terça-feira, fevereiro 28, 2006

A reprodução medicamente assistida é um método limpinho e muito aconselhável

Carlos Saleiro é jogador de futebol num clube qualquer e foi o primeiro bebé-proveta em Portugal. A notícia destruiu-me. Os motivos são prosaicos: lembro-me perfeitamente das notícias sobre o nascimento do rapaz.
Vêm agora lembrar-me que o recém-nascido fez 20 anos, publicando fotos de primeira página de um morenão muitíssimo bem acabado, cobiçavel mesmo, que podia ser meu filho?!

Foda-se!

Experiência

Um dia destes a Junta de Freguesia manda pôr lá uma lápide evocativa da tua passagem, de cinco anos, por Massamá.

Tás doido. Aquilo era um cóio de vagabundos. Eu morava lá sozinho mas entrava e saía gente todos os dias, malucos, bêbados marginais. Só lá não foi parar o Beringela e o Mana Gorda, o resto caiu lá tudo: a Elsa, a Odete Calmeirona, a Miss Cacilhas, o Cabeça de Vaca, o Garcia Pereira, o Nhonhó, o Chico Bres, que um dia me pediu para lá dormir uma noite e ficou oito meses, o Sampaio, um rapaz que tinha um restaurante no Parque Mayer e foi preso por vender cocaína (não era cocaína, era farinha), sei lá mais quem. Aquela experiência não se repete.

Luiz Pacheco em entrevista a Rodrigues da Silva, "Um diário inteiramente livre", JL, nº 911, 31.08.05/13.09.05

O indispensável

Ainda lês?

Não. Cada dia vejo pior. Pedi-te para me trazeres uns JL mas só leio os títulos. E também ouço mal. Há dias, a miúda da cozinha bateu-me à porta a dizer que o almoço era arroz de pombo. Pensei: "De pombo! Devem ter morto os pombos todos do jardim". Afinal não era arroz de pombo, mas arroz de polvo, porra. Devo ter ouvido mal, mas só percebi quando meti o garfo à boca. É que também já não vejo o que está no prato. Um gajo vai perdendo isto, depois aquilo... Foder não é indispensável. Deixar de ver e ouvir é que é pior, mas cá me aguento. O instinto de sobrevivência é muito forte.

Luiz Pacheco em entrevista a Rodrigues da Silva, "Um diário inteiramente livre", JL, nº 911, 31.08.05/13.09.05

olhava



havias de ver ruir as novas casas, erguidas sobre as velhas, e oferecerias a outra face e calarias o que ainda fosses capaz de dizer

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

Têm lá um lindo sistema!

O Governo japonês admite que a taxa de natalidade atingiu níveis baixíssimos e muito perigosos para a economia, pelo que aconselha os patrões a estimular os empregados a não ficarem a dormir no emprego, mas a irem para casa deitar-se com as respectivas, saindo mais cedo às terças, ou seja, logo às 20 horas, por ser dia do casal e poderem, assim, gozá-lo com a esposa.
E também aconselham os homens a olhar para as esposas nos olhos enquanto falam com as ditas, e a chamá-las pelo seus verdadeiros nomes próprios quando precisam que lhes tragam algo, evitando emitir grunhidos ininteligíveis, como habitualmente
Parece que as japonesas andam pelos cabelos, e escolhem, cada vez mais, viver sozinhas, não gerando filhos, até porque trabalham igualmente que nem umas escravas, e não têm disponibilidade mental para a filharada, nem quem as ajude nisso.
Isto tudo para aumentar a taxa da natalidade, evitando a extinção da raça.
Não sei se os espermatozóides japoneses vão aguentar tanta pressão familiar. Se calhar, suicidam-se.

Má sorte terem sido... princesas!



A princesa Kiko do Japão está grávida pela terceira vez.
Kiko é mulher do príncipe Akishino, o qual, por sua vez, é irmão do príncipe Naruhito, herdeiro ao trono.
O príncipe herdeiro, Naruhito, tem uma filha.
O príncipe em segundo lugar na linha de sucessão, Akishino, marido da Princesa Kiko, teve com esta duas filhas.
Outra personagem: o primeiro-ministro japonês, Koizumi, estava a pensar apresentar ao parlamento um projecto-Lei que permitiria a ascensão ao trono de mulheres; a filha do herdeiro, naturalmente. Parece que tal não é possível no Japão: uma mulher ser imperadora.
Mas, agora, que a princesa Kiko está grávida pela terceira vez, renasceu a esperança: talvez venha um rapaz, e, a ser assim, já não há necessidade de mudar nos próximos 100 anos.
Portanto, Koizumi desistiu do projecto-Lei.
Portanto, muitos chás de caridade para as princesas!



Dê-se prioridade aos caldos!

Vladimir Nabokov considerava-se "um escritor americano, nascido na Rússia, formado na Inglaterra, onde estudei literatura francesa antes de passar quinze anos na Alemanha."

Beginning of "My life is a novel"



Taking a coffee after leaving cinema, where we went to watch
Walk in Line, movie about the life of the musician Jonnhy Cash, my cousin Joana Rita, the one with the PhD in Philosophics, criticized me because of my actual lifestyle.
"Nowadays", she said, " you also seem to be living your life like a rock star, like Jonnhy Cash, for instance. You don't sleep properly, you wake up too late, you dont take your meals at the right time of the day and further more... "

I could't understand why she intended to say such words to me, because she's always on my side, and, then, I decided to comment, ironically, "Genious, Joana Rita, have no consideration for your notions on time, space, neither on proper, improper..."
Joana Rita smiled at me, while answered, "All of you, genious, come to me, so, you, genious, are my karma and I´m so tired of you all".
Still being ironical, I added, "Joana Rita, your genious, the ones that come to you, are your richer burden of humanity."


domingo, fevereiro 26, 2006

Mais "5" manias

O Bairro do Amor pediu-me mais cinco manias, e dá-me jeito: posso continuar a falar de mim até ao esgotamento.

Manias, hábitos, características ou lá o que é:

- gosto de escrever com lápis de carvão muito macios, negros, e, quando gastos, não consigo deitá-los fora, pelo que tenho uma colecção de "cotos" de lápis.
- detesto partilhar a casa mais de dois dias seguidos, mesmo quando são as minhas amigas (excepto uma), porque começo a sentir falta do meu espaço privado.
- apaixono-me perdidamente e tenho sérios problemas para me desapaixonar, portanto, mais vale não nada.
- sou ciumenta e possessiva e desconfiada e chata, portanto, não nada.
- beber café sempre com leite (porque não gosto de café, mas bebo-o para acordar, trabalhar, enfim, "para a veia").
- detesto Carnaval, mas adoro ver homens travestidos (e eles também adoram ver-se e sentir-se e tudo - a maior prova de que as mulheres têm graça e os homens são enfadonhos, é que não tem piada nenhum imitar um homem: é uma caricatura sem traços distintivos, sem reiqueza expressiva, sem variedade; já uma mulher, é um mundo...).

