quinta-feira, junho 29, 2006

Como avaliar os professores malucos?

Nunca conheci um professor que gostasse de avaliar; é ingrato; quase sempre injusto. Mesmo em ciências exactas é difícil avaliar justamente as aprendizagens. Um bom aluno pode mostrar-se incapaz de realizar um exercício específico, e ter aprendido muito mais do que qualquer outro, globalmente; ser excelente. Por isso, classificações obtidas numa situação de avaliação nem sempre reflectem a aprendizagem realizada. Os professores sabem-no; o ministério sabe-o e, anualmente, emana despachos normativos e circulares inúmeras aconselhando moderação, ponderação, discussão das classificações, que são apenas sugeridas pelos professores das disciplinas, e aprovadas, ou não, pelos conselhos de turma.

É difícil garantir que o aluno da carteira da frente vale exactamente 3 quilos duzentos e cinquenta, e não mais nem menos. A aprendizagem tem portas do cavalo que a avaliação não consegue quantificar. Numa aula, acontece não se aprender o tema da lição, mas outro assunto que não se tinha compreendido antes, no qual não se tinha pensado, ou no qual se vinha pensando sem solução. Faz-se luz de repente. Foi uma aula inútil?
Um bom professor produz este tipo de conhecimento. Flexível. Activo. Crítico. Multidisciplinar. Autosuficiente.

Os alunos de 20 não são necessariamente os mais capazes, mas não é possível negar que sejam quase sempre exemplarmente organizados e disciplinados; cumprem as regras; apresentam soluções convencionalmente certas, mas nem sempre resplandecem, voam. Frequentemente estão presos ao chão com uma cola toda feita de ordem, medo e obediência. Sabem definições de cor. Datas. Fórmulas. Memorizam a gramática de uma ponta a outra, os compêndios chatos, e sabem distinguir conjunção de locução conjuncional. Quase sempre se portam muito bem. Não têm grande sentido de humor. Nem sempre são criativos, mas produzem moeda-classificação. Ouvem-na cair.


Marcovacca, Angola

Os professores do sistema, sentadinhos na secretária, com seus fatinhos de saia e casaco de fazenda azulinha ou de calça e casaco, cinzentinhos, as mãozinhas brancas de dedo curto com aliança, muito graves e científicos, gostosamente entalados na forma canónica, e incapazes de sair dela, sempre me causaram... borbulhagem.

Gostava dos professores faltistas. Dos que passeavam entre as filas de carteiras enquanto diziam lérias, e a quem chamávamos malucos, mas a cujas aulas íamos com gosto. Daqueles que a gente nem sabia em que parte do programa é que iam.
“O que é que o gajo tá a dar?” “Sei lá, deve ser o barroco!” “O barroco não pode ser, que já demos o neo-realismo!”
Gostava dos que diziam “merda, molhei os sapatos lá fora” ou “hoje estou cheio de gases”, e nos mandavam ler textos sérios pejados de asneiras, divertindo-se com o escândalo entre as meninas: “Tes... ai, tes...tí... bem... posso ler isto?, ai, testí... ti... culo, ai, este texto... “.
Gostava dos que se sentavam em cima da mesa a falar sozinhos, despenteados, com mau feitio, e nos ensinavam coisas que a linguagem não contém. E que aprendiam coisas para si enquanto falavam. Estabeleciam uma relação em que não haviam pensado antes, “pois é, pois é”.

Mandavam-nos ver filmes que não eram para a nossa idade e ler livros terríveis. Não creio que seguissem programa, que tivessem planificação, que fossem a reuniões. Não tinham. Chegavam, mandavam umas bocas, dissertavam, divertiam-se que nem uns malucos e quem lhes tirava aquilo, tirava-lhes a vida.
Nos testes ditavam-nos as perguntas, inventadas na hora, e não dava para copiar, embora até pudéssemos... aquilo não estava escrito em lado nenhum.
O que eu aprendi com esses malucos sem método algum, que nunca na vida foram avaliados! Que não poderiam ser avaliados. Porque um bom professor não se avalia. Não é possível quantificar o que ensina.
O que eu aprendi a não apodrecer de medo, a pensar mal, mas a pensar, para depois pensar melhor.
A esses professores, esses que eu tive, os faltistas sem método, haviam de lhes aplicar o próximo sistema estatutário de avaliação do desempenho, o tal que o governo vai aprovar com a benção da opinião pública que manipulou com total consentimento das redacções. Chumbavam todos! Era vê-los a cair que nem tordos! Hoje, seriam maus. Nem passavam na entrevista.

A avaliação tornou-se uma obsessão. Como avaliar tudo? Como avaliar um professor? Quanto vale? Quanto pesa? Quanto mede? Como posso ter mais sucesso igual a ter mais dinheiro? Quanto?
Ridículo. Ridículo. Daqui a 10 anos a educação estará na mesma. Pior. A crise na educação não assenta no funcionamento das escolas, mas no da sociedade.
A maior parte das crianças chega hoje à escola sem saber o que são valores, ou quais são. É um discurso perdido, que não falam em casa, onde tudo é permitido. Não sabem que não podem sair de uma sala quando querem, porque desconhecem o conceito de regra. Não sabem o que é "isso do respeito". Os professores não conseguem dar aulas porque não conseguem ser ouvidos. Não têm poder para agir, para pedir silêncio.
Daqui a 10 anos a educação estará pior. Os melhores hão-de ser tão robotizados que preferiremos os piores.
É que o problema da educação não está na escola nem nos professores que, como noutras profissões, e em todos os tempos, foram bons e maus.
A crise da escola é o espelho de uma crise social profunda: nada vale nada - apenas o dinheiro e o sexo.

Zelenje, Niassa, Junho 2003

terça-feira, junho 27, 2006

10 milhões de "imeis" à borla

A minha mãe, 82 anos, reformada com 200 e picos euros, doente de todas as doenças do catálogo das doenças, dependente de mim para ir ao médico e ter mercearias em casa, e tudo, pediu-me para agradecer aos senhores tão gentis que agora lhe ofereceram um endereço de "imei", só para ela, nos CTT, e manda perguntar:
- o que é um" imei"?
- pode receber a reforma por "imei"?
- se não for abrir a caixa de "imei" que lhe deram, porque lhe custa apanhar o autocarro e vê muito mal, e não consegue ler as letras pequeninas, e faz-lhe confusão aos olhos, pode ser multada?
- pode guardar na caixa de "imei" um cordão de ouro com muitas voltas que herdou da bisavó e há-de um dia ser meu, para que o guarde mais 200 anos e passe a outra desgraçada qualquer, e que ela tem medo de guardar em casa?
A minha mãe agradece muito e não quer desobedecer à lei.

