quarta-feira, maio 31, 2006

Abraça-me e beija-me

(III da série "O que me comove")


Não me lembro de grandes traços particulares. Dez, onze anos com o nariz muito ranhoso e um rabo-de-cavalo despenteado; os olhos semicerrados, quando sorri; castanhos, pequeninos, cheios de vida e medo, desculpa e atrevimento. Faltam-lhe dentes. Não tenho a certeza. Não consigo fixar bem o seu rosto. Custa-me. Tenho vergonha. Faltam-lhe ou talvez estejam tortos ou riscados. Pormenores, não sei. Hoje trazia umas calças vermelhas e uma t-shirt às riscas ou com flores. Tenho essa ideia vaga. As unhas andam sempre negras, isso vejo bem, porque ela toca-me, abraça-me, beija-me. Ela agarra-me, e eu deixo, porque nesses momentos sou feliz. As pessoas reparam, mas eu quero que ela me agarre, que perceba que sou sólida, real; que existo para ela. Quero que me toque e beije e abrace, porque não sei quantas oportunidades terá, no futuro, de tocar, abraçar e beijar alguém. E abraçar, e ser beijada. Por isso, abraço-a e beijo-a, sabendo que o meu poder insignificante pode ainda protegê-la, e a mim, dos que reparam.
Ela precisa de mim, e eu dela. Quero habituá-la mal. Quero que sinta, depois, a falta inevitável de mim, para que procure noutros, nos que hão-de vir, o que teve comigo; quero que os mace, se forem de ficar maçados, mas que não se resigne a perder-me, estando esta perda datada.


Jan Saudek, The Shelter, 1963

Ela quase não existe. A Catarina. Não fomos apresentadas. Veio ter comigo. Olhou-me fixamente e sorriu. É uma menina tão linda e doce! Eu sorri, perguntei-lhe o nome, e apaixonámo-nos à primeira vista. Sou uma menina grande e, ela, uma mulher pequenina. Creio que não sabe como me chamo. Nomeia-me pela incumbência que julga pertencer-me, como “senhor motorista”, “senhor enfermeiro, mas não tive tempo para reparar.
A mãe da Catarina trabalha na noite. O pai é alcoólico. Tem mais 2 irmãos, com seis e dois anos. Os pais estão a divorciar-se, vivendo ainda na mesma casa. O pai, quando chega muito vermelho, bate na mãe e nos irmãos, enquanto ela se esconde. Conta-me.
Vem ter comigo aos gabinetes onde me encontro, espera-me pelo caminho, e conta-me tudo, de olhos fechados, enquanto me abraça, e fica encostadinha a mim sem dizer nada, e eu deixo-a sentir o meu calor. Se está a ler um livro pára, de repente, entusiasmada com a narrativa, e prende-me o rosto com as duas mãos, e beija-me com força. E diz "é tão querida!" Está ao meu lado, sempre que pode, estendendo os limites possíveis.
Ontem, pedi-lhe que me contasse uma história sobre a coisa mais engraçada que lhe tivesse acontecido. Riu-se. Lembrou-se logo de uma, cuja memória pertence a outros:
- Eu era pequena, tinha 2, 3 anos. Comi mal, depois era de noite e os meus pais foram trabalhar. Então, acordei de madrugada, com fome; como estava sozinha e vi no chão um biscoito de chocolate duro, pensei que podia comê-lo. Meti-o na boca e comecei a trincar, mas era duro e sabia mal. Depois, os meus pais chegaram, e ficaram aflitos, porque era uma tartaruga pequenininha. Tiraram-ma da boca já toda esquisita, blargh, mas não morri. Depois, a minha mãe, aflita, disse que nunca mais ia comprar tartarugas, para não acontecer outra vez.
Riu-se muito quando acabou. Eu sorri, apenas. Perguntou-me se não tinha gostado. Respondi que era engraçada, mas, coitada da tartaruga!, e perguntei:

- Catarina, depois, a partir daí, nunca mais tiveste fome à noite, por comer mal?
Não se lembra. Olha para mim séria. Não percebe.
Mas eu sei, pela forma como me procura, me abraça, me beija, que sentiu sempre, sente agora, uma fome devoradora de tudo, a qualquer hora. Uma fome de mim, que tenho nada, que tenho apenas o que ela tem e o que procura. Essa fome, reconheço-a. E quando estamos abraçadas, ela mata a sua fome inicial, e eu, a minha que é crónica. Resta-me acreditar que o calor dos meus braços aqueça os seus, por agora, para que a distância e o tempo não permitam, nunca, encontrá-la vendendo, num bairro qualquer, os seus abraços e beijos tão cheios de luz e sombra.
Aperto-lhe a mãozinha. Aperto-lhe muito a mãos e os pulsos, e quero dizer-lhe aquilo que dizemos quando apertamos com força as mãos e os pulsos de alguém.

segunda-feira, maio 29, 2006

Esperei todo o dia pela noite

Os dias varados pelos ruídos da rua: buzinas que chamam alguém, insultam alguém; ambulâncias que levam mais um; os que sobem e descem, infelizes; as crianças que gritam por nada, dentro e fora de casa, do carro, do café, da escola; os gritos de todos ao mesmo tempo, em todo o lado, a mil quilómetros de distância; os cães que ladram enervados; o chiar dos travões no alcatrão; as motas sem escape que explodem a cada arranque; a capa de açúcar do gelado que ouço quebrar-se contra os dentes de uma jovem namorada, na esplanada; as garrafas de cerveja partidas e os gritos altos do subúrbio, como num espancamento; o suor excitado, sem explicação; a ânsia, a ânsia de qualquer coisa ainda inteira, qualquer coisa um bocado melhor.
Poder entardecer em casa esperando o silêncio da noite alta. Muito oxigenado, o silêncio, flutuando na noite quieta.

Não se sai vivo de sítio nenhum

Na outra vida tive um gato chamado Bolinhas. Periodicamente, fugia pela janela da cozinha, e desaparecia durante semanas, meses. Regressava magro, sujo, em sangue, sem uma orelha, falto de unhas, com o rabo cortado, chamuscado e zarolho. Miava à janela por onde tinha saído, abriamo-la, e entrava lento e moribundo, perante a nossa incredulidade. Demorava a recompor-se. Quando ia, nunca davamos pela partida, nem sabíamos se regressaria. Nunca soubemos, e foi assim durante anos.
Depois veio a guerra, ou seja, a Frelimo, e os gatos ficaram abandonados em Lourenço Marques. Disseram que os pretos os comeram. Os gatos e os cães que os brancos deixaram para trás, não os contentores com a mobília de pau-preto nem os cinzeiros de pé alto, em pau-rosa, ou os dentes de marfim, em marfim, foram todos comidos pelos pretos e pelos chinas e pelos monhés, que deviam ter atentado nos seus hábitos alimentares, porque a carne, mesmo magra, faz subir o colesterol.

Parir de gatas

Gostaria de parir como as vacas do meu avô: no pasto, toda alargada em cima da terra e das ervas; ou no curral, refastelada numa cama de palha nova. Ou de cócoras, agachada; ou sentada no bordo de uma boa cadeira a cujos braços me prendesse com toda a força quando tivesse de puxar para expulsar, gemendo. Ou na banheira, com a água a 38 graus; ou numa cama larga com lençóis brancos de algodão; ou no chão, para que pudesse movimentar o meu corpo como sentisse que precisava movimentá-lo. Quereria ao meu lado as mulheres que já tivessem parido, como eu paria; motivassem-me a ter força, a fazê-la, que estava quase. E que me aturassem tudo quando clamasse que queria desistir, e que era a primeira e última, e todas aquelas frases que as mulheres desesperadas dizem no meio do choro e do parto.
Não me mantivessem presa a uma cama de hospital, numa sala desconhecida e impessoal, com cheiro a Betadine e éter, as pernas abertas e apoiadas, ao alto, nos estribos; ligado, o meu corpo, a frascos de que me desceriam tubos às veias; a máquinas cujos fios se colariam a mim; o foco de luz incidindo sobre a racha inchada que me rapariam, e, depois, rasgariam, sem poder mudar de posição, sem um rosto dos meus rostos, eventualmente um companheiro igualmente desesperado.
Em situações de gravidez normal, deveríamos parir como os outros mamíferos. Agachadas, de gatas. É a posição em que nos colocamos, por instinto, quando sentimos aquilo a que se chama dores de barriga. Ajoelhamo-nos e dobramo-nos, enquanto nos abraçamos.
As formas de parto natural acima referidas são praticadas em hospitais do Brasil e em Espanha, como forma de humanizar o nascimento, reduzindo o stress, logo, a dor e o medo. Há hospitais equipados com salas multifuncionais, adaptáveis às necessidades da grávida.
Estas podem escolher, conforme a fase do parto em que se encontram, caminharem pela sala, permanecerem sentadas ou deitadas no chão, ou numa cama, ou numa banheira com água quente. Decidem em que momento devem passar de um lugar para o outro, conforme precisam de mais ou menos ajuda, conforme sentem mais ou menos dor, e controlam elas o processo, acompanhadas pela doula ou parteira ou médica e família.

Trata-se de trazer para o hospital o ambiente do parto caseiro, beneficiando dos equipamentos hospitalares.



