sábado, dezembro 31, 2005

Vós


Foto David Winston

O mais simples. O que verdadeiramente não se compra nem se vende. O que não tem tempo nem espaço nem categoria. O que é de todos. O que nós criamos para todos. Só esse. O Amor.

Para o ano, o mundo vai ser perfeito!

Não tenho tempo para estar aqui, que tenho de me ir pintar, arranjar toda, abrilhantar, aperfeiçoar o excelente - que culpa tenho eu de ser a primeira maravilha da criação?!

Minhas queridas meninas, este foi um ano absolutamente tempestuoso. A quem não tem um blog, só posso desejar uma coisa: arranjem um e viciem-se nele. É muito melhor que o tamagochi e permite-nos muito mais gargalhada que qualquer homem, com a vantagem de não dar roupa para lavar nem passar a ferro nem se meter em cima de nós quando não nos apetece nada, ou pior, não aguentar mais, ai, já não aguentar mais, quando têm de aguentar tudo.
Saindo deste tema sempre tão profícuo: se são infelizes, como suponho que sejam todos, excepto o meu noivo Luís, habituem-se. A infelicidade é o máximo de felicidade que vamos ter; portanto, meninas, insistamos na transformação de outros erros da natureza: se esta nos deu cabelos lisos e morenos, quando, na verdade, somos louras onduladas ou ruivas de caracóis ou castanho-acaju com madeixas negro-azevinho, corrijamos essas falhas divinas.
Poupar no supermercado, mas gastar à vontade no cabeleireiro, na manicure e pedicure, no gabinete de massagens e de tratamento à pele: cremes hidrantes para rosto, corpo e contorno de olhos, pés e mãos, máscaras capilares, cera para a depilação, que nunca nos faltem!; e mais pinturas, muitas, e suaves, todas elas autodisfarçadas de pele natural, cor natural, tudo natural.
Somos lindas, todas, e não precisamos de nada disso. Mas queremos ser mais lindas ainda, porque não somos comuns mortais como... eles. Somos deusas.

Que nos preocupemos com todas as causas civilizadas do mundo, e que o mudemos, mas que o façamos com baton nos lábios e a pele devidamente esfoliada, enquanto eles bebem bejecas e descascam tremoços na tasca da esquina. Há um planeta para salvar, há pessoas para alimentar, animais a proteger, prisioneiros por libertar, justiça por fazer, em todos os lugares. Façamo-lo sem pintura na cara, como a Angelina Jolie, tudo bem, mas com brilho nos olhos e no cabelo e, pelo menos, um ligeiro gloss.
Se nos vamos acorrentar a qualquer coisa, numa acção qualquer da Greenpeace, durante três dias, que usemos o rimmel à prova de água e os nossos melhores cremes hidratantes.
Tudo, desde que possamos ser aquilo que, na realidade, somos: sábias, poderosas e lindas!

Quanto a vocês, rapazes, este ano, vejam lá se, ao menos, conseguem desencascar esses pés bem desencascados, com pedra vulcânica, e a ver se lhes passam um creme gordo a seguir; desodorizem os sapatos e os ténis, se faz favor, e, já agora, também, o sovaco, se não for muito trabalho; tomem banho com um gel duche perfumado; ah, e lavem os dentes, a seguir usem fio dental, façam gargarejos; vão ao dentista tirar o tártaro, que a cor normal dos dentes não é o castanho; ponham, nas fuças, os cremes hidratantes que vos tenho recomendado, a ver se a gente vos consegue enfrentar com o mínimo de choque psicológico; vocês não são nada de jeito, jamais bonitos, mas, pelo menos, que não cheirem a gasóleo.
Tratem das mãos. Cortem as peles das unhas, se faz favor. E lavem o cabelo com um bom shampoo. Não adianta usar Linic há 15 anos. É o Linic que vos anda a fazer caspa. Se têm caspa, esqueçam, nem vale a pena olhar para uma menina, pensar sequer numa menina. Desenrasquem-se. Tratem-se, que vocês estão ainda em estado muito palafítico - embora, desde que o Mundo Perfeito existe, se tenham registado alguns progressos.
E leiam uns livros. Vão ao cinema. Cultivem-se, que nós detestamos homens burros. E por favor, não nos venham falar de ciência, das ondas não-sei-quê e dos gastrópodes - a quem é que isso interessa? Arte, arte; cinema, literatura, bailado, música, política nacional. Futebol, nunca. Nem automobilismo. A quem é que isso interessa?
Pensem, façam palavras cruzadas, sudoku, qualquer coisa que vos dê destreza mental, sei lá, já ouviram falar na regra de três simples: se isto dá aquilo, aqueloutro vai dar, de certeza absoluta, x. Simples. Lógica.
Lindos meninos! Vá, sossegadinhos!

Pronto, agora podem todos ir vestir as roupinhas novas abrilhantadas a lantejoulas e começar já a embriagar-se e a estragar o arranjo todo, fazendo todas aquelas asneiras de que se vão arrepender amanhã, e, em alguns casos, o resto do ano.
Eu, a Alma e o Cê-Bêzinho também já estamos vestidos para sair. Deixo foto tirada, agorinha mesmo, no tlm de terceira geração.
O Cê-Bêzinho leva a tanga Calvin Klein que lhe ofereci no Natal. Azul-céu.
A Alma vestiu a lingerie azul-ultramarino, toda em translúcido rendado.
Eu, eu sou a Isabela, senhores...
Bom novo ano para todas e todos, minhas muito queridas meninas e meus adorados trambolhos mal jeitosos.
Para o ano, o mundo vai ser perfeito. Promessa de Isabela!