Admirável consumo novo

Primeiro foi o caos: umas máquinas de calcular do tamanho de arcas congeladoras, de máquinas de lavar roupa industriais, com rolos de gravação largos e longos como películas de celulóide de 6 horas, como o Amor de Perdição, do Manuel de Oliveira.
Depois passaram muitos anos, e foi a disquete. A disquete grandalhona que se formatava antes de poder usar-se. Depois, a partir da disquete grandalhona, e com menos capacidade, que sozinha não medrava nem ajudava a medrar, Eles criaram a disquete pequena. Foi preciso adquirir computadores com novas portas. A disquete pequena fez a sua carreira, transmitindo vírus de computador em computador, que também se foram tornando cada vez mais pequenos e não adaptáveis a novas máquinas de impressão. As portas de ligação tornaram-se incompatíveis e comprámos cabos de adaptação ou, melhor, novas máquinas.
Depois Eles trouxeram-nos o cd-rom. O cd-rom evoluiu e diversificou-se; uns só se podiam usar no computador, outros podiam ir à aparelhagem audio e ao dvd. Cd-roms de todos os tamanhos e para todos os usos.
A seguir, Eles convenceram os nossos patrões de que a produtividade melhoraria com novo software que precisaria de novo hardware, e as máquinas no trabalho deixaram de ter porta para disquete; vimo-nos obrigados a adquirir novas máquinas pessoais para transportar documentos em cd do trabalho para casa e vice-versa. Porque as pessoas que trabalham 35 horas por semana levam trabalho para casa, onde cumprem mais 35 ou 50. O que for preciso para comer. Porque estamos em plena Revolução Global do Capital Liberal Digital.
Tudo o que tínhamos em disquete se perdeu, porque a maior parte dos amadores não possuía conhecimentos para conseguir transportar o conteúdo de 682 disquetes para computadores sem a respectiva porta.
Depois, Eles mudaram outra vez as máquinas de impressão e criaram a pen. Um acessório que todos podemos trazer ao pescoço, com a nossa vida devidamente empacotada, compactada. A pen não se parece com uma esferográfica ou caneta. Consiste num pequeno objecto de diferente formas, que se introduz no cérebro do computador e permite que ambos realizem a cópula divina da transmissão de dados. O nosso maior problema não é não termos dinheiro ao fim do mês, não é roubarem-nos os direitos humanos, sociais, económicos, políticos que gerações inteiras conseguiram para nós e para os nossos filhos. O nosso problema é perder a pen (e o mundial de futebol).
Felizmente o meu computador tem entrada para pen. Não tem é entrada para pen, modem e novo sistema de ligação da nova impressora-scanner-fotocopiadora, tudo ao mesmo tempo. Preciso de outro computador. Se calhar.
Se não fosse o ADSL, ainda me servia o primeiro, que adquiri em 1991. Era bom; portátil; custou-me uma fortuna. Mas não aguentava modernices, software pesado, coisas que não uso nem me interessa usar mas que vêm em pacote; e não tinha porta para cd nem pen.
Acho que este é o meu terceiro computador; sou poupada. Comprei-o há dois anos, mas está desactualizado. Não me apetece substituí-lo por nenhum outro enquanto a pen não se tornar obsoleta. Já sei que há-de vir uma porta Matrix - há-de vir um cabo que permitirá a cópula entre o meu cérebro e o cérebro da máquina. Depois logo se vê qual a necessidade de consumo que será criada. Se puder ligar o cabo à orelha ou a uma narina, até mesmo a um olho qualquer, escuso de mandar pôr um cateter na moleirinha. Logo se vê. Mas vai aparecer, disso estou certa. Brevemente. Porque é preciso consumir. Temos de consumir muito.
E temos de ter mais filhos que possam ser bons consumidores. Não temos dinheiro para gastar no consumo de mais crianças, por isso não as temos - porque atingimos o limiar máximo de consumo - mas se não o fizermos seremos penalizados fiscalmente. Quem não consumir, produzindo novos consumidores terá de pagar mais taxas, consumir mais taxas. Consumimos ou somos marginais.
Os Ocidentes deste planeta, mesmo a Oriente, tornaram-se cemitérios de desperdício químico, metálico. Cabos, fibras, plástico, estranhas amálgamas. Objectos grandes e outros mais pequenos. Lixo que nunca antes existiu. Precisamos de consumir muito e de consumir rápido, deitando fora. Não vale a pena arranjar sapatos, nem roupa nem panelas nem electrodomésticos nem chapéus-de-chuva. Não é rentável. Deitar fora, comprar novo, deitar fora, comprar novo, comprar.
Pedíamos que nos arranjassem as calças de ganga gastas entre as pernas? O sapateiro punha meias-solas nos sapatos e cosia-os quando rebentavam? Alguém se lembra? O meu pai arranjava os ferros de engomar e as torradeiras quando as resistências se queimavam? Compravam-se peças de substituição nas lojas? Agora não é possível comprar peças para um Wolkswagen de 1985, a não ser no ferro-velho?
Podíamos viver com menos? Podíamos viver melhor? Não querendo exagerar, podíamos ser mais felizes? Um dia havemos de nos atirar a nós próprios para o lixo e havemos de nos comprar completamente novos? Um dia havemos de ser felizes como um frigorífico?
Não sei se será o mesmo, mas Alberto Caeiro quis ser feliz como um girassol.

quinta-feira, junho 22, 2006


Xu Wen Tao, Human Form Series, nº 5

Sinto o coração. Tenho calor. O sangue corre tão depressa.

Atiro. Fecho. Faço. Não faço. Caio. Não quero. Eu quero, eu quero. Agora vou. Não sei se. Tenho que. Recuso-me. Volto. Vou. Recomeço. Abro. Eu sorrio. Amanhã choro. Estou aqui. Tenho 5 minutos. Sempre 5 minutos para tudo.
A minha vida não é real. Mas vou fazer isto? Ninguém faz isto. A minha vida não é real. Sou uma personagem de ficção que fugiu para o lado de cá. Aquele filme do Woody Allen no qual a personagem salta para a sala e se apaixona por Mia Farrow, não a Mia, a personagem da Mia. Esse. Lembro-me de pormenores estúpidos. Nunca dos nomes. Tremo um bocado. Corro. Tenho de ir. Só 5 minutos e já passaram. Agora vou. É estúpido, mas vou. Como posso eu viver amanhã se não fizer hoje aquilo que não penso por que faço? Atiro-me. Agarro-me depois. Agora desligo o computador. Já me atirei. Já não posso voltar atrás.

quarta-feira, junho 21, 2006

Amo. Não sei amar. Estou cansada. Morro de medo.