Qualquer destes métodos/posições facilita o posicionamento do nascituro e a postura física da mãe. Adaptam-se os dois corpos: um, à estreita passagem; outro, ao corpo a que abre passagem. É um trabalho dos dois, em que dois se sentem e compreendem em silêncio. Ele quer sair, ela ajuda-o. Ele ajeita-se. Ela ajeita-se. Os corpos criam as condições para o inevitável milagre.


Só recentemente ouvi falar das doulas, mulheres que se especializam em acompanhar a gravidez e o parto, substituindo a família próxima, que antigamente ajudava a parturiente. As doulas podem ajudar a criança a nascer em casa, ou estar presentes no hospital, no momento do parto. Em gravidezes normais, sem risco, as parturientes podem escolher uma doula que a acompanhará ao longo da gravidez, e a ajudará a parir naturalmente, em casa. Deve, contudo, salvaguardar-se a necessidade de chamar com urgência um médico previamente contactado, caso surjam complicações, ou mesmo, enviar rapidamente a parturiente para o hospital mais próximo.


O objectivo é "humanizar" o nascimento, aproximando-o da sua natureza animal, intuitiva; portanto, num sentido literal, trata-se de uma desumanização. Torná-lo acto intimíssimo de uma gravidez que não termina no momento em que o recém-nascido respira o mesmo ar da mãe. A gravidez culminou naquele momento, mas continua nos meses seguintes, porque o bebé e a mãe continuam a ser um do outro, a estar um dentro do outro, a ser um só, ligados pela boca, pela mama, pelo leite que os atravessa e os liga por dentro, como um novo cordão umbilical. A gravidez termina muito tempo mais tarde. Quando o bebé se equilibra sentado, quando pára de mamar, quando consegue dizer as primeiras palavras, e começa a dar os primeiros passos. Talvez vá mais longe: a gravidez não termina nunca, mas há um momento em que é preciso deixá-los ir.

domingo, maio 28, 2006

Desinfecções e feridas

A fobia à bactéria não é normal; dá-se demasiada importância ao bicho.
Eu cá, tenho aversão a ambientes muito desinfectados. Um espaço normal tem de ter as suas comunidades de bactérias e ácaros escondidas em qualquer vão. Infeccções por tudo e por nada, e mais alergias, são uma modernice insuportável. Antigamente não havia alergias; tenho muita pena mas não havia. Tínhamos umas borbulhagens atribuídas a qualquer insecto que tivesse passado pela roupa da cama, normalmente uma centopeia ou aranha venenosa, ou então era dos sangues ou do mudar da folha, e ponto final. Se não era nada disso, era pulga. Agora até as minhas cadelas são alérgicas às pulgas!
Quando fazíamos feridas desinfectavam-se com água oxigenada, passava-se mercurocromo, e polvilhava-se com sulfamidas. Deixavam-se ao ar para criar a crosta, que depois se coçava devagarinho, à volta da pelezinha nova, querendo arrancar, levantando um pouco, mas não chegando a tanto, porque a crosta estava ainda colada à carne viva por um coração de sangue; e era um prazer. Fechávamos os olhos. Coçar à volta da crosta, pressioná-la um pouco contra a pele por baixo, já sarada, muito fina, era um prazer tão intenso que sentíamos crescer água na boca. Antigamente dava gosto fazer uma ferida.

sábado, maio 27, 2006

Patriotismo

A bandeira nacional serve, como é do senso comum, para pendurar nas varandas e nas janelas, e esticar nas empenas, quando a selecção da bola marca golos à Inglaterra e à Holanda -- e para arrear, acto contínuo, se um improvável e inverosímil país como a Sérvia-Monte... monte quê?, nos arruma com duas batatas a seco.

segunda-feira, maio 22, 2006

Excelência da mentira

A verdade perdeu audiência. Não acompanhou os tempos, tal como o teatro e o circo. A verdade é chata, faz-nos bocejar. Os textos são incompreensíveis e as encenações agonizam. Sobrevive alimentada por subsídios estatais, e o Estado tende a morrer. Os agentes funerários têm os instrumentos já preparados para o embalsamamento. Por motivos históricos convém que exista pelo menos um exemplar estatal num museu qualquer, devidamente envidraçado, para que um dia, os nossos filhos possam, ao menos, observar externamente esse organismo tão estranho, e encolher-se todos, com nojo ou medo ao bicho.
Adaptemo-nos, pois, aos que apresentam maior possibilidade de sucesso, aos que assistirão de borla ao apocalipse, instalados na penthouse do melhor hotel de luxo.
Peço que me mintam, sobretudo no amor, usando palavras que ainda não conheça, ou as velhas, mas em novas combinações sintácticas e semânticas. Peço que usem a linguagem criativamente, alterando os contextos paralinguísticos, se necessário. Mintam artisticamente, pensando na excelência da mentira como fonte de lucro. Quero poder dizer de uma mentira, “aquilo é um Turner”. “Estou a ver ali um Picasso”.
Desejo que os artistas-mentirosos sejam provocadores, incómodos, que inovem por áreas nunca antes pensadas. A mentira tornou-se um objecto plástico, falta apenas a intenção criativa, falta o olhar parental, amoroso do artista sobre a sua criação.



Turner, Shade and Darkness - Evening of the Deluge, 1843


Já não me engano. Sei encarar uma mentira e pensar “isto é arte”, como no cinema penso, “isto não está a acontecer, é uma simulação, é arte”. Quero poder dizer a alguém, “por favor, conta-me só a mentira, só a mentira, mesmo que te seja fácil demais, porque estou cansada dos jogos da verdade!”
Só quero a mentira, até porque se encontrar a verdade receio não poder reconhecê-la; passou muito tempo! Pensaria, “este rapaz mente tão bem que quase parece verdade”. Escavaria pelos seus olhos dentro, com os meus, e se vislumbrasse um só filão de verdade havia de me maravilhar com a perfeição ilusionista do mentiroso. Ali estava um que podia transformar a mentira em verdade a um nível tão profundo!” Seria impossível não me apaixonar por um ser capaz de transformar a mentira no maior e melhor espectáculo do mundo, suplantando a grandiosidade escatológica do saudoso circo romano. A verdade seria, então, o produto imaterial, original, inimitável alcançado pelo génio da mentira.

A outra vida I

Era de carne como os rapazes


Foto de Jan Saudek, Returnig Home, 1977


Não comecei por pensar em mim como uma mulher.
Era de carne, havia coisas que me faltavam, outras que me faziam rir, e não tinha querer. Era de carne, via e ouvia, e saíam de mim, sem intenção, sem culpa, juízos espontâneos. Isto é melhor ou pior que aquilo. Podia controlar o que a minha boca dizia, não o que sentia, o que me aparecia como um pensamento. Acreditava sentir com o peito, porque as emoções tiravam-me a respiração e era nesse lugar do corpo que sentia a lâmina fria rasando os pulmões.
Era uma pequena pessoa de carne, não um animal, porque a mim não me podiam matar para comer, embora pudessem fazer-me tudo o que quisessem. Eu não tinha querer.
Nada me distinguia dos rapazes, a não ser o facto de esconderem um pedaço frágil de carne num sítio onde eu tinha nada, e de lhes sair por aí o xixi. Não os olhei como meus diferentes. Para mim, eram tão diferentes como um amputado de guerra, como as pessoas com o bócio muito inchado: não eram como eu, mas éramos feitos do mesmo. Eram tão diferentes com um negro, um chinês, ou um monhé que, tendo peles diferentes, também eram de carne, exactamente como eu; e, porém, tal como eu, também não tinham, em grau dependente da escuridão da pele, direito a querer.
O mundo não nos era explicado. Diziam-nos, “és uma menina, aquele é um menino”; podíamos brincar juntos até ao princípio da adolescência; chamavam-nos namorados se éramos os melhores amigos, mas não acontecia sentirmo-nos diferentes nem namorados. Nas lutas corpo-a-corpo eles tinham mais força, e para os vencer obrigava-me a conhecê-los bem, antecipá-los e planear estratégias, fintar.

