quarta-feira, fevereiro 28, 2007

O mito do amor maternal instantâneo


O amor maternal instantâneo é um dos grandes mitos sagrados associados à maternidade. Prefiro trocá-lo pela realidade da preocupação e desespero maternais a partir do momento em que uma criança atravessa o colo do útero e emerge para sofrer décadas de penoso purgatório, se tiver sorte.
Há umas semanas, no hospital de Torres Vedras, uma enfermeira desmotivada, e eu até posso compreender, trocou duas crianças. As mães tiveram alta, levaram os bebés para casa, e só uma delas, muitas horas mais tarde, estranhou que o seu filho tivesse o nome de outra mulher na pulseirinha que o identificava. Reparou melhor, e a criança pareceu-lhe mais magra. Voltou à maternidade, pedindo a troca do artigo; parece que teve sorte, que ainda estava nos prazos estipulados pela Lei.
Ora, penso cá comigo, enquanto mães e bebés tiveram visitas na maternidade, quem não terá cedido à tentação de comparar recém-nascidos e progenitores?! "Ah, é tal e qual o queixo do pai; ah, tem o nariz todo da mãe; ah, parece a avó Maria Emília!"
Tais atribuições de parecenças nos primeiros dias de vida parecem-me bastante irrealistas. Qual queixo e qual nariz?! Os recém-nascidos não passam de um naco de carne vermelhusca e engelhada! São todos iguais. Está bem, uns têm mais cabelos, outros menos, uns são mais compridos ou mais pesados, de resto, eu gostava de ver uma mãe ou um pai à procura do filho da sua carne e do seu sangue num berçário sem nomes, sem referências.
O que é espontâneo relativamente a um recém-nascido é o sentimento de propriedade e de merecimento. "Eu quis ter isto, isto custou-me a ter, isto é meu!" A minha mãe, que teve comigo um parto especialmente difícil, não me amou no momento seguinte ao nascimento. Percebo-o pelas perguntas que lhe faço. Amou-me depois. Mas o meu pai, o meu pai levou ao extremo a sua decepção com a minha vinda. Recusou ir buscar-me à maternidade, porque eu não era um rapaz! Sempre admirei no meu pai a sua total incapacidade para fingir e para fazer fretes! E isto não é ironia.


terça-feira, fevereiro 27, 2007

Ideias Inglesas II


Antigamente, a ocupação de reis e príncipes, como a de toda a nobreza, era o fossado. Lá partiam cheios de testosterona, ou arranjavam-na pelo caminho, nem quero saber como; chegados ao terreiro da barbárie, matavam e morriam. Exactamente como D. Sebastião.
Já se sabe que quem vai à guerra dá e leva, ou melhor, corre o risco de matar e morrer, porque é disso que trata. É o fim último da encenação de exercícios, fardas e armas apontadas e disparadas a alvos.
Neste momento, a Inglaterra debate-se com um problema. O terceiro herdeiro ao trono, na linha de sucessão, quer combater no Iraque como qualquer outro do seu batalhão, (toda a gente sabe que o jovem não é, efectivamente, outro qualquer, não senhor), e porque, e esta parte ele esconde, desespera por acção, uns gritos selvagens dentro dos tanques, "vamo-nos a eles", uns disparos, umas bejecas, umas brocas, tudo legítimo porque um gajo está na guerra e há que aproveitar a temporária indistinção entre certo e errado, sendo tudo certo.
Parece que o príncipe, que por tradição quer ir à guerra, como os príncipes seus antepassados - embora não convenha a ninguém que execute as funções para que se preparou - vai mesmo brincar com armas. Para o proteger, de forma a que possa meter as mãos no fogo sem se queimar, a Inglaterra vai formar e enviar para o Iraque um segundo batalhão secreto que não poderá perdê-lo da vista. Esta informação não está ainda confirmada. Mas eu sei. A intervenção do batalhão do príncipe, no Iraque, sairá duplamente cara ao contribuinte inglês.

Ideias inglesas I


Em estações de comboio de diversas localidades do Reino Unido, com o objectivo de tornar os lugares pouco aprazíveis, insuportáveis mesmo, para os delinquentes que aí se reuniam vandalizando paredes, bancos e carruagens de comboios, os chefes de estação decidiram colocar música clássica, em alto som, nas colunas das gares, toda a noite. Chopin, Wagner, Beethoven e Telemann nunca imaginaram que o produto artístico do seu talento, inteligência e sensibilidade pudesse causar vómitos na população do grafitti. Nem eu.
A estratégia resultou. Os putos delinquentes foram-se embora; não aguentavam a cena marada do barulho, ficavam confusos. As estações de comboio do Reino Unido respiram fundo.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Pacificar África