Não vou passar isto a mais ninguém, posso é responder mais cinco vezes...

Hábitos da bourgeoisie colonial

Tenho apenas três tipos de bebida alcoólica em casa; vinho, tinto e branco, de diversos zonas e anos (não percebo muito de vinhos, mas, ao provar, sei distinguir o bom do meramente razoável), whisky e aquavit (uma espécie de vodka sueca que a minha amiga me traz sempre).
A vodka sueca não me causa grande entusiamo. Gosto de vinho à refeição; gosto de whisky para conversar, à noite.
Mas um bom whisky não é apenas uma bebida, porque um bom whisky, mesmo sem soda, cheira ao copo do meu pai. Saboreio-o com muito respeito, deslumbramento e medo. Aquilo que fomos, que respirámos, que vivemos aos sete anos, não nos larga mesmo quando já nos largou.
Todos os meus whiskies são viagens no tempo. E isso, eu sei, pode ser perigoso.




sábado, fevereiro 25, 2006

Parábola

A minha prima afastada, a da filosofia pura, é moça impetuosa. Valem-lhe os meus sábios conselhos. Ontem expliquei-lhe, através de parábolas muito do meu agrado, que se perceber que é demasiada areia para a camioneta de um homem, o que lhe acontece com uma frequência inaudita, deve descarregar logo. Isto, porque se deixar iniciar-se o percurso, a camioneta vai-se abaixo de certeza, a areia demora imenso a chegar ao destino, e é uma trabalheira... Mais vale deixar a areia em repouso no areal.

Algo gigantesco falha todos os dias


Algo falhou, escrevia Ana Vicente, no DN de ontem, a propósito do crime praticado pelos adolescentes da Oficina de São José.
Algo.
Assim vago.
Algo que não lhe diz respeito. Algo, apenas.

Tudo falha, todos os dias, em grande escala.

E a vítima, um homossexual travesti toxicodependente sem-abrigo brasileiro? Não falhou nada? Um homossexual de 45 anos está a viver na rua, onde se droga, dorme e recebe clientes, e aqui não falhou...
algo? Tornou-se um alvo fácil por ser homossexual, travesti, toxicodependente, sem-abrigo ou brasileiro? Ou tudo? E era toxicodependente e sem abrigo, por que motivo? Por ser toxicodependente e brasileiro? Ou travesti?
Algo gigantesco falha todos os dias. Para todos. Por culpa de todos.


Dor




Fotos de Henk Braam














A cores, fotogramas de Magnolia, de P.T. Anderson

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Os meninos que matam

Os meninos nascem puros.
Alguns crescem muito depressa, e são já mais velhos do que o mundo, no momento em que matam. Mesmo esses meninos nascem puros.
Os meninos que nasceram puros, os de ontem, aprenderam o culto ao mal, e à morte; é a ideologia que conhecem, livremente difundida pela música, pelos jogos, pelos cinema que consomem, os livros que lêem, enfim, pela cultura que lhes chega: querem matar velhinhas, em vez de as ajudar a atravessar a rua. Querem matar e violar todos os que não forem como eles. E todos os que eles deveriam ser. Os meninos que nasceram puros e matam, querem matar-se, mas ainda não sabem.




Houve um tempo em que foi possível chegar aos meninos e ser deles, e eles nossos. Éramos puros. Todos.
Hoje, os meninos puros sujaram-se. Sujaram-se pelo desamor, que nasceu do desamor, que nasceu do desamor. E o que é isso, o amor? Serve para quê, isso, esse empecilho, o amor! Os meninos que nasceram puros deixaram de acreditar. Nunca viram o amor. Esse empecilho. Os meninos que nasceram puros sujaram-se ao ficar cegos para os outros.





"O que fazes se encontrares uma carteira na rua com dinheiro?" "Tiro o dinheiro e deixo-a lá ficar." "E não entregas à polícia?" "Até posso entregar, mas sem o dinheiro." "Mas não achas que devias entregar a carteira com o dinheiro?" "Não, se não tirar eu o dinheiro, tiram os polícias."

Os meninos que nasceram puros atiram pedras aos negros, aos ciganos. Os meninos que nasceram puros vão ao cu às colegas adolescentes, porque no cu é que é cool. É que é. Os meninos que nasceram puros esmagam a cara do colega bichona, porque é bichona, e formam gangs para roubar tudo o que possa ser vendido no mercado paralelo.

Em Madrid, há um mês atrás, adolescentes imolaram pelo fogo uma sem-abrigo que se protegia do frio na entrada de um banco, onde se encontravam as caixas atm. Esses meninos também nasceram puros.





São puros estes meninos, no fundo, e talvez ainda pudessem recuperar-se, na escola, as carências profundas de uma inexistente educação familiar; mas, paradoxalmente, não nas escolas como elas estão, não em turmas de 30 alunos, com aulas de 90 minutos, não nos moldes em que a escola hoje existe. Porque estes meninos, que normalmente se encontram sinalizados, deviam poder ter professores em regime individual. Professores tutores responsáveis por aulas em formato diferente, grupos de 2 ou 3 e não mais. Uma atenção constante agindo sobre as alterações dos comportamentos. Mas o mesmo Estado que custeia a prisão e as casas de correcção onde vão parar, não custeia vagas para professores-tutores. Não são necessários. Estão melhor no desemprego.





Por isso é que os meninos, que nascem puros, podem tão livre, tão fácil e impunemente criar, com as suas mãos, o horror, a vileza, a degradação máxima. A mesma a que estão condenados enquanto o sistema educativo se fundar numa politica economicista.
A escola de hoje chama-se demagogia. Hiipocrisia.

Os meninos puros que se envileceram, são produto da hipocrisia política que os envileceu, criando assim os seus legítimos cancros, os seus clientes para castigo exemplar.

Fotos de Anne Geddes

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Muito bom feitio

E aviso já: não me moam a cabeça, que jurei não tomar Prozac nos próximos seis meses, e quero cumprir, até porque aquilo já não faz efeito nenhum, é igual ao litro; e larguem-me da mão, e descarreguem nos vossos outros bloguezinhos de estimação!

