quarta-feira, maio 30, 2007

As ordens são para se cumprirem

Uma professora de 44 anos, que se encontrava de baixa médica, em casa, devido a doença grave, morreu ontem, na Nova Zelândia, porque a empresa eléctrica lhe desligou a corrente que alimentava a máquina de respiração artificial, à qual se encontrava ligada, e que era o seu suporte de vida.
A mulher ainda conseguiu avisar o técnico encarregado do corte de energia, mas este estava apenas a cumprir ordens: a factura não tinha sido paga.
Era uma mulher da minha idade, com quatro crianças menores, uma delas de 5 anos.
A vida é para quem possa pagar o ar que respira.
O dinheiro não abre excepções. Come carne viva.

No El País


Façam-no os homens, desde que paguem as mulheres

No Paquistão, um conselho tribal ordenou que a mulher do abusador de uma menina de 8 anos, deveria ser violada pelo pai da criança molestada. Os irmãos do violador ofereceram ao pai queixoso as suas quatro filhas em casamento, mas este não aceitou a proposta.
As mulheres pagam sempre: quer não tenham cão quer tenham sido mordidas.

no El País


Duelo entre Só-Cartos e Filho-da-Putin

Só-Cartos - Eu cá faço sempre jogging em viagens oficiais!
Filho-da-Putin - Eu, em viagens oficiais, corro a meia-maratona, de preferência por zonas com curvas acentuadas e percursos sinuosos.

Só-Cartos - Pisei o solo da baía de Luanda. Paisagem maravilhosa!
Filho-da-Putin - Pisei o solo à volta da Casa Branca até Bush se sentir agoniado.

S-C - Pisei Copacabana. O Brasil parou para me ver.
F-d-P - Pisei Londres até Blair acusar vertigens.

S-C - Pisei o Parque de Beihai, em Pequim, com 10 graus negativos, e iam-me caindo os tim-tins.
F-d-P - Pisei Bona até o presidente alemão me gritar "ok, rendo-me, grande Filho-da-Putin".

S-C - Não se escandalize por ainda não ter tido tempo para descalçar os ténis, mas é que acabei agorinha mesmo de pisar a monumental Praça Vermelha.
F-d-P - Não há problema, eu piso frequentemente todo o povo russo sem que dele ouça um único lamento.
S-C - Ah, que aborrecimento para si, realmente! Eu também piso todos os dias os portugueses, mas, no meu caso, felizmente, eles aplaudem-me de pé e pedem bis.

cartos - dinheiro (galego)


Boas práticas na administração pública

Ontem, o ministro da Agricultura, Florestas e Pesca do Japão suicidou-se na sequência de graves suspeitas relacionadas com dinheiros que terá recebido indevidamente, etc, etc.
Hoje, o ex-director de uma agência ligada ao referido ministério seguiu o mesmo caminho.
Mesmo mantendo grande estranheza relativamente às idiossincrasias da cultura japonesa, considero que há que destacar aqueles hábitos salutares que muito me agradaria ver chegar à politicagem nacional.
O primeiro-ministro, a ministra da Educação, o da Saúde, tal como o da Economia não quererão seguir o exemplo das nações civilizadas?


terça-feira, maio 29, 2007

E Deus criou a gorda

Fotos: Amélia
(clique sobre as imagens para aumentá-las)



No final da rua Domingos Sequeira, em Lisboa, ao subir para Campo de Ourique, existe um outdoor da Clínica Persona que parece ter ficado esquecido da campanha do ano passado. Lê-se, em letras garrafais, "Eles não gostam de celulite"; atenção, trata-se de um portal para outra dimensão.

Se são corajosos, venham comigo. Atravessemos o portal. Do outro lado não há diferenças visíveis. A esquina da Caixa Geral de Depósitos, a do café A Tentadora, os eléctricos tocando, o trânsito difícil. Edifícios, pessoas, objectos; tudo igualzinho. No entanto, reparem, as mesmas coisas não têm o mesmo valor. As quatro fotos que aqui publico fazem ali parte de uma campanha publicitária para um novo perfume Dior. Estão a vê-las nos outros outdoors publicitários deste lado? Reparem, por favor.

As páginas de publicidade da Elle, da Vogue, da Marie Claire encontram-se pejadas de voluptuosas modelos com mais de 70 quilos, símbolos sexuais sem mãos a medir para entrevistas nas quais são obrigadas a explicar que regime seguem para manter curvas avantajadas. As mais sortudas não fazem nada. Tiveram a sorte de nascer assim. "São os genes", explicam. "Tive sorte. O meu pai era gordo. A minha avó era gorda..."





Estas mulheres, que todos desejam, e cujas imagens enchem páginas de blogues dedicados à beleza feminina, sentem-se obrigadas a relativizar o seu sex appeal. Sentem que é demais todo esse fascínio pelos seus corpos. Afirmam sentir-se mulheres normais, como quaisquer outras, que o corpo, afinal, não tem assim tanta importância, e que, "hoje em dia, os padrões de beleza têm tendência a tornar-se mais heterogéneos, neles cabendo, também, certo grau de magreza".

Nesta dimensão, a magreza é um estigma infame e um tabu. O assunto evita-se fora da esfera relacionada com os cuidados de saúde. Pode dizer-se a uma mulher que está mais gorda, "que linda estás, assim gordinha". Nunca, nunca se lembra o emagrecimento. Seria de muito mau gosto afirmar algo como "emagreceste imenso, ultimamente!" Evita-se!

As magras, essa subespécie entre o animal em más condições para abate e o deficiente culpado de o ser, incomoda, desagrada. Há imensas mulheres magras; estão por todo o lado, nas esquinas, nas paragens de autocarro, nos cafés bebendo garrafas de água das Pedras... Há imensas mulheres de 55 quilos descontentes com o seu corpo, sujeitando-se a tratamentos violentos, e caros, para conseguir engordar um pouco, ganhar celulite nas pernas, e gordura na barriga e nas ancas, já que desse objectivo depende a aceitação alheia, e, também, a que as próprias farão do total de si, não havendo outro aspecto a valorizar. Ou se é gorda e atraente ou se é nada; se vale nada. As magras são, obviamente, mulheres bonitas, como as gordas, mas o espelho não lhes devolve aquilo que não foram ensinadas a ver. Não se encontram, não se vêem, não se reconhecem como mulheres. São animais. Vacas escanzeladas.





O mercado do prazer valoriza exclusivamente a mulher gorda. Só os tarados procuram as magras. Diz-se, sobretudo pensa-se, que um homem só arranja uma magra se estiver desesperado. Entre eles, comentam que as magras, enfim, também desenrascam, para além de que são alvos mais fáceis, devido à ausência de auto-estima, e à dificuldade em arranjar parceiro sexual. E pronto, vendo bem as coisas, são mulheres, têm mamas e um buraco ao fundo das pernas, até dois. E quando se está desesperado, caramba...

