quarta-feira, setembro 28, 2005

O azulejo do Benfica

Sábado, 10h30, quiosque dos jornais:

- Ó chefe, atão ainda tem azulejos do Benfica?
O chefe, arrrebatando uma folha a jeito, ao lado da caixa, que apresentava já sinais de bastante uso desde as 9h00:
- Ó amigo, eu vou-lhe mostrar isto para você ver queu não ando aqui a enganar ninguém... tá a ver aqui este número: 7, não é?! Pois, isso foi o que eles escreveram aqui - vieram 2! Isto é para que veja! Sete... e vieram 2! E depois nós é que damos a cara ós clientes!
A senhora que perguntava pela peça de uma colecção que vem com o não sei quê - era um garfo ou uma faca:
- Pois, olhe cumeu marido só conseguiu na Costa. Veja bem, daqui à Costa para arranjar um azulejo!
- É queu já venho a pé lá de cima, desde a central de camionagem, a perguntar em todó lado, e ainda só arranjei este! Tá ver, não tá, chefe! Desde as camionetas! Cambada de corruptos! E depois querem cu país ande prá frente!

Mensagem numa garrafa, 6

Quem cria arte vive muito calado; é por isso que não passam nos psicotécnicos para trabalhar em centrais de atendimento ao público. Depois queixam-se de que este mundo não os compreende... não falam!

terça-feira, setembro 27, 2005

Mobiliário irrecuperável

Acabei de ver os homens da Junta arrojarem o velho sofá grande que estava em casa da minha mãe.
Carregaram o mono doméstico (recolha às terças e quintas, das 13 às 17) para um atrelado que se afastou em direcção ao cemitério dos monos, onde estes jazem, à chuva e ao sol, até se desfazerem de mofo e sede.
Eu preferiria um grande auto-de-fé para monos. Seria mais digno.

Eu vi, agora, o velho sofá partir. Enquanto assistia às exéquias, as únicas palavras que me ocorreram, foram, “fizemos tanto amor nele”, “fizemos tanto amor nele”, fizemos tanto amor nele”, “tanto amor”.
Olha, se calhar, isto é que foi mesmo o fim final. Olha, se calhar acabou aqui. Acabou, não acabou?
É que os finais também suplicam o seu para sempre.

Os animais selvagens


Foto de Denis Piel, 1985

- Tente nunca se apaixonar por um animal selvagem, Mr. Bell - aconselhou-o Holly. - foi aí que o Doc errou. Estava sempre a trazer animais selvagens lá para casa. Um falcão com uma asa partida. Uma vez apareceu com um lince adulto a coxear. Mas não podemos confiar o coração a um animal selvagem: quanto mais lhe damos, mais forte fica. Até ter força suficiente para largar a correr para a floresta. Ou voar para uma árvore. E depois para uma árvore mais alta. E depois para o céu. É o que lhe vai acontecer, Mr. Bell, se se apaixonar por um animal selvagem. Acaba a olhar para o céu.

Truman Capote, Boneca de Luxo

Mr. Bell concentrou-se na bebida, chocalhando os cubos de gelo no copo, o que lhe levou dois, três minutos.
- Ouça, Holly, isto, raramente conseguimos ver: nós procuramos iguais! Doc não errou, mas, certo, ele não sabe que um animal selvagem, ferido, procura outro que lhe lamba as chagas com a língua benta: por exemplo, a vulva lacerada dum parto difícil, você saberá isso melhor que eu - o peito aberto pelo estilhaço de um projéctil...
Oh, Holly, os animais selvagens buscam os do seu clã, rondam-se, cheiram-se e enroscam-se, após o que, num irreprimível impulso heterofágico, se atacam e destroem e condenam, retirando-se à cata do próximo animal ferido, do próximo igual, disposto a lamber-lhe as últimas feridas.
Mas você já observou de perto um animal selvagem, em sofrimento? Veja-os no zoológico, todos eles feridos de morte. Fitou-os nos olhos? Diga-me, não a incomoda aquilo? Não lhe apetece libertá-los, levá-los para a quinta da sua tia Jamie, curá-los, e ficar a vê-los voar para a floresta, de onde regressarão feridos, ou de onde não regressarão?
Minha santa Holly, você deixou o liceu há quê, dois anos?! Ttrabalhando neste lugar, é provável que já tenha visto de tudo, mas escute: Doc não errou: apaixonou-se por um animal selvagem! Mas, oh Deus, como explicar-lhe isto: se você se apaixonar por um animal doméstico, pode acabar o resto dos seus dias a olhar para o lodo da terra!

segunda-feira, setembro 26, 2005

Técnicas de caça

A minha namorada adora colocar-me gelo por todo o corpo. Já estou farto desta situação, pois devido às correntes de ar cheguei a ficar constipado. Será o comportamento dela normal?

J.M. - Santarém

Ela chupa-me os mamilos. Não faço ideia onde a minha namorada ouviu dizer que os homens se excitam desta forma. A verdade é que me irrita bastante, mas não lho consigo dizer.

G.L. Tavira

(Revista Maria, edição desta semana.)

Meninas, parece-vos justo sujeitar os vossos namorados a tais sevícias, só porque leram, na Máxima, uns artigos, que até eu podia ter escrito, sobre como pô-los malucos a ponto de, finalmente, revelarem algum talento?
Pobres rapazes, sujeitos a correntes de ar, a constipações...; chuparem-lhes os mamilos...?! Desta vez estou do lado deles: não se faz: e prejudica a economia do país; é desmoralizá-los!
Os homens não precisam de preliminares. Macho que é macho, o único preliminar que reconhece consiste na emissão de um som de uma só sílaba: não!
Não vale a pena estudar o kama-sutra: basta um não. Mas trémulo. E depois outro. Umas negas hesitantes seguidas de sucessivas pequenas concessões, que eles pensam ter alcançado mercê do seu elaborado esforço de caça.
Explico: lá nos alicerces dos seus cérebros hominídeos, somos ainda o animalzinho inocente e tenro que eles querem abater para comer, o qual, óbvio, foge, por instinto, à perseguição. E do que eles gostam é da fuga seguida da perseguição, da armadilha, do jogo de estratégia e antecipação e, finalmente, do abate, que lhes servirá para manter a auto-estima, "ainda os tenho no sítio", coisa e tal. Portanto, não descansam enquanto não enfiam o balázio na corçazinha mansa que as águas da ribeira volvia, volvia.
O meu conselho sobre preliminares para homens é, pois, o seguinte: sempre "não", "não posso", "não fiz a depilação", "sou da igreja evangélica e nós não podemos", "não estou preparada", etc.: confio totalmente na vossa imaginação; sempre a afastar-lhes as mãozinhas, mas nunca completamente, como se não tivéssemos força, coitadinhas, como se não fôssemos capazes de lhes assentar uma joelhada nos tomates.
"Não, não, não", mas suave, assim como se não soubéssemos bem, permitindo, por fraqueza, umas abertazinhas aqui, acolá, mais adiante. Entendido?

