segunda-feira, outubro 30, 2006

As minhas dúvidas sobre reciclagem III


Por que motivo o pilhão, que costuma situar-se num pequeno depósito lateral ao contentor do papel ou do vidro, está sempre aberto, "violado", sentindo eu ser a única que lá deixa as pilhas para reciclar (que nunca chegam a ser recolhidas)?

As minhas dúvidas sobre reciclagem II


Terei mesmo de lavar todas as garrafas de azeite, óleo, vinho, vinagre, bem como todas as latas e caixas de sardinhas e atum de conserva, doce, e margarina antes de as depositar no separador de lixos? Não deverei igualmente poupar em água, recurso tão finito e tão frágil neste planeta?

As minhas dúvidas sobre reciclagem I

O papel em que me embrulham o queijo nos hipermercados, plastificado por dentro, vai para o caixote do papel ou do plástico?
Se for para o do papel, o plástico aderente não entupirá a maquineta recicladora? E se for para o plástico ...?

Maria de Lurdes tem insónias


A ministra da Educação dormiu mal esta noite, com a consciência pesada que nem um camião de recolha de lixos sólidos; assim que entrou no gabinete, mal dormida, com os olhos inchados, chamou a assistenta directa, antiga funcionária da PIDE-DGS que recusa reformar-se, para lhe elaborar um comunicado destinado à Imprensa, segundo o qual concede, benignamente, aos professores, o gozo de 4 dias de pausa lectiva na Páscoa, mas atenção, só na Páscoa, e se forem em peregrinação a Lourdes.
Tenho dito e assinou.

domingo, outubro 29, 2006

Professores que racham


O Ministério da Educação informa, na Assembleia da República, que reduzirá, em cinco mil, no próximo ano, o número de professores integrados no sistema. A ministra Maria de Lurdes não informa como vai realizá-lo, mas creio ter-se tornado já bastante clara a forma como antecipa poupar em recursos humanos.
Professores sérios, cansados de trabalhar, e diminuídos pela humilhação diária de que são alvo, via conferências de imprensa, comunicados para os media, ou seja usando-se o Estado da Imprensa, que gosta de ser usada, como veículo de uma difamatória campanha de diabolização de um grupo de profissionais, os quais, sem voz eficaz, vêem ser-lhes colada a imagem da incompetência, da preguiça, do facilitismo, e da detenção de regalias imerecidas, excluir-se-ão voluntariamente.
Portanto, a acção de redução das despesas no Orçamento de Estado da Educação é realizada pela própria campanha que, moendo, "extinguirá" 5, 10, 15 mil docentes, aqueles para os quais as consequências da actual perseguição se tornarem mental, moral, eticamente insuportáveis.
Os professores que estão no sistema e de alguma forma puderem sair, porque possuem valências que lho permitem, vão fazê-lo. Não sairão os professores menos qualificados, ironicamente, nem os menos trabalhadores, porque os ácaros permanecem sempre nos sistemas, invisivelmente: sabem passar despercebidos e têm capacidade de resistência. Sairão os que importam, os que realmente podiam dar-lhe algo, mas não vão suportar a estrela amarela que agora trazem cosida no exterior da roupa e que diz exactamente, "professor a abater"! Porque esses quebrem, cedem à pressão. E é por aí que se tornam frágeis à patroa.
Os professores devem acordar de manhã e ter medo de abrir os jornais. Ou criam calo e cospem para o lado, na medida do possível, ou racham e dão de si.
Ao Ministério da Educação tanto faz, porque há muito deixou de precisar de professores para ensinar. São agora precisos também para entreter.
É por isso que faz todo o sentido, cada vez mais, falar em esvaziamento da figura do professor.
Estes foram esvaziados parcialmente, pelo seu ministério, da tarefa que os distinguia dos auxiliares de acção educativa - ensinar - e totalmente, pelos alunos, do relevo necessário ao exercício da tarefa.
Os alunos são opinião pública, como os encarregados de educação, como os reformados no banco de jardim, e as consequências desta campanha sobre discentes teve efeitos que já não poderão ser remediados: o que fazer quando os alunos consideram não haver na "figura do professor" qualquer conteúdo a merecer respeito, porque são, "uns preguiçosos"?!

sábado, outubro 28, 2006

Um Novo Mundo I






Patty Smith

Recusar o olhar dos outro. O olhar judicativo do café, do consultório. O olhar "tu não és igual, tu não és modelar, tu não tens um carro cinza-prateado!"
Recusar a forma que, ao outro, molda o acto de olhar. Realizar apenas o que é certo para os meus olhos muito imperfeitos, bicudos, lavados.

quarta-feira, outubro 25, 2006

É preciso escutar

A surdez gera o terrorismo. A cara fechada ao outro. As costas voltadas. A chantagem.
Os terroristas querem ser ouvidos e, por isso, para isso, estão dispostos a matar e a morrer.
Fechar-lhes a porta, menosprezá-los, é perder o combate. Um terrorista não desiste. A morte de um gera dois.
O melhor terrorista não se importa de morrer, nem de matar, porque sabe-se já morto antes da morte - a surdez matou-o já!
O terrorismo não é uma acção caprichosa, e os terroristas não são malucos. No nosso tempo, este, muito presente, o terrorismo crescerá de forma exponencial, paralela à intensidade da surdez.
Não me parece existir outro caminho. O terrorismo já se transformou na forma de manifestação deste século. Aconteceu por dentro, nas entranhas dos processos reivindicativos. E não vai recuar.



Terrorismo


Como brinde pela compra de um Diário de Notícias (antigamente os brindes saíam na farinha Amparo, no Nesquik, no OMO...) entregaram-me uma moeda comemorativa. Saiu-me a nº 43, com a efígie de Durão Barroso - colecção Grandes Figuras Portuguesas.
Te-lo-ão consultado antes? É que o senhor até pode nem se considerar grande figura, e seria aborrecido ver-se assim retratado sem autorização.

Não pesa muito, a moeda; é pechisbeque puro, mas guardo-a, porque posso precisar dela em acções de rua: às vezes é difícil arranjar uma pedrita do pé para a mão.

terça-feira, outubro 24, 2006

A pólvora


Finalmente descobriram que os professores, tal como os jogadores de futebol, os juízes, os médicos, os polícias, os cozinheiros, os limpa-chaminés, os cabeleireiros precisam de se sentir satisfeitos com o trabalho que fazem, para que saia bem feito.