"Eles hão-de matar-se uns aos outros". "Não querem trabalhar e morrerão de fome." "África sem brancos está condenada. Vão chorar por nós!"
O que os colonos preconizaram para o futuro de África sem poder branco, essas pragas rogadas no embarque para a metrópole, deixando para trás a terra, a casa, a conta bancária já sem valor, todos os bens, em alguns casos a vida roubada a um filho, um marido, uma mulher, um amigo, tornaram-se realidade pouco depois. O massacre militar e civil começou com as guerrilhas levadas a cabo por movimentos oposicionistas financiados pelo apartheid, ou pelo ocidente anti-comunista, contra os governos formados a partir das independências, e perdura, hoje, viabilizado pelos neocolonialismos, ocidentais, orientais, económicos em geral, e pelo desgoverno de líderes oportunistas e corruptos - o que se aplica não apenas às ex-colónias inglesas e francesas, mas também às que foram nossas.
As ex-colónias não foram ainda capazes de garantir a sua autonomia económica e política, tendo mergulhado num caos sangrento, social e culturalmente desestruturante.
Tomando-me como testemunha do período de dez anos que antecedeu as independências, e também do que as iniciou, fazendo passar pela memória os inúmeros momentos de crise grave durante a guerrilha pós-independência, e observando o panorama actual africano, torna-se claro que a ditadura colonial foi o que de mais suave aconteceu em África no último século. Não há nesta afirmação qualquer intenção de branquear as violências e injustiças coloniais cometidas sob o meu olhar. Eu sei o que vi e ouvi, o que mantenho guardado. E sei que há argumentos válidos dos dois lados. Ou seja, os brancos eram maus, mas nem todos o eram. Os negros eram explorados e oprimidos, mas nem todos os explorados e oprimidos albergam um coração simultaneamente revoltado, magoado e puro. Ou seja, os bonzinhos não são todos contaminados pela bondade. A dura verdade é que nesses terríveis anos coloniais os negros ganhavam quase nada, mas o que ganhavam, mesmo acrescentando a porrada, dava para comer e andar esfarrapado, e fazer aguardente de cana, e de caju para o Domingo. Era humilhante, sim, mas os filhos ainda não assassinavam os pais, e os irmãos não violavam as irmãs, e havia um ódio unificador comum: o colono, o explorador, a estrutura de exploração colonial que sustentavam a troco da farinha com peixe seco diários. No meio de tudo isto, uma certa paz podre, sim, sem dúvida, mas nela não se matavam uns aos outros. Ficou o podre; quase só o podre. Sim, era opressão, nenhum equívoco, mas quantos massacres de Wiriamu, multiplicados, sofreu África desde que os colonos saíram? E por que motivo me parece que quem os governa hoje não é menos injusto nem menos violento do que nós fomos? O opressor, o explorador continua por lá. E explora tanto ou mais. E com menos escrúpulos. Hoje é negro. É o irmão negro ou o amarelo, e as mãos continuam a ser besuntadas para se chegar à justiça, ou esquecê-la. Não há grande diferença entre o regime no qual vivem agora os povos das ex-colónias, e aquele que viveram sob os interesses portugueses.
Quero perceber como será possível pacificar África. E
ssa seria a quimera que quereria ver realizada.

domingo, fevereiro 25, 2007

Grandes rebanhos



O comércio de tatuagens e piercings apresenta lucro crescente, apesar da crise. Todos os dias, sobretudo assim que se inicia a Primavera, milhares de pessoas decidem tatuar-se e furar-se nos locais mais recônditos dos seus corpos para se tornarem... diferentes!
Um piercing no umbigo ou no rosto é o sonho de qualquer adolescente. Mas não só! Uma prima minha, acabada de entrar nos 50, não descansa enquanto não tiver uma rosa no ombro e uma argola com brilhantes no umbiguinho.

sábado, fevereiro 24, 2007

Adoração aos gajos

Para alguns homens, o feminismo bom é o feminismo sossegadinho, suavezinho, delicado. Sobretudo, calado. Que não se perceba. O feminismo "eu já sou independente, já somos todas independentérrimas, e adoramos gajos!"
Para alguns homens, a feminista ideal é a que aborda as maravilhas da liberdade sexual, na vertente "vale tudo, inclusivé tirar olhos", ao estilo Marta Crawford; ao estilo "adoro gajos".
Igualmente, a feminista ideal, tal como a mulher ideal, não questionará as idiossincrasias da sexualidade masculina, nem pensará nisso. A queca masculina é sagrada, mesmo quando não passa da punhetada. A feminista ideal adorará os gajos, exteriorizando a
ideia socialmente correcta de que eles são, hoje, tão diferentes, que até ajudam em casa! Certo, de vez em quando até lavam a louça, e arrumam-na. E até dão banho aos filhos. Alguns admitem também adorar gajos, mas eu admiro essa rara gente que admite!
A feminista ideal é a que já não é, ou a que nunca foi. A que defende serem, as mulheres, as piores inimigas umas das outras, porque as mulheres só são fiéis aos gajos, só adoram gajos. Claro que não sei se escrever estas coisas será mau feminismo! Não quero ser má feminista! Gosto sempre de pedir autorização antes de emitir opiniões! Como sou uma mulher tenho tantas hesitações!