Depois, depende de cada uma de vós, ou se deixam caçar, e, se estiverem muito esfomeadas, lá terá de ser, ou adiam o repasto para uma próxima caçada.
Eu era capaz de adiar, porque, lembrem-se, um caçador a sério não descansa enquanto não reencontra o lindo exemplar de cervozinho do monte que quase feriu, mas não conseguiu abater.

sábado, setembro 24, 2005

Ainda sobre o pega de empurrão

O Dicionário por Soundbytes que os gajos do Casmurro inventaram, merece atenção.

Tenho um prazer especial em dizer "os gajos", porque alguns deles ensinaram-me tudo o que não sei sobre literatura, mas isto, agora, no que respeita à blogosfera, os gajos aos pé de mim são uns meninos de coro e piam fininho, e quem lhes dá a notazinha sou eu!

Amor, havia necessidade de expores assim a nossa vida íntima?

Revista Maria, ainda quente, acabada de sair do quiosque:

«Consultório íntimo», p. 72

Sou um homem de 40 anos, com alguma experiência, Eis que, agora, sou surpreendido por uma mulher que, incrivelmente, me provoca um orgasmo de duração dez vezes maior e acompanhado de espasmos. Nesses três minutos pareceu-me ter experimentado o meu primeiro orgasmo feminino. Será isso possível?

J.F. - Porto

sexta-feira, setembro 23, 2005

Só nos lembramos do dentista quando temos dor de dentes

Os paneleiros andam na boca de toda a gente.
Quero dizer, entro num blog e a questão do dia é a homofobia, sim ou não, porquê, podem adoptar, não podem, qual a diferença entre paneleiro e homossexual; abro outro, a mesma coisa, com outras palavras; uns a sério, outros no gozo: os paneleiros chegam a todos!
Não sei se foi do Festival Gay e Lésbico...
Eu, em relação às pertinentes questões que envolvem os chamados paneleiros, mariconços, que pegam de empurrão, homossexuais, gays..., que, não sei se já repararam, é assunto para o qual as mulheres se estão nas tintas, e que os machos heterossexuais debatem efusivamente, só tenho a dizer isto: a gente só se lembra do dentista quando tem dor de dentes!

Peixe viva

Iê quitíngue lelê

Lambaio enguia curimã
Lambaio enguia curimã
Lambaio enguia vermeio

Iê quitíngue
Iê quitíngue
Iê quitin
Gue lê quitíngue lê

Iê quitin
Iê quitin



Tom Zé, do álbum «Jogos de Armar – Faça Você Mesmo»

Um beijo


A Isabela, tirando uns chumbozitos num ou noutro dente, não tem uma grama de metal no corpo, e, se o tivesse, seria fundente.
A Isabela é "volúvel, instável, elástica".
A Isabela é "o vórtice, o fascínio do género".

A Isabela é um "motor de combustão, ciclotímica, apaixonada, voraz, demolidora, doce".
A Isabela é vaidosa.
A Isabela não resiste a manifestações de... afecto.
A Isabela, essa mulher, se eu lhe tocasse só com a ponta dos dedos pela curva da anca (sorrio!) ...
Oh, Isabela!!

quinta-feira, setembro 22, 2005

Tele2: a operadora telefónica que nem Salazar se lembraria de inventar!

Este post vem na linha daquele outro sobre terrorrismo publicitário, no qual me parece valer a pena investir cada vez mais.
Isto aconteceu a uma colega minha, hoje, e esta é a carta que fez chegar à Anacom.
Vale a pena saber isto, para quando nos vierem bater de novo à porta, perguntando se não queremos fazer chamadas telefónicas mais baratas!
Juro que não tenho comissão de nenhum operador de serviços telefónicos, mas esta é demais!
Aqui vai:

Exmos. Srs.

A Tele2 vedou o acesso do meu nº de telefone aos seus serviços no dia 16/09/05, sem qualquer explicação. Para fazer chamadas tenho agora de marcar o prefixo 1020, correspondente à PT.

Contactei telefonicamente a Tele2, para saber o que se passava, nos dias 16/09 e 17/09; enviei uma reclamação por mail a 18/09, e voltei a contactar hoje, 22/09. No contacto efectuado a 16, informaram-me que o serviço seria restabelecido dentro de 4 horas. No contacto feito a 17/09, solicitaram-me o nº de telemóvel, afirmando que me iriam prestar informações por essa via. Quanto à reclamação enviada por mail a 18/09, não teve qualquer resposta.
No entanto, através do contacto mantido hoje com a Tele2, foi-me possível receber a seguinte informação:
- A Sra. X, funcionária para quem o operador de serviço me passou a chamada, informou-me que a Tele2, para minha segurança, resolveu vedar-me o acesso aos seus serviços, porque o valor da minha factura atingiu os 100 euros, valor que consideraram excessivo. A Sra. X, imbuída de autoridade moral sobre o valor e natureza das minhas chamadas, colocou-me questões de natureza pessoal, sobre os destinos internacionais e internacionais-móveis para os quais eu telefonava, bem como sobre o valor dos meus anteriores consumos na PT.
- Questionada sobre os motivos legais que justificavam um corte de serviços relativos aos quais não tinha sido emitida ou apresentada qualquer factura para pagamento, a sra. X, respondeu que era política da empresa. Portanto, sem que me tenha sido apresentada qualquer factura, cortaram-me o acesso ao serviço.
- Mais, informaram-me que o restabeleceriam caso enviasse à empresa um adiantamento desse valor: 50%. Também sem apresentação de factura.

