segunda-feira, outubro 31, 2005

A estrada mais perigosa do mundo






Carretera Los Yungas
, Coroico-La Paz, Bolívia.

(Rasgada por prisioneiros, durante a guerra contra o Paraguai, - 1932/1935.)

Clicar sobre as imagens.

sábado, outubro 29, 2005

Ainda de olhos fechados

Sim. E eu, Alma? Como imaginas que fiquei ao saber como ficaste só de ter-te, tão ao de leve, tocado a cintura?

sexta-feira, outubro 28, 2005

Ninguém sabia!

O ano passado, acho que foi o ano passado... na Maria, acho que foi na Maria... mas pode ter sido na Ragazza, sei lá, cultivo-me tanto... li uma “breve” que se infiltrou, para sempre, nos recantos da minha memória, a mesma que se recusa, com igual zelo, a guardar a data da batalha de Aljubarrota: Robbie Williams, o grande ídolo pop, padecia de uma série de graves traumas e fobias: temia ser atacado, perseguido, violado... pelo que contratara um bodyguard morenão e musculoso, todo ele tatuagens e roupa negra em lycra, que o acompanhava para todo o lado, e, tal e qual a minha Micas, nos dias em que se porta bem, dormia no quarto do Robinho, para melhor o proteger, ficando de guarda aos pés da cama do próprio, que dizem ser em ouro maciço.
Lendo isto, peguei no telefone, liguei para a minha prima afastada, a da filosofia pura, e ganhámos o dia em risota.
Também queríamos um bodyguard aos pés das nossas camas Moviflor!

Ora, vem ao caso que, aí há uma quinzena, mais dia, menos dia, bato com os olhos noutra "breve"; na Maria, acho que foi na Maria... mas pode ter sido na Caras ou na Vip. Desta vez, visava-se Robbie de forma descaradamente pleonástica.
Robbie Williams acabara de declarar a uma estação de rádio que, sim, era gay, imenso gay, mais precisamente, uma entre as assinaláveis bichonas que o Reino Unido produziu, e se ele as produz bem!

Resta-me concluir que algo está a falhar na formação dos nossos jornalistas. Há, efectivamente, crise curricular. Venha o não sei quê de Bolonha! Isto é um exemplo de não-notícia. Isto é igual ao famoso “cão mordeu um homem”.
Lá peguei no telefone, lá liguei para a minha prima afastada, risota, risota, etc., e a nossa preocupação, neste momento, limita-se a uma simples questão de segurança: o ouro, metal excessivamente mole, será material adequado a um leito sobre o qual pesa o sono fóbico e traumatizado de um ídolo da pop, ainda por cima com seu bodyguard aos pés?

terça-feira, outubro 25, 2005

Sempre frescos, sempre belos

Tenho descurado as obrigações que de início contraí com leitores e leitoras deste blog. Ultimamente, não me tenho dedicado a aconselhar os meninos sobre cuidados a ter com o corpo, para que se mantenham sempre desejáveis.
Apesar de tudo, vejo, com agrado, as evoluções registadas desde que comecei a postar sobre o assunto: nas grandes superfícies comerciais, cavalheiros hesitantes entre marcas de creme anti-envelhecimento e loções de limpeza são já atendidos e aconselhados por gentis promotoras das marcas. O mundo aperfeiçoa-se lentamente.

Hoje, gostaria de chamar a atenção para alguns básicos de beleza a que os homens dão menor atenção, injustamente, e dedicar-me-ei, exclusivamente, a uma nova linha homme, recentemente divulgada em Portugal, da conhecida marca Clarins.
Ora bem, meus queridos, não chega lavarem as bochechinhas com água simples ou sabonete neutro, passar o tónico com um disco de algodão, que virá negro após cada utilização, e besuntarem-se com o creme hidratante. Não, não.
Primeiro cuidado, a repetir todas as semanas, a esfoliação. Esfregar vigorosamente, pelo rosto, o creme ou gel esfoliante, rolando os grãos sobre a pele. Deixar repousar alguns minutos, para que se torne possível arrancar o máximo de porcaria entranhada nessas vossas crateras, a que, alguém, distraído, poderá chamar poros. Recomendo, para este efeito, o Active Face Scrub. Depois sim, o resto dos cuidados.
Atenção, a aplicação dos cremes deve fazer-se sempre no sentido contrário ao da formação das rugas. Imaginemos a testa: nunca partindo da raíz do cabelo na direcção das sobrancelhas. E, no pescoço, sempre de baixo para cima, do gorgomilo para o queixo.
Peles secas são um horror, escamam imenso, e aos 30 estão cheias de rugas. Vade retro. Como evitar? Aplicar um creme ou gel com alto poder hidratante como, por exemplo, o Total Wrinkle control, que não é gordo, e também servirá para peles oleosas; embora, a estas, a natureza as compense do inestético aspecto brilhante com o aparecimento tardio das rugas
Para os queridos com pele oleosa, e há imensos, que as hormonas masculinas são uma espécie de estação de reciclagem de óleos domésticos e industriais, podem usar o Shine Free Gel, que limpa, suaviza e retira o brilho excessivo. Recomendo entusiasticamente.

Outro ponto do rosto que os meninos muito descuram: o contorno de olhos. De nada vale manterem uma pele limpa se apresentarem papos, olheiras ao redor dos olhos, pelo que, para valorizarem a sua expressão, nessa zona tão sensível, para combater o cansaço e o efeito dos anos, aconselho, diariamente, antes ou após o hidrante, o qual já aplicam duas vezes por dia, manhã e noite, o Undereye Serum – apliquem-no suavemente, contra o sentido das rugas, massajando levemente, sobretudo sobre os papos e olheiras, podendo igualmente tratar as pálpebras.

Ainda um outro básico de rosto que poderão usar ao longo do dia, para reforçar o efeito do hidrante, e assim que começarem a sentir a pele repuxada, seca ou demasiado oleosa: o Fatigue Fighter.
Convém trazerem nas malas uma pequena embalagem de loção de limpeza neutra, ou simples água de rosas, alguns discos de algodão, e uns lencinhos de papel, sempre, sempre, para que possam facilmente proceder a esta operação sem saírem das vossas secretárias, consultando, simultaneamente, as cotações da bolsa na net .
Contra minha vontade, sou obrigada a informar-vos que já existem no mercado uns lencinhos de limpeza, húmidos, muito práticos, que poderão substituir os frasquinhos de tónico e discos de algodão, mas nunca é a mesma coisa!
E pronto, por hoje chega, amigos: imprimam o post e colem no espelhinho da casa-de-banho. Tenham uma santa semana de cuidados faciais.

Nota: atenção, amores, o frio e o vento que agora se começam a fazer sentir, desidratam imenso a pele do rosto e mãos. Portanto, alerta laranja, alerta laranja...

