domingo, julho 30, 2006

O meu plano de férias

As minhas amigas andam preocupadas com o celibato a que me votei, sobretudo desde que leram na Imprensa que o mulherio, quando chega o Verão, anda a ferver. Se a Imprensa diz, a Imprensa manda, e a gente passa a andar a ferver mesmo que ainda durma com botas de lã.

Segundo a Joana Rita, e tendo-lhe contado uma outra Cátia Vanessa, parece que bom, bom para uma solteirona arranjar marido é fazer o sagrado caminho de Santiago.

O caminho de Santiago?!

Até lhe perguntei, “então mas isso não é uma coisa espiritual que as pessoas fazem para se encontrar com o seu eu interior?”
Que sim, mas que há por lá muito divorciado em busca do eu interior perdido, e que depois há as estalagens, a camarata, o cansaço, a reflexão solitária partilhada, a quebra do eu, as afinidades profissionais, espirituais, electivas, e, conversa puxa conversa, entre um pai-nosso e um mantra, já se anda no restolho, e assim se restabelece a ordem do mundo - mal se podendo esperar para chegar a Santiago e procurar uma cama de jeito, e uma casa-de-banho privada.
O santo parece que fica feliz com a alegria alheia, o que se compreende, porque também eu. Já se sabe que a carne tem o seu quê espiritual e vice-versa, mas isso é informação só para iniciados - não nos aventuremos.

Não sabendo eu onde ir passar férias, e estando aqui dividida entre uma aventura barata sem destino e sem mapa, ou uma cara estadia num spa, onde basicamente esperaria que me massajassem dos pés à cabeça, diariamente, mais a exfoliação, o peeling e a drenagem linfática, parece-me bem esta ideia do caminho de Santiago.

O problema é o verão, os calores das caminhadas, os pés a arder... mas, por outro lado, a médica de família mandou-me andar uma hora por dia, só por questões salutares, entenda-se.

Vendo bem as coisas, peregrina já eu sou por vocação. E, quanto a graças, tenho sempre tantas a pedir, tantas a agradecer! Falta-me o bordão e a concha. Mas os acessórios arranjam-se.

Vejamos, consta-me que há diversas vias para Santiago, ou seja, que é possível começar por diferentes lugares, e fazer apenas um parte final do percurso - e é aqui que preciso da vossa ajuda: e se fosse um caminho mais pela sombra? E se houvesse uns lagos, uns chafarizes românticos, uns pinhais balsâmicos, ervinhas olorosas, sítios propícios à contemplação, ao maravilhamento, algo pastoris? E se fosse um percurso cheio de divorciados solitários, entre - pronto, e agora vou ser uma mãos largas e alargar a faixa etária – os 33 e os 49 (mas, atenção, a partir dos 40 só bem conservados, bem vividos e com bom humor!), hein?
Podia ser que eu me entusiasmasse. Colaborem com esta causa!

sexta-feira, julho 28, 2006

Uma fada na cozinha, eu disse fada...

No Inverno, como não azedam, vou-me desenrascando com as sopas: um panelão de 4 dias em 4 dias, e almoço no refeitório do emprego.
Leitinho com café, com cevada, com cereais; uns pêros, umas bananas... passa-se.

Chegado o Verão quem é que aguenta as sopas? O caldo muito quente pelo gorgomilo abaixo, uns calores que chegam das vísceras...
Não se pode.
Adapto, então, os meus dotes culinários à época, e não quero deixar de partilhar convosco tanta sabedoria pantagruélica.
Por exemplo, almoço: quartos de tomate cru com umas pedrinhas de sal, e quadrados de queijo fresco. Tudo misturado numa gamela.

Jantar: bocadinhos de maçã com casca, todos cortadinhos, com iogurte de qualquer coisa. Tudo misturado numa gamela.
Almoço: lata de feijão frade com atum migado mais cebola e salsa. Na gamela.
Jantar: ovos mexidos com queijo, acompanhados de melão e cenoura, tudo cortadinho e misturado numa gamela lateral.
Exemplo de prato já muito complicado, que não sei se estará ao vosso alcance: põe-se ao lume um panelão com cebola, alho francês e montes de limões inteiros, com pele, tudo cortado aos bocados, ajunta-se-lhe um frango todo partidinho, sal, um bocado de água e azeite, tapa-se e deixa-se estufar até cheirar a estufado.
Feito, dá para misturar com tudo: frango estufado à limão com arroz e passas mais alface; com massa e coentros, temperado de azeite; desfiado com pepino e queijo flamengo, mais uns fiapos de pêssego de roer.
E pronto, faz-se o Verão até voltar ao ramerame da sopa.

Este poste deve-se à Joana Rita que me disse que para arranjar marido tinha de escrever sobre os meus dotes culinários, pelo que estou a apostar tudo nisto.

quinta-feira, julho 27, 2006

Da guerra e da arte

A guerra não tem ética, apenas sorte ou azar.
A vingança, o ressentimento, a raiva, o ódio não conhecem regras.
Nunca se sabe quem vai viver ou morrer, regressar ou ficar.
A guerra não respeita a vida nem a beleza nem a justiça ou a inocência, porque a guerra, para quem a faz, já é a reposição da vida, da beleza, da justiça e da inocência.
A guerra é desejo. Quero fazer isto, posso fazer, nada me impede: faço-o.
Depois, o equilíbrio. A pureza, finalmente. O alívio. O resultado da mais horrenda destruição lunática embriaga de beleza o ânimo dos corações assassinos militantes, ou só de passagem.