Do Expresso de Sábado passado, sobre associações de pais:

O seu colega da Federação Regional das Associações de Pais do Porto vai mais longe: " Se o professor estiver insatisfeito ao dar aulas, gera uma onda de descontentamento na escolas que prejudica toda a gente e que vai trazer consequências negativas para os estudantes."


sábado, outubro 21, 2006

O fim do mundo é agora


Não existo há muitos anos, mas percebo que o mundo mudou sob o meu olhar; que muda no espaço insignificante de alguns milhares de dias. Não estive atenta. Observei da janela, apenas. Vi passar. Vivi e atravessei os sobressaltos de terreno. Depois adormeci.
Quando acordei, em algumas horas tinham passado milénios, e tudo era outra coisa, ou já quase essa outra coisa.
A humanidade global muda indiferente ao que pensa cada um dos membros que a forma. Tomar consciência da existência de tal organismo gigantesco, informe, invisível, sem terra ou nome, que se move no fundo, sob o solo que pisamos, e mais rapidamente do que poderíamos imaginar, fascina-me nos limites do torpor. Na verdade, eu que mudei a vida inteira, detesto mudanças, e por isso elas me fascinam.

A nossa cultura forma-se sobre categorizações em fase de transcendência, perdendo níveis de importância a cada dia.
Logo após o nascimento, estamos sujeitos a uma série de "empacotamentos", numa ou noutra caixa, conforme somos homens ou mulheres, brancos ou negros, pobres ou ricos, e, mais tarde, hetero ou homossexuais. Estes, entre muitos outros. Deixarei, por agora, empacotamentos físicos e educacionais como, alto, baixo; magro, gordo; louro, moreno; deficiente, "eficiente"; bem ou mal vestido; com ou sem acesso à universidade.
A caixa que nos cabe transforma-se, com os anos, num grande caixote, e determinará o nosso poder, o qual agirá sobre aquilo a que chamamos autonomia financeira ou felicidade, mas a que, pessoalmente, chamo paz, bem-estar, liberdade, segurança.
O resto, a interessar, será secundariamente.

O novo mundo, ou mundo novo, como preferirem, este para o qual somos catapultados inexoravelmente, e que não saberei dizer se é perfeito, mas, apenas, que me parece ser um outro estado do mundo, destruiu violentamente, mais do que apenas "abalou", como se costuma dizer, as categorizações do mundo velho.
Para mim, e para outros, tornou-se indiferente ser homem ou mulher, preto ou branco, rico ou pobre, hetero ou homossexual. É verdade que muitas pessoas se apoiam, ainda, nestes pressupostos orientadores, o que compreendo!, mas apoiam-se em terreno pantanoso, em icebergues muito perto do seu nível mínimo de congelamento. Podem, assim, afundar-se ou desmoronar-se a qualquer momento. E ter-lhes-á batido à porta o fim do mundo, sem piedade. Porque o novo mundo é o fim do mundo; daquele mundo.





Quanto à vivência da sexualidade, no que toca à liberdade de escolha do parceiro, e respectiva legitimidade, aspecto que se tem mantido especialmente intocável, porque directamente ligado à reprodução, deixou de haver grande sentido na catalogação de cada um de nós como pertencentes a uma "subdivisão sexual". Há sexualidade, e ponto final. É necessário desclassificá-la, na medida em que a manutenção dos tabus, a meu ver, depende da qualidade/intensidade do envolvimento sexual, e não da sua natureza. Deixa de interessar quem se escolhe, mas a qualidade de quem se escolhe e o que se tem com quem se escolhe. Mais do que homo, hetero, bi, trans ou outra coisa-qualquer-sexuais, as pessoas são sexuais, apenas. Ou assexuais.
Dentro da "caixa", tornou-se muito complicado proceder a arrumações tradicionais; há quem escolha parceiros do mesmo sexo, de sexo diferente, ou tanto faz. Mais, há quem, tendo pertencido a um determinado sexo biológico, tenha mudado, e escolha, agora, companheiros do sexo a que passou a pertencer. Ou se tenha tornado... bissexual.
Tudo isto aconteceu, eximindo-se cada um de nós de sentimentos de culpa; não os reconhecemos já; deveras importante, porque determinou todo o sentido da mudança.
Outro exemplo, para que se comprove a irrelevância das categorizaçoes por sexo ou escolha de parceiro: hoje, nada impede que um homem, nascido mulher, tenha guardado para o futuro uma quantidade razoável dos seus óvulos, e venha a ter filhos naturais com outro parceiro, homem ou mulher: será pai dos filhos cuja fecundação os seus óvulos permitiram.
Complicado?! Isto é já o novo mundo! O fim do mundo. Já cá estamos.



sexta-feira, outubro 20, 2006

Alegrias e desgostos de Isabella


(clicar para aumentar)

Foto de Paolo Roversi, Room 811, Chelsea Hotel, New York City, 1992


Tradução minha (tentativa) de Looking at Me on Pictures and Photographers, Isabella Rossellini, Schirmer Art Books, 2002

As fotos de Paolo eram "struggenti". No dicionário, "struggente" significa "all-consuming", mas isso é apenas parte do significado. Struggente pode entender-se como a constante mágoa causada pelas alegria e desgostos da vida. (...) As fotos de Paolo são escuras, misteriosas e desfocadas. Não são imagens sobre a realidade, mas sobre o que se encontra nas nossas mentes quando recordamos coisas do passado ou esperamos que algo apareça num sonho.

quinta-feira, outubro 19, 2006

E amavam-se

(clicar para aumentar a foto)



Foto de Wim Wenders, Isabella e Scorsese, Monument Valley, 1978

Tradução minha de Looking at Me on Pictures and Photographers, Isabella Rossellini, Schirmer Art Books, 2002

Eu e Martin Scorcese, meu marido na altura, encontrávamo-nos sentados no banco de trás do descapotável de Wim Wenders.
O nosso carro tinha avariado algures no meio do nada, debaixo de um estonteante e escaldante sol. Eu e Martin permanecemos de pé, durante muito tempo, na autoestrada, esperando que aparecesse um carro ou um camião, para pedirmos boleia até qualquer sítio onde houvesse um telefone, alguma sombra e bebida. Não sou capaz de dizer quão aliviados, satisfeitos e supreendidos ficámos quando reconhecemos, no nosso salvador, o realizador alemão Wim Wenders (...).

(M., aqui tens a Road 66)

quarta-feira, outubro 18, 2006

Professores: a via da desobediência civil

Os meus amigos professores, que ontem e hoje estiveram em greve, aqueles que suportaram fazê-la durante dois dias, com o peso que isso terá no orçamento dos agregados, mesmo agendada para uma altura cujas repercussões salariais serão visíveis no mês do subsídio de Natal, fizeram-na para nada. Os jornais não deram destaque, a televisão pouco, e a situação passou mais uma vez relativamente despercebida.

O problema dos encarregados de educação não consiste na falta que as aulas farão aos educandos, mas em não terem onde deixar as crianças, isto porque a escola se transformou, há alguns anos, num armazém de filhos - uma espécie de ATL onde alguém tenta ingloriamente ensinar qualquer coisa, pensando que ainda se vivem esses tempos: os de aprender. Essa tem sido a grande e dolorosa lição que os professores têm compreendido nos últimos anos: a de que já não são docentes, ou seja, aqueles que ducunt (de duco, ducere, latim, verbo ensinar), mas aqueles que ocupam o tempo: a sua tarefa não depende das suas capacidades científicas, didácticas, pedagógicas, mas, como li num blogue, ontem, da sua "capacidade de resistência ao stress", da sua inventividade para animar hostes ou sossegá-las, contê-las, numa espécie de continuação do trabalho das amas.