Mulheres que amo: Rosa Parks

segunda-feira, outubro 24, 2005

O novo treinador do Sporting

Aqui há uns tempos, no seu discurso de despedida enquanto futebolista, Paulo Bento chorou. Em frente às câmaras de televisão. Chorou.

São assim os homens de tomates. São assim os homens corajosos. São assim os homens de raça. Têm a coragem de chorar em público. Mostrando em público, sem ocultações, sem disfarces ou complexos, o modo como a máquina funciona por dentro.

Velhos que aspiram a altos voos

NOTA: Dando cumprimento aos regulamentos de O Eleito, blog que passo a acumular com O Mundo Perfeito até à data de eleição do próximo Presidente da República, publicarei aqui os textos que escrever ali.
Não vice-versa.




General Norton de Matos

Tem oitenta e um anos feitos. Vejo-o com simpatia. (...) A sua estatura é meã, encorpada e robusta, o rosto sereno e nobre com todos os caracteres somáticos acentuadamente portugueses. Aparece-me no seu ambiente doméstico, vestido de preto, sóbrio, sem uma jóia. Tem imensa dignidade de presença, mas é simples, sem a mínima pose ou afectação. Será um presidente democrático num país democrático, não a contrafacção dum rei. Olhos vivos, candentes, o riso bem-humorado, a voz forte e bem timbrada. Conserva a plena lucidez intelectual, raciocínio arguto e amplo, vontade tenaz, palavra fluente, memória pronta. É ainda o homem de ferro que o país conheceu. É o digno representante da Resistência portuguesa.

Archer, Maria (1949), “O general Norton de Matos”, in Sol, nº 201, pp. 1 e 10,

Acho que ainda vivi no tempo em que os velhos valiam alguma coisa, e não se atiravam para o lixo final de casas colectivas onde, hoje, são mantidos vivos, para morrer sós, inspirando, no seu último sopro de ar, o fedor da lixívia mista de urina retardada.
Já não gostamos dos velhos. Já nada nos podem ensinar. Já sabemos tudo. Leis, história, economia, literatura. Queremos caras novas e bonitas, gente magra, a quem os fatos assentem bem, de preferência.
Os velhos dão trabalho. São teimosos. Inconvenientes. Atrapalham. Sujam e não limpam. Não temos onde os pôr. E o pior é que alguns têm o coração e próstata de ferro, e ainda refilam, e nos mordem os calcanhares, perguntando, onde vamos e a que horas regressamos.
Nada os deita abaixo. E, agora, reformados, estão melhores que nós, que, para alombar com a crise, a nossa e a dos outros, embicamos todos os dias na direcção do emprego, debaixo de chuva e de noites mal dormidas, enforcados na gravata ou no conjunto de saia e casaco nas cores oficiais permitidas, azul, cinzento, castanho, preto.
Há 50 anos já éramos velhos se chegávamos aos 80, mas ainda contavam connosco para salvar a pátria. Era-se digno, aos 80; tinha-se errado e acertado, mas havia dignidade ao longo dessa caminhada, mesmo que fôssemos raposas velhas – um velho é sempre uma raposa, e nada teria aprendido se não o fosse.
Hoje, aos 80, estamos arrumados, somos velhos. Qual experiência! Riem-se. “Não acha que já chega, que já fez o que tinha a fazer, não lhe chega ler os jornais à lareira?”


Cartaz da candidatura de Norton de Matos, 1949

Em 1949, o general Norton de Matos, candidato à Presidência da República, com 81 anos de idade, era a esperança dos que sonhavam o fim do Estado Novo; em 2005, Mário Soares, com a mesma idade, está velho. Argumento fraco.
Digam-me que Soares é uma raposa velha, digam-me que não olha a meios, que dribla a democracia para manter a democracia, digam-me o que quiserem, e eu assentirei, porque dele nunca esperaria pior!
Também estou à espera de chegar aos 81 para me candidatar a qualquer coisa importante!


Esta imagem de Soares, no S. João do Porto, é conhecidíssima; alguém sabe indicar-me a identidade do(a)profissional que a captou, para que lhe possa fazer a devida justiça autoral?

sexta-feira, outubro 21, 2005

O que faço aqui?

Leiam este blog de vez em quando, por favor.

Vem aqui tanta gente do Porto e do norte...!

Há actos que parecem insignificantes, mas que são tudo, que são o que nos justifica.

Hoje não me apetece escrever!

quinta-feira, outubro 20, 2005

O que se perde

os sonhadores temem
como ninguém

as insónias

Cada um com as suas

O que me preocupa neste momento: semear o cebolinho, que o S. Martinho não tarda. Eu sei que é coisa pouca – com as presidenciais, com a pandemia, com o Uganda, com o défice, com as medidas de contenção, com as incertezas sobre a evolução do Wilma, com o desenculatranço da Estação Espacial Internacional, com os problemas de Abel, o Xavier, em face da anunciada descoloração súbita das sobrancelhas, com o Sistema deixado a si próprio depois da demissão do dr. Dias, com os tiroteios de Bagdad, com a divisão de tarefas, com a greve dos funcionários públicos... Sim, eu sei que é coisa pouca: mas que cada um faça a sua parte - uns a frequentar mestrados sobre a condição feminina em recitais de poesia, outros acompanhados de Sancho, de espada em riste, desenfiados pelos verdes campos afora a repor a justiça, outros ainda de pena e tinteiro a defender Clark Kent e o futuro da pátria.

Seja como for: eu, por mim, é o cebolinho que neste momento me preocupa.

quarta-feira, outubro 19, 2005

A mulher afegã e o ataque agudo de testosterona estagnada: estudo comparativo

Como sabem, eu e a Alma somos responsáveis, aqui nos bairros da periferia urbana, chamados os da Outra Banda, pela organização de recitais de poesia das mulheres afegãs, tarefa a que nos entregamos de corpo e alma, em trabalho de voluntariado, todas as quintas, pelas 21h15, sempre com carácter rotativo: Clube Recreativo de Paio Pires, Sociedade Filarmónica de Porto Brandão, Clube das Mulheres do Bairro da Lata de Santa Marta de Corroios, Grupo Cultural e Desportivo do Feijó, entre outros.

Eu e a Alma nascemos para a poesia, e é por isso que, ocasionalmente, tendemos a tolerar certos ataques agudos de testosterona estagnada, causados por desagradáveis entupimentos nos vasos seminais que ligam o colhãozinho direito ao esquerdo, e a que se chama, em linguagem científica, acidente colhoseminal!

Bem, esclarecido este ponto, gostaria de informar que a nossa rede de contactos, e muito a propósito, nos pediu para divulgar o seguinte acontecimento cultural, organizado pela Esquerda Intelectual Arruaceira (EIA), movimento no qual ambas nos encontramos inscritas, com os seguintes nº de sócias: 1963J, eu; 1978M, ela - eu inscrevi-me primeiro!

