quinta-feira, setembro 28, 2006

Maquiavélico PC perfeito

Um amigo bazófias, apareceu um dia com um telemóvel de 7ª geração, com comando de voz. Sentava-se no café, e dava ordens ao "bicho", animal em fase domesticação, muito surdo, em voz alta, pausada; dizia: "queres ver o que vai acontecer agora, queres ver", e soletrava, gravíssimo: "A-na-be-la-Cam-po"; a máquina "ouvia", fazia uns cálculos, e, em poucos segundos, mostrava no visor o resultado de tão laborioso comando: "chamada em curso para Daniela Gambo".
Ficava danado, desligava logo, e rematava, "agora não foi a sério, não lhe apeteceu (ria-se a disfarçar!), mas, há bocado, o gajo fez isto mesmo bem!"

Esta história ocorreu-me, porque gostava de ter um pc com comando de voz ao qual eu pudesse ordenar:
"vai-ver-o-proxy-conserta-tudo-mesmo-sem-minha-ordem-põe-tudo-a-funcionar-sem-defeito!

E ele fazia, sem se enganar. Esta madrugada, por exemplo. Só tinha medo que ele se revoltasse, um dia, sei lá!
Um dia muito, muito, muito distante. E começasse a ler-me nos lábios.

Procurar; não resistir

O que me fascina no palhaço, enquanto símbolo, não é o facto de ter de subir ao palco, e fazer rir, porque the show must go on, no mesmo dia em que lhe morre a mãe, o bairro arde, o cancro lavra no pâncreas por mais duas horas apenas, e puf!; o que me fascina no palhaço é ser incapaz de não ir, incapaz de não rir, e fazer rir, mesmo que pudesse.

quarta-feira, setembro 27, 2006

Eu também sou lésbica


Um filme sobre lésbicas é para mim tão escandaloso como a sopa de nabo e cenoura que acabei de engolir - cerca de meio litro!
Ainda nadava na placenta da minha mãe e posso dizer que já tinha estado dentro de uma mulher, onde gemi, mexi a boca e os dedos das mãos e os pés. E gostei, e mantive-me disposta a repetir.
Portanto, para mim, um filme sobre lésbicas será um no qual mulheres que trabalham na nossa empresa, que são da nossa família ou amigas, que se sentam ao nosso lado nos consultórios, e nos transportes, se relacionam como quaisquer pessoas. E depois, de vez em quando, ala para a cama. Mas não estou a ver que passem a vida a esfregar-se contra os azulejos da casa-de-banho do café lá de baixo. As que eu conheço não são assim.

Eu às vezes não sou lésbica; mas às vezes sou, e às vezes tenho cá uma vontade que nem vos digo. E talento.

Agora, quanto à série que aqui me traz, a que passa na 2 a partir das não-sei-quê, e que apresenta bolinha vermelha, e que verdadeiramente mantenho sem som, enquanto vou lendo e escrevendo textos para outra freguesia, pergunto-me porque motivo se intitula A Letra L.
L de lésbica? Não percebo. Só há Lésbicas?! O assunto é só aquele, mais nada?! Séries de lésbicas cuja única ocupação seja foder?
Sim, vejo que fazem pouco mais que... mas podia ser igualmente um A, um B, F, H, I, M ou W, O, K ou R, S, U, X, porque são letras igualmente lésbico-expressivas, ou não?!
Meu Deus, a expressividade da letra B e de um X, no sexo lésbico!

Na série, observo mulheres fazendo amor deitadas, em pé, rebolando-se embrulhadas, esticadas, abrindo-se, fechando-se, dobrando-se. Sempre que tiro os olhos dos relatórios e olho para o écran, há alguém em cima de alguém, entusiasmadíssimo, uma perna no ar, uma mama de lado, uma espalmada noutra... enfim, não tenho nada contra, juro mesmo, só inveja, mas... não fazem mais nada, não lêem relatórios como eu?! Não trabalham?! Ser lésbica é só foder, trocar de parceira, arranjar relações geométricas descritivamente mirabolantes? É que também quero! Quero já, digam-me por favor onde me inscrevo, onde assino por baixo?

A partir de hoje quero ser lésbica.
Sou lésbica, volto assim às origens, e não se fala mais nisso.

Ontem, olhei, e estavam umas a foder contra o vidro do tanque principal do Oceanário, com as sardinhas a passar em cardume, ao fundo, e fiquei preocupada com aquilo. E se o vidro se parte? Gastou-se muito dinheiro com o Oceanário, meus amigos, não é para estragar e matar peixinhos!
E pior, pus-me a olhar, e pareceu-me que a mulher de costas, uma que estava a esmagar uma doce menina contra o vidro do Oceanário, coitadinha, era muito, muito masculina; mas eu sou tão míope, e então pus-me a olhar um bocado melhor, porque aquela cena nunca mais acabava - também passaram os tubarões, e as raias, e os peixes-espada, deu para ver a fauna piscícola quase toda! - e descubro, muito de relance, que a mulher masculina era um homem!
Um homem?! Então mas as lésbicas fazem-no com homens?
Se querem que assine, vamos lá ver, ou sou lésbica ou durmo com homens, vamos lá a ver... agora as duas coisas...
Isto é que deve ser o fim do mundo como dizia a minha avózinha de quem nunca vos falei, a que me ensinou, mas eu esqueci, a história do meio-pinto.
Enfin (leia-se à francesa)!


(Postei imagem de umas meninas todas bronzeadas, e ao molho, embora não veja nada na caixa de edição nem no blogue - continua a trabalhar-se às cegas, por aqui! Valha-nos o texto!)

Casas Bentas em Portugal


225º sessão - nova fase... mas ainda o mesmo julgamento, que ficará conhecido na história nacional como o Caso da Casa Santa, ou da Casa Benta ou do Casa Cruz.
Nos exames que admitam resposta do tipo americano, estas três opções serão usadas para confundir os alunos.

(Espero que estejam a ver uma notícia do jornal Público, como ilustração, porque eu ... nada!)

segunda-feira, setembro 25, 2006

E agora acordei


Os comboios deviam apitar sempre duas, três, quatro vezes antes de chegar a cada estação ou apeadeiro, para nos acordarem, para termos tempo de nos recompor, para escavarmos no peito a coragem de lembrar - querendo-nos tanto, e de olhos abertos, com os farnéis partilhados, destapados sobre os joelhos - que nos queremos vazios e fortes, como se já tivéssemos 60 anos.


domingo, setembro 24, 2006

A culpa foi do comboio



Que nessa altura ainda tinha aquela paragem em Casa Branca, Alentejo.
A gente meteu-se à conversa, partilhámos os farnéis, depois tu viste que eu sabia falar latim selvagem, e leste-me uns poemas do Bocage, mas sem asneiras, e apaixonaste-te, porque eu me apaixonei de repente; não estava previsto e a gente não se controlou.
Foi uma desgraceira para o resto das nossas vidas, sempre a pensar no mesmo, e zero concretização. Porque o comboio nunca mais parou em Casa Branca e, para além disso, a gente nunca mais andou de comboio.