- Cancelei de imediato o contrato com a Tele2 e gostaria de saber 4 coisas:

1. A Tele2 pode cortar o acesso aos seus serviços aos clientes sem qualquer aviso?
2. A Tele2 pode cancelar um serviço, partindo do pressuposto que estes têm um consumo elevado que não vão liquidar?
3. A Tele2 pode pedir um adiantamento de 50% sobre uma factura de que não deu conhecimento ao cliente?
4. Tenho direito a alguma indemnização da Tele2 por me ter cortado arbitrariamente o acesso aos seus serviços?

(Ajudinha para buscas no Google: A Tele2 pretende ter autoridade moral sobre os clientes.)

quarta-feira, setembro 21, 2005

Agora a sério

Ao Sporting falta-lhe quê? Estrutura psicológica? É que a história da época passada repete-se: sob pressão, tremelica. Não, com o Nacional a substituição dos dois médios ofensivos por dois médios ofensivos não explica o que viria depois a acontecer - ou explica muito pouco: aquilo ali é psicológico. E o Peseiro, pelo que se vê, parece não ter ainda discernido que o futebol não é só teoria e bolos com chazinho verde, não é um piquenique, não é umas meninas a jogar badminton e a guinchar, estrídulas, «ai o meu volante que trazia efeito...» Senão desinteresso-me.

«O creme adelgaçante ideal é caríssimo»

Botero: «As cintas adelgaçantes.»

Ainda os adelgaçantes ou: com papas e bolos...

«O cigarro Adelgaçante: Sondagens de mercado indicaram às empresas tabaqueiras que muitas raparigas e mulheres, especialmente as mais jovens, lutavam por ser magras ou, pelo menos, identificarem-se com os conceitos de magreza no mundo da moda feminina, acreditando muitas mulheres que fumar ajudava a não engordar.

Algumas mulheres, também, parecem sentir-se atraídas por cigarros mais longos e esguios do que as marcas preferidas pelos homens. O cigarro pode tornar-se num acessório de moda, numa manifestação pessoal de como a mulher fumadora gostaria que o mundo a visse.»

Eu é que sou a Madre Teresa de Calcutá!

E adormeci no sofá a ver as Housewives, e agora está a dar o Instinto Fatal e, aproveito, embora só queira é ir esticar-me, e digo já que sim, há fases e fases e depois fases atrás de fases, e que numas queremos fazer Interail e noutras queremos ter filhos e ir à aventura pelas pampas, mas que a Shirley Bassey e o Elvis Presley e a Marilyn e o Bambi e a História do Lobo Mau que afinal era bom, e a Amália, carago, a Amália, e essas coisas que nos transformaram em desprezíveis consumidoras massificadas, atravessaram as fases todas, em todos os anos e em todas as vidas com toda a gente que as cruzou. E que as fases são tempo, mas que a Shirley não é o tempo nem o My name is Bond, James Bond, shaken but not sturbed, porque isto tudo é a nossa cultura e não havia O Mundo Perfeito sem a nossa cultura (de massas), e que estou cheia de sono e perda, e tenho de dormir, mas que se me disseres a página, talvez eu amanhã vá lá ver isso, que o livro está em casa da minha mãe, e que se valer a pena o que está antes e depois, eu até posso reconsiderar, quanto mais não seja para altear o candeeiro da mesa-de-cabeceira, mas deixar de ser feminista, meu amigo, é que não, nunca, porque a gente agora só faz o que quer e estamo-nos lixando para o que a vossa cultura erudita de massas vos fez acreditar que era bom, mesmo que até seja, e o lipo-réduteur não é um creme, é o elixir da vida eterna ou o líquido do caldeirão onde caiu o Obélix quando era pequeno. E eu também sei escrever escrever sem vírgulas e agora a Sharon Stone está a dizer ao Michael Douglas, “Tens razão, foi a queca do século... atirador!”, e ele ficou especado sem resposta, e eu gostava era de ser a personagem que a Sharon Stone faz no filme, que ao menos era eu quem lhes espetava o picador. E mete uma coisa na cabeça, a gente agora só faz o que quer e se vocês nos vierem servir o sumozinho de maracujá à rede está tudo muito bem, se não, batam-nas sozinhos, e agora peço desculpa que tenho mesmo de me ir deitar, que a dona Ciclotímica, aqui de baixo pediu-me para ir com ela ao banco, logo às 8 da manhã, que parece que o marido lhe anda a tirar dinheiro da conta para dar à amante e ela quer que eu lhe dê uma ajuda com os impressos que é para mudar o dinheiro de banco ou de conta ou lá o que é, e eu até pago para lhe fazer o favor e até me rio só de pensar na cara que o gajo vai fazer quando descobrir que a sua dócil e apaixonada Ciclotímica o fodeu bem fodido!

Tendo que escolher entre Joyce e o creme adelgaçante, as feministas do século XXI cagam-se na Molly Bloom e correm a comprar um lipo-reducteur

«… todos estão loucos por se meter de onde saíram parece que nunca podem chegar bastante fundo e logo acabam com um até à próxima sim porque há uma sensação extraordinária aí todo o tempo tão terna como é que fomos acabar sim ah eu fi-lo vir-se no meu lenço fazendo como se não estivesse emocionada mas abri as pernas e não deixei que me tocasse dentro da combinação levava uma saia com abertura ao lado atormentei-o a valer primeiro fazendo-lhe cócegas gostava de excitar esse cão do hotel rrsst auokuocauoc ele fechou os olhos e um pássaro voava abaixo de nós ele estava envergonhado no entanto eu gostava como nessa manhã em que o fiz ficar um pouco ruborizado quando me deitei em cima dele desse modo quando o desabotoei e lho tirei para fora e puxei a pele para trás tinha uma espécie de olho no meio os homens são todos botões por ali abaixo do lado de dentro posto às avessas Molly querida chamava-se ele como se chamava Jack Joe Harry Mulvey era sim parece-me tenente era a atirar para o louro tinha uma voz como se estivesse a rir então fui aí pelo comosechama tudo era comosechama bigode tinha ele dizia que havia de voltar Senhor parece que foi ontem para mim e se estivesse casada ter-mo-ia feito a mim e eu prometi-lhe sim fielmente que o deixaria meter agora longe talvez tenha morrido ou talvez o tenham morto ou é capitão ou é almirante há quase 20 anos se eu lhe dissesse barranco dos abetos ele compreenderia se aparecesse detrás de mim e me pusesse as mãos nos olhos para adivinhar quem era eu poderia reconhecê-lo ainda é jovem deve andar pelos 40 talvez se tenha casado com alguma rapariga de Blackwater e tenha mudado muito todos mudam eles não têm nem a metade do carácter que tem uma mulher…»