Isabela, Cê-Bê e Alma, por esta ordem, da esquerda para a direita (foto actualizada).

sexta-feira, dezembro 30, 2005

Como eles me "vêem"! - V















A Isabela que Kyler me fez ver: 42 anos; olhar penetrante; ruga – linda – ao canto dos lábios quando sorri; maternal, mas sem filhos; sexy; e de esquerda...

Foi difícil. A Susan Sarandon não tem 42 anos, e é mãe; no entanto, nenhuma outra figura se encaixava tão bem na (minha visão da) tua visão de Isabela!
Susan Sarandon é das minhas actrizes preferidas; acho-a lindíssima, inteligentíssima, tudíssimo, por isso, esta encomenda vai muito pouco imparcial. Seja.
Esta é a tua Isabela, Kyler. Não ficas mal!

Fé inabalável

Cri. Quis crer. Eu cri.
Repito tudo outra vez.
Eu creio.

O que disse quando disse amar

I

Queria uvas brancas, muito doces, e tu trazias-mas sem que tas pedisse, e diospiros, também; tu trazias, adivinhavas; e eu beijava-te, dizia-te, amo-te. Eu amo-te.

II

Não és a rainha, dizias-me, aprende a esperar, sabe esperar, porque tu não és a rainha. Sim, eu sabia. Não me ralhasses mais. Porque eu te amava.

III

Enlaçava-o, aconchegava-o nos braços, beijava-lhe a cabeça muito querida, enquanto o enroscava no meu colo, e amo-te, sabes que eu te amo, não sabes? Olha para mim, sabes isso, que eu te amo?

IV

Apertava o seu tronco contra o meu corpo. Não, era o meu corpo que se movia, se esmagava contra si. Apertava-me contra o seu corpo. Os braços, quase esgarçados, não chegavam para a cingir; encostava o rosto à casca lisa, e a textura baça coçava o meu rosto, e amo-a, amo-te, pronunciava. Era só um sopro. Só tu ouvias as sílabas que o meu corpo, não a boca, soltava para ti.

V

Rojava-me nas pedras lisas, no topo; mornas do sol de inverno; estendia-me ao comprido, recebendo a luz. Esfregava nelas as ancas, as coxas, largas, a barriga tão fértil, enquanto amava, amava, sim, eu amava.

VI

Amo. Ouvia-me dizer. Repetia. Amo-te. Quando dizia muitas vezes que te amava, quando beijava devagar, repisando amo, amo-te, como uma oração, só para ti, obrigando as sílabas a desenharem-se nos teus lábios moldados à articulação dos meus, desejei que bebesses, não esse amor, ensalivado, que não o conheço, mas que pudesses sentir o longo pano de flanela do meu amor singular, sinestésico, que te tocou uma só vez, uma única vez - nunca mais.

quinta-feira, dezembro 29, 2005

Como me vejo II


Foto - Richard Lemmon

Como me vejo I







Fotos - Cece Wheeler

Como eles me vêem! - IV


Foto - Annie Leibovitz

Isabela, segundo Luís, "um trambolho com um grande buço". Posted by Picasa

Maravilhas da Criação III




















Alguém pediu Sophia Loren?

Sophia não foi, inicialmente, incluída nas minha galeria "maravilhas da criação"; por um único motivo: não sorri, ou sorri pouco.
Aprecio mulheres e homens que sorriem, que riem abertamente, que soltam gargalhadas.
Com o passar dos anos, Sophia tem aprendido a fazê-lo em público, porque não só de uns lindos olhos e de uma linda boca se faz um rosto, o rosto.
Sophia Loren é, agora, uma diva mais velha, mas muito mais tangível.
Algum fogo lhe aqueceu as faces.


Como eles me vêem! - III



Isabela, segundo o Marujinho mais docinho, o que cruza os oceanos num barquinho de chocolate branco com pedaços de menta!

Como eles me vêem! - II



Isabela, segundo Karlos.

Até arrepia!
Parece-me mais a projecção astral de uma anterior vida, na qual fui interrogada e torturada por uma polícia fascista, dessas que alguns meninos, nascidos nos anos 70, juram que nunca existiram!

quarta-feira, dezembro 28, 2005

Como eles me vêem!



Isabela, segundo jmnk.
Muito parecida; grande intuição - só a minha pala do olho é que é mais castanho-antílope.

O fim do mundo, tal como o conhecíamos

Já cá tínhamos o "robotcop gay", eis que chega agora o cowboy gay.
Refiro-me ao último filme de Ang Lee, Brokeback Mountain, vencedor, este ano, dos mais interessantes prémios de cinema, pelos festivais Europa fora.



Espero a estreia há dois meses; penso que se seguirá ao ano novo - filmes destes nunca estreiam no Natal: o Ministério da Saúde proíbe-o e as distribuidoras respeitam: não chegam, já, as urgências hospitalares a, comumente, abarrotar, nesta época, de avós consumidos pelas consequências gástricas e intestinais do bacalhau, do perú e dos fritos mais os vinhos, quanto mais pelos AVC´s, pelas paragens cardíacas que um filme destes causaria em pleno idílio familiar natalício!
Os cowboys gays, valha-nos Deus! Não sei se o meu pai, amante do western, do Tesouro da Sierra Madre, de Liberty Valance, de El Dorado, depois de confiar anos de escalpes e assaltos a carruagens aos índios mais mal encarados, vinganças justas protagonizadas por um Clint Eastwood crispado, por um Yul Breyner magnético, cigarros da espera mordidos ao canto da boca por John Wayne, meninas raptadas por índios e feitas índias, indios raptados por ianques e feitos ianques, e o largo sorriso-trinitá do Trinitá, o Cowboy Insolente, sobreviveria a um filme de cowboys que preferem abandonar a parafernália bélica, as armas, cartuchos e esporas, para se rebolarem que nem uns loucos pelo meio dos rochedos do Grand Canyon, perdidos de amor e beijos na boca, entre outros pormenores.