Amor com fronteiras

Para meu bem, e do grande amor verdadeiro, a gasolina está caríssima, bem como o preço das portagens, e uma noite num bom hotel de charme, discreto e romântico, custa o mês de ordenado de qualquer operária de bairro da lata.


sábado, setembro 23, 2006

O corpo rasgado

Foto de Baciar

Não sei se tem importância, mas esqueci-me de te dizer que tenho as mamas atravessadas de cicatrizes. O peito, de um lado ao outro. As costas.
Podes segui-las com o fio da língua; considerá-las entretenimento adicional.



sexta-feira, setembro 22, 2006

Era cedo

Garantem que o irracional é impossível, mas eu sei que podemos plantar todas as árvores, e que elas darão flor e fruto.
Não revelo o segredo, porque não o conheço.
Escutei atrás da porta, podendo, mas temendo entrar.

O impossível é possível. Sei isso e mais nada.


Era tarde

Era o tempo de plantar árvores no quintal.



Controlem o mulherio, se conseguirem

Novas formas de concepção e parentalidade: outro post atentamente dedicado ao status quo português


A Teresa é minha colega e divorciou-se há coisa de dois anos, sem filhos, sabendo-se infértil.
Apesar de não ter voltado a ter companheiro, quer ser mãe. Precisa de viver essa experiência. "O corpo pede", explica-me ela no refeitório, enquanto espeta um rebento de bróculo com o garfo. Não consegue explicar muito, muito bem; o seu desejo é algo da ordem da poesia, do sagrado, de uma reconstrução ontológica que só ela percebe. Não precisa de parceiro. Filho. Só. É muito simples.
Ser mãe foi apelo que nunca senti, porque sou alérgica às noites mal dormidas, mas consigo intuir que algo dentro ou fora dela, algo que não sei dizer, nem eu, sequer; deseja um filho como se deseja um órgão que nunca se teve, e do qual se necessita para continuar a viver.
O relógio biológico da Teresa está na vigésima-quinta hora e não há saída: adopta, ou consegue uma doação ovular alheia.



Asia Argento


Não torce o nariz à adopção, mas “demora muito, dois anos, no mínimo, papelada, chatice, investigam-me os cantos todos à vida, metem-se-me em casa, controlam demasiado, o filho nunca mais é meu”. É o que diz.
Somos colegas há uns anos. Não amigas, amigas. Bem, falamos de tudo no trabalho, mas a Teresa não frequenta a minha casa. Por nada em especial. Talvez porque eu e a Daniela não abrimos muito as portas, acho. Porque nunca a convidámos. Talvez sejamos amigas... eu gosto da Teresa... sim, acho que somos amigas, que parvoíce!
O meu relógio biológico, já expliquei, nunca deu horas, nem o da minha companheira, pelo que ando há décadas a desperdiçar óvulos saudáveis todos os meses. Não lhes tenho qualquer amor particular. São pedaços de carne que nascem em mim e desaparecem da pior maneira possível. A Daniela diz que para uma mulher que não sente o apelo da maternidade, a menstruação e a ovulação são praticamente um castigo divino. É uma espécie de ponto negro que não conseguimos espremer. E rimos. Com todo o respeito, claro, porque as lésbicas também temem a Grande Deusa!
Neste contexto, ofereci-me para doar os meus óvulos à Teresa, que espero me não fique agradecida para toda a vida. Tirando os dias que vou faltar para o efeito, e esperando que o processo não me cause grande dor, é coisa que não me custa. Até fico contente.
Por outro lado, a Teresa tratou de arranjar um espanhol, amigo de uns amigos, igualmente divorciado e disponível para doar sémen, desde que isso lhe não acarrete qualquer responsabilidade paternal. O homem chama-se Paquito ou Pepito ou lá o que é, e nome de família nunca lho conheceremos, embora o abençoemos, bendigamos, etc.
Resultado: isto vai-lhe sair um bocado caro: no mês que vem passaremos uma semana em Madrid, em consultas e tratamentos numa clínica especializada em procriação medicamente assistida. Não podemos fazê-lo em Portugal, certo?! - retirar-me-ão um óvulo, o qual, posteriormente, será fecundado com sémen do dador, e introduzido no útero da Teresa. Vamos ver o que acontece na primeira tentativa.
Gostava de a ver com um filho a crescer no útero, finalmente.
Isto é uma coisa da Teresa, só da Teresa. São as suas despesas, a sua responsabilidade. É como se eu lhe doasse sangue, um rim, medula, um bocado de qualquer coisa que possa ser doada. O que a cultura fez disto é para acabar de vez. Eu é que não vou ser mãe, tal como o outro não vai ser pai. A Teresa, sim.
A parte chata disto é termos de ir a Espanha todos os meses, até se conseguir. Gasta-se.
De resto, depois a Teresa vai ter de enfrentar aquele problemazinho no registo civil, quando for registar a criança sem nome de pai - a menos que opte por pari-la em Espanha, e registá-la lá.
Já lhe disse o que tinha de fazer, mas ela considera embaraçoso chegar com aquela conversa...
A mim não me custava nada. Olhem, queridos, isto foi assim... estava eu muito bem no Bairro Alto a beber umas cervejas na rua, e às tantas, de repente, dou comigo num vão de... pois, não sei... não sei... é verdade, sou uma rameira de gabarito, mas o que é que se pode fazer agora?!
Quanto ao material genético que vai crescer dentro dela, e ser seu filho, questão que algumas outras amigas e amigos, uns da onça, outros menos, têm alvitrado, vejamos: a minha família é de Al-jubarrota; a da Teresa, de Al-meirim, e quanto à do altruista futuro dador, acho que a mãe do dito-cujo ainda mora em Al-geciras.
Portanto, isto com um bocado de sorte, ainda descobrimos que somos primos muito afastados.
E às tantas ainda vou ser madrinha do puto, ou da... miúda! E isso é que vai ser mau, porque me há-de pesar o ar na bolsa!