Ingredientes

Na embalagem das minhas bolachas de água e sal leio que "Pode conter vestígios de frutos de casca rija, sésamo, leite e soja". Cadê a água e o sal?

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Movimento, dispersão, disparidade

O Lava-Pés, Tintoretto, 1547, Museu do Prado, Madrid

(clicar na imagem para aumentá-la)

Quando vou ao Prado costumo sentar-me durante largos minutos frente ao Lava-pés, tela de cinco metros e meio, e projectar-me inteira para dentro desse espaço, pelo prazer puro de me perder da minha realidade, e porque é fácil. A impressão tridimensional consegue-se, na perfeição, se nos colocarmos do lado direito da obra, observando-a de frente.
Não sendo grande apreciadora de pintura com temática religiosa, adoro Tintoretto. Considero que o pintor se serviu de encomendas bem pagas pela Igreja para transformar cenas bíblicas em instantâneos quotidianos animados de movimento. Gosto dos corpos que surpreende enquanto gesticulam, reagem. Dos azuis e rosas. Dos ferros. Da dispersão e disparidade. Da tridimensionalidade, a qual advém de um domínio extraordinário da perspectiva.
Esta tela pertence à exposição permanente do museu, mas o Prado acolhe, até Maio, uma exposição temporária de Tintoretto, composta por 70 das suas obras maiores, vindas de museus de todo o mundo. Desde 1937 que não se reúnem tantas obras deste pintor. Mas releva que em Portugal não veremos nada semelhante nem em 2037.
Um bilhete de autocarro para Madrid, ida e volta, custa 69 euros, partindo da Gare do Oriente. Comprando a viagem com alguma antecedência, consegue-se o mesmo preço, ou pouco mais, pela Vueling, e é só uma horinha. Às vezes demoramos mais a atravessar a ponte.



quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Bom feeling


Um dos maiores bancos portugueses, onde por acaso já tive conta, até me fartar de ser roubada pela aplicação de taxas incompreensíveis e inaceitáveis, faz passar na televisão um spot publicitário de 35 segundos, que adoro ver e ouvir.
Filmaram Sara Tavares, cantando, na varanda de um prédio lisboeta, uma deliciosa canção intitulada Bom Feeling. Para mim, Sara Tavares é mesmo bom feeling. Adoro vê-la cantar e dançar na varanda, ao sol, muito bonita, muito simples, afirmando, sem manias algumas, "a minha casa é o meu mundo". É um enunciado que me apazigua, e considero que este é um exemplo de publicidade positiva. Parabéns à Sara e aos publicitários. E chega.

domingo, fevereiro 18, 2007

Travestis sazonais


Os homens são grandes fãs do Carnaval, época em que podem, livremente, vestir-se de mulher, usar cabelos compridos, mamas e rabos postiços, e fazer jeitinhos de menina, que, na verdade, são de puta.
Não conheço nenhum homem que não sonhe travestir-se no Carnaval. É a máscara preferida. Não posso censurá-los; eu, se tivesse nascido homem, também haveria de sonhar ser mulher, todos os dias.

O maluco da Madeira


Alberto João Jardim adora prestar declarações à Imprensa. A Imprensa adora registar a tragicomédia implícita no seu discurso, e nós adoramos ouvi-lo, sorrindo e abanando as cabeças. Não se trata de justeza ou novidade política: é palhaçada pura. Do que gostamos é da palhaçada! Divertimo-nos com os disparates, com a exibição descarada da tirania do barão. Divertimo-nos com Alberto João Jardim como, antigamente, nas terras pequenas, se divertiam com o maluco da vila. O maluco podia ser maluco. Alberto João Jardim ganhou esse estatuto.
A parte triste de tudo isto é a simultânea consciência de que a ilha da Madeira é governada por um palhaço, pelo maluco de serviço.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Ou falsos ou bailarinos

A minha mãe sempre me avisou contra homens pequenos, o que, mau grado todo o espírito racional que me tenho esforçado por desenvolver, fora da sua esfera de influências mágicas, tem batido certo. Calham-me todos, excepto os bailarinos!
E quando penso no assunto, embora me force bastante para não pensar, acho trágico que certos indivíduos, como se não lhes bastasse ser pequenos, sejam também... pequeninos.



Os sete anõezinhos sem Branca de Neve (e estes trabalham, iupi!).

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Ardo de amor

O meu top de prendas do dia dos namorados vai, este ano, para dois objectos que pude contemplar, há bocado, numa montra toda vermelha:
- primeiro, diabinhos em peluche, vermelhos, claro, e de vários tamanhos, segurando nas mãos um pequeno coração, vermelho, claro, no qual se podia ser ler, em letras vermelhas, claro, embora mais escuras, "Ardo de amor". Sugiro ao fabricante poupar nas letras. No próximo ano, escrever apenas "Ardo". Chega perfeitamente.
- segundo, plumas para escrever, vermelhas, claro, com aparo dourado, acompanhadas de minúscula ampola de tinta permanente, vermelha, claro. 25 euros (esqueci-me do preço dos peluches, peço desculpa!).
O peluche, mal consigo enumerar todas as possíveis utilizações que se podem dar-lhe. Quanto à pluma do século XVI, será com certeza para escrever belas cartas de amor, porque as pessoas, hoje, manuscrevem imensas cartas, sobretudo de amor. E é muito mais fácil que com uma esferográfica. Dá imenso jeito. Um aparo de pluma!