O corpo feminino, nesta dimensão, continua a vender todo o tipo de produtos: sumos, cuecas, papel higiénico, cremes hidratantes, pneus, jantes, aparelhos de televisão, mas o mercado é cruel na sua selecção. Mulher que pretenda almejar uma carreira como modelo publicitário, ou de moda, como actriz, intérprete musical, apresentadora de televisão ou socialaite, esforça-se por atingir 65 quilos de peso mínimo. Recentemente, uma modelo com 64 quilos e trezentos viu-se impedida de desfilar na Moda Lisboa. Demasiado magra!
O problema da dimensão em que nos encontramos, e de onde espero possamos sair depressa, está em que os cidadãos são, desde crianças, bombardeados com mensagens profundamente negativas relativamente à magreza e à relação das magras com o seu corpo. No cinema, as crianças magras são preguiçosas, lentas, sujas e burras; às mulheres magras e esguias cabem os papéis maus: obsessivas, taradas, histéricas, ridículas, pérfidas; as anti-heroínas. Só as gordas podem almejar papéis de destaque românticos, sensuais, misteriosos, selvagens. A máquina de marketing musical procura candidatas anafadas para constituir as suas girls band. As tunas académicas cantam, até ao enjoo, "A mulher gorda / a mim só me convém /Como posso andar na rua/ sem as banhas de alguém?!" Nenhuma jornalista pensa chegar a pivot de telejornal sem competir com a Alberta Marques Fernandes, esse sensual portento moreno. Num meio no qual só a imagem de uma mulher cheia e redonda satisfaz o receptor, não é de espantar que a magra se veja relegada para uma espécie de gueto que, ao aceitar, acaba por legitimar.





Este problema, na dimensão onde ainda nos encontramos, advém de se ter fixado, durante décadas a fio, um modelo universal de beleza que estigmatiza a verdade: o corpo humano na sua verdade. Tal como um corpo humano é. Vário. Como se, na dimensão à qual pertencemos, e para onde seguiremos rapidamente, se Deus quiser, tivéssemos excluído as ruivas de sardas ou as morenas de cabelo frisado.

Imaginem, agora, caros leitores e leitoras, que na nossa dimensão... e saiamos agora, vamos lá, preparem o salto - Gancho, não se importa de levantar um pouco mais a perna, por favor?!-, cuidado!, três de uma só vez não passam; olhem os eléctricos, não atravessem à maluca... Desculpem... imaginem, agora, que na nossa dimensão reservávamos para as nossas formidáveis gordas, e gordos, claro, o tratamento que as bestas do outro lado guardam para tão belas magricelas?! Impensável, não é? Que coisa mais estúpida, mais sem sentido! Felizmente, estamos deste lado a salvo.

segunda-feira, maio 28, 2007

A Ordem do Alfa e do Beta

Senhora Teodolinda (Venezuela)

As hierarquias sociais poderiam imitar as entradas dos dicionários enciclopédicos: à definição de Teodiceia segue-se, sem apelo, a de Teodolinda, e, só depois, a de teodolito. A ordenação alfabética contém esta justiça implícita, que não é total, apenas razoavelmente equitativa.
Não há muito a dizer sobre o teodolito comum; contudo, o conhecimento básico sobre qualquer vulgaríssima Teodolinda transcende largamente tudo o que possa dizer-se sobre a Teodiceia. A verdade é que não existem Teodolindas vulgares nem iguais. Qualquer Teodolinda encerra diversas e complexas teodiceias, pelo que a sua importância deveria reflectir-se no número de linhas que lhe estão reservadas, seja qual for o papel.

domingo, maio 27, 2007

Palhaços da vida real


Quando era pequena, os palhaços faziam-me rir, porque eram mais inocentes que eu. Caíam, e enganavam-se como as criancinhas. Portavam-se mal. O palhaço pobre desobedecia ao palhaço rico, tentava enganá-lo.
Os palhaços divertiam-me; eram um reduto de pureza mais pura que eu. Mas era teatro, a seguir tiravam os narizes, os chapéus e sapatões rasgados, e voltavam a ser homens iguais ao meu pai, ou a outros. Era mentira. Eu sabia. Era uma mentira que me fazia bem.

Os palhaços que me fazem rir, hoje, são palhaços todos os dias, em público ou em privado. São todos ricos, querem ser mais ricos, sobretudo mais famosos, e detestam o palhaço pobre, o piroso andrajoso, que desprezam. Não imitam a inocência, porque não a conhecem. São apenas ridículos. Gente mutante de gente. Não lhes chamamos palhaços, dizemos "aquele cromo". Rimos, mas é um riso com travo amargo. No fundo, gozamos: e o gozo amarga no fim. Aquilo é a vida, não a mentira que se despe quando acaba o espectáculo, e essa verdade é de um realismo quase insuportável.

sexta-feira, maio 25, 2007

Os lugares mais solitários do mundo

Estão cheios de gente que se empurra, que atravessa gente, que pragueja, que procura um lugar onde possa sentir-se só, e livre.

Série Paradoxos

quinta-feira, maio 24, 2007

Como os artistas plásticos realizam grandes obras

Enquanto Maria Teresa me hace una sopinha de grão-de-bico bem caliente, a ver se acabo aqui los cinzentos-névoa-horror, en el canto inferior izquierdo desta obra-maestra, que versa um grande bombardeamento durante la Guerra Civil.

Como as artistas plásticas realizam grandes obras

Se conseguir ver-me livre do Diogo, despachando, en lo mismo pacote, todo lo narcisismo y obsesiones, fico sem cuecas e peúgas para lavar e coser, acabam-se os cozinhados para apurar, e ainda evito los hijos de las otras, que me hão-de doer. No tenendo que lo aturar, talvez consiga fechar-me no atelier, e concentrar-me en la textura cromática del corazón de sangre que a figura sentada tem golpeado en el pecho.

Doutrina do Ser

Ontem, o meu carro tinha uma peça a chocalhar em baixo.
Hoje, já não tem.

Série Poiesis

quarta-feira, maio 23, 2007

Moldaste o meu corpo em barro

See beauty in every living creature

(clique sobre as fotos para aumentá-las)



















The NU Project
(Pessoas reais. Corpos reais.)

pelo fotógrafo Matt Blum


terça-feira, maio 22, 2007

Da importância do futebol para resolver os problemas nacionais (acto único)

Verdadeiro saco de plástico reutilizável e reciclável do Lidl
(Vale pena fazer zoom deste exemplo de arte pop-urbana - clicando sobre a imagem.)