Esta greve somará milhares de dias de vencimento que beneficiarão palidamente o orçamento de Estado, o qual, por sua vez, não beneficiará, jamais, a luta dos professores. Trata-se de perder dinheiro inutilmente. Pior que atirá-lo à sarjeta, porque da sarjeta ainda alguém poderia aproveitá-lo, agora, do orçamento do Estado...
Com medidas reivindicativas desta ordem, greves que ninguém escuta, que não se discutem na rua nem nos órgãos de informação, ultrapassadas enquanto forma de luta, a indignação dos professores assemelha-se a um ofício fúnebre a expensas próprias.

As responsabilidades da ineficácia de mais esta greve deverão recair sobre os sindicatos da educação, já devidamente elucidados sobre a falta de peso deste tipo de intervenção. Permanecem inoperantes, paralizados sob acções que já se mostraram claramente ineficazes no passado, e por demasiadas vezes.

Uma luta como a dos professores, que não é, sequer, neste momento, uma questão de dinheiro contado (e deveria!), mas de honra profissional, de deontologia, de estatuto da sua profissão, deveria passar por medidas visíveis, radicais, no espírito da democracia, e da liberdade de expressão e de manifestação.

Caros professores, neste momento haveria que arranjar-se uma boa mão cheia de revoltados, meio-cegos de humilhação, com pouco a perder, e levar a cabo um boicote fortíssimo, um terrorismo sem tréguas, sólido, colectivizado, relativamente às medidas do ministério da deseducação, como lhe chama a minha amiga.
Recusa da lição, dentro da sala; recusa do cumprimento de programas, dentro da sala. E, por falar em ofícios fúnebres, greve da fome, auto-imolação à porta das escolas.
Qualquer coisa, mas tudo, tudo, menos a morte muito lenta a que estais destinados.

segunda-feira, outubro 16, 2006

O que vale e o que não vale

Não compreendo como é que o mesmo governo que legisla a doer sobre reformas e segurança social, impostos, saúde e educação, não auscultando a opinião de nenhum(a) eleitor(a) para o efeito, precisa de se apoiar num referendo para descriminalizar a interrupção voluntária da gravidez até às 10 semanas.
O meu voto serve para uns assuntos, não para outros? Por que será?
O governo português não está interessado em que eu me pronuncie, à boca da urna, sobre o aumento da electricidade em 16%, medida que afectará 5 milhões de consumidores domésticos no próximo ano?
Não precisamos de gastar dinheiro dos nossos impostos em processos eleitorais para legislar sobre aquilo que já deveria estar na lei há mais de 20 anos, e que a prática legislou de per si, e às claras.





Estes pequenos anúncios foram scanados do jornal Público. A semana passada reparei que aparecem no Correio da Manhã com uma linguagem menos eufemística. Neste jornal (CM), cujo director anunciou publicamente fazer campanha pelo não, escreve-se, nos anúncios das mesmas clínicas, "interrupção voluntária da gravidez" em lugar de "tratamento voluntário". E convém, porque com isto do "tratamento voluntário" ainda se arriscam a que apareça por lá alguma grávida de Elvas a pedir que lhe acudam às hemorragias do terceiro trimestre!

domingo, outubro 15, 2006

Todo o sexo é tabu!

O sexo era uma grande porcaria, um sacrifício, uma obrigação inevitável, garantiam as nossas mães e avós, penetradas a seco pelos legítimos maridos, sem delicadezas.
Daí até ao "hi5 porcos e porcas" de hoje parece que se fez um longo caminho. Parece, escrevi eu. Fizeram-se quilómetros, mas a estrada não é melhor, está é aberta a todos. Abriram-se muitas portas, que sempre lá estiveram só no trinco; leio, ouço referências a práticas sexuais bastante “acrobáticas”, diria mesmo "truculentas", como a penetração dupla, e essa pérola da “pornocracia” desta primeira década do século XXI, o sexo anal. Assuntos amplamente documentados em vasos libatórios gregos e etruscos, e algumas pequenas e raras esculturas, mas sempre eram esculturas e vasos libatórios! Ora, a nobreza de um enrabamento ritualístico, vindo ele dum vaso libatório, que terá servido, numa cerimónia iniciática qualquer, para transportar a vaselina dos gregos e dos etruscos, tem logo outra semântica! É o sexo investido de um poder divino. Como se a sexualidade e o poder divino se excluíssem ou desamassem alguma vez!
Ambos continuam, na prática, a ser o mesmo campo de batalha dos séculos passados (a mesma urgência, a mesma obsessão e busca), mas o que se alterou no sexo reside no seu sentido enunciativo: o problema não está em fazer-se, mas em não se fazer. E fazendo, como fazê-lo o mais criativamente possível, ultrapassando mais e maiores tabus. De preferência, os mais terríveis, escondidos, inauditos, inomináveis, castigatórios, porque já não castigáveis.






Em determinados circuitos de convívio social, convém apresentar livremente um curriculum sexual recheado de actividades que possam atestar a insubmissão às regras, ou deixar pairar a ideia de que tal curriculum existirá, porque dar a ideia é importante, no processo: granjeia predadores ou presas; por exemplo, “ah, ele gosta de levar pancada, de ser amarrado e humilhado”; por exemplo, “mas ela é mestra em fellatio e adora sobremaneira que lhe ejaculem sobre o rosto, na boca, no peito”. Se isto é tabu? Caramba, é! Se pode ser realizado? Caramba, pode!, mas há contextos para o exercício do tabu, e ninguém se mostra disposto a preparar-se para cumpri-los.
Porque se assume a sua inexistência. Não há tabus, e, se os há, têm que se quebrar, porque o tabu não pode admitir-se numa época de total libertação sexual. Eis onde quero chegar, conversa que tenho adiado longamente, desde há meses: os tabus e respectiva época de libertação sexual!
Uma colega, no outro dia, telefonou-me para o tlm; tinha acabado de arranjar um namorado, e perguntava-me, cheia de dúvidas, "quer ejacular fora de mim, no meu peito, na minha cara, isto é normal?" Disse-lhe que não, e expliquei. A seguir, disse-lhe que sim, e também expliquei. Não a sosseguei nem terei servido de grande ajuda, porque o namorado, entretanto, desapareceu. Não estava preparado. Estava preparado só para lhe encher a cara de esperma; não para namorar com ela. Eu até peço desculpa por usar aqui este arcaísmo que já ninguém ousa, em completo desuso, como namorar.
É sobre estes assuntos sem importância que aqui venho hoje mostrar-me: só para dizer umas coisinhas mesmo sem valor.