Foto de Tamaki Obuchi, 2003

Improvisam-se armas: facas, granadas de mão, beijos prometidos, palavras. A voz.
Amo-te. Eu também. O que dás, o que dou? Não admito isso, quero aquilo. Tens de mudar. Não me chega. Eu quero mais. Desespero por mais. Vou dormir contigo. Vou beijar todo o teu corpo. Depois vais ver. E o amor? Os gestos?! Uma palavra basta. Escreve-me uma palavra. Uma palavra são letras negras. As palavras foram toda a minha vida. Diz-me, então. Amo-te. Quero-te. Amas-me ou queres-me? As duas coisas. Queres um amor platónico? Não, quero todo o amor. Quero fazer amor todos os dias, quero fazer amor contigo. Todos os dias não pode ser. Cansa. Tu vais ver. Vais alimentar-te dos meus lábios. De que me alimentarás tu? Tenho medo. Não vês que estou apavorada? Não, não posso ver-te, estamos longe. Detesto brincadeiras com o amor. Estou cheia de medo. Não vês? Agora não podemos fazer amor. Depois. Não tens nada para me dar. Só palavras do sexo, só palavras do sexo. Estou cansada. Diz-me outras palavras. Diz-me que não podes respirar sem mim, que sou o teu ar, a tua fome, a tua sede. Sim, tu és isso. Mentira. Não dizes o que sentes. Só me queres agradar, calar. Aprende a exprimir o que sentes. Usa palavras para comunicar, não apenas o teu sexo.
Estou cansada. Não quero falhar outra vez. Vou falhar outra vez.
Dá-me um beijo. Dá-me tu. Não. Tu dás primeiro. Se me queres dás tudo. Dás o que te peço, o que tens, o que não tens. Cede. Não, cede tu. Não. Esgotas-me. Nós não temos hipótese. Eu não sou a mulher que tu queres. Arranja outra. Uma que te diga sim. Vem ter comigo. Arranja outra mulher, nós nunca passaremos disto. Arranja uma mulher nova. Uma mulher que ainde acredite. Acredite?! No amor! Arranja uma que acredite no amor.
Não, tu amas-me. Amas-me? Gosto de ti e quero amar-te. Diz-me que vou ser mais importante para ti do que tu própria.
Não posso dizer agora. Não sei se poderei dizer isso. Tens de dizer. Talvez possa, se sentir, um dia. Então, iremos viver cada um para seu lado, não seremos nós, mas tu e eu. Eu quero ser eu. E nós? Também. Mas tenho de ser sempre eu ou serei infeliz.
Não sei. Falamos amanhã. Sim, talvez amanhã. Pensa.
Silêncio. Adeus. Então, adeus.
O amor não deveria ser tão duro. O amor não deveria ser uma luta tão violenta.
Estou cansada.

domingo, junho 18, 2006

O meu corpo que não foi meu

Para a Susana

Os homens não falam entre si. Falam pouco, só mesmo antes de estoirarem. Os homens não conhecem os homens. Por esse motivo, não podem crer que as meninas de 10 anos sejam alvo de assédio sexual grosseiro, violação, até, pelos seus amigalhaços. Não acreditam ou não querem acreditar ou são cúmplices, porque nós sabemos que os homens se protegem mutuamente.

Algumas mulheres ainda percebem as outras segundo uma visão masculizada do mundo. Exercem sobre elas o mesmo poder, por delegação inconsciente. Responsabilizam a puta da amante do marido, que o desencaminhou, não o marido; criticam a vizinha que se divorciou 3 vezes e casou 4 – uma vadia; juram a pés juntos que as mulheres, elas próprias, são umas víboras que se traem umas às outras na luta pelos homens. Não gostam de trabalhar com mulheres, porque são galinhas, intriguistas, conversadoras, superficiais e incompetentes.

Outras mulheres começaram a falar sobre si; cresceram, envelheceram, tiveram filhos, querem viver mais. Têm 40 anos e querem arrumar a casa. Deitar fora o lixo. É natural. Essas mulheres têm trazido para o espaço público a história do bas fonds institucionalizado da violação psicológica e física de que as fizeram culpadas.

Os homens, quando confrontados com relatos do assédio que sofremos toda a infância e adolescência, sem sabermos como nos defender, envergonhadas, caladas, perguntam-nos o que andávamos a fazer nesses lugares que não nos pertenciam – defendem que há lugares só para homens nos quais as mulheres não devem sonhar, ousar entrar.
Portanto, se vamos ao café, e no café há homens!, se formos alvo de violação física ou psicológica, a culpa é nossa. Não temos de que nos queixar. Não são os violadores que procedem mal, nós é que não devíamos aproximar-nos. Contemporizam: os homens são uns brincalhões, dizem umas frases picantes, mas que importância tem isso? É só brincadeira. Nós é que temos a responsabilidade de ter orelhas moucas; as mulheres sérias têm orelhas moucas, portanto eles estão desresponsabilizados.




Quando nos disseram aos 12, aos 13, aos 16, aos 19, etc., etc., «ai, anda cá, que coninha tão bem desenhada, o que tu precisavas era de um par de colhões bem pretos todos metidos lá dentro», e nos chocavam e corrompiam, era tudo só brincadeira. Se eu chegasse a casa a contar isto, ter-me-iam dito, “as mulheres sérias têm orelhas moucas”.
Estas brincadeiras afectaram a nossa relação com os outros, com os homens, connosco, a vida inteira; levaram-nos a ser injustas com gente que não merecia, encheram-nos de medo, posicionaram-nos numa plataforma destituída de poder, de resposta, de vontade.
Entretanto, outros homens, noutros sítios, diziam as mesmas grosserias às filhas dos que nos molestavam - as culpadas éramos nós, e as suas filhas.
À violência autorizada no espaço público, precedia a que havia de ocorrer no doméstico.
As mulheres começavam a ser abusadas em crianças. Quando casavam e eram mães, o abuso era já tradição.
Semelhante estrutura de poder paralelo e clandestino teve longo sucesso enquanto conseguiram fazer-nos sentir culpadas do seu opróbrio - enquanto não confidenciámos sobre as misérias de que nos culpavam. Não falávamos da intimidade. Do sexo. Das coisas más e vergonhosas. Todas já tinham feito, mas não diziam com quem. Não falávamos sobre violação, sobre falta de prazer, porque estávamos isoladas umas das outras, e dos outros, por barreiras de pudor e de estigmatização. Porque não era possível admitir violação e falta de prazer. A violação só acontecia às vadias sôfregas que não se sabiam preservar. Nós não éramos vadias. Sabíamos que os homens abusavam das mulheres, que tínhamos de fugir deles, portanto a culpa era nossa. Quanto ao prazer, se os homens diziam que nos tinham dado prazer, se eles achavam...
Depois começámos a falar. Nos anos 90, acho, começámos a falar. E descobrimos que todas vivemos o mesmo, caladinhas. As irmãs dos violadores também foram violadas permanecendo caladas.




