domingo, abril 29, 2007

Jogo das damas


O teu amor era grande. Tudo o que era meu te prendia a atenção. Tudo o que me interessava te interessava, sobretudo as minhas amigas, as do coração.

As beatas da minha rua


Ouço sem querer as conversas das beatas que passam por mim a caminho da missa das onze, sozinhas ou em grupo, ruminando, enojando-se das cadelas, tendo muito medo que lhes esfacelem a cara e uma orelha; "os cães que se caguem" ou "merda para os cães" dizem, comentam com as outras, muito indignadas, todas enfarpeladas com fato de saia e casaco, e sapato de bico; e continuam devassando a vida da Almerinda, que é uma porca, e a da Angelina, por quem fizeram tudo e nada receberam, e o Eduardo, que não larga o vício, e os filhos já vão pelo mesmo caminho; os costumes das próprias famílias, uma chusma de mal agradecidos. Tudo está mal, tudo é mau e sujo e vicioso excepto o senhor padre, tão lavadinho, e o corpo de Cristo que se regalam de receber no seu.
Dou comigo a pensar que Deus Nosso Senhor havia de preferir que as beatas não frequentassem à missa, e que fossem umas reais porcas, umas incorrigíveis ingratas, umas viciadas e viciosas sem remissão, enfim, umas perdidas, como aquelas em cuja casaca vão tesourando a caminho da missa. Deus haveria de preferir que fossem cadelas como as minhas, que tanto as enojam. Se fossem cadelas, Deus abençoá-las-ia mesmo sem oração, por não haver nelas mancha de pecado. Haviam de roubar uns ossos do caixote do lixo, mijar no tapete de vez em quando, havia de ser uma luta para as meter na banheira, tirando isso, umas santas!
Mas o pior seria o senhor padre, que não aceitaria abençoar cães, nem pregar para eles nem dar-lhes a comunhão, por não estar habituado a pastorear rebanho tão puro. Contudo, se o senhor padre pregasse para os cães, oh, haveria de pregar muito mais certo!

quinta-feira, abril 26, 2007

A minha contribuição para as denúncias na Função Pública


Exmo. Senhor Ministro Alberto Costa,

venho por esta via prestar a minha desinteressada colaboração à nova e oportuna medida justamente pensada por V. Exa. com vista à promoção de uma cultura de legalidade e anti-corrupção. A partir de hoje, manter-me-ei sempre vigilante para que outros não retirem vantagens directas ou indirectas das funções que exercem enquanto servidores do Estado. Cabe-me, por isso, informar V. Exa do que se diz à boca larga, nos nossos serviços, sobre o colega José Socrátes; consta que o referido funcionário parece ter manipulado dados relativos às suas habilitações académicas, o que poderá configurar uma situação de desonestidade incompatível com o perfil de um funcionário público. Esta situação acaso merecerá, de V. Exa., a atenção de um processo de averiguações.
Igualmente, aproveito para informar que ouvi a funcionária Maria José Pechincha, do 3º andar, secção de Papeladas Inúteis, dizer à colega Vitorina Nesga que lhe caiu o rolo do papel higiénico na sanita, o qual teve de substituir por outro novinho em folha. Ora, um rolo de papel higiénico custa 50 cêntimos, portanto, a colega Pechincha parece gostar de desperdiçar. Com se não bastassem os 10 minutos já perdidos na casa-de-banho pela funcionária Pechincha, gastou outros 3 relatando o episódio à funcionária Nesga, a qual, ao ter um ataque de riso em horário de expediente, deixou cair uma folha de papel A4, branquinho, no chão. De seguida, levantou-se para ir receber um fax, e pisou-a sem contemplações. Uma folha de papel A4 inteira e branquinha! O zelo é muito lindo e cai bem seja a quem for, senhor ministro, que bem haja!
Esperando que as minhas informações possam bem servir os dignos propósitos de V. Exa., subscrevo-me,

Sua

Isabela

quarta-feira, abril 25, 2007

33 anos de Abril I

El Roto


Como expressar num voto tudo o que penso?!

