terça-feira, janeiro 31, 2006

Tudo para a rua a bem da Nação!

A comunicação social, nomeadamente os canais públicos e privados de televisão semi-gratuita, conseguem, com sucesso, legitimar, todos os dias, as medidas governamentais de reforma a tudo: administração pública, hospitais, escolas, privatização das praias, da água da torneira...
O discurso da rua é já o do é preciso despedir, negociar rescisões, todos estão a mais...
Ainda havemos de ver, nos écrãs, cidadãos a implorar, voluntários, à entidade patronal, rescisão dos seus contratos, a bem da nação - querem lá saber da hipoteca, dos filhos na escola. Tudo para a rua a bem da nação! Tudo com reformas baixinhas, mas caladinhos no seu sacrifício. Porque tem de ser, porque a televisão diz que temos de fazer sacrificio, não há outra saída.
Melhor só se nos suicidássemos todos.

Geografias afins

Gostei muito de saber que a Ilha Isabela, a maior do arquipélago das Galápagos, não só pertence ao Equador, como também conserva o vulcão em actividade.

Casamentos por interesse (1º parte) - O amor vem depois

O amor, esse conceito tão abstracto, que todos os dias aqui venho defender, contra não sei que vendilhões do Templo, é uma invenção contemporânea.
A minha mãe casou sem amor, em 1960. É certo que o parceiro lhe não foi imposto pela família, mas a pressão social exercida num meio rural, sobre uma mulher de 36 anos, ainda solteira, deve ter sido sufocante.
A minha mãe decidiu escolher, para companheiro da vida inteira (e esta ideia continua a parecer-me bonita, quero lá saber dos vendilhões do Templo!), um homem que conhecia muito vagamente; que, tendo integrando um contingente de brancos enviado para as colónias, a fim de exercer trabalhos conducentes ao desenvolvimento de projectos técnicos emergentes, a pediu em casamento, por carta enviada de Lourenço Marques; pediu-a logo ao primeiro contacto epistolográfico, enviando fotografia de fato completo, sorridente.
A fotografia fez furor. Era um rapaz perfeito. Alto, forte, sorridente.
A família da minha mãe foi às Caldas da Rainha recolher informação sobre o moço: sim, que era bom rapaz, trabalhador, muito amigo da mãe, muito dado às putas e às amantes!, mas bom rapaz. Servia-se das amantes só como como concubinas, não pensava permitir-llhes qualquer estatuto na sua vida. Sabemos que foi para África deixando por cá uma carrada de viúvas inconsoláveis; que era muito amigo da mãe, ponto final; que era trabalhador, ponto final parágrafo.
Nas poucas cartas que trocaram nos três meses que mediaram o pedido e o casamento, mostrou-se correcto, terno e brincalhão. Toda a vida o foi, aquele cabrão: correcto, terno e brincalhão. Com os brancos, claro. Nunca mudou. Foi isso, foi putanheiro, arranjou as amantes que pôde e as que não pôde. Adiante.

A minha mãe escolheu o parceiro que pareceu poder oferecer-lhe uma vida melhor. Não teria de continuar a aperfeiçoar peças de louça na fábrica do Raul da Bernarda, iria trabalhar na sua casa, para o seu marido, para os seus filhos, numa outra terra que não conhecia, mas onde sabia que se vivia bem.

Assim casou a minha mãe, em Outubro de 1960, e por procuração, no Mosteiro de Alcobaça; embarcou para Lourenço Marques, no Príncipe Perfeito, num certo dia de Janeiro de 1961.
À chegada, desceu de branco, quando o meu pai a foi buscar ao navio.
Via nessa altura, pela segunda vez, o rosto queimado do homem com quem se havia cruzado, dois ou três anos antes, no café duma prima. Não se conheciam. Não se amavam.
Eu nasci em 1963.
O meu pai morreu em 2001.
Viveram casados durante 41 anos, e eu, que andei por ali algum tempo, sei que se amaram sempre.



O Príncipe Perfeito

segunda-feira, janeiro 30, 2006

Sex, drugs and reggae, no Maputo

No Maputo, embora chova que Deus dá, os UB 40 deram espectáculo, no Estádio da Machava, no Sábado passado. Foi um acontecimento, porque estas bandas não costumam deslocar-se até ao Quarto Mundo, mas, até aqui, tudo normal. A minha parte favorita é a do crime associado:
Claro, circulou muita, muita ganza! A roda da ganza alargou-se, descreveu percursos curiosos...
E eu pergunto-me, com o meu estúpido sorrisinho beato: percursos curiosos? O que é um percurso curioso para uma ganza?
E o crime restante:
Inevitavelmente, quadris enroscados, suores e sabores trocados, abraços...e tudo mais que se possa imaginar.
Tudo o mais que se possa imaginar?! Isto, no meu tempo, não era nada assim! Alguém assistiu ao concerto?
As meninas bem comportadas acham graça a coisas inimagináveis para o comum mortal!

Parece que é a vida!

Cristiano Ronaldo contratou o arquitecto Souto de Moura para lhe conceber uma casa de família, com um enorme lago artificial que possa servir de piscina; um projecto megalómano, localizado a sul do Tejo.
A crer nas palavras da irmã, Kátia, o clã é muito unido, pelo que se justifica este empreendimento.
O jogador, por seu lado, manifesta-se surpreendido com a simplicidade e humildade de Souto Moura, apesar de ser um dos melhores arquitectos do mundo.
Li isto, hoje, no Correio da Manhã disponível no café que frequento. Saí para a rua com um sorriso beato que ainda não se desfez.
Recordo que Figo também morou a 50 metros de mim, num 1º andar por cima do ex-Dia, agora Minipreço. Quando foi anunciada a sua ida para o Barcelona, há coisa de 11 anos, realizou-se uma pequena manifestação à porta do prédio, e eu diverti-me muito.

domingo, janeiro 29, 2006

Início

Enquanto o juiz da cidade de Viterbo, em Itália, pondera a eventual existência histórica de Jesus, sou assaltada por pensamentos excessivamente cristãos.
Ao ficarmos incapacitados para o trabalho normal, das nove às cinco, por um longo período de tempo, ou se dele somos privados, percebemos a importância vital dessa condenação que maldizemos todos os dias, nos faz saltar da cama cedo, mal dormidos, meros corpos animados de funções vitais que se exercem voluntárias, contra quase tudo. Quando ficamos saudosos dos papéis de que temporariamente nos livramos, das discussões, das incredulidades diárias, compreendemos que essa pirâmide que se constrói aos nossos olhos, a que se dá forma lenta mas tenazmente, resmungando, é a vida, a melhor, a única.
O trabalho não é apenas uma forma de organização social. Não é apenas uma cultura a que nos condenamos. É provável que o trabalho seja verdadeiramente aquilo que nos dá um sentido, porque nos força a olhar o outro, a enfrentá-lo. A pensá-lo. Somos-lhe úteis não apenas porque isso nos garante a sobrevivência diária, mas porque não há outra sobrevivência possível. A de nos vivermos com o outro, pelo, para o outro.
As manhãs de sábado e domingo, quando não quero sair de casa, porque chove ou faz frio, e estou excessivamente preguiçosa para descer à rua, tornam viáveis as piores segundas-feiras. As manhãs de preguiça, mesmo frias e sombrias, permitem-me renascer e voltar a ter 20 anos, sabendo o que sei hoje. Assim me concedo, numa só existência, inúmeras vidas.
O fim é inevitável: eu continuo a preferir o início.



Foto de J. Saudek, Life, 1966

sábado, janeiro 28, 2006

Que estava bem assim

O meu tio-avô casou às sete da manhã porque tinha combinado com o padre, para esse mesmo dia, uma caçada às perdizes. Vieram comer a casa às duas da tarde uma feijoada cujas carnes começaram às nove a remoer no pote da lareira. A minha tia, ao almoço, diligente, perguntava ao senhor abade «se não queria mais um cibinho de malagueta». Mas ele que não. Que estava bem assim.

sexta-feira, janeiro 27, 2006

Uma nova religião

Euromilhões - Deus do Desejo Material configurado em propriedade móvel, imóvel, e outra.
O nome cabalístico escreve-se com cinco dígitos mais duas estrelas.
Quem descobrir a chave, pode sentar-se ao lado esquerdo do deus.

quinta-feira, janeiro 26, 2006

Vou procurar no Google!