Passo ao copy-paste:

CONFERÊNCIA

"A VOZ SECRETA DAS MULHERES AFEGÃS: O SUICÍDIO E O CANTO"

Professora Doutora Ana Hatherly (vénia, por favor)

Dia 28 de Outubro de 2005 - 17h00

Universidade Aberta

Departamento de Ciências Sociais e Políticas
MESTRADO EM ESTUDOS SOBRE AS MULHERES

Salão Nobre
Rua da Escola Politécnica, 147
1269-001 Lisboa

(entrada livre)


Isabela e Alma vestidas com as burkas que costumam usar nos seus recitais suburbanos.

Isabela e o futebol: comentário atrasado ao Sporting-Académica

Amesendei-me no sofá, por volta das 19h30 do passado Domingo, liguei o televisor, e atirei-me às pipocas sobrantes, provenientes dos cinemas Lusomundo.
Quando me apercebi da imagem na televisão, estava a dar futebol; como tinha as mãos um bocado lambuzadas, preferi não tocar no comando, e lá me deixei ficar.
Conclusões a que cheguei:

- os jogadores de ambas as equipas estavam devidamente ginasticados e sabiam correr de um lado para o outro, mesmo quando não andavam com o fito na bola.

- os miúdos da Académica são giros que se fartam, todos tenrinhos, sobretudo aquele da bandolete, que fazia beicinho e era o que se chama um figo.

- os marmanjos do Sporting são todos feios e betinhos, sobretudo o Sá Pinto, que é horrendo. Agora os “negões” prometem. Aquele moço moreno da baliza, o Ricardo?, com ar de produto nacional, tem a sua piada. Uma pessoa olha para ele e vê logo que é bonzinho. Aposto que nunca traiu a mulher! Desse gosto.

- as fardamentas são do pior que há! A do Sporting parece vinda directamente de uma prisão da Pensilvânia: camisolas com riscas verdes sobre branco. Que falta de gosto! Contratem o José António Tenente, que é um valor seguro! Mudem a imagem. Depois querem ser campeões. Não podem!
A imagem é muito importante. Desde que aquela escultura de carne chamada Augusto Inácio se mudou para o Guimarães, ou lá para onde é que foi, o Sporting é o que se vê. O Augusto Inácio tem de voltar. Enquanto ele foi o treinador era outra moral!

- as fardamentas do Académica são um bocado neofascistas: muito negras, embora com umas riscas brancas para aligeirar o ar demasiado escuro; vale-lhes o patrocínio da Dolce Vita, inscrito no peito – e pensando no miúdo da bandolete, concordo que a vida poderia ser doce, sim!

- calções: os que usam deviam ser proibidos. Não favorecem a linha dos jogadores. Os calções deviam ser todos feitos de uma mistura de algodão e licra, curtos, bem cavados, aderentes. Eu posso fazer o desenho, se estiverem interessados.

Aproveitei o intervalo, estava o Académica a ganhar por um a zero, fui lavar as mãos e mudei de canal.
Não sei quem é que ganhou, mas será que isso interessa?!



Coisinha mais linda!

«Se fossem eles...», diz a Alma

A Alma fala do aborto daquele modo displicente que a esquerda revolucionária muito moderna e educada tem de alinhavar umas teses que somos tentados logo a aplaudir e subscrever seduzidos pela forma. A esquerda moderna, em tratando-se de contas, por exemplo, abomina a aritmética e apressa-se a discutir os fundamentos teóricos da matemática. É assim, em regra. No aborto é assim. Não surpreende, pois, que a Alma discorra sobre a injustiça de criminalizar «a parte do casal cuja biologia determinou que ficasse com o embrião no útero», avançando a teoria de que tudo haveria de ser diferente se a criminalização tocasse a ambos por igual. A teoria é interessante (a Isabela, claro, chega-se de imediato à caixa de comentários a aplaudir, em êxtase, clac, clac), tem substrato, e justificaria ficarmo-nos aqui em comité a discutir com gin-tónico e salgadinhos, repetindo sessões, o assunto até de madrugada e aproveitando de passo para nos insurgirmos contra o corte nos subsídios aos projectos de arte abstracta apresentados às instâncias do costume pelos ineptos e inaptos do costume de barbicha ridícula e olheiras de quem dorme pouco acordando de uso após o meridiano. Acontece que a questão é outra. E não indo tão fundo e tão longe como isso de filosofarmos, que talvez se justificasse, sobre o instante em que o direito à vida é já, de facto, um direito de quem apesar de tudo não pode ainda exercer e invocar direitos, conviria no mínimo, em nome de que o que se discute não fosse de todo estéril, perder um instante a procurar esclarecer que aspectos da legislação em vigor não garantem o equilíbrio desejável entre direitos e responsabilidades de mulheres e homens adultos que, supõe-se, o são (que o caso é diferente se o não forem, e isso remete para outras instâncias). A Alma, e os arruaceiros intelectuais do costume, falam do aborto como se não tivéssemos uma lei relativamente avançada, com deficiências, é certo, mas nada negligenciável como ponto de partida. Como se, actualmente, à mulher não fosse concedido legalmente o direito de, num determinado conjunto de situações, abortar. Sem criminalização. Ora, só uma discussão se justifica: a de que alterações a legislação em vigor deve sofrer para que seja consistente com a nossa condição de pessoas responsáveis, adultas, civilizadas. Este é o ponto: qualquer discussão, a partir daqui, é essencialmente técnica. O resto não passa de foguetório, literatura de pacotilha, política rasteira, treta, lábia, estratagema, cortina de fumo. Também eu uso a frase e a figura de estilo: mas para brincar, embora falando a sério, do ridículo das unhas dos pés pintadas com estrelinhas vermelhas ou dos saltos altos que vi as senhoras usarem em Évora nas ruas de calçada ficando-lhes presos (os saltos) nas juntas dos cubos ao caminhar muito diligentes – acontece que daí não vem à orbe um prejuízo considerável.

Mensagem numa garrafa, 9

Uma diz mata, outra, esfola: agora é que elas estão como querem!

Pensamento de Cê-Bê, captado via satélite, ontem, pelas 19h30, depois de regressar da horta, sorver a malga de sopa de nabiças e ligar o personal computer .

terça-feira, outubro 18, 2005

Estão à espera de quê?


In Diário de Notícias, 17/10/05

Em Portugal nenhum referendo, nos próximos 50 anos, despenalizará a interrupção voluntária da gravidez, porque as cidadãs que o praticam ou praticaram, devidamente acompanhadas pelos cidadãos que sugerem, incentivam ou concordam, na hora do voto, traçam a cruz no não - isto porque a vida é sagrada, porque é pecado, porque fizeram, mas não concordam que se faça: teve de ser!
Portanto, prática ilegal, sim, muito bem, nunca chegará ao conhecimento do Senhor, entidade que se continua a confundir com o Estado - por isso é que ninguém reclama, estão todos conformados ao dogma do poder político como aos da religião! Agora legalizar, legalizar... não, que a gente gosta mais de fazer às escondidas. Seria a república das bananas! Qualquer uma fazia o que queria! Como se hoje, dia 18 de Outubro de 2005, qualquer uma não o pudesse fazer com notas de euro na mão!
A vida é sagrada, mas a da gestante, que já cá está, também, e a ela e ao companheiro, se existir, se ela quiser, cabe decidir.

