Vim parar aqui não sei bem como, e só li este post, por isso não posso dar uma opinião abrangente sobre isto tudo... mas só este post tem tanto reaccionarismo que me apetece dar uma de Baptista-Bastos e perguntar onde a autora estava no 25 de Abril d 1974. :D
Ok, vamos a isto. Primeiro deixem-me apresentar-me: sou um bicho da espécie da Filipa. Só que diferente, porque, ao contrário do que o post diz... não somos todas iguais. Felizmente existe tanta diversidade e riqueza humana dentro da Transexualidade como dentro das pessoas Cisgénero (palavra cara para não-Transexuais). Eu não sou modelo, nem sou bonita, nem tenho um corpo girito nem sensual, nem me preocupo assim muito com ele. Ando na Faculdade (algumas de nós até têm cérebro, imagine-se!), estou algures na casa dos vinte, tenho muitos hobbies poucos associáveis à Transexualidade (ou melhor, à imagem que se costuma ter dela), e considero-me uma pessoa completamente normal. Compreendo a distorção da imagem em relação à Transexualidade, porque aquelas de nós que são publicamente visíveis costumam ter uma personalidade e estilo de vida menos habitual; algumas são modelos, outras activistas, outras prostitutas, etc. As que não querem ser vistas podem ser de tudo, desde estudantes a deputadas, passando por actrizes, advogadas, funcionárias dos CTT, bibliotecárias, professoras, psicólogas, empregadas de balcão, etc. É tudo uma questão de visibilidade, ou, melhor dizendo, de invisibilidade.
E outra coisa que deve ter em conta: nem todas as pessoas que dizem ser Transexuais o são. Existem muitas pessoas com patologias mentais que acham que são sem o ser. Se a pessoa parecer um bocadinho passada dos "carretos"... pode muito bem não ser Transexual. Existem critérios clínicos para determinar quem é e quem não é (embora os respectivos médicos portugueses tenham muitas pessoas pseudo-transexuais nas consultas de Transexualidade, porque são mais incompetentes do que é normal um médico português ser).
Uma mulher precisa tanto de um homem como um peixe de uma bicicleta
E então vamos analisar um bocadinho o que diz o post e os comentários:
1º Não queremos ser todas objectos sexuais. Algumas de nós, tal como muitas Mulheres Cisgénero, dão valor também a outras coisas. Como a Ciência, Arte, Poesia, Literatura, etc., etc. A necessidade que algumas de nós têm em ser bonitas, ou *mais* bonitas que a maioria das Mulheres Cisgénero é uma maneira de compensar a nossa fragilidade em termos do que julgamos ser a percepção exterior de nós próprias. Afinal a imagem e o corpo são o nosso cartão de visita perante os outros. E querer ser bonita não implica querer ser-se objecto sexual. Tal como uma Mulher Cisgénero, podemos querer ser bonitas para nós ou para @s noss@s amig@s. Dizer que uma Mulher Transexual é uma coisa só por causa dos Homens é tão superficial e preconceituoso como dizer o mesmo acerca de uma Mulher Cisgénero. Eu pessoalmente sou da opinião que uma Mulher precisa tanto de um Homem como um peixe de uma bicicleta, mas enfim. E será que detecto aqui algum ressentimento pessoal por causa da Filipa ser mais bonita que muitas Mulheres Cisgénero, apesar de Transexual? Como se atreve ela?? A inveja, esse monstro de olhos verdes...
Núcleo da Bed Striata Terminalis (BSTc)
2º "Gostaria de poder ver o tempo em que um homem pudesse sentir-se uma mulher, e sê-lo, no seu corpo de homem. Sem necessidade de sujeição a carnificinas cirúrgicas. E vice-versa. Vai acontecer. Sei que vai. A sexualidade elastificou-se, elastifica-se a cada segundo.
Gostaria que o corpo selvagem não precisasse adaptar-se ao que o mundo deseja ver nele, para seu reconhecimento."
