo seja um certo ideal de mundo perfeito ou de um mundo que, embora não o seja, possa vir a tornar-se, ou que não é e jamais será.

O mundo perfeito não existe. Contudo, alguns de nós esforçam-se; enfrentam essa "imperfeição" a cada minuto de respiração, riem no dia seguinte àquele em que choram; caem ao Domingo, mas levantam-se à segunda; escolhem deambular pelo risco de atravessar o outro, acreditando, confiando nele, nunca aprendendo com a experiência. Como se não conhecessem essa possibilidade. Esses, que choram e perdem e ganham poucas vezes, julgam-se frágeis, à beira dos abismos de desequilíbrio, mas ter ânimo para recomeçar das cinzas, sorrir, atirar-se de cabeça as vezes que forem precisas... que aves do Paraíso!

Pelo que tenho ouvido a propósito dos outros mundos que me descrevem, e me garantem existir!, mantenho sérias dúvidas que possam ser melhores do que este. Apesar de tudo, apesar da cacetada nossa de cada dia, é deste que gosto!

Há uns tempos fiz kundalini ioga durante um período longo. Dei-me bem com aquilo. Andava calma, até pensei abdicar dos prazeres da carne. Fez-me bem. Mas o mestre estragou tudo no dia em que veio com a ideia que lhe parecia ser tempo de passar a um estádio mais avançado: o ioga ascensional. Não achei piada. É que, vamos lá ver, não me quero chatear, se puder fazer muito por mim e pelos outros, faço-o com gosto - mas quem é que disse que eu queria ascender? E ascender para quê, para onde?
O mestre, para aí umas três vezes, ainda me fez estar estendida no chão de mosaico, 45 minutos - e eu a pagar... Disse, "agora concentre-se na perna esquerda e no som" - pôs a tocar um cd com relaxantes ondas a marulhar, águas do rio a correr para a foz, e foi dar uma massagem terapêutica a outro cliente.
Ponto um, aquela calma enervava-me. Ponto dois, o barulho de água dava-me uma vontade irreprimível de urinar. Ponto três, tentava concentrar-me na perna, mas pensamentos intrusos levavam-me para caminhos ínvios: que roupa vestir no dia seguinte, o trabalho que me esperava em casa...
Segundo o mestre, não estou preparada: tenho de concordar. Que chatice, não posso ascender! Que ande, então, por aqui a fazer asneira e a remediá-la; a ser usada, umas vezes; hipócrita, outras.
Se houver contas a ajustar, ajusto-as no fim, não me venham é tirar o copo de Borba e as fatiazinhas de queijo de Azeitão!

sábado, junho 18, 2005

"Matacões"


Foto - Robert Doisneau

Uma prima muito, muito afastada pediu-me para perguntar por que é que os homens não usam desodorizante. Eu disse-lhe que era má ideia, que os que aqui vêm usam todos, e provavelmente, não sabem nem podem responder. Que isso é só mais os antigos, os da província, os que vieram da província para a cidade - mas nunca largaram os hábitos da província - os "matacões", como lhes chamamos lá em casa, os brutamontes, os homens das obras... De resto, penso eu, nenhum homem se lembraria de sair de casa sem colocar o seu desodorizante em roll-on!
Ela insiste que não, que não e como isto, por enquanto, ainda é serviço público...

quinta-feira, junho 16, 2005

Ninguém sabe

ninguém sabe mas
às vezes os poemas são escritos com espirais de ferro na garganta
com pára-raios espetados nos pulsos enquanto
a tempestade desaba sobre os telhados e
sobre as tijoleiras dos pátios
e às vezes numa única frase
desmontam as turbinas das barragens até
que uma hélice de mercúrio nos perfure o duodeno
pelo lado de dentro

ninguém sabe mas
às vezes a linhagem dos poemas começa num poço onde
nenhuma luz ousou descer à súbita deflagração da memória
onde nenhuma voz ousou poisar as suas tão escassas sílabas
de dizer não mais que o amor
não mais que a luz duma tarde de junho
onde os primeiros ácidos e as primeiras frases
misturaram
venenos
enquanto corríamos do lado de fora
das suas águas
a simular os dias felizes dos livros que lemos
deitados
em cadeiras
coloridas
de lona

e é assim meu amor
eu amo-te sim eu
quero para ti as nebulosas dos meses da claridade
eu quero para ti a memória suspensa do vazio dos núcleos
eu quero-te
como se precisasse dos teus olhos
eu preciso dos teus olhos
para respirar
quando adormeço
no lodo das presas
na batimetria insuportável das marés do equinócio

