Não tenho tempo para estar aqui, que tenho de me ir pintar, arranjar toda, abrilhantar, aperfeiçoar o excelente - que culpa tenho eu de ser a primeira maravilha da criação?!
Minhas queridas meninas, este foi um ano absolutamente tempestuoso. A quem não tem um blog, só posso desejar uma coisa: arranjem um e viciem-se nele. É muito melhor que o tamagochi e permite-nos muito mais gargalhada que qualquer homem, com a vantagem de não dar roupa para lavar nem passar a ferro nem se meter em cima de nós quando não nos apetece nada, ou pior, não aguentar mais, ai, já não aguentar mais, quando têm de aguentar tudo.
Saindo deste tema sempre tão profícuo: se são infelizes, como suponho que sejam todos, excepto o meu noivo Luís, habituem-se. A infelicidade é o máximo de felicidade que vamos ter; portanto, meninas, insistamos na transformação de outros erros da natureza: se esta nos deu cabelos lisos e morenos, quando, na verdade, somos louras onduladas ou ruivas de caracóis ou castanho-acaju com madeixas negro-azevinho, corrijamos essas falhas divinas.
Poupar no supermercado, mas gastar à vontade no cabeleireiro, na manicure e pedicure, no gabinete de massagens e de tratamento à pele: cremes hidrantes para rosto, corpo e contorno de olhos, pés e mãos, máscaras capilares, cera para a depilação, que nunca nos faltem!; e mais pinturas, muitas, e suaves, todas elas autodisfarçadas de pele natural, cor natural, tudo natural.
Somos lindas, todas, e não precisamos de nada disso. Mas queremos ser mais lindas ainda, porque não somos comuns mortais como... eles. Somos deusas.
Que nos preocupemos com todas as causas civilizadas do mundo, e que o mudemos, mas que o façamos com baton nos lábios e a pele devidamente esfoliada, enquanto eles bebem bejecas e descascam tremoços na tasca da esquina. Há um planeta para salvar, há pessoas para alimentar, animais a proteger, prisioneiros por libertar, justiça por fazer, em todos os lugares. Façamo-lo sem pintura na cara, como a Angelina Jolie, tudo bem, mas com brilho nos olhos e no cabelo e, pelo menos, um ligeiro gloss.
Se nos vamos acorrentar a qualquer coisa, numa acção qualquer da Greenpeace, durante três dias, que usemos o rimmel à prova de água e os nossos melhores cremes hidratantes.
Tudo, desde que possamos ser aquilo que, na realidade, somos: sábias, poderosas e lindas!
Quanto a vocês, rapazes, este ano, vejam lá se, ao menos, conseguem desencascar esses pés bem desencascados, com pedra vulcânica, e a ver se lhes passam um creme gordo a seguir; desodorizem os sapatos e os ténis, se faz favor, e, já agora, também, o sovaco, se não for muito trabalho; tomem banho com um gel duche perfumado; ah, e lavem os dentes, a seguir usem fio dental, façam gargarejos; vão ao dentista tirar o tártaro, que a cor normal dos dentes não é o castanho; ponham, nas fuças, os cremes hidratantes que vos tenho recomendado, a ver se a gente vos consegue enfrentar com o mínimo de choque psicológico; vocês não são nada de jeito, jamais bonitos, mas, pelo menos, que não cheirem a gasóleo.
Tratem das mãos. Cortem as peles das unhas, se faz favor. E lavem o cabelo com um bom shampoo. Não adianta usar Linic há 15 anos. É o Linic que vos anda a fazer caspa. Se têm caspa, esqueçam, nem vale a pena olhar para uma menina, pensar sequer numa menina. Desenrasquem-se. Tratem-se, que vocês estão ainda em estado muito palafítico - embora, desde que o Mundo Perfeito existe, se tenham registado alguns progressos.
E leiam uns livros. Vão ao cinema. Cultivem-se, que nós detestamos homens burros. E por favor, não nos venham falar de ciência, das ondas não-sei-quê e dos gastrópodes - a quem é que isso interessa? Arte, arte; cinema, literatura, bailado, música, política nacional. Futebol, nunca. Nem automobilismo. A quem é que isso interessa?
Pensem, façam palavras cruzadas, sudoku, qualquer coisa que vos dê destreza mental, sei lá, já ouviram falar na regra de três simples: se isto dá aquilo, aqueloutro vai dar, de certeza absoluta, x. Simples. Lógica.
Lindos meninos! Vá, sossegadinhos!
Pronto, agora podem todos ir vestir as roupinhas novas abrilhantadas a lantejoulas e começar já a embriagar-se e a estragar o arranjo todo, fazendo todas aquelas asneiras de que se vão arrepender amanhã, e, em alguns casos, o resto do ano.
Eu, a Alma e o Cê-Bêzinho também já estamos vestidos para sair. Deixo foto tirada, agorinha mesmo, no tlm de terceira geração.
O Cê-Bêzinho leva a tanga Calvin Klein que lhe ofereci no Natal. Azul-céu.
A Alma vestiu a lingerie azul-ultramarino, toda em translúcido rendado.
Eu, eu sou a Isabela, senhores...
Bom novo ano para todas e todos, minhas muito queridas meninas e meus adorados trambolhos mal jeitosos.
Para o ano, o mundo vai ser perfeito. Promessa de Isabela!

Isabela, Cê-Bê e Alma, por esta ordem, da esquerda para a direita (foto actualizada).