Não é possível, Isabela! Ninguém tem essa capacidade imensa de se abstrair completamente do seu corpo. Todos os dias ao espelho, lá está ele. Perante os outros, é também isso que somos - Homens. E não só a imagem que temos de nós, que - acredite - nos faz sentir mesmo mal, mas sobretudo a que os outros têm - e que condiciona a maneira como eles nos vêm, e, consequentemente, nos tratam, é importante. Essa abstracção pós-moderna toda é demasiadamente exigente para a psique da pessoa média. A Isabela podia-se sentir mal se tivesse 150 kilos. E se lhe aparecesse barba? Se me disser que não se importava, então vá a uma farmácia e peça um genérico da testosterona. Tome-o regularmente e ela aparece. Quando tiver o aspecto do Karl Marx, venha-me dizer qualquer coisa...
A sexualidade elastificou-se? Hum, e quem disse que isto é acerca de sexualidade? É acerca de Identidade de Género. A sexualidade é acerca de quem gostamos (afectiva e sexualmente), e cerca de 40% das pessoas Transexuais não são Heterosexuais. Há Homo (30%), Bi (8-9%) e até Asexuais (1%). A Identidade de Género é acerca do nosso género psico-social, e é determinada biologicamente por uma estrutura biológica chamada Núcleo da Bed Striata Terminalis (BSTc), que sofre um desenvolvimento não-regular durante a gravidez, e dá origem a uma Mulher (neurologicamente) num corpo de Homem (anatomicamente) ou a um Homem no corpo de uma Mulher.
E, mesmo em relação à sexualidade, ela tende a manter-se igual. O que varia é a sua imagem e aceitação social.
É mais fácil mudar o corpo do que a mente
3º "Conheço uma transsexual que é empregada de livraria gay, mas interrogo-me por que "nascem" tão "misses", "tão domésticas", tão submissas, e tão pouco professoras de inglês e enfermeiras e gestoras e diplomatas e... não será suficientemente feminino?"
Domésticas, submissas?? Ai, se me conhecesse a mim... e, já agora, tenho habilitações que cheguem para ensinar inglês aos alunos do ciclo (Certificate of Proficiency in English). LOL.
4º "O transsexualismo não me parece "muito à frente", não é grande assumpção de Liberdade, a não ser a de expressão e representação. Mas é uma questão sobre a qual quero pensar."
Então pense, Isabela. Fale com pessoas Transexuais fora do registo da Transexualidade que conhece (se conseguir encontrar, o que pode não ser muito fácil, porque nós tendemos a evitar a atenção pública). Dê uma olhada ao meu blog, é muito bem vinda. Leia os posts, siga os links. As coisas não são assim tão lineares :)
5º "A minha questão é: um homem pode sentir-se uma mulher num corpo de homem? A minha idenficação sexual precisa do meu corpo?"
Sim. Mas por pouco tempo. Precisa de mudar uma das duas coisas, porque um corpo desadequado da sua identidade de género é um dos piores infernos que pode existir. E, paradoxalmente, é mais fácil mudar o corpo do que a mente. Aliás, é a própria classe médica que o reconhece, e já não tentam terapias psicológicas / físicas brutais e invasivas (como os electrochoques) para nos tentarem convencer a ser, psicologicamente, o que não somos, nem saberiamos nunca ser. Tentaram durante décadas, mas desistiram. E, se eu pudesse escolher entre mudar o corpo ou a mente, mudava sempre o corpo. A minha mente é a essência de quem eu sou; é la que reside a minha consciência, o meu conhecimento, a minha personalidade - ou seja, tudo o que faz de mim um Ser Humano individual e diferente de todos os outros. O corpo não é muito mais do que um "proxy", mas, como disse, também tem importância. Daí que, sempre que podemos, tentemos ser femininas e até giritas... :)
Uma opinião fundada no preconceito e imagens superficiais
6º "deixemos as bailarinas saracotear-se. Mas! não nos obriguemos a gostar da dança."