Não me servia a mim, mas ao meu marido

Aprendi sozinha o que isso significava, essa diferença da força física, ao mesmo tempo que percebi que homens e mulheres casados vestiam de maneira diferente e exerciam papéis e poderes distintos. Depois, a minha mãe começou a dizer que uma menina não fazia isto e aquilo. Tudo o que era bom aprender não me servia a mim, mas ao meu marido; um dia, quando casasse, teria de saber tudo para o servir. Teria de aprender a coser para passajar a roupa do meu marido e a dos meus filhos. Teria de aprender a cozinhar para o meu marido e para os meus filhos. Teria de aprender a limpar a casa do meu marido e dos meus filhos. A roupa, a comida, a casa de todos, não a minha, por mim ou para mim. O meu futuro não seria meu, mas do meu marido e filhos. O meu tempo haveria de acabar muito antes da minha morte e a minha vida pertenceria apenas aos outros. Estava certinho!
Havia, por outro lado, um determinado conjunto de coisas que não poderia fazer para conseguir arranjar marido: andar despenteada, descalça, suja e rasgada, subir às árvores, brincar com os animais, estar estendida à sombra, na relva, ler. A minha mãe deixou-me ler porque nesses momentos me tinha controlada. Enquanto lia estava quieta, não lhe dava preocupações. Sabia onde estava
A minha mãe até me ensinou a passar cera no chão, de joelhos, e a seguir, a dar-lhe lustro com uma metade de coco e um pano de lã. Era para fazer brilhar a casa do meu marido e dos meus filhos. Durante muitos anos pensei que o meu destino seria aparecer-me, aos 18, um noivo muito lindo que me desposaria no meio de flores brancas, e que havia de gostar de mim, porque seria impossível não gostar do que eu era; lembro-me de uma fantasia em que nos zangávamos, mas eu recompunha tudo porque era muito boazinha, ia dar-lhe beijinhos, e ele sorria outra vez.
Nunca pensei ser possível tornar-me dona de mim, viver livre. Estava certa que ia passar das mãos de um homem para outro. O tal futuro rapaz, que não podia ser negro nem china nem monhé, havia de me ver na rua, em casa de familiares ou amigos, ou numa festa de debutantes à qual a minha mãe haveria de me mandar com um vestido decente, feito por ela em casa. Depois, o rapaz seguir-me-ia, para saber onde morava, ou perguntava a alguém. Far-me-ia a corte de longe. Haveria de me perguntar o nome, de dizer que era bonita, de pedir autorização para me namorar, primeiro a mim, depois ao meu pai, embora não estivesse a ver o meu pai conceder diamante tão valioso tão cedo nem por pouco; seguir-se–ia o pedido oficial de casamento, sem a minha presença, mas eu haveria de ser chamada no final para concordar com os termos do enlace. Depois, os preparativos do casamento, o dia do casamento, a lua-de-mel. A seguir, era o novo mundo. Sabia menos sobre o novo mundo do que Colombo sabia sobre a América, quando lá chegou.

As capacidade reprodutiva do casamento, de per si.


Foto de Jordi Moll

Observava o mundo com fome de compreender o que não estava autorizada a viver, o que não poderia alcançar. Observava-o para compreender a mecânica das pessoas. O que diziam e faziam? Com quem? O que valorizavam e desvalorizavam? Observar não garantia mais nada. Podia nunca compreender, porque não havia com quem falar das coisas que juntavam e separavam um ser humano de outro, no geral, ou, especificamente, os homens e mulheres. Não existia essa linguagem. Nem esse discurso. A mulheres falavam clandestinamente sobre partos e hábitos dos homens, mas, também, entre elas, faziam segredo do que verdadeiramente pensavam. Porque uma mulher espontânea, sincera, seria alvo da chacota das outras. A conversa das mulheres sobre os homens obedecia a requisitos que passavam, primeiro, pela lamentação, e, depois, pela ironia. Que os homens não prestavam...; excepto eles, toda nós sabíamos.
A observação da realidade levou-me a deduzir, por volta dos 8 anos, que a reprodução era consequência directa do casamento religioso. O padre casava os noivos e, nesse momento, Deus instalava na barriga das mulheres um filho, que crescia até à altura em que as aquelas começarim a sofrer muito e teriam de ser internadas para lhes abrirem as barrigas e tirarem o bebé.


O palavrão da gravidez


Foto de Baciar

O cinema e a literatura nunca me esclareceram esta dúvida, até muito tarde. Não conseguia estabelecer relação entre um homem e uma mulher deitados na cama aos beijos e uma gravidez. Nem me passou pela cabeça. Nos livros, a eufemística era perfeita: a heroína ficava de esperanças e tornava-se mais linda com a felicidade, irradiando luz, passando a ser mais respeitada e a gozar estatuto diferente. A seguir, a heroína daria à luz um novo ser, não explicavam como, apenas que outras mulheres a circundavam, e suor e água quente e sangue e dor, e que, tantas vezes, era um martírio sério, e entrava esse deus do mundo, o homem, o pai, nervoso e orgulhoso do filho dele que a mulher lhe dera, e o levantaria ao colo.
Quando aos 11 anos compreendi que o vocábulo gravidez não era um palavrão, e disse à minha mãe que a Guida estava grávida, recebi um enorme bofetão, “isso não se diz: diz-se: está de bebé”. Vejo o seu rosto irritado, Estávamos sentadas na parte de trás de um jipe que não era nosso. Fechou a cara, zangada comigo, decepcionada com a educação que, afinal, não tinha conseguido dar-me. Eu tinha dito “grávida”. Deve ter sido neste meu deslize sobre o conhecimento do sexo, que a minha mãe compreendeu que seria difícil "encaminhar-me"; passou a dizer que eu era de gancho, que tinha mau feitio, que era tal e qual o meu pai e tinha de ser dobrada. Viu-me pela primeira vez com um ser sexualizado e deve ter-se assustado. A minha mãe teve medo de mim. Tinha uma concorrente em casa. Uma outra mulher que crescia, que já era menstruada. Estava na hora de me mandarem para a metrópole. Sei, hoje, que a minha mãe me mandou para a metrópole porque nasci mulher. Se tivesse sido homem ter-me-ia deixado ficar para os proteger. Mas eu desprotegia-os. A minha feminilidade desprotegia-os. Expunha-os ao perigo de serem brancos. Por isso era necessário afastar-me depressa, e desproteger-me. A minha melhor educação seria essa. Cumprir-se-iam dois objectivos: a sua protecção e liberdade de movimentos, a minha desprotecção que havia de me ensinar a ser como uma mulher é, como uma mulher sabe que tem de ser para conseguir sobreviver.
A minha mãe escolheu entre regressar comigo ou permanecer em África a calçar as peúgas ao meu pai, que já era crescido. Deve ter sido um dilema que viveu sozinha: mas escolheu, e afastou da sua casa uma mulher de carne, menstruada, que podia ocupar, no coração do marido, o excessivo amor do pai fascinado pela beleza e frescura da sua obra mais perfeita.
Por isso, embora não tenha começado por me pensar como uma mulher, acabei por descobrir, sozinha, que uma mulher era, para o mundo, uma ameaça de carne, de pensamento e desejo, assente na linguagem com que percebia e comunicava com o mundo.
Eu, que não tinha começado por me pensar como nada, era um ser humano classificado e arrumado num grupo mais fraco e sem voz. Ninguém tinha determinado que assim fosse. Já não se lembravam. Era assim.
Tudo começou aqui. Não ter compreendido.

quinta-feira, maio 18, 2006

Cartilha do bom namorado (a cama)

Quanto ao sexo, a coisa é simples. Primeiro, explico os tabus. Tudo o que sobrar é permitido. As actividades terão de decorrer sem pressa, mas fogosas. Se não acabarmos ao mesmo tempo, convém que seja eu a primeira.

Cartilha do bom namorado (processo reeducativo)

Como faço para que realizem, com a melhor boa vontade, e sem refilarem, tudo o que lhes peça?
Sexo não! Isso é outro departamento e não tem que interferir neste processo reeducativo. Tenho de os formar em "flexibilidade de papéis nas relações de género". Como?

Cartilha do bom namorado (partilha de tarefas)

São sempre bonitos, sensuais e tesos, em partes iguais, quer aos 30 quer aos 40. Para mim está bem, porque não conto que me sustentem. Gostaria apenas que me dissessem que tipo de tarefas domésticas pretendem realizar, e, numa fase seguinte, como pensam partilhá-las.
Quem lava e limpa o quê, na semana 1, e o mesmo para a 2. Não me importo de ficar com a limpeza de toda a casa, excepto cozinha, desde que cozinhem, lavem a louça e a arrumem, e, a seguir, limpem o chão, as bancadas, os electrodomésticos e as janelas. Se levarem o lixo do dia, na semana 1, posso pôr a roupa a lavar, estendê-la no arame, e passar metade. A outra metade fica para eles.
Portanto, os serviços não mudam; os parceiros é que alternam as tarefas. Parece-me poder resultar. Parece-me bastante justo.


Foto de Bruno Bernard, Lili St. Cyr, 1955

Cartilha do bom namorado (idade)

Se arranjo namorados de 30 anos gostaria que pensassem como aos 40, e queixo-me; se calha terem 40, daria tudo para que pensassem como aos 30, e queixo-me.


terça-feira, maio 16, 2006

Vamos lá ver se entendi

J. Saudek, The Flag, 1972























Pelo que pude ler neste artigo, depreendo que:

1. Como não tenho macho devidamente registado no civil ou nas finanças, estou prestes a tornar-me infértil por decreto-lei, condição biológica que poderei alterar administrativamente, mediante assinatura de contrato de casamento com o primeiro meliante que me venha bater à porta.

2. Enquanto celibatária não posso gerar um filho por inseminação artificial porque o meu estado civil indicia que não tenho um projecto de vida.