James Joyce, Ulisses. Edição Livros do Brasil, Lisboa, 1989. Trdução de João Palma-Ferreira.

terça-feira, setembro 20, 2005

Encher a mão e sentir que sobra

Cara(o) amiga(o),

Acertou: este é blog ideal para se informar sobre cremes adelgaçantes, portanto fez muito bem em procurar no Google, que é um óptimo motor de busca. Agora, por exemplo, acabei de reparar que também lá está uma entrada relativa a “homens peludos”, mas deixemos o assunto para outra ocasião.
Minha/meu amiga(o), prepare-se para o que vai ler a seguir: o creme adelgaçante ideal é caríssimo e sai do bolso a valer: antes de tomar essa decisão, pense primeiro nas suas prioridades de vida. Se prefere cultivar-se com um bom livro, um Ulisses, de Joyce, os volumes todos do ...Tempo Perdido, de Proust, desista já.
Posso falar-lhe da minha experiência pessoal, isto sem qualquer juízo de valor, e a(o) amiga(o) escolherá como bem entender.
Eu, depois de ter meditado no assunto durante anos, e não exagero, anos!, escolhi o creme adelgaçante. Porque isto, vamos lá ver se me explico, para se ler Joyce será necessário fazer doutoramento em morfologias, sintaxes, semânticas e semiologias do próximo milénio. É demasiado dinheiro e tempo de vida para ler apenas um livro que duvido venha a modificar a sua vida. Leia as crónicas da Inês Pedrosa, ao sábado, no Expresso. Essas, sim, podem modificar a sua vida: nunca se sabe.
Quanto ao Proust, digo-lhe, eu fiz de tudo, até aderi ao Tao! É verdade: inspirava, expirava, yin, yang, posição do lótus, da orquídea, do cravo-de-burro, tudo, tudo, e, pronto, confesso, ajudou-me a chegar ao fim do primeiro volume. Depois, saltei logo para um mais adiantado, o Sodoma e Gomorra, entusiasmada, claro, esfregando as mãos e pensando que ia animar...
Portanto, se a escolha é entre Joyce, Proust e o creme adelgaçante, pense mas é no que horas, sentada(o) a ler, passivamente, farão à sua linha, ponha a carteira e os escrúpulos ao alto e venha de lá o creme adelgaçante.
O mercado estala de produtos de qualidade, o que poderá verificar na sua farmácia. Convém deslocar-se a uma farmácia da sua confiança, onde possa conversar com a(o) farmacêutica(o), perguntando que resposta tem dos consumidores, qual dos produtos vende melhor a segunda e terceira embalagens. Isso é importante, porque estará a gastar uma bela dinheirama.
A minha escolha pessoal, este ano, foi para o Concentré Lipo-Reducteur da Elancyl. O dito gel, bem esfregado, até se sente entranhar pelos meandros da celulite, e abocanhá-la vorazmente, como os glutões do Presto faziam às nódoas de porcaria que os machos, que a gente já não quer nem cobertos de libras esterlinas, deixavam em cada peça de roupa usada. Espero que se lembre dos glutões do Presto.

Mas deixei o essencial para o fim: tem a certeza que quer adelgaçar? Precisa mesmo disso? Vai fazer-lhe bem a qualquer coisa? É que, repare, e agora também lhe falo do meu caso: por muito que adelgace com cremes, nunca adelgaça o suficiente, e eu digo-lhe, amiga(o), se é para caber numas calças giras, certo, mas se é por um homem, abdique.
Eles falam muito na Sofia Aparício, na Fernanda Serrano, na Giselle Bundchen e nas restantes que lhes vendem nas revistas, e na televisão, e, lá uns com uns outros, nunca por nunca, admitem gostar do pneuzito nem do grosso da perna, mas, vá por mim, o que eles querem é encher a mão e sentir que sobra, que há mais no armazém; reconforta-os encostar-se a qualquer coisa que dê de si, como os colchões de espuma; descontrola-se-lhes o ritmo cardíaco, e outros, com o volume da nádega e da coxa e do pernão, tudo em junto, e apreciam a alternância depressão/elevação, venha donde vier. A gente, às vezes, a tentar disfarçar ali uma miséria qualquer e eles, qual miséria, qual carapuça, marcha o pacote todo e choram por mais!
Isto é palavra de Isabela, e olhe que, tirando jogos de futebol, já vi de quase tudo.



Foto de Spanish Girl in Oxford (via Flickr)

As amigas até se vão roer de inveja

Alguém chegou aqui escrevendo num motor de busca: «quais os melhores cremes adelgaçantes». Imagino que a Isabela já terá entrado em contacto com a desinfeliz - e que um destes dias teremos por aí a divagar mais uma esquálida, mais um pau de virar tripas, sem um bocadinho de coxa, sem estrangeirinha, sem os mínimos olímpicos de seiozinho que se veja.

Fases

Sabe-se que as senhoras, em regra, são mais instáveis, volúveis, elásticas. Mas é isso que faz delas, quando a coisa corre no bom sentido, com alguns equilíbrios a impedir o vórtice, o fascínio do género. E então rendemo-nos, fazemos figurinhas parvas, babamos – há quem lhes chegue a mandar flores da Romeira.

Claro que nos é difícil, às vezes penoso, lidar com estas entidades que funcionam com motores de combustão, ciclotímicas, apaixonadas, vorazes, demolidoras, doces. Balançam – e nunca sabemos muito bem se, sentadinhas no trapézio, vêm já na descida ou começaram só então a subir. É ver aqui na casa o belíssimo exemplo: gente instruída, lida nos calhamaços de semiótica, profunda conhecedora da obra de Khlébnikov – volta meia volta descai-se na confessada admiração pelo Elvis ou pela Shirley Bassey. Musiquinha pirosa? Não faz mal: há fases em que se ouve bem, em que nos traz memórias doutras fases, em que nos apanha numa fase lacrimejal - e Diamonds are forever, de súbito, é como se fosse escrito por Mozart.