El Dorado

Ai, Viriato, ao que tu escapaste! Homens a deixarem em casa as respectivas esposas e prole, para se irem esfregar uns nos outros lá para o meio do oeste selvagem - os mais selvagens impulsos! Ai, Viriato, bem te dizia a tua mãezinha: no fim-do-mundo havíamos de ver tudo às avessas. E cá está!

Ru Henriques Coimbra, o delicioso colunista gay que o Expresso, felizmente, sustenta em terras californianas, para gozo da nossa leitura, já nos avisou: jamais Bush voltará a posar com o seu tradicional fato rancheiro, após a estreia de Brokeback Mountain nos Estados Unidos. Mal posso esperar.
Também já tínhamos um presidente negro, na famosa série televisiva 24 horas. Precisamos, agora, para continuar a mudar o mundo, de um presidente gay branco, seguido de um presidente gay negro. Depois talvez possamos passar à fase das presidentas: Hillary Clinton, presidenta branca, hetero; seguida de Condoleeza Rice, presidenta negra, lésbica, entretanto incompatibilizada com os conservadores. A ordem poderá será outra, mas os negros e gays ficarão para último, isso a gente sabe.
Estarei a ir longe demais ao afirmar que, no dia em que os Estados Unidos forem governados por uma democrata, negra, lésbica, poderemos morrer sossegados que isto já levou a volta que urgia? Nós, os/as feministas, nós os/as activistas de todas as paridades?
Se estiver, esteja. Que alguém vá longe demais.
Cause, I too, have a dream...



Liberty Valance

terça-feira, dezembro 27, 2005

Mistérios no masculino: a comunicação verbal

Perguntas jamais respondidas, colocadas aos homens, por mulheres de todo o mundo, em todas as línguas existentes, desde a sistematização dos códigos verbais (e mesmo antes):
O que sentes? O que pensas?
Por que não exprimes o que sentes? Por que não dizes em que pensas?
Sentes? Pensas? Falas?
E se fosses dar uma longa volta ao bilhar grande acompanhado pelos teus profundos e inexprimíveis sentimentos e pensamentos?!

segunda-feira, dezembro 26, 2005

Os sentimentos profundos dos homens, segundo a minha prima afastada

Agora, sinto sede, vou beber uma imperial. Agora, sinto fome, vou já ali comer umas sandes de couratos. Agora, sinto vontade de fumar um cigarro, onde é que está o isqueiro? Agora, sinto que gosto das pernas da miúda que vai do outro lado do passeio. Agora, sinto vontade de lhe mandar um assobio. Agora, sinto vontade de bater uma, mas é melhor esperar chegar a casa..., agora, sinto sono, logo, durmo. Agora, sinto que vou ejacular, portanto, que se lixe se não tenho preservativo e se ela não toma a pílula. Agora, sinto... que me apetece jogar playstation!
Sinto que não me lembro do que senti ontem. Sinto que não faço a menor ideia do que poderei vir a sentir amanhã.

Menino de Isabela


O Mundo Perfeitinho

Para meu consolo, only. Only para meu consolo.
As ruguinhas, Os dentinhos. A mancha escura da barbinha. Os cabelinhos brancos. As ruguinhas. Os olhinhos. O narizinho. As bochechinhas. Os dedinhos. O riso. A pelunça do pulso. As ruguinhas. O narizinho. O cabelinho. Os dentinhos.

No entanto, segundo o comentador Luís, o tal, o George "faz das mulheres o que quer e depois manda-as à vida! Cuidado senão ainda tens um desgosto amoroso! As gajas que já o paparam dizem que na cama ele também não é nada de especial, que é muito charme, mas só da cintura para cima, e diz que de língua também é um desastre!"

E eu pergunto, bem perguntado, há algum exemplar do sexo masculino, ainda em estado consumível, que escape a esta definição? Caso haja, por mor da minha "depressão" e "problemas sexuais" - uso vocabulário do já referido comentador, porque jamais ousaria... - agradeço que voluntaria e informalmente se inscrevam, através do e-mail omundoperfeito@blogspot.com, para que eu possa aferir tal estado, situação, realidade, como queiram.
Considero-o serviço de voluntariado.
As candidaturas, incondicionais, encontram-se oficialmente abertas a partir de 2 de Janeiro.

Acho que este blog merecia um prémio de interactividade.

sábado, dezembro 24, 2005

Nossa Senhora do Século XXI

Toda contente, de férias no Brasil, onde vai parir esta noite, com cesariana marcada, depois de se ter feito inseminar artificialmente num banco de esperma espanhol: o banco, porque o esperma é, providencialmente, de origem desconhecida.






Fotos de Elfi Kaut

O Natal do outros

é óptimo para escrever nos blogs: estão, finalmente, longe dos computadores, na esperada presença de todos, convivendo fraternalmente; as crianças correndo lambuzadas, o que pela época se justifica: assim, dá perfeitamente para uma pessoa escrever qualquer merda que lhe venha à cabeça. Mesmo quando se é uma diva.
Não aparece ninguém.

Boas Festas II

No Natal, sou o cordeiro de Deus imolado pelos desavindos de há mil anos. Aproveitem e comam-me. Que eu faça total proveito a alguém.

sexta-feira, dezembro 23, 2005

Boas Festas

Gosto do Natal. Gosto desta ilusão de que podemos ser melhores, de que vamos ser melhores. Gosto da neve. Gosto do musgo. Gosto de jantares de família com crianças a correr e a partir garrafas derrubando as mesas. Gosto da lareira. Gosto dos recuperadores de calor. Gosto de rabanadas. Gosto de filhoses e empanadilhas. Gosto de sonhos com geleia. Gosto das músicas de Natal, muito pimbas, quase a comover-nos. Gosto de desejar boas festas aos meus amigos e de receber mensagens sms a desejar-me boas festas. Gosto, sobretudo, da utopia de um presépio desenhado à escala 1:1.