3. Não posso ter um filho fora de uma estrutura familiar biparental? E se o rapaz que tem vindo cá dormir às quartas, sextas e sábados se descuidou a semana passada, não sei..., estando eu em fase ovulatória? A gente não quer casar nem viver juntos: seremos considerados estrutura biparental, apesar disso? E se nos zangarmos amanhã e ele desaparecer da minha vida para sempre, ficando eu grávida? Eu, mulher celibatária, logo, infértil por decreto, que gera um filho fora das condições ideais da biparentalidade, terá projecto de vida suficiente para o incluir na sua vida? E se eu me casar em Junho com o rapaz, já grávida, e ele se fartar de mim na lua-de-mel, desaparecendo para parte incógnita, ser-me-á permitido criar o bebé num contexto de monoparentalidade? E terei projecto de vida, estando sem macho? E incluirá a criança?
Sinto-me baralhada.

O valor da dignidade

O tráfico de drogas, armas, influências, órgãos, pessoas constitui uma profissão? E o lenocínio? E a corrupção? Vamos imaginar a seguinte situação: precisamos de preencher um impresso escolar para fins estatísticos. Profissão da mãe? Traficante de crianças africanas para fins de escravidão ou extracção de órgãos; profissão do pai? Pedófilo de média dimensão. Rimo-nos pela incredulidade, mas pessoas destas cruzam-se connosco na rua, moram ao nosso lado e vivem do lucro que fazem no exercício da actividade ilegal. Aquilo que torna a tarefa ilegítima aos nossos olhos não é a troca comercial de moeda ou serviços, mas o facto de ser indigna tanto para quem exerce como para quem se sujeita à prática ou a estimula; o consentimento ou dependência do corrompido não altera a natureza da indignidade. É indigno para os envolvidos independentemente do papel que desempenham. É-o mesmo que não tenham consciência da injustiça. Uma coisa é a indignidade e a injustiça, outra a responsabilização e criminalização pelo acto cometido. Ou seja, o traficante, o corrupto e o pedófilo também praticaram injustiça e indignidade sobre si, o que não atenua a sua culpa.
Isto é tudo difícil de perceber, porque, como qualquer ciência, assenta sobre o pressuposto de conhecimentos adquiridos em fase primária, formal ou informalmente. O que é a dignidade?
Ser indigno não é um problema que atormente a maioria do seres humanos: não se conhece bem o significado do vocábulo, embora já se tenha ouvido a outros, sem perceber o contexto. Portanto, a indignidade não é obrigatoriamente intencional; também acontece ser-se digno: acerta-se aleatoriamente, como se fosse um 5 no totoloto.
Se formos para a rua perguntar às pessoas se se sentem indignas, é provável que metade delas nos diga que não, que nunca teve isso, embora saiba de um tio que vai três vezes por semana ao hospital fazer tratamento numa máquina por onde entra o sangue e depois sai filtrado.



Foto de Gregory Colbert

Somos aparentemente livres, relativamente prósperos, e sentimos que quase tudo nos é permitido. Insultar outro, agredi-lo, não é grande problema. Há quem defenda que a desigualdade e a injustiça, como não se podem solucionar sem perigo de irremediável desestruturação económica, devem ser socialmente aceites e tributadas. Problema seria não ter uma pen para guardar informação do disco ou querer um fato da Gant para ir trabalhar e não poder comprá-lo. Problema é não ter um leitor de mp3 ou uma câmara digital. Ou um ailleron.
A dignidade é um princípio moral, mas por aqui também me meto em trabalhos. O que é um princípio? E a moral? Adiante, para facilitar a comunicação, digamos que a dignidade implica que encaremos a nossa existência humana exactamente como se encara o símbolo do nosso clube de futebol. Orgulhamo-nos do que simboliza. Não queremos queremos vê-lo sujo nem rasgado. Não queremos que o usem para fins inapropriados, que o desrespeitem. O nosso clube de futebol não é o melhor na medida em que ganha os jogos todos. Não; mesmo que perca é bom, está é em baixo de forma. O nosso clube de futebol é um valor indiscutível. Como um diamante. O valor de um diamante não depende da sua utilidade. Pode nunca sair de um saco de veludo e mantém o valor. É riqueza. A dignidade é mais ou menos isso. Como se fôssemos um clube de futebol cuja claque somos nós. Como se fôssemos, para nós, a garantia de um diamante dentro de um saco de veludo, dentro de uma gaveta.



Foto de Gregory Colbert

Há realmente práticas indignas universal e intemporalmente. Não creio que alguém se sinta orgulhoso por ter um filho corrupto. Que espalhe a notícia. “Ah, o meu filho está muito bem, entrou para a corrupção, e a minha nora ajuda na contabilidade.”
Isto é lógico, para mim, mas não tenho a presunção que o seja para todos. É óbvio que há tantos advogados da indignidade como do diabo; é possível vesti-la bem, dar-lhe bom ar e inocentá-la. Há quem pretenda dar-lhe nome de firma. Pessoalmente, mesmo contemplando heróis e heroínas românticos não creio que a dignidade seja relativa. Um pícaro pode ser superlativamente inteligente, atraente e divertido na sua indignidade, mas não digno. Ou pode ser digno e indigno, conforme o destinatário ou o contexto. Ou pode aparentar ou construir uma aparência de indignidade e nunca ter corrompido o coração. A dignidade não é extrínseca nem visível a olho nu.

Da indignidade da prostituição

A de quem a promove e a daqueles sobre os quais é exercida

As pessoas que defendem a prostituição como actividade profissional não desejariam que as suas filhas se prostituíssem. Seria indigno. Imoral. É assunto que nem merece discussão, embora as putas sejam filhas de alguém, eventualmente nossas.
Algumas pessoas usam os referidos serviços; outras não, mas quase todas têm a certeza que as prostitutas são ladras, devassas, têm o que procuraram e merecem-no, porque gostam de sexo. Os prostitutos que vão com homens têm justificação: precisavam porque ficaram desempregados ou tiveram azar na vida, arranjaram vícios que tinham de pagar. Não gostam, tornou-se uma fatalidade. Os prostitutos para mulheres são sortudos. Quem é que não queria estar na pele deles? Receber para foder, no hotel, umas gajas esfomeadas?! Quem é que não ia de graça?
Alguns dos leitores do texto anterior, que defendem a prostituição como actividade profissional, também votam contra a interrupção voluntária de gravidez das prostitutas e das outras, contra a descriminalização do consumo de droga, e consideram que a única forma de se acabar com o tráfico seria condenar essa corja à pena de morte, bem como os pedófilos. Os corruptos deviam apodrecer na cadeia por andarem a roubar quem necessita.
Quanto à prostituição, é uma actividade profissional como qualquer outra, sujeita às leis da oferta e da procura. Uns precisam de um serviço e outros estão disponíveis para o prestar, portanto é como se chamássemos o canalizador. Nenhuma indignidade aqui.
Este fim-de-semana perguntei a um amigo, por curiosidade, se já tinha frequentado prostitutas; respondeu-me que não, bastante indignado. Como me calei, acrescentou que conhecia quem tivesse ido e lhe garantisse que a relação qualidade-preço não justificava. Era muito dinheiro para meia hora de mau serviço, regra geral.
Aquilo que na nossa cultura distingue prostitutas e prostitutos, e os justifica ou não, continua a basear-se numa diferente taxinomia dos sexos no que reporta ao direito à sexualidade e ao prazer. As prostitutas gostam mais do que as outras, e permitem uma prática cuja condição depende de um valor monetário, logo têm o que merecem. São putas. À partida, sobretudo para os homens, mas não exclusivamente, todas as mulheres que gostam de sexo são putas. As que levam dinheiro são putas más. As que vão de graça são putas parvas; não merecem mais respeito, mas sai mais barato e, por isso, são putas melhorzinhas. A questão não é a dignidade do sexo praticado, mas o preço que se paga por ele. Para muitas pessoas a sexualidade é sempre indigna, inclusive a sua. E estas são as que mais usam a prostituição.
É tácito que os homens gostam de sexo; gostar de sexo não os desonra perante os amigos ou a família; não os torna vadios nem dignos de censura. Pelo contrário. As raparigas espevitadas é que trilham mau caminho e são malucas; para os rapazes é a ordem da natureza, e, desde que usem preservativo, não existe problema. Ajuda-os a fazerem-se homens. Às mulheres, ajuda-as a ser putas mais cedo. Para que a relação mulheres-sexo seja socialmente pacífica, elas não poderão ser agentes, mas sujeitos. Vejamos o caso em que são elas quem compra o serviço de prostitutos. Não é uma prostituição menor. Mas se o consumidor for uma mulher, o prostituto é desculpabilizado e mantém intacta a sua dignidade. A desonra recai, neste caso inversamente, sobre quem consome. Elas é que são as putas.
Hoje, os valores humanos e as questões de dignidade pessoal e social são superadas pela sua utilidade económica. No entanto, e lá volto eu, há actos que permanecem iguais na sua natureza. É óbvio que se o tráfico de órgãos fosse legalizado e tributado, estes poderiam chegar ao destino em melhores condições, e mais rapidamente, optimizando o sucesso das cirurgias. Não tornaria o tráfico mais digno ou aceitável, embora regulamentasse condições e preços.
Não creio que obrigar prostitutas e prostitutos a manter uma tabela de preços actualizada dignifique o acto. O carácter obrigatório do uso de preservativo e da desinfecção de utensílios ou roupa de trabalho, bem como a limpeza obrigatória dos estabelecimentos, não legitimam a actividade, porque não a dignificam – garante mais limpeza. A pedofilia de quem toma banho todos os dias não é diferente da daquele que vê água e sabão só aos domingos. A limpeza do objecto de desejo também não altera a natureza do que é praticado. O carácter voluntário da prestação de serviços, ou o preço que se paga, igualmente não o dignifica. Um pedófilo não é menos culpado porque pagou bem a uma criança, ou porque a miúda tinha as hormonas em estado de sítio e queria tanto ou mais do que ele. Em literatura, considero Lolita uma belíssima obra, e aconselho-a. Na vida, a provocadora Lolita é tão vítima como a sua mãe, e o amor-obsessivo que o protagonista desenvolve por ela não branqueia o que ali se passa de indignidade.