Tenho demasiadas dúvidas sobre tudo, e isso, às vezes, atrasa-me a vida.
Perceber que a economia governa o mundo, não a ideologia política, isso é fácil.
Queria poder julgar rapidamente a Google, arrumá-la numa prateleira de bons e maus, de certos e errados. Queria tornar a minha vida mais fácil e dormir descansada.
É melhor os 111 milhões de chineses com actual registo na internet terem acesso a um Google censurado ou não o terem de todo?
Queria resolver isto rapidamente, manter-me fiel aos meus idealismos, afirmar que não se pactua com uma ditadura, sob nenhuma condição.
E se o progresso se constrói mesmo aos gaguejos, dois passos à frente e um atrás? E se a consciência política, cultural, social de 30 milhões de chineses puder alterar-se, e reformar a China, porque leram incautamente, no Google censurado, um artigo de 20 linhas, aparentemente pacífico?
Imaginemos que eu era chinesa: o que seria melhor para mim?

Mundão perfeito

Fotografia de Pedro Stephen


São Paulo: the japanese Marilyn


A internet não é um terreno mais pantanoso que o restantes; torna mais perceptível o pântano.
O site meter regista, como todos sabem, pormenores relativamente aos visitantes que nos chegam. Dos dados disponibilizados, interessam-me os seguintes: de onde vêm e que textos consultam?
A maior parte dos nossos visitantes provém do litoral centro e norte, inclusive do Norte profundo, e dos grandes aglomerados urbanos, Lisboa, Porto, Aveiro, Coimbra e Leiria.
A Sul, este blog é lido em três distritos, apenas, Setúbal, Évora e Faro. Não é surpreendente, mas permite aferir dados relacionados com a distribuição da riqueza, a densidade populacional, a constituição da pirâmide etária desses aglomerados populacionais e o respectivo acesso aos meios de comunicação.
Os nossos leitores são, maioritariamente, portugueses e brasileiros, com alguns pontos fiéis no resto da Europa, quase sempre da mesma proveniência: Reino Unido, Espanha, França, Bélgica e Alemanha. Em África, alcançamos Angola e Moçambique, mas pouco, com visitantes igualmente fixos. Somos lidos praticamente em todos os países da América Latina, mas com poucas entradas. O Brasil é a honrosa excepção. Mas o Brasil é o Brasil! Tem Zanzerê, tem Ordisi, teve aí outro minino Pedro, que Luís espantou...
Retomando: cerca de metade das visitas de O Mundo Perfeito chega-nos através de pesquisas em diversos motores de busca, sobretudo em língua portuguesa e castelhana. Os textos mais lidos devem o seu sucesso ao Google.
Intitulam-se, pela respectiva ordem de interesse, revelada em percentagem de entradas diárias, “As putas do meu país”, “A cona das pretas” e “Nus”. O primeiro não é sobre putas, o segundo não é sobre conas; quanto ao terceiro, é precisamente sobre nus.
E o que se pesquisa? É isso que ainda me espanta. Não devia, mas, de vez em quando, calha-me. Hoje, por exemplo, até onde consegui seguir a pista, registámos visitas no trilho dos seguintes temas – aqui segue, e peço mil desculpas se magoar a susceptibilidade daqueles leitores provenientes de assembleias de voto onde um macho ainda é um macho e, uma fêmea, apenas uma gaja montável, mas os meus propósitos são meramente científicos: completamente nua, farolins, receita caseira para a celulite, sexo, fotos de homens lindos, Inês Pedrosa, esporas gostosas gay, mulheres que pagam tudo, mamas bem embaladas, pomada Halibut, vestidos Fátima Lopes, Portas Largas Lisboa, tempos de lazer, o mundo e a água, pretos nus, de borla lojas utilidades, adelgaçante coxas.
Hoje não foi mau. Mas temos outros dias igualmente bons, em que aqui se chega através de expressões como putas idosas, putas grávidas, qualquer outra combinação com o substantivo ali usado, e, igualmente, cona (de) preta, cona peluda e ou qualquer outra variante deste segundo. Poemas de amor, celulite, adelgaçantes, cremes e pomadas, sobretudo os cremezinhos hidratantes masculinos, são temáticas também muito procuradas.
Também via Google, há cerca de um ano, e num outro blog que mantive, chegou-me um tópico de pesquisa que penso não vir a esquecer tão cedo. O meu texto versava a produção industrial de carne, realidade praticamente ignorada, bruta e embrutecedora. Hei-de cá trazê-lo.
O tema da referida busca era “porcos a levar porrada”, mas percebi que, naquele caso, nada tinha a ver com suínos!
Realmente, a minha virtude falha muito... Tenho passado a vida a pô-la à prova! Mas como resiste, a grande cabra!
Quanto ao mundo, o resto do mundo, cá dentro ou aí fora, é, eu sei, tão perfeito!

Espírito-Isabela

Parece que ando pouco perfeita: demasiado apimentada! Muito física. Que devo controlar-me para não passar a imagem duma maluca com falta de homem! Que os comentários andam muito atrevidos! Que antigamente não era assim!
Mas, penso, cá com os meus botões, para que é que se há-de fingir?! Estamos em Janeiro, a Primavera vem longe; não tenho obrigação de ser fiel senão ao espírito-Isabela; agrada-me o estilo blog-diário, colho somente o fruto da minha semeadura... Ora isto não é sobre política, não é sobre literatura, não é sobre sexo, amor, desejo, homens e mulheres, corpo e espírito, justiça, liberdade, honra, ética... isto é, na parte que me toca, sobre mim! E eu sou isso tudo. E o que vier a ser. Portanto, estão muito bem servidos; queixam-se de quê?!
Não quero o blog para me portar bem! Para representar a lady tenho o empregozinho, a sala de espera do dentista, os encontros com os vizinhos no elevador. Algumas horas por dia, por mor da renda de casa e do crédito Jumbo, aguento-me bem no papel da solteirona bem comportada. Agora, no blog, meus queridos, escrevo as asneiras que me apetecer, publico os rabos e as mamas que quiser, arranjo os namorados que me der na veneta, se for o caso; e a seguir, aguento-me à bronca com os muito malucos, e com os mais ou menos e com os que não são.
Reclamações, por favor enderecem-nas ao provedor(a) dos blogs, PSP, GNR, Polícia Judiciária, Comissão Europeia, ONU, o que quiserem, mas, das três, uma: larguem-me a franga, ocupem-se dela ou saiam de cima!

terça-feira, janeiro 24, 2006

Candidatas ao concurso "A Fada do Lar"


Foto - Frank Horvat, Le Sphinx, Paris, 1962

Receita para limpeza de uma sala, para o concurso "A Fada do Lar"

Abre-se a porta da sala.
Atira-se, para cima dos móveis, tudo o que está no chão: cestos de jornais, bancos, cadeiras, tapetes, bibelots, o diabo a sete.
Sacodem-se os tapetes pequenos, à janela, tudo para cima do estendal de roupa do vizinho. Escova-se o pó dos sofás e sacodem-se as almofadas e mantas de protecção dos ditos, por causa das cadelas.
Pega-se no pano do pó e vai-se limpar a camada de três centímetros de pó que se foi depositando pelos cantos mais inusitados da mobilia, flores secas, aparelhagens, tv e quejandos, candeeiros, plafonds e molduras.
Devidamente limpa toda essa tonelada de terra, de onde viemos e que nos há-de comer, sacudir os panos de limpeza para cima do estendal de roupa dos vizinhos.
Depois, aspirar o chão de uma ponta a outra, arredando os móveis de lugar, por causa do cotão que se forma em baixo.
Feito isto, empunhar o balde e a esfregona e lavar o chão com produto adequado.
Quando seco, começar a repor, no chão, aquilo que é do chão; no sofá e nos móveis, aquilo que a eles pertence, respeitando a ordem já existente.

Fechar as janelas. Queimar uma vela aromática ou um pau de incenso. Sair

Intervalo - publicidade


Foto - Motor Show, 1971


Não escolha a loura nem a morena: sacie-se com Ruiva, a cerveja que faz corar macho que é macho.