Bela Silva, O Adão já não mora aqui, 2004

quinta-feira, dezembro 22, 2005


Bela Silva, Peace and Love, 2004

A vida

Tenho com os blogs e a vida a mesma relação: todos os dias me apetece acabar. Todos os dias me apetece dizer "adeus, não volto mais. Tchau, meus queridos, estou farta."
Mas não o faço.
Ontem à noite, hoje de madrugada pensei, "vou acabar com isto, vou colar ali a imagem mais triste que tiver, a foto, um quadro, e escrever, adeus e o resto que se lixe. Não escrevo mais. Não tenho nada para dizer."
Mas não o faço.
Sei que no outro dia o Sol vai brilhar, vou atravessar a ponte com o céu azul, o carro vai estar quente como um ninho, e eu vou desejar regressar depressa a casa para escrever três posts de seguida, começando por, "Hoje vi pela primeira vez o Cristo-Rei!"
E não o faço.

Carteira de blogger actualizada

Percebemos que somos bloggers, que somos bloggers a sério, encartados, quando começamos a escrever directamente para a caixa de edição, sem corrector ortográfico. Quando ir ao word é uma chatice. Quando nos estamos nas tintas para as vírgulas, para a riqueza lexical: quando não substituímos um adjectivo. Quando escrevemos coisa, meti, fui, estou, era.

O teu abraço

Esta manhã, pela primeira vez na vida, vi o Cristo-Rei.
O Sol batia-lhe de Sul, e distingui o seu recorte escuro no céu muito azul. Os braços abertos. As mangas largas da túnica, caídas abaixo do pulso. Direito como deve ser um homem e uma mulher. De braços abertos, como deve um homem e uma mulher.
Vi-o pela primeira vez na vida. Atravessava a ponte. O Sol batia de Sul e aquecia o carro, como um ninho; atravessava-me; o sol atravessa-me muito: tenho segundos em que penso ser feita de átomos de Sol, porque ele não bate em mim: passa através de mim e somos a mesma luz.
O Cristo-Rei abria os braços para mim, todos, largamente.
Senti o seu abraço muito apertado, e, pela primeira vez, percebi que, afinal, não faz mal ter as costas voltadas para Sul, porque quando venho de Norte, de regresso a casa, recebe-me de frente; de regresso a casa, abraça-me. De frente.
Nunca tinha compreendido.

Laranjas no Inverno

Gosto tanto de laranjas! Compro as mais lindas no mercado, as de pele fina, as pesadas, as de um umbigo: mas saem-me ácidas. Podia viver de laranjas doces. De tangerinas. E clementinas. Na outra casa tinha um terraço branco. No Inverno, sentava-me à chapa do sol, com uma tigela de laranjas. Nunca tapava a cabeça, porque a minha cabeça não precisa de chapéus. Comia laranjas, enquanto o sol furava a teia do casaco, depois a da pele, depois a dos ossos; eu não era feliz, mas ao sol era feliz. Depois enterrava as sementes na terra dos vasos, ao lado das trepadeiras. Na Primavera, nasceram plantinhas de citrinos. Na outra Primavera, já eram arbustos pequenos. Na outra, arbustos maiores. Eu já semeei árvores. Algumas pessoas vieram cá só para comer laranjas e semear árvores. Agora já não tenho essa casa nem esses vasos. As minhas árvores, já não existem.



Foto daqui.

quarta-feira, dezembro 21, 2005

Estou cansada










Fotos de Spanish Girl in Oxford, em Flickr.

Isabela e a cozinha

A minha prima afastada diz que sou uma cozinheira fraudulenta. Só porque o meu caril "não deixa aquela areia no fim, como o da tua mãe."
Hoje, cozinhei uma sopa de feijão verde com abóbora e cenoura, muito cremosa, e mesmo no ponto. Até levei um taparuére dela à minha mãe. Ela não comentou, mas há bocado perguntei-lhe, pelo telefone, se a sopa estava saborosa, e ela disse que sim, sim, " muito boa". E perguntei-lhe se achava que eu era boa cozinheira, e ela respondeu, "claro que sim, filha, cozinhas muito bem!" Portanto!
E estufei ervilhas tortas com ovos - aquelas que têm a vagem larga e um fruto minúsculo, muito verdinhas como alfaces. Meti montes de especiarias. Funcho, louro, salsa. Piri-piri, porque comida sem piri-piri é pior que sem sal.
Antigamente, punha piri-piri na sopa, mas depois começaram a censurar-me. Deitavam-me uns olhos meio de lado!
Eu adoro a minha culinária. É inovadora.

No outro dia, refoguei soja com todos. Ficou boa, mas enganei-me e pus açúcar em vez de sal. Não ficou mal. Depois meti-lhe o sal por cima, e uns molhos, e piri-piri, e ficou bastante bom, parecia um prato típico da Bósnia-Herzegovina.
A minha prima afastada fez cara feia, já se sabe - e eu não lhe disse que me tinha enganado, fiz de conta que estava a testar um prato novo.
É avessa a sabores diferentes!
Mas tenho uma técnica que costuma resultar: o que quer que ela cá coma, digo-lhe que vem de casa da minha mãe!
Mas ela, agora, deu em não querer ir comer a casa da minha mãe.

Dar a mão à palmatória!

Publicado nO Eleito.