Em livros de arte observei fotos de performers, artistas, esmagando com pedras pequenos animais vivos, pardalinhos, pintainhos - seres perfeitos, inocentes de todo o mal, milagres de vida e sobrevivência; pegavam na massa de sangue com as mãos e esfregavam com ela o chão. Ensaguentavam-no com a vida que acabavam de destruir. E pisavam esse chão. Todos pisavam esse chão.
Espectáculos públicos. Arte. Não sei se se aplaudiu, mas foi arte ao vivo. É horror, mas ninguém lhes chama assassinos. São artistas.

Se tivesse de apontar a maior performance-artística do século XXI, verdadeiramente fatal, horrível, mas fascinante, um sucesso total, referiria a destruição das torres gémeas em Nova Iorque. – sim, foi guerra, mas conseguimos desviar os olhos das espectaculares imagens? O impacto dos aviões, as explosões rubras e negras, os lenços brancos acenando das janelas, os corpos em queda livre, sucessiva, o som dos embates? É duro dizer isto, porque, sim, foi guerra, e a guerra destrói os que amamos, e os outros - destrói-nos, também, através das suas mortes - mas foi um espectáculo épico. Terá sido?
Guerra e a arte aproximam-se porque destroem para construir. Mas não há lógica nesta relação de causa–consequência, porque ela nega a própria vida, a que destrói e constrói. Existe uma lógica no caos, na destruição, no horror? Isto é concebível?
Poderíamos dizer, por exemplo, que Munch, Van Gogh, sofreram de stress pós-guerra, pós-arte?
Claro que para aqueles que neste momento acabaram de perder a casa, as pernas ou os filhos, o que interessa a intelectualização do horror? Só vêem o sangue e o carbono. E a dor. Vermelha e negra.

quarta-feira, julho 26, 2006

Poetas

Não é verdade que não me tenham dedicado muitos poemas bons, sérios, não de pacotilha. Dedicaram. Há muitos anos atrás, mas dedicaram.
Manuscreviam, diligentemente, no topo da folha, para a Isabela porque..., para ti, Isabela, e, perdoem-me o ridículo, esperando não me enganar, para Isa, meu amor eterno.
Uns anitos depois compilaram em livro todos esses poemas inspirados na aura misteriosamente inspirativa, intangível, que eu gerava, e publicaram-no sem grande estardalhaço.
Não encontrava o autor há bastante tempo e nada sabia do dito. Descobri o exemplar numa livraria que agora já nem existe, mas onde a malta intelectual de esquerda ia muito, a Arco-Íris, perto das instalações da RTP, na 5 de Outubro.
Os poemas eram os "meus", todos, mais vírgula, menos vírgula, mas o livro era dedicado à Cristina, seja lá quem for. Para ti, Cristina, meu amor eterno, porque... O livro todo.
Não deixei de ler poesia. Que parvoíce! Então eu gosto tanto da lírica! A poesia é muito linda. As metáforas da menstruação. Lindo. E o amor é eterno. E o poeta ama tão sentidamente que chega a fingir que é amor, o amor que deveras mente. E não sei quê, não sei quê, esse comboio de corda que se chama, apenas, tesão.



terça-feira, julho 25, 2006

Isabela esclarece quem somos, para onde vamos, etc.

Sobre Deus, posso esclarecer, sem qualquer dúvida, e registe-se a patente, o seguinte:

1. Existe aqui. É omnipresente. Não sei se é omnipotente. Se calhar não é. Mas pode.

2. Não é homem nem mulher, mas, sendo ambos, não é hermafrodita.

(a partir daqui usarei o género masculino por uma questão de facilidade comunicativa - dava-me muito jeito haver mais neutros).

3. É inodoro, incolor, solvente e adquire a forma do seu contentor.

4. Não castiga nem absolve - nós é que fazemos isso tudo sozinhos.

5. Apesar de tudo, quando fechamos a porta, lembra-nos sempre que ainda resta a janela.

segunda-feira, julho 24, 2006

República Democrática da Rolha

Seria possível viver sem rankings? Pergunta retórica! Decididamente não! De que viveriam as redacções sem o incentivo do rankinguismo-nacional? E as conversas de esplanada? E as de pais? E de alunos?

Mas o ranking das faltas dos deputados... seguido da explicação de que foi ano de eleições... e que até se justifica... parece-me um tudo nada... inútil sobre o inútil.

Seja como for, se os deputados faltam muito, devido a trabalho político, doença, ou se chegam muito atrasados, o que no caso dos deputados do CDS-PP se justifica, porque a noite gay, ai o raio do lapsus linguae!, leia-se dei, começa e acaba tarde, é absolutamente necessário arranjar deputados de... substituição.

E eu sugiro, se me permitem, mal dê o segundo toque, e se verifique que o deputado está a faltar, a auxiliar de acção política dirige-se imediatamente aos deputados do respectivo bloco partidário - e agora escolho aleatoriamente um partido qualquer, por exemplo os do PSD - e avisa-os, "ora bem, meninos... ninguém se vai embora senão vão ver o que é bom!".