Dias inúteis

Há coisas que vêm fora do tempo em que teriam sido úteis. Uma delas é o dia dos namorados. Um dia dos namorados teria feito sentido na época em que havia namorados. Hoje, pelo que observo, a partir dos 14, em alguns casos aos 13, aos 12, os namorados transformaram-se em amantes com doutoramento em sexo alternativo. Ou seja, com muita informação pornográfica no bucho!
Nos anos 70, quando eu era uma miúda, e os telefones se contavam pelos dedos das mãos, quanto mais telemóveis, os namorados encontravam-se ao sábado à noite, se conseguiam, e ao domingo, a tarde toda. Os sortudos, com pais permissivos, tinham direito a visita suplementar à quarta, depois do jantar, uma horinha, duas, vá lá.
Ora, era neste tempo que o dia dos namorados teria feito falta. Havia de ser um consolo, esta dose suplementar na conta dos beijos e dos apertos e das mãozinhas.
Nos tempos que correm, o dia dos namorados é uma comemoração redundante, confrangedora. Este ano está a dois dias do Carnaval, e ainda bem, porque disfarça o ridículo.

O maior coração do mundo é o português


Já me estava a esquecer de mencionar o fabuloso coração gigante, o maior do mundo, que a empresa Amo-te Chiado, em parceria com um banco qualquer, mandou fazer na Índia, e se encontra suspenso no Terreiro do Paço, a praça do Guiness português.
Notável!

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Eu fico com as aves


Acabou de pousar uma avezinha do beiral da minha janela. Olhou para dentro, bateu com o biquinho no vidro, e eu fiquei tão imóvel como uma estante, esperando vê-la entrar por uma frincha que não deixei aberta. Gostaria de ter a minha casa cheia de aves que entrassem e saíssem livremente, fizessem os ninhos entre os livros, a papelada, nos cantos mais seguros. Gostava que a minha casa fosse um pombal, uma torre de aves que eu ouviria arrulhar e piar de manhã e ao final da tarde.

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Nunca tinha sentido um sismo


Estou com gripe. Tossi toda a noite, não consegui dormir, e dói-me o peito. Estou sem voz. De maneira que não fui trabalhar. Estive na cama toda a manhã, levantei-me agora um bocado, mas vou voltar já.
Por volta das 10h30 acordei furiosa com o meu vizinho de baixo, que estava a pendurar qualquer coisa pesada no seu tecto, fazendo abanar o meu chão, até a minha cama. Ouvi perfeitamente um barulho de aparafusamento. Estive para bater no chão e tudo, mas encontrava-me meia a dormir, e o homem parou as obras. Voltei a adormecer, pensando que as estruturas que separam os apartamentos são demasiado frágeis, e que raio estaria o homem a fazer para me abanar assim o quarto!
Dormi, voltei a acordar, e pensei que tinha sido tudo um sonho. A minha mãe é que me disse agora ao telefone: foi um sismo violento, e eu moro altíssimo. Bolas!

domingo, fevereiro 11, 2007

Foi um caminho longo

Mas agora posso ir sentar-me, justiçada, a ver os gatos fedorentos!

Os "tanto faz"

O português mete-me raiva! O português é um bananas, um encolhido, um medricas! O português come o que lhe dão, e cala, e gosta. Está habituado. O português não escolheu a ditadura do Estado Novo nem a revolução de Abril! Houve uns gajos que tomaram as decisões, "eles, os outros", e os portugueses quedaram-se boquiabertos com a lata, porque, para os portugueses, é preciso ter lata para se alterar seja o for, mexer um dedo, levantar o cu da cadeira.