Coce à vontade o rego do rabo, desentale a tomatada das cuecas, à mão; cuspa à vontade para a varanda do seu vizinho; não limpe o ranho; não se lave; não arrume nada; mate a sua sogra com veneno, se quiser, mas, por favor, não fume.

Compre este produto para lavar a sua louça: sim, é 3 vezes mais eficaz, mas não chega a ser 3 vezes mais caro.


Recenseamento militar: todos os jovens cujas... blá, blá, blá... são obrigados... blá,blá, blá.... para as cidadãs, o recenseamento militar é voluntário.

Receita de culinária para o concurso "Fada do Lar"

Vai-se ao Celeiro. Compra-se uma peça razoável de lombo de seitan ou de tofu, dos caseiros, acabados de abater, ainda de olho vivo.
Chegando a casa, mete-se o tacho ao lume com cebola picada e um bom fio de azeite, mais dez pingos de água. Deixa-se amolecer a cebola com lume médio.
Cortam-se uma cenoura, uma fatia de abóbora e a peça de seitan/tofu aos quadradinhos. Cortam-se um alho francês e uma courgette às rodelas.
Acrescenta-se o tacho de água e, quando ferve, amanda-se-lhe a cenoura mais a abóbora. Espera-se que a coisa ferva, aí mais uns 5 minutos, ajunta-se-lhe, o seitan/tofu, mais o alho francês mais a corgette.
Mete-se-lhe uma pitada de sal, um piri-piri, prova-se a ver se está comestível, se não estiver, paciência, e tapa-se tudo até estar devidamente estufado, para aí mais 1o minutos.
À parte, faz-se um arroz de grelos, da mesma maneira que se faz um arroz de grelos.
Quando arrefece, a bem ou a mal, come-se.

Paradoxos

Querias proteger-te da dor: já só eras a Dor.

O meu outro amor

Abria as pernas e sentava-me sobre as tuas, que apertava, de frente para ti. Ria-me sem dizer nada. Beijava-te na brincadeira. Depois beijava-te a sério. Não dizia uma palavra. Ria-me. E tu rias-te, e dizias tolices, que ias fazer-me já isto e depois aquilo. Ria. Forçava o teu peito contra o sofá, se te inclinavas. Não, isso não, eu é que beijava; eu brincava. Eu é que decidia se podias decidir, quando podias. Eu é que cheirava o teu pescoço e ombros e os mordia, e lambia onde mordia. Para te curar. Eu segurava a tua nuca numa só mão; apertava-a, e roçava a face pela tua testa, pelo teu crânio. Cheirava-te como um cão cheira outro. Mentira, eu cheirava-te muito mais do que um cão cheira outro, porque eu te comia quando te cheirava.
E depois não interessa.
Depois estavas nu e podia comer-te as curvas dos braços e pernas; as da barriga, onde a pele é muito fina, molhá-las, cercar-te como a uma presa. O vinco das tuas virilhas, de um lado ao outro.
Esfreguei o meu rosto no teu corpo, como se focinhasse terra. Eu também estava escondida na tua pele. Eu também me cheirava debaixo da tua pele.
E fechei os teus testículos na mão, levantei-os para descobrir o meu segredo, o carreiro virgem do teu períneo. Para o cheirar. Sim. Para a minha boca. Os meus dentes. Língua. Para que estremecesses. Isso. Um tremor. Para mim. Cheirar, beijar, rir, lamber. Era só isso. A posse da minha pele sobre a tua. Escamá-las. O cheiro, o sabor, o calor da tua pele. A minha boca. Havia. A tua boca. Morder-te. E era só isso. Mesmo quando já não nos ríamos, quando dormíamos nus, muito encostados, e me magoavas os dedos, de os entrelaçares tanto nos teus, a noite toda, e eu pousava a tua cabeça no meu peito, e te ouvia suspirar fundo, tão seguro do meu peito. Era só isto. E a isto, chamaste depois, o desejo.




Foto - Carsten Schilmann

segunda-feira, janeiro 23, 2006

Isto é o amor?


Júlio Pomar

Ou, amo-te

Amo-te, por isso, desejo-te.

Ou, o jogo

O desejo é tantas vezes a desculpa para, tocando-nos o amor, nos fecharmos em copas.

O paradoxo da perfeição

Todos já lemos este texto de Borges, algum dia.
E eu, hoje, preciso tanto relê-lo!

A perfeição molda-se imperfeita, eu acho. Dos erros e dos riscos, do que se disse e não devia, mas devia; do que fizemos e de que nos arrependemos. Ou não.
Borges:


INSTANTES

Se eu pudesse viver novamente a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.
Seria mais tolo ainda do que tenho sido, na verdade bem poucas coisas levaria a sério.
Seria menos higiênico.
Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a mais lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvete e menos lentilhas, teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto da vida, claro que tive momentos de alegria.
Mas se pudesse voltar a viver, trataria de ter somente bons momentos.
Porque, se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos, não percas o agora.

Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termômetro, uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas. Se voltasse a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera e continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças, se tivesse outra vez uma vida pela frente.

Mas já viram, tenho oitenta e cinco anos e sei que estou morrendo.

(Jorge Luís Borges)



Henk Braam, Mount Everest Basecamp, Tibet, 1999

domingo, janeiro 22, 2006

Apocalipses

Eis a grande desgraça, a machadada no caminho do sucesso, da confiança, da felicidade colectiva: venceu Cavaco e não, imagine-se, Soares ou Louçã. Portugal nunca mais vai ser o mesmo. As criancinhas vão deixar de ler, na escola, Camões e A Praça da Canção. A ignorarância haverá de grassar. Estiolará a inovação. Vem por aí, a galope já, um tempo de trevas. Não venceu Jerónimo nem Alegre. Não venceu Garcia. A Europa civilizada vai passar a olhar-nos com desdém. Portugal, hoje, acelerou a fundo no caminho da perda de prestígio. Tantos sonhos, e afinal o povão ignorante elegeu Cavaco Silva. O mesmo povão que não esgota uma edição decente do regresso a Ítaca.

Coitados de nós que trocámos o ábaco pelo poema. Amanhã de manhã o mais certo é que nem os transportes públicos funcionem.

Eufemismos

A eleição de Cavaco Silva para a Presidência da República vem tornar o País mais governável.

Resistir

Eis uma velha anedota sobre judeus, que ouvi já não sei onde nem quando, mas que me parece oportuna:
- chegou o dia final, o Apocalipse, amanhã vamos ser todos engolidos pelas águas, o pânico espalha-se e, no meio do caos total, um judeu diz à mulher, com a maior das calmas: temos 24 horas para aprender a viver debaixo de água!

Do masoquismo lusitano

Mais uma década a levar com ele.

Jogo

O amor é tantas vezes a desculpa para, tocando-nos o desejo, nos fecharmos em copas.

Uma invenção delirante

E se o amor não existisse? E se não passasse duma invenção delirante de poetas anémicos, de filósofos sem tusa ou indecisos? E se, afinal, apenas (e seria tanto!) o desejo nos movesse? E tudo o mais se reduzisse à impossibilidade de definir o que nos faz mudar de pele, trocar de corpo, esquecer o próprio nome?

Amo-te

Amo-te porque te desejo.

sábado, janeiro 21, 2006

Constipada III (opção bicharoco ranhoso )




Sigourney Weaver e o bicharoco - Alien 3

Não sei por que se consideram os filmes da série Alien como de terror. É mera ficcão científica com bicharocos ranhosos. Eu sou medricas e aquilo não me causa medo nenhum.
Medo, medo é uma criança rodando, devagar, a maçaneta da porta atrás da qual antecipamos estar um poder maligno, indizível, desconhecido. Estou a lembrar uma cena de
O Sexto Sentido.
Medonho, em cinema, é o invisível. É o monstro que se imagina debaixo da cama, e pode surgir a qualquer momento para nos fazer não sabemos que mal, mas mal (porém, afogados nos cobertores, estamos protegidos).
Pior que o bicharoco
-
Alien, portanto, verdadeiramente cruel, só conheço o ser humano. O bicharoco faz muita sujidade, mas mata depressa. Os homens conseguem fazê-lo muito devagar e sem sujar as unhas.
Alien 4, Ressurection, passa à meia-noite, na SIC. Não vi antes. Estou ansiosa por saber como Ripley se safou das chamas nas quais se imolou, mais ao filho-bicharoco que gerava, no terceiro episódio da série. Gosto sempre de apreciar a forma como os argumentistas resolvem a morte de um protagonista. Que milagre terá acontecido, desta feita?
Também não sei se o Alien existe, mas que ele anda aí, anda.