Claro que ficam chateados, têm mais que fazer, mas tem de ser. A funcionária dirige-se à sala dos deputados para chamar o substituto, que naquele dia, por acaso é do Bloco de Esquerda, o que é chato, porque se fosse do PS nem se notava - e lá vai o senhor todo motivado para apresentar a sua proposta sobre casamentos homossexuais e reprodução medicamente assistida para lésbicas, paneleiros e mulheres solteiras desencaminhadas - ou homens.

Claro que os deputados ficam chateados e preparam-se para boicotar o mais possível o deputado substituto, mas tem que ser, tem que ser. É que os deputados têm de ser responsabilizados: as suas faltas não permitem o desenvolvimento de mais e melhores políticas, e assim é o descalabro. Portugal não desenvolve. Nunca mais há casamentos de homossexais, e as lésbicas têm de andar a pedir esperma aos amigos e a fazer cocktails um bocado nojentos. E também não se pode abortar naqueles casos em que a criança não pode mesmo vir ao mundo.
Portanto, tudo a mexer. Todas as bancadas devidamente ocupadas, a tempo inteiro.

Mas este governo é bestial, pensa em tudo, e, para evitar que o substituto do Bloco se ponha a dissertar sobre matérias que em nada interessam ao grupo onde se vai inserir, caso o deputado substituído falte, tem de deixar a sessãozinha planificada.
O pior é se
o substituído tem um furo num pneu, ou acorda de manhã com uma caganeira que não o deixa levantar o cu da retrete, ou passou a madrugada nas urgências com o filho por causa de uma otite dolorosa. Ah, pois acontece! Habilita-se a uma falta injustificada que até dói. E faltas injustificadas, meus amigos, não dão progressão na carreira (caso isso existisse!), já para não falar nos processos disciplinares.
A malta tem que começar a atinar, que isto não é a república democrática da rolha.

Romântica

Um empresa da zona da Grande Lisboa, encarregue da manutenção das máquinas com chocolates, sumos, refrigerantes, daquelas em que seleccionamos o número 34, metemos a moeda e cai uma garrafa de água, dessas que existem nos hospitais e sítios onde temos de esperar... não emprega negros.
É verdade em primeira mão; um conhecido meu, natural desse paraíso chamado Rondônia, arranjou agora mesmo entrevista na tal empresa promotora do arianismo, mas só depois de ter jurado a pés juntos que não, não era negro, não senhor, até tem os olhos azuis.
E eu juro, o rapaz da Rondônia parece minhoto. Mas dos bonitos.

Os negros não servem para distribuir géneros alimentares por máquinas. Devem dar má imagem. Conspurcar os produtos com as suas mãos de negros.
Agora há leis contra a discriminação. Qualquer tipo de discriminação. Nos tempos coloniais, não. Contudo, as suas mãos serviam para tudo.
Isto a mim, por acaso, chateia-me um bocado, porque eu, que sou muito romântica, sou muito amiga dos pretinhos!

segunda-feira, julho 17, 2006

Sono

Morro de sono e as paredes transpiram calor.

Por que é que Sócrates continua popular nas sondagens?

A popularidade de José Socrátes após um ano de governo, e que governo!, é facilmente explicável:

1. Hipótese Sexy Babe

O homem é giro. É mesmo muito giro e está cada vez melhor. Tem estilo. Os cabelos brancos dão-lhe um irresistível ar de
sexy babe. Não deve haver deputado ou deputada, ministro ou ministra, presidente ou presidenta, cidadão ou cidadã, imigrante ou imigranta, em Portugal, no resto da Europa, ou até mesmo no mundo, que não alimente fantasias eróticas com o nosso primeiro-ministro.
O pior é o raio do sotaque.


2. Hipótese "Fascistossomia 40"

Alteração cromossomática que ocorreu nos portugueses, logo na primeira metade do século XX, detectável a olho nu, mas ainda por nenhum exame obstétrico: a "fascistossomia 40" - é este o nome da popular doença, conhecida acientificamente pela expressão "salazaróide".

A doença, que se pensava erradicada, tal como a tuberculose, apresenta, de novo, elevados níveis de incidência por todo o país, estando tornar-se na pior peste do século XXI, ultrapassando a Sida, que passa para segundo lugar no ranking. No terceiro, vem a Escola EB 2,3 da Damaia.

O governo não promoverá investigação científica para a criação de uma vacina contra o salazaróidismo, porque afirma não se justificar. O próprio Sócrates, sorrindo empaticamenta para a camârara da TVI, esclareceu, "Os indíviduos salazararóides são pacíficos, desde que não lhes metam à frente nenhum sindicalista ou feminista, e, muito menos, pretos, monhés, árabes ou imigrantes"
.



Cromossomas de indivíduo que se ofereceu para escravo pessoal de Sexy Babe.
Visíveis, na imagem, os cromossomas carregadinhos de fascistossomia 40 , já crónica.

sábado, julho 15, 2006

O amor é certo

A hetero e homossexuais idealistas e altruístas, solteiras(os) e casadas(os) que queiram adoptar: sim, afinal é fácil adoptar um amor para toda a vida, e já hoje!