O português não forma opinião, vai para onde toca o vento. Ou então nem vai. Porque o português não acredita. O português acha-se pequenino, acha que não pode, que não vale. "Ah, para quê?! Chatear-me, para quê?! Dar a cara, para quê?! Tanto faz! Eles fazem o que querem! São todos iguais!" Os portugueses não percebem que os outros são eles próprios. Cada português é um d"eles", sentindo-se outro.
Tanto lhes dá! Que tenham uma opinião contrária à minha, mas que a tenham, carago, e que a defendam! Não participar na vida da pólis, recusando tomar uma posição que a democracia garante sigilosa, é uma atitude que não posso compreender. Se dificilmente concebo que em eleições legislativas, autárquicas, presidenciais se registe uma elevada taxa de abstenção, porque considero que o descontentamento partidário se deve manifestar através do voto em branco, mas voto, menos compreendo que num referendo de carácter legislativo, despartidarizado, os portugueses recusem pronunciar-se sobre o que terá consequências directas na qualidade de vida dos seus. É uma desresponsabilização inaceitável. Não, eu não penso que os portugueses tenham um comportamento eleitoral exemplar. Que exemplaridade pode existir quando mais de metade dos indivíduos não vota?! O que é que isto nos diz, neste caso? Que não queriam referendo, mas uma lei discutida e aprovada na Assembleia da República?! Não, porque isso foi o que sempre defendi, mas, havendo referendo, não tinha lógica baixar os braços sem lutar. O mesmo do outro lado: não foram votar porque concordavam com a Lei que vigorava?! Se concordavam, iam mantê-la! Ou se concorda ou se discorda. Ou um bocadinho dos dois lados, mas escolhe-se, para se não estagnar. E age-se de acordo. Agora, o "deixa andar", o "tanto faz", o nem sim nem não?!
A Lei mudará, mas a vitória deste referendo vai inteira para o "tanto faz, isto não é comigo, não quero ser responsável!" Isto revela, sem equívocos, o rosto verdadeiro dos portugueses; não é apenas uma radiografia da forma como se abstêm da vida política, mas da vida em geral. E foi aí que o "não" errou. O seu principal argumento não colhia. É que os portugueses estão-se nas tintas para a vida! Os portugueses odeiam a vida! Os portugueses, se pudessem, pagavam a alguém que vivesse por eles, como se paga a quem nos vem limpar a casa à sexta-feira.

sábado, fevereiro 10, 2007

Viagra e massagens ao cogumelo



Sou totalmente a favor da química. Nem sei como não fui para farmacêutica. O meu sonho era ter uma grande farmácia e viver no cofre dos Xanax. Cá para mim é simples: dores, febre, e constipações, paracetamol e iboprofeno; insónia, diazepam; depressões, fluoxetina; infecções, amoxicilina; reumatismo, diclofenato sódico, e por aí adiante.
A quimíca serve-nos eficazmente. Dá-nos o seu melhor com poucos efeitos secundários. O Viagra, por exemplo, merece uma atenção especial, e muito menos gargalhada. A maior parte dos que gozam com o Viagra bem precisam dele. Recomendo, vivamente, a toma parcimoniosa, é claro, a indivíduos que tenham perdido o vigor dos primeiros anos, ou que, estando nos primeiros anos, não tenham jamais vislumbrado qualquer vigor. Acontece. Não é vergonha nenhuma. Vergonha é desresponsabilizarmo-nos do problema, atribuindo-lhe causas exógenas. O que também acontece, muito lamentavelmente.
A disfunção eréctil atinge uma percentagem elevada de homens de todas as idades. Nos indivíduos jovens, as causas são quase sempre de origem psicossomática mais ou menos passageira, a carecer de maior ou menor terapia. Penso que o Viagra, sendo um químico para efeito localizado, pode ajudar a outro nível: consegue induzir autoconfiança, em alguns casos. O Viagra pode constituir uma fonte de reforço positivo, desbloqueando medos adquiridos.
Sinceramente, custa-me imenso que os homens tenham dificuldade em endireitar o pepino. Acho que deve ser mesmo frustrante. Bem sei que é mal comparado, mas eu também gosto que os mamilos se me endureçam quando faz frio, quando os roço, quando lhes toco. Como se tal episódio de causa-efeito pudesse confirmar que está tudo bem no meu corpo. Se eu fosse homem e, de um momento para o outro, me visse impedido de esticar o alho-porro, era Viagra até o legume se arrebitar sozinho outra vez, e por tentativas.
Outra tarefa útil e interessante a que os homens que sofrem de disfunção eréctil podem dedicar-se, só para passar o tempo, caso tenham muito, é à carinhosa massagem do cogumelo. Enquanto o massajam não têm de preocupar-se em dar conta das vidas alheias. É que, sinceramente, ter a courgette murcha já é preocupação suficiente! Eu cá, para não sofrer dissabores, preocupava-me apenas em devolvê-la à vida! Mais nada!