33 anos de Abril II



Antigamente, não tínhamos nada. Agora, temos carro, vivenda, e uma dívida de cem milhões.

33 anos de Abril III



Queremos estabelecer as condições laborais daqueles que estabelecem as nossas.

33 anos de Abril IV



Não podemos oferecer-te um trabalho de acordo com as tuas habilitações, mas podemos oferecer-te um de acordo com a cor da tua pele.

33 anos de Abril V

El Roto


Numa economia verdadeiramente liberal, pagar ou não os salários, deveria ser opcional.

33 anos de Abril VI



Dizer a verdade é um acto criativo supervanguardista.

33 anos de Abril VII



A luz natural é pouco inteligente: ilumina todos por igual.

33 anos de Abril VIII

El Roto


Está para quando a moderação salarial dos banqueiros?

33 anos de Abril IX



Como terão conseguido que este frango saiba a porco alimentado com farinha de peixe contaminado por detergentes?

terça-feira, abril 24, 2007

Grândola, vila sem serviço de urgência

O povo é quem menos ordena, dentro de ti, ó cidade!

Corpo às avessas

Por que motivo me sinto um saco velho nos dias em que me arranjo para parecer bem, e naqueles em que não me arranjo, porque não preciso parecer bonita para ninguém, acho que não estou mal de todo?

segunda-feira, abril 23, 2007

O AVC que Eusébio não sofreu


Eusébio sentiu tonturas na madrugada de sábado, tendo-se deslocado a um hospital privado onde foi imediatamente examinado. A situação justificava internamento seguido de operação, a qual teve hoje lugar, com sucesso.
Fico feliz por saber que um cidadão foi correctamente assistido, e alvo de intervenção cirúrgica, num curtíssimo espaço de tempo. Eis um exemplo de excelente acção médica. Intervindo precocemente, podem evitar-se problemas graves e incapacitantes. Portanto, neste caso foi possível tratar o que frequentemente já nem é remediável.
Proponho, agora, um elementar exercício de cálculo: quantos AVC's viria a ter o Eusébio se ganhasse 800 euros, não tivesse seguro de saúde, não parecesse Eusébio, e tivesse recorrido à urgência do hospital da sua área?

Compliquemos mais: tratando-se de uma vulgar tontura, que o cidadão comum não tem a obrigação de associar a problemas graves de saúde, imaginemos que Eusébio, que não se pareceria com o Eusébio, marcaria consulta no médico de família para daqui a 2 ou 3 semanas, o qual lhe haveria de passar uma guia para realização de electrocardiograma e análises - mas só algumas, porque os médicos têm plafond de exames, tal como os profs, de fotocópias de fichas. Os resultados haveria Eusébio de os mostrar ao respectivo clínico, dentro de 1 mês, 1 mês e picos, para que este, esperamos nós!, considerasse passar-lhe a necessária credencial de consulta externa no hospital, a qual lhe seria marcada, com carácter de urgência, ou seja, para daqui a 5, 10 meses, talvez mesmo um ano. Ou dois.
Quantos AVC's é que Eusébio teria tempo de sofrer?

domingo, abril 22, 2007

Orgulhosamente doentios

O líder de um pequeno partido sem importância, que ultimamente tem recebido muita publicidade gratuita, alega nada ter a ver com a ideologia nazi defendida pela facção portuguesa de cabeças rapadas que, por acaso, lhe pagou o outdoor anti-imigração afixado no Marquês de Pombal, em Lisboa.