Só Kahlo, não Ferida

Estou a ficar cansada de Frida Kahlo. Mas isto sou eu, porque consumi demasiado. De resto, aconselho vivamente a exposição que saltou de Santiago de Compostela para o Centro Cultural de Belém.
Frida nasceu ferida. A arte de Frida é aquilo que a autora foi no momento em que nasceu: herida. A sua arte existiu antes dela. Quero afirmá-lo porque já não suporto que se escreva que o que criou deriva directa, exclusivamente da sua experiência de vida. Claro que não estamos cá para ver passar carroças, e mesmo essas deixam rasto, mas arte é arte. É indissociável da vida, mas vive ao seu lado, não obrigatoriamente dentro. O pior que podem fazer a um autor é confundir-lhe obra e biografia. Fernando Pessoa padece disso. Florbela Espanca, muito pior. Frida, o mesmo. Porque, quando o autor é uma mulher, diz-se, "ela fez aquilo porque sofria muito", e não "ela fez aquilo porque era muito talentosa". Frida não foi a melhor pintora do mundo, mas criou uma estética da dor verdadeiramente original; um novo cristo colorido, uma mulher florida e partida; podia ser um homem florido e partido - por acaso foi uma mulher.
O que mais detesto, sobre Frida, ou outra autora qualquer, é essa confusão entre biografia e vida: casou não sei quantas vezes, mas o marido era infiel; foi lésbica ou bissexual, porque mulheres que se destacam têm de apresentar um problema qualquer associado à máquineta da feminilidade, e o lesbianismo ainda serve (feminilidade e autoria continuam assunto razoavelmente incompatível); e queria ter filhos, mas abortava. Este padrão é igual para todas. Com Florbela, com Frida. Com Claudel. Venham elas, que a gente devassa-lhes já a vida privada e rotula-as num instante: malucas, desajustadas. Não é arte, é desajuste. É só loucura. Uma mulher torna-se artista na medida em que a sua vida foi/ficou destruída.
Os homens são génios; as mulheres, lésbicas ou loucas.

Da natureza dos blogs II

1. Leio poucos blogs.
2. Se gosto de um blog, não o largo.
3. Um bom blog, se não mudar de mãos, é bom sempre, mesmo nos maus dias do/a blogger.
4. Os blogs chatos e os blogs intelectuais (juntos ou em separado) são uma praga insuportável.
5. Este é um dos meus blogs de eleição. O Armando consegue um milagre que não está ao meu alcance: a diplomacia. Consegue ouvir e mostrar, mantendo distância sem se afastar. É arguto. Tem uma opinião, mas controla os ímpetos opinativos. Eu, a ser perfeita, havia de ser assim.

Levar demasiado a sério o trabalho

Não sei quanto é que os serviços secretos lhe pagam, sobretudo passando o homem a vida a agir por contar própria, desautorizado e perseguido pelos chefes, mas espero que lhe paguem à mesma, e muito bem, porque Jack Bauer leva o trabalho demasiado a sério.
24 horas por dia, sem dormir, comer, beber, arriscando os miolos... pensei que só o conseguissem os médicos e enfermeiros do nosso serviço nacional de saúde; os professores em serviço extra-aula permanente... mas, afinal, há outros heróis.

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

Isabel

Sonhei que fazíamos, a pé, o caminho da escola, o das laranjeiras, das oliveiras, em direcção ao meu sotão. Que era Primavera. Eu sabia-a doente, e ela sabia que eu sabia.
Ríamos depreocupadamente, porque a vida é leve, as pessoas é que complicam muito. Costumávamos dizer.


A minha ex-colega Isabel morreu, ontem, vítima de cancro geralizado, o qual lhe foi inicialmente detectado nos gânglios, removidos há 10 anos atrás.
Isabel era da minha idade, nunca fumou, e sei que bebeu e comeu menos que eu. Dizia que eu a levava melhor. Levei-a à minha maneira. Não sei se foi melhor.
A Isabel tinha uma vidinha regrada: trabalho das nove às cinco; o marido putanheiro, o normal; um puto insuportavelmente malcriado, o normal. Sabia alemão.
Fazia quimioterapia pesada, desde que a conheci. Ficava em casa nos dias seguintes, sem força. A certa altura, as veias não aguentavam mais picadas e puseram-lhe um cateter.
Usou uma peruca igualzinha ao seu cabelo. O mesmo tom louro claro, o mesmo corte. Passou a andar muito penteadinha sempre. A Isabel sorria sempre, e era uma pessoa muito doce e, provavelmente, uma das melhores pessoas que conheci.

Gostava muito, muito da Isabel.
Devia ter ido hospital, na segunda-feira, mas não tive tempo, porque precisei de preparar uma merda que não interessa a ninguém.

Não me despedi de ti, minha querida.

Reflexões sobre a proximidade física post mortem

O senhor bispo auxiliar de Lisboa, Carlos Azevedo, afirmou, no Domingo, em entrevista ao programa Diga lá Excelência, da Rádio Renascença, que, no que respeita ao facto de a irmãzinha Lúcia ficar sepultada juntos dos priminhos, antes da sua canonização, o acto justifica-se por se tratar de "permitir a proximidade física a quem esteve unido numa experiência espiritual profunda".
Isto deixou-me muito preocupada, porque não sei quem foram, em vida, aqueles ao lado de quem o meu paizinho está enterrado. Que saiba, não viveram, em conjunto, qualquer experiência espiritual profunda, a não ser a do sopro de vida individual, independente, mas simultâneo. A verdade é que as campas ao lado da do meu pai nunca têm flores. Nem nos Finados, nem no Natal, nem na Páscoa. Nunca. Os homens terão sido rejeitados pela família? Foram criminosos? Um tem um nome estrangeiro, do qual muito desconfio. Porque se isto da proximidade física na cova é importante, então temos de fazer muitos levantamentos ali ao cemitério do Feijó, já que a minha querida prima D., e o marido, B, que viveram casados 60 anos, estão enterrados em extremidades opostas do referido cemitério. E, então, está tudo mal, porque esses viveram mesmo, uma experiência espiritual profunda.
Bem, mas, se calhar, como uns anos antes de morrer se tornaram Testemunhas de Jeová, talvez não tenha tanta importância!

Ministras

A ministra das pescas norueguesa veio cá por causa do bacalhau. A ministra das pescas. Não era a ministra da educação, nem da saúde, nem da cultura, nem a dos assuntos sociais ou da família, mas a das pescas.
Gostava muito de ter uma ministra nas pescas, e outra na agricultura, e assim. Gostava muito de ter uma ministra na defesa.