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Último poste sobre IVG


Para mim, é fundamental que, no próximo domingo, a lei relativa à interrupção voluntária da gravidez seja alterada. Espero por isto há 30 anos.
É tão irreal pensar que o aborto diminuirá através da sua criminalização, como afirmar que aumentará com a despenalização. Nem uma nem outra.
As taxas de aborto manter-se-ão iguais, porque quando um filho não é benvindo, por motivos que não são da nossa conta, o desmancho faz-de numa parteira de vão de escada, ou com medicamentos abortivos, ou apanhando o autocarro para Badajoz ou o avião para Londres. Mas aborta-se, e às vezes mal, acabando-se nas urgências dos hospitais, lugar onde pode acontecer as mulheres serem tão assistidas quanto humilhadas pelo pessoal médico e de apoio.
Há dois anos, dei entrada na urgência obstétrica do hospital de Santa Maria com um aborto espontâneo em evolução; fui duramente tratada pelos técnicos, assistida com bastante má vontade, até concluírem não se tratar de sequela de um aborto voluntário. Então, sim, tive direito a um olhar, uma palavra menos fatal. Imagino se aquilo fosse um aborto feito na dona Ermelinda dois dias antes, e que tivesse corrido mal!
Ao longo da minha vida acompanhei amigas, familiares que tiveram de abortar. Não conheço nenhuma mulher, para além de mim e de outra amiga, que não tenha abortado voluntariamente, a certa altura da vida. Recordo-me das histórias de aborto consecutivo que me contaram tias, primas, madrinhas, velhas amigas. Nesses casos, sim, nesse tempo o aborto era uma forma de planeamento familiar. Já se abortou muito em Portugal, de facto. Sobretudo nos tempos em que o aborto era não só gravemente penalizado, como uma tremenda vergonha social. Esses foram tempos de glória para o abortanço.
Quando tinha 20 anos, conhecia alguém que tinha a morada de uma parteira. Nunca lha cheguei a pedir, mas havia um certo sossego no facto de saber que se acontecesse, por acidente, saberia onde ir. Até aos 27 anos, se tivesse engravidado, teria abortado. Depois, a vida mudou.
Claro que ninguém tem o direito de interferir com a decisão de querer ou não ter um filho. Ter um filho é uma coisa permanente, é uma coisa séria. É muito pior que uma hipoteca, caramba, e ninguém obriga ninguém a uma hipoteca só porque foi visitar um andar-modelo!
O aborto só se tem mantido punível, na nossa sociedade, porque se trata das escolhas de vida de uma mulher, sempre, em última instância, mesmo quando forma casal com um homem. E as escolhas voluntárias das mulheres têm precisado de ser mediadas, controladas. Se a gravidez fosse uma coisa de homens, a IVG seria assunto tratado doutra forma.
Não tenho a vitória do "sim" como certa. Ocorre-me que, em Portugal, a taxa de iliteracia chega quase aos 60 por cento, e que os argumentos do "não" penetram facilmente nessa faixa. Ontem, ouvi uma senhora da Opus Dei, ou de uma organização qualquer da mesma índole, afirmar que a vitória do sim impunha às mulheres enormes restrições, compelindo-as ao aborto. Ouço isto e fico boquiaberta, mas quem não tenha capacidade para operacionalizar informação, e sabemos como são as coisas em Portugal, por isso é que a ditadura continua vigente, toma-o como realidade; compra a mensagem.
Este é o meu último poste sobre IVG. Era um assunto sobre o qual pensava que não iria escrever no blogue. Considerava já ter dito tudo, pensado tudo sobre o assunto. Afinal, escrevi bastante.

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

Como me puseram a andar da igreja em 5 minutos


Tenho uma igreja toda em pedra rústica, ocre, tal e qual uma casa de turismo de habitação, mesmo à beirinha do meu prédio. Por fora, ninguém dá um tostão pelo edifício, mas o interior é sóbrio, equilibrado, de muito bom gosto. Embora seja um lugar bonito, nunca lá vou. Tantas vezes me apeteceria sentar num local sossegado, e rezar, mas a igreja está quase sempre fechada, e não posso compreender que uma igreja feche a maior parte do dia.
Um dia destes, regressando do trabalho, encontrei-a de portas abertas, e considerei ser boa altura para uma Avé-Maria e um Pai-Nosso, como pagamento de uma promessa.
A maior parte dos leitores considera-me uma herege, uma céptica, mas eu não sinto qualquer necessidade de corresponder a um perfil. Detestaria sentir-me amarrada a uma expectativa de mim. Consigo perfeitamente viver acumulada dos meus paradoxos pessoais, encontrar-lhes sentido.
A minha relação com o catolicismo é má, muito má. Sinto-me como os padres excomungados, os malditos, que continuam a exercer o sacerdócio por convicção, mas à sua maneira. Eu também nego os preceitos, e me religo à minha maneira, com as minhas regras. Contudo, embora conheça invocações esotéricas, e mantras budistas, a minha necessidade de oração satisfaz-se com as que aprendi na catequese, e, sobretudo, com a minha mãe. Rezar dessa forma, tal como lhe ouvi, e ainda ouço, pacifica-me, devolve-me a mim.
Mas eis o que quero relatar: ao entrar na igreja, rezavam o terço no altar secundário, exactamente o de Nossa Senhora. Pensei que poderia juntar-me. Estava com tempo. Rezavam avé-marias. Nunca, antes, que me lembre, participara numa reza ritualística do terço, pelo que não sabia fazer-se uma invocação à Virgem entre cada sequência de preces. Na primeira dessas invocações, ouço a oficiante dizer, serena, angelicamente, "pedimos-te, Senhora, que leves todas as mulheres que caíram na tentação de realizar aborto, a carregarem tal peso nas suas consciências para o resto das suas vidas, arrependendo-se por tê-lo feito, e que estas mulheres sofram e chorem o seu pecado perante Deus e o teu exemplo materno; pedimos-te também, Senhora, pelas pobres crianças abortadas que nunca puderam juntar-se a nós, etc."
Mordi os lábios. Senti-me muito zangada! Bolas, não esperava ouvir aquilo. Não queria ouvir aquilo, participar naquilo. Admitiria que a Igreja desenvolvesse um discurso construtivo a favor do que considera serem os bons valores, a centelha divina da maternidade, o que quisessem, mas promoverem a condenação das mulheres que abortaram, ajoujando-lhes o peso da culpa, da culpa, da culpa, a vida inteira, e durante o terço?! Que Igreja! Que País! Que gentinha!
Antes de sair, porque saí, observei os fiéis: cerca de trinta homens e mulheres acima dos 50 e tal anos. A maldição que acabara de ser lançada deveria atingir cerca de dois terços dos presentes, os quais, como qualquer católico romano convicto, que votará "não", no domingo, já abortaram, ou mandaram abortar. Paradoxalmente, a mim, aquela que se incomodou, que se zangou, a que vota sim, a maldição não atingia. E eu sinto que há nisto muita ironia!