Quem vai este fim de semana para os lados de Sesimbra, localidade da Carrasqueira (não confundir com a que pertence ao concelho de Grândola!), pode adoptar cachorrinhos ou gatinhos abandonados ou vítimas de maus tratos.
A
Associação de Protecção aos Animais sem Lar do Concelho de Sesimbra (gostaria muito que visitassem este site!) realiza este fim de semana uma Feira de Adopção de Animais, nessa localidade, junto ao Lidl, ao lado do Plus, em frente ao SuperSol - das 10 às 19 horas.
Se não puder ou não quiser adoptar, mas tiver em casa cobertores velhos, toalhas, edredons, casotas, camas de animais, trelas, coleiras e restos de medicamentos ofereça-os à associação, porque será uma boa ajuda.
Também rações, mas isso já custa dinheiro.



Breve guia para adopção

As minhas três cadelas vieram todas da rua. Uma de cada vez. Abandonadas e em estado lastimável. Recolhi-as, alimentei-as, lavei-as, desparasitei-as, vacinei-as e mandei esterilizá-las.
Não é o caso destes animais para adopção, os quais já foram devidamente tratados antes de poderem ser adoptados.

Se pensam adoptar um animal creiam que, tal como um filho, é para cuidar responsavelmente toda a vida.
Não dá tanto trabalho como uma criança, nem pouco mais ou menos, mas as consultas no veterinário custam dinheiro, bem como as vacinas, os medicamentos para desparasitação interna e externa, rações, etc.
Levá-los à rua, quando está muito calor, muito frio, ou a chover, é um frete indescritível.
Outro senão: um animal dentro de um apartamento suja bastante, porque vem da rua com as patas sujas, porque lhe cai pêlo, porque aproveita todas as oportunidades para ir roubar coisas ao caixote do lixo. O aspirador é o electrodoméstico mais usado, de preferência diariamente.
Um animal novinho faz muitas asneiras: xi-xi por todo o lado, ao início; rói óculos, sapatos, telemóveis e respectivos carregadores; não distingue entre um osso e o pé da mesa. Portanto, quando se pensa adoptar um animal, tal como quando se pensa ter filhos, convém estar consciente de todas estas desvantagens que nos deixam bastas vezes furiosos.
Quem adopta um animal de companhia deve também pensar que nenhum animal doméstico é 100% doméstico. O cão continua a ser lobo; mantém comportamentos da espécie; tal como os gatos continuam a ser linces. E isso é interessante para compreender todo um vasto mundo idiossincrático que nos custa a entender.
Portanto, um cão e um gato querem companhia, mas também precisam de correr - não servem para ficar fechados em varandas ou todo o dia em casa, sozinhos.
Cocós: têm de ser todos apanhados dos passeios, obrigatoriamente. Se na zona onde vivem não há distribuidores públicos de sacos próprios para recolha, convém fazer stock dos que se trazem dos supermercados, etc.
Contudo... as vantagens são em maior número. Mas eu prefiro que saibam o que dói.

Línques para outras associações de animais que precisam de ajuda:

- SOS Animal
- Animal
- Pelos Animais
- Os Amigos dos Animais de Almada

Julho


Sarah Lamb

Jarros de barro cheios de limonada muito fresca, logo de manhã, com polpa da fruta ainda trincável, turvando a água; e rodelas inteiras do fruto, e outras aos quartos, mais as cascas, e folhinhas de menta esfregadas primeiro entre as mãos. E duas, só duas colheres de acúcar. Gelo moído, gelo partido, cubos de gelo.

quinta-feira, julho 13, 2006

Bendita terra

Sheludyakov, Still Life with water-melon, 2002

Comprei um melão gordo.
Cravei-lhe a lâmina até ao coração; rasguei-o de alto a baixo, até ouvir ploc, e alargou-se, aliviado. Respirou fundo, mostrou-se. Estava parido para a minha sede; tínhamos fome.

A fruta tinha carne tenra e escorria água.
Cheirou-me à vida fechada no útero. Uma baforada de sol e humidade; o ar fresco da manhã, quando ainda não saímos, ou ao fim de tarde, quando tudo se queimou já, mas a terra arrefece e respira.
Cheirou-me ao que está vivo e assim permanece, cravadas lâminas nos corações.
Cortei a fatia e abocanhei-a pelo meio, atravessando o verde, o amarelo e o laranja claro, sujando a cara de água doce, como uma criança; e soube-me a canela e a gengibre; a mel polvilhado duns poucos grãos de pimenta e meio olho de cravinho. Baunilha, um ínfimo, diluído na água do ribeiro. Portanto, também hortelã e erva fresca como nota de fundo.
Água, ar, noite, dia, mãos, pés. Excremento seco e terra. Saboreei tudo ao mesmo tempo, com os olhos fechados.

Depois tive sono.
Eram catorze horas.
Dormi a sesta e sonhei com rosas vermelhas e brancas que recolhia do chão a medo. Algumas estavam desfolhadas e as mulheres tinham-nas pisado; eu temia as mulheres.
Não sonhei com melões, e preferia.
Isto foi hoje.

quarta-feira, julho 12, 2006

Reflexões extemporâneas sobre a crise

Se estamos em crise económica muito grave, e a crise é para todos, logicamente recuso contribuir para viagens de acompanhantes das entidades oficiais aos mundiais de bola, ou à feira internacional de bolaria, em representação do País.