quinta-feira, setembro 21, 2006

Ponham-lhe travão, se conseguirem


Novas formas de parentalidade: um post dedicado ao status quo português

Eu e o meu amigo Zé Manel, ambos solteiros, livres de contratos de natureza civil, temos uma normal relação de amigos. Visitamo-nos, jantamos ou almoçamos, vamos ao café. Conversamos sobre cultura, política, género.
Má-língua, momentos de comunhão e paz com os outros. A vida.
Nem sempre estamos de acordo. Discutimos, mas rapidamente fazemos as pazes, porque não só eu tenho sempre razão, como não sou de ressentimentos. Tenho muito bom feitio. Passa-me depressa.
Somos cépticos. Idealistas. Pessimistas. Sonhadores. Rimos. Choramos.
Nunca fomos para a cama, ou, se fomos, não interessa para o caso. Não estamos nessa fase, nem é essa a natureza da nossa relação. Nunca sentimos um pelo outro aquilo a que se chama atracção amorosa tradicional. Somos amigos.
Ora, sendo ambos solteiros e sem descendência, um de nós, ou os dois, acossados por um qualquer fenómeno que será de natureza biológica ou cultural, ou ambas, sentimos um crescente desejo procriativo, e acordamos ter um filho conjunto. Um filho biológico.
Planeamos continuar a viver as nossas vidas normais, acrescidas da responsabilidade que envolve tratar e educar um filho. Manteremos as nossas casas separadas, à distância de 30 quilómetros, tal como agora, bem como o nosso namorado ou namorada, se existirem. Ou quando existirem.
A partilha da criança é conjunta. Nos primeiros cinco meses, a criança passará mais tempo comigo, sobretudo por causa da amamentação, e porque pretendo gozar integralmente a licença de parto. O Zé Manel, para acompanhar o nosso filho, gozará, igualmente, todos os dias que a Lei permite.
O Zé Manel pretende ter o bebé nos braços o máximo de tempo possível. Quer embalá-lo, dar-lhe banho, trocar-lhe as fraldas, levá-lo ao médico, fazer gu-gu, dá-dá, passeá-lo, adormecê-lo. Vamos andar mais babados que a criança. E aflitos.
O Zé Manel, ultrapassada a questão da amamentação, é absolutamente capaz de cuidar de um bebé, pelo que o terá consigo conforme acordarmos. Conforme for conveniente a ambos.
Eu e o Zé Manel, vamos ter este bebé. Vamos com calma. Somos amigos e introduziremos um dado novo na nossa relação. Somos também pais de uma mesma criança.



Jan Saudek, First Steps, 1963


Uma coisa é certa: não nos vamos divorciar, e não teremos discussões conjugais; apenas as normais no que respeita à educação dos filhos - porque o Zé Manel terá, com a criança, atitudes que não me agradarão, e vice-versa – deve ser como com os meus vizinhos do lado no que respeita à Margaridinha.
Eu e o Zé Manel só queremos ser felizes, e ter um filho feliz! Ambos queremos acordá-lo, deitá-lo, ser dele, e ele nosso, até voar.
Passaremos momentos difíceis, bem sabemos, mas não deverá ser muito diferente do que se passa aqui ao lado com os pais Margaridinha. Até pode se melhor.
Até pode ser que a Margaridinha venha a sofrer um período emocionalmente conturbado, quando os pais se divorciarem, se isso acontecer, porque sempre é uma alteração dos hábitos.
Comigo e com o Zé Manel, é possível que o nosso filho não venha a gostar muito do namorado que arranjarei em 2012, e vá fazer queixas ao pai, ou que mas venha fazer das paixões que o pai inventa – e lá teremos que remediar a ciúmeira filial.
Quanto ao resto, prometo não dizer ao Zé Manel, nem ele a mim “como é que me podes abandonar? Não pensas no teu filho?” Também não pensaremos “este casamento já deu o que tinha a dar, mas estamos presos pelo filho!”
O que vier logo se vê. Mas não será diferente do caso da Margaridinha e papás. Só se for melhor.

quarta-feira, setembro 20, 2006

O que tu te construíste

O que te faltou no coração, esteve na tua cabeça, sempre, fechado sem chave; do que te faltou no coração, encheste o estômago devagar, e ficaste grande, igual ao que tinhas sentido, antes, sempre, e nesse momento coubeste em ti? Oh, não, esse foi o momento em que pior coubeste no mundo... mas pensaste que agora eras crescido, portanto, o tempo de oferecer ao coração as adiadas prendas do teu cérebro, mas foste demasiado tarde. As tuas prendas não chegavam para o teu coração nem para a tua barriga nem para a tua cabeça.
Era tarde, as árvores haviam sido derrubadas, construíram-se edifícios em série, vivendas geminadas. Estavas só no teu apartamento em ferfeita simbiose coração, cérebro, estomago; vivias mal assim, mas como sair, se já nem falavas a mesma língua, se não tinhas roupa para sair, nem conhecias os modelos, as regras. Tinhas tudo, mas, homem, olhando hoje para ti, tinhas nada. Tiveste sempre tudo no tempo em que simultaneamente tiveste nada.

terça-feira, setembro 19, 2006

É tudo o que sei

Nessa história havia sempre uma luz na escuridão, uma luz ao fundo, uma luz muito ao fundo, só um ponto, crescendo devagar conforme avançava.
Chovia forte, uma água gelada, e o viajante, perdido na floresta, caminhava com os olhos postos na luz salvadora, ao fundo, lá ao fundo, imaginando que, ao chegar, o receberiam com a lareira acesa e uma muda de roupa seca, um cobertor, uma malga de sopa a escaldar; e alguém lhe daria indicações para continuar.


É noite, deste lado

O mundo dorme muito caído. Eu nunca dormi; é tudo.


segunda-feira, setembro 18, 2006

A porrada nossa de cada dia nos dai hoje!


Na sexta-feira, depois de sair da empresa, esgotada, fui num instantinho lá abaixo ao centro do Bairro da Lata, e comprei um excelente relógio-despertador da marca Casio.
Quero ter a certeza que hoje, e todos os dias, acordo à hora certa, para poder chegar ao trabalho pela fresquinha, à hora certa de começar a levar porrada.


domingo, setembro 17, 2006

Memória dos amantes que nunca mentiram



- Esta maminha é minha. Este bocadinho aqui, com a auréola e o mamilo, são só meus.
- Está bem, mas esta parte da tua anca, com este músculo, este aqui, é minha.
- Então, o teu olho direito, com as pestanhas e a sobrancelha, pertence-me para sempre.
- Okay, então este teu dentinho torto é só para mim, e nenhuma das mulheres que terás a seguir poderá possuir este dentinho.
- E tudo o que tu tens, aqui, aqui e aqui, é meu.
- E isto na minha mão ("ah, não apertes mais!"), e isto tudo, tudo, tudo - atiro-me para cima dele e não o deixo respirar - há-de ser só meu enquanto te correr o sangue nas veias.
- Sim, humf, aaaahhhhh, fsss, qu, qu, rrrrrreeee, mas deixa-me respirar por favor!
- Respira à vontade! Já respiraste?


sábado, setembro 16, 2006

Milhares de imigrantes clandestinos africanos tentam chegar à Europa em botes. Hordas de homens e mulheres e crianças, dos quais uma percentagem significativa morre. Naufragam, são mortos, não se sabe.
Os deportados levam notícias. Pelas Canárias, por Gibraltar, é impossível. Apesar de tudo, essas pessoas muito jovens estão dispostas a correr esse risco sem rede, sem regresso: morrer. Apesar de tudo, acorrem em magotes às muralhas da fortaleza. Querem saqueá-la? Destruí-la? O que querem eles afinal? Querem destruir a terra para onde pretendem fugir? No dia em que para sobrevivermos tivermos de fugir para Marte, quereremos destuir Marte?