Portanto, uma rapariga sozinha a pé numa estrada era uma puta. Se um carro parasse e dele saísse alguém para nos violar, nós estávamos a pedi-las. Uma mulher decente não andava sozinha. Aos 13 anos éramos meninas irresponsáveis que não podiam sair à rua, mas seríamos, paradoxalmente, mulheres se fôssemos alvo de violação física ou psicológica. Éramos as culpadas da nossa própria violação. Tínhamos a responsabilidade de ser já umas mulheres e saber que não nos podíamos expor a riscos.
Os violadores ofereciam-nos rebuçados porque éramos crianças, mas queriam foder-nos porque éramos mulheres.
Consigo lembrar-me de um senhor de 50 anos, rico e idóneo, que me oferecia bonecas à frente dos meus pais, mas, na sua ausência, me sentava ao seu colinho, afastando-me as cuequinhas para o lado e segurando-me com força para não fugir, enquanto me perguntava como ia a escola. Os meus pais confiavam muito nesse senhor e na respectiva esposa, e até me deixavam à sua guarda quando iam à Joanesburgo. Eram meus padrinhos.
Denunciava o meu padrinho aos meus pais? Com que palavras? A minha madrinha entrava no escritório, via-me sentada no colinho do marido, enquanto este me abraçava com ternura e me falava carinhosamente sobre assuntos decentes - e entalava o respectivo pénis na minha racha... E a minha madrinha sorria e dizia, “adoras a miúda” ou então “o teu padrinho é babado por ti”. Era, de facto, muito babado.




Só depois dos 40 anos consegui ter uma conversa suficientemente aberta com outra mulher a ponto de poder perguntar-lhe, “mas tu já fizeste isto e aquilo?” E ela respondeu. “E gostas?” “Como sentes o orgasmo, como sabes que vai acontecer?” E ela respondeu.
Nunca falei de sexo com as minhas amigas. Falávamos de namorados, não do que fazíamos com eles. Durante muitos anos pensei que tinha uma deficiência qualquer, porque os orgasmos me eram tão difíceis. Hoje ouço-nos descrever as mesmas experiências, sintomas e bloqueios. No momento do sexo, olhávamos o nosso corpo com os olhos dele, com o julgamento dos olhos dele sobre o objecto fodível. Durante o sexo vigiávamos os nossos gestos e gemidos para que correspondessem ao que eles viam nos filmes e revistas pornográficas. Queríamos ser aquele produto que eles valorizavam entre si. Não podíamos abandonar-nos, esquecer, ser só o prazer do corpo. Aquilo não era sexo, para nós, era uma coreografia para o prazer deles. Copiávamos a imagem de mulher que nos traziam o cinema e as revistas.
Éramos objectos deles, para eles. Desejávamos para nós corpos que não existem, que são montados de outros corpos; gestos impossíveis...
Lembro-me de um namorado me ter descrito certa prática que sonhava ter comigo. Explicou quais seriam as posições, por onde é que a minha mão teria de passar para segurar o seu pénis, e de onde apareceria a sua tocando os meus genitais. Deixei-o falar; depois, disse-lhe apenas, “isso é impossível pelas leis da física, da biologia. Para fazermos isso cada um de nós precisava de ter braços meio metro mais longos.” Garantiu-me que não, que tinha visto num filme.
Lembro-me que os mesmos homens que publicamente me gozavam por ter o rabo grande, ou a barriga proeminente, tiravam prazer privado do meu corpo, adorando esse rabo e barriga. Publicamente havia que obedecer a um discurso que não tinha reflexo na vida privada. Adoravam o meu corpo na cama. Mas nunca o admitiriam em público.
Levei anos a compreender isto. A pensar a ditadura dos discursos. Dos códigos sexuais aceites, que não correspondem ao desejo do desejo.



A liberdade sexual dos homens e das mulheres há-de passar pela negação de códigos que transformam o sexo e o corpo numa ditadura estética. A liberdade sexual dos homens e das mulheres não banalizará a prática, mas desenvolverá um discurso limpo, livre sobre o prazer. Quando temos prazer ou não? E porquê? O que é o prazer? Só há prazer com orgasmo? Há quanto tempo não fazemos amor, quando não o fazemos? Por que motivo temos vergonha de admitir que durante sete anos da nossa existência não tivemos sexo, e nos masturbávamos de seis em seis meses, só para ver se aquilo ainda funcionava? Por que motivo a presunção de sexo e de prazer sexual valoriza socialmente os indivíduos? Porque motivo a presunção de sexo não valoriza a rapariga solteira, apenas o rapaz?

Vivemos o corpo e o desejo que o patriarcado de homens e mulheres, aliados enquanto senhores e serviçais fiéis, nos permitiram ter. Portanto, não tivemos corpo nem desejo. Não nos pertenceu.
A nossa vivência do sexo, tensa, acidentada, deve ao roubo desse corpo, desse desejo. Enforcámo-lo.
Estou aqui para pedir contas. Quero tudo o que roubaram. Quero garantir que as minhas filhas e as filhas dos outros não serão roubadas. Que os rapazes não serão ensinados a roubar pelas mães roubadas.

sábado, junho 17, 2006

Entre homem e mulher mete sempre a colher!



Serviço de Informação a Vítimas de violência doméstica:
telefone 800 202 148


Em nove colegas divertidas, com quem nos damos no trabalho, três são vítimas de violência doméstica.
Um terço das mulheres, em Portugal, são vítimas de violência doméstica?!
Mas não somos iguais?! Até deixámos de ser feministas porque já não se justificava!
Já vamos beber cervejas com eles, e ver os jogos; o meu chefe até adora trabalhar com mulheres, tem 8 secretárias. Não somos iguais?!