Ponto um, pensado e lido, e sobre o qual não alimento, neste momento, muitas dúvidas: há efectivamente tabus!
Ponto dois, e voltando a mais do mesmo, não vivemos uma época de total libertação sexual! Vivemos uma época de libertinagem sexual exactamente igual às anteriores, mas com mais electricidade. Quando era à luz da vela, sinceramente, ainda admito que uma pessoa se equivocasse e visse romantismo nos transportes realizados.
A prática sexual tem, obviamente, limites que transcendem a idade, o consentimento, a consciência e situação de igualdade dos intervenientes no acto.
Os limites, a que chamo tabus, dependem, para mim, da relação de intimidade estabelecida entre os parceiros. Se é útil, a uma relação, que um parceiro ejacule no rosto do outro, se é útil a ambos na relação que mantêm, se crescem um para o outro através da prática, se tem sentido para ambos, o tabu ultrapassa-se justamente. Se o realizam como um comportamento mimético da cultura e discurso porno, que nos rodeiam sem portas, abrangendo inclusive os mais novos, e forçando práticas não desejadas, apenas imitadas, porque todos fazem, "e agora até podemos experimentar coisas novas porque é preciso é atingir o prazer máximo", se calhar, nesse caso, o tabu mantém-se, e mais valia estarem quietos.
O sexo é uma prática iniciática, por um lado espontânea, animal, por outro reflexiva. E, nisto, complementando-se, sucedendo-se; por esse motivo, penso, continua a ser objecto de controlo - restrição ou estímulo - pelas religiões diversas. Por esse motivo, não apagamos das nossas vidas e memória, posteriormente, os amantes com quem fomos mais além (do que o sexo é de sexo, de carne). Não necessariamente os primeiros amantes, embora a inocência e ingenuidade desses primeiros encontros se torne inesquecível, intemporal, mas aqueles em que a prática produziu algo para além do prazer – porque reside aí o conhecimento e perigo maior do sexo: o que desperta, de claro ou de escuro, para lá do prazer.

O sexo pode constituir uma prática iniciática fora da religião - como, aliás, acontece maioritariamente, até porque o "sexo tântrico", tão na moda sem que se saiba bem o que se faz, depende, para resultar, do conhecimento e prática de uma série de preceitos místicos não acessíveis aos leigos - que, vagueando pelos terrenos do profano, pertence a uma ordem invisível de coisas, aproximando-se dela, involuntariamente, e operando alquimias de que não nos apercebemos. É por isso que o sexo prende, que nos prende a pessoas, a situações. É por isso que o sexo não é um território fácil, definitivamente conquistado, e nem sempre gera satisfação, encontro, identificação. Prende, pode prender, mas não preenche. E pode não preencher.
Não me refiro apenas à conquista do prazer orgástico, mas ao sexo enquanto relação completa, aquela que envolve tacto, visão, audição e produção de som, olfacto e sextos sentidos. E o orgasmo seria tudo isso junto, mesmo sem relâmpago cerebral e genital.Seria outro tipo de relâmpago; mas ninguém está preparado para isso. Nem quer. Nem procura.

O sexo ocasional, tenho muita pena de vos desiludir, é ginástica. Seria como darem-me agora, para resolver, complexa operação matemática, não sabendo eu mais do que somas. Posso colocar por lá alguns números e símbolos, aleatoriamente, mas não a resolverei, e aquilo terá servido nada. Apenas a ginástica, e isso, bem, sobretudo os músculos dos membros inferiores, e os pélvicos.
Penso que o sexo ocasional, que também já pratiquei, conhecendo-lhe os trâmites, quanto ao básico, seja uma forma eficaz de queimar calorias e emitir gritinhos, gemidos, esperando que ao menos sejam autênticos; citando um amigo, que por sua vez cita uma amiga: é masturbação em corpo alheio – isto com todo o respeito pela masturbação, actividade cuja natureza não se deveria desvirtuar nunca.

Ora, não sendo o sexo uma actividade de lazer, e não é, dêem-lhe as voltas que quiserem!, parece-me que a questão do tabu se deve equacionar da seguinte forma: o tabu sexual existe, sim, e pode ultrapassar-se, na condição em que sirva os interesses íntimos de uma relação, ou seja, a imersão na prática iniciática, progressiva, continuada dessa relação. Nesse contexto, será possível o que for necessário à relação. Será possível o que ela peça, não o que nela se force. Fora disso, fora dessa relação íntima crescente, fora desse amor, lamento: ginástica avançada!




Causa-me inenarrável espanto que possa valer tudo num primeiro encontro de pessoas que se desejam, apenas. Desejam-se, não se conhecem. Como pode entregar-se um corpo, e tudo o que contém de nós, a quem não pode respeitá-lo, porque não o ama com tudo o que contém de nós?
Como é que o sexo oral, uma prática tão íntima, pode ser tão banalizada e mencionada como se escapasse ao domínio de uma sexualidade a sério? Foi só um broche? Qual foi só um broche! O sexo oral é um desnudamento integral, uma entrega maior ao outro. Praticar sexo oral para se manter a virgindade ou a ideia de que houve tudo menos sexo, é a maior ironia que a cultura sexual produziu. Se há sexo a valer, sexo-sexo, sexo-total, carnal, místico, sexo-tudo, é o sexo oral. Portanto, o sexo oral, tal como, em primeira análise, toda a prática sexual, é tabu.
Nas sociedades primitivas, têm acesso ao domínio do tabu, a esse terreno sagrado, tão proibido, que não pode ser pisado nem enfrentado por qualquer um, apenas aqueles ou aquelas que receberam o conhecimento, ou dele nasceram investidos; normalmente, os feiticeiros, as feiticeiras.
Já receberam o conhecimento? Nasceram investidos dele? Eu, infelizmente, não.
Até lá, caros leitores e leitoras "contra o tabu sexual e libertos sexualmente", ou seja, todos, equacionem, se quiserem, como gerir os ímpetos irracionais do desejo muito breve, muito ocasional, daquilo a que o meu amigo de hoje chamou "a tomatada". Mas isto, se quiserem, porque o assunto não me diz respeito fora da sua teoria.

sábado, outubro 14, 2006

Uane, tu, fri, for, faive

Aviso já que este texto não interessa nem ao Menino Jesus (nem este nem os últimos).