Se os representantes do país vão em serviço, que façam o servicinho sozinhos, como eu, e apresentem o recibo das viagens, obviamente em classe económica, com direito a hotel de 3 estrelas, e tudo bem descriminado.

Se vão de tarde, e o jogo é à noite, que regressem no último voo possível; se houver um à meia-noite, óptimo: poupa-se no hotel.
À chegada e à partida, que partilhem o mesmo BMW estatal gratuito. Racionalização de meios.

Se os privilegiados professores faltistas, e incompetentes, e preguiçosos, pagam do seu bolso as fotocópias de fichas para aulas (ao excederem o tecto máximo de 3 por período/aluno), bem como as cópias de acetatos, gravação de cd-roms, etc., e têm de usar os seus próprios computadores portáteis para as apresentações power-point nas aulas, e nos outros trabalhos não lectivos a realizar obrigatoriamente na escola, como, por exemplo, aulas-de-substituição-não lectivas, penso que Patrícia Cavaco Silva também pode ficar em casa a ver os jogos da bola pela tv, como eu.
Que pague do seu bolso, ou do do legítimo esposo, se ele tiver, as viagens para ir às compras ao estrangeiro, às livrarias, às bibliotecas, às bolsas de valores, aos museus e galerias...

terça-feira, julho 11, 2006

O nosso corpo é tão bonito

Mote: Sophia Loren, 71 anos, afirma sentir-se tentada a posar nua para revistas.

Preciso mandar emitir passaporte e renovar todos os documentos. Alterei o endereço; eu própria me alterei. Quando me pedem o BI, nas lojas, olham para a foto e para mim, para a foto e para mim, e mandam-me escrever a assinatura 3 vezes - sendo que a assinatura também mudou, e me custa imenso repeti-la igual à do bilhete.
Fui ao fotógrafo do bairro, expliquei-lhe o fim dos retratos: documentação. "Sim senhora, vamos já tratar disso!"
Lá me ajeitou contra o fundo azul, mandou-me sorrir, depois mostrar os dentinhos, e eu obedeci, porque queria ficar bonitinha. E disse-lhe mesmo, "espero ficar bonitinha!", ao que sorriu, cúmplice.

Esperei um bocado, fui ao café, e regressei para levantar o trabalho, já pago. Abri a capa de cartão contendo as fotos e deparo-me com uma mulher desconhecida. A mesma roupa, as mesmas cores de olhos e cabelo, mas não era eu. O cabelo tinha brilho de bebé, bem como os dentes (que até me esquecera de lavar!), e, milagre dos milagres, não tinha quaisquer sinais particulares na cara; nem manchas nem olheiras nem papos nem rugas de expressão. Tudo apagado. Apreciei o efeito da pele sem sardas. Gostei. O problema é que não era eu. Não sou. Aquilo não pode servir para documentação alguma.
Mas trouxe as fotos, emudecida, fascinada. Não reclamei. Queria aquele objecto estranho criado a partir do meu rosto.
Mostrei a toda a gente, e foi risota geral. Podia publicá-la aqui, que não me reconheceriam na rua. Fiquei gira. Roubou-me uma data de anos. Fiquei mais composta, mais formal. Pareço uma senhora. O problema é que não sou eu.
Quero as minhas manchas na pele, as minhas olheiras e papos. Quero reconhecer-me.
Duas horas depois fui a uma máquina de fotos tipo-passe, das que encontramos nas estações de transportes, meti as moedas, sorri para o vidro, e saíram 4 retratos escuros e manchados. Era eu. Não era tão bonita nem tão certinha nem tão perfeita, mas era eu, bolas, e respirei fundo, e fiquei sossegada. Não quero ser bonitinha. Quero apenas ser eu.


J. Saudek, The mother, 1976

segunda-feira, julho 10, 2006

sábado, julho 08, 2006

Não quero mulheres para decoração


Não sei se vamos ganhar à selecção alemã, e, sinceramente, importa-me pouco. É provável, mas se não ganharmos, jogaremos bem, e os alemães igualmente. Não há pressão para a vitória; podemos dar-nos a luxos de qualidade. Jogar com arte; sem guerra. Sem nervos. Será apenas desporto limpo.

Não sei quem inventou esta ideia de que a competição era saudável e produtiva, mas estou certa de que alguém me informará na caixa de comentários.
Não produzo em competição. Não me interessa; perco gosto no que faço.

Há uns tempos, o Karloos, do Licenciosidades, fez-me chegar um texto publicado no Diário Económico, penso eu, que defendia, sobre as mulheres, a ideia que acabei de enunciar: um estudo, realizado não sei onde, revelou que detestamos competição, e, numa situação de trabalho em que nos seja exigida grande agressividade, produzimos menos ou erramos mais - em contrapartida, inseridas em contextos livres de stress, que requeiram calma e concentração, apresentamos melhores resultados, ou mais criativos. Claro que o referido artigo se servia de um estudo para defesa de uma "teoria cara à opus dei", segundo a qual a existência de escolas separadas por sexo biológico seria o néctar dos deuses para a pedagogia.