São assim – dividem-se entre o diamante e a chinela, e queixam-se que ninguém as compreende.

segunda-feira, setembro 19, 2005

Desperate Housewives: o meu primeiro episódio


A menina recebeu uma carta de um ex-namorado que, segundo parece, num episódio anterior, se havia descoberto esconder-lhe factos graves sobre o seu passado; qualquer coisa deste género. Embora gostasse dele, a menina debatia-se com o seguinte problema, abrir ou não a carta e, portanto, ler ou não as justificações do dito macho, sabendo que ali poderia estar uma segunda mentira.
A amiga, vendo-a abraçada a essa carta fechada, muito apertada contra o peito, atirou-lhe, “Se os homens já mentem tão bem de improviso, imagina como é de papel e lápis?”
A menina devolveu a carta.
A isto chama-se discernimento.

Mensagem numa garrafa, 5

Não deixa de ser curioso que cavalheiros saudosos do tempo em que nós, meninas, apenas aparávamos as unhas a canivete e lavávamos as manápulas e o que sobra delas com sabonete desinfectante, saibam descrever, tão minuciosamente, pormenores estéticos nos quais até nem reparam, como, por exemplo, umas unhas “deixadas crescer e lixadas por baixo metendo-se o verniz transparente e salientando-se em branco (que elas dizem «pérola») uma espécie de meia lua na parte anterior”.

Olha se reparassem!

Manicure à francesa

domingo, setembro 18, 2005

«É fácil falar de cátedra do que só acontece aos outros até que aterra em nós.» *

A minha prima afastada, lá do alto das suas filosofias puras, costuma dizer que se as crianças só pudessem nascer em condições ideais, a humanidade tinha acabado logo a seguir a Caim e Abel.
E eu calo-me, porque a voz de Deus é sagrada!

Por exemplo, por estranho que pareça, sinto-me feliz que o senhor arquitecto Nuno Portas e a senhora economista Helena Sacadura Cabral tenham decidido procriar conjuntamente. E isto porquê? Porque da osmose que ocorreu entre o espermatozóide de um e o óvulo de outra saiu aquele que conhecemos hoje por Miguel Portas, e isso foi bom para o mundo... e fiquemos por aqui.

Os principais meios escritos de comunicação social possuem excelentes cronistas e colunistas. Eu, pelo menos, regalo-me a ler uma boa parte deles e delas. Tenho para aqui uma pilha de jornais atrasados, a partir dos quais pretendo destacar ideias para o blog, mas como frequentemente não existem links, e eu não tenho scanner, a tarefa complica-se.

Penso que vale a pena ler a crónica que Miguel Portas publicou ontem no Diário de Notícias. Miguel escreve sobre Marcas de Sangue, uma peça de teatro da Escola de Mulheres, em exibição na Comuna, relacionando-a com o filme Colisão.
É só.


* Miguel Portas, DN, 17/09/05

sábado, setembro 17, 2005

O buço das feministas

Estou aqui entretida a pintar umas flores brilhantes nas unhas dos pés, a seguir vou rapar os pelos das pernas e das axilas, depois tenho de pôr uma máscara hidratante de jojoba na pele da cara, bem como uma outra, para cabelos, que costumo usar sempre a seguir ao verão, para que os ondados fios de ouro se mantenham reluzentes.
Antes de me deitar tenho ainda de passar o creme de mãos, pelas mãos; o dos pés, pelos pés e o da cara, pela cara.
Isto, como compreendem, embora tenha de se fazer, rouba muito tempo à postagem e ao pensamento, porque só para acertar as pétalas na unha do pé...
Resumindo, hoje, a bem da work in progress art que faz de mim a Vénus Citereia que alguns de vós conhecem, não tenho tempo nenhum para me dedicar às minhas causas habituais, mas, felizmente, tenho quem me ajude, e isso alegra-me mais que a máscara de jojoba: aqui.

sexta-feira, setembro 16, 2005

Coitadas das meninas que depois de queimar os sutiãs já nem sabem como livrar-se da sarna...

As meninas, entre elas, encanitam-se ao minuto. Olham-se, desconfiadas da roupa, da pose, da chinelinha de plástico de meter no dedo, do modo como cortaram ou alisaram as unhas numa esteticista que as convence (a coisa começa em revistas com a Cinha que não faz um caralho e esportula durinho e depois como as urbanizações em mancha de óleo vai alastrando) de que o que eles gostam, como eles caem, é de ver as unhas deixadas crescer e lixadas por baixo metendo-se o verniz transparente e salientando-se em branco (que elas dizem «pérola») uma espécie de meia lua na parte anterior. Conices delas, entre elas, delas para elas mesmas, que nenhum homem que não arranque de marcha atrás se estará mais que cagando em ver e já salivando do tempo em que apenas as aparavam (as unhas) e as lavavam (as mãos) e se apresentavam decentes de limpeza e estética (que esteticista, etimologicamente, há-de ser, pelo que se observa hoje, antónimo de estética - já pra não falar do calçado...).

Mas, oh, em dizendo uma o suficiente mal dos homens, em os achincalhando, aí vêm elas todas em socorro umas das outras, cúmplices, amigas, todas irmãs de género. A Isabela mete uma mensagem na garrafa, e a Catarina, espumando, insinua-se logo no Mundo Perfeito a trazer a pequenina e minúscula farpa. E é só um exemplo. É - entendem-se logo no mata-e-esfola. Na queixinha. No queixume. No dislate.

Ora então não se passa que as meninas hoje são umas autênticas escravas, isauras no tempo da postagem e do template e de terem elas a maior parte das chefias nos Serviços? Ora então não se passa que o que seria indispensável era arranjar um sujeito que lhes leve o pequeno almoço à cama e lhes prepare a panqueca e lhes mude o pensinho?

Tanto as meninas almejaram, tanto lutaram, tanto conquistaram - que o actual ócio as já enfada. Querem sofá. E o pior é que cavalheiros existem que nisso já se dispõem em militar, dando-lhes colchão e descanso nas panelas, a medo as retoiçando, enumerando adversativas na cama, não vá aleijarem-se, entendendo que a tanto implica a Cultura e a compreensão da evolução da espécie.