Tentando analisar o debate de fora, como se eu não fosse votar:

- Mário Soares está arrumado! As alegações finais foram determinantes. As de Soares: já lá estive, dei provas; não só sei fazê-lo, como vocês sabem que eu sei fazê-lo!
As de Cavaco: não ataco ninguém, e pensem no futuro dos vossos filhos!
- Os portugueses não gostam do estilo americano, demasiado solto, agressivo; não toleraram quase meio século de ditadura por acaso: gostam de gente séria, de gente humilde, respeitadora, que veio de baixo, que foi trabalhadora-estudante, que pensa nos filhos – e isto faz-me lembrar excelente frase-slogan, no cartaz do filme Flight Panic, com Jodie Foster: se alguém lhe roubasse os seus filhos, até onde é que você iria para os recuperar?
Para mim, que não tenho filhos, a resposta é óbvia: até onde tivesse de ir, até ao fim do mundo, da vida, e sem medo. A tirada “filhos” foi muito boa. E foi uma arma legítima.

Os portugueses gostam de candidatos low-profile, mansinhos na aparência, estilo europeu discreto.
Então, um candidato vinha lembrar aos ouvidos lusitanos (Deus, Família, Hipoteca!) a segurança futura dos filhos, e não ganhava as eleições?! Estava para vir o dia! Ó meus amigos, eu quase que aposto o ordenado de Janeiro!
- Mário Soares, a certa altura, como o Karloos muito bem destaca, lembrava-me a personagem do Herman no “presidente da junta”. “Eu é que sou o presidente da junta. E já agora, deixem-me lembrar, eu é que sou o presidente da junta!”.
Os portugueses detestam gabarolas! Desculpa, Mário, na Califórnia safavas-te; aqui, com este adversário, no way!
- Cavaco tem tudo para agradar: caladinho, educadinho, bem-compostinho, respeita os senhores mais velhos... parece uma múmia, engravatada, claro, mas os portugueses gostam de múmias. Gostam, a verdade é que gostam! Paus de vassoura desvitalizados! De fato escuro. Gostam! Poucas conversas, que quem fala muito, muito erra.
- Cavaco teve excelente estratégia. A do desgraçadinho que está a ser atacado por todos os flancos, e que, por respeito, recusa ripostar.
“Filho-da-mãe daquele Soares, hein!?”, a provocar o desgraçadinho. Revelar que os amigos, políticos da Europa, lhe confidenciaram que Cavaco não sabe dialogar nas reuniões internacionais, não é um bon vivant, como ele, não tem savoir être! Muito mau. Muito baixo. Arma ilegítima.

- E depois, de mestre!, as tiradas sobre os livros. Cavaco não nos explicou o que lá escreveu: remeteu. Mas ao remeter, fez mais que isso: lembrou, “eu tenho livros, muitos: escrevi-os todos – não são entrevistas dadas à Maria João Avilez, as quais a Maria João escreveu com o seu punho - são livros a sério, de um homem sério”.
Matou quatro coelhos: não respondeu; amanhã vai acumular direitos de autor sobre livros vendidos, não efectivamente lidos, mas o que é que isso interessa?!; lembrou que Soares não tem escrito, e ganhou para si créditos de Autor sério, como se já não bastassem os de sério professor.
Quem desconhece o respeito que o português-médio, o português a dar no duro para ter a filha na universidade, tem por um bom calhamaço que ele nunca leu?! Chama-se “respeito de analfabeto”. Os livros não servem para ler, mas para expor. Uma estante, na sala, toda preenchida com livros encadernados, que nunca foram lidos, entremeados de peças Vista Alegre, isto, em casas com bom gosto: umas colecções de Júlio Dinis, de Camilo, de Eça, com todo os respeito pelos três, cada um no seu estilo; uma enciclopédia desactualizada, mas com muitos volumes, de bonita encadernação! Vermelha e dourada.
Está no papo. Não tenho dúvidas. Não as tive no dia em que Cavaco anunciou a candidatura. Depois, relativizei; pensei “o Soares!, quem é que bate a raposa velha?!”.
O lobo com pele de cordeiro! Cavaco Silva vai bater a raposa velha!
Bem, parte feliz disto tudo: consegui arranjar, pintar e secar as unhas durante o tempo do debate!

terça-feira, dezembro 20, 2005

Outro da série "Tunga, toma lá!"


Jan Saudek, The Love, 1973

Uma Senhora do Leite.

O jmnk chamou-me a atenção para outras Senhoras do Leite.
Nosso ser não evaporamos na lida insana!

Isto não interessa nem ao Menino Jesus!