No TCM está a passar um filme-documentário sobre o Elvis, que cursou no cinema Infante, em Lourenço Marques, por volta de 72, 73. Lembro-me que os bilhetes estiveram esgotados durante toda a temporada, e foi longa. Consegui vê-lo numa matiné de domingo, com alguém amigo, e não achei graça. Era o Elvis a ser o Elvis, e o Elvis nunca foi grande coisa, como se sabe.
Nesse aspecto não me tornei muito diferente, mas nessa altura ainda não podia adivinhar.
Mas Elvis foi um ídolo juvenil em Lourenço Marques, inclusive para o movimento hippie local, que, nesse tempo, e já um pouco extemporâneo, fervilhava entre os laurentinos*: cabelos compridos, calças à boca de sino, os fumos da ordem.
O meu primo dava-lhe bem, antes e depois da comissão no Norte, na guerra aos turras.
Curiosamente, nos EUA e no "mundo civilizado, Elvis foi um fenómeno popular, do sistema, e não pôde estar em sintonia com o movimento hippie. Mas tenho a ideia que na colónia terão existido umas adaptações realizadas por via da música de inspiração rock, blues, soul - música de batida negra. O movimento disperso seria essa filiação a um tipo de música.
Para o colono tradicional, que ouvia fado-canção e fado-castiço, a Hermínia Silva e o Alfredo Marceneiro eram ídolos máximos. E Amália, claro. Mas Amália já era fina. Eu, infelizmente, gramei muita Hermína, e muito Alfredo, valha-me Deus! Hoje já os ouço de outra forma, mas quando era pequena aquilo era uma ofensa auditiva. Tal como Elvis o foi para os ouvidos do colono tradicional. Por isso não vi este filme com os meus pais.


Eras giro, eras muita giro, lá isso eras!

Os filmes da moda chegavam pouco a uma colónia longínqua onde não havia televisão. Víamos muitas americanadas, franceses e italianos de autor, a que o meu pai chamava "xaropadas" sem acção, mas eu gostava. Os filmes portugueses enchiam salas, sempre, mesmo muito maus. Havia uma grande sede por comédia à portuguesa, pelos actores que eram famosos na metrópole, como o Raul Solnado e a Florbela Queirós.
Eu gostava dos Cantiflas, dos Jerry Lewis, e de Trinitá, o Cowboy Insolente, que comia feijões. Ainda hoje tenho uma paixão por tudo isso. Uma nostalgia.
No outro dia, na FNAC do Chiado, vi de longe um conjunto de dvd's do Trinitá e exclamei, um bocado alto, é verdade, mas foi do fundo do coração, e foi sem querer, juro, "meu Deus, está ali o Trinitá, o cowboy insolente", e deixei umas cem pessoas a rirem-se para dentro.

A minha prima afastada afastou-se mais, e mandou-me um sms no qual dizia apenas, "não te conheço!"
É injusto!


* Brancos naturais de Lourenço Marques, como eu.

sexta-feira, outubro 13, 2006

A rua

Durmo num desassossego, mexendo-me, empurrando-te, tentando fundir-me na tua carne para me aquecer, como se eu fosse o teu cão vadio, e tu o meu sem abrigo, e esperasse que viesse a manhã para despertares, me despertares, levantando os cartões, perguntando-me, vamos à rua?


Frágil e em guerra

Não penso que tenha de pedir desculpa ao mundo pela visão cristã que dele herdei. Pelas ideias cristãs que me enformam. Pelo meu moralismo, pela ética.
Tenho regras, sim, e elas não são piores do que outras. Excluem, deliberadamente, o jogo. Estratégia, ganhar ou perder, tudo isso me cheira demasiado a vencedores e derrotados, servidores e servidos, poder exercido sobre objectos exercíveis, e o poder corrompe e desumaniza, já se sabe. Eu sei.
O jogo não me interessa. Nem nunca quis ir à guerra. Isso incomodou-me, quando era adolescente, e se colocou a eventual obrigação de as mulheres integrarem a tropa regular - sobretudo em Moçambique, ainda.
Não quero a guerra. Contudo, ando em guerra, dentro e fora de mim, desde sempre. É a chamada guerra dos quase 44.

Não sei jogar às cartas. Nunca quis aprender esses jogos, porque via os homens zangarem-se. Não queria zangar-me. Contudo, aprendi a zangar-me, a gritar e a chorar alto, como as outras mulheres que gritam e choram em silêncio – a minha mãe, que não conhece o sacrifício, porque nunca saiu dele, e não pode conhecer o que nunca viu de fora.
Amo a minha mãe, e nunca lhe digo isto. Acuso-a de tudo, mas nunca lhe digo, "oh, mãe, beija-me, querida, eu adoro-te, querida." Tudo o que quero é a minha mãe perto de mim a fazer-me festinhas na cabeça, a dar-me chá, a subir-me a roupa até ao pescoço, a dizer-me "dorme bem" sentada à beirinha da minha cama de solteira (embora eu não tenha, em minha casa, nenhuma cama de casada).
Oh, hoje tenho tantas saudades da minha mãe, e estive com ela, e estarei amanhã. Mas o que a minha mãe me dá, e o que me dão é sempre pouco. Eu quero mais, mais, mais, não há nada a esconder. Eu quero sempre mais, e o que estiver a menos não vale a viagem. E dou mais, mais. Dou mais do que na exacta medida. E quero mais, mais.

Tenho uma visão cristã do mundo e não me orgulho dela nem envergonho: é apenas a minha maneira. Herdei-a da minha mãe. E apoio-me em ambas. E rezo, porque uma cristã reza. E se não gostam de mim assim, porque são muito intelectuais, muito alternativos, muito irónicos, podem seguir o vosso caminho, de preferência para o raio que vos parta.
Eu rezo, mas os santos ouvem-me mal, porque eu sou muito imperfeita, e a voz dos imperfeitos não chega longe; eles bem me dizem, em sonhos, "tens de deixar de ser assim e assado, tens de ser mais não sei quê, poço de defeitos".
E ouço, e até concordo, em teoria. Mas, na prática, os sacanas dos anjos pedem-me serviços tão altos!

quarta-feira, outubro 11, 2006

A ordem natural das coisas


Connor, age 5, from California

O peixe graúdo come o peixe miúdo, e essa não é a ordem natural das coisas


Segundo o jornal Público de ontem, parece que nos vai sair do bolso um discreto buffet de luxo, a 147 euros por refeição, mais IVA, que a Assembleia da República oferece a cerca de 50 convidados, como ponto alto da comemoração dos 30 anos de adesão de Portugal ao Conselho da Europa.

Queria só lembrar Vossas Excelências que o meu subsídio de refeição diário, integralmente gasto na fábrica onde dolorosamente laboro e rapidamente almoço, é de 3 euros e tal, não chega a quatro. E peço muito desculpa por estar a incomodar.


terça-feira, outubro 10, 2006

"O meu amor tem um jeito que é só seu"

Para o meu amor, depois do primeiro amor.