sábado, abril 21, 2007

Polvo à portuguesa

Agora vamos jogar um jogo. Tu fazes-me um favor e puxas-me lustro. A seguir, eu menciono-te em público. Depois, tu agradeces-me em privado. Para te provar o meu agrado, refiro o teu nome a um ex-colega que demonstra interesse em adquirir serviços para os quais revelas aptidão. Tu convidas-me para um fim-de-semana em Torremolinos, e agradeces-me, apontando o meu nome a um familiar da tua mulher, o qual me poderá indicar para um alto cargo cujo desempenho solucionará a tua chatice, há meses em banho-maria. Agradeço-te, fazendo-te chegar o contacto de um empresário casado com a irmã do meu cunhado, a qual trabalha no teu departamento desde que fiz o favor de te conseguir o subsídio pelo qual lutavas, como tantos outros, em pé de igualdade, o que, considerando a nossa especial amizade, era injusto.

sexta-feira, abril 20, 2007

Eles comem tudo e não deixam nada

Coitado do senhor primeiro-ministro! Os exames ou trabalhos de licenciatura foram-lhe todos destruídos pela universidade sem quaisquer escrúpulos. Como se não bastasse, os serviços parlamentares deram sumiço aos documentos originais constantes do seu registo biográfico. Desapareceu tudo. Kaput! Que azar! Que perseguição maldita! Que coincidência fatal!
Espanta-me a falta de respeito com que neste país se tratam documentos relativos a um Secretário de Estado, a um deputado. Aposto que os meus registos profissinais, exames e outros, porcarias que não interessam ao Menino Jesus, estarão a criar bolor em arquivo morto, algures. Realmente, não há como ser-se um cidadão vulgar, e cumpridor, sem papel timbrado, para que a nossa inútil memória escrita perdure através dos séculos. Já os dados referentes a indivíduos com altos cargos em responsabilidade e honra, os quais interessaria conservar para efeitos biográficos, e elaboração da futura história económica e política, desaparecem sem rasto, sistematicamente. Corre-se o risco de nunca se vir a saber a verdade sobre o esforçado percurso de tão insignes personalidades.

quinta-feira, abril 19, 2007

A escola da vida (eterna)

Neste caso, descansou-se ao domingo.

Rituais de cortejamento do macho português


O cortejamento ritual do macho da classe média costuma incluir três frases-chave, das quais se serve para nada dizer.
Para fins de memória futura, e usufruto alheio, proponho-me interpretá-las:

1ª - Sou amigo do meu amigo.
Tradução: gosto de estar com os outros gajos no café vendo futebol no plasma gigante, emborcando bejecas e roendo tremoço, e por acaso costumo chegar tarde a casa, bem como fétido e bêbedo.

2ª - O meu lema é vive e deixa viver.
Tradução: trabalha, não faças ondas, não me andes a ler as mensagens do telemóvel, e muito menos me perguntes de quem são as que vêm assinadas pela "tua bebé".

3ª - Vale a pena?! Tudo vale a pena, se a alma não é pequena!
(Sugestiva frase de Camões, poeta zarolho, que viveu no século passado, e que também escreveu aquele outro verso muito lindo, o eu quero amar, amar perdidamente).
Tradução: não interessa se a gente se entende, desde que estejas caladinha e não negues a foda curta e miserável, única acessível às minhas torpes capacidades inatas.

quarta-feira, abril 18, 2007

Do pêlo



A calvície deu em afectar mulheres bastante jovens. É o stress. O fast-food. O raio das hormonas. Os homens deste milénio, para esconder a calvície, rapam o cocoruto sem dó, e fica-lhes bem, mas às mulheres está proíbida a máquina zero. Um dia destes, Britney Spears rapou simbolicamente a cabecita de vento, e saiu, pelo mundo fora, em tudo o que era revista do coração.
A cultura decidiu que a falta de pêlo é agradável, excepto na cabeça. Na cabeça, o pêlo é decorativo, mas situado em qualquer outro espaço da superfície corporal, desleixo.
Na cabeça, tónicos capilares activadores do folículos; no buço, retardadores ao crescimento da bigodaça.
O que eu gostava de nos ver admirar, uns nos outros, a careca, tal como o cabelo: "o teu crânio é tão brilhante. Que hidratante aplicas?". Ou, "ai que inveja, as tuas entradas estão maiores do que as minhas!". E a pelunça das pernas! "Que bela pelagem! Esse louro-acinzentado é mesmo teu?!" Ainda hei-de ouvir um homem dizer "amei-a por causa do buço: nunca tinha visto uma mulher com um buço tão bem desenhado!"
Não é por nada, mas o trabalho que se poupava! O decréscimo em preocupação seria inversamente equivalente ao acréscimo em dinheiro!
Um conhecido meu, muito jovem, confessando-se sobre possíveis namoradas, explicou-me, "estava tipo interessado nela, estás a ver, mas, no Verão passado, combinámos ir à piscina; ela levantou os braços para me agarrar, assim, olha, e, argh!, reparei que não tinha a depilação bem feita nas axilas! Viam-se um pêlos espetados. Nunca mais fui capaz. Perdi o interesse!"
Só espero que lhe saia uma muito rapadinha, mas, afinal, com pêlos até à língua.
Ou um, eu sei lá!, com o corpinho todo besuntado, muito brilhante de óleo!