Sigourney Weaver e Winona Ryder, Alien 4

Constipada II (opção poupança)

Passar a ferro substitui lindamente o aquecimento de uma assoalhada: poupa-se em mulher-a-dias, inalam-se vapores que permitem descongestão nasal e, amanhã, tenho lençóis fresquinhos para conseguir dormir após conhecimento dos resultados eleitorais.

Constipada I (opção dvd)

RTP 1 - faduncho.
RTP 2 - Basílio Horta comenta não sei quê sobre economia.
SIC - telenovela brasileira.
TVI - telenovela portuguesa.
Quando é que alguns canais da televisão por cabo passam a ser à borla?

[Como se fôssemos náufragos]

Estendíamo-nos
As mãos

Como se fôssemos náufragos
De nós mesmos.

quarta-feira, janeiro 18, 2006

Colheita de 24

A senhora dona Judite é da colheita de 24 e já viu de tudo. Viveu a II Guerra Mundial, o Estado Novo, a colonização e a descolonização; atravessou todas as crises do século XX.
A mim, o que me preocupa, é que ela veja os Morangos com Açúcar. Costumo dizer-lhe, quando a cena fica afogueada “não achas que devias mudar de canal?”, e ela responde, toda sorridente, “isto é rapaziada nova; se soubesses o que eles inventam nem acreditavas.”

A semana passada desabafou: contou-me uma maroteira; que agora há um programa de sexo na televisão, e que é uma mulher que apresenta, ainda por cima, “mas aquilo tudo muito natural, como se estivesse a falar de outra coisa qualquer... Apanhei por acaso, não fui ver de propósito... depois, olha, já lá estava... e vê lá bem (risinho), estavam a explicar aquilo do tamanho e da grossura das pilas (risinho, risinho, risinho).”
Hoje, ao almoço, e ainda não recuperei, fiquei conhecedora das novidades sobre o seu vizinho do lado.
Que o senhor Chico, também da colheita de 24, é um putanheiro da pior espécie e pinta o cabelo de negro-azeviche, esticando-o todo para trás, tal e qual uma cabeleira de chulo, todo o bairro sabe; que rouba as jóias da mulher para as oferecer às amantes, bem como os serviços de chá e café, e até garrafas de azeite e pacotes de arroz-agulha, isso, é do conhecimento geral dos restantes condóminos; que gasta em si os cremes de rosto, mãos e corpo da senhora sua esposa, e que apresenta, naturalmente, sérios problemas de erecção, ficando a ver canais porno até ao fim da emissão, sabe a dona Judite, por confidência da vizinha.
Agora, o que ninguém sabia, e espero nunca passe pela ideia dos argumentistas de Morangos com Açúcar, é que sempre que o senhor Chico se fecha na casa-de-banho para a tintura do cabelo, “também pinta, vê lá tu bem!, com a mesma tinta do cabelo, os pêlos da pichota!, para parecer mais novo quando as mulheres lhe fazem aquelas coisas.”
E esta é que tanto eu como a dona Judite vamos levar tempo a encaixar!

Os perfeitos

Os que se poupam à vida em nome da felicidade alheia, são os infelizes construtores da casa vazia que habitam, algemados, algemando os protegidos.

terça-feira, janeiro 17, 2006

Sororidade, sempre


Isabela em trajes íntimos, antes de dormir.

Oito graus lá fora. É tarde. Vou deitar-me. Espero não ter frio com esta camisinha translúcida. Vou dormir o mais languidamente possível, como dormem as divas.
Como de costume, Alma Mahler já dorme a sono solto.


Denis Piel, After, 1981
Alma Mahler dormindo, cheia de calor, num quarto excessivamente aquecido

...na vitória e na vitória, irmãs!



Da esquerda para a direita: a brilhante Isabela e, pronto, Alma Mahler (luzindo um bocado engripada), deixando a marca das suas superiores, literárias, tolerantes e solidárias mãos no cimento recente colocado à entrada da sede de candidatura de Francisco Louçã.

... na alegria e na tristeza, irmãs!



Da esquerda para a direita: Isabela consolando Alma Mahler, triste com a partida de Luís Sem Acentos para o seu próprio blog. Isabela tenta acalmá-la, "Bichinha, não vês que agora ficamos livres daquele homem das cavernas, e temos todo o espaço livre para cascar nos homens como nos bons velhos tempos, sem aquele empecilho?!"

Alma Mahler: "mas eu sou fã daquele animal Barroso, que tanto me lembra as origens do meu sangue ancestral: a pureza do estrume, a magnificência do espigão enterrado brutamente no coração do suíno, no ritual da mantança."
"Deixa, querida, " diz-lhe Isabela, "eu ainda sou nova, tu também não estás mal, havemos de arranjar outro!"

Irmãs de guerra


Da esquerda para a direita: Alma Mahler e Isabela acendendo os charros da guerra eterna.
Das duas, uma, ou os vencemos a todos, ou os papamos a todos! Escolham as vossas armas!

segunda-feira, janeiro 16, 2006

Tasca da blogosfera



Aconselho vivamente o recente blog do meu estagiário, Luís Sem Acentos.
Apelo a que comentem largamente - está na hora de o rapaz se tornar independente das minhas saias, sair da minha sombra e crescer sozinho. Eis, ipsis verbis, as palavras que escolhe para apresentar o seu requintado ponto de encontro:

Bloguex

Isto vai ser um blog cheio de caralhadas e calinadas, sem a minima sofisticacao. Um blog à imagem de um prato de coives com feijões e um bocado de pernil, uma coisa simples.

Para mim, é o sonho que sempre quis realizar, por motivos de pura etnografia: entrar, como uma mosca, numa tasca com serradura no chão, cheiro a vinho azedo, repleta de machos muito feios, muito porcos e muito atrasados, e ouvi-los em monólogo retinto e cavernicola, o único que conseguem articular.

Os dois primeiros posts são dedicados ao importante tema da foda. Não transcrevo: não consigo seleccionar a melhor frase. São todas pérolas genuínas.

(Luís, tira esse nome de preservativo ao blog e chama-lhe aquilo que na realidade é: "Tasco"," Com Eles no Sítio mas Sem lhes Dar Uso"... )

Hermenêutica do falo

Muito Platão, muito Nietzsche, muito Kant, muito Wittgenstein, mas, chegada a hora da verdade, um boi e uma vaca.

E amor é tudo

Eu amo tanto o que no amor se dá
inteiro e sem retórica, excessivo,
sem uma face boa e outra má,
sem preconceitos, regra ou adjectivo,

que o menos é a curva da cintura,
a foda ser anal ou nem ter nome,
e ser a dois ou três ou quanto dura,
e quem é que é comido ou muito come,

e se as meninas querem nas meninas
e os rapazes querem nos rapazes
achar-se na luxúria do prazer
movidos por roldanas ou turbinas,

pois este jogo joga-se sem ases
e amor é tudo o que tiver que ser.

O que eles querem!

Acabei de receber, n´O Eleito, o seguinte comentário ao texto sobre Cavaco que aqui também publiquei há pouco.
E depois digam-me que os homens não merecem que nos façamos tolinhas, só para eles, e que os enganemos a torto e a direito!
Tenho um karma com os Luíses, Deus me valha!

Luís - Comento aqui porque no outro tasco não funciona.

Ouve lá Zabelinha: tudo isto é muito sensato, mas o que a malta quer é posts sobre meias, e claro sobre a intensidade do orgasmo seja ele sexual ou eleitoral.


domingo, janeiro 15, 2006

O momento de ouro de Cavaco


Sou inocente e não faço a menor ideia!

A forma como Cavaco Silva abriu a boca, perante os órgãos de comunicação social, expressando, facialmente, um “não faço a menor ideia” foi ridícula?
Pode ter sido, mas para um candidato cuja imagem de força consiste na nulidade discursiva, foi um momento de ouro. Não lhe roubará um único voto. Os indecisos esperavam por este vislumbre de humanidade. Aquilo é que foi expressividade! Cavaco é bom a calar, e é melhor, ainda, a exprimir o vazio sobre o vazio.