Tu não te lembras.
Ofereceste-me o cd nos meus anos. Este era um cd dela, um cd a sério. Não aquele outro que comprara num saldo, enganada, e que era só instrumental, txim-txan-tã-tã-touched by the very first time...
Aos 33? Isso é que já não sei. Lá dentro deixaste um bilhetinho todo amarrotado, rasgado a uns restos de papel de Natal, escrito com a tua letrinha de bebé: "Uma estrela para uma estrela"; mas como tu não tens jeitinho nenhum para nada, nenhum, e a tua caligrafia não passa de uns hieróglifos ilegíveis, e os teus desenhos, pior, eu li, para te chatear, para te fazer rir, e eu rir, "uma neurónia e respectivas sinapses para uma neurónia com respectivas sinapses."
E rimo-nos, e abraçámo-nos, e amámo-nos, porque, ao longo destes anos, temo-nos amado sem desejar salvação para o amor, e temos estado presentes, sempre, mesmo a amarmo-nos na raiva, olhando-nos um bocado de esguelha. É o amor. A raiva acaba depressa, e o amor, o nosso, é eterno - porque nunca teve a obrigação de ser coisa alguma.
Fez há poucos dias 13 anos que te ando a aturar, e nem te lembraste. E continuas a dizer-me, ofensivamente, que são 10. "Ando há dez anos a aturar-te!" Mas, sobretudo, continuas a achar que sou uma estrela maior, sobre todas as estrelas do universo - a tua estrela, única, imperfeita, irrepetível, mesmo partida, e isso, meu amor, tenho tão certo, ah, tão certo, meu amor, que é o amor.

domingo, outubro 08, 2006

A net, a democracia e os equilíbrios amigos

O mundo de hoje continua a pensar a internet como os nossos bisavós pensaram o comboio, e, os nossos pais, a televisão e o telefone.
Que perigos traz, e como obviá-los? Como controlar a dependência e o acesso das crianças - e o nosso? Emite ondas, raios, fumos que perturbam os sentidos? Vai tornar-nos melhores, contribuindo para a nossa educação, civismo, ou deseducar-nos-á inapelavelmente?
Para mim, que sou resistente à tecnologia, para quem, há menos de 15 anos, a net era uma ideia tão vaga e inacessível como o comboio, a televisão e o telefone o foram para os nossos antecessores, é interessante verificar quão vulgar e imprescíndivel isto se tornou. Não me imagino a viver sem comboio nem televisão nem telefone, mesmo que os use pouco: mas quando os uso, dão-me um jeitão!
Contudo, para a net ainda é cedo. Não é apenas uma questão de implantação em determinadas áreas, idades e usos. É cedo na medida em que a vemos como estando fora de nós, lá fora, como sendo o lugar dos perigos. De facto, "lá fora" é, em alguns casos, o lugar dos perigos, mas a internet já está cá dentro.
A internet não muda sozinha: não tem esse poder racional, civilizacional. Mudará à medida dos nossos interesses, de acordo com o nosso desejo de que ela possa mudar-se, transmutar-se. É o que queremos que seja. Será vil, se desejarmos vileza. Será autónoma se o desejarmos, se o construirmos. Não há na internet nada que escape à engenharia e arquitectura mentais humanas. Nós não somos a internet, ainda, mas a internet somos nós. Portanto, é a nós mesmos que tememos.
Difícil, difícil é controlar a imunodeficiência adquirida, e outras doenças, porque as doenças não são rentáveis, ou melhor, tão rentáveis! Agora, a net...
O que temos de temer, de vigiar, de controlar, somos nós mesmos, ou seja, nós mesmos-os outros.
A democracia é esse trabalho de equilíbrio entre a liberdade e a restrição. E tem de ser.

sábado, outubro 07, 2006

O sexo não tem nexo

A culpa de eu me interessar tanto, e apenas teoricamente, na lua-cheia, por questões de sexualidade, é toda da minha mãe; por zelo, para meu bem, deu-me uma dolorosa bofetadona logo à primeira vez que referi a palavra sexo, e ainda era pequena.
Tinha 10 anos, e foi um lapsus linguae; o que eu quis dizer, na altura, foi "mamã, gosto que tudo tenha o seu nexozinho".

Cepticismo

Não há homens diferentes. Há homens.
Não há homens fiéis. Há homens.
Não há homens santos. Há homens.
Casados.

Muito bem fêmea


Queria pôr-me muito fresca. Acabada de nascer toda madura. Mas muito sombra. Muito branca. Muito luz arredondada. Ser a tua comida etérica. E que me visses. Bem madura tão tenra. Ser para ti.
Ter-te escolhido, não te desejar, forçar-me; não querer, ser fácil, mas não querer, e não pretender mais que ser olhada ao fundo do corredor, enquanto me despisse, e tu me olhasses sem autorização.
Ser nada. Mas, para ti, ser a tua civilização, o teu reino, tudo, e eu era o teu rei, e pronto, chegava-me.



Elisabeth Taylor



Mentira, eu queria era fechar-me em casa a fazer amor, contigo, o dia inteiro, como se fosse uma virgem que desflorasses a gosto, e eu quisesse muito essa flor. E inteira.
Mentira, eu queria muito que me despisses o pijama amarelo, devarinho; que descobrisses, e eu tapasse, e descobrisses, e eu tapasse; e me beijasses os mamilos, chega; e roçasses os lábios como se ainda procurasses a teta húmida da tua mãe, e eu fosse a mãe inteira do mundo. Que me tocasses e mordesses, e fizesses amor comigo, vendo-me nua sem me tirares uma peça de roupa. E ver-me nua. E me mordesses os mamilos só quando eu dissesse morde. Por cima da roupa. E ma quisesses tirar, e conseguisses, só os bocados, e a que eu te contrariasse.



Marilyn Monroe


Que descobrisses o meu corpo tacteando, lento, paciente, sobre algodão fino. Que entrevisses paciente. Que esperasses. Se soubesses esperar o meu corpo que havia de ser para ti, com ou sem panos.
Quereria ser bem fêmea, que quereria ser muito fêmea, contigo, eu sei que só quereria, que só quereria ser muito, muito bem fêmea. E para ti.


sexta-feira, outubro 06, 2006

Isabela, campeã de jogging em Almada!

Agora pratico três desportos diferentes ao mesmo tempo.
Ao fim da tarde, quando saio da fábrica, dirijo-me ao Parque da Paz, estaciono e mudo de roupa ao ar livre, no parque de estacionamento, enquanto uns chegam e outros partem - reparo que cada vez há mais carros à espera que eu chegue para estacionarem mesmo em cima! - mostrando completa disponibilidade para animar o espírito do local, acção que a própria autarquia devia premiar, porque eu, está visto (literalmente), sou mais recreativa que os cisnes e os patinhos do lago; visto umas calçanitas de licra muito justinhas, e se é que elas têm espaço por onde se ajustarem!, e mais uma t-shirt de algodão colante, só alças, mas tapada por sweatshirt grossa, meias e ténis bons.
Depois, explico, quando subo e caminho em marcha forçada, puxo, puxo - é o puxismo; em terreno plano, despacho, despanho - é o despachismo;
a descer, em terreno inclinado, entrego-me, então, a um desporto muito conhecido - o jogging.
Ai, que bom, que fácil que é o jogging! Que bom que é correr e saltar nas saudáveis descidas do parque. Pareço uma miúda. É mesmo fixe! Adoro jogging! Que bem desço eu a fazer jogging!
Ninguém pode imaginar, mas eu sinto-me, e eu sou!, a Rosa Mota, caramba!
E ando para ali 35, 40 minutos naquilo, até que me estendo na relva a arrefecer, que é onde apanho as grandes constipações, acho eu.
Depois já não há sessão de mudança de roupa - isso é que é pena! Mas se a presidente Maria Emília quisesse patrocinar...
A minha nova vida não me deixa muito tempo para o blogue, mas é muito libertadora.