segunda-feira, abril 16, 2007

De Fornos de Algodres para Miami na maior das calmas


Desde que a vítima não seja eu, acho piada aos ladrões. Qualquer aventureiro disposto a assaltar entidades abastadas, sobretudo as que conseguiram as respectivas fortunas roubando e explorando, excita a minha simpatia, satisfazendo o meu mais secreto desejo de justiça e vingança.
Alguns ladrões fascinam-me. Admiro a coragem do golpe, a inteligência dos planos. A arte, mais livre que a ciência e a vida quotidiana, tem explorado esta tendência emocional para valorizar aquele que, roubando, equilibra ilegalmente a balança do muito e do pouco. Gosto de ladrões de jóias e de bancos, em grande, criativos, que estudam os golpes, que delineiam planos ao milímetro, escapando à segurança máxima. Gosto de ladrões com sorte. Que artistas!
Noutra ordem de importância, acho graça aos que assaltam bancos com pistolas de esguicho de água, arriscando-se incompreensivelmente. Tal capacidade de se atirarem para a frente, parando só quando dói, maravilha-me, diverte-me.
Inversamente, merece-me desprezo a gatunagem encoberta dos viciados, caloteiros e corruptos - escroquezitos impotentes, sem nobreza nem arte nem circo. Ladroagem desesperada e sem brio.
Não será esse o caso de Paulo Almeida, que se tornou, há semanas, um herói pícaro português. Paulo saiu de Fornos de Algodres, apanhou voo para os Estados Unidos, e, no dia seguinte, com bigode aparado e serviço roaming activado, assaltava um banco em Miami, na maior das calmas, sem armas, conhecedor de duas únicas expressões em língua inglesa: cámone e tanquiu.
Eu gostava que Paulinho fosse um ladrão a sério. Mas não me parece. Paulinho foi enganado. Que pena! Assaltar um banco na América seria um sonho!

domingo, abril 15, 2007

Dúvidas que são já certezas


Ninguém, nem mesmo a oposição, está interessado na queda do governo. É essa singela razão que garante o primeiro-ministro, saltando sobre a sua credibilidade justamente afectada. Os portugueses podem manifestar tendência para estimar e respeitar ditadorzinhos de loiça, mas dificilmente engolem contradições.
O exame do primeiro-ministro na RTP, quarta-feira passada, foi relativamente fácil. Os examinadores mostraram-se mais nervosos que o examinando: claramente intimidados. Suspirei pela Margarida Marante dos velhos tempos. Margarida Marante descarnaria qualquer rei que já andasse nu!
O primeiro-ministro, compreensivelmente, levava a lição decorada, bem treinada, sobretudo a matéria relativa aos advérbios de negação. Mas argumentar, negando, bastas vezes em exercício de perigosa contradição, não esclarece. Foi exactamente o que aconteceu. Se havia dúvidas, tornaram-se certezas. Lamentavelmente, para o primeiro-ministro, não existe agora justificação para uma segunda entrevista.
Pelo que posso observar, o governo perdeu os "professores", e, cumulativamente, a opinião pública.

domingo, abril 08, 2007

Finalmente, toda a verdade sobre a licenciatura de Aristóteles

Certidão de licenciatura de Aristóteles, onde pode ler-se, e passo a traduzir, "e atesto que Sua Excelência obteve 17 a Filosofia Esforçada, 18 a Análise Socrática, etc., etc.", datado de domingo, tantos do tantos do ano tal.