Bacalhauzinho

Os bancos de bacalhau norueguês diminuiram gravemente. A pesca descontrolada da espécie é responsável pelo crescente processo da sua extinção.
Parece que temos mesmo de comer menos bacalhau. Parece que temos mesmo de nos virar para o Pacífico. Mas, sobretudo, parece que temos de comer menos bacalhau. Se se tornou o nosso prato típico, pior; parece que o nosso prato típico tem de começar a ser confeccionado com seitan, soja, ou só com as batatas, a couve e o azeite.
Não me parece mal.

Miró

Inexplicável equívoco: o de entender a pintura de Miró como um processo de desprendimentos sucessivos daquilo que chega até nós pelo lado da cultura, num caminho em que o objectivo último seria pintar como uma criança, com a pureza e a ingenuidade duma criança.

Nada mais enganador numa Arte em que tudo é inteligência transfiguradora feita de símbolos elementais, explosão e reverberação. Mesmo quando uma figura rudimentar, estranhamente colorida, ou o azul das telas, por exemplo, apelam em nós à serenidade ou à despreocupação da infância, compreendemos de súbito que essa espécie de lago de águas paradas não aguarda senão a deflagração imprevista dos meteoros das nascentes.

Miró, Azul I, 1961


Miró, Azul II, 1961


Miró, Azul III, 1961


Prendas

tinhas-me dado duas pedras que colheste no deserto uma no saara negra nunca pisada queimada a outra na fronteira com a líbia só duas pedras tinhas-me dado um seixo redondo muito polido apanhado na praia dos cães e uma concha grande e depois pagaste metade do meu jantar.

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Dripping

Na pintura de Jackson Pollock predominam os gestos automáticos e a aceitação dos elementos do acaso enquanto processo de chegada à verdade intrínseca das coisas: pinceladas aleatórias, salpicos de tinta espalhados pela tela, a irracionalidade, o gesto inconsciente.

Os fotógrafos de domingo e os pintores realistas ou naturalistas dão-nos o mundo tal como o vemos; a pintura de Pollock dá-nos o mundo tal como é.

Malevich: Black-square

A intervenção de Malevich resumiu-se a espalhar tinta preta sobre uma tela como quem apaga definitivamente o passado. O que o quadro nos dizia não era senão isto: esqueçamos tudo o que está para trás: é possível recomeçar tudo de novo a partir do que cada um de nós tem de melhor.

Olho este quadro e emociono-me sempre: por um lado – pelo que nos diz, nos confronta e desafia; por outro lado – pela nossa recusa em ouvir e ousar.

Medo

Os déspotas e os poderosos pusilânimes (presumindo que a expressão não incorre na desatenção do duplo pleonasmo) impediram ao longo do tempo as exposições de arte abstracta, o direito de reunião e manifestação e a livre expressão das ideias. E impediram também o sexo – isolando fisicamente, homologando protocolos, perseguindo, legislando em preâmbulos, secções, artigos e alíneas sempre que o seu critério arbitrário assim lhes ditasse. Mas não conseguiram nunca impedir que uma pessoa, sendo-o e exigindo-se sê-lo, pudesse deixar de continuar a sentir (e, mais, desejar sentir) o desejo. Por isso o desejo é o calcanhar de Aquiles do poder arbitrário. E, maxime, a masturbação – esse reduto maior da liberdade individual.

Já se vê que o discurso contra a punheta não é senão, as mais das vezes, um resquício dessa nossa incapacidade, ou desse nosso medo, de sermos livres.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006


Malevich, Black-square

Malevich, Blanc sur fond blanc, 1918

Maya Kulenovic, Man´s Back, 2004

Jackson Pollock, Number 32, 1950

A minha conta

Durante muitos anos revi as tuas fotos de menino, uma a uma. A noite inteira revi as tuas fotos. Aquelas em que estavas ao meu lado, e sorríamos. Éramos crescidos. A noite inteira. Ninguém podia proibir-me as tuas fotos. Que corresse o risco de te esquecer. Não podia. Isso não era da conta de ninguém. Nem da tua, sequer. Era só minha.

domingo, fevereiro 19, 2006

O caldo

O casamento é, na sua essência, um contrato. Que se justificava por razões de organização social, juntando duas pessoas de sexo diferente. Os filhos nasciam, por mor do espermatozóide e do óvulo ou lá o que é, as tarefas dividiam-se, e enquanto um dos parceiros cavava o cebolo ou disparava ao urso castanho, o outro, concomitantemente, dava da teta aos lactentes ansiosos. Hoje, depois do ordenado médio garantido, do direito ao subsídio de férias e da possibilidade de acesso generalizado aos electrodomésticos e ao leite em pó da Nestlé para além da couve e do chouriço, o casamento faz, digamos assim, menos sentido. A garantia do caldo e do visa para pagamento da renda de casa ou da prestação do Audi, e o luxo, nos restaurantes, de deixarmos a espórtula – depende actualmente muito pouco desse contrato que chegou a revelar-se de extrema importância nas estratégias de sobrevivência. Ora – é daí exactamente que reverte o lugar central do desejo numa sociedade que se desprendeu das amarras do contrato social enquanto condição necessária à disponibilidade de bife, de fibras e tecto. O amor, o desejo e o casamento saíram, autonomizando-se, desse saco de serapilheira onde por necessidades básicas e de regular funcionamento das instituições foram enfiados, sem critério, a esmo.

Para que se possa dissertar sobre a punheta é necessário começar assim, com um bocadinho de lastro teórico, a arrumar os conceitos e a espanejar as teias – as velhas e as novas. Que isto da pívia, oh oh, tem que se lhe diga.

Manifesto feminista português - ponto 1

Que todas as Marias voltem a chamar-se Eva.

