quarta-feira, janeiro 31, 2007

Um problema de heranças

Imagem atenciosamente roubada ao imagensdokaos.blogspot.com


Parece que se o Sim ganhar este referendo, colocar-se-á um grave problema de natureza legal. Segundo Bagão Félix, despenalizar a IVG até às dez semanas gerará uma terrível contradição à lei, uma coisa absolutamente intransponível! Não é que o artigo número tal-e-tal, do Código Civil, prevê que um feto possa ser contemplado num testamento?! E quem diz o feto, diz o embrião, diz o zigoto. O próprio óvulo por fecundar.

Imaginemos que a dona Conceição deixa todos os seus solares no Minho à sua querida sobrinha Ermelinda, bem como ao feto que hospeda e ao resto dos seus futuros óvulos. E se o feto for nado-morto? E se morrer antes de poder receber a herança? E se Ermelinda for atropelada e abortar? E se Ermelinda for infanticida? E se Ermelinda se suicidar e não deixar descendentes? Os solares do Minho ficarão para o erário público por falta de herdeiros? De facto, é preciso salvaguardar situações desta gravidade.
Além disso, a Lei é a Lei. A Lei não se contradiz, não erra e não se altera; os seres humanos, os que fazem as leis, e a quem se aplicam, esses sim, sendo imperfeitos, precisam de ser controlados pela Lei.
Enfim, este argumento do Bagão deixou-me muito indecisa.

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Um favor que me fizeram

A semana passada esqueci-me da mala no elevador. Pousei-a no chão, juntamente com uma outra que trago, cheia de papelada, enquanto observava o correio tirado da caixa. Chegada ao meu andar, saí naturalmente, após ter-me inclinado ligeiramente para agarrar as asas, sem olhar. Levei para casa a dos papéis, mas a outra, a mala com dinheiro, documentos, batons, pacotes de açúcar, preservativos trazidos da ILGA, líquido para limpar as lentes dos óculos, e todos os outros objectos que uma mala de mulher pode conter, ficou para trás. Acontece. Apercebi-me disto uma hora mais tarde, quando precisei do telemóvel.

Deduzi que a tinha esquecido no átrio do prédio, junto às caixas de correio, pelo que decidi iniciar um périplo por todos os andares, perguntando aos vizinhos, que não conheço, se a tinham encontrado. No sexto andar tive sorte. Um senhor de bigode abriu-me a porta, sorriu-me com evidente censura, movimentando o indicador em gancho, como a chamar-me, e atirou-me, “como é que se pode perder uma mala num elevador?” Eu estava por tudo, até para receber lições do papá, viesse a malinha, e lá lhe expliquei o que tinha acontecido. Não lhe disse que era muito distraída. Achei que não lhe cabia saber.

O dito vizinho é uma pessoa que se vê bastante pelo prédio, com quem me cruzo frequentemente na porta de entrada. E disse-me, “tinha andado a ver se descobria quem era, e por acaso até reconheci a sua cara no bilhete de identidade, mas não sabia o andar. Tem aqui 190 euros! Sabe disso?!” Acrescentou novo olhar de censura. Sim, sabia; tinha acabado de levantar o dinheiro, estava bem consciente do que implicaria perder a mala, e estava preparada para lhe ficar eternamente agradecida por tê-la recolhido, ou pagar-lhe alvíssaras, se mas pedisse.
O vizinho exortou-me a contar o dinheiro na sua presença, acto que declinei; pareceu-me mal desconfiar de uma pessoa que acabava de me fazer um favor. E não desconfiava.
Agradeci muito, despedi-me, e foi nessa momento que ele chegou o seu rosto mais perto do meu, e quase me sussurrou, cúmplice, todo sorrisos, “estive quase para lhe roubar os dois preservativos que aí tem, mas depois pensei... se calhar ainda iam fazer-lhe falta...”
Rasguei um esgar. Meti-me depressa no elevador com o agradecimento eterno todo estraçalhado aos meus pés.


quinta-feira, janeiro 25, 2007

Sem sexo, como anjos

Escultura de Katie Deits

As culturas enfermam da distinção castradora que consiste em avaliarmo-nos uns aos outros de forma generalizadamente sexualizada e sexuada.
Ao primeiro contacto, procuramos saber se o nosso interlocutor é homem ou mulher, e se o seu género e comportamento sexuais estão conformes ao sexo biológico que lhe associamos, a que depreendemos pertencer. Posicionamo-nos em relação ao outro a partir da informação recolhida nesse instante.
A nossa própria identificação sexual determina o tipo de interrelações que os outros estabelecerão connosco, e, consequentemente, a nossa importância e campo de acção enquanto cidadãos. O sexo biológico, o género e a sexualidade, resumindo, a natureza dos órgãos sexuais e consequente adequação a padrões de comportamento condizentes, bem como o que se faz com eles, determinam tudo o que uma vida pode conter, afectando quaisquer relações sociais, profissionais, sentimentais, até familiares, que possamos vir a estabelecer.

Não posso compreender nem aceitar que se efectue uma categorização de seres humanos conforme a identidade e prática sexuais, ou seja, que a possibilidade que cada um tem de aceder a determinada via profissional, compra de habitação, possibilidade de adoptar, respeito, dependa de se ser homem ou mulher, de se parecer e agir em consonância, ou da escolha de um parceiro sexual com o par cromossomático oposto.
Nunca senti que tivesse de ser coisa alguma diferente porque nasci mulher. Sempre me senti uma pessoa exactamente como se sentem as outras. Rigorosamente todos nos sentimos exactamente como os outros, independentemente do sexo biológico a que pertencemos, e do género com o qual nos identificamos. Isto acontece por um motivo muito prosaico: muito antes de sermos um sexo, um género, seres sexuados, somos pessoas. Isso é o que conta, no princípio e no fim. O problema é que não sentimos que os outros sejam pessoas como nós, ou não lhes permitimos que se sintam pessoas como nós. Fazemos uma triagem com base num reconhecimento e normalização sexualizados.
Parece-me injusto que a integração dos indivíduos numa cultura dependa da identificação desse ser com o aspecto e os comportamentos padrão atribuídos por um molde hegemónico ao seu sexo biológico. Não me satisfaz a obrigatoriedade de assumir comportamentos masculinos ou femininos conforme me relaciono com alguém que percepciono como homem ou mulher. Incomoda-me que muito antes de querermos saber se uma pessoa é honesta, nos preocupe confirmar se a sua sexualidade está de acordo com padrões ditos universais, ou com os nossos. Aflige-me a obsessão que mantemos relativamente à sexualidade alheia, sintetizando todo um ser humano nessa questão particular.