quarta-feira, outubro 04, 2006

Segundo pensamento na alba

O raio do soutien aperta-me nas costas; ao longo do dia, vai deixar-me um vinco escuro na carne; um vinco vernelho cor-de-carne torturada; logo à noite há-de picar-me a pele apertada, quando o tirar de repelão, como se já estivesse enterrado na pele, e hei-de ter nesse sulco uma comichão mórbida, que não poderei coçar até sangrar, apenas massajar com talco, massajar, massajar docemente as feridas do dia. Vai ser o meu cilício dissimulado sob a blusa. Para meu castigo de qualquer coisa. Que não quero fazer.

Alba do bairro da lata

O azul-prateado-mate do Mar da Palha, às seis e cinquenta e cinco, destaca-se do azul-prateado-brilhante do céu, sobre si, alimentado por luz própria atravessada de fiapos cinza-azulado, branco-sujo, que se depositam horizontalmente sobre as terras do Barreiro e Montijo, conforme as avisto da minha janela.
Só às sete e vinte e pouco, pelos meandros dos fiapos cinza, se acende, do nada, um fósforo de amarelos fortes, que vai clareando, contaminando rapidamente toda a altura onde antes residia apenas um azul prateado de céu simples, alimentado de brilho próprio.
E só depois se pode dizer, "lá fora há luz, de novo!" Demasiada. Excessiva luz crescente.

terça-feira, outubro 03, 2006

Como dormir sem drogas, curando a ansiedade de forma natural

O desabrido leitor(a) estenda-se ao comprido no seu sofá, com o seu chá de estimação, e a televisão na 2, enquanto começa a passar A Letra L. Tape-se com uma mantinha e deixe-se ir apagando ao longo do entusiasmante enredo; prepare-se para acordar às 4 da manhã com a voz do pastor da igreja do Brasil, "nós podemos curá-lo, meu irmão!"

segunda-feira, outubro 02, 2006

Um blogue-tempestade

Manter um "blogue-tempestade" acarreta pressões de dentro, dos próximos, relativamente ao que se publica, e não se devia, e dos de fora, leitores mais ou menos assíduos, relativamente ao que consideram que o blogue é ou deveria ser.
Quase todos acham que podem interferir, definindo orientação temática, pedindo explicações sobre textos e respostas a comentários.
Há os que me alertam para o facto de eu ser melhor nisto do que naquilo, sendo que, portanto, estou a perder-me naquilo. Há os que acham que isto deveria ser um livro, uma revista de actualidades, um consultório de sexualidade, o espaço privado de uma diva sem donos ou donas, uma coisa com classe ou sem classe alguma... imensas opiniões.
Muita, muita resistência à mudança.
De forma geral, penso que se desse ouvidos a tudo o que me pedem, se não fosse caprichosa, irredutível, teimosa, se não fizesse no blogue só o que me apetece, e só, e não o gerisse como me dá na gana, conforme a lua, conforme me correu o dia de trabalho, quase sempre nos limites do irrazoável, excedendo-me, barafustando, boicotando, já tinha encerrado portas. Se alguém perdia, como às vezes me dizem, estou-me espalhafatosamente nas tintas: eu cá perdia, porque eu preciso disto como de pão para a boca!
Por isso, valha-me eu!


Maluca de caixão à cova

Há uns tempos alguém me aconselhava a não mencionar publicamente a existência de uma psicanalista na minha vida, para que essa confissão de fraqueza mental não desmerecesse a qualidade das minhas opiniões - foi a forma que encontrou para desmerecer uma opinião que emiti!
Acho bastante graça aos tabus das doenças mentais, ao medo que nos considerem malucos, que sejamos de facto malucos - e quanto mais tememos, mais fugimos, mais nos esquecemos da loucura inata. Esse caos melhor ou pior ordenado.
Posso, portanto, escrever fartamente sobre a minha ginecologista, o meu ortopedista, a minha cirurgiã plástico-reconstrutiva, a minha médica de clínica geral, o dermatologista... Neurologista, com cautelas, ainda vá, porque posso ser doente dos nervos; assim uma doença muito vaga dos nervos. Um desgosto que me deixou com uns tremeliques... Que seja desgosto de amor, mas coisa séria, ou morte de familiar próximo.
Agora, psiquiatras, psicanalistas, psicoterapeutas, psicólogos: ai que vergonha! Vade retro; ninguém os consulta. Nem sei como há por aí tanto profissional da área, nem de que vivem!

À cultura hegemónica calha bem a fobia da maluquice. Fazendo contas por baixo, poupa ao Estado nas comparticipações em longos tratamentos. Depois, claro, poupa em autoconhecimento. E aí poupa muito. Poupa quase tudo.
À cultura hegenónica não interessa que eu me compreenda, que me situe no mundo, partindo de mim para os outros. Que, situando-me, perceba também aquilo de que careço, inclusivamente o que dela não recebi ou não recebo - ou recebo por excesso.
Um dos mais eficazes mecanismos de controle da cultura hegemónica recai sobre a promoção de uma fobia generalizada da loucura, logo, a fuga a tudo o que possa estar proximamente relacionado - psicanalistas, psicoterapeutas, psiquiatras, sexólogos(as) - e sobre a exclusão do domínio público dos assuntos relacionados com a abordagem da saúde mental.
Por isso é que estou proibida de falar da minha psicanalista no blogue.
Não fosse isso, falava!


A minha psic

Não sei se a minha psic lê este blogue. Se não lê é porque não quer, porque já lho nomeei milhares de vezes, em sessões diversas!
Mas não acredito que a minha psic queira descer tão baixo. É uma senhora, e uma senhora não lê blogues.
Não sei se a detesto, mas gostaria que fosse mais como a do Tony Soprano. Queria sentir-me com ela como me sinto com uma amiga, um amante, não como com a minha madrinha, ou com o que é mesmo: uma profissional paga para me ouvir, aceitar tudo, e não me julgar!
Se lhe dissesse isto, responder-me-ia, "é assim que a Isabela me vê? Não coloca, portanto, a hipótese de que eu goste de si?"
"Não! O que lhe pago exclui relações puras - isto é negócio para si, uma coisa qualquer para mim, e não faço a menor ideia do que ando cá a fazer!"