Boa pergunta

Numa rapidinha, antes de sair:
há bocado, estava na cozinha preparando o meu arroz de marisco, e eis que escuto a seguinte pergunta, feita pela repórter da TVI, a uma menina que assistia ao trigésimo-quinto funeral da irmã Lúcia:
- O que é que estás a fazer aqui?

sábado, fevereiro 18, 2006

"Não há rapazes maus"

As mulheres não são vítimas dos homens.
Os homens são as vítimas uns dos outros, e de um processo de aculturação no qual as mulheres têm participado como agente activo. Mantendo essa cultura. Defendendo-a contra todas as tentativas de mudança.
Como disse, ontem, citando outro autor, a Professora Teresa Joaquim, na Livraria Bucholz, no lançamento do 2º caderno de Filosofia das Ciências, Ciência e Género - Quatro Textos de Quatro Mulheres (Londa Schiebinger, Evelyn Fox Keller, Donna Haraway e Hilary Rose), há mulheres que são escravas, há mulheres que têm escravos.
A educação dos rapazes, no mundo em que vivi, e hoje, ainda, em determinados espaços culturais, geográficos ou marcados por questões de classe, era de uma violência muito superior à das raparigas. Os rapazes eram educados para viver sem emoções, sem lágrimas. Os rapazes eram educados para ver a mulher como o outro que eles não poderiam imitar sem descer vários degraus numa escala de importância, de poder. A educação dos rapazes era cruel. "Se choras és uma menina. Um homem não chora. Só as mulheres choram; tu não és uma mulher, nem queres ser, porque os homens são fortes."
Resultado: eu, que sou mulher, sei chorar, eu posso chorar - e nisso me curo. Posso lamentar-me. E nisso me curo.
O meu melhor amigo é vítima e carrasco, para si: não sabe chorar. Não sabe. E se souber, se isso acontecer num segundo incontrolável, fa-lo-á em segredo, como se praticasse um vício secreto. Eu choro na rua. Eu choro. Eu pude brincar com bonecas e com carrinhos. O meu amigo não pôde brincar com bonecas. Porquê? O que há de errado, nas bonecas, para um rapaz? Eu posso usar calças e saias, sapatos altos ou baixos, maquilhar-me ou não me maquilhar... O meu amigo, não. Se não quer ser ridicularizado, usará calças, sapato de homem e nenhuma maquilhagem. Enfim, colocará um cremezito hidratante, se for muito moderno, muito mesmo. E ridicularizará todos os homens que usarem saia, e educará o seu filho para não brincar com bonecas. É sua vítima; é seu carrasco. Perpetua esta ordem perversa, injusta, assente em papéis que deviam ser livres.
Os homens eram obrigados a ir à tropa, eram obrigados a aprender a matar. Eu não. Os homens foram extraordinárias vítimas de um sistema que os devorava, que os ensinou a devorar-se mutuamente, que criou e diabolizou a mulher, o negro, o da cultura e religião e prática sexual "diferentes" como o outro; o "outro-inferior". Vítimas da sua Lei. Nenhuma mulher é vítima sozinha. A violência doméstica dos homens sobre as mulheres, ou vice-versa, é exercida por umas vítimas sobre outras.
Somos também o outro que o sistema condena. Somos sempre o outro. Somo-lo em segredo, se for preciso. Tornamo-nos esquizofrénicos para poder ser, à vontade, tudo o que não nos é autorizado ser. E as saunas masculinas, os quartos escuros de melhor frequência na capital, todos os dias se enchem de heterossexuais do sexo masculino (70% dos frequentadores), que a seguir marcham para o snack da rua beber bejecas enquanto chamam paneleiros aos do brinquinho, aos que agora andam a comprar hidratante!

Se eu queria ter sido um homem? Nunca. Nunca compreendi como é que um homens conseguiam sê-lo. Suportá-lo. Ser um homem foi, no tempo da minha infância e adolescência, violentíssimo. Ainda é. Aqui, na minha rua. Todos os dias.

A paridade, a igualdade (não são conceitos iguais!) não é uma realidade assente fundo nas estruturas sociais e políticas da sociedade ocidental - não apenas na cultura lusitana. Sim, parece justo que todos tenhamos as mesmas oportunidades, mas, ao nível dos discursos quotidianos, permanecem todos os estereótipos sobre quem dirige. A comunicação social mostra-no-lo todos os dias. Uma mulher que engravide, que tenha filhos, e que seja, simultaneamente, um alto quadro numa instituição financeira, pode não voltar a ser promovida, porque é mãe. Um homem que tenha um filho é suplementarmente promovido, exactamente porque é pai e, por isso, precisa de ganhar mais dinheiro - tem um filho para criar!
Esta ordem e coisas é tão injusta para as mulheres como para os homens. Quanto mais não fosse, porque aquilo que, numa dada sociedade, serve para discriminar grupos, afecta não apenas esse grupo mas o conjunto social - inclusive os próprios agentes de discriminação.

Somos o que aprendemos a ser. Somos o papel que nos ensinaram. É difícil rebentar as grades dessa prisão. Implica um salto por dentro. Um rasgo. Uma ruptura.

É necessário estudar, para compreender, os mecanismos que constroem os comportamentos tradicionalmente masculinos. As mulheres despertaram há muito. Podem educar-se até ao esgotamento, mas enquanto os homens não despertarem, igualmente, não há mudança eficaz, profunda: ou seja, não há mudança, apenas alteração de comportamentos à superfície; apenas o politicamente correcto!
É possível educar novos rapazes, novas raparigas. Recomeçar. O mundo perfeito tem de se reconstruir nesse chão.
Isto não é uma utopia.

Romance

A punheta é o sexo sem o logro da partilha emocional. Não será muito politicamente correcto dizê-lo: mas entre o sexo e o amor há muitas vezes a diferença que vai de comer uma sandes e dissertar sobre as nuvens de Junho. É possível, claro, partilhar sentimentos e verbalizar os instantes precisos do êxtase e jurar a eternidade do amor e isso tudo que vem das teorias das ciências sociais – mas não haverá de ser menos cada um dos parceiros tratar da sua vidinha própria sem preocupações de reciprocidade e foder a torto e a direito como se os preservativos zig-zag detivessem homologação canónica.

A sublimação do amor reverte do que existe apesar e para além dele – a pele, a respiração cutânea, a desprotegida e tão profunda exaltação do que é material e irreversível em si mesmo. Caso contrário – antes a punheta, que é o sexo sem o sentimento de culpa ou a necessidade de justificação romanesca do desempenho.

Os poemas

quero-te
tanto
como se quisesse
tudo

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

O gueto das primeiras-damas

Banca dos jornais. De corrida.
"Presidentes da República? Isto está a sair com que jornal?"
"Não sei dona Isabela, mas já saíram uns seis."
Observo a contracapa. Cerca de uma dúzia de volumes.
"Só homens? Que tristeza! Que graça tem comprar uma colecção só com homens?"
"Então, dona Isabela, são os Presidentes da República! Mas há aí um sobre as mulheres."
Realmente havia. O último. Primeiras-damas. Pousei o volume. Suspirei.
"Primeiras-damas! Olhe, só para mim precisariam eles dos doze volumes; depois, num folheto de 12 páginas, profusamente ilustrado, e com letra grande, conseguiam descrever minuciosamente toda a vida mental dos meus ex-presidentes da república!"