Não têm lugar neste feudo europeu? Não temos trabalho para dar a estes homens? Em sítio nenhum? Não precisamos de gente activa, de gente que produza, que se reproduza?
Ah, eles precisam de pouco para viver, logo, aceitam trabalhar por valores abaixo dos que aceitamos, logo vêem criar desemprego entre os nossos? Ah, eles precisam de pouco? Então, porque precisamos nós de tanto?
E como pode um negro vir criar desemprego se num número elevado de empresas a sua candidatura está à partida excluída, ignorando-se a lei?
Como pode um negro aceder a um emprego numa clínica privada?
Não precisamos de repovoar o interior. Incomoda-nos assim tanto que a beira produza negros e mulatos?E que os subúrbios das cidades produzam negros rejeitados por uma sociedade na qual quiseram integrar-se e não lhes foi permitido. Isso não nos incomoda?

Dita dura




Obikuelu Naissiria, o meu amigo euroafricano, jovem semiliberal, na fila do check-in, antes da sua partida de férias para um país civilizado do Norte da Europa, afirmou, "mas, Isabela, diz-me, francamente, não achas que este é o governo mais eficaz que tivemos nos últimos anos, no que respeita a política económica, social, gestão...?! Desde o Cavaco? Achas que o Santana foi melhor...?! Que o Durão...?! Que o Guterres...?!"
Tenho a impressão que fiz uma pausa mais longa do que é costume. Que baixei ligeiramente a cabeça.
"Realmente, Naissiria, vendo assim as coisas..., deixa-me ir ainda mais longe", tenho eu a impressão que respondi!, "diria que desde a época áurea do Estado Novo que não temos um governo tão eficaz!"


quinta-feira, setembro 14, 2006

Sobre o aborrecimento sexual dos casais


As pessoas juntam-se para toda a vida! Erro.
Numa relação, excepto os filhos, nada é para toda a vida. As pessoas juntam-se para o tempo que for possível. E esse, que o vivam bem.
Se se partisse para uma união com a consciência de que é muito mais provável ela acabar em dois anos do que durar quinze, talvez durasse vinte, ou a vida inteira.
Os amigos zangam-se, os colegas zangam-se, os irmãos, os primos, os pais e os filhos. Por que carga de água é que os pares que formam casais do dito "amor fusional" não haveriam de zangar-se, e detestar-se, ocasionalmente, e pensar "bem feita!", e mandarem-se uns valentes berros, de vez em quando? E fazerem-se as pazes? E zangarem-se outra vez?
Juntam-se pensando que o quotidiano se compõe apenas de dias bons, de sorrisos? Eu pensava que nos juntávamos para podermos andar à porrada com mais eficácia, mais constância, quando é para esse efeito, e para podermos abraçar-nos mais rapidamente, mais perdidamente, quando é este.

O sexo, essa loucura!
Em que filme, em que livro, em que ópera é que foram beber esta ideia, sem pés nem cabeça, de que o sexo é uma espécie de fogo-de-artifício diário, um exacerbamento permanente?
Uma coisa é a necessidade fisiológica, outra o exagero. Por exemplo, eu gosto de bacalhau, adoro bacalhau, sabem lá o prazer que me dá comer um prato de bacalhau! A ser assim, por que não como eu bacalhau todos os dias? É muito simples, porque tudo o que é demais enjoa.
É muito simples, o repetitivo torna-se rotina, e a rotina é o que se realiza mecanicamente.
Exemplo: ir deitar o lixo orgânico no contentor depois de jantar.

Exemplo: uma rapidinha antes de dormir. Não façam demais, mas façam bem. Só pode existir aborrecimento sexual se as pessoas deixaram de se amar, ou se insistiram na repetição de um exercício mal praticado, que cansa e não resulta.
O sexo não é um exercício, se bem me lembro.
É um ritual. Convinha que fosse. E os rituais fazem-se em ocasiões especiais.
Não, não é como ir deitar fora o lixo depois do jantar. É mesmo especial. Pode ser no vão da escada, mas, se for, que seja especial. Que não seja uma obrigação.
Informo: a cama também serve para dormir.
Mas podem inovar à vontade, mudar de ares e de decoração. Essas coisas todas que já leram nas revistas.
Agora, clubes de "sexo alternativo" para combater o aborrecimento sexual? Não, essa não me vendem. Nesse caso, separem-se e pratiquem amor-livre. Tem muito mais lógica.
Clubes de swingers para variar da rotina, sadomasoquistas, para variar... outras ideias que nem me passam pela cabeça, ou que passam, mas que prefiro remeter para domínio criminal, para variar e desaborrecer o casal? Qual casal? Não querendo ser chata nem moralista nem etc., - se calhar até quero! - um casal aborrecido, é um casal acabado. E se está acabado, acabou. Não insistam.
Bem, eu nunca vivi com ninguém mais que, sei lá, quinze dias seguidos, por isso não faço grande ideia... mas acho que deve ser assim como digo!
De certeza que é!


Swing, baby, swing



Ah, desculpe, mas é que agora a seguir já tenho combinado ali com aquele senhor que tá ca loura new age toda escarranchada.
Só se for a seguir...
O meu marido, não sei, deve ter ido para o andar de cima com o seu colega...

quarta-feira, setembro 13, 2006

O Céu e o Inferno

Esta semana assisti à parte final de um episódio de Os Sopranos.
A sobrinha de Tony Soprano, uma bebé de poucos anos, magoou-se num carossel; a máfia familiar, ao abrigo da porrada e da lei, da lei mesmo legal, por estranho que pareça, fechou o parque de diversões.
Mas a menina queria o carrossel, a menina debulhava-se em lágrimas abraçada ao portão do recinto, desejando o carrossel; e Tony, o bruto, sorrindo como sorri o Céu e o Inferno num mesmo coração, aproximou-se da pequenina, e, erguendo-a no ar, fê-la voar como no carrossel, mas melhor, rodopiando sobre si com ela nos braços, enquanto os levantava e baixava.
Avião...

Apenas esta cena.
Ontem lutei contra o meu capricho: quis a colecção de dvd's de Os Sopranos. Não, não era a colecção, era só um dvd, não, não: era só aquele momento; só aquele momento; a menina no ar, rodopiando no carossel humano dos braços do tio mafioso.
E depois corremos duas vezes a vida à procura dos momentos que perdemos, dos que esquecemos.
Não esquecemos.



Tony Céu-e-Inferno.

terça-feira, setembro 12, 2006

Prémio de Mérito para Professores: mais um golo!