Fixemos esta expressão que pretendo usar muitas vezes: "teoria(s) cara(s) à opus dei". Agora fixemos outra, que usarei menos, mas sobre a qual deve ficar claro que todo o meu discurso assenta: "estou-me a cagar de alto para as teorias caras à opus dei", e aconselho que façam todos eles(as) um comboiozinho"!


Grace Slick, 1967

Há mulheres que adoram competir, e homens que só querem que os deixem em paz e sossego; por isso é que estar vivo, viver com os outros, é inesperado. Surpreende. É uma experiência de brutal riqueza. É bom. Por isso, devemos ter cuidado com estudos segundo os quais as mulheres isto, e os homens aquilo. Eu, por exemplo, não consigo concentrar-me em muitas tarefas ao mesmo tempo, mas tenho um sentido de orientação quase canino, distinção que está muito na moda fazer entre mais-valias femininas e masculinas, e algumas existirão - para o bem.

Mas vamos à paridade, porque tendo começado com a cereja do futebol, e da competição, é a esta, a do fundo do cesto, que pretendo chegar: a paridade na política, ou noutra área qualquer, não mudará nada enquanto as mulheres copiarem comportamentos políticos do discurso hegemónico. Não se pensa muito nisto, mas todos copiamos, involuntariamente, discursos ditos bons, legítimos, tradicionais, sem nos perguntarmos se se adequam, se são justos ao mundo que temos; se alguma vez se adequaram; se alguma vez foram (eu copio!).

A política hegemónica não serve mulheres nem homens. Já o provou. É como continuarmos a fazer base de sopa com batata, mudando apenas o tamanho ou a variedadedo tubérculo, porque aprendemos assim, e é assim, ponto final. É possível fazer sopa de outra forma. Melhor sopa.

A paridade na política só fará diferença na fracção de tempo em que transcendermos as lições dos grandes mestres, e nos for ridículo ser tão eficientes como a actual ministra da educação ou a deputada Zita Seabra. Como elas, não, obrigada.

Aquilo que a entrada das mulheres no mundo da política poderá trazer ao mundo interessa tanto mais quanto mais diferentes forem os seus discursos do dos actuais políticos.
Não levemos para a política, nem para a economia (eu poderia lá distingui-las!), o que já lá está e, manifestamente, não nos serve: a demagogia, a agressividade generalizada e a competição cega, sem ética. Levemos as lições das mestras e mestres que nos ensinaram a pensar fora dos moldes de gesso que enformam a estrutura. Levemos, acima de tudo, o pensamento que produzimos sozinhas(os) a partir das lições das mestras e mestres.


Foto de Dennis Stock

Quero uma política que alie cabeça e coração. Quero concentração, qualidade, criatividade, seriedade, diálogo fecundo. Não é rentável? Vamos morrer de fome? Não: não mais do que já morremos todos os dias; será difícil consumir mais, desperdiçar mais - o que Donald Trump gasta num dia daria para alimentar a população inteira da Somália durante 15 dias. O que se gasta num mundial de futebol chegaria para construir escolas em toda a África subsariana, e administrar, a todas as grávidas seropositivas, o antídoto que permitiria aos seus filhos nascerem livres da SIDA.
Precisamos de apertar o cinto? Apertemo-lo a quem ainda tem furos, não aos que já o trazem à volta do pescoço.
Sejamos então inflexíveis, mas para que se invertam os discursos, todo o pensamento; porque a crise mundial é a crise do pensamento, dos valores sociais e humanos.

É possível que precisemos de regressar às origens. Se calhar, vamos ter de voltar a andar a pé, arranjar umas bicicletas, abdicar do shopping center - se calhar, vai ser bom. Se calhar, vamos ter de nos deitar mais cedo para poupar energia. Não sei, mas, se calhar, é provável que tenhamos de abdicar de muito, muito mesmo, e ir trabalhar com um filho a mamar em cada teta, atados à volta do corpo com faixas de algodão. Se calhar vamos comer couve e nabo cozidos. Se calhar. E talvez seja bom.

Quero mulheres nos parlamentos, nos governos, nas empresas, mas quero mulheres com o peito e a garganta transparentes de um lado ao outro. Não quero caçadoras, servidoras, não as quero a pensar como têm pensado os homens e as mulheres.
Quero mulheres diferentes, que me façam homens diferentes, e quero homens diferentes, empenhados connosco, em verdadeira igualdade, na recriação de um sistema diferente.
Isso seria mudar.
Mas quero paridade, apesar de tudo, seja em que circunstâncias forem. Começar por algum lado, mas começar. Um passo seguido de outro, mas passos.
Não quero é mulheres para decoração. Isso acabou.