Prima afastada
- O Porto ganhou!

Isabela - Ah!... (pausa enquanto consulta uma palavra no dicionário) Shear... shear... ca raio....
Mas qual foi o monumento? Estás a falar das Maravilhas do Mundo ou do Património Mundial da UNESCO?

PA - O FCP, carago, o FCP do Pintinho.

I - Ah!!!! O FCP! Ah, carago, dizes bem, isso é uma notícia importante! (pausa enquanto lê demoradamente a entrada relativa a shear no dicionário da Porto Editora) Mas isso de ter ganho... E qual era o outro clube? O Cebolais de Cima?

PA - (rindo) Não tens a televisão à frente, não vês o chinfrim, o FCP ganhou o campeonato!

I - O campeonato... já acabou o campeonato?

PA - Oh!

I - Oh pá, não tou a olhar para a televisão, pá. Pensei que aquilo fosse alguma comemoração da UNICEF no estrangeiro.

PA - (silêncio).

I - Então, mas os gajos não estão já habituados? Quantas vezes é que eles não ganharam? (pausa)
E to pierce, sabes o que é? (rindo) Será Pierce Brosnan?


PA - (virando a cara para não se rir) Não me chateies. Vai ver ao dicionário. Aposto que os meus amigos já foram sair, e eu aqui metida contigo nesta parvaceira.

I - (esticando a orelha direita na direcção da janela) Realmente ouço barulheira lá fora, parece no café. É bom, é bom. Gosto sempre quando o FCP ganha: há menos mulheres a levar porrada a Norte. Já a Sul...

PA - Nunca és capaz de descontrair, de achar piada às coisas que entusiasmam os outros.

I - Quem disse? Vou para a rua toda entusiasmada assim que for criado um movimento insurreccional português, e só não hei-de levar bandeirinhas porque vou precisar das mãos para carregar sacos de plástico do Lidl, abarrotando de coquetailes molotofes, a subir a calçada da Estrela até .... o quê?... não é descontrair? Não é desporto? Mas o FCP não é desporto, é um coio de mafiosos! E os de cá de baixo, igual. Ao menos não te entusiasmava lutar contra os filhos-dum-cabrão que nos roubam todos os dias e se riem na nossa cara?! Havia de ser libertador, hein?! E útil! Se calhar... útil! (pausa)
E claws, sabes o que quer dizer claws?

domingo, maio 20, 2007

Toda a beleza do mundo

Foto: Monika Wiechowska


Raramente a poesia se encontra no poeta, seu inegável construtor, nem sempre habilitado a reconhecê-la acima da sua vaidade e da consciência da obra conseguida.
O poeta não interessa à poesia, que é de todos os bens públicos, o mais impudicamente público e inaprisonável de todos. A poesia circula no oxigénio do corredor da casa, é varrida pelo vento ao final da tarde de domingo, e pelas vassouras das mulheres de limpeza à segunda de manhã.
Por vezes, quase sempre, a poesia não tem forma nem lugar fixo, pelo que é facilmente captada por veios ignorados de certa inocência que passou ali, ou por manchas de pureza invisível que aqui ficaram esquecidas - aqui neste canto onde ninguém chegou.
Os sentidos do contemplador reconhecem a poesia mesmo que não tenham sido educados para a receber, mas a poesia não pertence aos sentidos: passa por eles, que a pulverizam como um perfume à roda do incauto e tolhido receptor.
Paralizado de poesia, o contemplador comove-se, e fecha-se, e por isso germina de si. A poesia encerra toda a beleza do mundo. Não há nada fora dela. Quando nos referimos ao amor como um ideal de harmonia e beleza, quando afirmamos, "ah, eu queria tanto encontrar o amor!", estamos de facto a dizer "ah, eu queria tanto encontrar a poesia!"
A poesia é o todo de tudo. Por isso, não há ainda qualquer linguagem humana para os poemas que as mãos constroem. É cedo.

sábado, maio 19, 2007

O amor é cego



Fico sempre toda babada quando descubro que pessoas importantes, com nome de família, seis ou sete apelidos à vez, se pelam por ler, às escondidas, o blogue da filha do electricista, o tal que reparava os curtos circuitos nas aparelhagens das respectivas mamãs, enquanto os papás laboravam na repartição.
Claro que, no caso do Mexia, a gente aqui já não quer saber nada. E sempre que quisermos, inventamos - única forma de lhe tornar a vida pessoal realmente interessante!
No mínimo, caía bem um obrigadinho, doutor Mexia!

quinta-feira, maio 17, 2007

Meninos de berço


O príncipe Harry já experimentara todas as emoções de risco, mas guardava o sonho de saber-se assassinado, em directo, para todos os telejornais do mundo, filmado por câmaras de vídeo manhosas, numa produção parapornográfica cuidadosamente pensada por um qualquer grupo terrorista eficaz e sanguinário, sediado no coração do deserto iraquiano. Quem é que ainda não sabia como ia acabar o príncipe?!
Finalmente, alguém do exército inglês veio pôr cobro aos caprichos do reizinho de terceira escolha, que tanto desejava brincar às guerras como as pessoas normais, que são tão giras a morrer normalmente, e a fazer falta à família chorosa.
O príncipe ficou desolado. A família real censurou a decisão.
Compreendo a rainha de Inglaterra: está certo que é o netinho, mas
perdia-se pouco. O orçamento de Estado britânico livrava-se de uma despesa avultada, ela, de trabalhos, e, quem lê revistas do coração, de repetitivas notícias sobre tendências nazis, linhas de coca, carros de luxo espatifados, e namoradas indescritivelmente velhas aos 20.
Falta-me toda a paciência para meninos de bercinho de ouro!


Série Venenos Letais

quarta-feira, maio 16, 2007

Comunicado do cão mais famoso do mundo

Hi, my name is Untouchable. Other pets are vacinated and all, like ordinary creatures, but not me, because I'm Mourinho's fur sweetheart.
I belong to a very, veryhandsome and rich man, with a loving family.
If you still don´t know, I inform you that my master is one of the most important men in the world and that he can treinate any team he desires, and if he loses here, he'll win and be rich elsewhere, because he is simply the best, like Tina Turner sings.
Tomorrow, early the morning, you english bastards living in Portugal, be aware of the bells at your doors, because my master already pressionated the portuguese ministry of Allgarve to send men in black to investigate your disgusting pet's vacinating licenses. They mess with my master and who messes with my master risks to iniciate another Mantorras case. At the minimum, understood?!
(Sorry for my doggy english!)



A gente curtia foder, e a seguir humilhar, como sempre fizemos, algumas mulheres tipo inteligentes, mas a gente tamos queimados

É bué chato!