e é assim meu amor
eu podia morrer às tuas mãos ou de passarem as aves
com os ferros enferrujados da vertigem a atravessar-me
o coração
indefeso

quarta-feira, junho 15, 2005

Uma namorada que gostava muito de mim

não é que fosse volúvel
a verdade é que
trabalhava numa casa de
de
coração
e portanto apaixonava-se
com facilidade

terça-feira, junho 14, 2005

Escrevo sempre ficção


Foto de Nuno Belo
(Usei esta foto como ilustração, num outro local, em Dezembro último. Nesse dia ocorreu um sismo, mas não me apercebi. Nunca me apercebo da ocorrência de sismos! Hoje apetece-me repeti-la!)

Há perguntas a que não me custa responder por e-mail, isto se não for muito mais comprometedor, arriscado e divertido responder aqui!
Estive a pensar bem se havia alguém da família a ler o blog, colegas de trabalho, amigos de pouca confiança... népias! É que, fosse esse o caso, a coisa já piava mais fino. Arriscar, arriscar, mas com juizinho.
Conclusão: isto é mesmo clandestino, que liberdade!
(Não é certo não levar nas orelhas amanhã, seja como for!)
Portanto, aí vai, for your own amusement:
- Obviamente, não sou bissexual!
- Claro que já fiz amor com mulheres!
- Não, mas quando estou na cama nunca sou Capricórnio!
Ah, e não me convidem para encontros de bloggers, por favor!

Quem morreu ontem

Algumas culturas, não muito distantes de nós em quilómetros, festejam a morte.
Não a lastimo, propriamente. Quem agiu, falou, usou os dons dos sentidos na medida em que os possuiu inteiramente ou transcendeu os do espírito, pode, então, morrer.
É um direito que, a certa altura, se ganha.
Outros, como eu, têm de ser levantar todos os dias e lutar por merecê-la, quando for a hora.
Porque se for a hora, a hora é certa.

Um corpo doce




O meu corpo é uma descoberta, dá que fazer a quem se aventurar, e eu gosto dele exactamente como é: as marcas indisfarçáveis da minha vida ficaram gravadas; mais do que um corpo, é a minha arqueologia. Amo-o com a mama esquerda maior que a direita, as estrias na anca, a gordura onde temos gordura, os sinais que foram aparecendo na pele, sei eu lá porquê, as sardas na cara, as numerosas cicatrizes. É diferente. É giro.
Quando tinha 20 anos a minha pele era mais lisa, mas não mais macia. Aos 20 anos estava tão preocupada com o que parecia aos outros, que não pensava sequer no que significava para mim.
Amar um corpo é isto, parece-me: amá-lo como é, não como imaginamos que os outros estarão à espera que seja. Agora eu sou isto, e isto que sou é lindo! Pelo menos eu e o meu amor achamos que sim. E mesmo que fosse só eu, era gente suficiente.
Costumo dizer que gosto de corpos usados. De corpos povoados por aura de vida, de erro, retrocesso, arrependimento, glória. Como o meu. Também gosto da arquitectura canónica da matéria de carne rigorosamente esculpida segundo as regras clássicas - mas, para amar, gosto mais do velho corpo pós-moderno, que se limita a ser perecível, e que enquanto respira nos pede para ser usado.
Por muito canónico que seja, é inevitável que um corpo se torne usado. Às vezes dá vontade de ficar à espera que esse fruto verde amadureça dos risos e lágrimas do tempo, para que nos chegue batido pelo sol e pela lua, pesado de sumo doce, e possa finalmente ser bebido.

segunda-feira, junho 13, 2005

Eu hoje em dia festas só no coiso

Faziam questão de saber
exactamente a hora
em que Sua Excelência & Comitiva
haveriam de chegar à entrada da Vila
atravessando a ponte com guardas de granito: que
o estralaró não se compadece
com descompassos horários
e falhas de protocolo.

Não lhes bastava gastar os foguetes
a 15 d' Agosto em honra
da Santa
padroeira: que essa ao
menos a gente
nem sabe
verdadeiramente
quem
caralho
é.

Dormir contigo


Foto de Denis Piel, Two Bodies, 1982

Para ti, Mário Aventureiro!