Turner, Colour Beginning

quinta-feira, julho 06, 2006

Nasceram para a cozinha

Sou moça tolerante. Procuro não diferenciar. Aos meus candidatos a namorado não lhes pergunto a profissão nem se acabaram o nono ano; peço o cadastro criminal, pergunto se gostam de cães, e depois logo se vê.
A certa altura temos de começar a facilitar.
O meu último namorado era um rapaz impecável; chegava sempre à hora certa; um dia, ofereceu-me um ramo de flores roubadas no jardim da Piedade; depois, um chocolate negro, porque era dos magros - não engordava.
Só me pedia para não pôr Canderel no café, que fazia mal ao coração; para não secar o cabelo com o secador, que fazia mal às raízes, e, por amor das minhas alminhas, que não gritasse durante os orgasmos, por causa da vizinhança. De resto, cumpria bem aquilo que lhe cabia cumprir, e eu, desde que não me pedisse para casar ou para se meter na minha casa de armas e bagagens, deixava andar.

Isto, até ao dia em que telefonou para saber como estava a sua querida, o que estava a fazer a sua querida, quem era o seu amorzinho mais lindo, como é que estavam as maminhas do seu amor, etc., e eu lhe respondi que estava a ler umas cartas do Fernando Pessoa.
Calou-se uns segundos e depois perguntou-me: "É esse o gajo de quem nunca deixaste de gostar, e com quem só não vais ter porque é casado e tem dois filhos?! Gostava de saber o que é que esse gajo tinha que eu não te possa dar?"

terça-feira, julho 04, 2006

Uma tangerina madura abriu os gomos

As camisas do meu pai eram brancas.
Era sábado à tarde. A minha mãe tinha ficado de escrava ao quintal. Aos coelhos que tinham sarna. Ao transplante de nabiças para regos de terra que ela própria cavava, negra.
Era sábado à tarde, depois do almoço, cuja alquimia lhe tinha pertencido.
Era depois de me ter vestido de lavado, e ao meu pai. Como todos os dias.

Sábado à tarde de luz bronzeada nos ombros, de brisa marítima muito fácil através dos cabelos. Trinta graus secos. O peito movia-se devagar. As narinas abriam-se e fechavam-se, lentamente. Porque era o sul. Respirava-se.

Sentada na Bedford branca que o meu pai conduzia na estrada da Matola, a caminho de Lourenço Marques, uma tangerina madura abriu os gomos dentro do meu cérebro.
Uma revelação, um milagre: num segundo, sem explicação, li alto, e de uma só vez, a publicidade pintada nas laterais dos prédios, “Singer, a sua máquina de costura; beba Coca-Cola; pilhas Tudor; com Lux cabe sempre mais um; cerveja 2M, tudo o que a gente quer”.
Sumarenta, a tangerina aberta, uma flor no meu cérebro, era doce; e disse ao meu pai, “sei ler”. Sorriu-me, “és o meu tesouro”. Não disse, pensou, “és tudo para mim”.
O meu pai vestia uma camisa de algodão fino, muito branca. Lavadinha, passada a ferro com zelo pela minha mãe, apertada demais no botão da barriga, quase a esgarçar. A pele do meu pai, tostada, brilhava de brilho. E os olhos, de brilho. O sorriso do meu pai sorria sozinho. Sem nada mais escondido. À noite chegaria a casa com a camisa negra de nódoas, porque o meu pai tocava e deixava tocar-se pelo pó, pelo carvão, pelas laranjas, por mim. Agora estava impecável. No bolso da camisa notava-se um resto de nódoa a tinta de caneta rebentada. Coisa de nada. Um milímetro. Impecável.


Essa tarde era feliz: iríamos passear no Zambi, levar-me-ia a comer iogurtes à Baixa, ou talvez fôssemos petiscar moelas à Laurentina. Deixar-me-ia bebericar cerveja do seu copo. Ou um penálti, um tricofaite. Soltar-me-ia a mão, e eu poderia correr, e respirar sozinha, sem cercas, um pouco – sozinha, sem cercas, um pouco, respirar fundo, respirar o ar agridoce de catinga, pólen e amendoim - porque ao lado do meu pai nenhum preto pensaria roubar-me para fazer-me mal, para me vender; ninguém iria roubar-me nem molestar-me, essa culpa de que também eu seria culpada porque o meu sorriso era demasiado puro; o meu pai estava ali, e as suas mãos eram como patas de urso; contar-me-ia histórias de quando era novo, na metrópole; a da nuvem que desabava sobre si, no caminho de Óbidos para as Caldas, e da qual ele fugia, correndo à mesma velocidade, e na mesma direcção, mantendo-se, afinal, debaixo dela; do que só se apercebeu quando parou de pulmões rebentados, e a nuvem pôde finalmente ultrapassá-lo. A memória dele. Não, a minha. As suas histórias ridículas, para que eu me risse, e involuntariamente soubesse que é doce ser ridículo, ser só uma pessoa ridícula, ser uma pedra, um pão acabado de cozer. Ser nobremente ridícula foi uma filosofia de vida.



Disse-lhe, “pai, já sei ler”, e encostei a cabeça para trás, pousando-a na almofada do assento, com os olhos fechados, enquanto absorvia a maresia que vinha da direita, dos sapais ao lado da Sonefe. Os meus músculos, sempre tensos, afrouxaram. Agora já não era a guerra em mim, e podia descansar; as regras de leitura fizeram sentido num ápice, só porque a tangerina teimosa decidira abrir-se por inteiro no meu cérebro, como um polvo que alarga os tentáculos. Ali, dentro do carro, a caminho de Lourenço Marques, perto da Sonefe, como a primeira menstruação.
Sabia ler. Tinha sido difícil. Agora, este milagre. Tão rápido. Sabia ler. Abri de novo os olhos, para confirmar, e li, como se não tivesse feito outra coisa toda a vida, “cigarros LM long size, a vida moderna para o homem moderno”. Sabia ler. Era mesmo verdade. Não percebia como tinha acontecido, mas sabia ler.