Série venenos letais

terça-feira, maio 15, 2007

Uma pergunta retórica para os meus ex e afins



Não percebo. Há aqui qualquer coisa que me escapa.
Tenho mau feitio, não tenho? Sou obsessiva, não sou? Quero tudo de uma vez e não sei esperar, pois não? Tenho mau acordar e não presto grande coisa na cozinha, não é verdade? Tenho a mania que sei tudo, e que sou boa, mas afinal sei nada e não passo de um zero à esquerda, certo?
Sou um bocado gorda, e por isso não sentem estímulo para meter os microcalippos disfuncionais em pé, não é? Não recebem uma palavra minha desde que o PS está no governo, verdade?
Então, por que carga de água não me largam a caixa de correio electrónico, e não me esquecem de vez, e não arranjam o email doutra gorda qualquer que ainda não lhes conheça os fungos, e não vão dar uma volta ao bilhar grande?

Série Perguntas Retóricas

Os actos comunicativos das pessoas finas


Na sua coluna de opinião, no Público de sábado passado, Pedro Mexia manifesta-se contra a exclamação. O correspondente sinal gráfico, escreve o cronista, é espalhafatoso, imita o desabafo juvenil, tem falta de subtileza, de ambiguidade, de criatividade, é inestético e serve só inábeis e pobres de espírito. Enfim, não passa de "foguetório carnavalesco".
Finalmente, no panorama das grandes letras, surge alguém com coragem - eu até ia a dizer com tomates! - para arrumar o ponto de exclamação no seu devido lugar.
É verdade, sim senhor: uma pessoa fina não exclama nem faz espalhafato: exprime-se monocordica e letalmente até ao juízo final do acto comunicativo. Uma pessoa fina não entoa, não grita. No máximo, esboça um disfarçado trejeito facial de prazer ou dor, ou melhor, de satisfação ou insatisfação.
Conheci muita gente fina que sempre me censurou, e com veemência, o ponto de exclamação, e também a falta de criadagem que me levasse os canídeos à rua, e lhes apanhasse as poias quentes com os sacos de plástico do Sanecan.
É incomodativo. O ponto de exclamação.
O raio do sinal não tem controlo algum: emociona-se e cresce sozinho. O raio do sinal mantém-se direito e não verga. O raio do sinal termina com firmeza os actos expressivos que inicia. Isto é muito mais do que a auto-estima das pessoas finas - eu até ia a dizer do Pedro Mexia! - pode suportar.

Série Venenos Letais


segunda-feira, maio 14, 2007

Acreditar na Senhora é isto



Um velho amigo garantiu-me que a Irmã Lúcia era uma dissimulada. Que forjara todo o culto mariano. Que as pessoas acreditam numa farsa. Insultou-a sem piedade. Não questionei a farsa, mas recordando o bestial queixo largo da pastora, respondi-lhe que Lúcia não me parecia ter inteligência para tanto.
Fizemos uma aposta. Eu deveria ler um certo livro sobre as memórias de Lúcia. Assim fiz, comprei na FNAC uma 11ª edição das Memórias da Irmã Lúcia, editado pelo Secretariado dos Pastorinhos em Fevereiro de 2006, e li tudo.
Isto aconteceu há um par de meses.


O meu pai nasceu prematuro, em 1924. Correndo o risco de morrer nos primeiros dias de vida, baptizaram-no à pressa na igreja matriz das Caldas da Rainha, tomando como padrinho o pároco que realizou a cerimónia, e, por madrinha, a Senhora de Fátima. Este facto permite-me confirmar que a fama da Senhora de Fátima tinha crescido a um ponto em que, sete anos após o seu aparecimento, apadrinhava baptismos de crianças cuja vida fraquejava.

Graças à sua madrinha, pelo menos ele o cria, o meu pai tornou-se forte, inteligente, cheio de vida, e, se exceptuarmos uma ou outra coisita duvidosa do ponto de vista do comportamento social, de que já aqui falei, sobretudo nos textos sobre África, foi um homem exemplar.
Toda a sua vida foi devoto a Nossa Senhora, deslocando-se a Fátima cada vez que vinha a Portugal. Se a vida lhe corria bem, a madrinha protegia-o; se lhe corria mal, a madrinha castigava-o de um qualquer pecado que deveria expiar em Fátima. Sempre lhe chamou a sua madrinha.
Quando o meu pai morreu, há seis anos, fui eu que lhe fechei na mão fria uma imagem muito bonita da Senhora, que a minha mãe tinha em casa, na mesa-de-cabeceira. "Para que ela o proteja", disse-me. Não questionei - eu nunca questionei a fé dos meus pais, mesmo quando recusei participar - e lembro-me de lha ter querido fechar na mão direita, que já não fechava. Apertei-lhe a mão grande e tisnada à volta da figura, com a minha, mas os dedos não se dobraram. A senhora não ficou, pois, totalmente encerrada no corpo do meu pai, como eu quis. Poderia ter fugido, se quisesse. Eu não sei se a Senhora existe, mas quis que algo, alguém protegesse o meu pai para sempre, já que eu não poderia fazê-lo mais - e fi-lo sempre mal.
Acreditar na Senhora é isto.


Ao longo da minha vida, e dos meus sucessivos períodos de fervor ou crise espiritual, tenho-me interrogado sobre os múltiplos segredos que envolvem os acontecimentos de Fátima, assunto pelo qual sou fascinada. A revelação dos segredos não explica o fenómeno. Adensa-o.
Não posso esconder que, embora esteja disposta a ouvir e considerar todas as teorias, estou convencida que, em 1917, aconteceu, de facto, naquela zona de Fátima, situada no triângulo da Bermudas português (Tomar-Fátima-Ourém), um fenómeno de natureza ainda desconhecida; é possível que os três pastores, entre outros, tenham sido suas testemunhas.
No entanto, milhares de questões nos meandros da história não fazem sentido. Lúcia, a sobrevivente, foi uma personagem crucial nisto tudo. Parece-me uma verdadeira madame de
Merteuil à portuguesa, e pretendo dedicar alguma atenção a esta figura, em futuros postes. Conforme ia lendo as suas humildes e santas memórias, mais me convencia de que esta mulher manipulou mais do que uma santa deve, ou se atreve.
Amanhã, pretendo publicar e questionar, na medida do possível, as revelações contidas nos três segredos de Fátima.

domingo, maio 13, 2007

Adorar este Deus

Por que motivo acumulam mais comentários os textos nos quais destaco as diferentes conjugações do verbo foder?

Série Perguntas Retóricas

Liberdade para as mulheres de meia idade

Foto: Monika Wiechowska, My Mother

Agora temos de pegar nas mentiras e transformá-las em verdades, seja como for.
É preciso compreender que eu não te pertenço e tu não me pertences.
Liberdade!
Liberdade!
Liberdade!