O momento do início, em que cais do sono e estremeces, acordando adormecido, acordando-me. Respiras. O cheiro da tua respiração, do teu corpo encostado ao meu, que é já o cheiro de dois. O ritmo da tua respiração. Os sons que emites enquanto dormes, palavras, gemidos, nada; os movimentos suaves e bruscos; voltas-te rapidamente, tombas devagar um braço sobre a minha barriga; os momentos em que acordas dormindo, e perguntas, "estás aqui?", "estás bem?", "tens frio?", "chega-te mais para mim"; e procuras o meu corpo, puxa-lo inconsciente, e tacteias a minha mão, e puxas-me: e acordas, e a dormir voltas-me para ti e levantas-me a perna até ao teu ombro e entras em mim de rompante, sem delicadezas, porque afinal estamos a dormir, só a dormir, e tens-me enquanto mal percebo, percebendo, deixando ser; durmo, não deixo de dormir; o oxigénio do quarto pesa do nosso cheiro, do odor do nosso sono plural, uno, e não nos lembramos de manhã se foi verdade.

domingo, junho 12, 2005

O que fazemos de nós

Por que motivo não questionamos a estética sexual da primeira imagem (female torso), mas duvidamos severamente da segunda (male torso)?
A primeira é bela; a segunda, a litlle bit gay! Que diferenças objectivas existem?
Em Xupacabras, em rodapé (passando junto ao símbolo do Explorer - canto inferior esquerdo), lê-se uma frase de Anais Nin: we don't see things as they are, we see things as we are! (Não olhamos para as coisas tal como são, mas tal como somos!)

Foto - Herb Ritts, Female Torso with Veil, 1984

Foto - Herb Ritts, Male Torso with Veil, 1985

Assim ao menos somos todos iguais

Há poucas coisas mais pindéricas, tristes, fora do tempo: os Casamentos de Santo António; o véu e a grinalda e os sorrisinhos parolos. Em 1958 faziam pouco sentido - mas a cerimónia era relativamente consistente com o resto - e o resto era o país que se sabe - duma alegria constrangedora. Pois António Abreu, vereador comunista da Câmara de Lisboa, pronunciou-se em 2005 contra o ranço da cerimónia? Não. António Abreu pronunciou-se a favor de que os Casamentos de Santo António passem a incluir casais homossexuais - ampliando assim o esplendor dos véus e das grinaldas e dos sorrisos parolos - e das violetas dos ramos. Ora isto é o que se chama modernidade e tolerância - e «abertura». E parece-me bem: os homossexuais não devem ter menos direito ao pindérico que os heterossexuais, nem ser discriminados na possibilidade de mostrar publicamente, «ao mundo», que são tão ridículos uns como outros.

sábado, junho 11, 2005

A única coisa

Aqui.

Oh, Marilyn!


Bert Stern, 1962, Flirtatious - da colecção The Last Sitting

A cabeleireira perfeita trabalha no rés-do-chão da minha torre.
"O que é que a menina vai fazer?" O pormenor: "a menina".
"Quero só cortar as pontas; um centímetro".
Separa o cabelo em mechas, pega na tesoura e apara, não cinco, mas, exactamente... um centímetro!
"E o corte?"
"Mantenha este!"
E ela, sem hesitações... mantém!
E a qualidade disto: trabalha calada! Nenhum comentário gasto, "o seu cabelo é muito fino", "este tom é mesmo o seu? Por acaso temos aí uma tinta muito parecida".
Nada de conversa fiada. Nada de "então agora vieram os calores, hein?" ou "parece que a princesa de Espanha está finalmente grávida!" ou "não quer a Nova Gente?"
Que sossego! Não é um mero cabeleireiro, é um salão anti-stress.
E uma mulher fica de novo capaz de sair de casa e requebrar as ancas com segurança.
Por quinze euros! Eis para que serve um ordenado!
Não me ocorre nada mais perfeito, sinceramente!