Roy Lichtenstein, Ball of Twine, 1963


Os objectos, as ideias, os valores não são apenas o que deles compreendemos, mas o que realmente são. Podemos pensá-los e usá-los de diferente forma, nas não os modificamos. As putas e os clientes podem gostar do que fazem, mas isso não torna a prostituição defensável. Nem a pedofilia. Nem o tráfico. Nem a corrupção.
Um adolescente compreende facilmente a Alegoria da Caverna. Sabe distinguir entre objecto real e a sua sombra, o que é real e o que fazemos parecer real. Aquilo que julgamos ser e o que realmente somos. O bem e o mal, o certo e o errado. O claro e escuro convivem e geram equilíbrios. É essa a natureza dos opostos: equilibrarem-se. A vida resulta desse equilíbrio. Mas o claro não é escuro nem o escuro, claro. A indignidade da prostituição não reside na prática de sexo, mas na inadequação desse consumo ao que é imaterial num corpo. É muito bom que o corpo possa ser usado para atingir satisfação, saciedade. Mas nem tudo o faço do meu corpo, ou do corpo alheio, o nobilita. Por exemplo, se defender que o canibalismo ou o assassínio são actos indignos, não causarei controvérsia. A automutilação também constituí uma forma pouco saudável de usar o corpo. Na verdade, sentimos que o corpo imaterial não é próprio para determinados fins. E é essa inadequação que suja e rasga na(o) prostituta(o) o diamante que é o seu sopro de vida, as suas ilusões infantis, o que guarda na memória, o rosto do pai e da mãe, um cachorro que morreu, aquilo que amou. O consumidor precisa de apagar na prostituta a mulher, para a ressuscitar como indigna, e dessa forma comete o crime do qual depende o seu prazer.
Por outro lado, a rentabilidade do corpo prostituendo baseia-se na assumpção de indignidade da imaterialidade que o anima. Ou se é puta ou se é digna. Para o consumidor não há dignidade no próprio consumo. Como se fôssemos ao supermercado comprar iogurtes e escolhêssemos, por prazer, e para consumo, os estragados.
Mas maginemos que uma irmãzinha de caridade se prostituía para conseguir fundos que ajudassem ao tratamento da lepra numa dada população. A irmãzinha é pura, claro. Embora rezasse devotadamente todos os dias, e o seu espírito não pudesse tornar-se impuro por uma actividade a que se entregava como forma de angariar fundos para a caridade, e todos o soubessem, a irmãzinha transformar-se-ia, para o consumidor, numa puta indigna, sendo que esta expressão é uma redundância. Uma freirinha que se prostitui não é freira, é puta. Tornou-se um produto estragado; o prazer que tiro do seu consumo depende da impureza com que passei a considerá-lo.
Nunca fui ao Bom Dia, Portugal e, portanto, aceito que não me concedam créditos para abordar o assunto, mas posso aconselhar uma visita ao site da Associação O Ninho, dirigida por Inês Fontinha, que há 40 anos dá apoio a prostitutas, e fala disto muito melhor que eu.
O ano passado, Inês Fontinha foi candidata ao Nobel da Paz, mas, para muitos, Inês Fontinha, não passa de uma como as outras, porque quem se junta a um coxo...

domingo, maio 14, 2006

Da regressão como ascese ao reino dos céus

Não me apeteceria concluir doutoramento para subir de escalão nem ler os clássicos para parecer inteligente nem dissertar sobre teologia das ciências como se pudesse compreender o mundo. Ler para quê? Para que me serve tudo o que leio? Para pensar sozinha ou escrever no blog? Não estou a ironizar: tudo isso é vão; não me me serve para conversa com os colegas no bar do emprego nem com os conhecidos no café. Não me serve para seduzir rapazinhos de 20 e tal anos. Trintas no máximo,verdes de emoções, mas com milénios de experiência física. Só me isola. Enerva-me. Traz problemas. Queria alcançar metas que me tornassem objectivamente feliz, como ir a Fátima a pé movida por indiscutível fé; passar 15 dias de férias, seguidos, num aparthotel da praia da Rocha; ser do mesmo clube do meu marido e desmaiar na carpete da sala quando a selecção nacional disputasse uma vitória aos penalties. Melhor: ser fã do Tony Carreira, achá-lo giro, e sentir-me excitada quando o visse a escorrer suor nos concertos. Achá-lo natural. Achá-lo sensível. Contar bem anedotas. Ser fixe. A partir de Março, comer apenas sopa e salada ao almoço, nunca me esquecer do creme nutritivo à noite, nem do Roc anticelulítico, de manhã e ao deitar. Quando gostasse de uma pessoa, nomeá-la, carinhosamente, "porquita!", ou cumprimentá-la expressivamente, na sequência de um encontro inesperado, com um exuberante e familiar, "ó meu caralho, o que é que andas por aqui a pastar?!" Usar calças com cintura descaída. E top curto. Mandar fazer um pircing no umbigo, e, talvez, tatuar no ombro, um dragão enrolado em rosas e espinhos.
Mas um anjo, a noite passada, revelou-me, em sonhos, ser mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que vir eu a entrar, um dia, no reino desses céus.



sábado, maio 13, 2006

Das coisas de que não se fala

Nunca falamos das putas: da sua tristeza, da sua generosidade, do seu desalento, da sua tão dissimulada alegria, da sua surpreendente magnificência, das suas lágrimas, do seu choro quando verdadeiramente as amamos e elas nos amam.

Às nove da manhã

Gosto assim das meninas: muito ciosas das suas maminhas generosas, muito dignas no andar de modo a que o salto alto lhes levante a nádega presunçosa, muito ignorantes da sintaxe e muito orgulhosas disso, muito perfeccionistas no jeito de arredondar a unhazinha do pé, muito desastradas no enrolar do primeiro caderno do Expresso. Não o digo com orgulho: é um meu tão censurável defeito antigo, eu sei: ainda assim pergunto que dizer de vê-las e desejá-las com o cílio arreganhado fio por fio, desassossegadas por mor do putativo esborratar do baton, com o sobressalto de por um instante breve lhes descair ou erguer-se um milímetro a linha da cintura, com o desassossego de ser-lhes o rouge demasiado ou ligeiramente escasso. Claro que podemos sempre falar de quotas e outras coisas assim sérias, graves –- mas, oh, as meninas que temem que o mundo acabe às nove da manhã…

quinta-feira, maio 11, 2006

Evolução das espécies: a seleccão natural na fauna ibérica e mediterrânica

A natureza das espécies é evolutiva. Alguns animais, inclusive dentro da mesma espécie, denotam maior capacidade adaptativa do que outros. Os que se adaptam a novos ambientes e comportamentos gerados pela evolução natural, sobrevivem e prevalecem. Foram capazes de se transformar; ou seja, evoluíram. Se assim não for, genes e cromossomas não conseguirão transmitir-se às gerações seguintes: o exemplar perde os seus atractivos procriativos e está irremediavelmente condenado à extinção. É a selecção natural. Inter ou intra-espécie não sobrevivem os animais mais fortes, mas os mais flexíveis, os mais hábeis, os mais inteligentes. Esses, evoluindo, tornam-se posteriormente os mais fortes.
Como ecologista, tenho assistido, com tristeza, ao desaparecimento de espécies incapazes de se adaptarem a novas situações. Lamento, porque, mesmo que o animal, em si, pouco contribua para o equilíbrio dos ecossistemas, ou não sirva para aproveitamento humano (óleo de fígado, osso, chifre), pode dar-se o caso de possuír bela pelagem ou plumagem, demonstrar hábitos curiosos, como dormir sempre para o mesmo lado, ser capaz de se entreter toda a vida com a mesma bola de lama, bater as asinhas de forma original e inúmeras outras idiossincrasias do reino animal.
Como amante da ciência, o meu sonho, e o de todos os paleontologistas, seria ter podido manter vivo, mesmo que protegido, pelo menos um dinossauro. As visitas de estudo de Ciências da Natureza tornar-se-iam mais ricas, ilustrativas e excitantes. É sempre preferível observar os animais em acção, como nas quintas pedagógicas.
O lynce ibérico, ocorre-me agora, é um raro exemplar faunístico, no nosso território, bem como o lupus lupus e a raposa raposa. Infelizmente, os animais ibéricos, em particular, e os mediterrânicos, em geral, revelam extremas dificuldades adaptativas a recomposições dos seus habitats tradicionais. Isto, a médio prazo, poderá levar à sua natural mas impiedosa extinção. Entre as espécies ameaçadas encontra-se o macho humano. Pessoalmente, custa-me, porque a gente ganha afecto aos bichos, embora deixem pêlo por todo o lado, mijem em cima dos tapetes, e sejam um sumidouro de dinheiro em ração e vacinas.