All we have to do now
Is take these lies and make them true somehow
All we have to see
Is that I don't belong to you
And you don't belong to me
Freedom
Freedom
Freedom


George Michael


Hermenêutica (não autorizada) dos segredos de Fátima

Primeira parte do segredo

Texto manuscrito das memórias de Lúcia


Não me interessa questionar a autenticidade das aparições. Primeiro, porque estou convencida de que os pastores terão mesmo visto ou ouvido algo na Cova da Iria. Não interessa o quê. Acordemos que foi algo. Segundo, porque para reinterpretar segredos tenho que lhes atribuir uma origem.

O primeiro segredo oferece aos pastores uma visão do Inferno, e eis como no-lo descreve Lúcia (o texto respeita a sua ortografia):

(...) Nossa Senhora mostrou-nos um grande mar de fôgo que parcia estar debaixo da terra. Mergulhados em esse fôgo os demónios e as almas, como se fossem brasas transparentes e negras, ou bronziadas com forma humana, que flutuavam no incêndio leva­das pelas chamas que d'elas mesmas saiam, juntamente com nu­vens de fumo, caindo para todos os lados, semelhante ao cair das faulhas em os grandes incêndios sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dôr e desespero que horrorizava e fazia estre­mecer de pavor. Os demónios destinguiam-se por formas horríveis e ascrosas de animais espantosos e desconhecidos, mas transpa­rentes e negros. Esta vista foi um momento, e graças à nossa bôa Mãe do Céu; que antes nos tinha prevenido com a promeça de nos levar para o Céu (na primeira aparição) se assim não fosse, creio que teríamos morrido de susto e pavor.

Parece-me uma revelação pouco original e em perfeita consonância com outras tradições gnósticas. Muito embora, à época, a missa fosse em Latim, as crianças escutavam relatos do Inferno feitos por familiares mais velhos, pelos contadores de histórias da bíblia ou, com sorte, contemplariam imagens sagradas nos livros da igreja, na catequese. A imagética relacionada com o Inferno não seria, portanto, novidade para o seu imaginário: a sopa de fogo eterno, os demónios, as almas dos condenados em sofrimento perpétuo.

Poderiam tê-lo inventado, mas admitamos que não, que foi real. A visão foi impressionante, terrífica conta Lúcia. Admito que uma visão, que por definição é no dolby digital das coisas etéreas, será deveras impressionante. Eu também já tinha ouvido falar muito do Vietnam, mas tal Inferno só me impressionou a sério quando o vi no Apocalypse Now.


Convenhamos: uma entidade divina não desceria ao mundo para assustar criancinhas cujos pecados não iriam muito além de diabruras com caudas das lagartixas. Portanto, esta visão parece-me cumprir a função das esculturas de demónios nas gárgulas e colunas das igrejas góticas: a de amedrontar crentes, para melhor os subjugar à oração e manutenção da estrutura eclesiástica. Assusta-se primeiro, pede-se depois. Segundo Lúcia, foi exactamente isto que aconteceu:


A conhecida gárgula da igreja de Notre Dame, em Paris

Em seguida, levantámos os olhos para Nossa Senhora que nos disse com bondade e tristeza:
- Vistes o inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores, para as salvar, Deus quer establecer no mundo a devoção a meu Imaculado Coração. Se fizerem o que eu disser salvar-se-ão muitas almas e terão paz.

Rezar para salvar as almas dos pecadores parece-me bem. O que estranho neste discurso é o anúncio, feito pela própria Senhora, sobre a delegação de poderes, como salvadora de almas, que Deus nela deposita.
Seguem-se os segredos anexos ao da inicial visão do Inferno:


A guerra vai acabar, mas se não deixarem de ofender a Deus, no reinado de Pio XI começará outra peor.
Quando virdes uma noite, alumiada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai a punir o mundo de seus crimes, por meio da guerra, da fome e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre.

Considerando que se estava em 1917, a previsão relativa ao final da guerra em curso (1914-1918) não será grande surpresa, mas duvido que criancinhas analfabetas da Cova da Iria tivessem acesso a informação que lhes permitisse opinar ou inventar sobre a questão. A guerra acabaria mais dia, menos dia, porque, a bem ou a mal, sobretudo a mal, todas as guerras acabam; mas, em 1917, situar o início de uma outra guerra no papado seguinte, parece-me informação bastante precisa e credível.

A II Guerra Mundial começa sob Pio XII, e não Pio XI. Contudo, Lúcia argumenta que o que deu origem à guerra teve lugar durante a vigência de Pio XI, falecido exactamente em 1939 (Lúcia refere-se à anexação da Áustria, em 1938).

Não sei se a Irmã, naquela época, vivendo em recolhimento, teria acesso a informações relevantes sobre política mundial, mas vou acreditar que sim: dou o benefício da dúvida: imaginemos que a madre superiora leria, ao domingo, após o almoço, um jornal autorizado, ou um folheto da igreja com umas breves devidamente censuradas, o que justificaria os conhecimentos e explicações de Lúcia.

Quanto ao aparecimento de uma grande luz anunciadora da II Grande Guerra, Lúcia associa-a a uma invulgar aurora boreal ocorrida em Janeiro de de 1938. Seja.

A revelação sobre o início da II Guerra Mundial, datada com tal precisão, seria profeticamente consistente se as memórias de Lúcia não tivessem começado a ser escritas, por ordem do Bispo de Leiria, apenas em 1935.

Na primeira memória, exactamente a de 35, Lúcia descreve os primos, as circunstâncias das suas vidas, personalidades e mortes, e algumas consequências da primeira aparição, não revelando quaisquer segredos, os quais só aborda nas memórias seguintes, que datam de 1937 e 1941 (terceira e quarta memórias) - tornadas públicas alguns anos após a sua redacção.

Portanto, a revelação do segredo relativo à II Guerra Mundial numa altura em que já seria possível prevê-la (1937), embora não invalide a profecia, enfraquece-a. A existirem cartas ou documentos redigidos por Lúcia antes destas datas, e respeitantes a esta profecia, convinha que a Igreja os revelasse. Creio existirem, porque Lúcia afirma, no início das memórias, não saber porque lhe encomendam tais escritos, uma vez que a informação neles contida foi antes revelada. Se foi revelada, foi registada por ela ou por alguém em seu nome.
Na introdução das memórias que li, existe informação sobre outros documentos e cartas de Lúcia, os quais seriam menos extensos e importantes.