Em Portugal, um referendo ao aborto nunca será um acto civil com consequências políticas, mas uma declaração de fé. Portanto, referendo, não! Lei!
Somos todos muitos cristãos, agora para dar a outra face, e ser-se solidário com quem realmente precisa, isso já é outra cantiga...

Nota: entre as mulheres que conheci e conheço, velhas e novas, apenas uma nunca interrompeu voluntariamente a gravidez. E foi porque não calhou. Acho que isto chega como exemplo.

Confissão I

Nunca concebi que o corpo de Cristo se pudesse materializar numa hóstia, e sempre achei tal ideia demasiado sensual para se praticar numa cerimónia tão circunspecta e assexual como uma missa: homens, mulheres e crianças, em fila, para, de boca semi-aberta, receber um corpo sagrado, mas um corpo!, que lentamente se desfaz entre o palato e a língua.
Sinceramente! Perante tal ritual, quem pode estranhar que na Índia ofereçam leite, mel, fruta e flores aos yonis e lingas!

Quando era miúda, porém, desejava provar a rodelinha imaculadamente branca, que diziam sagrada, e devia mesmo ser!, dado o ar tão compungido dos que a recebiam na missa.
Quando me mandaram para a catequese e tive de me preparar para a primeira comunhão, entusiasmei-me com a antecipação de acesso à hóstia – era, sobretudo, uma iniciação ao mundo temporal, uma espécie de diploma que não sabia para que servia, mas que me permitia participar no ritual e satisfazer a curiosidade: a que sabia, qual a textura?

Gostava da catequese. Como não havia contas, não era burra como na escola. Líamos histórias do velho e do novo testamento, e eu gostava mais do novo, porque o Jesus era bom e perdoava a todos por igual.
Escrevíamos redacções sobre pormenores do evangelho, opinávamos livremente sobre o carácter exemplar das histórias. E fazíamos provas a sério, com perguntas a sério, como na escola, mas sem contas, e eu acertava em tudo.

O meu problema residia na confissão. Não me agradava ir ao confessionário revelar ao senhor padre da Matola pecados que não tinha cometido ou de que não tinha consciência. Impingia-lhe sempre a mesma lenga-lenga, "fui respondona com a minha mãe, não limpei o pó, não faço nada, só quero estar deitada na cama a ler, fui vender montinhos de mangas para a portão e a minha mãe apanhou-me, roubei uma quinhenta do seu porta-moedas para dar ao mufana que nos apanha o capim para os coelhos...!"
E o senhor padre perguntava-me, "então, e mais, minha filha?" O senhor padre exigia-me sempre mais pecados... Quais?
E, então, eu, que nunca gostei de decepcionar pessoas e tentei sempre contornar as questões de forma pacífica, tive uma ideia: inventar pecados! Era isso, inventar pecados!
Passei a desfiar ao senhor padre da Matola um ror deles, que se consubstanciavam no que os outros me faziam, ou no que os via fazer, de forma geral: “roubei o afiador e a borracha à Micá, e escondi-os, depois roubei o estojo com o compasso ao Xico, roubo a torto e a direito, a toda a gente, digo asneiras grossas no intervalo, bato todos os dias no João e no Luisinho, por causa dos cromos... - que eu, desde o princípio dos tempos, sempre sonhei arrear nos rapazes!
E o senhor padre, que até se dizia à boca cheia que era vermelho e apoiava os terroristas, sentiu-se dividido: por um lado, eu tinha-me tornado suficientemente útil para justificar aquele ofício, por outro, o anjinho revelara-se uma espécie de Rosemary´s Baby.
“Minha filha, que graves pecados mortais andas cometendo; minha filha, não envergonhes a Deus nem a teus pais”, etc, etc.,, e “não podes agredir o teu irmão, nem praguejar, Deus te valha, criança”.
De maneira que percebi cedo a ironia de se estar vivo no meio dos outros.
Tinha a obrigação de pecar para que, forçadamente, se justificasse a absolvição, e o mundo retomasse a sua ordem natural!

Confissão II

Assim que pude, livrei-me da confissão. Não me confesso há uns 30 anos!
Claro que, conforme fui crescendo, houve a necessidade de me recontar; alguns amigos foram cumprindo essa função do cura. Umas vezes melhor, outras pior.
Houve alturas em que desisti. Houve alturas em que fui salva do silêncio.
Pode parecer que após 30 anos sem confissão espiritual, estarei para aqui atafulhada de pecados, mas não, porque, entretanto, aprendi a confessar-me a toda a gente.
Sou isto, e não me envergonho, de maneira que cada um leva o pedaço respectivo e me absolve ou não, de acordo com o seu julgamento. Sou isto que, como diz a minha prima afastada, para além de não ter vergonha na cara, veio directamente da pré-história para a actualidade sem transbordos pelo meio.
Não vivo com farpas cravadas nos dedos nem espinhas na garganta. Agora, já não. Mas reparo que uma boa parte das pessoas vai enchendo e calando, enchendo e calando, e passam todos por mim em alerta vermelho, em iminente estado de ataque terrorista ou explosão atómica.
Pensando nesses, descobri um blog excelente: o confessionário do século XXI.
Sigam o link e confessem-se anonimamente. Tornar a confissão num texto público e anónimo é uma ideia engenhosa. Permite que nos identifiquemos: afinal não estamos sozinhos; outros também fazem, pensam, sofrem aquilo.
Ontem, estava a discutir isto com a minha prima afastada, a da filosofia pura: achamos sempre que somos especiais, mas, iguaizinhos a nós, com as mesmas dores ou alegrias, existem uns bons milhões.
Eu já me confesso mais que o razoável, portanto, confessai-vos vós, filhos de Deus, que eu irei ler, absolver-vos e abençoar-vos - mas, cuidado, como é anónimo, disfarcem o estilo!

sexta-feira, outubro 14, 2005

Mandem elas

As meninas, ambas e duas, aqui há uns tempos, pediram-me retratos «para o álbum da casa». Fui aos arquivos recentes e deixei-lhes quatro: um quase deitado na chaise longue do mezanino a ler a Cartuxa; outro com Anita Sodberg numa viagem a Florença a escolher sementes como se nos estivéssemos a beijar; outro no Pulo do Lobo com o meu martelo de geólogo; e outro num fim de manhã, fumando a cigarrósia, vindo de colher uns cebolos que gosto de comer com umas pedras de sal cortados em quatro.

Pois hoje deparo-me com este retrato, o último, ali do lado direito do blog, pelos vistos enquanto preparam (as meninas) um daguerreótipo da Alma que, tal qual o da Isabela que também já-lá-está (os meus recursos estilísticos permanecem rigorosos não obstante a dor permanente no joelho direito), a favoreça aos olhos dos leitores relativamente ao original que, aqui para nós...