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Daqui a muito tempo, quando for feliz

Ontem, ao fim da tarde, em São João da Caparica, havia marés vivas. A vassoura do vento varria, para Norte, ao correr da crista das ondas, uma chuva fina, branca, quase gasosa. Um fumo. As ondas galgavam-se, atropelavam-se já ao longe, bem altas, e rebentavam como leite. Sentia-se o barulho muito forte das correntes, não apenas nos ouvidos, mas no estômago. A luz incidia filtrada de rosa-sépia sobre as dunas; um par de namorados beijava-se; ninguém na areia molhada.
Um dia, quando for feliz, o que chamarei a isto?




(No Kontiki bar tínhamos bebido, primeiro em silêncio, depois rindo um bocado, um lindo jarro de sangria branca com abacaxi, morango, kiwi, papaia e laranja - mas já tenho vergonha de contar estas partes!)

As praias que não são privadas

A praia de São João da Caparica tem estacionamento privado. Dois euros por dois minutos, duas horas, ou o dia inteiro; Verão ou Inverno. A praia não é privada, só o estacionamento.
Acontece que os autocarros para o lado de São João, o lado direito, quando chegamos à Costa, são muitíssimo escassos. Penso que exista apenas um - o que faz o percurso Fonte da Telha-Trafaria. Não tenho a certeza. A selecção de frequentadores da praia está, portanto, metade feita. Mas mesmo que os transportes públicos fossem frequentes, considerando que o areal fica um bocado distante da estrada principal – mil e tal metros, julgo - ficava feita, naturalmente, o resto da selecção.
São João é uma praia para automobilistas. Não é privada, claro, porque não se ia agora privatizar uma praia, mas o sacana do estacionamento é que tem de ser pago (ou então, ir a pé desde o povão da Costa, ou deixar o carro lá longe, na estrada, a um quilómetro e tal).


Isabela, ontem, no momento em que chegou ao areal de São João da Caparica


Chegados à entrada, deparamo-nos com a casota do segurança, magrito, de bigode, devidamente fardado, investido do seu omnipotente poder de porteiro, e pagamos a tremer, mansos, mansinhos, enquanto o agente da KGB nos passa um papel à bilhete de cinema antigo, que colecciono na prateleira da porta do meu lado, no carro, e que têm inscrito o nome de uma sociedade qualquer de empreendimentos, sediada em Feijó city – o agente da CIA sobe-nos, manualmente, aquela coisa que sobe e desce, e é uma emoção, parece mesmo uma daquelas fronteiras nos países do terceiro mundo, um posto de controle numa zona de guerra, enfim, ontem, o agente da Mossad até me tirou a matrícula do carro, de sobrolho carregado. Tive medo. Tive muito medo. E se me pedisse a autorização para circular, a guia de marcha, se me revistasse toda, se me observasse as entranhas do veículo com aqueles espelhos de meter por baixo...


Isabela, ontem, em São João da Caparica, pensando em como lixar o agente KGB-CIA-Mossad


Bem, depois disto tudo, entra-se no paraíso? Entra, de facto, a praia é maravilhosa, os bares, em madeira, têm magníficas esplanadas batidas pelo sol de Inverno, viradas para o mar, protegidas do vento. Mas o estacionamento, aquele que nos vendem por dois euros, não existe; é terra batida. É chegar e arrumar. O primeiro segmento da estrada, até ao Kontiki, foi de alcatrão, no passado remoto, agora é uma sucessão de crateras vulcânicas. O restante percurso, na direcção das praias mais encostadas à Cova do Vapor, nunca viu tapete.
Certo, eu dou dinheiro aos arrumadores todos, aos drogados, aos romenos, aos alunos do Chapitô que brincam com fogo no Chiado; eu dou dinheiro a tudo o que é maluco e me estende a mão. Com certeza que têm de comprar heroína, tabaco, vinho, sandes, não interessa; justifica-se. Eu colaboro, sim senhor. Agora, quando estou a pagar para entrar em São João da Caparica, pago o quê? Ninguém toca, unplugged, um tema punk? Ninguém brinca com o fogo? Ninguém arranja a estrada e constrói, efectivamente, um parque de estacionamento?


quarta-feira, fevereiro 15, 2006

terça-feira, fevereiro 14, 2006

O meu dia da namorada com a minha sueca de olhos azuis como os da Liv Ullmann

Señorio de Ondas, 2000, Rioja, Crianza.
Muito ácido.
Os vinhos da Galiza não são grande coisa.
O Dão de ontem era melhor.

Marmelanço, zero.
Páginas de tese, 130.




Liv Ullmann

Dia santo

Podem estar descansados. Hoje não problematizarei o sexo. Hoje não casco na cultura hegemónica. Hoje, nada de orgasmos! É como se fosse dia santo.
Repousem. Por agora.

Namorados e namoradas

Isto não é um post; apenas o compartimento onde poderão depositar, hoje, para mim, as vossas prendas de dia dos namorados. Os meninos e as meninas.
A sério, Luís, por favor, hoje não me chames trambolho, e coisas assim - não estou com estaleca para te responder; e também não me venham cá dizer que o meu problema é falta de homem, até porque concordo logo, e não me apetece.
Hoje quero só prendas. Faz de conta que é dia da mãe ou dia da loura ou dia da mulher que calça 37. Quero prendas; tratem-me bem.

domingo, fevereiro 12, 2006

Mal fodida

Conclusão do estudo: trata-se uma disfunção sexual da exclusiva responsabilidade das mulheres, sendo que poucas pedem ajuda ou consideram o assunto relevante; mais, o sexo é, para elas, uma questão psicológica.
Vejo-me obrigada a contrariar tão sábias conclusões: o sexo é, para as mulheres com as quais falei sobre o assunto (não muitas - não fomos habituadas a discutir livremente a problemática da foda), uma questão muito física.
Claro que é muito bom conhecer o parceiro, estabelecer com ele intimidade, sentirmo-nos desejadas ou amadas, abandonarmo-nos e entregarmo-nos nesse abandono, e nisso se joga mais ou menos psicologia, mas o sexo é físico, ou nada o distinguiria da agradável leitura de um livro.
Analisemos este discurso tão frequente: as mulheres têm dificuldade em atingir orgasmos, logo, o problema está nas mulheres. Não no macho lusitano, a quem chega enfiar o mangalho na rapariga, roçar-se nela três vezes, mal e porcamente, antes de, arquejando, cair morto. Ou roçar-se nela até aos limites da resistência vulvar ou do colo uterino, mal e porcamente, antes de, arquejando, nunca mais cair morto. Venha o diabo e escolha.