Um exercício de aplicação. Pensem nas vossas três colegas preferidas. Visualizem os seus rostos. Uma dela é vítima em silêncio. Qual?

quarta-feira, junho 14, 2006

Os párias


Tenho uma vaga ideia de há três décadas se falar da Índia como uma espécie de Biafra. Entretanto, a economia melhorou; há indianos a viver melhor que portugueses ou suecos. Outros, pior. As pessoas dizem, agora, que há duas Índias, uma burguesa, ou mesmo muito burguesa, e outra pobre, mesmo muito pobre. Atribuem culpas ao sistema de castas. Os párias continuam na extremidade inferior, portanto intocáveis, acedendo aos trabalhos sujos, que ninguém mais pode fazer: remover os excrementos que os outros produzem, executar todas as tarefas indignas, sujas. Vivem mal, comem mal, dormem na rua, não têm direitos civis, nem educação, nada.
A mim não me parece que os párias sejam motivo de grande admiração no Ocidente. Temo-los em Portugal, em Espanha, pelo mundo todo. Os párias são os desgraçados que não conseguem libertar-se do ciclo de miséria material ou espiritual, ou ambas, em que nascem e vivem. Alguns tentam, outros nem se dão ao trabalho.
No Ocidente, dizem-lhes que são cidadãos iguais, que têm os mesmos direitos. Na prática não têm. São discriminados em todo o lado, desde pequenos. Não vão aos mesmos restaurantes. A única diferença é que aqui podem candidatar-se ao rendimento mínimo. Bem como em Espanha e na Alemanha...
Reconhecemo-los pela forma como falam, como andam, como se vestem, penteiam. A partir do momento em que saímos de casa cruzamo-nos com essa casta.
Alguns párias aceitam os trabalhos sujos, uns mais dignos que outros. Trabalham nos cemitérios a enterrar e desenterrar corpos, na limpeza das ruas e das lojas, na recolha do lixo, nos canis do estado e nos matadouros, a abater animais domésticos, bois, vacas e porcos, profissão que nem tem nome. Passar 8 horas por dia a abater e desmembrar animais deve ser aquilo que o Velho Testamento designa por Inferno. Creio que estejam todos mortos. Creio que trabalhem como robots, que sejam robots fora do trabalho. A vida deve ser-lhes muito pesada. Apesar de tudo, esses são os párias menos párias. A sociedade vê-os como intocáveis, mas eles vergam a mola para dar comida aos filhos.
Os urestantes roçam-se pelas esquinas das tabernas, e gastam tinta a tinta às cadeiras.


Para um pária nacional, qualquer casta superior que venha do estrangeiro para trabalhar e ganhar dinheiro no que ele recusa fazer, é mais pária do que ele. Os párias verdadeiros não gostam dos que consideram párias. Nem de ninguém. Consideram-se uma casta de sangue nobre, iluminada pelo conhecimento divino da miséria, da bebedeira e da grosseria. Chateia-os que alguém faça o trabalho sujo e tão mal pago a que poderiam aceder. Porque os párias têm direitos. O primeiro deles é não ser párias. Mas não é que façam por ser outra coisa qualquer. O sonho dos párias era que lhes saísse o Euromilhões para não trabalharem. Ouço-os a dizer isto sentados no snack-taberna, bebendo cervejas, de fato-de-treino, à terça à tarde. É a sua única profissão conhecida. O café. A amarguinha. A mini.
Pergunto-me se estes párias saudáveis, que vivem do rendimento mínimo, exactamente por serem cidadãos com direitos, não teriam a obrigação social de retribuir com serviço cívico? Que ajudassem a apagar incêndios em part-time. Das 9 às 13. Depois vinha o turno seguinte. Que limpassem praias das 16 às 20. Que ajudassem nos lares, hospitais, escolas e infantários: quatro horas por dia, vigiando recreios, entradas e saídas, não se pedia mais. Que escolhessem onde queriam ajudar. Podia ser que gostassem. Podia mesmo! Se se acham uns grandes machões, por que não os colocamos a ajudar os agentes da Escola Segura, que não tem o dom da ubiquidade; entre tantas outras coisas em que poderiam colaborar. Recuperar edifícios em ruínas. Quatro horas por dia. Tratar dos jardins públicos.
Não sei se existe grande paralelo entre os párias da Índia e os párias ocidentais. Na Índia sei que se envergonham um bocado, e procuram trabalho para conseguir comer.
Se há duas Índias, a dos párias e a dos outros, há também dois Portugais, dois Luxemburgos, duas Américas e duas Francas.. Nenhum país é um só país. O mundo tem pelo menos dois mundos, e nenhum é de graça.

domingo, junho 11, 2006

Angola-Portugal: o guarda-roupa (opinião imparcial)



Licra de algodão


O dos portugueses é piroso, assaloiado, vermelhusco em excesso. Cansa muito a vista. Não se pode abusar assim do vermelho; mal concebido, mau gosto.
O dos angolanos tem imenso estilo, toda em branquinho, o que sobressai imenso naquelas peles, com listrazinhas negras, amarelas e vermelhas, e sem sinais da catana da bandeira, o que é um alívio. Adicionalmente, na segunda parte, usaram uns pensos rápidos na testa, também brancos, que resultaram divinais como acessório.
Penso que poderia ajudar bastante ao espectáculo uma mudança radical em toda a concepção da fardamenta. Custa-me um bocado que o Figo ande com as pernas tapadas quase até ao joelho. Os calções atrapalham os movimentos, travam a corrida. Deviam jogar todos com boxers, numa licra de algodão muito leve, mediamente justos, que deixassem as pernas completamente livres para os passos complicados. As camisolas também são demasiado largueironas. Muita manga, muito compridas. Não se justifica. Custa-me ver o Figo com o tronco todo vestido, ainda por cima cheio de calor.
Sugeria umas camisolas mais justas, na mesma licra de algodão muito leve, sem mangas e mais curtas.

A performance seria outra e eu nunca me distrairia nas partes mais mortas dos jogos.
A fotografia desportiva ganharia. Os movimentos parados de um jogo são altamente plásticos, mas os mesmos movimentos, os rapazes no ar, os rapazes do avesso, todos em licra, seria melhor que o ballet russo.

Angola-Portugal: captação de imagem (opinião imparcial)



O pé de Figo


Zero inovação, zero travellings, poucos zooms. Assim não dá.