Aristóteles começou a filosofar muito cedo. Sonhava acabar o curso de Filosofia iniciado na Academia de Atenas, mas não tinha tempo. Vivia enfronhado em discussões com outros filósofos, comissões de Filosofia, eleições para cargos filosóficos, Deus saberia!
Aristóteles tinha desgosto. Embora ganhasse para despesas e desperdícios, não era doutor, e quando alguém o chamava por senhor Aristóteles, assim só, não lhe soava bem.
Numa helénica tarde de domingo, um amigo relativamente chegado lembrou-lhe a recente fundação de uma nova escola de Filosofia, ansiosa por reconhecimento. "O director é meu amigo, pá, e foi colega do meu pai, vais lá falar com ele: o gajo resolve-te isso."

Na segunda, logo de manhã, Aristóteles bateu à porta do director da Nova Escola:
- Senhor Professor, venho aqui por sugestão de...
- Senhor Aristóteles, não diga nada; ora sente-se, meu amigo, já me telefonaram, já me puseram ao corrente da sua situação. Que aborrecimento, realmente! Mas isto são só pró-formas, não se amofine. Com os miúdos é outra coisa: não têm experiência! Agora o senhor, uma pessoa com competências ganhas na labuta filosófica... não se justifica! Não imagina a estima que lhe tenho! Devo dizer-lhe, senhor Aristóteles, que para a nossa Escola é uma honra tê-lo cá. Pois, muito bem, vejamos, mostre-me a folhinha que aí traz... isto são pró-formas, já se sabe... Ah, mas já aqui tem um ror de cadeiras completas! E notas baixas, coitado! O que eles pedem na Academia! Que exagero! Para formar um Filósofo! Pois, muito bem, vejamos, isto resolve-se com umas dez... ora deixe cá ver... sete... bem, mais cinco cadeiras, seja. Uma delas há-de ser Chinês Técnico, que é do meu pelouro. O Chinês faz falta por causa da bibliografia. O Senhor Aristóteles fala chinês? Ah, óptimo, claro que isto é só um pró-forma, mas, se já fala, ajuda muito. As restantes, assim a olho, deixe cá ver o que hei-de dar-lhe, salvo seja: Filosofias Especiais, Filosofia Esforçada, Análise Socrática... já estudou Sócrates a fundo, senhor Aristóteles? Pode ser complexo, mas não podemos iludir as basezinhas! E o projecto de dissertação, já se sabe! Que lhe parece?! Mas combina depois com o professor que lhe atribuirei. Na verdade, a Nova Escola é recente, e ainda não temos estrutura montada para o seu nível; mas também não é preciso, tudo se arranja, e para o senhor Aristóteles faz-se uma atençãozinha.


Aristóteles manuscrevendo com letra muito grande, e muito espaço entre linhas, uma página inteira de Chinês Técnico, a qual mandaria entregar ao senhor professor para obter aprovação na respectiva cadeira