Ele sofria de excesso de expressão.
A minha mãe dava-lhe um empurrão, afastava-o, dizia-lhe, “és uma criança; não tens tino nenhum”.
Eu ria-me, muito feliz, porque o meu pai tinha chegado a casa, abraçara-me, beijara-me repenicadamente e, de seguida, atacara a minha mãe, sem sorte.
“Não cresces”, dizia-lhe ela. E eu ria-me, e pensava que todos os homens eram calorosos, e, todas as mulheres, contidas e tímidas.
Eu não era homem nem mulher. Fui, durante bastante tempo, uma menina assexuada, identificada com a figura do pai. Mesmo quando, conscientemente, me apercebi do desejo do meu corpo, e não lhe chamava desejo, nem nada, porque não sabia o que era, e assustava-me, via-me como uma pessoa igual ao meu pai: alguém que ri, beija, fala e ama sem medo, chora, grita, emociona-se, irrita-se, enraivece-se, diz, diz o que pensa, arrisca, põe à prova, com indizível prazer, todos os sentidos.
Isto era o meu pai, e confesso que o procurei nos homens que conheci. Não voltei a encontrá-lo.
O meu pai também era irascível, violento, teimoso, orgulhoso. Mesmo assim: as qualidades ultrapassavam largamente os defeitos de personalidade.
Tenho dias em que sinto graves saudades do meu pai. Queria senti-lo chegar, agora, abraçar-me, beijar-me; dizer-me “trouxe aqui um petisco, põe a mesa".
O meu pai adorava a minha mãe. Vice-versa, já não sei. Garanto que ela o respeitava, lhe obedecia, fazia tudo por ele, como por um pai, um irmão de sangue. Não sei como um casamento de conveniência poude resultar tão bem. A minha mãe refreava-lhe os ímpetos mais sublimes e os mais terríveis, como hoje mos refreia.
O meu pai sabia dar-se, entregar-se mesmo, confiar cegamente. Para o meu pai todos eram bons, dadivosos, e ninguém mentia.
Tinha tanto prazer em viver: comer, beber, ver, ouvir, cheirar, tactear... foder. Já escrevi isto noutro lado. O meu pai adorava foder; não tem nada de mal. Com a minha mãe, sim, mas com as outras - a minha mãe lá fazia o sacrifício, adicionalmente! Nisso, tenho encontrado o meu pai, com facilidade, em todos os homens: foder a torto e a direito, trair sem escrúpulos. Ó, que fácil!
Quando encontro um homem que recusa trair, apaixono-me por ele. Esse é que devia ser meu. Mas é exactamente pelos mesmos motivos que o quero, que não pode pertencer-me.
Não compreendo os homens. Desarmam-me.
Eu tive demasiado homem: um homem inteiro. Amei-o. Aprendi com ele a ser uma pessoa. Os meus principais valores, os melhores, aprendi-os com ele, mesmo quando não os seguiu. Porque o meu pai dava-se ao luxo de ser incoerente, de falhar.
Não compreendo os homens: o meu pai nunca me respondeu “sim”, apenas, após um longo discurso de dúvidas e perguntas. Dialogava, apanhava cada fio da meada, queria saber, responder, discutir. O meu pai não me dizia “não sei”, “não pensei nisso”, “o que é que isso interessa”. O meu pai falava. Extraordinário, não é? Um homem capaz de falar, de se explicar, de dizer o que quer, ou o que prefere evitar. Sem nada na manga. Sem antecipar: “se eu disser isto, ela vai pensar que, portanto, é melhor avançar já esta ideia neutra, desinteressada..."
Descontando as amantes temporárias, a minha mãe teve o melhor dos homens. E não sabe bem. Valoriza apenas um facto, “o teu pai, que Deus lá o tenha, nunca me bateu”; porque a minha mãe é de um tempo em que seria vulgar um homem bater-lhe. Ela teria aceite.
A mim, o meu pai bateu-me, forte e feio. E, no entanto, eu amei-o. Amo-o.
Que belas tareias!
Uma sova esquece-se, a indiferença não. O meu pai batia-me de manhã, mas abraçava-me à noite.
(E se eu faço isso - se bato de manhã e abraço à noite?)

Não quero fazer o elogio da porrada, mas às vezes apetecia-me levar uma valente sova, como as do meu pai, e retribuir, porque à falta do mais apertado dos abraços...


Foto - J. Saudek, Hungry for your touch, 1971

segunda-feira, dezembro 19, 2005

Efemeridade

Letra escrita em doze minutos para uma música pop (ou rock) que a plebe aplauda extasiada durante uma saison


Saías cedo ou vinhas tarde ou nem chegavas
e se chegasses mesmo assim estavas ausente
tantas desculpas tantas vezes inventavas
«morreu-me alguém», «perdi a chave», «estou doente»

E se falávamos das moças do liceu
carpindo a dor duma paixão adolescente
nunca o teu corpo alguma vez nos ocorreu
eras a amiga, o ter um ombro, o estar presente

Nunca cabias nas molduras dos retratos
nunca escrevias com a tinta permanente
escondias versos numa caixa de sapatos
e se sofrias só sorrias indiferente

E foi então que abriste em furco o teu decote
iluminando o rosto e a pele em tantos espelhos
entraste em cena, armadilhaste, deste o mote
ergueste a saia um palmo acima dos joelhos

E foi então que de repente uma outra história
na linha esguia dos teus lábios tão escarlates
se desenhou em lua nova e de memória
eras bombons, pastéis de nata, chocolates

E eras de súbito esse sonho tão secreto
tão misturado em água e sombra e maresia
que agora todos te desejam e por decreto
é o teu nome o nome dado à Poesia

Ó meu amor quem me devolve o que perdi
o quanto errei de tanto tempo obliterado
de tantas horas que passei longe de ti
quando afinal estivemos sempre lado a lado

domingo, dezembro 18, 2005

O fenómeno «Portas Largas»



O meu termómetro marca 10º graus lá fora. Ontem, por esta hora estavam 9º; mais tarde, apenas 7º.
Ora bem, não estamos no Verão e o frio dói. Portanto, coloco uma dúvida que me assalta há uns bons 20 anos: o que fazem as pessoas à noite, na rua, em pé, ao frio, com um copo de cerveja gelada na mão?! No Bairro Alto, por exemplo.
Antigamente, era o fenómeno Frágil. Agora, é o fenómeno Portas Largas. Ontem, foi Sábado, e já se sabe! Custa-me ver as pessoas sofrer gratuita e voluntariamente.
Ainda posso compreender, enfim, estou por tudo!, que um gay destroçado, em final de carreira, tenha de passar as "passas do Algarve" com o fim de conseguir o lazarento naco de carne para o orgasmo da madrugada... mas meninos e meninas, que podiam conviver serenamente, ou não, sentadinhos e quentinhos num barzinho...