terça-feira, fevereiro 06, 2007

Isto é mesmo uma dúvida

Há por ai alguém bom a Linguística, até basta ser razoável, que possa explicar-me por que motivo cera se escreve cera, mesa se escreve mesa e pêra se escreve com acento circunflexo?
Urgente. Por favor. Obrigada.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Professor Martelo não dá Friskies a Gato Fedorento



Quem viu ontem o Gato Fedorento, e apreciou as rábulas a solo de Ricardo Araújo Pereira, funcionando como separador das restantes, e rematando-as ao estilo Diácono Remédios, compreendeu perfeitamente que o Professor Martelo não gostou da caricatura do Assim Não, soberbamente interpretada pelo mesmo humorista, na semana anterior; ficou claro que Martelo mexeu cordelinhos para pressionar o programa. Felizmente, os miúdos não estão à venda.
Ricardo Araújo Pereira interpretou, nas fronteiras do sarcasmo, o perfeito falso democrata: o fulano conhecido, vaidoso, poderoso, falso, que manipula o discurso da liberdade de expressão para exercer a sua tirania de pacote, sorrindo enquanto a impõe. Ricardo Araújo Pereira interpretou "a cobra" com um ritmo impressionante, quase a doer, e todos pudemos reconhecê-la, tal como manda fazer, mostrando os dentinhos cínicos, os olhinhos gelados. Vimo-la. Estava ali inteirinha. Foi brilhante.
Desde os tempos de glória de Herman José que a televisão portuguesa não via um bicho de humor com o talento original deste Estica, e o do outro, o que faz os papéis do Bucha.
O Herman não está morto, mas anda perdido na exacta medida em que se vendeu. Isso é insuportável num humorista.

domingo, fevereiro 04, 2007

«Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma»

Naomi Campbell

Se aos 18 anos o Destino me tivesse apanhado a uma esquina e, para me torturar, me apresentasse o futuro dos 25 anos seguintes, ter-lhe-ia dito “desculpa, querido, vai vender esse peixe a outro cliente qualquer; não é em nada disso que estou a pensar; quero uma vida na qual possa ter, simultaneamente, paz, sossego e bastas aventuras. Quero uma vida como as dos romances. Não me importo de passar provações, desde que me consigas um final feliz. Quero ser a Jane Eyre ou a Maria Eduarda ou a Madame Bovary, mas que no final seja eu a ganhar. Que a última frase seja... e depois foi feliz, todos os dias, para sempre. Amén”.
Não, eu não queria dois terços do que vim a ter. Não fazia parte dos meus planos. Se o Destino me tivesse mostrado um filme do meu futuro, afirmando "vai ser isto", eu havia de lhe dizer, "vai-te lixar! Estás a brincar! Essa não sou eu, e isso não me vai acontecer. Não sou parva!"
Pois não!

Mas o Destino não me apanhou a uma esquina aos 18 anos, e não me disse nada; foi-me cercando pelos diversos pontos do mapa-múndi, sempre calado, gozando o pratinho, deixando-me meter a pata na poça e sair pelos meus meios, muito cínico, o que, na verdade, tanto se me dá; esta vida, a que tive até aqui, garanto, eu não lha teria comprado, nunca.
Nunca gostamos da vida que temos. Devia ser sempre outra. Por exemplo, queríamos ter uma vida sentimental tão rica como a de fulana, isso sim; uma profissão tão estimulante como a sicrana, porque aquilo não é trabalho, é diversão, e ainda lhe pagam; e uma saúde e aspecto físico tão perfeitos como o de beltrana. O que somos, a vida que levamos, seria sempre a última que escolheríamos, se no-la facultassem por catálogo.

Oh, eu lamento-me todos os dias. Oh, para mim está tudo sempre mal. Não quero fazer isto. Vou contrariada resolver aquilo. Queria sair, mas tenho de ficar em casa. Queria ficar em casa, mas tenho de sair. O dinheiro não me chega para nada. Queria viajar, mas não tenho companhia. Tenho companhia que não quer viajar. Gosto de alguém que não gosta de mim. Alguém gosta de mim, mas eu não correspondo.