As dificuldades de penetração

As mulheres têm maiores dificuldades de acesso a lugares de chefia ou decisão, a um assentozinho no Parlamento Europeu, a uma propina no conselho de administração do Metro? Parece que sim. Por razões culturais, sociológicas, fisiológicas, sócio-económicas, as mulheres concorrem num mercado feroz com desvantagens de partida assinaláveis. É o caralho. Homens menos capazes levam-lhes, tantas vezes, a palma.

Ponto: uma sociedade democrática, moderna, evoluída, só tem a ganhar com o fim destas actuais disparidades que resultam, em regra, em desigualdades óbvias, em injustiças frequentes, numa subalternidade das mulheres que leva a que ainda hoje se publiquem anúncios oficiais a recrutar «secretárias» e não «lugares de secretariado».

Há uma maneira simples de resolver esta questã, este imbróglio, este gravame sem lógica: estabelecendo um sistema de quotas. A partir de um determinado momento, o conselho de administração das Águas de Portugal, onde pontificam cinco marmanjos, passará, por decreto, a ser constituído por duas mulheres e meia e dois homens e meio (até porque num sistema de quotas não será difícil o recrutamento de meias mulheres e meios homens). E na assessoria da Secretaria de Estado da Justiça, é um supor, haverá quatro macacos e quatro senhoras. É para isto, mais ou menos assim, que caminha a nossa legislação e o nosso entendimento do que é, ou deverá ser, o lugar da mulher numa sociedade digna do seu nome.

A opção compreende-se, enfim, mas: a verdade é que se atacam as consequências sem a mínima preocupação com as causas. Não se discernindo que a injustiça aumenta, que os desequilíbrios são, por esta via, acentuados.

Uma minha muito querida amiga, quase tão ambiciosa e cúpida como ignorante, gaba-me o sistema das quotas e, diligente, esclarece: sim, as mulheres com filhos, sobretudo sendo ainda de mama e exigindo da mamã os desvelos e a costumeira e consabida atenção, vê-se mais impedida de acesso a lugares com exigências grandes de disponibilidade de tempo; mas o sistema de quotas permite ultrapassar tudo isso: ela, agora, vai-se candidatar à comissão política do partido e passa, de rompante, dezasseis notáveis do sexo masculino; acede, portanto, à estrutura;
e, entrementes, paga a uma senhora que lhe fique em casa a tomar conta dos filhos.

Eis como, pelo sistema de quotas, se restabelece e se impõe um sistema justo de igualdade entre cavalheiros e senhoras no acesso aos lugares de decisão.

terça-feira, maio 09, 2006

A criação da mulher mutante

A revista Maria e congéneres, em tempos, foram úteis para as mulheres e contribuíram para a educação pública, ensinando o que faltava na escola, na família e no grupo social do café.
Nunca fui leitora assídua, mas apanhava os exemplares das colegas, os que encontrava nos consultórios, e mantinha-me informada. Sempre gostei de revistas cheias de conselhos sobre como tirar nódoas da roupa, diluir a catástrofe do sal em excesso na sopa, remendar erros de tricot, rega das sardinheiras, preenchimento e entrega de impressos de irs, solução de conflitos sociais, conflitos conjugais.
Foi assim que aprendi a fazer bolo-mármore com os tais efeitos psicadélicos do chocolate misturado à massa tradicional.
Estas revistas eram de leitura bastante gratificante, porque, a par dos conselhos práticos, motivavam as mulheres para uma vivência saudável e desinibida da sexualidade, motivavam-nas para o desenvolvimento de competências vocacionais fora de casa e da família, ensinavam-lhes uma nova forma de relacionamento com o parceiro, em que ambos tinham valor e responsabilidades por igual... Eu, que era uma menina de cidade, aprendi muito, pelo que posso intuir o impacto civilizacional que estas revistas terão tido naquilo a que chamamos província, e, nessa, no interior; e aí, em zonas congeladas no tempo.
A Maria e congéneres formaram uma geração de mulheres: a minha. Foi aí que aprendemos que a masturbação não provocava borbulhas nos rapazes, que não era um pecado mortal, que memorizámos desenhos com a fisiologia dos órgãos sexuais e aprendemos o que eram a uretra e as trompas de falópio, que seria possível engravidar praticando coito interrompido, mas que, sentarmo-nos numa sanita, seria inofensivo nesse aspecto, embora pudéssemos contrair fungos, bactérias, e o diabo a sete.
O consultório sentimental, que depois passou a sexual, sempre foi a primeira secção lida na Maria. Todos tinham vergonha, mas todos liam às escondidas, ou então em grupo, à gargalhada. Achávamos as perguntas ridículas, mas líamos as respostas, sempre formativas. Surgiam muitas questões sobre sexo na adolescência e a normalidade de certas práticas sexuais; rapazes, raparigas, homens e mulheres desfaziam mitos sobre contracepção: fazer amor de pé, afinal, não evitava a gravidez, e lavar muito bem a vagina com Bétadine, após o sexo, também não; mostravam-nos desenhos de diafragmas, preservativos enrolados e desenrolados, embalagens de pílulas e espumas e óvulos espermicidas. Explicavam muito bem os efeitos, e todos os aspectos práticos. Aconselhavam a visita a médicos, formas de falar com os pais em caso de acidente. Era muito bom, para dizer a verdade. Ensinava de forma despreconceituosa, informal, muito livre. A revista libertava-nos. Dos pais, dos professores, da pressão dos pares, dos preconceitos todos.


A Maria merecia que lhe fosse prestada a devida homenagem. A Maria antiga, até aos anos 80 e tal, noventa e pouco. Hoje, é insuportável; é o contrário do que foi. Os artigos de capa não formam, apenas legitimam as tendências sexuais e sociais da moda. Consistem em conjuntos de regras tiradas do senso comum cultural sobre como prender um homem, sendo diferente na cama todos os dias; como prender um homem, realizando as suas fantasias sexuais; como prender um homem, cozinhando com especiarias; como prender um homem, usando artigos de sex-shop; como prender um homem de toda a maneira e feitio, porque a obsessão é prender o homem que se vai embora se não formos uma espécie de bonecas insufláveis falantes. O medo de perder o homem, e o que fazer para o evitar, é o assunto favorito. Depois, sexo diferente: prenda-o à cama, deixe que a prenda, tape-lhe os olhos, vista-se de enfermeira ou então de Batwoman; as maravilhas do sexo anal: deixe que o seu companheiro a inicie numa experiência nova - não, peço desculpa, estou a enganar-vos, agora é: seja tolerante e deixe que o seu companheiro lhe mostre que a penetração vaginal também é possível; que não é obrigatório usar algemas na cama e rasgar 3 conjuntos de lingerie de renda por semana. Há uns anos, os homens escreviam para o consultório sexual colocando questões sobre como convencer as mulheres a fazer aquelas coisas rudes e excitantes que viam nos filmes pornográficos, tipo penetração anal, dupla, sexo oral, esfregar o pénis numa parte qualquer, porque elas queixavam-se, não queriam, não era romântico. Hoje em dia, os mesmos homens escrevem a queixar-se: desejam sexo normalzinho e as mulheres só têm prazer de empurrão. Não queria dizer isto, mas não posso tapar o sol com a peneira. Isto construiu-se a pouco e pouco. Não se aprende a reciclar o lixo, é chato, mas se para prender um homem temos de nos converter ao sexo nasal, vamos lá alargar as narinas! Também leio perguntas de meninas de 20 anos pretendendo saber se se pode alternar entre anal e vaginal, tira aqui, mete ali, sempre com o mesmo preservativo. Acho bem que esclareçam as dúvidas, por motivos de saúde pública, mas o que leio e não está escrito, mostra-me que a revista existe, hoje, para divulgar e legitimar práticas sexuais que aprisionam as mulheres mais do que libertam. Aprisionam-nas a um conjunto de comportamentos que não têm como objectivo a sua realização pessoal ou profissional ou sexual, mas a dos parceiros. Aprisionam-nas à ilusão de que são livres, e, por isso, as mulheres têm horror a isso do feminismo. Não são feministas, mas femininas, e desfiam todo o discurso masculino sobre o assunto. Bem aprendido. Ensinam que somos livres na medida em que praticamos sexo livremente, alternativamente, com direito legal à contracepção, ao divórcio ou a viver em união de facto. Estimula-se nas mulheres um conjunto de medos que deviam ter já sido ultrapassados por uma pessoa realmente livre; medos relativos ao aspecto do corpo, ao que se veste como roupa interior ou exterior, promovendo uma série de consumos relacionados com sexo: roupa, produtos de beleza, produtos de estimulação, tratamentos corporais. As mulheres têm, assim, maior temor a umas mamas flácidas que a um tumor mamário. Ter barriga é uma catástrofe irremediável; a celulite justifica a total exclusão social. E é curioso que assim seja, porque tudo isto é parte do corpo feminino, como a barba e os músculos o são do masculino. As mulheres têm mamas flácidas após amamentar; aparece-lhes barriga e celulite assim que as hormonas acordam. A ideia consiste em transformar o corpo feminino num objecto mutante, permanentemente sujeito a recomposições, para que possa servir um ideal de prazer. Não se coloca a hipótese de uma mulher gostar da barriga e das mamas que tem. Todas estão, à partida, em falha. Todas devem odiar o seu corpo e desejar o da modelo da revista. Nenhum corpo real deve ser autorizado.