Estou semi-oficialmente zangada com a minha psic desde que na quinta não lhe respondi a um sms: ousou perguntar-me se já estava melhorzinha - isto depois de uma discussão sobre horários, na quarta.
E por que me mandou ela um sms, porquê? E não telefonou, como é habitual, porquê? Hã, hã... primeiro, porque não acredita que estive doente; segundo, porque eu também lhe enviei um sms informando encontrar-me doente! Fez-se pagar igual, a espertalhona. Gosta de matar com os mesmos ferros. A ver se lhe respondo!
A psicanalista do Tony Soprano diz-lhe frases giras como "não tem que foder todas a mulheres que lhe aparecem à frente"; a minha não me diz nada disso. Pergunta-me, "e o que acha a Isabela sobre isso?" "Sobre isso, o quê?" "A sua relação com esse homem em particular!"
A minha psic nunca se comprometeu com nada. Nem uma palavra. Se comento, "hoje está frio, não está?, responde, "a Isabela sente frio?"
Porra, nunca, em todo este tempo, e foram quatro anos, senhores!, four fucking endless years!, para tornar isto mais fluído, cheguei a uma conclusão que não viesse de mim, decidi uma decisão que não fosse da minha lavra, pensei pensamento que não me pertencesse, julguei julgamento que estivesse fora de mim.
Não sei se esta mulher, esta minha psicanalista, fez alguma coisa por mim nos últimos 4 anos, sendo que dois deles foram mesmo, mesmo, mesmo fodidos. E se fez, fui eu que fiz!

Mesmo que usasse com ela este vocabulário tão reles - foder! - ela não o repetiria, como a do Tony Soprano. Já usei, pedindo mil desculpas. "A doutora desculpe, mas tenho de dizer isto com estas palavras - juro que disse tal e qual - "Ele só quer, só quis foder-me!"
Ela responde, "como é que a Isabela pode ter a certeza que ele só quis ter relações consigo?" (Poupo-vos à explicação, por repetitiva!)
Não posso decepcionar a minha psic. Desiludi-la. Permitir que venha a considerar-me uma mal educada. Ela é uma senhora, e eu não sou, afinal, uma mal educada. Sou do bairro da lata, sim, mas ando lavadinha!
Perante ela, apesar de tudo, tenho uma imagem a manter. Custa-me, sinceramente, pagar-lhe tanto dinheiro para ela pensar mal de mim!

Isto é algo que as minhas sessões e as de Tony Soprano têm em comum: lamentar o dinheiro que gastamos com "amantes" tão caras, que não nos dão prazer, que nos fodem o juízo!
Detesto a minha psic, e só não lhe minto porque, pá!, pago-lhe demais para lhe mentir!


domingo, outubro 01, 2006

As caudas de luz

Foto de Pedro Arnay, Hebras de Mujer


Sou grande. Ocupo muito espaço. Quando me movimento o ar desloca-se ao meu redor e atinge os outros, levantando-lhes fios de cabelo; se as saias das mulheres são leves, tremem como seda à minha passagem.
Ocupo muito espaço. Toda a vida. Na vida dos outros. Na minha. Sou enorme. Se não têm espaço para mim, não vale a pena começar.
Sou um osso grande, um fémur largo, duro de roer. Se não têm espaço nem tempo nem força, não vale a pena começar. Sou enorme, já disse; bato em todas as esquinas e ando sempre com nódoas negras nas coxas, nas pernas.
Sou demasiado visível. Vêem-me ao longe. Já estão a alcançar-me e a levantar as cabeças.
Encontro pessoas na rua, nas lojas. Olham-me de frente, sorriem sem me conhecerem. São sobretudo mulheres. Quase sempre mulheres. São lindas, velhas, novas, altas, baixas, morenas, louras, como seres de luz vindos de um outro mundo. Estas mulheres que me sorriem, arrastam um cauda de luz como se vestissem de noivas. Vêm ver-me passar. Assomam. Param, fitando-me sem palavras. Sorrindo. Sorrio. Às vezes, para disfarçar, perguntam-me, "este azeite é bom?" E eu, olhando para o rótulo da garrafa, respondo, "sim, é bom, é regular..."
Mas penso, e pergunto-lhes, em pensamento, enquanto retribuo sorrisos, "também não és de cá, pois não?"
Os homens olham-me de outra maneira. O olhar dos homens pesa sobre mim e incomoda-me. Não gosto desses homens, nem da soberba com que me olham, como se pudessem escolher-me entre uma série de objectos de consumo. Gosto de homens que sabem olhar-me como mulheres com cauda de luz. Que aprenderam essa força mista, já não só energia potencial, pura, que se empurra instintivamente na escuridão, cega de todo, mas luz aberta. Luz feita.
Tenho gostos muito simples, embora seja uma mulher enorme, que ocupa espaço no espaço de si e dos outros. E isto é simples: os homens meus contemporâneos, testemunhas da invasão que as mulheres fizeram dos seus territórios, já não podem aceitá-lo apenas, mantendo-se à parte, tratando o assunto como uma catástrofe inevitável da civilização, efeito colateral da democracia dos valores humanos.
Os tanques transbordaram há muito e as águas confundiram-se. Já não há, portanto, territórios estanques. Já não haverá. Não regrediremos. Vivemos no tempo em que os territórios se confundiram finalmente em lama primordial. E o absoluto de tudo isto é uma questão de tempo. De mais tempo. Apenas tempo, que é nada.
Poderemos perder quase tudo: os confortos desta civilização, esta civilização! Seria bom: um novo mundo! Sempre a mesma expressão. Novo mundo! Mas quando tivermos perdido tudo, o velho mundo, não esqueceremos, jamais, conjuntamente, a lama primordial a que estamos regressando.
A estadia é o caminho de regresso a essa lama indistinta, perfeita.
Esperei por este tempo a minha vida inteira. Uma curta vida. Demorou, e bracejei. Não me vendi e não comprei. Não estive calada. Vivi. Olhei. Antecipei.
Não quis um homem dos tempos velhos. Não percebi, durante muito tempo: eu não era igual às minhas companheiras, não fazia as mesmas coisas ao mesmo tempo. Não quis nunca um homem desses. Seríamos incompatíveis. Pertenceríamos a tempos diferentes. Não pude fazê-lo, inconsciente do que não fazia. Eu, e o homem dos tempos velhos, seríamos dois sistemas operativos incompatíveis; pior, oponentes. Sem protocolos de acesso possíveis.
Eu e o homem dos tempos velhos, fitamo-nos e não sentimos piedade, temor ou amor mútuo. Eu e o homem dos velhos tempos, ou nos ignoramos de passagem, por conveniência, ou nos degladiamos sem trégua. Não há espaço para ambos no mesmo lugar.
Há um segredo: eu conheci, muito cedo, um homem que arrastava uma cauda de luz enorme como as das mulheres que me sorriem ao longo da tarde. Éu já conheço esses homens. Eles existem por todo o lado. Por isso, vale a pena esperar, bracejando, ocupando espaço. Sendo enorme. Valeu a pena esperar.


O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...