Tenho dias em que me arrasto; tenho outros em que abro os olhos, olho para trás, e compreendo que estou anos-luz à frente da Jane Eyre, da Maria Eduarda ou da Madame Bovary. Como foram monótonas as suas vidas! O que elas haviam de suspirar pela minha! O que elas não dariam pelos meus últimos 25 anos de imprevistos, afundanços e desenrascanços. Alegrias, choros, depressões, maravilhamentos. Que vidinhas chatas, as suas! Como é que deram heroínas de romances?!
Nos dias em que olho para a frente, mal posso esperar pelos próximos 25 anos. Hei-de lamentar-me diariamente, que não haja dúvidas; hei-de querer ser outra a cada hora; hei-de maldizer o meu destino, chatear toda a gente, irritar-me, mandar berros, dizer mal dos homens - oh, que bom esta parte! - dizer muito mal dos homens, essa raça toda igual, sem excepções; hei-de ter dias em que morri, ou quererei morrer, e alguém terá de vir aturar-me, pôr-me em pé, eu já sei; e hei-de ser mal agradecida, porque a quem nos salva nunca se agradece que baste; mas, porra, estou mesmo a ver: isto há-de ser outro quarto de século do caraças!

sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Petróleo para o fogareiro, e, e...

Está bem que temos os salários mais baixos da média europeia, mas, em compensação, temos a terceira gasolina mais cara da Europa, e esse pódio ninguém nos tira!

Esclarecimento aos nãos

Olá, bom dia, é só para informar os partidários da campanha do não, os que em Évora andam a vandalizar as faixas do sim junto à rotunda das portas de Avis, que tal acção pode ser considerada aborto.
Muito obrigada.

Procriação medicamente assistida para todos

Em Portugal precisamos de aumentar a natalidade em 50 mil crianças por ano, e este é um dos argumentos do não no referendo à despenalização da IVG, motivo pelo qual, o líder do CDS-PP propôs que o governo aprovasse medidas de apoio à vida.
Considerando que o governo não está a pensar aumentar o salário dos portugueses, nem nada que se pareça, suponho que isto seja uma alusão lógica às técnicas de procriação medicamente assistida, que deverão ser facultadas, gratuitamente, a todas as cidadãs e cidadãos que desejem ser pais e/ou mães, quer sejam casados ou solteiros, heterossexuais ou homossexuais. Solteiros, homossexuais e lésbicas, etc., não só pagam impostos, como, embora custe muito a acreditar, são pessoas iguais a todas as outras, tipo gente a sério, portanto, por que raio haveriam de ser distinguidos em relação a outros cidadãos? Não teria qualquer sentido!
Se for isto, até me filio no CDS-PP.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

Concepção sem sexo


Ainda incomoda muito, isto das mulheres desatarem a tomar decisões inovadoras, com o seu corpo e dinheiro, desafiando as regras sociais, e até as do que se considera razoável em ciência, sem pedirem autorização a ninguém. Isto de não se encostarem a um canto, de não se conformarem com a telenovela, de não abdicarem de uma vida porque não arranjaram um homem, de já não serem as tradicionais solteironas sem remissão, de se estarem nas tintas para a relação conjugal, de conceberem filhos sem sexo, sem um pai... incomoda, incomoda muito.
Vejamos o caso da espanhola, mãe aos 67 anos, com auxílio da reprodução medicamente assistida. Alegam que foi um perigo, que a senhora é velha, que daqui a dez anos pode deixar dois órfãos. Se foi um perigo, foi-o para ela! Se as crianças não viessem a nascer, o mundo continuaria igual, já que a sua existência depende exclusivamente da determinação desta mãe, do perigo que quis correr. Quem se incomoda se um homem for pai aos 67 anos? Ou aos 70? Um pai de 60 anos, e uma mãe de 20, podem sofrer acidentes e deixar filhos órfãos. Em Portugal acontece muito. Mas o que pode correr mal conta mais quando uma mulher está sozinha. Se houver um homem, mesmo que à beira do ataque cardíaco, a questão já não se põe. Os homens, se ficam viúvos, e com filhos, arranjam outra mulher; ou arranjam uma prima, uma cunhada, uma perceptora como no Música no Coração, que bonito! Mas uma mulher que decide ser mãe aos 67 anos, porque adiou a sua própria vida durante a vida inteira é egoísta. Cometeu um acto censurável. Tudo muda porque é mulher.
Eu acho que fez muito bem! Tem, logicamente, todo o direito do mundo a escolher o rumo da sua vida, inclusive o de ter os seus filhos, seja qual for a sua idade. Vai criá-los, como os criaria se fossem seus netos, e a filha tivesse ido trabalhar para o Algarve ou para o Norte ou para Espanha, e nunca tivesse tempo para vir a casa, o que em Portugal também acontece muito.
Que maravilha! Reformada e agora com dois bebés! E sem sexo, caramba; que concepção tão limpinha!
As mulheres desejaram isto desde que se conhecem: não precisarem de aturar um homem para serem mães. Finalmente, o mundo perfeito!

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...