Sinto-me bem em ambientes sociais nos quais me é impossível saber quem é o quê em termos de sexo e género. Posso respirar fundo e ser apenas uma pessoa, sem me preocupar em estar particularmente atraente ou agradável porque sou uma mulher. Não tenho que seduzir ninguém nem posso saber se sou alvo de sedução. Não interpreto sinais, porque podem ser erróneos. Não me interessa se estou penteada, se tenho baton, se não se nota muito a barriga, se consigo disfarçar outros defeitos que valorizo. Um ambiente sexualmente heterogéneo, em que, todos, à partida, podem ser qualquer coisa igual ou diferente, e isso não lhes importa, permite-me ultrapassar as limitações do processo de aculturação, que dificultam olhar o mundo como uma estrutura de relacionamentos humanos diversos, muito acima de uma paupérrima hierarquia sexualizada.
Ultrapasso-me enquanto ser sexualizado. Torno-me uma pessoa com dúvidas, opiniões e sentimentos, perante outras. Não penso em mim como uma mulher entre homens ou entre mulheres, como no início, quando era criança, não pensava.
Percepcionar o mundo fora de padrões sexuais, transforma-o. É outro mundo. Torna-o mais justo, menos conflituoso, mais fácil. A possibilidade desta indistinção sexual e de género, esta fluidez, mostra-nos que a haver necessidade de se estruturar o mundo segundo categorias, elas estarão sempre erradamente situadas na esfera do sexo.

terça-feira, janeiro 23, 2007

O barulho da vida

O primeiro ruído que escuto de manhã, quando desperto, parece-me o motor de um gerador que se ouve a trabalhar muito ao longe, mas mais rouco, mais grave. Não é um bruá, um shhh, ou um rrrr, mas uma imperceptível trepidação surda, diferente como o clamor de muitos suspiros e passos cometidos num mesmo instante. É o barulho da vida, cortado pelos ruídos próximos do elevador, que sobe e desce, pelo chiar dos travões dos carros lá fora, pelo rasgo das buzinas no tecido dos lugares, pelas vozes dos homens e mulheres que varrem a rua enquanto falam alto, pelas mães que saem dos cafés gritando, “Não vás para a estrada!”. Estes são outros barulhos da vida, distractores do essencial. Nunca ouvimos o barulho de fundo da vida, esse que se percebe como o motor longínquo de uma mó, e nos esmaga. Não sei se vale a pena chegar a ouvi-lo. Eu preferiria nunca ouvir barulho algum.

domingo, janeiro 21, 2007

É que os portugueses adoram o chicote!


Não me surpreende nada que Salazar esteja entre as dez figuras nacionais que os portugueses mais amam! Não têm conto as vezes que ouço, pelo País fora, nas mais diversas classes sociais e culturais - não é um discurso exclusivo de motorista de táxi -, que "isto precisava era de um Salazar", que "Salazar até dava voltas no túmulo se soubesse o ponto a que chegámos".
É natural que o portuguesinho, que gosta de ser ordenado, de ter medo, de falar mesquinhamente nas costas, de se sentir desgraçadinho, nada fazendo para mudar o fatum, porque foi educado na tal Grande Ordem em que um Grande Pai se responsabilizava por todas as decisões, tomando as rédeas da Grande Casa, gerindo-a de acordo com os seus desígnios, que, mesmo se não se compreendessem, haviam de ser os melhores, porque os pais querem sempre o nosso bem, não conheça outra forma de ver, pensar e respirar.
Os portugueses estão chateados com a Democracia, e é natural! A Democracia dá trabalho. Exige participação. Uma pessoa tem de lavar-se, vestir-se, sair de casa e pronunciar-se, e o portuguesinho quer o trabalho feito, mesmo que não seja à sua vontade, porque pode sempre entreter-se com lamentações, cortando na casaca do Grande Pai às escondidas. De maneira que não se saiba que ele discorda. Para não vir a ser prejudicado se as coisas mudarem... diga-se baixinho!
Se Salazar estivesse vivo, e no exílio, alguém o faria regressar, e haviam de votar nele nas próximas eleições legislativas. Melhor, já lá estava. Mesmo morto, os Portugueses continuam à sua procura noutras figuras paternais de cara fechada, sérias, teimosas como Ferreira Leite, Maria de Lurdes, Portas.
Os portugueses carecem desse Pai inflexível com o cavalo-marinho pendurado atrás da porta, omnipresente. Sentem-lhe a falta. O orgulho com que narram as cargas de pancada que apanhavam em pequenos, com o cinto, ou à chicotada! Até se regalam de contar tais histórias. Riem-se à boca larga. Grandes tempos! E quando andavam cheios de fome a roubar fruta nos pomares dos vizinhos, e eram corridos a tiro de caçadeira?! Ah, que saudades! Esses tempos maravilhosos em que aos sete eram postos a aprender um ofício, e entregavam o mísero ganho em casa! Ah, e quando se dividia uma sardinha por três! Isso sim! Outra época!

Porque "Salazar não deixava que houvesse miséria". Porque "Salazar recolhia as raparigas pobres e dava-lhes educação, e não era esta pouca vergonha". Porque "Salazar não queria ninguém descalço!" Porque "Salazar era um homem sábio, casto, poupado e dedicado ao seu labor, que nunca roubou um tostão um povo".
Se eu tivesse nascido há uns dez, vinte anos, ainda corria o risco de pensar que Salazar tinha sido um doutor santo, como o doutor Sousa Martins, que eu nem sei se está na lista dos portugueses mais importantes.

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Que humanos seremos, quando formos melhores humanos?

Blade Runner


Advertência: este texto é muito longo e chato e dá pano para mangas. Espero que se perceba. Se não se perceber, paciência: transformem o seu conteúdo num cavalo de batalha! Depois não digam que não avisei!