A revista Maria, e as outras, hoje, porque precisam de vender, e têm de acompanhar a cultura do tempo, não fazem mais que reflectir o culto do sexo como valor primeiro, como sucedâneo da heroína e de todos os outros prazeres que o estado limita. Não fume, compre um vibrador. Não coma, ponha silicone nas mamas. Não beba álcool, faça uma lipo-aspiração. Não foda à antiga, encene o sexo, compre adereços, e obrigue o seu corpo a decorar um texto autorizado: o de que somos todos sensuais deuses do sexo, temos todos intenso, inenarrável prazer numa vida sexual única, irrepetível e melhor que todas as outras, mesmo que tenhamos saudades de, em resumo, levar ou dar uma na enfadonha posição do missionário. Mas hoje é uma vergonha, isso do missionário, portanto iniciam-se as manobras pelo sexo oral, que não é coisa nada íntima para começar. Mas o que é isso da intimidade? Proporciona orgasmos plásticos?

Tive um namorado que me beijava no porão do cacilheiro e me masturbava com cuidado, por debaixo da roupa, não fosse alguém aparecer. No outro dia encontrámo-nos e lembrámos esse tempo, e sorrimos. Era muito bom. A certa altura, confessou-me que a recordação mais erótica que guardava do nosso namoro era tão simples quanto isto: estávamos em casa dos meus pais, à porta, prestes a sair; enquanto eu falava com a minha mãe, marcando hora para chegar, meteu-me a mão por debaixo da saia só para me tocar o rabo, clandestinamente, mas encontrou um rasgão no collant, entre pernas, por onde fez deslizar dois dedos, que sentiram, para sempre, a textura e o calor dos meus pêlos púbicos. Talvez ele se tenha libertado da memória. Eu, que fiz um esforço para me lembrar, terei de viver, agora, desassossegada por esta imagem fantasma de uma luxúria tão inesperada quanto inocente. Ele tocou os meus pêlos púbicos através de um rasgão no collant. Era Inverno, portanto. Devia estar frio. Isto nunca mais voltará a acontecer.

O corpo de Deus






Desenhos de
Júlio Pomar

segunda-feira, maio 08, 2006

Sexo e equívocos sobre liberdade sexual

A liberdade sexual confundiu o público-alvo e tornou-se uma tendência da moda, como usar transparências ou snifar linhas de coca. Algumas práticas são tendências. Agora, que o sexo anal, tão popularizado pela massa gay, a qual nos veio lembrar que todos tinham rabinho com terminações nervosas, se encontra em decadência, estamos em plena era sado-masoquista. Agora, o que está na moda são as correntes, os inibidores do andar, os açaimes, os cintos de castidade, os chicotes genitais, a obediência, a prática do poder, a humilhação total, a pancada até ao limite do prazer-dor, às vezes um pouco mais além. É só uma tendência. Eu, sinceramente, prefiro a moda dos sapatos de cunha.
Liberdade sexual não deveria ser entrar por aí a foder a torto e direito tudo o que mexe, todos os dias, a todas a horas, todas as pessoas que correspondam a um estereótipo fodível. Que o sexo seja livre, mas que o desejo venha puro e macio e digno. Que não sirva para magoar o outro. Que seja uma benção pagã, física e mental. Não é preciso fazer muito, mas que se faça com mútua entrega, que seja absoluta com o parceiro. Com o fito nesse ideal. Depois, a respiração e os batimentos cardíacos retomam os valores normais, e tudo se acalma até ao próximo tsunami.
O sexo não é moda. Não é assim como "vamos enrolar um charro, bora lá, pá". O sexo é um poderosíssimo instrumento de poder, de crescimento pessoal, social, de amadurecimento. O sexo torna-nos melhores.




Palavras interditas como foder

Trazia-me ramos de rosas vermelhas em número ímpar, porque eram as suas preferidas. Eram paixão.
Despia-se meticulosamente, lavava as mãos, perguntava se podia, e montava-me, seriamente, sem grande jeito, rápido demais, como se o coito fosse uma actividade sujeita avaliação de 0 a 20, uma obrigação a cumprir com êxito, mecanicamente. Nunca sorria nem falava durante as três posições que exercitava comigo, sempre pela mesma ordem: primeiro, ele em cima; segundo, eu em cima; terceiro, ele atrás. Antes de ejacular, porque, se ejaculava, era nessa posição, perguntava-me, "posso?". Sim, podia, porque, para dizer a verdade, já me doíam os rins, e ardiam-me os cotovelos, do atrito contra os lençóis. Quando murmurava algo que não percebia, parava a função e perguntava-me, "não percebi, o que estás a dizer?". "Nada", respondia-lhe, "só que é bom". "Gostas?" "Sim, continua". Na verdade, para me entusiasmar sozinha tinha dito qualquer coisa absolutamente interdita como "fode-me" ou "dá-mo todo", consciente de que isto, com ele, seriam quimeras. Se gostava, levava com mais força, não melhor. Mais rápido, penso. E como se esforçava naquilo! Queria tanto sair-se bem. Era trágico participar na cena como interveniente.
Trazia-me ramos de flores e, quando conseguia foder-me, fodia mal. Molemente. Era boa pessoa. Mesmo bom. Bonito. Carinhoso fora da cama. Pagava-me os lanches. Levava-me a passear. Esforçava-me por não sentir pena dele, mas sentia. Dele e de todos os homens que desejam muito, mas temem pegar nos seus corpos e nos nossos, e tratá-los como carne, trincando, saboreando, segurando na boca, amachucando, sugando, cheirando, apalpando onde há em demasia, empurrando, esmagando, tocando os pelos em pé, muito suaves, ensalivando, marcando de fluídos. E dizendo coisas sem saber bem o quê.
Aos 40 queremos ser bem fodidas. Gostamos. Já não é só a brincar, embora se brinque pelo meio. Queremos sempre, mas aos 40 não temos tempo para esperar que o futuro venha a correr melhor. Queremos agora, porque os mamilos estão mais sensíveis, a pele toda, porque perdemos a vergonha das convenções sociais e somos mais capazes de esquecer tudo, lá fora, para sentir dentro o que importa. Prazer. Aos 40 queremos o prazer e já não fazemos fretes.
Queremos que os homens nos tragam flores e sejam boas pessoas, que rezem, mesmo, mas que, ao terminar o terço, nos segurem bem, e abusem de nós com autorização, beijando-nos devagar, e acabando por nos fazer guinchar como animais. Eu, tudo o que quero, é guinchar como um animal. Ser um animal sem segundos sentidos. Morrer todas as mortes a que me poupei por pudor, inútil vergonha. Por excesso de consciência.

domingo, maio 07, 2006

Verdade

Foto de Gregory Colbert


Excluindo o sol, a nudez e o parto, o silêncio, o cheiro das árvores, dos arbustos de jasmim e de arruda, e o das trepadeiras de rosas e de estrume fresco, quase tudo o que vi, ouvi e percebi foi mentira.

Custo de vida

Para mim sempre foi tudo muito caro.

Tens uma letra tão bonita!

Aprendi a escrever maiúsculas e minúsculas copiando-as para um papel muito transparente, que prendia sobre a pauta com um clip. A pauta era o que as letras deveriam ser; a minha caligrafia não passava de uma distorção da perfeição. Travei uma luta inglória contra o desenho da minha letra, sempre muito miúda, com as letras entrelaçadas umas nas outras, separadas apenas pelo til e outros acentos despropositados. Detestava escrever algumas consoantes desequilibradas, cujo desenho está errado de base, sobretudo as das “pernas”, f, p, r. Os meus guês e ésses eram iguais. O traço da caligrafia tinha de deslizar redondinho, com curvas muito acentuadas, como se fosse um fio de cabelo encaracolado, flexível como um acordeão que abre e fecha. Esse é o carácter da minha caligrafia, contra o qual lutei. A minha letra de criança num caderno antigo, visivelmente insegura entre a norma e o desvio, com palavras no meu estilo caligráfico, e as outras, da maneira certa, porque me lembrei que os agás da pauta eram mais bonitos. A minha Cidade e as Serras anotada nas margens, aos 15, com as consoantes buscando um compromisso entre o que deveriam ser e o que queriam tornar-se. Vigiando-se. A caligrafia como retrato muito fiel da estrutura identitária que vamos erguendo. Por exemplo, a minha assinatura no bilhete de identidade, que já não sou eu. Esforço-me por copiá-la nos documentos oficiais. Parece que me estou a falsificar. Estou mesmo.
Com a minha letra a crescer, e a da pauta, e as duas sucedendo-se, escrevi milhares de cartas, milhares de páginas de apontamentos, de notas, em casa, na escola, nos transportes públicos. Ao longo da minha vida escrevi muito mais do que falei. Tenho pena que não se possa resolver tudo escrevendo. Quando terminava uma página observava de longe o efeito geral. Era elegante? Equilibrada? Não, havia ali uma dissonância! Não tinha conseguido manter o ritmo. Aqueles éfes não assentavam na composição. Manuscrevi pela segunda vez inúmeros documentos que se destinavam a outros, porque a letra não me agradava. A caligrafia não era apenas um meio de comunicar, de me exprimir, mas um objecto plástico muito personalizado mantendo, na raiz, as regras básicas: o modelo da pauta. Cultivava a caligrafia, orgulhava-me dela quando o efeito final era harmonioso.