Bert Stern, 1962 - Marilyn Monroe, The Last Sitting

Bert Stern, 1962 - Marilyn Monroe, The Last Sitting

Palavras que me divertem muito

«A partir dos dez anos – às vezes tenho dificuldade em dizer isto porque parece um bocado pretensioso – ia aos sábados à tarde para casa do meu avô e ficava perdido na área das enciclopédias.»
Guilherme d´Oliveira Martins, DNa, 3/6 in Actual, Expresso nº 1702, 10 de Junho de 2005, p. 12

«O processo de trabalho de “Pipas de Massa” foi doloroso?
Fisicamente sofri porque passava 10 a 12 horas sentado numa cadeira que não era adequada ao trabalho que estava a fazer. Isso criou-me um problema: quase não podia mexer-me: os editores enviaram-me uma cadeira que acompanha os movimentos; salvou-me a vida. E depois a Madonna enviou-me a sua massagista.»
Rui Paes, sobre o seu trabalho de ilustração para o último livro de Madonna, in Actual, Expresso nº 1702, 10 de Junho de 2005, p. 20

sexta-feira, junho 10, 2005

Feriado perfeito



Ir acordando ao longo da manhã, mas fazer muita ronha; voltar a adormecer. Sair tarde da cama, com vozinha de sono.
Telefonar à mãe para dizer que se está atrasada e perguntar o que é o almoço, afinal de contas.
Ler o jornal, muito devagar, na esplanada do D. Casmurro.
Arrumar uns livros nas estantes.
Ao fim da tarde, estrear o fato-de-banho novo na Fonte da Telha. Levar a Morena para correr e brincar. E a Lili.
Tomar um banho morno. Ir ao cinema.
A cada ponto final, fazer amor contigo.

quinta-feira, junho 09, 2005

As marcas

na minha pele
as tuas mãos
deixam as marcas
dum ferro
em
brasa

Ligação


Foto - Helmut Newton

(Os outros blogs provocam-me!)

Não vivi a miséria nem a desgraça. As minhas necessidades básicas sempre puderam ser satisfeitas e, quando não puderam, era já suficientemente forte para lhes sobreviver com dignidade. Não sei o que significa ter fome de pão nem, na verdade, de algum amor. Isto fez de mim uma pessoa particularmente venturosa. Penso nisso com frequência quando me apanho a queixar-me de barriga cheia. E se eu não tivesse tido o suficiente? E se a vida me tivesse levado a uma situação em que precisasse de sobreviver e não tivesse como? Prostituía-me? Teoricamente, pelo que julgo saber de mim, a resposta é clara: obviamente que me prostituía! Prostituía-me para manter a vida intacta e para garantir a vida aos meus. Mas sei, igualmente, que isso destruiria, sem remédio, parte de mim. O amor por mim. O amor pelo outro. Teria de me insensibilizar. Amortecer. Ou seja, embrutecer. Não olhar para um corpo enquanto corpo. Não enfrentar o meu, não pensar nele. Abdicar do meu desejo.
A venda dos serviços que um corpo pode prestar a outro, embora gere rendimento, no nosso mundo, nao é uma actividade comerciável. O sexo não é comerciável. É poderoso, de facto; transforma os agentes; marca-os uns aos outros; por vezes, uns nos outros. Mas não é uma prática meramente física. Quer dizer, para mim não é. A mim, marca-me.
O C.B. deixou um comentário, noutro blog, há uns tempos, afirmando que, se apenas fodemos, estamos fodidos. E eu penso isso mesmo. O sexo não é uma brincadeira inofensiva. As prostitutas e os prostitutos fodem, mas fodem-se também. Ora, cá para mim, ninguém se fode por gosto.
Alguns homens têm a ideia que as mulheres se divertem, prostituindo-se, que gostam "daquilo". Se eu fosse prostituta, esmerar-me-ia para aparentar que gostava daquilo, que gostava mesmo muito daquilo, e que cada cliente era único e insuperavelmente macho - desde que se despachasse, pagasse bem e eu pudesse ir fazer outro rapidamente!
Alguma cultura dá-nos da prostituição uma imagem de amor livre. Alguma história mostra-nos que as prostitutas chegaram a desempenhar papéis sociais influentes, relevantes. Mas a prostituição não é livre nem atribui estatuto social. Pelo contrário, destrói estruturas espirituais e intelectuais. Não constitui, regra geral, uma prática de prazer para quem presta o serviço. Concordo que apertar parafusos durante oito horas por dia também não seja - mas continua a ser diferente. Se pudesse salvar a minha vida e a dos meus, apertando parafusos, e pagando impostos disso, escolhê-lo-ia. Que destruísse os olhos, mas que conservasse o espírito ileso à espera de oportunidade de fuga. A prostituição é um caminho que se faz em desesperança, mesmo quando é o primeiro, porque não se conhece nenhum outro.
Em tempos contactei algumas prostitutas ligadas à associação O Ninho. Fui colocada perante mulheres que tinham regredido ao ponto de terem desaprendido de ler e escrever. Que violência é essa, exercendo-se numa dimensão com poder para extinguir a capacidade da leitura e da escrita?
Claro que herdei um pensamento sexual. Mas a ligação (link: tocar e aceder de forma imediata!) que alcançamos através do sexo transcende a cultura e, na minha experiência, entra em esferas não taxáveis. Consciente dos riscos decorrentes desta afirmação, sinto que pode existir no sexo algo de "sagrado". Uma genuína consagração.

terça-feira, junho 07, 2005

Nus


Foto - William Ropp (algures em Xupacabras).