Aristóteles saiu confiante. No dia seguinte,
haveria de falar com o professor - caso este não se encontrasse a acumular funções noutra escola qualquer - e logo se veria.
Na terça, encontrando o professor designado, Aristóteles pretendeu esclarecer os seus propósitos:
- Caro Professor, vim ter consigo a mando de...
- Oh, Senhor Aristóteles, pois já me informaram... pretende, então, concluir o seu curso na Nova Escola?! Fez muito bem em escolher-nos; não estamos aqui para cortar as pernas a ninguém, como na Academia. Diga-me o que manda o senhor director? Filosofias Especiais, Filosofia Esforçada, Análise Socrática, projecto...
pró-formas! Senhor Aristóteles, o senhor, um Alto Secretário de uma conceituada Associação de Filosofia, acumulando já inúmeros cargos da mesma natureza, encontra-se versado nestes assuntos melhor que qualquer finalista! Coisas primárias para quem se treinou na filosofia da vida, como vossa excelência. O senhor está formadíssimo! Falta-lhe o canudinho, mas não será por entrave meu! A estima que lhe tenho! E não só, veja bem: tenho uma nora recém-formada em Direito que igual estima manifesta por vossa excelência. Ainda no outro dia a rapariga me disse, "o meu sonho era trabalhar na associação do senhor Aristóteles, auxiliando-o a concretizar os seus ideais filosóficos!" Ah, senhor Aristóteles, não quero dar-lhe trabalhos! Veja lá! Sendo assim... muito obrigado! Lá lhe direi! Resolvamos a questão das suas cadeiras: não compliquemos: o senhor Aristóteles terá já lido qualquer coisa sobre Filosofias Especiais? O índice?! ...chega, chega, pois muito bem! E Esforçadas? Já ouviu dizer que em alguns casos é preciso recorrer às Esforçadas?! Ah, já as aplica! Que limpeza, realmente! E, já agora, no que respeita a Análise Socrática... não ignorará que a filosofia de Sócrates praticamente destruiu o ... isso! Mas o que faço eu aqui?! O senhor é já doutor! Para elaborar dissertação é que vai ser pior, não é verdade?! Pois, muito trabalho na associação... compreendo... Façamos assim, senhor Aristóteles, não vale a pena estarmos com burocracias que, no seu caso, só atrapalham. Escreva qualquer coisa em Chinês Técnico, um pró-forma para o senhor director, que logo falaremos sobre a sua situação. Este caso é especial, bem se vê.


Aristóteles trocando impressões com o professor que lhe deu, salvo seja, quatro cadeiras no mesmo ano


Foi assim que, de pró-forma em pró-forma, após duas deslocações à Nova Escola, sete faxes, catorze chamadas telefónicas e três envios do estafeta da associação, Aristóteles, grande filósofo grego, cuja supremacia ideológica se estende aos nossos dias, logrou obter o almejado diploma de Filosofia, vitória que, anos antes, tanto prometera à mamã.

sábado, abril 07, 2007

"A vida é sempre a perder"

Acabei de ver, pela primeira vez, a Liga dos Últimos, na RTPN. Ah, o que eu gosto de futebol e do mundo que circunda a modalidade! E como os compreendo! Não querendo apoucá-los, que não merecem, a liga dos últimos retrata, fielmente, anos a fio da minha existência: não há campo, nem dinheiro, nem apoio, nem tempo para dedicar aos treinos, nem massagista, nem se ganham jogos, logo, não se vêem pontos; não obstante, comparece-se semanalmente, cara e equipamento lavados, cabeça erguida, lastimando, é certo!, mas teimosamente chutando a bola orgulhosa de fracasso em fracasso.


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quinta-feira, abril 05, 2007

Yo no hablo portugués, pero mismo que hablasse...

Noventa cêntimos é o preço de um jornal diário português, num dia útil. Em Espanha, o El País, ou o El Mundo, custam, de segunda a sexta, um euro cada.
O Diário de Notícias vendido em Espanha custa dois euros, mas pelo El País comprado em Portugal damos 1,35 cêntimos.
O salário mínimo português foi este ano fixado nos 416 euros; em Espanha são 526; em Espanha, é baixo, todos concordam, para não falar nos jornais, caríssimos!

Com a Câmara de Lisboa não vamos lá

(clique sobre a imagem, para aumentá-la)

O cartaz dos Gato Fedorento, colocado há 24 horas ao lado do dos fachos, foi mandado retirar pela câmara de Lisboa, por carecer de licença camarária.
Quanto ao dos fachos, é preciso garantir-lhes o exercício da liberdade de expressão. Nada a fazer. Têm licença. Os Gatos é que não, e tal!

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...