Não me admira que um terço das mulheres portuguesas tenha dificuldade em atingir orgasmos, ou que nem sequer atinja um nível de excitação que lhe permita uma sexualidade minimamente satisfatória, mas sem orgasmo, entenda-se.
Para o macho lusitano, sexo consiste em “enfiar-lho”; ponto final. Escolhe-se a presa e enfia-se-lhe o balázio.
Não sei o que é o sexo, juro, não sei. Podia arranjar aqui muita filosofia, misturar umas figuras retóricas, mas não é o meu objectivo. Estou zangada. Estou mesmo muito zangada.
Não sei o que é o sexo, sei apenas que não se reduz a “enfiá-lo”. O assunto é pessoal, mas colectivo - a maior parte dos homens que conheci, no sentido bíblico, não fodia nem saía de cima. Ora, que não fodam, aceita-se, mas, nesse caso, reconheçam, e desenvolvam, connosco os esforços necessários para que agrade a ambos - ou saiam de cima, ou debaixo ou de lado ou de trás.
Os homens não gostam que finjamos o orgasmo! Ora, caros amiguinhos, eu também detesto ser mal fodida. Não julgando ser solução, compreendo-a, e já fingi. É o chamado mal menor. Perante uma manifesta falta de talento, e desejando poupar as superfícies orgânicas a esforços abrasivos, mantendo alguma cortesia, despacha-se o candidato com uma mentira piedosa. Sim, estamos loucas de prazer, mas, por amor de Deus, se não dão conta do recado, despachem-se e deixem-nos resolvê-lo sozinhas. Se afinal é só para um, e mau, e a aparência de excitação nos livra disso mais rapidamente, lixe-se a essência”.





Na prática, consentimos uma espécie de violação. Não estamos a gostar, mas deixamos que chegue ao fim... do outro. Apressamos o fim. Porque até sabemos o que fazer para o “levar lá”, já o contrário... Havia outra solução, muito mais honesta, que consistia em explicar, "olha, querido, isto está a correr mal, desculpa lá, tenho muita pena, mas não vale a ginástica". Infelizmente, a algumas ainda custa ferir tão ostensivamente a virilidade.
Eu, que sou a Isabela, fui educada para servir um homem. Não aprendi a limpar a casa para mim. Não me ensinaram a coser uma bainha para mim. Aprendi para, um dia, mais tarde, saber fazê-lo na minha casa, para o meu marido, para os meus filhos. Que isso não tenha acontecido, foi um imprevisto.
“Ele serviu-se dela”, era assim que a minha mãe designava o acto sexual: um homem servia-se de uma mulher, de um ser passivo que recebia outro. Escutei estas palavras frequentemente, na minha infância, sussurradas entre mulheres. “E depois ele serviu-se dela!” Ouvir isto era já um pecado. Não me ensinaram a valorizar orgasmo algum, apenas a suportar estoicamente a dor. Qualquer dor.




Não me venham dizer que as mulheres mais novas, que em princípio não terão sido educadas segundo este padrão, não fingem orgasmos. Não fingem sempre, porque, em situação de crise, todos nos poupamos; é a lei da sobrevivência.
São poucos os homens que, na cama, existem para além do seu falo erecto; para os quais a sexualidade transcende o prazer que o seu corpo obtém pelo posse do outro. São poucos os que encaram a relação sexual como uma relação. Algo recíproco. Normalmente deparamo-nos com uma posse. Poder. Possuí. Tive. Comi. Fodi. Fui possuída, tida, comida, fodida.
Ora, o meu corpo não começa e acaba na minha vagina.
Generalizando, como alguém me virá já lembrar, aí nos comentários: os homens são egoístas. Muito. Mesmo muito. E são-no, igualmente, no sexo. Muito. A manter-se este cenário cultural – e não vejo grande tendência para mudanças! - continuaremos a fingir orgasmos. Ou a tratar do recado sozinhas. Ou, e isto seria o ideal, começamos a dizer a verdade.
Não peço piruetas, nada do outro mundo, apenas disponibilidade, entrega; e depois, sejamos objectivos, calma e ritmo. O outro também se aprende. Eu aprendo-te. Tu aprendes-me. É isso que estamos aqui a fazer. Deve ser. Não quero fingir orgasmos. Quero dar e receber esse momento indomesticável que fracciona ou comunga corpo e espírito.
Não sei se isto tem sentido para alguém. Espero que isto tenha sentido para alguém.

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Premonição



Estou?! Sim, bom dia dona Eugénia. Liga-me à senhora directora, por favor?!
Maria Teresa, más notícias: acordei doente... não posso ir! Pois, eu sei, mas deve ser uma crise de bílis, que não aguento a cabeça em pé... algum iogurte fora do prazo. Eu sei, Maria Teresa, mas a minha cabeça... é impossível, estou praticamente em estado de coma... sim, a gente, depois, na segunda, logo vê isso. Xau, bom fim-de-semana, filha!

Feministas

Chegou a minha amiga sueca e estou muito feliz. Chegou a mulher mais inteligente e bonita que conheço, a par da chata da minha prima afastada, e da Zeta-Jones, mas agora me lembro que não posso estabelecer analogias mulher-objecto, porque somos feministas e não se coaduna!
Não me responsabilizo por nada que se escrever neste blog, assinado por mim, claro, a partir das nove da noite - que é hora da janta, mais ou menos. O vinho alentejano não permite. Já ali está o Eno e o Guronsan para amanhã de manhã.
Os próximos quinze dias vão ser péssimos para a figadeira. Já para os miolos, pelo contrário...
Não estão, com certeza, à espera que vá defender tese alguma, a esta hora da noite, duas garrafas de Borba depois, e mais uma de champanhe da Catalunha. Champanhe da Catalunha?! Eu sei lá, aquilo era bom! Agora vou à água das Pedras!


quinta-feira, fevereiro 09, 2006

Espelhos

Somos todos actores. Às vezes somos actores de nós mesmos. Mais do que aquilo que verdadeiramente somos, somos essencialmente o que os outros vêem no que somos ou julgamos representar.