Hoje era para escrever sobre o corpo. O corpo das mulheres. Sobre essa perfeita dádiva dinâmica, suave, inexplicavelmente harmónica que natureza lhes ofereceu e que apetece tocar, possuir sem razão.
O corpo dos homens não gera o mesmo tipo de admiração espontânea. Gosto dos seus corpos, mas aprecio mais os femininos: as mamas, as barrigas, os rabos... são estupendos. A pele das mulheres.
Os homens não se expôem tanto, não usam a roupa justa, não o revelam. Os seus corpos não são tão fotografados nem pintados. A exposição pública do nu masculino é infinitamente menor. Sobre o corpo masculino, mantemos um olhar "desabituado". Não se cria apetência pela contemplação da sua particular harmonia. Por isso, o olhar que sobre ele conservamos é tão mais desinteressado. O corpo das mulheres, pelo contrário, é objecto de culto, adornado, aperfeiçoado, exposto sob todos os ângulos, luzes, fundos. O corpo da mulher é um real objecto de arte. Habituámo-nos. Queremo-lo.
Mas o corpo dos homens tem os seus mimos. Gosto de tudo, mas, sobretudo, das barrigas, dos rabos, das pernas. Gosto das barrigas a sério. De um pedaço de barriga. De qualquer coisa que se agarre, apanhe, feche nas mãos. Gosto dos defeitos. Das cicatrizes. Dos sinais. Das marcas de operações, dos transplantes de pele.
O pénis é muito feio, muito arrogante; acha-se grande coisa, mas é completamente totó! Que objecto tão mal feito - não me refiro a questões de ergonomia! Não se fez para a contemplação, é isso, tenho pena.
Um homem nu, deitado de bruços, é o meu jardim de delícias e só penso em amolgar-me toda sobre aquela perfeição, beijando-a na nuca e na cintura e na curvazinha que a nádega faz ao transformar-se em virilha e na curvazinha dos joelhos. Nossa Senhora dos Aflitos!
Bem, eu hoje era para continuar a escrever sobre isto... mas vou ter de adiar.

segunda-feira, junho 06, 2005

Ao pé de ti

hoje estive para te confessar
que em boa
verdade
sou jornalista que
uso óculos que
o meu nome
é
Clark
Kent

A sede

quero-te
como no deserto
um oásis

Medo dos terramotos

não
movas
meu amor
as
pálpebras

Conjugações

tu matas-me
tu atas-me
tu m
atas
me

O poder

tu olhas-me e
é como se
me
tocasses
por dentro

As coisas simples

de
tudo o que me dás
eu quero apenas tudo
o resto
que se
foda

Os incêndios

tu dizes «sabes meu amor»
e as sirenes dos bombeiros
começam
a tocar

A vida na torre II

Jantar vinho com tâmaras secas, decorando o azul, o fresco fim de tarde oriental.
As tâmaras embebedam um pouco, não é?
Encosto a cabeça ao teu peito: acho que as tâmaras embebedam um pouco.

domingo, junho 05, 2005

Acordo tácito


Foto de Arno Rafael Minkkinen (em Xupacabras).

Respirávamos, soletrávamos, escrevíamos um para o outro e, nesse inegociado transporte, o mundo era perfeito.