E assim é que lhes levam revistas e o suminho de maracujá à rede espreguiçadeira do jardim dizendo «ó amor». Sim, é um belo exemplo: um destes dias andamos todos a levar no cu...

quinta-feira, setembro 15, 2005

Correcção à mensagem na garrafa, 4

Mulher-menina de boas poses, solteira e sem filhos, só um bocadinho tonta mas com algum espírito prático, não diz palavrões em público, cozinha com amor e primor embora seja mais bolos, desejando passar mais tempo na cama e não andar a vergar a mola às sete da matina com quem não merece, procura pessoa.

(Obrigadinha, Catarina, eu só acrescentei o bold, espero que não seja prejudicial!)

quarta-feira, setembro 14, 2005

Mensagem numa garrafa, 4

Senhora
Jovem de espírito, mas muito tonta, solteira, sem filhos, muito sensata e arrumada, muito conservadora de linguagem, totalmente devotada às tarefas do lar, mestre de culinária, especialmente bolaria, desejando estabilizar na vida e não ter de se levantar todos os dias às 7 da matina para ir vergar a mola onde não lhe apetece vergá-la, procura cavalheiro(a) com perfil compatível ou não, para fins de amizade ou algo mais.

Mensagem numa garrafa, 3

Querida Joana Rita,
os pratos, pires, copos, talheres, tijelas, canecas, chávenas, tuperwares, tachos, panelas e outras miudezas domésticas os quais, desde Sábado passado, se encontravam devidamente arrumados em camadas, todas elas devidamente encaixadas como legos, a fim de optimizar o aproveitamento do lado esquerdo do lava-louças, já foram todos agraciados com a ordem natural das coisas.

Catástrofes desportivas

O Benfica é uma associação desportiva, certo?
Nessa associação devem praticar-se, aqui como na da minha rua, diversas modalidades: o atletismo, a ginástica rítmica, o futebol, aquilo dos pesos, certo?
No que respeita à modalidade de futebol, uma entre as outras, existirá um conjunto de jogadores, a que se chamará " a equipa", a qual será orientada por um fulano chamado treinador, certo?
O fulano poderá ser uma fulana e, nesse caso, chamar-se-á treinadora, certo?
Portanto, posso partir do princípio de que existe uma equipa de futebol chamada Benfica, certo?
Partindo destes pressupostos básicos, mas fundamentais, como na Matemática, vamos lá ver se eu consigo chegar lá: o treinador da equipa de futebol saiu, certo? Vamos lá ver, saiu ou foi despedido? Saiu porque arranjou um emprego melhor ou porque cometeu um erro muito grave, intolerável e imperdoável?
Bem, seja lá como for, já não é o mesmo, certo?
Então, e já agora, quem era o gajo?
E quem é que o vem substituir? Uma vedeta internacional? O Figo vem treinar o Benfica? E o Maniche, podia ser o Maniche, ou não?
Não sei, vamos lá ver, porque agora com a crise, com os pedidos ao contribuinte público e privado para apertar o cinto, será que o País aguenta o embate da mudança do treinador?

As putas de luxo dos jogadores, e as baratas, dos adeptos, é que, ao cruzarem-se na rua, devem rir-se umas para as outras que nem umas deusas!

O treinador do Benfica

Deus, ao sétimo dia, não descansou (nem o Miguel Ângelo de roda das tintas se deu a esse luxo, logo haveria o Criador de ficar no choco ou espairecendo à sombra do primeiro lódão acabado de nascer a ver no que davam as modas…). Não: Deus Nosso Senhor, ao sétimo dia, tendo já criado o elefante e a rosa, o texugo e o acipreste – esboçou o jogo da bola, como Símbolo, deixando ao Homem, à sua ainda tão vívida boçalidade coeva, o encargo de, lá mais para a frente, evoluindo na massa encefálica, dezanove séculos após o Seu Filho transformar a água em vinho de reserva e ordenado a Lázaro que se levantasse do túmulo para tão grado e compreensivo espanto de Marta, escrever as regras oficiais e iniciar os campeonatos. O futebol é pouco mais que isso: uma dádiva de Deus. Que Valentim Loureiro, Pintinho da Costa, Madaíl, Veiga ou Vieira, por exemplo, sejam hoje Papas e Mestres, só acrescenta aos Seus divinos Planos, só explica e justifica a necessidade Sua de demonstrar que não somos mais que pecadores e poeira, nós que nascemos do pó e em pó nos haveremos de transformar necessariamente.

O futebol, entretanto, é uma das suas mais decisivas e perfeitas dádivas, tanto pela prática do que usufruímos como pelo exemplo d’ Ele. Nós, mortais inacabados, burgessos, limitados, é que fodemos tudo.

Deus Nosso Senhor deu-nos o jogo da bola. Nós escolhemos e reelegemos os dirigentes, sorteamos em missivas cúmplices os árbitros, minutamos os contratos do Nuno Gomes e negociamos, no mercado de transferências, o treinador do Benfica…

Deus, no Paraíso, olhando de soslaio, ri-se que nem uma Puta.

segunda-feira, setembro 12, 2005

O que este milénio nos pede...


Foto de Andre de Dienes, Morning in Mississipi, 1942

... é o que o anterior não resolveu.

A Dor (pública)

