E se a Isabela fosse um homem?, perguntava um anónimo há uns tempos? Posso ir mais longe: e se afinal, C.B., esse senhor menos assíduo, falasse fininho e fosse a minha legítima esposa?
Têm questionado a nossa identidade sexual, os nossos papéis: as pessoas lá têm a sua intuição!, percebem incoerências que acabamos por não controlar na pressa do post diário. A teia tem a malha larga, digamos.
Comecemos pelo C.B. Concordo que denota pouca consistência como personagem: oferece demasiado espaço à sua companheira de blog; não se impõe, deixa-a tomar as rédeas, “espraia-te para aí à vontade, miúda”, diz. Uns dias escreve poemas, os mais belos a seguir aos mais belos, às vezes dá-lhe para as agriculturas e vem, indignado, reclamar dos subsídios e burocracias comunitárias, bem como das engenheiras de salto alto que lhe aparecem na herdade e nas quais encontra uma única utilidade, nós bem sabemos qual; outros, solta-se-lhe uma nostalgia de macho cavernícola, e invectiva a fêmea, rasteirando a outra metade do blog, contrariando-a gratuitamente, enquanto sonha com o par de mamas da Laetitia Casta, as pernas da Latitia Casta, os olhos da Laetitia Casta... Convenhamos que a bela anca, a pele macia, a Laetitia Casta inteira a rojar-se pelo chão da caverna... só se for em nome da arte, do cinema e da fotografia de autor!
Personagem com defeitos de construção, mal elaborada; dir-se-ia pouco à vontade neste formato. Humana, apesar de tudo. Muito mais falha, portanto muito mais humana que essa Isabela.
Esse doce monumento chamado Isabela! Esse “fascinante” animal, “luz”, “vulcão”. Feminista e fêmea sem recurso. Por um lado, imbuída de um espírito de missão que pretende assinalar e cauterizar os males masculinos; por outro, sedutora e seduzível, desejável e desejante, perigosa, porque poderosa. Que mulher, meu Deus! Sejamos sinceros. Parece-vos real? Acham que este ser feminino, este rasto de fêmea olorosa e autónoma pode existir no nosso mundo? Não se percebe, à primeira, que a Isabela é demais!
Hoje, dia em que me abstive de trabalhar, e tenho tempo livre, decido contar toda a verdade.
A Isabela sou eu, Isolino, 42 anos, casado, professor de História de Arte há 20. A Isabela é a minha criação. Até hoje, a melhor coisinha que criei. Essa Isabela, se fosse real, seria minha, porque criei-a para mim, para o meu desejo, para a minha imperfeição. Se a Isabela existisse, meu Deus!, a minha Carla, que veio do Barroso e anda agora lá por fora a borrifar as alfaces, ficava em maus lençóis matrimoniais. E eu gosto da Carla! Se essa Isabela, essa escultura de sensualidade, sensibilidade, desejo, inteligência e risco existisse, eu estragava a minha vida, punha-a de pantanas, porque teria de ser minha e eu dela. Para sempre, minha. Para sempre colado aos seus olhos, lábios, a fazer-lhe tranças nos cabelos de ouro fino que lhe inventei, a repetir-lhe ao ouvido que a amava, como nenhum homem, nunca, lhe diria, nunca, e não saberia respirar sem o seu cheiro doce de fêmea, andar sem o som incerto dos seus passos quebrados, escutar o que não fosse a sua voz lenta e meiga. Isabela, o equilíbrio perfeito entre o excesso e a contenção: o mundo perfeito. Isabela: cede, mas não baixa; entrega, mas não perde; temo-la, mas nunca certa. Pede luta, conquista. Quer duelo. Dá trabalho. E, por ela, quero lutar, conquistar, duelar, ter trabalho. Vencida a guerra, que troféu, essa mulher nas minhas mãos! Morria para ter essa mulher. Quem não morria para ter essa "mulher cem por cento"? Se existisse, se eu, um de nós, amigos, conseguisse tê-la, o êxtase de Santa Teresa seria nada.
A Isabela foi desenhada para que cada um de nós se sentisse mais homem. É uma mescla bem conseguida das minhas divas; um pouco de cada uma: Marilyn Monroe, Brigitte Bardot, Elisabeth Taylor, Isabela Rosselini, Jane Fonda, Anita Ekberg, Susan Sarandon... Estudei-as bem. Fotos. Filmes. Documentários. Fotografias. Confesso. Adoro estas mulheres. Adoro mulheres.
A minha Carla não está mal! É uma morena rebolona de cabelo crespo, jeitosa, fogosa. Dorme-se bem com ela. Gosta. E tem força. Não me queixo. A Isabela não passa de uma Carla com mais brilho, mais tinta, mais penteado, melhor vestida e calçada, com mais cremes, menos terra nas unhas, e educada, certo; A Carla veio da província, e isso marcá-la-á para sempre. Estudou pouco. Fui professor na terra dela. Trouxe-a comigo, porque me quis. Ela é que me quis; fui escolhido e deixei-me ir. Depois, arrebatei-a à solidão dos montes e dos rios.
Pura. Objectiva. Outras vezes, lírica. Escreve bem. Escreve os posts do C.B. E como me surpreendo que esta mulher sem tempo, que trata da horta, do pomar, do filho, da cozinha, da lida e me pergunta que camisa quero passada e se juntei as cuecas para lavar, escreva o que escreve e como escreve! Porque a personagem C.B. não mantém uma linearidade temática, mas qualidade, senhores e senhoras, vamos lá ver, eu sei o que é qualidade! A Carla escreve bem seja o que for, precisa é de tempo. A Carla sai do quintal, desembrulha-se com as tarefas da casa, pega no lápis enquanto eu ocupo o pc a inventar essa Isabela e mais o que gostaria que ela me fizesse, e anda ali 4 ou 5 dias de volta de um poema, de um texto. Aquilo demora, mas quando sai, sai bem, sai sem mácula. Tortura-se, bem vejo, mas como admiro esta mulher que veio do cu do mundo, sem nada, a não ser intuição animal e, apesar de tudo, tem esta “mão”. A Isabela é uma boneca que desejamos, uma caricatura; nunca, na verdade, chegará aos pés de uma mulher real, de carne, cujo talento eu não construí, que não bamboleia as ancas, que se enterra na lama do quintal a plantar cebolinho...
Eis toda a verdade. Sei que após esta revelação dificilmente enfrentarão a Isabela ou o C.B. com o mesmo olhar. Corro o risco inevitável. Mas a Isabela continuará a Isabela, apesar da barba na cara e do par de tomates, tal como o C.B. se manterá C.B., agora com a vozinha mais aguda. Estou a ouvi-lo(a) lá fora chamar o miúdo para a banheira!
A Carla, que me incentivou a criar este blog, que achou que eu precisava de gastar certas energias malfazejas (ela é que o nomeou, para dizer a verdade!) não vai gostar de saber, logo à noite, que revelei toda a verdade.
Carla, desculpa, sabes que só vivo com a verdade. Tu és, tu sabes, a minha Isabela! És tu o meu risco. Amar, amar é a ti, Carla. É a ti que amo!