O silêncio estratégico de Cavaco Silva em campanha eleitoral, embora inédito em democracia, tem-se revelado bastante frutuoso. O seu discurso consiste na recusa do discurso. Na ausência de comentário. Todos os assuntos são, para Cavaco, excessivamente graves e delicados para merecer abordagem, pelo que não se pronuncia, não se compromete. Não quer ser indelicado. Acha inapropriado, descontextualizado. Encolhe os ombros e não dá... cavaco. Exactamente isto: Cavaco não se dá, tal como nunca se deu. Conheço bem esta estratégia tão portuguesa: fala com todos, não confies em ninguém, não provoques seja quem for, não emitas opinião; sorri sempre, mas nunca demais.
Conheço bem esta estratégia: a intolerância, a prepotência – tanto à direita como à esquerda – nunca dá explicações. Omite-se. A ditadura têm horror a explicações e teme a palavra acima de tudo. Mas alguém não sabe isto?! Alguém não conhece Cavaco?! Quem não sabe o que foi Cavaco?! Quando Guterres conquistou a maioria ao PSD com a "paixão da educação", não prometia que as relações governo/comunicação seriam mais abertas a partir daí?! Como se contextualiza uma promessa deste tipo, tenha ou não vindo a ser cumprida?!
Sabemos todos, perfeitamente, quem foi Cavaco, ou melhor, o que calou, agindo através da força policial contra a qual sabia reagir com o mesmo poder.
Como é possível que o candidato em silêncio, um independente de fachada, seja, neste momento, o melhor colocado? Que País é este, onde, quem se isenta, quem recusa o confronto, ganha a corrida?
O nulo, o que se comporta melhor por não se ter chegado a comportar, é esse que, no próximo dia 22, vai ser legitimado para nos representar?
Eu tenho estaleca para ver de tudo, mas, porra, que não veja calada!

Publicado também nO Eleito.

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Safo foi bailarina


Safo de Lesbos, poetisa grega, século VI a.C.

Uma cama larga, partilhada com mais do que uma mulher de diferentes características físicas, que não só fazem amor entre si, como se entregam activamente, para total consolo, ao desejo viril: eis uma fantasia erótica masculina muito frequente, copiosamente reencenada pelo negócio da pornografia.

Desde que aí não esteja a sua, os homens não se sentem tradicionalmente ameaçados pelo sexo entre mulheres. A ideia é-lhes prazenteira. O envolvimento sexual mútuo não torna as mulheres lésbicas: a recusa do macho é que as torna fufas.

Os prazeres sáficos não constituem sexo sério, mas meras brincadeiras que desenvolvemos, umas com outras, enquanto não chega um homem para nos satisfazer capazmente.



Tamara de Lempicka, Duas Amigas, 1923

O imaginário tradicional associa sexo e supremo prazer sexual ao falo erecto. Um bom desempenho implica, culturalmente, mesmo no caso dos homossexuais masculinos, a penetração realizada pelo falo.
O prazer, e o poder do prazer, dependem, portanto, do macho.
Numa cultura fálica não é a entrega e a partilha do desejo que se relevam, mas a realidade de uma posse física conseguida pela penetração. Possuir é penetrar: “eu entro em ti, eu lavro-te, logo, és a minha terra”. Não é uma ideia destituída de qualquer poesia, mas ignora, displicentemente, o corpo total enquanto zona erógena.
É precisamente a questão da posse pelo falo, que, no caso da homossexualidade masculina, incomoda tanto. Por isso se valorizam negativamente expressões como “pega de empurrão”, ou designações como “o rabeta”...
No contexto religioso, enquanto a homossexualidade masculina foi e é, ainda, impiedosamente condenada, a feminina, considerada um vício, tolera-se; rezados uns Padre-nossos, absolve-se. Não é coisa muito importante. Case-se a rapariga!



Estátua de Príapo, Pompeia

Numa relação homossexual masculina incomoda que a estratificação do poder se estabeleça entre dois homens, possuidor e possuído, sendo que o possuído personifica a fêmea; portanto, o mais fraco, o mais ridicularizado.
As mulheres podem beijar-se, roçar-se, manipular-se, mas nunca, porque destituídas de um falo natural orgânico, possuir-se. Proporcionam-se excitação, não o prazer rigoroso do falo. As mulheres permanecem, assim, simbolicamente roubadas do poder.

O prazer sáfico é decorativo, distrai. As fêmeas são, regra geral, agradáveis aos olhos: redondas, macias, suaves. Assim, a brutalidade associada à prática sexual entre dois homens opõe-se à suavidade do contacto físico entre mulheres. Os homens são brutais, as mulheres entregam-se a coreografias excitantes. Um bailado.

Contudo, quando abordo este assunto, gosto de lembrar que é possível dar e receber beijos mais poderosos, mais envolventes que a ordinária penetração.




Catherine Deneuve e Susan Sarandon em The Hunger

(Miguel Marujo, cumpro o prometido a 31 de Dezembro, que, entretanto, me cobraste!)
O Belo e o Bom

Quem é belo é belo aos olhos - e basta.
Mas quem é bom é subitamente belo.

Safo de Lesbos

Os comentários

Com algumas ideias, mas sem tempo para escrever.
Uma reflexão sobre posts, apesar das contingências:
- sei escrever bons textos, e sei escrevê-los para encher chouriços. Há dias em que me apetece farra, e desejo, nesse caso, dissertar sobre meias de rede, ser uma diva da blogosfera.
Há dias em que apetece escrever a sério. Esses são os que penso serem tristes, mas que são o melhor da minha vida.
Verifico que os textos mais lidos, mais comentados são os que abordam a problemática da meia de rede, ou realidades superficiais: farra: maquilhagem, lingerie, hábitos femininos ou masculinos estereotipados.
O amor, a morte, a dor, coisas sérias não merecem muito comentário. Existe constrangimento público perante esses textos, demasiado íntimos para esta exposição, como se os tivesse editado por engano.
Acontece o mesmo noutros blogs.
Gosto de textos arrasadores. De me envolver, comover, apaixonar.
Gosto de tese e argumentos.

Há dias em que não sou uma diva.

terça-feira, janeiro 10, 2006

O futuro, a curto prazo

Hoje fui aos saldos.
Comprei uns collants de rede preta, daqueles que são muita rede e pouco collant e que não sei muito bem para que servem. Tenho uma vaga ideia.
Quatro euros e noventa e cinco cêntimos de rede inútil: baratíssimos!
Para os poder usar, quando for caso disso, vou, amanhã, à minha esteticista, marcar um tratamento à celulite que me vai custar uns bons 400 euros.

O futuro, a médio prazo

Ontem recebi correspondência da minha habitual agência de viagens.
Enviaram-me catálogos de todos os packs disponíveis para as férias de Verão, bem como formas de pagamento e promoções. É só telefonar e mandar o cheque.
Sei lá eu onde quero ir nas férias de Agosto, se quero ir a algum lado, se vai haver dinheiro... Parece-me que hoje se programa tudo com muita antecedência. Antigamente era "vamos"; "okay, vamos amanhã"; "está bem, então vamos depois-de-amanhã, e logo se vê quando voltamos".

Há bocado fui aos saldos. Comprei umas meias de rede preta baratíssimas.
Passei pela montra da Presselinha, e os meus olhos leram, sozinhos, o título de uma obra que aí se destacava. Quando a informação chegou ao cérebro, dei um passo atrás para confirmar a ilusão óptica. Não era. O livro intitulava-se mesmo O que fazer depois de morrer.

Quer parecer-me que existe, nos dias de hoje, planificação excessiva, e demasiado antecipada, dos tempos de lazer.

O futuro, a longo prazo

Dentro de 200 anos, mais hora, menos hora, os nossos corpos serão postos de comunicação móvel, multifunções, obviamente wireless.
Aquilo a que hoje chamamos telemóveis, computadores, plasmas, dvd´s, e outros sistemas de reprodução de imagem e som, estarão incorporados num objecto de tamanho celular, vagamente semelhante a um chip, injectado intramuscularmente, competente para regular todas as funções corporais e manter o seu equilíbrio. Tudo activado/desactivado por um código pessoal secreto, emitido pelas mesmas ondas cerebrais que enformam o pensamento.
Ainda não consegui encaixar aqui, muito bem, os sistemas de impressão. Não está excluída a hipótese de que venha a ser possível registar e reproduzir telepaticamente uma tese de doutoramento. (A ver!)
Ainda seremos humanos, mas já controlaremos os fervores emotivos. O amor denominar-se-á “compatibilidade”.
Chamam a isto, em jargão científico, “sindroma Júlio Verne” (SJV), e ataca-me de vez em quando.