As bailarinas são mais do que a dança, e, aliás, a dança pode não ser assim tão má.
7º "filipa é mesmo uma mulher, só uma mulher se preocupa tanto com a celulite. não me parece que um homem possa sentir-se, bem, mulher num corpo de homem"
Yup! É mesmo isso :)
8º "A expressão de liberdade, e isso é o que toda a mulher sonha, é pensar como um homem. Ser menos agarrada ao seu corpo, ser menos Terra e tornar-se mais Espaço. Mas o contrário também acontece."
Treta. Machismos. A liberdade é sermos como somos. A falta dela é um fenómeno social e externo, não pessoal nem inevitável. Por outras palavras, as Mulheres não são menos livres por causa do que são, mas por causa da vontade dos Homens.
9º "A sexualidade é um feito biológico mas tambem uma construção social. Se calhar os transsexuais necesitam ponher tanto enfase nos tópicos sociais do feminino porque nem têm un corpo de mulher (propiamente dito) nem um cerebro de mulher."
Sim, a sexualidade é uma construção biológica e também sexual. A identidade de género, por seu lado, é muito mais biológica. É possível ter-se um cérebro completamente feminino, do ponto de vista biológico. Veja também este post.
10º "Por isso me parece que os transsexuais representam um retrocesso, são a imagem do o patriarcado desejaria que fôssemos."
É exactamente o que algumas feministas pensavam, como a Janice Raymond, no "The Transexual Empire: The Making of Shemale" (o livro é mau e o título pior). Mais uma opinião fundada no preconceito e imagens superficiais. Sabia que muitas de nós se consideram feministas, Isabela? Veja um dos links que tenho no blog...
Manutenção da neovagina
11º "Pode até dizer-se que determinada pessoa se sente como mulher, pensa como a maioria das mulheres, etc... mas, só poderá ser mulher se o seu corpo for biológicamente de mulher (podendo no máximo, se transformado, ser chamado de transsexual)."
Não somos produtos intermédios, e recuso absolutamente essa qualificação. Mulher é o quê? Se uma pessoa fica desfigurada - completamente - num acidente, na genitália e outros sítios - perde a sua identidade de género? Não. Porquê? Porque não é esse o assento da nossa identidade. Mas muitas Mulheres Cisgénero sentem uma ameaça da nossa parte, e que lhes estamos a invadir um território que é só delas. Não estamos a invadir nada, porque já lá estamos. Foi lá que nascemos, e é lá que queremos viver. Só pedimos que nos reconheçam o direito de lá existir. Não queremos, nem podemos, ir para o território masculino, e também não queremos viver numa terra-de-ninguém.
12º "Um corpo transsexualizado parece-me precisar de manutenção permanente. E se não é mantido, acontece o quê?
Transforma-se em quê? Não tenho resposta para estas perguntas. Mas gostava de saber."
Ok, então vai ficar a saber! Não, não precisa de manutenção permanente, ao contrário do que a história de "desiquilíbrios hormonais" da Filipa sugere. Ela provavelmente abusou só dos Oreos, e as hormonas foram o bode expiatório... A manutenção do equilíbrio hormonal é simples (às vezes requer medicação estrogénica ligeira), e, para ser completamente gráfica, a manutenção da neovagina só requer dilatação, por causa da musculatura pélvica, durante algum tempo depois da operação genital. Aproveito para dizer que não é precisa a operação para alguém se poder considerar Transexual, uma vez que o critério não é cirúrgico, mas psicológico. Algumas de nós até nem planeiam fazer a operação, por motivos vários como falta de dinheiro, medo de complicações cirúrgicas, já se terem habituado à genitália (que não afecta a nossa identidade social, porque geralmente não andamos despidas na rua...). Essas chamam-se non-ops, as que ainda não fizeram mas vão fazer são pre-ops, e as que já fizeram post-ops.
Penile inversion: técnica mais recente
13º "as transsexuais dizem ter fluídos vaginais?! Vamos ver: fluídos devem ter, porque todos temos diversos, mas vaginais?