As câmaras insistiram muito no Cristiano Ronaldo, no Cristiano Ronaldo, no Cristiano Ronaldo. O moço tem muita mania, julga que é mundialmente famoso e que ganha muito dinheiro, mas não joga nada de jeito, essa é que é essa. Está na pele e no osso, o que não lhe fica mal de todo; mantém o arzinho de bairro da lata, pobre mas lavadinho, só carne magra, irrequieto mas inofensivo, que tantos admiradores lhe granjeia nas saunas gay. O operador de câmara era gay, quase de certeza.
Os momentos mais interessantes, do ponto de vista da qualidade de imagem, ocorreram quando Figo se baixou para mudar de sapatos - aí, sim, tivemos um grande plano erótico do pé encaixando-se no objecto. Outros momentos interessantes: o rosto sério, manchado pela barba, e ligeiramente sofredor do Figo; sempre que o Figo era filmado de perto, correndo para a baliza contrária, com os salientes músculos das pernas, e respectiva pelunça, bem visíveis; o Figo, quando diz derivado, nas conferências de imprensa (isto já foi fora, mas pronto, é delicioso, não é?!). Um jogador angolano a chutar de costas, logo no início, sem conseguir golear. O Pauleta quando abriu os braços, quase torcendo a articulação, depois do golo - mas não desculpo que não tenham conseguido um melhor ângulo.
Trabalho medíocre. Para o próximo jogo, no que respeita à captação de imagens, por favor contratem um Ridley Scott da televisão.

Angola-Portugal: estratégia de jogo (opinião especializada e imparcial)



Um mínimo de 4 golos por partida, sem limite máximo


O que ajudaria muito seria colocar uma tabuleta em cada baliza, indentificando-a. Escrever Portugal, na de Portugal e Angola, na de Angola. É que os neófitos perdem muito tempo a perceber quem ameaça quem. Felizmente, o guarda redes angolano, um rapaz muito bem apresentado, por acaso, tinha uma camisolinha azul-céu, e o nosso estava todo em cinzento, que se vê mal e é triste. Mas só tínhamos isso a ajudar!
Um neófito, quando os vê correr todos para uma baliza pergunta logo, "quem é que vai tentar?", e às vezes até apanhamos grande sustos quando são os nossos a tentar golear os outros, e até ficamos todos contentes por não terem conseguido. Adiante.
Os rapazes de ambas as equipas jogaram bem, muito profissionais, rápidos, duros, dando encontrões e caindo espectacularmente. Não percebi porque é que umas fintas eram falta e outras não, mas deve ser porque aprendi por outro livro.
Um senão: fizeram um jogo muito cerrado, não deixando a bola circular. E se isto é circo, vamos lá ver aqui uma coisa, a malta quer circo. A única parte verdadeiramente entusiasmante num jogo é quando a bola entra na baliza. Estamos ali para ver golos. Portanto, vamos a facilitar. Vamos ser solidários com o público e com o amigo adversário. Não seria muito melhor espectáculo se uma equipa tivesse marcado 8 golos e a outra 6? A partir de agora quero ver mais golos, faz favor.
A equipa portuguesa, tirando o Figo e o Pauleta, que também tem muita graça, e joga bem, apresentou jogadores que não passariam pela cabeça de ninguém. Os nºs 14 e 19, de onde é que aquilo veio? E o Petit? Mas contratam um jogador chamado Petit para quê? Ganhar em grande? Está mal. Emendar. Escrever 50 vezes no caderno de seleccionador, "nunca mais pôr jogadores lingrinhas em campo". Mobilidade para os lingrinhas.
Aquele rapazinho muito giro que tem sempre uma fita na testa, cabelos pelos ombros e carinha de 18 anos (nao é o Maniche, tenham dó!), Nuno qualquer-coisa, onde é que estava esse grande jogador que uma pessoa gosta sempre de ver em qualquer lado?
O jogo podia ter corrido melhor, mas não foi mau. Na segunda parte tornou-se um bocadinho monótono. Mas não concordo nada que a selecção angolana fosse fraca. Se fosse fraca os portugueses teriam marcado mais um golinho, e não conseguiram. Pronto. Acho que já abordei todas as questões importantes sobre estratégia de jogo.



sábado, junho 10, 2006

A maluca do Expresso

Aqui na minha rua sou a única alma que lê o Expresso. É uma tradição. Habitei-me a fazer as palavras cruzadas a meias com o meu pai, e mantive o hábito. Antigamente, no tempo em que se vasava o balde do lixo directamente para o contentor - o que a gente se divertia nesse tempo! - as folhas largas davam jeito à minha mãe para forrar o caixote, porque parece que absorviam melhor.
Eu sobrevivi à maquiavélica direcção de José António Saraiva, escritor, futuro Nobel da Literatura. Não foi fácil. Andei anos com um nó na garganta.

Ora, moro neste bairro há 22 anos, com um intervalo de 7 em que estive emigrada no Alentejo por causa dum part time que lá me arranjaram, mas mantive sempre cá a casinha e o cartão de eleitor, e nunca, nunca, nunca, esclareça-se isto bem, nunca, em duas décadas vi alguém do bairro a ler o Expresso no café.
Aqui, as pessoas lêem o Correio da Manhã e A Bola. Antigamente, o Avante, mas agora os tempos mudaram um bocado. Os intelectuais da zona arriscam um Diário de Notícias, com um bocado de vergonha, verdade seja dita, mas, caramba, existe ou não livre arbítrio? Ler o JL na rua é que já seria provocação, isso reconheço, mas o DN, vá lá.
Toda a gente me conhece; até me cumprimentam,"olá, vizinha, então como vai a mãezinha?", mas quando querem falar sobre mim, uns com os outros, dizem, "aquela das cadelas", ou então, "a maluca do Expresso". Ou só "a maluca". Ninguém se engana.

Hoje fui comprar o Expresso eram umas 10h30. Cedo, portanto. O Expresso sobra sempre no quiosque. O homem tem Expressos até ao sábado seguinte.
Hoje, não havia. Abri a boca de espanto; senti uma momentânea baixa de tensão arterial. Demorei uns segundos a recuperar, e perguntei depois ao senhor Tó Mané, "não enviaram? Ainda não chegou?". "Não, vizinha, já foram todos?" "Já foram todos?! Às 10 e meia já foram todos?! " "Sabe, é que hoje trazia a bandeira!" "A portuguesa?!" "Então qual é que havia de ser, dona Isabela?!" "Ahhhh..."
Quando consegui voltar a mim, comprei o Diário de Notícias. Há sempre muitos. O senhor Tó Mané entregou-me o jornal juntamente com um cachecol a verde e vermelho apresentando uma maiúscula inscrição: PORTUGAL. Era brinde. Devolvi-lho, rapidamente.