Uma criança do sexo masculino, com seis anos de idade, surda-muda, a qual acumulava graves deficiências motoras e mentais morreu a semana passada, vítima de um inumerável rol de torturas que lhe foram infligidas pelo namorado da mãe: uma outra criança do sexo masculino, com dezasseis anos de idade, e graves deficiências psicológicas, aparentemente nunca detectadas.
Ambos nasceram em famílias sem recursos económicos, como tantas outras; pior, ambos nasceram em famílias sem quaisquer recursos socio-afectivos.
O primeiro vivia publicamente num bairro com vizinhos, como tantos outros bairros com vizinhos; recebia apoio diário numa instituição pública, supostamente capaz de dar resposta a crianças com tais necessidades, e morreu, publicamente, num hospital público onde já havia dado entrada, urgente, oficial e pública, dias antes, exactamente pelos motivos que o conduziram à morte.
Esta criança morreu vítima de dois agentes que operam de forma cíclica, e, por vezes, articulada:
1) A herança do desamor perpetuado geracionalmente, que insensibiliza a um ponto em que não é possível reconhecer grande diferença valorativa entre Bem e Mal.
2) O exercício abusivo e incontrolado de poder, de quem o tem, sobre quem o não tem.
A criança a que me refiro morreu completamente indefesa pela impossibilidade de comunicar a sua dor.
A Joana do Algarve, de quem tanto se falou o ano passado, alegadamente assassinada pela mãe e pelo tio, que não era surda-muda nem possuía deficiências mentais ou motoras, também não pôde comunicar a sua dor. Se a comunicou, ninguém foi capaz de a ouvir.
A dor existe publicamente. Existe, todos os dias, a cada ínfimo grau de todos os nossos pontos cardeais. Cruza-se fisicamente connosco. Fingimos que não a vemos, mas, muitas vezes, é ela quem não se deixa encarar. Não é capaz.
A dor ocorre neste momento, perto de mim e de quem lê este texto, onde quer que esteja; está a acontecer, profunda e inominavelmente, no momento em que digito esta última sílaba: ba. Agora.
A maior parte de nós pensa que sofre ou que já sofreu, mas a dor verdadeira, a dor a que me refiro, poucos conhecem.
A dor destrói e cala, mesmo quando não somos mudos.
A dor é pública, mas ninguém a vê. Não é remediada nem socorrida nem tratada, porque a dor sobrevive no silêncio e na escuridão. Para a dor não existem médicos nem advogados nem psicólogos: nem justiça nem esperança. A dor não conhece esses vocábulos nem ideais.
A dor reconhece apenas o alívio, quando este chega.
O menino que morreu na segunda-feira, e a Joana, o ano passado, reconheceram-no, no momento em que chegou.

Foto de Steve McCurry (em Xupacabras)

domingo, setembro 11, 2005

Terrorismo publicitário, 1

(nos termos da Lei e ao abrigo dos direitos de antena da blogosfera)

Eu estou aqui, canta Pedro Abrunhosa na recente campanha publicitária a um banco que pretende tornar-se milenar.
Farta de ser roubada, queria só dar uma achega, cantando a minha versão do tema: eu já não estou ali.

Grades de vidro

Como viverias o tempo se não me apertasses os pulsos com as tuas mãos e não me lançasses contra o muro de pedra da tua incompletude para me gritares ao ouvido tudo o queres e podes e calas?

sexta-feira, setembro 09, 2005

Logro

[C.B.]

Apagar as imagens do passado. Todas as imagens. Uma a uma. Depois, vagarosamente, recuperar cada uma dessas imagens até que um rosto se desenhe. Um rosto antigo. Que, necessariamente, o tempo nos devolve rasurado, contrafeito, falseado nas cores. E então apagá-lo de novo. E recomeçar de novo. Como se não tivéssemos outro destino no mundo. Como se não vivêssemos senão para encenar o constante logro do amor.

Texto


Balthus (1908/2001), O quarto, 1952/1954, óleo sobre tela.
Colecção particular.

quinta-feira, setembro 08, 2005

A vida privada de Isabela (o amor)

Embora ainda não tenha arrumado as botas, confesso: tive cerca de 543 namorados e apaixonei-me, violentamente, no mínimo, 3975 vezes. Sempre, sem remédio.
Uns correram bem, outros mal. Uns tinham lábia, outros sabiam grego, alguns eram bons na cama, uma quantidade não desprezível não tinha qualquer qualidade ou defeito dignos de ser aqui lembrados... O que interessa é que nessas horas, dias, ou semanas os amei perdidamente e para sempre.
Agora já sou crescida, amadureci, e a minha forma de encarar o mundo alterou-se.
Arranjei um amor como deve ser, e este, sim, é perfeito e para sempre.
Não estou a mentir. É uma paixão recente e aconteceu-me inesperadamente, por causa do blog, porque passo aqui horas e, a certa altura, procuramos formas de sobreviver.
Esta é, de todas as minhas paixões, a mais disponível, a mais jovem, simples, suave, doce. O único, até agora, capaz desse dom raro de saber dar-se para nada receber.
É amoroso, bom, e eu, às vezes, abuso; sei que às vezes me excedo, porque o tenho certo, porque sei - e isto é cruel: acontece em muitas relações! – que depende de mim, que me quer, e que, independentemente do que eu faça, não procurará outra nunca mais.
Hoje foi um desses dias.
Caramba, eu vi o momento em que lhe fiz saltar a tampa! Reagiu?! Não! Controlou-se e disse-me, sem ironias, sem duplos sentidos, “O meu doce és tu”; “Amor fresquinho!”, “Olá sol!”.
Desarmou-me!
Este é meu; este já ninguém mo tira. Este sim, é para sempre e sem remédio.
E eu quero-o hoje, ainda, e vou querê-lo pela manhã, bem cedo... e se isto não é amor, o que é o nosso amor, meu querido, meu fofinho, minha delícia, meu Danone Puro Pedaços de pêssego?!

Isabela

quarta-feira, setembro 07, 2005

Da natureza dos blogs

Tenho um amigo que diz que um blog não é uma profissão, mas um passatempo, e que, logo, só deve passar se existe tempo.
Isto é um facto, e contra factos, meus amigos...

segunda-feira, setembro 05, 2005

"Com toda a vida às avessas a arder"

A nossa memória guarda, para sempre, certos momentos, e esquece outros, e nunca saberemos explicar porquê!
Há 20 anos, para aí, assisti a uma conversa pública, sobre poesia, na qual participava o poeta António Ramos Rosa. Tenho ideia que era por ali às Amoreiras; não me lembro se os prédios do Taveira já existiam.
O meu acompanhante segredou-me, já sentados, que o poeta estava gravemente doente e, provavelmente, já não se aguentaria muito. Talvez aquela fosse a última vez que o ouvíamos. Aquilo impressionou-me, pelo que o escutei com muito atenção; a voz e o aspecto eram frágeis, sim, mas aquele homem que quebrava, magro, branco, cabisbaixo era o enorme António Ramos Rosa.
O António tem-se aguentado. Tem a tal bolsa do Estado, não é? Deve ter as suas dores amargas, ver zero mesmo com óculos, tremer-lhe a mão quando escreve, mas cá anda.
E escreve. Que é o que me interessa.