Meu Amor

no teu corpo demoro-me
as suas sílabas demoram-me
na tua pele acrescento a hera a
sombra iluminada da hera a
arte a
música das águas contada pelos dedos a
mais distante promessa de refúgio
no teu corpo é
que me perco é
que me esqueço de mim se
as estrelas se desmoronarem de súbito só
de te moveres
se as mais inumeráveis lâmpadas
do amor
se acenderem só
de te moveres
se o fogo subir desde as mais improváveis raízes só
de te moveres
se
o equilíbrio dos astros ficar em perigo só
de te moveres

Física

digo uma única vez o teu nome
e mesmo asim tremo de medo
temo que essas três sílabas
possam de súbito deflagrar

e o teu corpo e o desejo
aproximarem-se desamparadamente
à velocidade
da luz

A posse

quando me despes
eu sei
que todas as tuas frases
todos os teus silêncios
são pronomes
possessivos

Em ti

em ti
o que procuro não
tem nome

No meu corpo

as tuas mãos
no meu corpo
desviam-me
de mim

sábado, junho 04, 2005

sexta-feira, junho 03, 2005

A natureza de Isabela

Predial
Não confronta a Norte nem a Sul nem a Nascente nem a Poente.
Não possui artigo matricial.
Não se encontra descrita a folhas tanto e tanto do livro tal e tal em nenhuma Conservatória.
Não é passível de avaliação para apuramento do valor patrimonial.
Civil
O original da certidão de nascimento, após antiga e demorada viagem de barco, repousa, agora, em paz e sem averbamentos à vista, na cave dos Registos Centrais, rua Rodrigo da Fonseca, 198, Lisboa - horário de funcionamento: 9h/16h.
Comercial e automóvel
Também não.

A vida na torre

"Crazy", ao sol da manhã, dançar Crazy, de Seal, de frente para o mar, o céu, a brisa - dormentes de azul e transparentes - que se precipitam pela janela panorâmica, aberta, do 11º andar.
À solta. Em cuecas.

Resumo

Pensar que se é livre.
Não aceitar termo de posse.

Único senão

Desconfio sempre de promoções.
Com o meu novo kit ADSL veio, grátis, um telefone fixo-portátil marca Siemens, modelo Gigaset C100 SMS.
E agora, pergunto, como programar a geringonça sem ler o livro de instruções de fio a pavio?
Melhor, como ler o livro de instruções e conseguir aplicá-las, com sucesso, ao funcionamento da geringonça?
Se já tivesse mandado fazer um averbamento na certidão de nascimento (ou mesmo sem!) dizia agora daqui, bem alto, "ó filho, anda cá, mor, a ver se descobres como é que se lêem os SMS´s e se gravam os números na lista... e se mudas o toque a esta porra, que é insuportável!"
Entretanto, ia pôr no cabelo uma máscara de beleza Pantene ProV - cores brilhantes - que acabei de comprar e cujas intruções nem preciso de ler!

quinta-feira, junho 02, 2005

Ao que não termina, regressaremos


Henri Cartier-Bresson

Nunca regressei a um lugar de onde tivesse partido. Nunca regressei.
No entanto, os inúmeros lugares de onde parti permanecem intactos pelos portais da memória, guardando pormenores sinestésicos como o chiar azul de um portão, o sabor das pétalas de rosa debruçadas de um muro estalado de cal, o odor quente e ligeiramente carbonizado de uma mão cheia de amendoim torrado e embrulhado em meia folha de papel de jornal antigo, a textura longilínea e áspera das fibras acumuladas num troço de cana-de-açúcar, mastigado, sugado, a entalar-se entre os dentes enquanto larga sumo.
A sede macia das mãos que subiram as minhas pernas pela primeira vez. A segunda primeira vez em que me disseram, olhando bem dentro e bem ao fundo do campo de estio dos meus olhos "perder-te, seria perder-me..."
(E foi!)

Todas as memórias são memórias de lugares, porque o corpo habita imperiosamente os espaços por que vagueia. A memória de um rosto que sorriu, de uns olhos que olharam, de uma particular refeição de queijos e vinho, numa tarde de início de Dezembro, não podem dissociar-se dos espaços nos quais se tornaram realidade.
Há memórias que sustentam dias medíocres a funcionários públicos nos momentos em que olham a rua através das janelas dos seus tristes gabinetes, e recusam acreditar que aquilo que na infância julgavam que seria ser importante é, na realidade, ser isto.
Memórias a que voltamos sozinhos, no silêncio das casas, periodicamente, para nos deliciarmos como se ouvíssemos a música muito lenta que é já o ritmo do nosso corpo. Repetimos as faixas de que mais gostamos, fechamos os olhos, estendemos o corpo pelas superfícies frias, rebolamos pelo pavimento. Escutamos. Repetimos tudo outra vez.
Memórias tão perfeitas, tão bem cuidadas, a que limpamos o pó, que encaixilhamos em molduras de qualidade e bom gosto, mas que encaram com fatalidade a alteração dos seus traços originais.
Podemos jamais regressar, mas se um dia atravessamos esses lugares, pretendemos de volta as imagens guardadas nos arquivos mentais. Não queremos inovações, estradas de alcatrão... queremos o lajedo onde esfolámos os joelhos; nada de aquecedores, mas as lareiras que nos secavam as botas; queremos os antigos bustos erguidos a figuras cujos nomes não nos lembramos, nas praças onde começámos a namoriscar, não as esculturas novas, com mãos estilizadas, em ferro. Queremos o antigo coreto à roda do qual os velhos se sentavam, ao domingo tarde, deixando-nos em paz com os nossos segredos; sabiamo-los lá certos.
Queremos o que existe, a estampa que existe, essa fatia de espaço no tempo, viva em nós.
A realidade é essa memória.