Segunda parte do segredo


Irmã Lúcia de Jesus

No segundo segredo, que é efectivamente o terceiro, a Senhora pede a consagração da Rússia à fé católica. Eis as palavras que a memória de Lúcia registou:

Para a impedir [a II Guerra Mundial - que não impediu] virei pedir a consagração da Rússia a meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz, se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja, os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sufrer, várias nações serão aniquiladas, por fim o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-me-á a Rússia, que se converterá, e será consedido ao mundo algum tempo de paz.

Ora, o meu problema, no que respeita a este segredo, advém do facto de acreditar que entidades divinas não só não falam a linguagem dos mortais como desprezam a política mesquinha dos humanos.

Nossa Senhora interessada em questões de política de Leste? Deus e Nossa Senhora conferenciando, e considerando os ateus comunistas como perigosos? Vejamos, não lhes interessaria converter também os fanáticos árabes e chineses? E os negros animistas? Por que motivo só os russos?

A politização do discurso sagrado não convence quem tenha aprendido os mais elementares rudimentos do pensamento, mesmo que a fé seja grande. É que há a fé, mas há também uma lógica do discurso sagrado - que alguma terá.

Nisto, não é possível esquecer que politizar o sagrado foi especialidade da Igreja durante toda a sua existência. Tanto e tão bem como, hoje, o Islão.

A comunhão reparadora dos primeiros sábados, também referida no texto, gerará posteriores conversas entre Lúcia e o Menino Jesus, que lhe aparece no convento de Tuy, dez anos depois, com o objectivo de negociar formas conducentes à realização da comunhão sabatina para quem trabalhasse e não pudesse ir à igreja nesse dia. Portanto, em 1926, o Menino apareceu-lhe,

e Lúcia apresentou-lhe a dificuldade que tinham algumas almas em se confessar ao sábado e pediu para ser válida a confissão de 8 dias. Jesus respondeu:

- Sim, pode ser de muitos mais ainda, contanto que, quando Me receberem, estejam em graça e tenham a intenção de desagravar o Imaculado Coração de Maria.

Ela perguntou:
- Meu Jesus, as que se esquecerem de formar essa intenção?
Jesus respondeu:
- Podem formá-la na outra confissão seguinte, aproveitando a 1ª ocasião que tiverem de se confessar”.

Não pretendo que pareça má-vontade da minha parte, mas este diálogo aparenta mais semelhanças com um processo de negociações para aprovação de uma Lei do que com uma comunicação com o altíssimo.
E era Jesus! Posso jurar que a presidenta da minha empresa não desceria tantos degraus para me autorizar uma falta importante e justificável.


Terceira parte do segredo

Quanto à última parte do segredo, o mais simbólico e enigmático, o Vaticano apressou-se a associá-lo ao assassinato do Santo Padre, e elegeu o atentado da Praça de São Pedro como símbolo da crise de valores cristãos.
Conheçamos as palavras de Nossa Senhora, segundo Lúcia:

Depois das duas partes que já expus, vimos ao lado esquerdo de Nossa Senhora um pouco mais alto um Anjo com uma espada de fôgo em a mão esquerda; ao centilar, despedia chamas que parecia iam encendiar o mundo; mas apagavam-se com o contacto do brilho que da mão direita expedia Nossa Senhora ao seu encontro: O Anjo apontando com a mão direita para a terra, com voz forte disse: Penitência, Penitência, Penitência! E vimos n'uma luz emensa que é Deus: "algo semelhante a como se vêem as pessoas n'um espelho quando lhe passam por diante" um Bispo vestido de Branco "tivemos o pressentimento de que era o Santo Padre". Varios outros Bispos, Sacerdotes, religiosos e religiosas subir uma escabrosa montanha, no cimo da qual estava uma gran­de Cruz de troncos toscos como se fôra de sobreiro com a casca; o Santo Padre, antes de chegar aí, atravessou uma grande cidade meia em ruínas, e meio trémulo com andar vacilante, acabrunhado de dôr e pena, ia orando pelas almas dos cadáveres que encontra­va pelo caminho; chegado ao cimo do monte, prostrado de juelhos aos pés da grande Cruz foi morto por um grupo de soldados que lhe dispararam varios tiros e setas, e assim mesmo foram morren­do uns trás outros os Bispos Sacerdotes, religiosos e religiosas e varias pessoas seculares, cavalheiros e senhoras de varias clas­ses e posições. Sob os dois braços da Cruz estavam dois Anjos cada um com um regador de cristal em a mão, n'êles recolhiam o sangue dos Martires e com êle regavam as almas que se aproxi­mavam de Deus.

(clique sobre a imagem para aumentá-la)


A interpretação foi feita pelo Vaticano, que perguntou a Lúcia se concordava. Esta, rapidamente confirmou a simbologia atribuída ao segredo. Mas Lúcia escreveu sempre porque lho pediram, e iniciava os seus escritos com declarações de obediência e humildade. Esclarece que as redige a pedido de outrem, e não por vontade própria.

Afinal, o bispo branco da revelação será João Paulo II ou tratar-se-á da morte simbólica da Igreja?
Este segredo só foi revelado na passagem do segundo milénio. Estou em crer que as estruturas não saberiam o que lhe fazer, como explicá-lo. A tentativa de assassinato de João Paulo II deu muito jeito.
Na verdade, a Igreja perdeu poder, tem vindo a perder poder, e os homens de branco, e todos os seus seguidores, têm vindo a ser destituídos; destruídos.
É
bem provável que o terceiro segredo, na prática o quarto, o qual a Igreja relaciona com a tentativa de assassinato do Papa por alguém sem comprovadas ligações ao comunismo, ou sequer à Rússia, seja a única profecia aceitável; a que terá sofrido menos intervenção no pós-aparição.
Talvez o último segredo anuncie o declínio de uma cultura eclesiástica falsamente sagrada que cobriu de cadáveres o chão que pisou. Mas, nesse caso, não faria sentido que o enviado divino de 1917 pertencesse ao panteão iconográfico católico. Nossa Senhora? E se a Senhora que apareceu na Cova da Iria, não fosse nossa nem senhora? É uma bela questão, não é?!

Este texto baseia-se na leitura de Memórias da Irmã Lúcia, 11ª ed., 2006, Secretariado dos Pastorinhos, Fátima.
Optei por não incluir notas, quando me refiro às declarações de Lúcia, por se tratar de uma leitura sem fins científicos. No entanto, as notas referentes às páginas onde recolhi informação poderão vir existir, ou poderei fornecer essa indicação, caso exista interesse.
No que respeita ao texto dos segredos, baseei-me na parte final do livro (páginas 191 a 232).