Cientistas britânicos descobriram o gene que permite que as folhas permaneçam verdes mesmo em tempo de seca. Este gene tanto poderá servir para criar um manto de relva verde sobre o deserto do Sahara, como para cultivar alfaces, em Agosto, nos campos alentejanos mais batidos pela brasa vespertina. Na prática, o que descobriram foi um gene que impede, ou, pelo menos, adia a seca.
O que agora se aplica ao espinafre, aplicar-se-á, mais ano, menos ano, a animais, e, posteriormente, aos seres humanos. Entrámos, há muito, numa era de engenharia genética sem retrocesso. A ovelha Dolly já passou à história. À ciência já não interessa falhar milhares de clones para chegar a uma ovelha clonada, porque o que agora interessa é falhar outros tantos milhares de clones humanos para chegar ao ser humano clonado, ultrapassando os erros cometidos na produção de Dolly.
Este progresso é inevitável, arrastando consigo uma infinidade de usos e abusos, exactamente como aconteceu com a energia atómica. São possíveis todos os cenários propostos pela ficção científica: sofrimentos, injustiças, aberrações, selecção e manipulação eugénica da espécie humana, criação de castas mais distantes e diferentes entre si do que as actuais... por outro lado, facilmente poderemos substituir um fígado ou uns pulmões danificados, uma perna, um cérebro, como quem muda os pneus carecas do Fiat. Os argumentos religiosos soçobrarão, porque ao Estado interessará produzir indivíduos mais fortes, capazes de trabalhar mais anos, sem gripes, sem infecções. Os animais serão não apenas, como até aqui, fonte de alimento, agasalho, e bestas de carga, mas, cumulativamente, incubadores dos órgãos de que precisamos. Hospedarão, na sua carne animal, consumíveis de carne humana. Uma estranha carne humana, eficaz, que ganhará forma e vida nas entranhas dos porcos e das ovelhas! Desenvolver-se-á, assim, uma outra indústria de sofrimento e morte animal, paralela à que já hoje existe, mas mais lucrativa.

A manipulação e controlo das funções físicas dos seres será total, e para isso contará pouco o que é hoje considerado humano, digno, aceitável. Será realmente possível produzir o super-homem e a super-mulher. Quem puder pagar um filho com determinadas características físicas e intelectuais, tê-lo-á. Já poderia tê-lo, neste momento - embora não seja lícito pagá-lo, é já possível produzi-lo.

Ocorre-me relacionar esta notícia com uma outra recente, embora nada pareça ligá-las por fora: a da menina americana, com nove anos, a quem os pais decidiram amputar os órgãos reprodutores, na tentativa de controlar a sua sexualidade, e, consequentemente, a sua qualidade de vida.
Julgo saber o que seja um cérebro sem um corpo inteiro viável. Stephen Hawking, por exemplo, é um desses casos. Ninguém tem dúvidas que Stephen Hawking é um ser humano. Contudo, não são a supremacia física ou o controle das funções do seu corpo que fazem dele humano, mas as suas capacidades cerebrais. Pergunto-me, o que será, então, um corpo humano funcional sem um cérebro viável, caso desta menina?


Stephen Hawking à data do seu primeiro casamento


Ao longo da História, os seres literalmente escondidos e aprisionados devido às suas profundas incapacidades mentais, terão podido conhecer a experiência humana?
Vivemos numa época que, sendo injusta, valoriza, pelo menos em determinadas zonas do planeta, os conceitos muito actuais da solidariedade, dos direitos humanos, do apoio social; há cem anos atrás, porém, os malucos eram malucos, portanto, amarrados, amordaçados, vendados, e fechados em jaulas ou em armários, pelos pais ou tutores, até resistirem. Não havia técnicos especializados para providenciarem desenvolvimento através da ocupação de tempos livres, em actividade diversas, e os familiares tinham de trabalhar nas fábricas e no campo, pelo que, quando estas criaturas morriam à mercê dos maus tratos, era um alívio para todos.

A verdade crua é cruel, mas é a verdade: um corpo com capacidades cerebrais muito reduzidas, é um ser legítimo, embora privado de livre arbítrio; é alguém para amar e ser amado, mas é também, e que isto se torne bem claro, alguém que precisa de protecção permanente, adicional, durante toda a sua vida. Que não se autonomiza, não se responsabiliza nunca.

Gostaria de relatar o caso de um homem meu vizinho, a fazer 50 anos, o qual sofre de paralisia cerebral.
Chamar-lhe-ei António. Sempre o conheci uma criança, pela mão da mãe, que pouco pode trazê-lo à rua: ele embaraça-nos. Moro nesta zona há 23 anos, e há 23 anos que o António vai de manhã para o centro de convívio, e regressa à tardinha; a mãe vai levá-lo e pô-lo à carrinha, e pelo percurso ele vai apontando e dizendo, dificilmente “... cãozinho; ...menina; ...passarinho”.
O António é uma criança com corpo de homem, e irreprimível desejo humano; privado de discernimento sobre o que é socialmente aceitável, qualquer mulher é um alvo. Quando nos encontramos, no curto percurso que faz com a mãe até à carrinha, ou regressado dela, o António apanha-me, abraça-me e lambuza-me, perante a nossa impotência. Nenhuma de nós tem força para impedir os enormes, fortíssimos abraços do António. Eu não sou a única vítima das suas pulsões sexuais, das quais me desembaraço o melhor que consigo, tentando acalmá-lo, e desproblematizando a questão perante a mãe, que se desfaz em desculpas. Da janela apercebo-me que isto acontece com outras vizinhas. O António quer beijinhos, muitos beijinhos e abraços, porque o António tem 50 anos e o seu corpo é sexuado e insatisfeito. Sofre intensas crises de natureza sexual, tornando-se muito agressivo, e difícil de controlar, mesmo em casa. Pelo que conheço da situação, sei que se os pais do António tivessem podido amputá-lo da sua sexualidade, tê-lo-iam feito para bem de todos.
A dignidade humana também deveria passar pela protecção contra o sofrimento inútil, quando é causado pela impossibilidade de acesso à satisfação de uma necessidade socialmente vedada.

Manipular as funções de um corpo para lhe causar maior bem-estar será algo tão censurável? Manipulá-lo para seu conforto, como se amputa uma parte do corpo cuja doença nos poderá ser fatal? O António, bem como os seus familiares, teriam uma vida melhor, se o seu quotidiano não fosse dominado pela necessidade sexual. Isto pode dar vontade de rir a quem seja alheio ao caso, mas não tem graça alguma: o António tenta violar as mulheres que existem em sua casa, as que aí vão, as da família; no entanto, o António, que tem 50 anos, mal fala, mal anda, e tem uma idade real de dois anos.
Quando se nasce como esta menina americana, ou como o António, será relevante o acesso à reprodução, ou convém protegê-los dela? É que o mais certo, em muitos casos, é tornarem-se suas vítimas; alguns serão abusados sexualmente, mudamente, uma vida inteira.