Agora estou arrependida, porque cheguei a tocar no objecto, e penso que era de bom material para puxar o brilho aos sapatos engraxados.

Portanto, hoje, no meu bairro, uma quantidade razoável de vizinhos comprou, pelo preço do Expresso, uma bandeira nacional. Se calhar duas. Poucos lerão o jornal, mas, hoje, a rua estará mais enfeitada. Apetece-me olhar à volta e bater às portas das bandeiras novas pedindo emprestado o jormalinho.
O que interessa o pão desde que tenhamos circo?

terça-feira, junho 06, 2006

Professores com vida de magnatas - I


Salários dos professores do 2º e 3º ciclos do ensino básico e secundário? Tabela de 2005? Apresentam-se contas de situações reais.


O professor Luís, que fez o favor de me emprestar o recibo,
lecciona há 17 anos, e encontra-se no 7º escalão.
Clique com o rato sobre a imagem, e escolha a dimensão em que pretende visioná-la


Em Janeiro, deveria ter-se submetido a avaliação para ascender à fase seguinte; porém, dado que as progressões na carreira se encontram "congeladas" há mais de um ano, não pôde fazê-lo. Portanto, o docente conta, hoje, e contará, não sabe até quando, com o mesmo tempo de serviço que possuía em 2003 - 14 anos. Como se o tempo tivesse parado aí.
Para o autor deste blogue, o qual indica valores salariais em bruto, a situação parece tornar-se "interessante" a partir do 8º escalão (2058,39 € ilíquidos, deduzidos de descontos para a Caixa, a ADSE, IRS).
O escalão mais elevado é o 10º (2856,54 € deduzidos, já se sabe).
Se o tempo de serviço não tivesse sido "congelado" ao nosso professor, este atingiria o topo de carreira dentro de 8 anos, com 25 anos de serviço, aí se mantendo, até à aposentação, tendo como único benefício a redução progressiva do tempo lectivo semanal.

Neste momento, relativamente à sua avaliação para acesso ao escalão seguinte, e de acordo com a Lei, o professor sabe apenas isto:

1- Exerceu as funções lectivas, não lectivas, administrativas, e outras, que lhe foram atribuídas, tendo cumprido as suas obrigações profissionais, tal como estipulado na legislação, e aceite como moral universal.

2 - Realizou as necessárias acções de formação pedagógica para adaptação a novos recursos, curricula e técnicas de trabalho.

3 - Elaborou o relatório crítico de auto-avaliação, referente aos últimos 3 anos, que deveria ter sido analisado por uma comissão de professores-coordenadores, cujo parecer e proposta de avaliação seria apresentado a conselho pedagógico - com poderes para deferir ou indeferir a promoção.

Eis o que não sabe, ainda, nem prevê:

a) Quando poderá submeter-se a nova avaliação para progressão na carreira, e ascender a esse "interessante" 8º escalão cujo rendimento tanta falta lhe faz?

b) Em que escalão virá a ser futuramente integrado, se a proposta para o novo estatuto vier a ser totalmente aprovada (excepto a parte dos encarregados educação, a mais mediatizada, mas a que apenas serve para produzir o fumo atrás do qual pretendem esconder as restantes propostas fascizóides)?

c) Que planos de vida pode agora fazer o professor Luís? Irá este ano de férias para o Algarve? Poderá mudar de casa e alugar outra maior, porque jã não tem onde meter a papelada?


Não perca os próximos capítulos (logo à noite ou amanhã):


- O quotidiano do professor na sala-de-aula, no corredor, em casa.
- O horário de trabalho do professor, sua gestão e respectiva ocupação de tempos livres.
- Diferença entre tempo lectivo e tempo não lectivo para actividades em sala-de-aula.

segunda-feira, junho 05, 2006

A Lei da Paridade foi vetada para que as mulheres não se sentissem coitadinhas

A Lei da Paridade foi vetada pelo senhor Presidente da República como forma de garantir a democracia, com os seguintes argumentos:

1) Há zonas do interior, envelhecidas e menos escolarizadas, onde não seria possível encontrar 1/3 de mulheres candidatas a listas; a existir, tal obrigação legal poderia redundar num empobrecimento político.
Os malabarismos pré-eleitorais que nesses mesmos lugares se realizam, recrutando candidatos de outros concelhos, mas que por acaso têm ali casa de férias, ou aí nasceram, ou a mulher, ou pararam por lá uma vez para beber uma bica, não contam. Malabarismos aplicam-se só aos homens. Não é o sistema que não funciona no interior, as mulheres é que não são suficientes para alimentar o sistema.

2) A paridade não deve ser conseguida através de mecanismos "sancionatórios e proibicionistas", os quais colocariam a mulher num estatuto de menoridade, como se elas não fossem capazes, por mérito próprio.
Ora deixa-me cá ver se compreendo melhor: não se legaliza a paridade para que as mulheres não se sintam inferiores porque algo assegura o acesso igual. Por outras palavras, se permanecer tudo com carácter aleatório, cada partido escolhendo, livremente, incluir 1% de mulheres, ou 3o ou 70, ficamos todas mais felizes porque não nos transmitem uma mensagem de inferioridade: a de que somos umas coitadinhas que não conseguem lá chegar sozinhas. Isso seria uma terrível descriminação! Porque nós temos mérito, claro que temos mérito - não temos é lugar, mas com o tempo havemos de conseguir...
As pessoas não precisam de leis de apoio e incentivo por serem coitadinhas, mas porque é justo que existam, e porque a Lei tem o poder e a obrigação de empurrar as reformas sociais benéficas para a sociedade. Há casos em que a sociedade muda tão rapidamente que a lei tem de se adaptar; há outros em que as tradições sociais travam, a tal ponto, a evolução de processos, que cabe à mesma Lei promover mudança. Estou a lembrar-me da introdução de quotas, para acesso à universidade, de indivíduos portadores de deficiência, e dos incentivos às empresas que empregam profissionais deficientes. E os negros? Estará suficientemente generalizada a consciência de que um negro ou uma negra licenciados têm mais dificuldade em aceder ao emprego privado que concorrentes brancos em igualdade de circuntâncias? Olha, agora a Isabela endoideceu! Queria quotas para os negros e para os indianos e chineses e o resto?! Eles que vão trabalhar para a terra deles - que quase sempre é esta!