Quem é nunca vai ganhar este prémio, quem é?!
Os faltistas... pois é! E os que... os que... se esquecem das canetas em casa... e... as pedem emprestadas aos alunos para escrever os sumários... exactamente!
Estão a ver como sabem?!
E mais, e mais? Vá... então?!... Os que estão... os que estão... pelos cabelos! Sim senhores, lindos meninos! Pois é... mesmo pelos cabelos, mesmo já na parte espigada da ponta dos cabelos... Muito bem!
Vá, e agora podem arrumar, que os nódulos na garganta já não me deixam gritar mais!
E façam chegar os melhores cumprimentos aos vossos sagrados papás e restantes familiares, e que desculpem se não mando os franguinhos já depenados..., mas é que estive toda a madrugada a rever os critérios de avaliação para subir as notas mais... mais... 40 por cento! Ora estão a ver como sabem?!
E agora vamos todos cantar o hino nacional enquanto não toca para a saída! Desculpem se não acompanho, mas é dos nódulos que me estão a entupir as cordas vocais!
Ah, mas atenção, atenção, atenção... que este ligeiro problema de saúde não incapacitante para o exercício desta meritória actividade profissional, e contraído no âmbito da mesma, fique aqui entre nós, meus anjos! Não vão dizer lá em casa, está bem?! Óptimo!
Sim, sim, e claro que podem mandar-me à merda, em voz alta, sempre que quiserem, que importância tem isso?!


Crítica literária

Excerto de um comentário que me deixaram hoje:

"(...) se o Proust fosse uma escritora pornográfica, certamente escreveria assim."

Let's go outside!


Robbie Williams continua a lamentar não existir, neste planeta, mulher alguma com atributos suficientes para satisfazer as suas exigências mais afectivas. Já procurou por tudo quanto é sítio, mas nada...
E não consegue ser fiel.... E elas não suportam mais tatoos... E elas não querem tirar fotos todas em pelota, e ele pela-se... E elas têm muitas mamas e não treinam o olhar de baixo para cima...

Dá entrevistas com um ar abatido, triste: vê-se mesmo que o homem está desconsolado; e avisa, ele avisa, "pronto, olhem, se calhar, se não conseguir encontrar a minha alma-gémea, terei de me contentar com uma alma-gémeo. Vai-me custar, eu sei, desculpem lá, mas pronto, se calhar vai ter de ser; olhem, pronto!"
Robbie, a gente já sabe! Vá, homem, desembucha!


domingo, setembro 10, 2006

Semente




Mas quem não desejaria ser fácil como água limpa ou terra por adubar?
Rasgar-se como se rasga uma folha larga à beira do caminho, quando passamos, e depois deixar murchar e secar esse trapo rasgado.
Uma velha oliveira encaracolada, uma escultura de anos de casca no tronco vergado. Sim, e uma mula, uma mula que carregasse, comesse e dormisse, ao sol, à sombra, ou no resguardo das mulas, deitada sobre o odor vegetal das fezes secas, mas dormisse.
Eu queria ser uma cadela vadia cheia de pulgas, com as pontas das orelhas necrosadas pelos cachos de caraças, e que as vizinhas piedosas me dessem uns restos, uns ossos velhos, umas latas de água, e, no cio, os cães, todos os cães da freguesia me cheirassem a quilómetros, e me disputassem o sangue, enquanto se montavam uns nos outros e se esfacelavam do desejo da fêmea.
Queria abrir os olhos e fechá-los, como um gato ao sol, e levantar-me do muro para cavar um buraquinho quando tivesse vontade de cagar.
Se fosse uma roseira, haveria de me sentir forte em Janeiro, quando me derrotassem, e em Junho haveria de me casar. Assim, oh, todos os anos, eternamente.
Queria ser um leira de trigo, um campo de centeio, e sentir-me apenas mais solta todas as vezes que as mãos das mulheres, as mãos da mulheres e dos homens, juntos, me segassem e me transformassem e comessem. E fornicassem escondidos no meu pasto, e me sagrassem de amor ou lúxuria.

Queria ser tal e qual aquela ceifeira que alguém observa da estrada.
Mas de todas as coisas perfeitas e simples que o universo criou, eu nasci humana, nasci mulher, ei-la, está aqui! - esta máquina neuronal de carne, cheia de botões invisíveis que não sei usar. Onde ligo, onde desligo? Como diminuo a intensidade? Como vou mais devagar? Como introduzo a password para ligar o som, o teclado? Para desligar.
Eu podia ser tão simples como uma semente. Sou, não sou?!

sábado, setembro 09, 2006

O que germina no silêncio

O silêncio fresco das manhãs; as gotas finas que escorrem das árvores; ainda ninguém se zangou. As côdeas de pão branco estalam, sob os dedos, esse silêncio.
O silêncio das páginas dos livros que se voltam. Dos jornais. De uns passos lá fora, uns saltos altos. Correm. Da água a ferver. De uma música sem voz.
O silêncio da luz que aquece a tijoleira onde me estendo ao comprido, abraçada à cadela loura que me beija. O silêncio das duas colheres de café solúvel quando tombam na chávena.
O silêncio de tudo o que tenho para fazer, da minha vida inteira. O silêncio dos cegos e dos surdos e dos que falam demais. Um silêncio excessivamente vazio.
O teu silêncio que me dói nos braços e no rosto. Que me estoira inteiro na barriga. Mais longe ainda, o teu silêncio que me aperta contra a minha carne tão doce.
E logo mais, o silêncio ardido, o silêncio cansado do final da tarde, de tudo o que se esgotou só por hoje.

terça-feira, setembro 05, 2006

Uma transsexual explica: "sou um bicho da espécie da Filipa"


L., transsexual, autora de FishSpeaker, blogue cuja leitura aconselho, deixou-me um longo comentário em "O corpo é selvagem".

É um texto longo, pelo que me considerei útil editá-lo, criando subtítulos que facilitem a leitura.
Penso que está aqui uma revolução: isto não se lê em lado nenhum, a não ser em Imprensa especializada ou literatura médica,a que raramente temos acesso.
L. esclarece-nos abertamente, na primeira pessoa, sobre assuntos que desconhecemos e que despertam enorme curiosidade - o sexo, e tudo o que se lhe possa associar, vende, vende tudo, vende bem: é um lugar-comum!
A transsexualidade raramente é problematizada nos media. Publicam-se entrevistas dirigidas, sensacionalistas, reportagens do quotidiano, mas sabemos nada, de facto. Raramente um(a) transsexual se explica, em texto livre, como o que aqui temos.
Vale a pena ler com muita atenção, pensar seriamente, porque a questão da transsexualidade, tal como L. a coloca, implica uma profunda revolução sobre modelos culturais, de género, biologia... A esta luz tudo terá de ser repensado.
O feminismo quer repensar tudo. O meu quer, mas não sei qual é o meu!
Por isso, ao contrário do que antes afirmei, penso que que talvez a transsexualidade, afinal, não seja um retrocesso.