A dignidade humana poderá, em casos especiais, passar pela inibição do que é hoje intrínseco à natureza humana.
É neste ponto que sugiro que se retome a primeira questão deste texto: a manipulação genética alterará os actuais conceitos de Humanidade, uma vez que a natureza dessa humanidade se transformará numa miscigenação de sucesso entre supergenes, sem quaisquer pruridos relativamente à sua proveniência. Os mais humanos serão os mais resistentes. Os mais ou melhor miscigenados através da manipulação científica e tecnológica; os mais andróides.
Não sei se serão tempos melhores. Tenho a ideia que se vai ganhar muito em ciência, em performance conducente à produtividade, e perder em quase tudo o que hoje nos liga a uma certa ideia de humanidade ainda associada à sensibilidade, à criatividade. Penso que seja um tempo de vitória sobre a fragilidade da nossa natureza física. Não haverá, no entanto, menos solidão nem menos ódio nem menos dor. Pelo contrário. As pessoas também não serão verdadeiramente melhores nem mais bonitas. Perdurarão, contudo, conformadamente.
Relembro o look, a estética andróide que se passeia pela moda, pelas diversas manifestações da arte; não se tornou já uma tendência óbvia na cultura ocidental?

A extracção do útero e ovários, que só poderiam trazer infelicidade a uma eterna menina-bebé, incomoda-nos. Ao mesmo tempo, pergunto-me, a quantas décadas estaremos do primeiro Terminator, construído numa liga perfeita de carne e metal e vidro?



quinta-feira, janeiro 18, 2007

A menina Isabela

É quase como a Agustina Bessa-Luís: tão séria, tão imaculada, tão reverencial, a tanta gente, e por tanta gente, que não pode pronunciar um foda-se nem um caralho. Pensar, pode, a todas as horas do dia. Ouvir dos outros, também. Mas quando a menina Isabela, tão educadinha, diz foda-se, ah, soa tão mal! Uma menina como a menina Isabela não diz palavrões, mesmo quando uma menina, como a menina Isabela, se está fodendo para quase tudo.

Porque haverá enorme abstenção no referendo à despenalização do aborto

A minha mãe, que é a voz do povo, e acerta no resultado de todas as eleições, muito antes da sua realização, apresentou-me, ontem, o cenário do próximo referendo à despenalização do aborto: enorme abstenção.
A maior parte dos portugueses não percebe se é moralmente certo ou errado, ou melhor, confunde moralidade e necessidade, ou melhor, a educação predominantemente católica gera as suas castrações da vontade, e não quer que a decisão lhe pese na consciência, portanto desresponsabiliza-se do assunto. Se vencer o sim, não foram eles. Se vencer o não, também não foram eles. É mesmo português! É o nosso lema: "Não vivas; passa pela vida como se não tivesses existido".
A minha mãe não quer ir votar. E, se for, vota não. Já me disse. Porque antes de eu nascer sofreu uma série de abortos involuntários, com 2 e 3 meses, e "eram todos já perfeitinhos, num deles até já se via a pila do menino". E, porque, se não for proibido, "as mulheres vão-se pôr todas a abortar e ninguém tem filhos".
Um referendo destes é um erro, já se sabia. Ninguém quer ir votar, a não ser activistas acérrimos. É uma chatice. Este assunto deveria ter sido resolvido no Parlamento, tal como o Governo resolveu outros, bem impopulares. Legisla, discute e aprova. Ponto final. É assim que tem agido. Não compreendo a hesitação, que se regista neste caso e não nos restantes.
Trata-se de despenalizar um acto, não de o legitimar, mas serão muito poucos os que votarão conscientes da realidade. A discussão continua a realizar-se sobre a legitimidade moral e ética do aborto, e isso já não está em discussão. Aos 20 anos ainda admito que esta questão ocupe as mentes dos bloggers. Mas, a certa altura da vida, as prioridades da existência começam a clarificar-se. Assentemos num ponto: os parteiros e parteiras que, pelo País fora, realizam abortos clandestinos, sabem que não é bom. Usemos palavras simples: não é bom. Na nossa cultura, o aborto autoculpabiliza os intervenientes no processo. No entanto, interromper uma gravidez pode ser benéfico para todos. Doar um rim também não é lá grande coisa, mas pode ser benéfico.
O que se vai votar no referendo não é sim e não ao aborto, tal como a questão tem sido apresentada até agora. Mas isto, como explicá-lo à minha mãe, e aos jovens que me pararam um destes fins-de-semana, no Chiado, pedindo-me a assinatura para "o referendo contra o aborto"?!

terça-feira, janeiro 16, 2007

Sobre o sentido de humor português


Margarida Rebelo Pinto tem uma crónica no Sol. Esta semana, abordava um assunto de fácil debate, já muito explorado, mas, sobre o qual, eu, como qualquer mulher normal, me tenho debruçado amiúde: a semelhança entre os comportamentos masculinos e caninos, sendo que o cão ganha, por ser fiel. É uma comparação feliz; cai sempre bem. As meninas divertem-se com o reconhecimento; eles fazem de conta que não percebem, ou levam a coisa com humor, ou atacam venenosamente, ou insurgem-se, clamando pela honra, a moral e os bons costumes. O costume.
O que achei estranho na crónica da Rebelo Pinto foi a advertência com que achou por bem, ela, ou as chefias do Sol, encabeçar a referida crónica. Antes de lermos o primeiro parágrafo deparamo-nos com a seguinte nota:
Advertência: esta crónica foi pensada e escrita em tom lúdico. Pede-se aos leitores mais ferozes e/ou conservadores que não transformem o seu conteúdo num cavalo de batalha.
Foi a primeira vez que me confrontei com um texto acompanhado de instruções sobre a forma como deveria ser lido. Pensei que era parvoíce, dirigindo, imediatamente, uma série de pensamentos depreciativos em relação ao Sol e à Margarida Rebelo Pinto. É óbvio que quem lê um texto irónico percebe a ironia. A ironia tem um registo excessivo, caricatural, paradoxal. Caramba, é preciso avisar sobre um texto irónico? Não é, claro, não é! Que parvoíce!
Mas, afinal, a parvoíce justifica-se! Os homoristas repetem constantemente a ideia de que é muito difícil fazer humor, em Portugal, sem se ofender algo ou alguém. Em Portugal é tudo muito sagrado, tudo sério. Podemos dizer "caralho, foda-se" cento e onze vezes por dia, mas uma piadinha sobre Fernando Pessoa, sobre a Senhora de Fátima, sobre a bandeira nacional, sobre Deus Nosso Senhor... e levanta-se a pátria contra os gentios infames!
Eu não tenho crónica alguma em sítio algum, porque se tivesse, não me autorizavam nenhuma sem advertência. "É a brincar, é só a brincar... a brincalhona!"
Felizmente, ainda não me tiraram o blogue, e aqui posso alargar-me bem, contra seja quem for, sem ter que dar satisfações a meia dúzia de caralhos que sa fodam, dos que até lavam a pássara antes de abrir um livro, um blogue, ou a puta que os pariu.