A outra vida


Kate Bush fotografada pelo irmão, John Carder Bush

Ausente ou presente, ainda, para ti.
Lord Byron



Obrigada, Alma.

Fotograma de Julianne Moore e Jason Robards, em Magnólia, de Paul Thomas Anderson, 1999

O meu grande amor

Eu vi a morte nos seus olhos. Já se deixava perceber nas pupilas murchas. Ela sorria para nós, enquanto o comia por dentro.
Ele cuspia o arroz-doce que a Ana lhe dava à boca, com a colher. Grunhia. Batia.
Li-lhe a morte nos olhos. Ele disse-me, em silêncio, "vou-me embora, tu ficas, não nos vamos beijar mais, tocar, cantar juntos as canções do Nat King Cole".
Ele tinha a minha culpa nos seus olhos. Não, os meus olhos carregavam a culpa que transferia para os seus. Não sei. Havia culpa. A de ambos. A de tudo o que não pudemos ser um para o outro. A do tempo que nos afastou. A do que nos negámos por teimosia, por raiva das nossas duas vidas tão amantes, tão orgulhosas, tão cheias de certezas.
Se tivéssemos atirado ao ar as certezas e nos tivéssemos beijado e abraçado, e dito muitas vezes "eu gosto tanto de ti" e "vamos ao cinema", "vamos beber", "vamos cantar Nat King Cole?!"
Lembro-me dos seus olhos escuros. Estava sentado na cama, olhava-me de baixo para cima e dizia-me, em silêncio, "vou morrer". E eu ralhava-lhe, em silêncio, "não me olhes assim, como um carneiro mal morto" e pensava, "já és um carneiro mal morto, sim, morre, é melhor para ti, para mim, para todos. Morre".
E ele morreu. Disse, "isto hoje está mau", e morreu.
Foi melhor para todos, mas agora não está aqui e eu queria que estivesse, para sempre, aqui.
Estará, para sempre, aqui.


O tempo das mulheres

Vamos usar linguagem de leigo: segundo dados do Censo de 2001, a percentagem de população portuguesa do sexo feminino, ultrapassa a do sexo masculino. Nós somos mais.
Em idade activa, há mais mulheres, sobretudo em cursos superiores, terminando-os com maior índice de sucesso. Estudamos mais e melhor, trabalhamos que nos fartamos, e bem. A maior parte dos quadros técnicos superiores da administração pública são femininos. Isto são factos. Não temos grande jeito para os pistons, é verdade; o macaco para levantar o carro pode tornar-se, nas nossas mãos, uma arma perigosa, mas esta cabecinha funciona bem oleada, a 200 à hora, com a segurança máxima.
Eu, quando tenho que ir ao médico, ao dentista, ao advogado, ao polícia, ao juíz, ao professor, ao ministro, escolho sempe a médica, a dentista, a advogada, a polícia, a juíza, a professora. Sei que me vão tratar eficiente, profissonalmente, sem que no final da sessão me dêem o tradicional puxãozinho na bochecha, "minha rica, ligue sempre que precisar, e mesmo que não precise!"
Toda a gente sabe isto: somos boas! É provável que até sejamos melhores, mas como isto não vai a concurso, não caminhemos por terreno incorrectamente pantanoso. Fiquemo-nos, apenas, com esta nebulosa dúvida pairando sobre os" nossos" ancestrais medos mediterrânicos.
A jornalista Fátima Campos Ferreira convidou cinco homens para debater o estado da economia. Cinco homens. Como sempre. Homens. Três, cinco, sete. Neste exacto momento. Na RTP 1. Porque em Portugal não há mulheres economistas, porque em Portugal as mulheres não se interessam pela situação económica, política, cultural do País, porque em Portugal queremos deixar a política e os carros nas mãos dos homens.
Grande mentira; nas mãos dos homens só queremos deixar os carros, porque são realmente uma chatice, e eles gostam - mas juro que se me ensinarem a mudar o óleo e os farolins e a substituir as borrachas dos limpa- párabrisas, e os pneus, juro!, eu aprendo com gosto e faço.
Uma das últimas vezes que se me esvaziou um pneu, foi uma menina que parou para me ajudar. Para me ajudar, quer dizer, para fazer o trabalho todo. Falámos sobre o assunto e ela motivou-me: disse que "nós temos de lhes mostrar que não precisamos deles para nada". E eu acrescentei, "pois é, tem razão, os grandes cabrões, pensam que precisamos deles para alguma coisa, estão lixados!" E ambas rangemos os dentes de irmandande satisfeita.
Mas por que motivo Fátima Campos Ferreira convida Miguel Beleza e não Manuela Ferreira Leite?
Há muito tempo que as mulheres, excepto as do CDS-PP, que toda a gente sabe que não é um partido sério, nem sequer um partido, mostraram que sabem fazer política e que a fazem com maior honestidade. Gosto da Manuela Ferreira Leite, gosto da Leonor Beleza, da Ana Gomes. Porquê? Porque dizem verdadeiramente o que pensam, dizem-no independentemente da cor partidária a que se filiaram. Dizem-no à bruta, sem medo, sem paninhos quentes. E agrada-me esse confronto.

O futuro político está nas mãos dos/as kamikazes por conta própria, desses/as tais que não pagam os favores que devem, mordendo, de alguma forma, a mão ao "dono". Dos que têm vontade própria e se esqueceram de distinguir esquerda e direita. Porque já não existe essa dicotomia: há, sim, homens e mulheres formados num caldo de muitas ideias que é preciso ensaiar. Homens e mulheres menos cinzentos, mais informais, que sorriem, que dizem a verdade.


Ana Gomes


Pedro Mexia é talvez um dos mais recentes exemplos deste apartidarismo inconsciente e salutar. O Pedro começou por se declarar de direita, e é provável que o mantenha sempre. É-me indiferente. O Pedro tornou-se, sem querer, um opinion maker de esquerda. O Pedro pensa, frequentemente, à esquerda, e estou a vê-lo manter um diálogo interessantíssimo com o Miguel Portas ou a Joana Amaral. Porque gente inteligente, de mente aberta, não pertence à direita nem à esquerda, mas ao que é justo, necessário e urgente realizar para obter movimentos de mudança, de inovação, criação.

Sou muito optimista em relação ao futuro. Espero por essas mulheres, que aí estão, prontas para trabalhar e mudar, todas as que a Fátima Campos Ferreira não convidou para o debate; espero pela caixa de Pandora que têm guardada. E eu bendigo essa caixa não perdida, apenas oculta, por milénios, no peito, na garganta, nas mãos, no cérebro das mulheres, esperando que lhes fossem restituídos corpo, pensamento, voz. E foram. As mulheres restituíram-se ao que sempre lhes pertenceu, naturalmente.
E este é o tempo das mulheres - que querem os homens, para, juntos, mudarem simultaneamente, os pneus, e o mundo. E tudo o mais que houver que mudar.

Eu pertenço a essas mulheres.

Publicado também em O Eleito.

segunda-feira, janeiro 09, 2006

Porém...

Há 20 anos que homens de diferentes fisionomias, nacionalidades, ideologias, estilos de vida, me segredam ao ouvido uma mesma frase, "Ó doce Isabela, cabritinha da melhor criação, mas tu não percebes que eu não sou como os outros; que sou diferente de todos os homens?!".

Pela abertura de caixas de comentários!

Caros colegas Pacheco Pereira e Pedro Mexia,

solicito a vossa melhor atenção para o exposto:

um dos meus comentadores de culto, Luís-Sem-Acentos, pede-me que interfira junto de vós para que, graciosa e amavelmente, considerais abrir as vossas caixas de comentários.
Muito apreciador da blogosfera de cunho lisboeta, pretende este magnífico exemplar do povo barrosão comentar os vossos textos, sempre com palavras do vosso agrado, concordando sistematicamente com as vossas doutíssimas e espirituosas opiniões.
Pela minha parte, caros colegas, devo confessar a minha concordância com Luís-Sem-Acentos. Urge comentar os vossos animados blogs. Abri, pois, democraticamente, as vossas portas ao cidadão sem ordenado para sessões de psicanálise, e a quem a blogosfera serve perfeitamente para desabafar. Fazei como eu, que, levando nos cornos todos os dias, consigo, apesar do impacto, manter-me de pé.