Responderei a L. na caixa de comentários.
E aqui vai (atiro-o com um gosto especial):


Estudantes, deputadas, actrizes, advogadas, funcionárias dos CTT, bibliotecárias, professoras, psicólogas, empregadas de balcão

Vim parar aqui não sei bem como, e só li este post, por isso não posso dar uma opinião abrangente sobre isto tudo... mas só este post tem tanto reaccionarismo que me apetece dar uma de Baptista-Bastos e perguntar onde a autora estava no 25 de Abril d 1974. :D

Ok, vamos a isto. Primeiro deixem-me apresentar-me: sou um bicho da espécie da Filipa. Só que diferente, porque, ao contrário do que o post diz... não somos todas iguais. Felizmente existe tanta diversidade e riqueza humana dentro da Transexualidade como dentro das pessoas Cisgénero (palavra cara para não-Transexuais). Eu não sou modelo, nem sou bonita, nem tenho um corpo girito nem sensual, nem me preocupo assim muito com ele. Ando na Faculdade (algumas de nós até têm cérebro, imagine-se!), estou algures na casa dos vinte, tenho muitos hobbies poucos associáveis à Transexualidade (ou melhor, à imagem que se costuma ter dela), e considero-me uma pessoa completamente normal. Compreendo a distorção da imagem em relação à Transexualidade, porque aquelas de nós que são publicamente visíveis costumam ter uma personalidade e estilo de vida menos habitual; algumas são modelos, outras activistas, outras prostitutas, etc. As que não querem ser vistas podem ser de tudo, desde estudantes a deputadas, passando por actrizes, advogadas, funcionárias dos CTT, bibliotecárias, professoras, psicólogas, empregadas de balcão, etc. É tudo uma questão de visibilidade, ou, melhor dizendo, de invisibilidade.
E outra coisa que deve ter em conta: nem todas as pessoas que dizem ser Transexuais o são. Existem muitas pessoas com patologias mentais que acham que são sem o ser. Se a pessoa parecer um bocadinho passada dos "carretos"... pode muito bem não ser Transexual. Existem critérios clínicos para determinar quem é e quem não é (embora os respectivos médicos portugueses tenham muitas pessoas pseudo-transexuais nas consultas de Transexualidade, porque são mais incompetentes do que é normal um médico português ser).


Uma mulher precisa tanto de um homem como um peixe de uma bicicleta

E então vamos analisar um bocadinho o que diz o post e os comentários:

1º Não queremos ser todas objectos sexuais. Algumas de nós, tal como muitas Mulheres Cisgénero, dão valor também a outras coisas. Como a Ciência, Arte, Poesia, Literatura, etc., etc. A necessidade que algumas de nós têm em ser bonitas, ou *mais* bonitas que a maioria das Mulheres Cisgénero é uma maneira de compensar a nossa fragilidade em termos do que julgamos ser a percepção exterior de nós próprias. Afinal a imagem e o corpo são o nosso cartão de visita perante os outros. E querer ser bonita não implica querer ser-se objecto sexual. Tal como uma Mulher Cisgénero, podemos querer ser bonitas para nós ou para @s noss@s amig@s. Dizer que uma Mulher Transexual é uma coisa só por causa dos Homens é tão superficial e preconceituoso como dizer o mesmo acerca de uma Mulher Cisgénero. Eu pessoalmente sou da opinião que uma Mulher precisa tanto de um Homem como um peixe de uma bicicleta, mas enfim. E será que detecto aqui algum ressentimento pessoal por causa da Filipa ser mais bonita que muitas Mulheres Cisgénero, apesar de Transexual? Como se atreve ela?? A inveja, esse monstro de olhos verdes...


Núcleo da Bed Striata Terminalis (BSTc)

2º "Gostaria de poder ver o tempo em que um homem pudesse sentir-se uma mulher, e sê-lo, no seu corpo de homem. Sem necessidade de sujeição a carnificinas cirúrgicas. E vice-versa. Vai acontecer. Sei que vai. A sexualidade elastificou-se, elastifica-se a cada segundo.
Gostaria que o corpo selvagem não precisasse adaptar-se ao que o mundo deseja ver nele, para seu reconhecimento."
Não é possível, Isabela! Ninguém tem essa capacidade imensa de se abstrair completamente do seu corpo. Todos os dias ao espelho, lá está ele. Perante os outros, é também isso que somos - Homens. E não só a imagem que temos de nós, que - acredite - nos faz sentir mesmo mal, mas sobretudo a que os outros têm - e que condiciona a maneira como eles nos vêm, e, consequentemente, nos tratam, é importante. Essa abstracção pós-moderna toda é demasiadamente exigente para a psique da pessoa média. A Isabela podia-se sentir mal se tivesse 150 kilos. E se lhe aparecesse barba? Se me disser que não se importava, então vá a uma farmácia e peça um genérico da testosterona. Tome-o regularmente e ela aparece. Quando tiver o aspecto do Karl Marx, venha-me dizer qualquer coisa...
A sexualidade elastificou-se? Hum, e quem disse que isto é acerca de sexualidade? É acerca de Identidade de Género. A sexualidade é acerca de quem gostamos (afectiva e sexualmente), e cerca de 40% das pessoas Transexuais não são Heterosexuais. Há Homo (30%), Bi (8-9%) e até Asexuais (1%). A Identidade de Género é acerca do nosso género psico-social, e é determinada biologicamente por uma estrutura biológica chamada Núcleo da Bed Striata Terminalis (BSTc), que sofre um desenvolvimento não-regular durante a gravidez, e dá origem a uma Mulher (neurologicamente) num corpo de Homem (anatomicamente) ou a um Homem no corpo de uma Mulher.
E, mesmo em relação à sexualidade, ela tende a manter-se igual. O que varia é a sua imagem e aceitação social.


É mais fácil mudar o corpo do que a mente

3º "Conheço uma transsexual que é empregada de livraria gay, mas interrogo-me por que "nascem" tão "misses", "tão domésticas", tão submissas, e tão pouco professoras de inglês e enfermeiras e gestoras e diplomatas e... não será suficientemente feminino?"
Domésticas, submissas?? Ai, se me conhecesse a mim... e, já agora, tenho habilitações que cheguem para ensinar inglês aos alunos do ciclo (Certificate of Proficiency in English). LOL.

4º "O transsexualismo não me parece "muito à frente", não é grande assumpção de Liberdade, a não ser a de expressão e representação. Mas é uma questão sobre a qual quero pensar."
Então pense, Isabela. Fale com pessoas Transexuais fora do registo da Transexualidade que conhece (se conseguir encontrar, o que pode não ser muito fácil, porque nós tendemos a evitar a atenção pública). Dê uma olhada ao meu blog, é muito bem vinda. Leia os posts, siga os links. As coisas não são assim tão lineares :)

5º "A minha questão é: um homem pode sentir-se uma mulher num corpo de homem? A minha idenficação sexual precisa do meu corpo?"
Sim. Mas por pouco tempo. Precisa de mudar uma das duas coisas, porque um corpo desadequado da sua identidade de género é um dos piores infernos que pode existir. E, paradoxalmente, é mais fácil mudar o corpo do que a mente. Aliás, é a própria classe médica que o reconhece, e já não tentam terapias psicológicas / físicas brutais e invasivas (como os electrochoques) para nos tentarem convencer a ser, psicologicamente, o que não somos, nem saberiamos nunca ser. Tentaram durante décadas, mas desistiram. E, se eu pudesse escolher entre mudar o corpo ou a mente, mudava sempre o corpo. A minha mente é a essência de quem eu sou; é la que reside a minha consciência, o meu conhecimento, a minha personalidade - ou seja, tudo o que faz de mim um Ser Humano individual e diferente de todos os outros. O corpo não é muito mais do que um "proxy", mas, como disse, também tem importância. Daí que, sempre que podemos, tentemos ser femininas e até giritas... :)


Uma opinião fundada no preconceito e imagens superficiais

6º "deixemos as bailarinas saracotear-se. Mas! não nos obriguemos a gostar da dança."
As bailarinas são mais do que a dança, e, aliás, a dança pode não ser assim tão má.