segunda-feira, janeiro 15, 2007

Primeira vacina contra o cancro



Chega esta semana às farmácias a vacina contra o Vírus Papiloma Humano, vulgarmente conhecido, em Portugal, como HPV.
Ao composto, que pode ser adquirido por 300 euros, foi atribuído o nome comercial Gardasil. Administra-se, preventivamente, a crianças do sexo feminino, a partir dos 9 anos de idade, ou a jovens até aos 26, como tratamento da infecção, pelo que aconselho o investimento às mulheres que se encontrem nesta faixa etária, bem como aos pais de meninas, imediatamente antes da puberdade.
O HPV é incurável e responsável pela maior parte dos casos de cancro do colo uterino, o qual atinge, anualmente, meio milhão de mulheres em todo o mundo. O vírus transmite-se por via sexual, e todos os grupos são de risco, mesmo que se mantenham relações sexuais com um parceiro regular. Tal como com o HIV, basta que esse parceiro transporte o vírus, e basta um único contacto.

É provável que mais de dois terços das mulheres e homens, a nível mundial, hospedem o Vírus do Papiloma Humano, mesmo que este não se manifeste através de lesões internas, no caso das mulheres, ou externas, no dos homens. Nas mulheres, as lesões são rapidamente detectáveis. Alguns dos leitores que lêem este poste estão infectados com o HPV sem o saberem. A notícia costuma chegar-lhes pelas namoradas, quando as relações se prolongam, ao regressarem da ginecologista, devidamente acompanhadas de uma prescrição para pílulas que ambos devem tomar como alívio para a infecção.
O HPV é igualmente responsável pelo aumento da infertilidade nos países desenvolvidos.
Esta é a primeira vacina que foi possível obter contra uma forma de cancro, e pode, objectivamente, salvar milhares de vidas. Portanto, convém que os pais de meninas debatam o assunto com os respectivos médicos de família ou ginecologistas. É que os trezentos euros podem salvar-lhes as vidas, amanhã.

domingo, janeiro 14, 2007

Varões sem colhões

Padrão dos Descobrimentos, Belém, Lisboa

Não sei por onde andei nos últimos anos, não dei conta do que se passou à minha volta; sinto, de repente, que acordei numa outra era, a do ranking, e raios me partam se isto não me cheira tudo a estado-novismo!

O Diário de Notícias estabeleceu o ranking do português mais importante, e venceu Luís de Camões. Não tenho nada contra. Qualquer um servia, excepto D. Afonso Henriques, não só por não ser português, como por ter dado início a um processo político lamentável, cujas consequências todos sofremos, quase mil anos depois. Por acaso até ficou em segundo lugar, perceba-se, caso seja perceptível!

Mas sobre Luís de Camões, enquanto português mais importante, algo há a dizer. O artista era bom artista, sim senhor. A lírica é maravilhosa; oh, quem não conhece o fogo que arde sem se ver! Mas, caros colunistas permanentes do Diário de Notícias, Os Lusíadas, digo-vos na melhor das fés, é secante! Já li uma meia dúzia de excertos da obra, para aí umas vinte vezes cada, e quanto mais leio...menos gosto! Nenhum, entre vós, pode ter votado em Camões pel' Os Lusíadas! Seria insano! Que tenham votado por ser o zarolho mais famoso, ainda vá! Toda a gente sabe que Os Lusíadas foi tipo uma de tese de doutoramento, a ver se subia na carreira, que Camões defendeu diante de D. Sebastião, que obviamente não percebeu patavina, e, não percebendo, a julgou de elevado valor, porque em Portugal se valoriza tudo o que é chato e incompreensível. Camões tem uns artigos mais pequenos que são muito mais giros!
Os Lusíadas é texto ilegível, sem notas de rodapé, as quais, neste caso, faziam falta; urge traduzir aquilo para português, trabalho de que poderia ocupar-se algum dos nossos mais insignes tradutores de grandes clássicos, como Frederico Lourenço ou Vasco Graça Moura. É que, até lá, é impossível lê-la, a não ser com os melhores intuitos sadomasoquistas. Se ainda não se vendem exemplares de Os Lusíadas nas lojas de quinquilharia boundage, aconselho vivamente. Dói mais que pendurar chumbos nos testículos, presos por anzóis, todos em cascata.
Logo no primeiro canto, primeira estrofe, é urgente traduzir os vocábulos e expressões “armas”, “barões assinalados”, “Ocidental praia Lusitana”, “Taprobana”, “Novo Reino” e “sublimaram”. Se Os Lusíadas estivesse, efectivamente, escrito em Português uma pessoa não sentiria a obrigação de explicar ao senhor Zé, “homem, olhe que essas armas não são, objectivamente, apenas armas, e os barões assinalados não pertencem necessariamente à nobreza”.
Para além do mais, Camões dava erros ortográficos grosseiros; atentemos na seguinte estrofe, colhida ao acaso num canto da obra, um qualquer, acho que foi o décimo-segundo. “Dá a terra Lusitana Cipiões,/ Césares, Alexandres e dá Augustos;/Mas não lhe dá, contudo, aqueles dões/ Cuja falta os faz duros e robustos./ Octávio, entre as maiores opressões/compunha versos doutos e venustos;/Não dirá Fúlvia, certo, que é mentira,/ Quando a deixava António por Glafira.
Mesmo fazendo por ignorar o erro na grafia do plural, meu Deus, que referências chatas de morte! Meu Deus, como tudo isto se assemelha a um dicionário de nomes próprios, dos que os futuros papás compram para escolher os nomes dos futuros bebés! E, meu Deus, terei eu percebido o narrador afirmar que a terra Lusitana produz varões sem colhões?! Vocábulo que já existia à época, o qual Camões poderia ter seleccionado enquanto rima, desobrigando o aviltamento ortográfico da obra?! E dá-se um texto destes na escola?! Que exemplo é este?! E obrigam-se crianças que comunicam segundo códigos do novo milénio, como por exemplo, “oi td bm. taum ja n dxs nd? ve xe aprxs pr ka Bjks Adrt Rspd” a ler esta estucha?!
E pergunto eu, retoricamente, foram os varões molezinhos, os varões sem dões, digo, colhões que elegeram Camões como o português mais importante? E progrediram o suficiente na leitura da obra completa para ter chegado a esta estrofezinha?! Leram mesmo a estuchazinha?!


sexta-feira, janeiro 12, 2007

Alguém me chamou?