Quero as cicatrizes

Cansei-me de meninos e meninas bonitos, todos iguais. Sem uma marca na cara, sem uma unha partida, ou uma fralda de fora, uma t-shirt amarrotada.
Cansei-me de meninos Gant, de meninos Massimo Dutti, de meninos River Wood.
E da Gisele Bundchen, Martina Klein, Heidi Klun, Adriana Lima. Não as distingo! As mesmas pernas, as mesmas mamas, a mesma anca, os mesmos rostos de produção em série!









Lá terei de usar este impertinente advérbio: antigamente. Antigamente a História corria igual, mas Marilyn Monroe não se confundia com Elisabeth Taylor; há 10 anos ainda era possível distinguir a Claudia Schiffer da Cindy Crawford.









A beleza está nos sinais particulares, no que nos distingue uns dos outros. Gosto da cara do Seal. Dos cabelos despenteados do Jorge Palma. A Laetitia Casta é um monumento porque tem os dentinhos tortos, e o resto, claro, aquele resto absolutamente redondo e macio. A Zeta-Jones é um avião de longo curso, daqueles com segundo andar, e terceiro; não, a Zeta-Jones é o Concorde. Eu sei lá, a Zeta-Jones ultrapassa a velocidade do som! Agora, aquela menina sem sal do Match Point. Como se chama? Não interessa. É a girl next door, com a sua boquinha de lábios felacionistas, como os outros lábios felacionistas.
Quero sinais na cara, cicatrizes nos braços. Quero as pessoas que se enganam, que se esquecem. Mostrem-me um bocado de vida vivida, e que o corpo a prove. E o espírito. Um carro não está lá fora na rua sem levar riscos, amolgadelas, sem a antena roubada. É a vida!
Estou farta dos magros, e dos altos, louros de olhos azuis, cabeludos. Venham os gordos, os baixos, os morenos de olhos escuros; venham os carecas. Uma ordem de beleza diversa, muito diversa, mas já não este ideal ariano, primeiro ocidental, depois universal.
Estou tão farta de gente igual.


terça-feira, fevereiro 07, 2006

Jura para sempre

Jura o amor. O dos doze anos. O de hoje. O de dois minutos. O que terás amanhã e ocupará cinco cigarros da tua existência. Jura todo o amor. Jura o momento.
Juraste a vida, em silêncio, e esse será, de todos os amores assentidos, o mais fátuo.

O primeiro rosto



Isabelle Dinoire, uma francesa de 38 anos, perdeu nariz, lábios, queixo e parte do rosto, há cerca de dois anos. O seu cachorro, um Labrador, arrancou-lhos enquanto dormia. Isabelle tomava sedativos, pelo que não acordou, não sentiu qualquer dor. Estranho comportamento, o do cão, mais tarde abatido: atacar alguém que dorme. Muito estranho mesmo: um Labrador? Um cachorro Labrador? Teria fome e queria acordá-la? Julgou-a um boneco de borracha? Um acesso de loucura, problema que o cruzamento entre algumas raças e consaguinidades gerou? Não saberemos nunca, porque aos animais não foi dado o poder do verbo, sendo acrescidamente abatidos sem julgamento.
Sabemos isto, apenas: Isabelle acordou sem rosto, e, querendo fumar, não percebeu por que motivo não conseguia segurar o cigarro na boca; vendo-se ao espelho, descobriu, em terror, que a sua cara se transformara numa cratera ensanguentada.

Isabelle foi operada o mês passado: uma operação arriscada, polémica e muito mediatizada. Era ético? O seu rosto aceitaria ou rejeitaria os novos tecidos? Podemos, a partir de agora, realizar transplantes de rosto, comprando o de uma Catherine Zeta-Jones muito probrezinha, e deixando-lhe, em troca, o nosso, que nunca nos agradou - porque a verdade é que o que é nosso, por muito lindo que seja, nunca nos agrada?!
Ultrapassemos a questão ética. O rosto de Isabelle não rejeitou, até agora, os novos tecidos, e esta pode sair à rua, olhar-se, ser olhada. Viver de novo. Considerando que tomava sedativos de tal ordem, que a colocavam num estado de morte em vida, situação que permitiu ser comida, sem sentir, é possível que se trate, agora, de viver pela primeira vez. Há males que vêm por bem!
Agrada-me este final feliz; que positivo tudo isto se revelou para Isabelle, para a equipa médica que a operou e acompanhou, para a ciência, para todos nós.
Isabelle Dinoire possui, de novo, um rosto. Provavelmente, o seu primeiro, o mais verdadeiro, o único, o que reconhecerá o resto da vida. Não é apenas seu, o dos genes herdados, mas uma espécie de "miscigenação" genética induzida. Em última análise, body art! Melhor, body science-art! Nunca, como hoje, a transdisciplinaridade foi tão palpável. Ciências-Artes Plásticas-Filosofias-Poesias-Religião...
Eis a construção de um rosto. De um corpo, afinal. Ser o que é, mas ser, também, ao olhar-se, agora, a outra.
Ninguém sabe o que é perder um rosto e poder recuperá-lo, sendo outro. Que identidade tão especial!
Ninguém sabe, ainda, para que serve um corpo. Nunca soubemos. No novo mundo, aprendê-lo-emos. Este é já o novo mundo!

Os mais belos corpos do mundo

Fotografias - Laurie Toby Edison










Fotografia - Albert Couturiaux











segunda-feira, fevereiro 06, 2006

Dia de Isabela

Por falar em namorados (e namoradas); meus queridos, minhas queridas, descobri ontem, observando montras do centro comercial, que o importantíssimo dia de São Valentim, de tão boa memória para as lojas de almofadas em forma de coração, se comemora para a semana; passo a informar: é a última vez na vida que ofereço canecas com corações estampados à minha melhor amiga e recebo rosas vermelhas da minha prima afastada... abram os cordões à bolsa e pensem em mandar embrulhar caixinhas do melhor chocolate, e outros miminhos, para a Isabela.

Um passeio à chuva pelo meio do trigo, Nossa Senhora me Valha!



Esta é uma cena que surge mais ou menos a meio de
Match Point, o último filme do Woody Allen, título que, muito livremente, traduziria como "A Vida Faz-se de Acasos e É por isso que Gosto Dela ".
Pois também gostei bastante do filme; pois também lhe atribuo as quatro estrelas da ordem; pois Woody Allen aguentou-se perfeitamente num registo diferente da sua habitual caricatura irónica; o argumento é óptimo; não gosto do actor nem da actriz, mas saem-se bem, etc., etc.
Agora, do que eu também gostava, é que a filha-da-puta desta cena me saísse da cabeça quando estou a tentar trabalhar. Sobretudo o que se passa a seguir, e que também não posso contar.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...