Esse milagre de ler, essa magia tão rápida no meu cérebro, como se alguém tivesse movido a varinha à distância ou soletrado as palavras misteriosas, desenfeitiçaram-me.
A partir dessa tarde de sábado, embora a minha prisão física não se alterasse, e os muros e as grades de ferro continuassem altos à minha volta, em todos os lugares, tornei-me mais livre.
As frases podiam roubar-me a qualquer lugar, levar-me para dentro de mentes diversas, e escutar o que pensavam, e não diziam; as mentes dos bons e os maus e os mais ou menos, que eram a maior parte; sentar-me em navios perdidos, pairar sobre vulcões e dormir em jardins de rosas e sombras suavemente lilases.

Foi quando comecei a tornar-me a sua pior inimiga. A inimiga lá dentro, calada. Que vê, e escuta e nem pediu autorização. Foi quando comecei a tornar-me a toupeira.
Só muitos anos mais tarde, muitos, muitos, compreendi que saber ler, o acesso a essa chave para descodificação do segredo, me transformara, contra todas as vontades, na toupeira que lhes havia de roer todas as raízes, devagar, uma de cada vez, até restar nada. Quem mais os amou foi a sua pior inimiga.
O meu pai tinha a camisa branca e eu, o seu tesouro, a sua vida, sujei-lha de terra para sempre. Sei.

domingo, julho 02, 2006

Instintos básicos

Ricardo guarda-redes é bom rapaz, simpático, um miúdo simples, e eu gosto dele.
Cristiano Ronaldo, tenho de dar a mão à palmatória, joga com mestria. Talvez seja bom rapaz, talvez, mas não me parece um miúdo simples nem simpático - antes um novo-rico um bocado seduzido pela fama e luxo que o poder financeiro possibilita, e não gosto dele.
Os pobrezinhos não se tornam obrigatoriamente bonzinhos e humildes quando ascendem na hierarquia
. Talvez esteja enganada nos dois casos. E se estiver, se estiver veremos...
O futebol é um desporto global. Uma cultura global. Um espectáculo coreográfico viril, espontâneo, estratégico - uma tragédia grega. Uma guerra. Depois, uma paz. O circo romano no qual não se morre a não ser com honra, embora haja sacrifício, e animais selvagens esfomeados prontos a devorar. Horror.
O corpo não permanece indiferente perante a emoção dessa guerra; o medo e o entusiasmo; o corpo torna-se animal, sexualiza-se rapidamente. Já não somos só nós, mas o corpo-animal antes do corpo-nome próprio e de família. A nossa carne crua, que morde e é mordida, come e é comida. Um impulso sexual, inesperado, incha as vulvas das mulheres, e encharca-as de muco.
Podemos domesticar o cão, mas não extraímos dele o lobo à volta do qual se constrói a possível domesticidade.



Um jogo como o de ontem, entre Portugal e a Inglaterra, transforma-nos, faz-nos esquecer convenções. Gritamos porque somos animais. Desesperamos e sofremos porque somos animais e queremos ganhar aquela bulha. Tornar-nos-emos líderes do grupo, porque seremos os mais fortes. Venceremos. Governaremos. Haveremos de poder. Estender-nos-ão o tapete que pisaremos, por onde passaremos com os despojos.
Mas que diferença nos faz que Portugal ganhe o campeonato do mundo, fique em quarto lugar ou em último? O que nos traz isso de bom? Melhora as nossas condições de vida? Praticaremos mais desporto? Afinal, para que nos servirá? Somos os melhores porque somos os melhores num desporto específico? Coloca Portugal no mapa do mundo? Os Americanos vão finalmente perceber que não somos uma província de Espanha? A honra de ter uma boa equipa desportiva chega-nos, serve-nos como orgasmo patriótico?
Talvez fosse mais patriótico, mais honroso, pertencer aos quatro melhores do mundo em civismo. Pertencer aos quatro mais trabalhadores; aos quatro mais honestos; ao quatro com melhor protecção ambiental, com melhor organização associativa anti-racista, anti-colonianismos.
No entanto, o civismo, o trabalho, a honestidade, o anti-poder não inspiram, não nos aumentam os níveis de adrenalina, não nos motivam. Estranho. Gostava de pertencer aos quatro melhores do mundo em qualquer outra coisa que não a guerra; que a vulva nos inchasse e tremesse de fome acidental, porque seríamos os quatro melhores do mundo em arte, em cultura musical, em equipamentos pré-escolares, em resolução das listas de espera para cirurgia; porque a protecção à maternidade, paternidade ou ambas seria excelente.
No lugar ilocalizável de onde vim, julgo que era assim que fazíamos.
Trago essa memória. Não sei se é memória, mas o que há-de ser, o que virá, porque não pode ser de outra forma.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...