É assim que pretendem, estas duas almas gémeas, dar ao mundo a minha imagem: não a do intelectual que sabe de cor parágrafos inteiros de Stendhal; não a do mocinho que dormiu com Anita Sodberg menos que ficou acordado durante duas gloriosas noites; não a do correspondente convidado da Academia Italiana de Geologia; mas a do pacóvio de chapeuzinho de palha que vem com as fraldas de fora de colher o cebolo.

Este é o mundo perfeito: onde mandam elas e a gente já nem pachorra tem para ripostar muito.

Mulheres fatais, 1

O imaginário sexual masculino deseja e teme, em simultâneo, as mulheres fatais.
Estas achincalham e ameaçam o poder, na medida em que não se sentem constrangidas pelas regras.
Ora, o poder é assunto caro aos homens, por vezes titubeantes entre os direitos e as obrigações que o mesmo lhes atribui.
As mulheres fatais, subvertendo as normas, assumem-no e exercem-no, e, assim, ameaçam a construção social; o que as torna temíveis; mas dá-se que, o mesmo exercício de poder que as torna temíveis, as faz desejadas, já que o imaginário masculino anseia frequente, secreta e inconscientemente, ser desapossado do poder que a cultura lhe atribuiu como natural! Ou, pelo menos, partilhá-lo!

As mulheres fatais conseguiram a atenção do cânone que construiu a História na sua qualidade de devoradoras de homens; mulheres belíssimas, ou nem por isso, que, por algum motivo, se diz terem destruído a vida a grandes homens da arte, do pensamento, da ciência.
A História desvaloriza o facto de, coincidentemente, serem todas, ou quase todas, cultas, talentosas, extraordinárias; frequentemente mais cultas, talentosas e extraordinárias que os vultos cujas vidas acusam de ter destruído.
Por outro lado, valorizam-se-lhes os atributos sexuais, remetendo-as para práticas encaradas contra naturam ou, no mínimo, reveladoras de comportamentos dissolutos: lesbianismo, bissexualidade, poligamia, ninfomania, prostituição. Quando nada disto se aplica, atribui-se-lhes uma patologia mental e arruma-se o caso. Raramente se lhes concede o que as tornou únicas: o seu génio artístico ou científico, a sua excelência.

Vejamos alguns nomes: Mata-Hari, seduzia homens para conseguir segredos e fazer espionagem; Simone de Beauvoir; bissexual, recebia meninas e meninos em casa e, nos intervalos, criava uma literatura feminista; Virgínia Woolf, lésbica recalcada e escritora; Anais Nin, lésbica praticante e escritora; Isabelle Eberhardt, vestia-se como homem, frequentava bordéis, sexualidade inclassificável, escritora, Frida Kahlo, bissexual e pintora; Margaret Mead, casou demasiadas vezes, bissexual de certeza, lésbica provavelmente, antropóloga; Camille Claudel, maluca, desequilibrada total e escultora; irmãs Bronte, obsessivas, desequilibradas parciais, solteironas recalcadas, as que casaram fizeram-no sem amor, escritoras; Lou Andreas Salomé, devoradora de homens com vida dissoluta, escritora, pensadora; Marie Curie, costumes dissolutos após a morte do marido, arrogante, cientista; Isadora Duncan, ninfomaníaca, louca e bailarina; Carson McCullers, bissexual mais a tender para o lésbico, escritora; Marilyn Monroe, desequilibrada e burra, actriz; Marguerite Yourcenar, lésbica total e escritora; Marguerite Duras, ia a tudo, escritora; Clarice Lispector, maluca e escritora; Sílvia Plath, maluca e escritora; Alma Mahler, devoradora de homens e compositora.
E nem me abalanço a mencionar a nossa Carlota Joaquina que parece que era feia que nem um bode, má que nem uma cobra, que dormia com a criadagem toda, da cozinha à cavalariça, e maltratava o pobre do rei, coitadinho, impondo-se às suas decisões, a velhaca!

Dá vontade de rir, não dá? Parece caricatura, não parece?

A História não se limitou a ignorar as mulheres, como, quando as lembrou, as tratou mal e parcialmente!
E o que sabemos da História é o que a História escreveu!


Isadora Duncan

Mulheres fatais, 2

Alma Mahler foi brilhante, apaixonada, dotada de enorme talento e inteligência; uma compositora excepcional, a quem Mahler exigiu que deixasse de escrever para que, por amor, se dedicassem mutuamente sem o fantasma da competitividade – o que ela fez – até se cansar dos remoques narcísicos!
Alma amou e desamou. Depois amou outra vez.
Que se saiba, não dilacerou intencionalmente, física ou psicologicamente, aqueles que desamou, os quais, sim é verdade!, ficaram fundamente abalados após tê-la perdido. Ou fizeram fita.
Ela inspirava-os; eles, pelo contrário.
É provável que nenhum deles a tenha amado emancipadamente, livre dos constrangimentos sociais da época, e dos preconceitos daí sobrevindos.
Mahler teria deixado de compor para que se anulassem as questões de competitividade autoral que sentia relativamente a Alma?
Mas alguém tem de abdicar da sua arte em nome do amor?

Quantos homens, naturalmente, amaram e desamaram ao extremo, sem que a História os guarde como fatais?!
Quantos homens, ontem e hoje, levaram à total ruína emocional, e sem consequências de qualquer ordem, mulheres com vidas sociais e profissionais diferentes?!
Lembro-me de Camile Claudel e Frida Kahlo, que constam da lista de malucas que a história consagra. E a nossa vizinha do lado?
Por que motivo não parece incomodar a ninguém que um homem leve uma mulher à ruína emocional, e o contrário seja uma aberração digna de referência?

Numa vida sucedem-se muitos dias. A vida carece deles como oficina onde exerce a sua arte.
Escolhemos, constantemente, de acordo com o que nos faz falta ou com o que acumulamos em excesso. Procuramos, damos, negamos...
As mulheres fatais limitaram-se a viver totalmente a usura dos dias. Se calhar sofreram e fizeram sofrer. Mas não nos tem acontecido?

Se admiro Alma Mahler? Óbvio que sim! Se penso ser legítimo ferir emocionalmente, por leviandade? Óbvio que não! Mas não creio que Alma Mahler tenha sido leviana nos seus amores, apenas honesta e coerente.

Agora, se eu, Isabela, teoricamente, gostaria de dar umas bengaladas a certos cavalheiros, retribuindo-lhes em moeda do mesmo cunho, e não olhando a meios para o conseguir?
Caro/a anónimo/a cujo comentário motivou este texto, por favor, não lembre tal coisa ao pequeno, mas poderoso animal selvagem (aprisionado) que habita as paredes internas dos meus ventrículos e aurículas, e que contra eles se arremessa: a tentação é grande! Deus me perdoe!