Está bem, sei que é um ponto de encontro a partir do qual se passa a outra capelinha... Mas que é um ponto de encontro muito longo, que dura horas de convívio com quem passa, que se fica na conversa... é! E eu já nem falo da conversa de treta, própria do engate. Porque é conversa de treta. Perde-se tempo!
Na rua do Portas Largas olha-se muito. As pessoas estão ali para olhar e serem olhadas. Os homens, uns aos outros.
O
Portas Largas, que, na verdade, pouco espaço disponibiliza no interior, e ocupa, penso que à borla, a rua em frente, aparece em qualquer roteiro gay internacional.
Eu não tenho nada contra os gays, mas por que não engatam sentados?! por que não engatam dentro de portas?! É que está um frio que não lembra, depois constipam-se, depois é meter baixa médica, depois o serviço público ressente-se, e a produtividade nacional é o que se vê. Não é comigo, também sei, mas não resisto ao conselhozinho. Ultimamente sinto-me a discursar como os velhos!
Eu sei que não

sábado, dezembro 17, 2005

Caderno de Isabela

De memórias coloniais.

Catarina: uma resistência grávida


Catarina estava grávida quando foi assassinada. Está grávida, estará grávida. Estava grávida dos filhos nascidos; dos que nasceriam.
O mito político de Catarina não assenta na sua gravidez, mas na sua resistência, bem como na resposta cega do pequeno poder arbitrário.
O exemplo resistente de Catarina inspirou outras mulheres e homens que avançaram perante canos apontados, apesar deles.
Foi um bom exemplo que lamento encontrar tão esquecido. Hoje, gostaria de ver outras Catarinas avançando, opondo-se, fazendo greve sem poder, mas fazendo-a por altruísmo. Eu queria que, juntos, como ela, passássemos fome por fazer greve, para que no futuro nenhum de nós passasse fome por estar calado, por permitir o que não é permissível.
Estes valores estão muito esquecidos. Calamo-nos escondidos entre as quatro paredes das nossas casas e deixamo-nos ser apoucados, roubados, porque, "o que se há-de fazer? Que podemos nós?"
Podemos o mesmo que Catarina. Podemos mudar, inspirar. Se lhe seguíssemos o exemplo, alheios a uma cor política, presos apenas a um ideal de justiça, estaríamos todos em avançado estado de gravidez, e os filhos que paríssemos seriam os mais perfeitos, os mais afortunados.

(publicado nO Eleito)

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Música clássica

Algures nas caixas de comentários acusam-me de só gostar de música clássica. Enfim, como rebater? Mas é pecado gostar assim tanto de, por exemplo, Bach e Nick Cave?

OMC

Os oprimidos destroem os símbolos dos poderosos. Os encargos de reposição entrar-lhes-ão (a eles, oprimidos) acto contínuo na conta ou por interposta pua esburacando-lhes a pele.

«Podem chamar-me sonhadora, mas não sou a única»

Gilberto Gil, ao vivo, em Lisboa, a 5 de Agosto.

Lembro: eu estava internada, sem paz, sem propriedade, sem concerto, com conserto.

Obrigada, Kyler.

O céu e o inferno

O limbo afinal não existe. Nem o inferno.
O novo papa esclarece que, afinal, não são lugares, mas estados. Por este caminho, qualquer dia ainda se atrevem a dizer que a contracepção não é pecado e que preservativo será beatificado.
Mas o papa não está a “ver”. O limbo e o inferno existem, sempre existiram: em Vila Mimosa, na Cova da Moura, nos espectáculos ambulantes de strippers, pelos Estados Unidos. Em lugares muito mais secretos, contudo ao nosso lado. É possível ir ao Inferno e ficar por lá ou, em alternativa, regressar. Poucos regressam.


Foto - Susan Meiselas, USA Carnival Strippers , 1975

Muitos inquilinos do inferno não gostam da sua casa, por isso inventam prazeres – carnais/mortais – adequados ao espaço/tempo que habitam. E vão respirando e sorrindo entre ilusões de orgasmos, snifs de coca, garrotes, muito álcool, muitos downers, muitos speeds. Alguns não querem sair do inferno. Aprendem a gostar dele. Gostar do inferno não o torna um lugar melhor.


Foto - Olivia Gay, Prostitute outside Vila Mimosa, Rio de Janeiro, 2002

As pessoas como eu costumam queixar-se da vida: “é um inferno”, dizemos. Mas nunca descemos a esse lugar, sabemos só de ler nos jornais, de ver as fotografias, do cinema. Nós somos os que atingiram o céu, sabemos lá porquê! Mas já percebemos que até o céu precisa de obras de renovação e conservação. Alguém devia dizer ao papa que o céu, sendo melhorzinho que o inferno, não é nada perfeito. Mete água quando chove, o aquecimento não funciona bem e o ar condicionado está sempre avariado. No inferno as infra-estruturas são frequentemente muito melhores.
O céu e o inferno existirão sempre, para sempre, aqui, contíguos. Em nenhum lugar fora da Terra. Aqui. E a missão de quem os habita será sempre a mesma. Quem vive no céu deseja melhorá-lo, acreditando que isso diminuirá o âmago do inferno. Quem vive no inferno não quer nada, só acordar vivo. Alcançar diariamente os meios para satisfazer as suas diversas necessidades de prazer. Estar-se nas tintas para o céu que não lhes calhou. Ironizá-lo. Desmerecê-lo.

Foto - Susan Meiselas, USA Carnival Strippers , 1975

Se eu tivesse nascido no inferno ou lá tivesse ido parar, fazia como os infernícolas: batia todos os dias à porta do céu para aí despejar, com um sorriso cínico, baldes do lixo mais fedorento, e gozava na cara de quem me abrisse a porta.
Eu podia ter nascido no Inferno. Eu podia ter ido lá parar pelos meus próprios pés.




quarta-feira, dezembro 14, 2005

Uma simples (re)posição: para (re)começar simplesmente

Casulo

Receber a manhã metida na cama. Atravessar o teu medo como um anjo de luz. Reconstituir contigo o beijo, o rosto, as mãos.
O peito inteiro; o espírito errante.