Escrever à máquina era rápido, mas nunca me satisfez. Quando me enganava era praticamente impossível que a tira de papel-corrector ou a borracha de tinta não deixassem uma miserável mancha, quase sempre pior que a nódoa de uma letra simplesmente batida sobre outra. O processador de texto resolveu esse problema. Hoje conseguimos produzir textos bonitinhos, escolhendo tipos de letra originais, que obviamente não são os nossos. Na verdade, hoje, ninguém precisa de desenvolver uma caligrafia pessoal, porque já ninguém manuscreve. Tecla-se. É uma limpeza. Se tivesse de manuscrever este texto levaria o dobro do tempo. E, no entanto, seria tão bom manuscrevê-lo.
No trabalho, exigem-me textos impressos; ninguém quer ler a minha caligrafia, e já não serve para nada. Já ninguém diz, “deixa-me ler a tua letra, escreve-me uma carta com a tua letra tão bonita”.
Sei de cor as caligrafias de todas as pessoas que conheci. Vejo-as de olhos abertos. Sei como são os às, os vês.
Nos concursos públicos, na entrega do irs por via electrónica já ninguém precisa de assinar. Fornecem-nos uma palavra passe, constituída por uma sequência aleatória de algarismos e letras. Temos códigos para tudo. Não sei a data de anos de ninguém, mas vejo-me obrigada a guardar na memória dezenas de sequências de códigos estúpidos. Na sexta, li que os ministros vão passar a promulgar leis via mail, mediante submissão e consequente aceitação de um código, o qual os identifica como ministro ou ministra x. Já não é preciso aprender a assinar. Precisamos, apenas, de sistemas de segurança para guardar todos os códigos. Um cofre para códigos. Agora, isso chega.

quarta-feira, maio 03, 2006

Vida intelectual

Uma vai buscar um livro de culinária. Lê. A outra pega num volume encadernado sobre como fabricar jóias a partir de materiais recicláveis, e não lê. É pretexto para se sentar e conversar, enquanto passa os dedos pela capa e os olhos, de raspão, pelas ilustrações brilhantes.
São novas. Estão velhas. Têm medo e vergonha. Calam-se e estão gastas, cansadas, insatisfeitas e conformadas. A maior parte das pessoas traz a vida inteira a cair-lhe da cara, nos lábios, nos olhos. Calar não esconde o que julgam poder esconder.
A primeira procura receitas de beringela. Explica devagar como se prepara. Tira-se a parte negra, corta-se aos bocados... a outra nunca comeu essas modernices... beringela. Foi ao psiquiatra, mas o homem deve estar maluco. Receitou-lhe um novo antidepressivo que pode ter efeitos secundários sobre o fígado, e ela já teve hepatite! Ele devia saber. Monologa cinco minutos sobre o assunto. Telefona ao médico, ó doutor, ontem, receitou-me aqui um sepsil ou gepsil, isso... e é o seguinte: fui à farmácia aviá-lo, mas isto faz-me mal ao fígado, doutor ... sim... doutor, vejá lá, porque eu já não tenho um fígado. Não... pronto, está bem.. se posso, então! Desliga. Afinal posso, esclarece. Espero que não esteja enganado, senão ainda me dá alguma coisa. Mas uma pessoa toma tantos medicamentos que quando morrer nem o corpo se consegue corromper; ela não diz corromper, não se lembra da palavra; ironiza: se calhar vou ser cano..., ai... cano quê? A outra responde, canonizada. Isso, é assim que se chega a santa. A outra sorri placidamente enquanto estuda a beringela. Iniciam breve conversa sobre santas cujos corpos permanecem incorruptos. É dos genes, concluem.
Voltam às receitas. Ontem, a primeira fez sopa de alface. Estava boa. A segunda diz que a sua é sempre do mesmo: feijão verde, cenoura e couve-flor. A primeira faz arroz de tudo, até de favas. A segunda come sempre dieta. Falam mais baixo, de algo íntimo que não devo ouvir; levantam-se, vão ao bar. Que alívio!

segunda-feira, maio 01, 2006

Fui eu que encontrei D. Sebastião


D. Sebastião nunca teria regressado se não o tivesse procurado esperançosamente, vasculhando todo o norte de África até à Palestina, entrando em todas as casas, que pedi licença para revistar, e esquadrinhando cada metro quadrado de solo no deserto, nos oásis, e mesmo os lugares onde os bichos tinham já desaprendido o cheiro dos homens, que daí desviavam rota há milhares de anos. Ia varrendo minucioso terreno, e o que ficava para trás estava varrido, bem varrido, não valia a pena voltar. Por muito que demorasse, era assim que se devia fazer. Havia uma ordem na busca.
Uma coisa de cada vez. Sempre pensei assim. Agora isto, depois aquilo, e neste exacto momento o que me parece mais importante. É preciso esperar. Não morreu, vou encontrá-lo. Isto era uma fé, e só isso; e a fé, sendo indemonstrável, era a certeza absoluta pela qual estava disposta a oferecer os dias da vida. Esperava encontrá-lo no meio dos outros homens, vestido de igual, com o mesmo tom de pele, adaptado. Mesmo assim, buscava-o nos lugares isolados, porque tinha de fazer todo o caminho, todo, sem atalhos, sem falhar qualquer dos pontos marcados no mapa.
D. Sebastião não esperava emissários do rei, que há muito tinham desistido de saber notícias suas; estava certo que já ninguém largaria o conforto da fama e da riqueza, ou do hábito, para percorrer tenazmente o caminho que levaria até si. Subestimou a natureza humana. A minha. Porque eu também tinha cinco dedos no pé direito, e uma estranha marca genital, e adivinhava coisas, e tocava flauta como ninguém, por isso eu procuraria o meu irmão, percorrendo toda a terra até às entranhas de lava, e depois o mar, e o subsolo do mar.
Num domingo de sol claro, vivo, alcancei, de tarde, a praça central de Al Csre e divisei a sua figura imóvel sob a luz larga, inteira, fitando-me ao longe. Estava exactamente no meio de outros homens. Mulheres passavam falando. Crianças corriam à volta da praça. Outros homens jogavam absortos sob as arcadas ou olhavam sem destino.
"És D. Sebastião!”, afirmei. “Sou”.
“Vim para te encontrar.” “Porque quiseste?”
“Porque quis e porque não podia desistir, sabendo que estavas vivo.”
"Como sabias?” “Pela lógica, sabia.”
“Perdi o Norte; não podia regressar. Depois não quis regressar. Não havia a que regressar.” “Encontrei-te, e agora podes vir.”
“Quis ser encontrado.” "Tanto faz; podes vir."
Não tinha importância. D. Sebastião, o meu irmão, regressou comigo. Pelo caminho falámos do amor, usando, para nós, palavras e os gestos que os outros achavam ridículos. Eram as únicas palavras do amor. As mais arcaicas. As do rito. Como se falássemos uma língua universal só nossa, que ninguém entenderia, porque havia deixado de se falar e caíra em desuso, o que era deveras estranho. Falámos essa língua todo o caminho e, quando chegámos a Lisboa, todos se espantaram. O Regressado estava ali. Quiseram falar-lhe, oque fizeram, mas ele não podia responder em português, já só na linguagem arcaica do amor. Pediram-me que traduzisse, mas eu também tinha desaprendido a minha língua, e falava apenas o amorês, porque o caminho de regresso havia sido longo e o faláramos muito, afogando-nos nessa língua tão doce, tão húmida, tão placentária.
Pediram-lhe que salvasse a pátria, porque eu era apenas uma mulher, mas D. Sebastião respondeu, em amorês, que preferia salvar-me, porque eu o tinha buscado, e o tinha salvo. Explicou que a minha boca era doce, e o meu corpo, morno, e cada um dos meus poros era uma pátria, portanto, eu era todas as pátrias. Só eu entendi. Os restantes riram, mesmo não tendo compreendido. D Sebastião largava o reino para poder falar comigo uma língua que ninguém usava, que era tão ridícula, o amorês. Estava louco. Todos sabiam amorês, era uma linguagem inata, mas ninguém usava essa faculdade sem cair em descrédito. "O amorês!", e riam-se.
Partimos em direcção ao lugar de onde eu havia saído, e ficámos juntos, falando amorês. O meu irmão estava comigo e eu com o meu irmão, e o círculo ficara completo.
Como éramos loucos, mas não incomodávamos ninguém, deixaram-nos em paz, falando amorês até ao últimos dias; as mulheres comoviam-se, de vez em quando, quando passavam e nos ouviam falando tão livremente a nossa língua. Diziam, "os malucos são sempre os mais felizes!"

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...