Alma Mahler

quinta-feira, outubro 13, 2005

Devia haver uma lei

Pois. Eu tenho andado fora. No estrangeiro. Em tratamentos a um problema grave no joelho que arranjei (o problema) na Escola Prática de Infantaria em sessões nocturnas de patrulhamento enquanto a Alma e a Isabela andavam concomitantemente a reunir em comité escoiceando na retoiça e esboçando minutas de comunicados contra a guerra e a favor da partilha das tarefas domésticas no caso das mulheres desprotegidas que dividiam ainda o T2 com um macho e não tinham alcançado a libertação da tirania conjugal. Vê-se no que deram ambos os percursos: o moço que rastejou na Tapada de Mafra em nome da Pátria durante quatro meses e meio, e que estudou agricultura e economia para poder um dia contribuir para o enriquecimento seu e dos concidadãos respectivos, desunha-se agora, nos intervalos de tratar das mazelas do serviço cívico prestado à comunidade, a produzir e comercializar amêndoa, azeitona, hortícolas e fruteiras sub-tropicais com e sem forçagem; as meninas que passaram o melhor do seu tempo a libertar-se das amarras sociais fumando charrocos de mortalha dupla sem perder turnos na depilação e discursando nos átrios da Faculdade de Letras insistindo que a poesia é que devia estar no poder, aí estão agora a espernear com os cortes nos subsídios à dramaturgia de vanguarda e a ver se topam com maneiras novas de viver à custa do erário público nem que seja a produzir nos bairros das periferias urbanas recitais de poesia das mulheres afegãs. Um, moi, a trabalhar que se desunha e a criar riqueza; elas, as almas gémeas, a invadir-me a casa que pago eu com o sacrifício de horas desusadas nos trabalhos agrícolas, a discutirem em público, muito livres, se devem aproveitar a minha ausência para pintar as paredes de rosa-bebé ou rosa-choque.

Eu quer-me parecer que o rosa-bebé seria mais condizente com as suas mentalidades de Okupas de caviar, incenso rançoso e chazinho de rosas do egipto; o rosa-choque, por outro lado, vai melhor com o estado em que fico eu de saber que a casa lhes está entregue e que me vão tirar das prateleiras a colecção de Bach enchendo-as de Annie Lenox e Billie Holiday e ouvindo musiquinha ambiente enquanto se compenetram nos catálogos de lingerie e experimentam calcinhas vermelhas e lilases de fio dental.

quarta-feira, outubro 12, 2005

Alma, a mestra!

A Deusa criou a mulher e viu que a obra era perfeita.
A mulher era completa e feliz e nada lhe faltava.
Assim, recolhendo um sopro de ar expirado pela primeira mulher, a Deusa desejou multiplicar essa harmonia e criou... outra mulher. O mundo perfeito.

Alma Mahler chegou hoje.
Conheci-a há muitos anos, numa tarde de Outono, em "circunstâncias excepcionais", e só porque a Deusa quis.
Alma ensinou-me tudo o que sei! Alma Mahler está para Isabela como Alberto Caeiro para Álvaro de Campos.

Milagres

Acontecem!
E o segredo está no bloco!
A inveja que eles têm do charro do bloco, do regabofe do bloco, do tinto do bloco, das miúdas giras que os do bloco lhes roubam, só porque têm aquele estilo macho-sensível-com-brinco, que, ao mesmo tempo, nos diz "toma-conta-de-mim-que-sou-um-rebelde-com-tantas-causas"!!

(Mor, vai-te deitar e não estejas rabujento; já te vou atacar essas costas com o Voltaren, ou preferes o Reumon gel?)

O Bloco

Ora, em tempo de autárquicas (ou anárquicas, como a Isabela prefere de uso soletrar), lá vem a euforia bloguista, acompanhada do indispensável charro e da insinuação de regabofe. A isto parecem resumir-se as preocupações da nossa esquerda intelectual: ah, já me esquecia de ajuntar: e ao vinho de vinte e cinco euros a garrafa, e à arte abstracta, e ao casamento de homossexuais, e aos subsídios ao teatro de pesquisa e ao cinema experimental, e ao caviar e à roupa displicente a trezentos euros a ganga, e a uma viagenzinha a Paris de três em três meses, vindo-se de Copenhaga a ver os fiords. É isto o Bloco de Esquerda - charros e regabofe. Foda-se: se é assim, acrescentando-se-lhe o descanso até às onze da matina, também eu - e mais uns congressos sobre os direitos das mulheres em que parece que... - olha o que eu ia dizer...

Outro post privado (já nem preciso do gmail!)

Joana Rita, desculpa, nunca imaginei ser apanhada por um link destes, mas a lógica é tão rara nos homens, que, em se encontrando...

terça-feira, outubro 11, 2005

Post privado que não é para a família

Não, pá, a gente, charros, já é três vezes ao dia: de manhã, antes de ir para o trabalho; depois de almoço, antes de recomeçar o trabalho; e à noite, durante a blogagem, para nos dar a indispensável coragem para acordar, no dia seguinte, e seguir para o... trabalho.
Por isso é que o mundo é perfeito e o pessoal mantém a alegria no... trabalho!

Portantos, na noite das eleições anárquicas, digo, autárquicas, para comemorar a refulgente vitória, fomos até ao Fogueteiro encontrar uns amigos nossos, os okupAs do 22, que okupAram um prédio embargado há 22 anos, e aí montaram a filial bloquista que costumamos frequentar.
E, à tua, enfrascámo-nos com o melhor vinho comprado no Lidl, o que está ali mesmo em frente à Festa do Avante, para quem vem da Amora, mas lá de baixo, ou seja, como quem vem da Torre da Marinha, ou da Arrentela...
A seguir, parece que curtimos todos uns com os outros, e que foi uma farra memorável, mas disso, paradoxalmente, já não me lembro ... Apanhaste?
Beijinhos.

O outro mundo

Se a Isabela tivesse nascido na Nigéria, respiraria ainda?

Retrato-roubou de Isabela

Atingi os meus limites!
Já não suporto a caixa de correio empanturrada de mails, “Isabela, manda foto das unhas dos pés”, “Isabela, confirma-me só que os teus olhos são azuis!”, “Isabela, uma foto qualquer, nem que seja tipo passe”, “Isabela, posta foto do joelho esquerdo”. “Isabela, quando te referias ao pacote todo...”
Chega, chega!

Aqui têm o retrato de Isabela, na íntegra, de acordo com declarações recentes (grande parte), todas emitidas por pessoas autênticas, umas mais imparciais que outras.
Só têm de encaixar as pecinhas e, plim, plim, plim... Isabela!

A sua prima afastada, a da filosofia pura, sempre lhe encontrou um estilo geral muito à Meg Ryan.

Mas, ultimamente, afirma que a vê mais... romântica.

Na Primavera, alguém, muito atordoado pela febre dos fenos, garantiu que, em certos momentos, Isabela parecia a Susan Sarandon.