Esperando ter servido, com justiça, os interesses do vulgar, contudo sedento, comentador blogosférico, subscrevo-me, caros colegas, manifestando o meu mais elevado apreço pelo serviço cultural que diariamente prestais à comunidade-blogger de Língua Portuguesa, e desejando, acima de tudo, ter conseguido mover a minha fortíssima influência, convertendo-vos à causa da "caixa de comentário aberta".

Os melhores cumprimentos,

sábado, janeiro 07, 2006

O amor

Dizem que termina. Que vive, e se extingue, lento, como uma lamparina de azeite, ou uma lanterna alimentada a pilha. Que se valoriza excessivamente. Que, passado o primeiro fervor, atrapalha.
Dizem que não existe. Que não vale os sacrifícios.

Digo que o imaterial não acaba. Que não se corrompe. Que não habita um corpo nem uma aldeia, porque os transcende, como um gás invisível, mas omnipresente.
Digo que, se não resiste, não passa de carne que se come ou apodrece. Nunca houve.
Dizem que o tenho em demasiada conta: riem-se para mim; talvez de mim; nomeiam-me tola, garantem-me que não vivo no mundo.
Se calhar, estou certa.

sexta-feira, janeiro 06, 2006

Luís, volta!

Não deixendes de comentar, que me fazendes falta.
Na ausência, exemplifico:

"Zabela, sedes maluca, mandai restaurar as sinapses dos dois neurónios que vos havei restado. Ide rápido tratar-vos, city-trambolho, que deveis ter um buço até aos joelhos. Eu não caso contigo, estais taralhoca de todo. Arranjai aí um velho que vos aturande as depressões devidas à falta de peso, salvo seja, que o teu problema é esse. Topai-vos, topai-vos a ver se caídes em vós!
E agora vou já para as guiness, onde há louras aos pontapés, todas caídas por mim, todas conversadeiras, só iésses! Não são só lérias e garganta, como tu, uma pseudo-intelectual rasca."

quinta-feira, janeiro 05, 2006

Movimento

Paz aos que foram. Aos que ficam. A quem chega.

Da iniciativa no ritual de cortejamento

Conheço pessoas verdadeiramente convencionais. Eu não sou muito.
Temendo a parcialidade da minha visão, ao avaliar o mundo no qual vivemos, procuro fundar-me mais no que observo, do que no que sinto. Mas o que sinto e observo produzem uma liga indestrinçável, pelo que desconfio da validade do meu discurso.
É possível, todavia, confiar nessa liga indestrinçável. Isso. Pelo menos.

O que conto vem a propósito do sentimento de rejeição que podemos sofrer ao abordar outro, sem sucesso; dos códigos de abordagem; do que nos foi ensinado sobre a quem cabia abordar e ser abordado

Aconteceu-me viver o final dos anos 70, princípio de 80, numa zona rural. Era adolescente.
Nos bailes da sede, ao sábado à noite, encostavam-se as cadeiras de pau às paredes livres da sala; a seguir, vinha o conjunto com as músicas da ordem, sobretudo os slows, que a gente gostava era dos slows: depois vinham as meninas solteiras com as mães, as irmãs, as tias; depois, chegavam os rapazes, sozinhos, cada um na sua mota, ou a pé. Os mais ricos tinham uns mini-Morris, e os muito ricos, Fiat 127.
As meninas, e respectivos paus-de-cabeleira, ocupavam as cadeiras; os rapazes iam para o bar, de onde se via a pista, beber minis e trincar amendoins, bem como, discutir entre si, quem dançava com quem.

Por fim, chegavam os casais novos, ainda bailantes.
As mães e tias, ou as feias, nunca se levantavam das cadeiras, a não ser para procurar donzelas desaparecidas, nos intervalos. As donzelas propícias ao desaparecimento, levantavam-se do assento por três motivos: casa-de-banho/xi-xi/risco nos olhos+rímel; aventura ao bar, área de homens, a pretexto de um carioca de limão ou de café, mas, sobretudo, para verificar se o rapaz do seu interesse tinha chegado; no momento em que era convidada para dançar.
Os rapazes nunca se sentavam nas cadeiras: encostavam-se onde podiam.
Que me lembre, existiam duas formas de uma rapariga ser convidada: a corajosa e a cobarde.
A corajosa implicava que o rapaz caminhasse até junto da menina e respectiva famelga, sujeitando-se a todos os olhares da sala, perguntando-lhe, enquanto dobrava ligeiramente a espinha, se queria dançar. A cobarde consistia num gesto feito de longe, com o indicador voltado para baixo, esboçando um gesto circular ou, para cima, desenhando uma breve linha que sugeria ligação entre convidador e convidada. Nestes casos, o rapaz expunha-se menos. Eram convites de resposta incerta, feitos a medo, para salvaguarda do gozo dos amigos, de todos; era um gesto sub-reptício, ligeiro, mas nós sabíamos. Fixávamos o magote de rapazes, aparentando olhar vago, mas alertas ao menor sinal. Nenhuma rapariga queria ficar sentada. Era, igualmente, uma rejeição que nos envergonhava: porque ninguém nos desejava.
Para qualquer dos convites, havia uma única forma de aceitar: assentir com um rápido baixar-levantar de cabeça, aprumar o corpo, disponibilizando a mão, o braço e a cintura. Negávamos, abanando-a, apenas.



Estava absolutamente fora de cogitação uma rapariga convidar um rapaz. Seria muito mal falada no domingo, o resto da semana. Fulana seria uma maluca. Uma doida. Nunca me lembro de tal ter acontecido.
Se tínhamos interesse por um rapaz, escondíamo-lo. Os códigos de cortejamento eram rígidos; se uma rapariga sorria a um rapaz, estava a dar-lhe confiança, logo, gostava dele, logo, o rapaz podia avançar com paleio. Com paleio e mais nada. Enfim, uns encostos, uns apertanços valentes, nos slows, a ponto de lhes sentirmos os pénis erectos sob a roupa; umas mãozinhas na cintura, por debaixo do casaco, disfarçadas; se havia escuridão na sala, um beijo meio roubado, por eles, mesmo que o desejássemos mais que à comida da semana.
Agora sorrio, se penso nisto, mas, na altura, era sério. Sofríamos.

Tive dois namorados de baile, e fui muito mal vista: o primeiro foi o Fanã do meio - alcunha da família; ele era o filho do meio. Os Fanã eram pobres, e todos gozavam comigo. O Fanã do meio era atarracado, mas muito bonito. Já tinha saído da escola, e trabalhava numa oficina de bicicletas.
Eu tinha casado com o Fanã.

Depois tive o Bisonho. Não me lembro do nome dele, mas era bisonho, um bocado feio, e trabalhava na fábrica de vidro. O Bisonho tinha uma Famel, e era alto e espadaúdo. Remediado, mas mais velho que o Fanã; já nos seus vinte; e avisaram-me muito para que não me desgraçasse.
Eu, tudo o que queria, era desgraçar-me. Eu e as outras. Mas, claro, isto não se confessava. Os malabarismos horários que realizei só para conseguir que o Bisonho me encontrasse no caminho, quando vinha da fábrica, e parasse, e me namorasse.
Eu tinha casado com o Bisonho.


Brigitte Bardot

Havia uma ordem ritual: o rapaz desejava e solicitava a rapariga. A rapariga era objecto de desejo e, em consequência, solicitada.
Admito que os rapazes experimentassem sentimentos de rejeição, que se sentissem humilhados, quando os negávamos. Imagino que nos dias seguintes, no café do centro, fossem mofados, “então convidaste a prima da Mané e não tiveste sorte, hein?!” Ou pior, muito pior.
Não havia razão. Nunca houve. Mas admito.

Já me senti rejeitada. Não foi agradável, mas não fiquei traumatizada para o resto da vida social.