Acordei com uma voz grave e limpa que distintamente chamou alto o meu nome. Não reconheci nela qualquer zanga, preocupação ou afecto. Não havia emoções. Era um alerta, um chamamento. E eu levantei-me, por respeito à ordem dessa voz tão clara, tão aberta, que dizia tão articulada, perfeitamente o meu nome, ecoando nos meus ouvidos vinda de sítio nenhum. Alguém, entre vós, me chamou esta manhã?

quarta-feira, janeiro 10, 2007

Cadáver adiado

Nova Iorque, vista do céu

Nova Iorque cheirou muito mal, anteontem à tarde, e o metro foi evacuado, bem como algumas escolas.
Dizem as autoridades tratar-se de uma fuga de gás. Não me custa a crer; é cada vez mais difícil dissimular a putrefacção do mundo.

A grande virtude de não se ter tento na língua

É verdade que este blogue tem aumentado o número de visitas, mas nunca imaginei que a fama do MP chegasse à Imprensa diária.
Hoje, lendo o DN, p. 6, fiquei a saber que José Lello desafia Ana Gomes a levar ao MP a tal questãozinha dos voos da CIA que terão feito escala nos Açores, com prisioneiros em trânsito, bem agrilhoados, situação que a eurodeputada tem denunciado, com base em testemunhos directos de que teve conhecimento.
Ana Gomes responde-lhe que não "perde pela demora", e que considera, de facto, recorrer ao MP.

Ora bem, o MP antecipa-se, e esclarece a situação sem delongas: Ana Gomes nunca foi mentirosa! Já José Lello, sabe-se, é um fantoche que movimenta os membros ao gosto do manipulador de serviço! Ana Gomes tem mais tomates no dedo mindinho que a família inteira de José Lello, reunidos os sacos testiculares viáveis.
O MP não gosta de José Lello. Mas o MP gosta da Ana Gomes, a qual não tem, felizmente, tento algum na língua, virtude tão esclarecedora como mal amada em Portugal, sobretudo pela classe política.
O MP sabe, porque sabe, que Ana Gomes jamais se envolveria na denúncia de uma situação a tal nível, se não tivesse provas em que sustentar as suas declarações. Não é uma mentirosa! Não é parva!
O MP reconhece que a autenticidade das afirmações de Ana Gomes vem incomodando, de há muito, o seu partido, e a classe política, em geral. Chamam-lhe emocional, descontrolada, histérica. Em suma, chamam-lhe mulher, e remetem-na para o gueto das que, tendo entrado na política, não cumprem as regras sagradas dos discursos hipócritas, dos discursos pour épater le bourgeois. Por isso, o MP chama-lhe cidadã de consciência activa, corajosa. É uma mulher do caraças, porque é um ser humano do caraças. Por esse motivo, o MP está com Ana Gomes para o que der e vier, e será feliz quando puder votar nela para liderar um governo. O MP tem dito.

terça-feira, janeiro 09, 2007

Sindroma do marido reformado


Jovens liberais eufóricos apregoam, nestes dias tão destituídos de memória, o regresso das mulheres ao sossego do lar, para tratar das crianças e dos assuntos domésticos, com vista a optimizar os rendimentos do agregado, mantendo intactos os valores tradicionais da família tão em desagregação, dizem eles. Alegam que já vergam a mola horas mais que suficientes, mal dormem, mal comem, ganhando mais que bastante para sustentar a casa e consumos acessórios. Ora, exactamente a este propósito, sobrevoemos por minutos a dose de realidade empírica que me foi oferecida, ontem, por um documentário que passou na tv cabo.

As japonesas com 20 anos em 1960, altura em que casaram e constituíram família, permanecendo em casa, como era devido, vendo partir o marido para trabalhos com os quais contraíram segundo casamento, e de que começam a reformar-se, desenvolveram uma doença depressiva: o chamado sindroma do marido reformado.
Eu, que sou especialista em catálogos de doenças depressivas, e em várias línguas, nunca tinha ouvido falar nesta: sindroma do marido reformado!
Educadas tradicionalmente para a submissão ao marido, para terem e criarem os seus filhos, cuidarem da sua casa, roupa e alimentação, estas mulheres habituaram-se, durante mais de 40 anos, a uma estranha relação conjugal, a que continuaram a chamar casamento, mas que se tratou, de facto, de uma relação empresarial gerida eficazmente, da qual ambos eram escravos, de uma forma ou de outra.
Os maridos estiveram quatro décadas de passagem pela família, embora a liderassem. Dormiam e saíam, a correr, sem férias, sem folgas. Não existiam laços afectivos, nem diálogo. Nem tempo nem predisposição. De nenhuma das partes. Alguém consegue imaginar japoneses, mesmo japoneses com tempo, a dialogarem sobre sentimentos, a manifestarem-nos?!
Habituaram-se, pois, a viver uma vida semi-celibatária, sem outros afectos. O marido vinha a casa, de vez em quando, e não ocupava muito espaço. Era um estranho, mas um estranho que não estava presente, ou, se estava, se tratava correctamente, para rapidamente desaparecer com a mesma correcção. Hoje, a perspectiva do regresso a casa dos maridos, leva-as a colocarem a hipótese do suicídio, a pedir-lhes que adiem a reforma, e a procurarem, em desespero, a ajuda da psicoterapia. Não suportam a ideia de viver com aquele estranho. Não resistem ao stress, à depressão, ao medo que tal ideia lhes causa. Não sabem dialogar com o estranho. Sentem dores de estômago, subida da tensão arterial, ficam gravemente doentes. No Japão há milhares de casos.



O sindroma do marido reformado é consequência de uma estrutura social baseada da divisão rígida das tarefas, na separação dos sexos de acordo com tais obrigações.
Não existe apenas o sofrimento da esposa, porque o marido, um desgraçado que trabalha a 300 quilómetros para garantir a subsistência da família, não só não é feliz, como, na maior parte dos casos, nem sabe que é indesejado. Vai sendo poupado ao seu próprio estatuto de visita obrigatória e indesejável, o qual desconhece, e só vem a descobrir quando, finalmente, é confrontado com a doença da mulher. Sofrem todos em nome de uma tradição que é, na prática, uma inútil escravidão voluntária. Serve ninguém. Ambos os cônjuges são fiéis a um modelo de honra que não os honrou, porque não respeitou a inteireza das suas vidas, porque não os realizou como indivíduos nem como par.