Voltemos à Lei da protecção da maternidade e da paternidade. Tem sido sucessivamente melhorada porque é justo fazê-lo? Ou inferioriza as mulheres e os homens? Foi atribuído estatuto de menoridade aos homens, a partir do momento em que passaram a ter de gozar os dias de licença de paternidade? E as mulheres, teriam tido direito a licença de parto e redução do horário de trabalho, durante a amamentação, se a Lei não as tornasse obrigatórias? As empresas privadas despediriam e cessariam contratos a mulheres grávidas se a Lei não o proibisse?
O impacto social da aprovação de uma Lei da Paridade, mesmo com menor percentagem de participação mínima, teria sido importante, não apenas para a política, mas para a sociedade em geral. Seria uma mensagem de legitimação que chegaria a outras áreas da vida económica, profissional, associativa, e por aí fora. Seria aquilo a que, em psicologia, se designa como reforço positivo: geraria motivação para que mulheres potencialmente interessadas na vida politíca, e para ela capacitadas, ou com vontade de aprender - exactamente como os homens - a ela fossem chamadas. Mas as forças invisíveis do costume, mais interessadas em que as mulheres regressem ao lar para tratar dos filhos e dos afazeres domésticos, largando postos de trabalho que poderiam ser ocupados por varões menos qualificados, no desemprego, e manipularam exemplar e sombriamente, como é hábito. É que as mulheres, quando saem da vida activa para se ocuparem dos filhos, não vão para o desemprego, e isso dá um jeitaço. Nada de modernices!

Espanholeses

Se é aconselhável as portuguesas da raia parirem nas maternidades espanholas, com melhores condições...
Se em Espanha podemos aceder livremente à reprodução medicamente assistida, quando a desejamos, e à interrupção da mesma, como solução indesejada mas inevitável ....
Se os nossos alunos com média inferior a 18,7 valores, pretendendo entrar em Medicina, decidem aí realizar os exames de ingresso às respectivas universidades...
Se a gasolina é mais barata, bem como os automóveis, as mercearias, os frescos da praça e os medicamentos...
Se em determinadas zonas de Espanha é possível arrendar um apartamento de 3 assoalhadas por 375 euros, e se os salários não são mais baixos que os nossos... isso da identidade nacional... do amor à patria... não sei se... quer dizer... se calhar... a pátria, como a família, é quem nos trata bem.


quinta-feira, junho 01, 2006

Poder de compra, custo de vida, etc.

A Joana terá sido assassinada pela mãe e pelo tio no final do Verão de 2004. O caso concluiu-se em Novembro do ano passado. Foi lida a sentença: homicidas condenados a pena máxima, sem direito a liberdade condicional. Não me lembro do nome dos advogados. Acho que nunca soube.
O caso era complexo: não apareceu o corpo da menina, não havia testemunhas muito relevantes, a polícia nunca juntou grandes provas, a não ser a aparência dos réus, bem como a sua frieza emocional. Uns párias que nasceram inocentes, como a própria Joana, cuja existência conhecemos, mas nos obrigamos a ignorar. A vida é amarga para todos. Custa.
É difícil inocentar quem traz a miséria moral, a desgraça e a ignorância tão escancaradamente impressas no rosto. O caso Joana está portanto arrumado.

Os crimes a que reporta o processo Casa Pia foram cometidos durante décadas e tornados públicos em Janeiro ou Fevereiro de 2003. O caso vai na sua centésima segunda sessão. Não sabemos quando será lida a sentença. Sei de cor o nome de dois dos advogados: Ricardo Sá Fernandes e José Maria Martins.
O caso é complexo, contudo, os corpos das vítimas têm ido a tribunal descrever os crimes, situando-os no tempo e no espaço e identificando ocularmente os responsáveis. A acusação dispõe de inúmeras provas documentais e testemunhos indirectos, mas os réus são pessoas importantes, com excelente formação académica, enquadramentos profissionais dignificantes ou mediáticos; pessoas sensíveis que contribuem para campanhas de solidariedade e se emocionam com casos como o de Joana. Não são párias, e é claro que nasceram inocentes. É difícil culpar pessoas reconhecidamente cumpridoras da moral e dos bons costumes. Pessoas educadas, simpáticas, de boas famílias e com boas famílias. O processo Casa Pia não está, por isso, arrumado.

Um corte entre o cérebro e o coração

Jane Goodall, foto DN, 01/06/06

Jane Goodall, ontem, em Lisboa (DN de hoje):

Da espécie humana diz que o cérebro é capaz de coisas maravilhosas, mas também de outras terríveis. Qual será o balanço final, na sua opinião?

Depende de nós e da próxima geração. Mas penso que houve um corte entre o nosso cérebro extremamente inteligente e o coração, ou seja, a compaixão e o amor. Essa rotura faz do ser humano uma criatura perigosa.

Mas o ser humano não terá sido sempre assim?

Não. Se olhar para as comunidades indígenas, verifica que todas as decisões importantes requerem a opinião de um conselho de ancião, que toma em consideração a forma como as decisões afectarão as gerações futuras. Hoje, no nosso mundo, as decisões são tomadas em função da forma como os accionistas vão ser afectados nos próximos três meses. É em função da ganância que se tomam as decisões. Vivemos num mundo absolutamente materialista. Um exemplo: sabemos o que o consumo de combustíveis fósseis está a fazer ao clima do nosso planeta, sabemos da poluição e da chuva ácida e dos seus efeitos na saúde. Os donos das companhias de petróleo amam os netos, como toda gente, então o que se passa? Porque não pensam no seu futuro? É desse corte que falo.

Devemos culpar o capitalismo?

Sim. Isto está acontecer desde a II Guerra Mundial, porque nos tornámos escravos da cultura materialista. O capitalismo até talvez pudesse funcionar bem, não estará nele necessariamente o problema. A questão é que o enfoque é exclusivamente materialista e individualista. Não há dimensão espiritual. Não faz sentido.

Como se pode contrariar isso?

Através do Roots and Shoots [projecto para a juventude iniciado em 1991 por Jane Goodall]. Acreditamos na mudança de atitudes. Temos que mudar a filosofia segundo a qual, para mudar o rumo num país é preciso bombardeá-lo. Temos que mudar a atitude com os animais, que são criados em espaços diminutos para se tornarem comida barata. (...)

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...