7º "filipa é mesmo uma mulher, só uma mulher se preocupa tanto com a celulite. não me parece que um homem possa sentir-se, bem, mulher num corpo de homem"
Yup! É mesmo isso :)

8º "A expressão de liberdade, e isso é o que toda a mulher sonha, é pensar como um homem. Ser menos agarrada ao seu corpo, ser menos Terra e tornar-se mais Espaço. Mas o contrário também acontece."
Treta. Machismos. A liberdade é sermos como somos. A falta dela é um fenómeno social e externo, não pessoal nem inevitável. Por outras palavras, as Mulheres não são menos livres por causa do que são, mas por causa da vontade dos Homens.

9º "A sexualidade é um feito biológico mas tambem uma construção social. Se calhar os transsexuais necesitam ponher tanto enfase nos tópicos sociais do feminino porque nem têm un corpo de mulher (propiamente dito) nem um cerebro de mulher."
Sim, a sexualidade é uma construção biológica e também sexual. A identidade de género, por seu lado, é muito mais biológica. É possível ter-se um cérebro completamente feminino, do ponto de vista biológico. Veja também este post.

10º "Por isso me parece que os transsexuais representam um retrocesso, são a imagem do o patriarcado desejaria que fôssemos."
É exactamente o que algumas feministas pensavam, como a Janice Raymond, no "The Transexual Empire: The Making of Shemale" (o livro é mau e o título pior). Mais uma opinião fundada no preconceito e imagens superficiais. Sabia que muitas de nós se consideram feministas, Isabela? Veja um dos links que tenho no blog...


Manutenção da neovagina

11º "Pode até dizer-se que determinada pessoa se sente como mulher, pensa como a maioria das mulheres, etc... mas, só poderá ser mulher se o seu corpo for biológicamente de mulher (podendo no máximo, se transformado, ser chamado de transsexual)."
Não somos produtos intermédios, e recuso absolutamente essa qualificação. Mulher é o quê? Se uma pessoa fica desfigurada - completamente - num acidente, na genitália e outros sítios - perde a sua identidade de género? Não. Porquê? Porque não é esse o assento da nossa identidade. Mas muitas Mulheres Cisgénero sentem uma ameaça da nossa parte, e que lhes estamos a invadir um território que é só delas. Não estamos a invadir nada, porque já lá estamos. Foi lá que nascemos, e é lá que queremos viver. Só pedimos que nos reconheçam o direito de lá existir. Não queremos, nem podemos, ir para o território masculino, e também não queremos viver numa terra-de-ninguém.

12º "Um corpo transsexualizado parece-me precisar de manutenção permanente. E se não é mantido, acontece o quê?
Transforma-se em quê? Não tenho resposta para estas perguntas. Mas gostava de saber."
Ok, então vai ficar a saber! Não, não precisa de manutenção permanente, ao contrário do que a história de "desiquilíbrios hormonais" da Filipa sugere. Ela provavelmente abusou só dos Oreos, e as hormonas foram o bode expiatório... A manutenção do equilíbrio hormonal é simples (às vezes requer medicação estrogénica ligeira), e, para ser completamente gráfica, a manutenção da neovagina só requer dilatação, por causa da musculatura pélvica, durante algum tempo depois da operação genital. Aproveito para dizer que não é precisa a operação para alguém se poder considerar Transexual, uma vez que o critério não é cirúrgico, mas psicológico. Algumas de nós até nem planeiam fazer a operação, por motivos vários como falta de dinheiro, medo de complicações cirúrgicas, já se terem habituado à genitália (que não afecta a nossa identidade social, porque geralmente não andamos despidas na rua...). Essas chamam-se non-ops, as que ainda não fizeram mas vão fazer são pre-ops, e as que já fizeram post-ops.


Penile inversion: técnica mais recente

13º "as transsexuais dizem ter fluídos vaginais?! Vamos ver: fluídos devem ter, porque todos temos diversos, mas vaginais?
É que elas têm, de facto, um canal construído no lugar onde as nulheres nascem com vagina, mas é uma concavidade aberta a custo e mantida a custo (creio que tecidos do pénis são usados para manter esse canal - creio, mas ainda hei-de tentar saber como se faz, cirurgicamente, a construção de uma vagina, de uma vulva.) Não é uma vagina, mas um buraco de carne. E duvido muito da sensibilidade desses tecidos ao toque. Porque eu sei o que é ter pele transplantada. E o corpo é selvagem."
Os fluidos provêm da Glandula de Cowper (é uma das poucas estruturas preservadas), ou até do próprio tecido da neovagina, dependendo da técnica usada para a construir. Aberta a custo (ai que linguagem tão gráfica...)? Sim. Mantida a custo? No início sim, depois não precisa de mais manutenção.
A construção é tipicamente feita com tecidos do pénis e escroto, e excertos de pele das pernas e costas no caso de faltar tecido (é a técnica mais recente, também chamada de "penile inversion"; uma mais antiga recorria a tecido retirado do cólon, mas está a ser abandonada definitivamente).
A sensibilidade varia imenso - depende da qualidade do cirurgião e da paciente também. Cerca de 60% das Mulheres Transexuais post-op não têm capacidade orgásmica vaginal (preservam, contudo, capacidade orgásmica noutras estruturas, como a bexiga e próstata, que também costuma ser mantida). Mas as que não a têm geralmente não admitem isso...
Quanto aos detalhes da capacidade orgásmica em quem a tem, ela varia. Mas geralmente o processo todo, bem como a líbido, costuma ser igual à de uma Mulher Cisgénero.

14º "Eu cá digo: não sei o que é ser-se homem e querer ser-se mulher, porque não sou homem."
Pois, eu também não! Não quero ser Mulher, porque... (complete o espaço, Rita).

15º "Sinceramente entendo melhor a homosexualidade do que a transsexualidade."
Têm tanto a ver uma com a outra como alhos com bugalhos. Excepto talvez quando se é simultaneamente uma Mulher Transexual e se gosta de outras Mulheres... :D

16º "objectos cobiçados e admirados pelos homens."
Repito: uma Mulher precisa dum Homem (e respectiva cobiça e admiração) tanto quanto um peixe de uma bicicleta.


Pratiquem a tolerância com os outros que gostariam de ver praticada sobre vocês!

17º "o que define a identidade sexual? os órgãos sexuais externos? os genes? o B.I.? e por ai fora"
Existem vários elementos sexuados num Ser Humano, não só os genitais. Os orgãos sexuais internos, os genes, e o tal centro neurológico que é responsável pela Identidade de Género. Quando eles não estão todos de acordo, temos uma pessoa Intersexuada à nossa frente (também conhecida como "Hermafrodita", um termo pouco elegante que está a cair em desuso). A Transexualidade é um tipo de condição Intersexual.