Conheço um caso muito semelhante: uma amiga da família recomeça a tomar Prozac sempre que o marido regressa, semestralmente, da plataforma petrolífera onde trabalha; encharca-se de calmantes e vitaminas enquanto aguarda ansiosamente pela sua partida, sorrindo, limpando cuidadosamente o pó aos cantos da casa, que ele pensa pertencer-lhe, mas que, na verdade, e por justo usocapião, lhe pertence a ela e aos filhos. Ele não passa de um intruso tolerado. As férias do marido implicam fazer-lhe sala, como a uma visita de cerimónia, durante as 24 horas do dia; e a minha amiga não suporta o stress, a tensão de ser uma fada do lar só para ele ver, porque julga ser o que ele espera dela. Já nem sabe. Já passou tanto tempo. E quando casaram era assim.
Emagrece, anda irascível. Assim que o deposita no avião, vêmo-la sorrir outra vez, sentir-se feliz, livre para estar em casa sozinha a ler, a bordar, ocupar-se dos filhos, do trabalho da casa. Para poder ser quem se habituou a ser – uma mulher celibatária - e viver sem medo.

Portanto, regresso aos valores tradicionais, caros jovens desmemoriados?! Divisão das tarefas de acordo com supostas competências adstritas a um sexo?! Aqui vos deixo a experiência da vida real! Não tentem fazer isto sozinhos em casa!

segunda-feira, janeiro 08, 2007

Não me peçam em casamento

Andrew Benyei, Perfect Marriage

Um casal chinês contratou uma união de oito anos, findos os quais, poderá ser renovada, ou não. Depende da vontade com que estiverem. Se ninguém a renovar no prazo de 90 dias após o término, cessa. Acho isto genial.

A última vez que me propuseram casamento foi em Junho do ano passado. Pedi uns tempos para pesar os prós e os contras e, confesso, passei mal: tive princípios de asma, tosse, engasgamentos, como se me tivessem atado uma corda ao pescoço e começassem a apertar o nó, devagarinho, puxando cada dia um bocadinho mais; a angústia de me imaginar casada e presa, tirava-me o sono, torturava-me. Não me imaginava a passar as manhãs de sábado a arrumar a casa, a lavar roupa e louça de empreitada, essas coisas que as mulheres casadas fazem, sejam emancipadas ou não, porque têm de ser feitas ou vence o caos; até que ao 16º dia de meditação não aguentei mais, desenfiei o laço pela cabeça, e mandei o proponente apresentar a proposta a outra mortal qualquer, mas a mim, não.
Pude respirar. Fundo. Reconheci aqueles sintomas; já os havia sentido uns anos antes. Peçam-me o que quiserem, mas não me peçam em casamento.

A única ideia agradável que tenho do casamento consiste em poder adormecer e acordar com alguém ao lado, ter companhia para férias, ter companhia, de forma geral. E sexo, sexo, sexo bastante disponível, até fartar. Quanto ao resto, ter de adequar os hábitos de vida aos de outra pessoa, abdicar das minhas manhãs de sábado no café, pelos meandros do jornal, não poder estiraçar-me pelo sofá durante o fim-de-semana, vendo televisão e filmes, lendo jornais e livros, não poder sentar-me ao computador e escrever sem ser interrompida, fazer comida só se me apetecer, não aspirar o chão, falar com a cadela, que concorda comigo em tudo... oh, o sossego de se estar sozinha, o sossego do silêncio, o sossego de não ter responsabilidades e de se fazer o que se quer com o tempo livre!
Quem experimenta a vida de solteira durante 20 anos pode lá imaginar-se dentro de uma camisa de forças, constrangida relativamente ao que é ou não permitido! Ceder aqui para obter acolá?! Não há volta a dar!
O casamento implica obrigações e negociações enormes. Muita trabalheira! Muita gente a sujar, a mexer em tudo. Com ideias. Com horários que não são os nossos. Impossível!
Depois, os efeitos psicológicos de saber que me tinha metido num negócio para toda a vida seriam desastrosos. Asfixiaria, como me sinto asfixiar só de tentar imaginar-me encaixada seja no que for. Sou inencaixável. Não descansei enquanto não me livrei da última hipoteca contraída, e eram só 30 anos.

No entanto, a ideia dos chineses, admito, é interessante: talvez conseguisse assumir um contrato a curto prazo. A seis meses, por exemplo. Ou três, só para experimentar, e pronto, sempre eram três meses de sexo à discrição, e cama quentinha, e essa face é sempre tentadora. Seria só estender o braço e dizer, “querido, anda cá que ainda faltam dois dias para acabar o contrato!”

domingo, janeiro 07, 2007

Estrelas que caem do céu

Britney

A Britney Spears é gira. Tem uma carinha bonita, é roliça, e não perdeu ainda o ar viçoso de menina, que combina bem com a aura de mãe. Acho-lhe graça.

Esta semana, ou a anterior, resolveu pedir desculpa aos fãs, porque parece que tem andado a portar-se mal desde o divórcio. Tenho de lamentar que se desculpe. Uma estrela não pede desculpas desse género. Nem uma estrela nem ninguém. Pedir desculpas por ter uma vida privada que alguém torna pública? Pedir desculpas por não ser uma santa? Quem espera que uma estrela seja um ícone de santidade? Não chega que assuma a sua condição humana, corruptível, não deixando de ser uma estrela?!

Quanto mais baixo no lodo da humanidade cai uma estrela, mais se levanta enquanto ícone. É o contacto com esse lodo que a constrói. Recordo-me que não tinha comprado um único disco do George Michael, até ao dia em que foi apanhado nas casas de banho públicas de LA, pedindo ou oferecendo fellatios. De repente, o betinho do Last Christmas i gave you my heart tinha-se tranformado num homem palpável, autêntico. Era um ser humano, finalmente. No outro dia, vi-o numa entrevista ao People & Arts, rindo-se das asneiras em que vai sendo apanhado, a maior parte delas relacionadas com sexo ou drogas, e eu também me ri. George Michael aprendeu a tirar partido da sua condição humana para se tornar uma inegável estrela pop, com classe. E, claro, não tem desculpas a pedir.
Eu cá, gosto que vá fazendo asneiras. No final, rimo-nos todos, e não foi nada de especial. Foi só a vida.

sábado, janeiro 06, 2007

100 mil



Cem mil visitas.
Mesmo imaginando eu as piores estimativas de leitura real, ou seja, considerando, aleatoriamente, que apenas dez por cento das visitas podem ter sido úteis, tudo isto já valeu, no mínimo, uma pulseira de diamantes.
Seguindo o exemplo de Carolina ex-Pinto da Costa, dedico as 100 mil visitas aos meus estimados leitores e leitoras, sem os quais este blogue não teria sido possível.

sexta-feira, janeiro 05, 2007

Os que, como eu, têm a certeza de estar certos


Um leitor desmoralizado deixou um comentário sobremaneira expressivo e espontâneo num texto que aqui escrevi em Abril de 2005. Afirma o anónimo:

Haviam de perder direito a votar e voltar para cozinha.
Comem e cospem no prato ordinárias.
Está provados q somos todos pessoas e tal como apregoas vcs querem dominar.
Haviam de perder direito a votar e voltar para cozinha.