quarta-feira, junho 01, 2005

Abraçar-te


Foto em Xupacabras
(Laureen Bacall e Humphrey Bogart em Porto da Angústia)

Queria dizer-te coisas, enquanto te beijava. Tantas coisas. Dizia-tas e beijava-te, e de vez em quando as palavras ficariam incompletas, mas tu percebias. Entrecortadas. Mas percebias. Beijava. Dizia.
Segredava-te dez mil anos de indizível magia. Sem que respondesses, sem que percebesses o que acontecia: respirasses, apenas.

A praia

Começou hoje oficialmente a época balnear e eu tenho, como é que hei-de explicar, uma questã: adoro a praia; as esplanadas dos bares de praia; os areais imensos (não, não me venham cá com a beleza dos areais encaixados em arriba, com a gente a espirrar e a ver devolvido o eco por um pedregulho mega-tonelar de calcário ou rochas de intrusão); a água se possível muito verde e muito esmeralda, ou só de um azul que seja transparente e deixe antever os peixinhos quase de aquário que andam assolapados na babugem; e a liberdade livre de correr ou atirar-me ao chão como nos filmes em câmara lenta; e o sol, e mesmo aquela leve aragem que no meridião se levanta ao fim da manhã a encapelar ligeiramente as águas.

Pois, a questã: a questã é que tenho, digamos assim, um nome a defender; e não há coisa mais burgessa que a praia: as senhoras a mostrar a banha pendente da baixa coxa, os cavalheiros e a filha da puta da bocha de malte fermentado, as meninas e o ofegante triângulo de pano e o bamboleante cu a custo subido sem o salto erguendo-se alternativamente como quem não quer a coisa os calcanhares, o vozeirão de loteamento com sotaque arrastado nas vogais a chamar as crianças para o iogurtezinho corpos danone «que te faz, filho, tal mal este jijuum que só estás côos ceriaaais», a Bola e o Record muito concentrados no drama do treinador que se vai embora ou do jogador que parece que não pode ir à selecção porque tem uma impingem ou um panarício num dedo, a caldeirada na mesa quatro de calções e chinelas de borracha, o peito nu demonstrando encaracolados pêlos em redor do mamilo, oh, e os desajustados fios dentais do biquini, e os lábios pintados antes do mergulho, e o bronzeador, e o fato de banho descaído deitando-se a senhora de costas na toalha e, em levantando a cabeça, o cuidado de trazê-lo de novo a tapar metade do volume da mama, e o passeio higiénico de gel e óculos escuros tamanho XL que é o que agora parece que se vende como quem diz «ó pra mim que transpiro beleza e saúde e, atenção, virilidade».

Portantos, quer dizer, confesso que também lá ando, entre envergonhado e feliz, e olhando em redor cuidadosamente a ver se me escapo de alguém conhecido que me possa topar nesta figura de turista em férias no Algarve.

Natureza do instante


Foto de Alain Azambuja

Claro que o amor ideal existe.
Claro que existe o homem perfeito, bem com a mulher que sempre se sonhou.
Não é claro que existam para todos. Não é certo que compareçam, simultâneos, na conjuntura de espaço/tempo em que deveriam encontrar-se. E mesmo que compareçam, não é certo que as circunstâncias permitam esse encontro.
Mas se o homem e a mulher, perfeitos, que se sonharam, transportando nas mãos abertas o amor ideal, couberem sem circunstâncias adversas no fragmento de espaço/tempo que os unirá, ter-se-á, nesse momento, pergunto eu, criado o mundo perfeito?

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...