Já no Verão, provavelmente atordoada pelos incêndios da zona centro, a mesma pessoa jurou que o seu sorriso era mais bonito que o da Sharon Stone.

Peço desculpa, houve aqui uma embrulhada com a postagem: eis a foto da Sharon Stone que ilustra a afirmação anterior!

No final do Verão, um indivíduo absolutamente imparcial atestou que o seu olhar era "difícil de sustentar", porque muito dirigido, e "ligeiramente estrábico", como o da Britney Spears,

para além de profundo, fixo e hipnótico como o do John Malkovitch (a Isabela ainda não recuperou desta!).
E pediu-lhe, "por amor de Deus", que não olhasse "tão para dentro!!"

No primeiro dia de Setembro, um profundo conhecedor e amante da cultura culta, tão imparcial como o anterior, elogiou-a, afirmando que, agora, parecia a Ana Sousa Dias.

Já no Outono, num destes dias ventosos, uma observadora imparcial, que nunca antes a tinha encontrado, declarou, "Tem graça, por causa do que escreves... não te imaginava com um ar tão... romântico!"

O pai passou a vida a dizer-lhe, "és tal e qual a tua bisavó Vitória".

A mãe todos os dias lhe garante que é tal e qual o pai.

Há quem diga que não passa de uma sacana egocêntrica, com pés de barro.

Pessoalmente, se me permitem uma opinião isenta, acho que a Isabela é a coisinha mais linda, doce, tenra e impertinente que Deus assentou à face da terra.



Era assim que a imaginavam?
Oh, mas como acertaram: ela também é isso!

sábado, outubro 08, 2005

Reposição, 4

Física

digo uma única vez o teu nome
e mesmo asim tremo de medo
temo que essas três sílabas
possam de súbito deflagrar

e o teu corpo e o desejo
aproximarem-se desamparadamente
à velocidade
da luz


A posse

quando me despes
eu sei
que todas as tuas frases
todos os teus silêncios
são pronomes
possessivos


Em ti

em ti
o que procuro não
tem nome


publicados por [C.B.] a 05/06/05

Reposição, 3

As coisas simples

de
tudo o que me dás
eu quero apenas tudo
o resto
que se
foda

publicado por [C.B.] a 06/06/05

Reposição, 2

Esta noite

os olhos que te viram partir sim escondendo as lágrimas sim
tentando em vão apagar memórias
são ainda os mesmos olhos que num sobressalto pelo fim da tarde
se o rumor de uma ave cruza o pequeno espaço do pátio
se erguem para ver se és tu que regressas
são os mesmos olhos sabes que em subindo ao terraço
vigiam os caminhos da encosta vigiam o vale
vigiam as sombras que as luzes minúsculas da cidade projectam nas águas
como pequenas luzes amarelecidas nos seus nomes
é assim sabes o que seria de nós o que seria da vida se
não conseguíssemos pôr de parte o orgulho
o que seria de mim se o orgulho me precedesse quando movo as mãos
por exemplo à procura de um objecto que
as tuas mãos tocaram nos meses de novembro
se não tivéssemos forças para espremê-lo até ser volátil
o que seria de nós se não conseguíssemos amassar o orgulho como se
amassa o pão nas manhãs de domingo
eu sei lá o que digo meu amor disperso-me sabes
perco-me nas minhas próprias frases
eu falava do orgulho
dizia que não te peço mais nada
não te peço mais nada não te peço que me recordes não te peço que reconsideres
não te peço que me ames peço-te meu amor
peço-te
apenas te peço que adormeças devagar esta noite dizendo apenas o meu nome
que adormeças como se eu estivesse ainda a teu lado
e por um instante mudasses a cabeça de lugar
sentindo a minha respiração nos teus ombros

publicado por [C.B.] a 05/05/05

Reposição, 1

As palavras são importantes

Quando dizes que me amas, meu amor, eu sei que me amas.


publicado por [C.B.] a 16/05/05

sexta-feira, outubro 07, 2005

Decoração-a-dias

paradoxal amar um corpo próprio alheio gizado a cicatrizes
um corpo território a colonizar terra oferecida às queimadas às lâminas aos arados aos caboucos abertos para novos edifícios
um corpo sulcado
este corpo decorado
o que vale um corpo
Cicatrizes de Marte

A Isabela está a pedi-las!

O sexo, em Portugal, aborda-se com seriedade, cientificamente, de gravata, nos programas de televisão, ou em abandalhamento total, porque é assim que se fala do que se teme, do que se conhece mal, do que ainda é um bicho-papão, feio, porco e mau..

Os bloggers e os outros bebem imperiais, nas esplanadas, entre “caralhos” e “foda-se, seu conas”. Entre eles, tais vocábulos nada significam. Por isso é que não se ofendem mutuamente quando dão palmadas nas costas uns dos outros, em exuberantes cumprimentos, tais como: “então por onde é que tens andado, grande cabrão?”, “ó meu filho-da-puta, meu lambe-conas, então amanhã vais ao jogo com o resto da maricagem do teu clube?” Isto tudo entre machos!

Depois, chegam a casa, conectam-se, entram nos preferidos, futebol, política, a Cama de Casal, e a seguir vão aO Mundo Perfeito, o qual consultam rapidamente pelos títulos e primeira frase, não vá a Isabela, essa "blogoputa", ter postado algo sugestivo, algo que inclua a conjugação do verbo foder ou até mesmo, e isso seria o deboche perfeito, um post intitulado “a cona das pretas”.
Digam lá se não está mesmo a pedi-las?! Uma gaja assim, está a pedi-las, ah pois está!



(O Karloos acha que a Isabela vê machismo em tudo.)

Con el tiempo te vuelves... I

Hoy los escritores jóvenes quieren que los leas el lunes, que los publiquen el martes, tener um éxito extraordinário el miércoles y el jueves ser traducidos en todo el mundo.

Maria Luísa Blanco, Conversaciones con António Lobo Antunes, 2001

Con el tiempo te vuelves... II

En el amor uno puede sustituir a una persona por otra, pero no en la amistad, porque cada amigo tiene su lugar y no puedes sustituirlo. Si pierdes a ese amigo, su hueco nunca será ocupado por otro, queda ahí para siempre. Por eso, en cierta forma, siempre convive contigo. La amistad es una pasión, y yo siento hacia ella una enorme disponibilidad.
(...)
No es que desprecie el amor en favor de la amistad. Puedo enamorar-me de una mujer y, además, me encantaria volver a aquella sensación, pero con el tiempo te vuelves más crítico, más exigente, y es más complicado mantener la relación. Por otra parte pienso que tengo la misma inocencia que cuando era muy joven.