Não gostamos de ser rejeitados, contudo avança-se. Quem é que não foi preterido em público, por um ou outro motivo? O que pensámos? Querem, querem; não querem...
Embora tenha, voluntariamente, quebrado a ordem ritual, já mais velha, na cidade, onde o anonimato nos liberta, havia alguma beleza naquilo: ser eu o objecto de desejo. Querer mas não facilitar. Esperar. Manobrar. Foi sempre melhor quando o ritual se cumpriu; quando houve tempo para ser seduzida, iludida...
Não me custa manifestar interesse por alguém, tomar a iniciativa, explicar-me, ser eu a cortejar. Não sinto vergonha. E a rejeição não afecta a minha auto-estima por longo tempo. Mas é tão bom quando o outro cumpre o ritual. Quando o outro anda de roda de mim, me cerca e eu quero ser cercada. Posso caçar, mas gosto tanto de me passar por caçada.
Mas nada disto tem que ser à noite, num bar. Não me refiro a engates, porque não domino o assunto. Não me interesso por alguém apenas porque é deslumbrante.
Interesso-me devagar. Descubro que estou interessada. Depois... posso não consigo esperar muito.

quarta-feira, janeiro 04, 2006

Da "desconfiança primordial ao contacto"

Os portugueses são um povo muito estranho. Não os compreendo. Penso, frequentemente, que não lhes pertenço.
Os portugueses são calorosos? O país é caloroso: a geografia, o clima, não a população. Enfim, um ou outro, mas não de forma generalizada. Claro que os homens das obras, das descargas, do talho são sempre muito calorosos com as fêmeas que passam, mas esse é um outro tipo de aquecimento!
Os portugueses são empertigados, não dialogam; não há nenhum que não se sinta superior ao outro, que não o olhe de viés, que não esteja pronto a cortar-lhe na casaca.
Deitar abaixo é o nosso desporto nacional. O Miguel Esteves Cardoso, a Clara Ferreira Alves, a Inês Pedrosa, a Maria Filomena Mónica, qualquer cronista dedicado à existência lusitana, abordou já o assunto, com argumentos imbatíveis
Não gostamos de nos entreajudar; desconfiamos como ponto de partida; não nos entregamos, porque tememos o julgamento do outro, porque não confiamos em garantias de confidencialidade. Sabemos que uma confidência será pública, mais tarde ou mais cedo. Não acreditamos em ninguém.
Li, algures, que, os ingleses, o que mais temem na vida é sentirem-se embaraçados por uma situação; parecer ridículos. Não será por acaso que mantemos com eles uma aliança de séculos: nós também!



A minha prima afastada, que, para todos os efeitos, é aquilo a que em inglês, se chama, a pain in the ass, tem uma função neste mundo: não me deixar respirar nem soltar a franga... Manda-me “olhos”, diz que não me conhece, vai-se embora, solicita-me compostura. Isto, se me lembrar de falar alto; dar uma gargalhada no café; se pedir um favor a um desconhecido; se meter conversa com quem passa, com alguém sobre quem sinta curiosidade; se der um passo de dança na Fnac, enquanto ouço um disco; se abrir os braços virada para o Tejo e gritar “acaba não, mundão”.
Ai, que vergonha, se alguém está a olhar. Se alguém me vê. Vão pensar que eu sou maluca, mas mais grave, que ela acompanha uma maluca.
Em Portugal, perguntar à senhora sentada na mesa ao lado qual a marca do fabuloso perfume que usa, é uma vergonha. Claro que pergunto!; as senhoras, hesitantes, mas apanhadas, lá dizem. Algumas ficam a olhar-me curiosamente enquanto me afasto descontraidamente, após agradecer a informação. Outras, normalmente as mais velhas, e essas são as minhas preferidas, aproveitam para me contar a história toda das suas vida, começando por quem lhes deu o perfume e porquê.
Eu gosto tanto de falar com os outros, como de os ouvir. É um prazer meu.
Sinceramente, estou-me refodendo para o que pensam de mim; se me acham maluca: quero lá saber. Eu, que me sinto tão portuguesa, que sou, de facto, tão portuguesa, não compreendo o medo do outro. A fobia social do outro. E, na necessidade de o enfrentar, a fobia social do que o outro pensará de nós.
Quando vamos de visita à terra, a minha mãe sugere-me a roupa que devo levar: nada de calças de ganga, nada de descontracções. Roupa formal, roupa decente. Para que a família não me julgue uma qualquer, uma que não sou. Eu não sei bem se não sou uma qualquer. Tenho dúvidas. E não obedeço.
Pergunto-lhe se a opinião que formarão de mim assenta na roupa que visto ou no que manifesto ser. Ela responde-me que eu fazia melhor em nunca abrir a boca. Quem não fala não se afunda. Eu afundo-me. Digo o que penso, o que sinto, afundo-me.
Sou o desgosto da minha mãe, da minha prima afastada - porque não possuo "desconfiança primordial ao contacto".
Sou uma alienígena!


terça-feira, janeiro 03, 2006

Cobre o mundo com um manto de nuvens


Deus tem número de telefone

O meu telemóvel vinha equipado com alguns contactos da própria rede, que agora coexistem, na minha lista pessoal, entre Anas, Bertas e Carlos. Um deles está no Q: quem sou eu?
Vou aos contactos, faço procurar, e passo inúmeras vezes pelo quem sou eu?
Incomoda-me, porque tento responder, invariavelmente, e não consigo. Mas se ligar para um número de cinco algarismos que lá aparece, talvez me dêem a resposta. E sinto-me tentada.

Houve um tempo sem cobardia

Explicaram-me que existe, agora, nos telemóveis, um determinado sistema, o qual permite mandarmo-nos mensagens, com o nosso perfil, aquele que escolhermos ter, à borla, desde que partilhemos uma mesma zona.
Perguntei qual era a utilidade, e responderam-me que era muito usado, nos bares, para os engates. E eu imagino-me no café a receber a seguinte mensagem, "Olá, miúda; sou o Tiago Nuno, 30 anos, 1, 85m, moreno, 107 quilos, engenheiro de minas, Mercedes xpto turbo-diesel, visto-me Gant e Helvetica, Sporting Club de Portugal, os meus livros preferidos são os mais fininhos do Paulo Coelho, curto Da Wiesel, todo-o-terreno, e o amor. Não sou transmissor de doenças venéreas, pelo menos ninguém se queixou".
E pergunto, ainda, então e o velho chat? "Donde teclas?"
E quando íamos ter uns com os outro, fosse onde fosse, e atirávamos, apenas , "Pá, eu conheço-te da faculdade, não conheço?!", mesmo quando não nos conhecíamos de lado nenhum.
E quando nos pediam lume na rua?
E quando, nos bailes, nos perguntavam as horas?
Saber levar uma tampa tinha a sua dignidade. Havia uma disciplina, na tampa. Uma ordem. Uma tampa era só uma tampa naquele momento. Mas respeitava-se; voltava-se à carga no próximo baile, se entretanto não se tivesse tido sorte por outro lado.
Agora, não se arrisca sem rede. Essa é a praga deste tempo: a rede protectora por debaixo do trapézio.
Eu, que sempre fiz piruetas no ar, saltos mortais; eu que dancei no trapézio e me segurei a ele pelo dedo mínino; que hei-de trabalhar no circo sem rede, para sempre, acho estes tempos tão cobardes!

segunda-feira, janeiro 02, 2006

Ano perfeito

Os três desejos para o ano novo, de Maria Madalena, 7 anos:
- uma galinha.
- não ir à escola nunca mais.
- que a tia da Carneira tire o dente podre.
Os meus são os mesmos.

Doenças

O meu home anda fodido. Desenculatradinho de todo. Fuma que nem um invertebrado. Bebe-lhe que só visto. E foi fazer uma ressonância magnífica e acusou-lhe uma hérnia fiscal, o cabrão. Que o médico ao fim ao cabo se formos a ver as coisas como elas são também é um filho da puta que se refoda que lhe levou dezasseis contos e nem o papel da ode se é lhe passou que não tinha direito caralhos o montem.

domingo, janeiro 01, 2006

Bond

Oh, o prazer de lhe responder a verdade, embora com ar displicente, quando ela, voluptuosa, boa, me perguntou o nome:

«- Sete. Zero zero sete.»

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...