É que elas têm, de facto, um canal construído no lugar onde as nulheres nascem com vagina, mas é uma concavidade aberta a custo e mantida a custo (creio que tecidos do pénis são usados para manter esse canal - creio, mas ainda hei-de tentar saber como se faz, cirurgicamente, a construção de uma vagina, de uma vulva.) Não é uma vagina, mas um buraco de carne. E duvido muito da sensibilidade desses tecidos ao toque. Porque eu sei o que é ter pele transplantada. E o corpo é selvagem."
Os fluidos provêm da Glandula de Cowper (é uma das poucas estruturas preservadas), ou até do próprio tecido da neovagina, dependendo da técnica usada para a construir. Aberta a custo (ai que linguagem tão gráfica...)? Sim. Mantida a custo? No início sim, depois não precisa de mais manutenção.
A construção é tipicamente feita com tecidos do pénis e escroto, e excertos de pele das pernas e costas no caso de faltar tecido (é a técnica mais recente, também chamada de "penile inversion"; uma mais antiga recorria a tecido retirado do cólon, mas está a ser abandonada definitivamente).
A sensibilidade varia imenso - depende da qualidade do cirurgião e da paciente também. Cerca de 60% das Mulheres Transexuais post-op não têm capacidade orgásmica vaginal (preservam, contudo, capacidade orgásmica noutras estruturas, como a bexiga e próstata, que também costuma ser mantida). Mas as que não a têm geralmente não admitem isso...
Quanto aos detalhes da capacidade orgásmica em quem a tem, ela varia. Mas geralmente o processo todo, bem como a líbido, costuma ser igual à de uma Mulher Cisgénero.
14º "Eu cá digo: não sei o que é ser-se homem e querer ser-se mulher, porque não sou homem."
Pois, eu também não! Não quero ser Mulher, porque... (complete o espaço, Rita).
15º "Sinceramente entendo melhor a homosexualidade do que a transsexualidade."
Têm tanto a ver uma com a outra como alhos com bugalhos. Excepto talvez quando se é simultaneamente uma Mulher Transexual e se gosta de outras Mulheres... :D
16º "objectos cobiçados e admirados pelos homens."
Repito: uma Mulher precisa dum Homem (e respectiva cobiça e admiração) tanto quanto um peixe de uma bicicleta.
Pratiquem a tolerância com os outros que gostariam de ver praticada sobre vocês!
17º "o que define a identidade sexual? os órgãos sexuais externos? os genes? o B.I.? e por ai fora"
Existem vários elementos sexuados num Ser Humano, não só os genitais. Os orgãos sexuais internos, os genes, e o tal centro neurológico que é responsável pela Identidade de Género. Quando eles não estão todos de acordo, temos uma pessoa Intersexuada à nossa frente (também conhecida como "Hermafrodita", um termo pouco elegante que está a cair em desuso). A Transexualidade é um tipo de condição Intersexual.
18º "Kyler, vou escrever mais sobre o assunto. Incluindo ideias que agora expões."
Então pesquise um bocadinho antes disso, Isabela! Há muita coisa que desconhece, e o primeiro passo para o conhecimento é admitir a nossa ignorância.
Peço desculpa pelo comentário / testamento, que é mais longo que o próprio post, mas gosto de explicar as coisas às pessoas, porque muitas vezes o problema é desconhecimento. Não há nada de errado com não sabermos muito sobre um assunto, mas não é bom nem justo formarmos uma opinião definitiva sobre ele e as pessoas que por ele são afectadas sem nos instruirmos primeiro.
Convido todas as pessoas que queiram saber um bocadinho mais sobre Transexualidade a visitar o meu blog. O blog é perfeitamente inofensivo, e não mordeu nenhum(a) cibernauta até hoje :)
Fiquem bem, e pratiquem a tolerância com os outros que gostariam de ver praticada sobre vocês!
L.