Próximo episódio (assim que tiver tempo): como conseguiu Lúcia matar os primos à fome.

sábado, maio 12, 2007

quinta-feira, maio 10, 2007

Encontro das almas

Foto: Stephane Fugier

Dizem que nunca escrevo sobre o amor do ponto de vista romântico, do encontro de almas, mas uma redactora séria não se põe a inventar sobre território desconhecido! Que terei eu a dizer sobre assunto tão esbarradiço? Passei uma ou duas vezes nuns cruzamentos da localidade de Amor, já há uma data de anos, quando ia para norte, pela estrada nacional, e nem parei; ia com pressa; mal tive tempo para ler a placa sinalizadora. Foi o mais próximo que estive da lexicalização do amor. E até da semântica.
Claro que adorava conhecer o amor, como os outros seres iluminados pela luz de Deus, mas nem todos têm posses para semelhante viagem. É longa. Sai cara. Precisamos de veículos todo-o-terreno.
Do amor conheço pernas e braços, tempo que vale nada, tempo sobre tempo. Conheço equívocos, enganos intencionais. Estou em crer que deva ser melhor que isto; talvez como nos folhetos que os Testemunhas de Jeová nos entregam à porta, com ilustrações do jardim do Éden. Não sei. Lamento. Qualquer dos meus leitores ou leitoras saberá escrever textos pungentes sobre o assunto. Eu não. Não conheço. O meu último texto de amor foi um poema muito curto e experimental. Escrevi assim, espero que gostem:

Quanto
é preciso
pagar
para ser fodida por ti?

quarta-feira, maio 09, 2007

A Primavera é insuportável


Chegado o calor, colegas, vizinhos e anónimos apresentam-se sumamente bem dispostos, triplicando o barulho que se produz. O trânsito torna-se excessivamente rápido e agressivo. Há mais gente e mais carros na rua, sobretudo descapotáveis; mais travagens no limite do embate. Os egoístas tornam-se mais egoístas, os insolentes mais insolentes, os estúpidos mais estúpidos e os mal intencionados, pior intencionados. As pessoas ocupam o espaço público e as esplanadas até mais tarde, bebendo e praguejando. As vozes estridentes das crianças, que brincam no alcatrão, sobem aos último andares dos prédios e ferem os ouvidos de quem procura a paz da noite. Ouvem-se avionetas e helicópteros voando baixo durante todo o dia. É por isso que, excluindo os odores e as cores, a Primavera é bastante insuportável, e eu me canso logo nos primeiros dias.

terça-feira, maio 08, 2007

Canibalismo

Foto: Monika Wiechowska, Nude in a Room

Comigo as pessoas deveriam ter cuidado redobrado. Não me basta beijar, cheirar, amolgar o corpo alheio; eu queria era mordê-lo, era trincá-lo. E lambê-lo e comê-lo devagarinho, não à vez, mas em simultâneo, e satisfazer-me matando a fome do outro corpo, contudo tão meu, que me pertence acima das leis. Comer como comem as minhas cadelas, quando lhes dou um osso e elas o contemplam com tanto amor, e, num mesmo tempo, o cheiram e ratam e devoram.
As pessoas não me chegam, por isso, deveriam precaver-se. O que me dizem, fazem, oferecem. As vozes, mãos. Os poemas. Não chega. E podem limpar o rabo aos poemas que não me dedicaram por cobardia, e aos que me roubaram. Os cobardes. Ah, sim, comia-os de amor. E não me ofereçam as bocas - tapem-nas bem com as mãos: eu como-as. Juro. Eu hei-de comer quem me moveu, e esfregar-me toda nos seus ossos, nos que restarem. Está prometido.



Foto: Monika Wiechowska, Nude in a Carpet


segunda-feira, maio 07, 2007

Fui um saco de pancada, e sobrevivi.

(Clicar para aumentar)

Quando era menina andava descalça, quase nua, e suja de tudo o que atravessava. Quando era ainda uma pequenina leopardo-fêmea, beijava o focinho do Piloto, o cão sarnoso e escanzelado dos pretos que tinham a palhota do cajueiro, do outro lado da rua. Beijava esse, e outros, todos os cães, e comia terra com caca de galinha, entre outras liberdades que a família moderna não autoriza.
Era uma menina naturalmente saudável. Recordo que fui três vezes ao hospital onde nasci, sempre porque o meu pai me bateu e magoou.
Uma bofetada do meu pai deixava-me a sangrar do nariz, copiosamente, e um puxão seu no meu braço lesionava-me músculos e tendões. Era um homem enorme, e não controlava a força, mas o meu pai não era um monstro; não tinha qualquer prazer em bater-me - ficava doente! - mas, antigamente, os pais educavam à bofetada, tão certa como o pão de cada dia, em casa e na escola. Eu fui um saco de pancada, e sobrevivi. Apesar de tudo, entre as crianças da época fui particularmente poupada. Era frequente rapazes e raparigas apanharem com o cavalo marinho, sobretudo os rapazes. Os meus pais faziam-me chegar notícias sobre filhos martirizados dessa forma, e resultava. Eu tinha medo do cavalo marinho, oh, se tinha, embora não houvesse nenhum lá em casa! Mas as notícias eram eloquentes, "O Vitinho levou ontem com o cavalo marinho, porque saiu sem autorização do pai, e não foi à escola porque nem se consegue mexer!". "A Nídia apanhou. O pai tosou-a com o cinto, e vai ficar fechada em casa todo o mês, porque começou a namorar sem autorização." As raparigas apanhavam por desobediência na escolha de namorados, ou por se darem aos calores muito cedo. Os rapazes, por respirarem para o lado esquerdo quando lhes tinham dito que o fizessem para o direito. Apanhavam violentamente, todos. Os pais possuíam os filhos como se possuí um bezerro para a matança, e abusavam.
Hoje, os filhos possuem os pais, e abusam.
Hoje, o meu pai seria acusado de violência infantil e o tribunal haveria de lhe aplicar uma multa. No caso do meu pai seria injusto, mas penso que muitos dos actuais progenitores beneficiariam de penalizações sérias. As crianças precisam de ser educadas com autoridade e afecto em igual proporção. Ter-se perdido a autoridade, gerou um caos generalizado nas atitudes e valores. A violência de que os professores se queixam vem de casa, e existe em casa: os filhos reinam sobre todos os territórios. Vejo crianças bater no pais. Ouço adolescentes dialogarem com os pais de forma absolutamente inaceitável, independentemente dos contextos que tenham gerado tais conversas. Não me parece mal responsabilizar os progenitores pela ineficiente educação que proporcionam, mas não seria mal pensado, e eu sei que custa!, reabilitar a humilhante bofetada que a minha amiga sueca diz ser fascista. Que seja, mas a bofetada, a exemplar bofetada aplicada com conta, peso e medida, faz falta.