18º "Kyler, vou escrever mais sobre o assunto. Incluindo ideias que agora expões."
Então pesquise um bocadinho antes disso, Isabela! Há muita coisa que desconhece, e o primeiro passo para o conhecimento é admitir a nossa ignorância.

Peço desculpa pelo comentário / testamento, que é mais longo que o próprio post, mas gosto de explicar as coisas às pessoas, porque muitas vezes o problema é desconhecimento. Não há nada de errado com não sabermos muito sobre um assunto, mas não é bom nem justo formarmos uma opinião definitiva sobre ele e as pessoas que por ele são afectadas sem nos instruirmos primeiro.
Convido todas as pessoas que queiram saber um bocadinho mais sobre Transexualidade a visitar o meu blog. O blog é perfeitamente inofensivo, e não mordeu nenhum(a) cibernauta até hoje :)

Fiquem bem, e pratiquem a tolerância com os outros que gostariam de ver praticada sobre vocês!

L.


domingo, setembro 03, 2006

Carne, primeira

Exposta em silêncio e de olhos abertos fui a bombista-suicida de mim.

Carne, segunda

Uma substância viva que me ate à vida durante a eternidade humana de uma vida.

Lavada

Pintei as unhas de vermelho-escuro para que me deixem andar na rua cheia de sangue seco nas mãos.

90% dos machos leitores d'O Mundo Perfeito

Se escrevo um texto erótico ou romântico-piegas ou sobre o corpo, o amor, o afecto, qualquer coisa que vá parar ao marmelanço, os que já foram meus namorados, e os que queriam ser, e os que pensam que sofro por eles ou que estou perdidamente apaixonada, ou os nada, portanto, cerca de 236 depósitos de testosterona, pensam, "é para mim; aquilo é para mim; ela está perdida; ela ainda não recuperou; é óbvio que aquilo foi o beijo que me deu/me quer dar!".
Ou seja, cada um dos meus textos para "constituir família" tem duas centenas de destinatários simultâneos.

Se num texto me refiro à minha ignorância sobre ciências, ou aproveito o desconhecimento para uma brincadeira qualquer, ou até mesmo só porque quero pensar sobre o assunto, 95% dos leitores engenheiros, médicos, biólogos, físicos e químicos e afins pensam, "ela está a desafiar-me, a malandreca; eu bem sei o que ela quer; está perdidinha... vê-se mesmo que isto é para mim! Então, se ela falou sobre Galileu Galilei, aquilo só pode ser para mim!"
Este tipo de textos tem sempre quase uma centena de destinatários em simultâneo.

Se escrevo a cascar nos homens, só porque me apetece, gratuitamente ou não, metade dos leitores toma o assunto como pessoal. "Pá, aquilo é para mim, embora eu não seja assim! Outros homens até podem ser, mas eu não! A gaja julga que é boa, que sabe muito, mas passa a vida a entrar em contradições; deve ter um feitio do caraças, por isso é que está sozinha - porque ninguém está para a aturar. Diz mal dos homens, mas faço ideia a miséria que ali vai. Ninguém a quer, daí o ressentimento. As mulheres não se libertam (1), esse é o problema!"




Se escrevo sobre assuntos feministas... tenho falta de homem! E precisaria de cada um deles em particular.

Se escrevo sobre filosofia ou religião... não tenho mais nada com que me entreter, porque não tenho homem, e é óbvio que precisava deles para me acalmar! Por isso é que escrevo sobre essas coisas, para parecer interessante e conseguir engatar algum.

Se escrevo sobre África, sou uma grande traumatizada, por isso é que fiquei ninfomaníaca recalcada, e por isso é que sou fascinada pelo meu pai, que é o símbolo do homem que nunca possuí! E estou a mostrar-me interessante para engatar. É isso!

Se escrevo sobre mim é porque estou a lançar o isco a ver se arranjo homem. A promover-me, embora deva ser um estafermo como as outras todas que têm blogue mas não saem para a rua, não se mostram. Mas ando à caça!

Se escrevo, tudo o que escrevo é autobiográfico, é o meu retrato. Tem de ser, não há dúvidas! Porque sou uma ressabiada com falta de mangalho.
Este texto, por exemplo, é o meu típico texto autopromocional de engate. Porque é assim que arranjo as minhas vítimas para sexo inconsequente e outros fins menos interessantes.
Por outro lado, o macho leitor deste texto concreto, considera que nada aqui lhe é dirigido em particular. "Ah, ela diz isto para desabafar, mas é óbvio que a mensagem não é para mim, é para os outros, os engraçadinhos, porque ela curte-me, ela é perdida por mim. Isto é só para os marialvas, os chatos que ela não suporta. Eu, não! A mim, ela adora-me. O que ela queria era apanhar-me!"

(1) Tradução:
ou seja, as mulheres, a maior parte, não são ainda capazes de se deixar montar, quando, onde e quanto vezes nos apetece, sem nos perguntarem o nome e o estado civil, como a gente gostaria! E preocupam-se demasiado com o afecto e o amor, que não passam de uma ilusão dos livros da Anita e outros que elas lêem.


Leitura complementar 1: crónica, sobre mim, de um dos meus leitores!

Leitura complementar 2: o distinto cronista é filósofo, pintor e professor, vade retro.


sexta-feira, setembro 01, 2006

Sinais exteriores de riqueza

Se o mundo fosse perfeito e houvesse justiça, eu teria rugas e cabelos brancos, muitos.
Mereceria melhores classificações na avaliação de desempenho; uma ou outra medalha de agraciamento.

Do interesse público do futebol

O futebol alimenta, hoje, bem à vontade, e dentro da fronteira, uns bons 8 milhões de portugueses - tal como o vinho, durante o Estado Novo, deu de comer a mais de um milhão: "beba vinho".
Aí está o interesse público das crises no futebol.
As substâncias dopantes são sempre de interesse público. Não resolvem os problemas na origem, mas a sensação de bem estar alivia a ansiedade e abre sorrisos. Não temos consciência de nada enquanto nos esquartejam, como nas anestesias.

A minha civilização

O papa João Paulo II absolveu Galileu Galilei da heresia de que foi acusado, ao defender que a Terra não era o centro do nosso sistema planetário.

Bento XVI, o 16º abençoado, prepara-se para discutir a teoria da evolução com antigos alunos.

Grave!

Começo a recear que após tantos séculos de doce prevaricação, a igreja católica ainda nos venha com conversetas sobre o onanismo não ser, afinal, um pecado mortal, ou, até mesmo, o desperdício de esperma para fins não reprodutivos!

Que piada é que a função terá depois? Não nos roubem as poucas actividades recreativas a que nos podemos dedicar gratuitamente, e que mantêm a sedutora aura do "ai, estou a portar-me tão mal!"

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...