(nos arquivos, a 10/04/05)

o meu amor

aproxima-me em silêncio.

Pequeno-almoço de Isabela

Chávena de café com leite muito quentinho (grão colhido directamente na plantação Nescafé Classic, a 200 metros da minha torre; vaquinha Mimosa Cálcio mungida no mesmo local); bolachas Maria com fiapinhos de queijo decente, tipo Castelões, mas que não é DOP.
Oito graus.
Uma manhã claríssima de luz. Como o resto dos meus longos dias.
Deus te guarde, Isabela!


Foto - Andre Kertesz, Paris Breakfast, January 3, 1982

(Outro que também me deliciou!)

Pedro e o amor

Deus me ilumine: como é possível um homem inteligente para além do razoável, com sentido de humor, delicado, educadíssimo, culto, de boas famílias, com as melhores relações sociais, pretendido por todos, solteiro, responsável, louro e de olhos azuis, vivendo no centro de Lisboa em casa própria, não arranjar uma namorada linda, inteligente, educada, culta, sensível, solteira, etc. etc?



Eu podia começar este post por escrever que não conheço o Pedro Mexia.
Seria mentira, mas podia escrevê-lo. Conheci o Pedro quando era bom rapaz. Um bocado convencido, um bocado de direita, um bocado conservador, mas tinha os seus 20 anos, e o que não se perdoa a quem anda nos 20 e tem tudo na vida?! Tudo excepto o essencial!
Nessa altura também eu era demasiado intolerante. Portanto, estávamos um para o outro.
Pedro sente-se vazio e eu compreendo-o. Para que serve a vida sem o essencial?
O Pedro pode ter tido a melhor educação, a melhor família, mas não se sente amado. Talvez seja amado, mas não sente. Pedro fez 33 anos, a idade de Cristo, como escrevia esta semana na Grande Reportagem, e tem tudo, mas não o essencial.
Eu nunca gostei do Pedro. “Esse convencido de merda!” “Não tem que se esforçar para comer, pode dedicar-se a escrever críticas!” Se isto é verdade, se ele foi um convencido de merda apoiado por todos os lados da vida, e foi!, não é menos verdade que escreve melhor que ninguém, que demonstra uma sensibilidade extraordinária, capaz de fazer de si um dos melhores comentaristas da actualidade, um prosador fluente, expressivo, inteligente, notável – mas um poeta razoável!
O Pedro é bom! E quando a Isabela diz, fulano é bom, tenho muita pena, queridos, mas isto são milénios de experiência, fulano é bom!

Portanto Pedro, vamos estudar o teu problema. O que acontece entre ti e as meninas que te rodeiam, que vão contigo às matinés de sábado e domingo, e com quem discutes o argumento no final?
Vamos ver: o grau de excelência humana que procuras, não o encontras, salvo raras excepções (a minha prima afastada, por exemplo), em meninas de primeira escolha, como as mais gradas maçãs? Queres o brilho ou o sumo? O teu problema é quereres tudo, seres demasiado... exigente.
E esse caminho pode transformar-te num(a)... Isabela. Já vi pior, mas, sou sincera, também já vi melhor!
Portanto, lourinho, começa a aventurar-te por terrenos mais batidos, contudo excelentemente transitáveis. Já reparaste nas senhoras das bilheteiras? Nas que olham para ti com cara de "conheço este murcon da televisão, ou será do Minipreço?!"

Isabelas não há muitas, e as que existem estão todas acima dos 35, com filhos de 10 anos. Portanto, vamos lá ver... Não podes almejar uma menina em primeira-mão, linda e tudo... Podes conseguir linda e tudo, mas em primeira-mão é difícil. Enfim, Pedro, podes almejar o que quiseres, tudo depende do que estás disposto a pagar, e tu não estás!
Queres o Amor. Repara que usei a maiúscula! Queres tudo do Amor. Queres de graça. Não te censuro, rapaz. Eu também nunca o fiz por menos!
Se é para viver a sério, vamos rebentar esta merda toda, a gente quer o amor por inteiro, intacto, puro ainda como no dia da primeira cacimba, a gente quer o que nos devem desde que abrimos a porra das goelas, e dos olhos e das mãozinhas e sorvemos a primeira pitada de ar. Amor ou nada. Queremos o Amor, porra!
Foda-se, a gente quer mesmo a porra do Amor!

Não é o mundo que está errado: tu é que tens errado na forma como recebes o mundo. Espera-lo à tua imagem. O mundo não é à nossa imagem, homem! Trabalhemo-lo!
Afinal, Pedro, continuas bom rapaz, tens só 33 anos,
carago!, e és muito mais bonito que o Fernando Pinto do Amaral; não há-de haver por aí uma Inês Pedrosa que te sirva como tampa para o tacho?
Eu também não sei como foi possível ficar solteira! Um docinho de damascos com nata, como eu?! Mas, Pedro, repara no meu exemplo: aqui no blog há comentários abertos e, léria para cá, léria para lá!, fechando o C.B., e a Alma, os olhos ao processo, arranjam-se namorados à duzia!
Eu estava a pensar: e se abrisses as caixas de comentários?

terça-feira, dezembro 13, 2005

Isabela sonha




Perhaps he knew, as I did not, that the Earth was made round so that we would not see too far down the road.

Out of Africa



Isabela e Zanzerê num terceiro continente: na primeira vida perfeita - as anteriores não passaram de simulacros mal acontecidos!

E isto é o quê, concretamente?

Todas as fotos foram obtidas no site oficial do Portugal Fashion.










O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...