sábado, maio 05, 2007

A pedra filosofal dentro do meu corpo


O meu corpo droga-me, sozinho. Destila químicos que do interior me injecta nas veias. A maior parte dos dias luto contra drogas que usa para me derrubar, me fechar os olhos, me entorpecer as pernas. Noutros, faz-me voar rente ao chão que os pés mal tocam, e sei que se abrir as asas à boca da janela, voarei muito leve e grácil como os outros pássaros.
Nesses dias enlouqueço de gozo e ar dentro do meu cérebro. Os médicos dizem que são endorfinas. Eu penso que é a merda da vida a chicotear-me. É a merda da vida que me arranha as costas, me ata, desatando-me para me possuir só um bocadinho, finalmente, como eu sonho, eu quero, e me diz, grande parva, podias ter isto, podias ter tudo, podias ter mais.

sexta-feira, maio 04, 2007

O bigode lusitano



"És velho demais para mim", costumo eu pensar, cá com os meus botões, quando homens da minha idade, e até mais novos, me atiram misteriosos olhares parados de difícil entendimento. Olho sempre para baixo, não traga algum botão desabotoado ou uma inesperada nódoa de sopa. Chego a pensar que alguns desses senhores de idade, de trinta e tal, quarentas, sofrem de paralisia nas pálpebras.
A maior parte dos homens não só envelhece cedo, como deve e nunca paga ao santo padroeiro da beleza. Nem quero ser demasiado exigente: um aspecto sem ranço, com pés e sovacos lavados, chegaria lindamente.
A dura verdade é que o horizonte de acasalamento de uma mulher de 40 anos, chegada a Primavera, revela-se confrangedor. Há muito divorciado, lá isso há, mas nem as hormonas mais encarniçadas conseguem ignorar a praga bacteriana da bigodaça lusa.
A partir dos 30 e tal, o macho lusitano acha por bem munir-se do que considera ser um infalível atractivo de natureza sexual, e deixa crescer farta ou arquitectónica bigodaça, que não se lembrou de usar aos 20, ou não se atreveu.
Só aos 20 um rosto pode suportar a mancha de um bigode, e, mesmo assim, em nome da palhaçada ou do estilo marialva-chic. Muito excepcionalmente, um bigode admite-se aos elementos das forças policiais, se for no exercício das suas funções, porque faz parte da farda, e às mulheres, por indiscutíveis questões de pêlo na venta.
Não sei se os bigodados lusitanos já repararam, mas o primeiro acessório de caracterização que um humorista cola na beiça, ao pretender assumir o papel do macho ultrapassado, um bocado sebento, retardadado, é o bigode. Não acontece por acaso. Os bigodes são ridículos.
Por tudo isto, e muito ajudada por me ter cansado de desmamar vitelos que bem me chupam as tetas à conta bancária, vinha pedir aos senhores mais ou menos da minha idade, a gentileza de se esforçarem por parecer mais ou menos da minha idade. Não querendo abusar, rapar os bigodes havia de ser um bom começo!

quarta-feira, maio 02, 2007

Da verdade e da verosimilhança

Foto: Monika Wiechowska, Resting to the sun


Há uns tempos, poucos, li uma daquelas entrevistas do Mexia, nas quais costuma dizer que não sabe escrever, não vá alguém lembrar-se de lhe avançar a crítica. Enquanto defesa é boa técnica. Podemos sempre retorquir, em tom blasé, à primeira contrariedade, "nada que eu próprio não tivesse já dito". No caso de Mexia, considero despropositado: que o rapaz escreve graciosa e claramente, e nos entretém, não me parece haver dúvida.
Na mesma entrevista, Mexia expunha a sua teoria sobre intimidade e privacidade. No seu particular caso literário, Mexia procura criar intimidade, mas recusa a exposição da privacidade, a qual ocorre quando um autor apresenta referências precisas: nomes, datas e locais - e isso ele não faz.
No entanto, com ou sem referências precisas, com ou sem escancaramento da privacidade, quem lê Mexia e, nomeadamente, o seu Estado Civil, julga tudo saber sobre vida íntima do escritor: e, claro, vai espalhando que o rapaz é o que escreve, ou seja, que não fode nem sai de cima, o que, se calhar, é capaz de ser injusto!
Para o leitor, que diferença é essa, afinal, entre íntimo e privado, vocábulos sinónimos para designar realidades só nossas, pouco mais ou menos secretas, que não desejamos ver conhecidas? Não é tudo a mesma coisa? Talvez não, de facto. Talvez Mexia tenha razão, mas é uma tarefa inglória. Para o leitor, se Mexia diz que não fode, se, portanto, há ali alguém que não fode, só pode ser o Mexia. Se está na 1ª do singular, é exposição da experiência íntima, privada. Se está na 3ª, é um disfarce de vivências privadas que não nos atrevemos a contar, mas que o leitor capta a léguas, que ele não é parvo! Portanto, quer Mexia escreva sobre um raio dum fungo no pé, que não desaparece após quilos de Canesten aplicado duas vezes ao dia, ou sobre o tesouro escondido do rei da Prússia, estará, em última análise, sempre, a descrever-se intimamente. Portanto, nada de justificações. Para quê explicações? Não vale a pena. O que as pessoas querem, muito naturalmente, e isso é inevitável, é identificar-se com as experiências alheias. "Ah, que bom, eu não sou o único!" "Ah, olha, tal e qual como eu!"
É por isso que me estou nas tintas para as subtis diferenças entre íntimo e privado. O que é verdade e o que é mentira?! Cá no meu blogue é tudo verdade! É tudo íntimo, é tudo privado, é tudo secreto, as referências são todas verdadeiras! Cá no meu blogue, até me regalo de começar um texto revelando intimidades inauditamente privadas, e comprovadamente verídicas, como, por exemplo, "Nessa tarde, a minha mãe chegou mais cedo e apanhou o primo Jorge a sodomizar-me no sofá azul da sala, de frente para a janela da rua. Foi na antiga casa da Barrocas, uma semanas depois de ter morrido o filho da D. Maria, em Paris, carregadinho de Sida. Quão distantes vão esses dias de 1989!"
E é assim, meus amigos. Agora desculpem-me, que tenho de ir lavar a passarinha, porque me estão a dar umas comichões bárbaras; é que andei hoje muito a pé, e como tenho a perna gorda, e as coxas roçam uma na outra, e transpira-se... é chato; e a ver se ainda faço uma sopa de espinafres para jantar, depois de lavar as mãozinhas, claro.

terça-feira, maio 01, 2007

Jogo de damas II

Marco Paulo - Quarenta anos de amor eterno


O nosso amor era grande. Havia esperança, depois filhos, uma casa, votos sagrados, tudo como Deus quer. Quando estavas comigo, eu era toda a tua menina; quando estavas com ela, ela era tanto a tua mulher.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...