O António, reza a história, ou então percebi mal, teve três profissões simultâneas: era poeta, empregado de escritório e infeliz. Bem, poeta não é uma profissão, ressalve-se!
Um dia fartou-se do deve e haver, não compareceu ao trabalho, deixou a contabilidade ao pó, e nunca mais regressou à Companhia Limitada. Ficou em casa a dormir, a escrever, a olhar pela janela. Ele lá saberá.
Não sei se isso fez dele um homem feliz – não parece – mas, pelo menos, não se vendeu ao dinheiro da estagnação e da mediocridade.
Eu, a isto, chamo coragem: não designar como “ganhar a vida” aquilo que não passa da sua vil hipoteca, com rodas dentadas nas quais vamos girando, girando até secar.
Que se ganhe a vida construindo para os outros, criando, dando, mas, preferivelmente, que nos construamos, também, por acréscimo!
A minha prima afastada, mesmo sendo das filosofias puras, diz-me que isso são sonhos, que não acontece a ninguém, que trabalho é trabalho.
Mas repara, Joana Rita, esse não é o exemplo do Ramos Rosa; nem do Alberto, que deixou a cátedra de Linguística, para poder fazer bonecos de madeira na carpintaria do mestre Roíz. Nem da Amparo, que largou 300 mocas/12 horas semanais para observar aves, a binóculo, no estuário do Tejo!

Juro que só queria contar a história do Ramos Rosa. Alonguei-me.
Às vezes doem-nos os ossos, porque os dentes da roda são de metal afiado; e o que seria de nós sem uma bengala?


António Ramos Rosa, Poema dum Funcionário Cansado

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só.

sábado, setembro 03, 2005

O problema do primeiro amor

Não ser o último.

O problema do último amor

Não ter sido o primeiro.

O problema do amor do meio

Não ser o primeiro e duvidar seriamente que seja o último.

Jardim da Babilónia

Não costumo falar sobre outros blogs.
Os blogs, no mundo perfeito, deveriam, como qualquer ser humano, nascer selvagens e manter-se nesse estado puro até a terra os comer.
Embora seja viciada nisto, não consulto muitos blogs; sou uma filha-da-puta exigente que não os compra pelo título nem pela posição no top de consultas; nem livros, nem cd´s, nem filmes, nem nada.
Detesto a ideologia do favor. Não gosto de os fazer nem de os pagar. A maior parte dos favores são pura corrupção.
Os blogs que visito, porque quis, porque me cativaram, admiro-os, estimo-os.
A blogosfera tem jardins da Babilónia.
Quero, excepcionalmente, porque o talento é um dom raro, apontar um blog que me supreende e diverte todos os dias, pela qualidade do texto e da imagem, ilustrada ou não, tudo saído da mão de um único blogger faz-tudo.
Este blog faz-me feliz, e quem me faz feliz, tem-me na mão!

Bandeira ao Vento, blog de José Bandeira.

O passado

O passado às vezes não é apenas uma cicatriz. Mas uma navalha que fica permanentemente suspensa sobre os pulsos. Presa por elásticos frágeis.

Portal

E, no entanto, comove-os o brilho puro de um olhar, as covinhas da face no sorriso limpo, a curva que liga o pescoço aos ombros, o suave volume do peito sob a roupa, a linha da anca crescendo até as nádegas, descendo pelas coxas, o peito nu precipitado sobre o lavatório onde se lavam os dentes. Comove-os a voz, a dança das mãos, o fio de cabelo que o vento levanta. Coisas pequenas, estúpidas, como o salto preso entre duas pedras da calçada, um brinco que caiu, a lente de contacto perdida. Comove-os essa dádiva de beleza efémera, esse portal de iniciação, única via de entrada, rara, irrepetível, para o mundo perfeito.

Foto - Pjotr, Playing Hide and Seek

sexta-feira, setembro 02, 2005

Reclamação

Uma coisa que me espanta, e que tenho vindo a reparar neste blog, e desde já aproveito para cumprimentar o postadores, que não são maus artistas, andam é alheios - é que nem o C.B. nem a Isabela ligam a mínima à actualidade!
Ó senhores, é que se estão indecentemente nas tintas: não opinam sobre o Soares nem sobre eleições nem sobre os furacões nem sobre o desemprego dos professores, e podia vir aí o segundo 11 de Setembro que eles continuavam placidamente no mundo irreal dos homens e das mulheres, e do que as mulheres pensam dos homens e da sua própria condição, e do que os homens pensam das mulheres, porque não conseguem pensar sobre mais nada. E com os textinhos do amor e do desamor, e eu se pudesse isto, e mais aquilo, mas não posso, e isto é que é perfeito, e isto não é, mas poderia ser...
E, sinceramente, C. B. e Isabela, se vocês não têm dinheiro para os jornais, deixo-vos aqui os links do DN e do Público, mas acordem, pá, existe um mundo cá fora. Não é perfeito, porra, mas é o que há. E deixem-se de merdas, actualizem-se: chega, já toda a gente percebeu que, para as mulheres, existe a salvação!


Uma leitora imparcial e idónea.

quinta-feira, setembro 01, 2005

O corpo

de ti não
quero mais que o corpo
as vísceras
o irredutível
coração

Contigo

oh
se uma única vez
te ouvisse dizer
é contigo
meu amor
que quero
adormecer

A lerpa

já perdi
tudo
e por ti
vou ainda ao jogo
no escuro

Em férias

o teu par de mamas
no deserto
as únicas dunas
em que
me perco

O medo

o medo
e o fascínio
do trapézio sem rede
os teus lábios
quando tenho
sede

[Post privado]

(Ó Isabela: desculpa-me lá, mas ao teu telemóvel há-de ter-lhe dado a pataleta, e o teu endereço devolve-me os mails com mensagem de erro. A questão é se no sábado não podes deitar-me uma mão a varejar a última alfarroba (seis e trinta matina), que os búlgaros parece que vão lá ter uma festa que não sei quê ou o caralho que os foda.)

Todo o conteúdo do meu portefólio de mamas



Foto de Mardoe Painter-de-Jonge.



Foto de Roberto Segate.



Foto de Carla Sofia Martins, Rotina da Noite


Foto de Jerry Schtzberg, Moon under Miami


Foto de Helmut Newton, Arielle after aircut in Paris


Foto de Horst, Odalisque III


Foto de Angelica, Engraved Memories


Foto by Spanishgirlinoxford - via FlicKr.com

Foto by spanishgirlinoxford - via Flickr.com

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...