Maria Luísa Blanco, Conversaciones con António Lobo Antunes, 2001


António Lobo Antunes

terça-feira, outubro 04, 2005

Os do fim do mundo

Acho-lhes cá uma piada. Que estão lá detrás dos montes e que está tudo muito centralizado, por isso não lhes chega nada, népias isto, népias aquilo e mais não sei quê sobre centros de saúde e escolas e médicos que vêm de Espanha quinzenalmente, e estradas e isolamento...
Agora, espectáculos grandiosos, únicos, que vêm à cena duas vezes por século, quando vêm, é por lá que estreiam, e à borliu.


Foto de Domingos Cabrita, Diário de Notícias, edição de 04/10/05

O meu corpo, outra vez

Não consigo imaginar-me noutro corpo.
Como tocaria as cicatrizes profundas da mama direita? E os dois sinais grandes no abdómen? As manchas e sardas do rosto? Os vincos muito sulcados nas palmas das mãos e dos pés?
Sei viver neste corpo e em mais nenhum, porque nenhum outro é meu nem sou eu. E eu gosto do meu.

Mensagem numa garrafa, 8

Pombinho, não sei que mais faça para te motivar!


Mensagem numa garrafa, 7

A diferença entre literatura escrita por homens ou por mulheres explica-se facilmente, sem recurso a grandes teorias académicas:

1. Um homem nunca escreve light. Toda a "literatura masculina" é heavy.
2. Tudo o que uma mulher escreve é light; se escreve heavy, sinal é que recebeu fortes influências da melhor "literatura masculina".

(Aplique-se às restantes artes!)

segunda-feira, outubro 03, 2005

Se a Rititi fosse homem... outro galo cantaria!

Dóris Graça Dias (1) não gosta d´ O Livro da Rititi, de Rita Barata Silvério, porque a autora "está zangada com o mundo", porque editou um livro sem ser "literata", porque "quer um país impecável, feito para ela passear pela noite, comer e beber melhor, namorar muito, ter um emprego que lhe pague o visa, o apartamento, o TM, e etc.", porque se socorre "de uma linguagem, no mínimo, desbragada" e não alcança certos "exercícios gramaticais" como o uso do conjuntivo.
Ai, Rita, sua malandreca!

Eu não tenho O Livro da Rititi, embora já lhe tenha passado os olhos por cima, mas amanhã é a primeira coisa... Li uma crónica, achei piada. A Rititi é gira. Acho-lhe graça. Não acho que os blogs tenham de passar a livros nem a "dança contemporânea"... Não acho nem deixo de achar... se os textos forem bons, por que não?! A literatura tem de ser toda muito séria? Por onde andaria o José Vilhena?! Sou mais pela variedade, pela literatura de alterne. É isso mesmo: literatura de alterne!
Eu e o Cê-Bê, por exemplo, estamos a compilar uma edição, só com comentários do(a)s leitore(a)s, para mandar para a Oficina do Livro. Vai ser tiro-e-queda... agora é que vamos mandar fechar a varanda numa bela marquise toda em vidro escurecido!
Mas, pelo sim, pelo não, não vá a Dóris cair-me em cima, quando tiver 65 anos e escrever o meu primeiro livro, há-de ser uma obra negra, dispersando espaços, tempos e personagens, como no Orlando, da Virginia Woolf; a obra inteira do Lobo Antunes, ao lado da minha, vai ser literatura de catequese; e o Saramonho... ó meu querido, quem serás tu?! Vou contratar um(a) copy-desk para me rever os conjuntivos; calão, zero, e tudo "boa onda": que seja negra, mas pedagógica, com a sua moral... zangada com o mundo é que não. Onde já se viu alguém a escrever zangado com o mundo?!
Isto tudo por mor da Dóris. Porque uma crítica negativa da Dóris é que eu não aguentaria!

(1) "Edite-se, edite-se", in Actual, Expresso, 1/10/05, p. 65

O bedum do povum

A Maria José Nogueira Pinto não vai às praças distribuir sacos-de-plástico por causa do cheiro a peixum, que é uma grande porcaria. E o povum, que horror, o povum, que bedum.
A Maria José Nogueira Pinto faz campanha na Casa-Museu Fernando Pessoa (estou em crer que ao Fernando lhe agradaria conhecê-la!) e no Parque das Nações e em Campo de Ourique. Sim, em Campo de Ourique, foi o que disse, e nas Avenidas Novas, e vai às livrarias e às lojas de moda distribuir leques azuis e brancos, mas não à FNAC nem à Zara, que isso é povum... vai à Barata, à Almedina, às outras que têm nome de livreiros a sério, e vai à Channel e à Dior, e a lojas assim; no Chiado.

Cê-Bê e Isabela: a relação perfeita!


Cê-Bêzinho, andas a lavar a casa-de-banho, fofura?
Ó filho, cheira-me a lixívia, e quantas vezes já te disse que para lavar o chão é o Fabuloso, que a lixívia é só quando as cadelas mijam na varanda?!
Quiducho, tu não andas outra vez de joelhos, pois não? Para alguma coisa hão-de servir as esfregonas caríssimas que te compro. Já ninguém faz isso; não tens necessidade nenhuma de andar aí todo vergado, a maltratar a coluna, só para desencascar a sujidade atrás do bidé e da sanita...
Ouve uma coisa, pombinho, faz um favor à tua princesa e traz daí a acetona: o frasquinho roxo, da Sephora, que está na última gaveta do armário: é que a meia-lua branca que me pintaste, de manhã, na unha do dedo mínimo, a da mão direita, saiu-te toda mal, e alguém tem de emendar o que não sabes fazer. Para as perfeições cá estou eu sempre, não é diospirozinho?!
Olha, amor, depois, se quiseres, já podes vir postar, que eu já vi os tais sites sobre hidratantes para peles mistas.
Anda, que depois vou ver se a casa-de-banho ficou bem lavadinha!

sábado, outubro 01, 2005

A vida privada de Isabela (vida doméstica et alia)

Cê-Bêzinho ... estás a ouvir-me aí na cozinha, mor?!

Ó querido, já passaste a ferro as cuequinhas e o soutienzinho em algodão azul-céu para eu pôr amanhã com o vestido de linho da Massimo Dutti?... Aquele ligeiramente drapeado no flanco direito, de que gostas tanto... Ó filho, o branco, debruado a azulinho no decote!... Ah, fofo, então vai lá ver ao guarda-fatos se não estará muito amachucado...

Os sapatos, deixa lá isso para amanhã: logo lhes dás brilho enquanto eu me estiver a maquilhar.

Vá lá, mor, que estou quase a acabar de postar, e preciso de me ir deitar; a seguir ficas com o pc livre e podes, perfeitamente, em cinco minutos, colar os poemas que me leste ontem à noite, para me consolares das partidas do Blogger. Mas só cinco minutos, querido, que, contando com os outros dois de que precisas, são sete, e eu preciso de dormir para estar fresca amanhã!
E esta semana vais escrever os textos todos em teu nome. Não acho justo andares a fazer o trabalho que me compete, abdicando do teu lugar ao sol, dos teus 15 minutos de fama...
Não me parece justo andares assim a tapar-me os buracos...

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...