Analisemos os argumentos do falo claramente magoado: primeiro, havíamos de perder o direito a votar; segundo, devíamos voltar para a cozinha, embora duvide muito que de lá consigamos sair algum dia; terceiro, somos todos pessoas; quarto, queremos dominar. E que acto horrendo e merecedor de castigo cometeram as mulheres, ou seja, as ordinárias para merecer tais acusações? Comemos e cuspimos no prato!

Pergunto, inocente, mas se somos todos pessoas, como o leitor admite, por que motivo seriam as mulheres impedidas de votar, manteriam como seu território a cozinha, não desejariam aceder ao poder, e pretenderiam continuar a comer de um prato no qual, por gratidão ou medo, não poderiam cuspir?!
Quando tudo está perdido, porque já se perdeu, os nossos argumentos correm contra as nossas intenções, e traem-nos. Quando se perdeu a guerra, entregam-se as armas e faz-se recolhimento. E se houve uma guerra de sexos, os homens perderam-na. Resta-lhes a diplomacia. A negociação. A adaptação ao invasor. A miscigenação. Eu não queria ter de dizer isto, mas não é mau de todo assumi-lo. Perderam, ponto final, parágrafo, travessão. Vida nova.
Na sua essência, as emoções e acções de fundo do ser humano não se alteraram. Continuamos a amar, odiar, cobiçar, ousar, acobardar, maldizer, malfazer, benfazer, como nos tempos do Velho Testamento, mas o todo social tem realmente vindo a mudar ordens, posições estruturais estabelecidas de há muito, como a de “comer e calar”, “comer e não morder a mão do dono”.
No que diz respeito a questões de género, e feitas as devidas ressalvas, existe hoje mais equidade, sobretudo entre os homens mais novos, os quais assumiram uma partilha do mundo sem conflitos interiores. Dou pouco pelos homens de 50, mas aposto meia mão nos de 40, e ponho a esquerda no fogo pelos de 30. Os de 20 ainda não são contabilizáveis. Quanto à direita, preservo-a de acidentes.



Tento compreender o leitor desmoralizado. Viver numa sociedade tão alterada, em que as mulheres não só já não comem no prato, como, se comem, se dão ao luxo de cuspir nele, deve ser violento todos os dias. Incompreensível. Gera raiva, sim.
Alterar formas de encarar e interagir com o mundo é um trabalho demasiado árduo para se realizar dentro de uma geração madura. Por exemplo, ensinar as pessoas a separar os lixos tem sido complexo: ainda há 20 anos vazávamos os baldes directamente no contentor!
Para alguns de nós, o manuseamento de euros em substituição dos escudos ainda acarreta complicações. Quanto valem 140 mil euros, assim de repente?
Também não queremos estudar, obrigar-nos a compreender a nova filosofia linguística introduzida pela TLEBS.
Odiamos quaisquer mudanças de hábitos, porque nos desestruturam, obrigando-nos a planear novas movimentações. Mas tomemos uma criança de 7 anos, acabada de entrar para a escola, que nunca conheceu outra forma de tratar o lixo senão a actual, e que nunca viu a cor a um escudo; para ela, o mundo já mudou, e mudou sem dor. Ela saberá fazer a separação dos lixos, contar euros e classificar um nome comum concreto como contável, animado e não humano, naturalmente.

Ver o mundo como o vêem os outros, os que não são eu... que desafio, que impossibilidade!
Tentar pensar como um machista, um racista, um xenófobo, um defensor do não no referendo ao aborto. Como esses que têm, como eu, igual certeza de estarem certos.



Um exercício em contexto doméstico: passava a ferro, e lembrei-me que a maior parte dos meus amigos e amigas não o faz. A minha sueca não compreende tal hábito. Ora, se tudo se amachucará a seguir, para quê engomar? Outros, limitam-se a dobrar a roupa o mais direita possível, à saída do arame ou da máquina, e assumem os vincos. Eu, que detesto perder tempo com as afazeres domésticos, podia proceder da mesma forma. Por que não faço? Que benefício podem trazer ao mundo, mas a mim, sobretudo, um lençol e uma toalha bem engomados? Pensando bem, faço-o porque não posso deixar de o fazer. Faço-o porque gosto de sentir o cheiro da roupa passada a ferro, porque gosto de ver e sentir as dobras vincadas no algodão dos lençóis. Faço-o porque cresci num mundo em que se engomava com ferro a carvão, e havia vapores, pesos, cores, dores. Havia montanhas de roupa em açafates, e havia obrigações. Passar a ferro era algo importante. Roupa mal passada indiciava uma pessoa desleixada. Isso, essa memória, esse condicionamento, estão em mim. Fizeram-me. Sofreria insónias se me atrevesse a arrumar, numa gaveta, uma peça de roupa por passar. Os outros, os que não pensam como eu, sofreriam insónias se tivessem de passar a ferro montanhas de roupa, como eu. Não me compreenderão. Chamar-me-ão obsessiva. Pela minha parte, compreendo-os racionalmente, mas sou incapaz de agir em conformidade. E, quando vou às suas casas, aceito a roupa não engomada com certo desgosto, como se me dessem peças de segunda. Roupa mole, que horror!
Quem é o leitor desmoralizado que deseja negar-nos o voto e garantir o regresso à cozinha? É bom homem? Se calhar é! Eu já amei pessoas com quem tive sérias divergências ideológicas.
Quem são, afinal, aqueles que nós não somos? Iguais do outro lado? O outro lado do espelho? Vêem o que não vemos? Estão tão certos como nós? Mais certos? Menos? É nisto que se joga o equílibrio entre as esferas?


O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...