Preciso de descansar uns diazinhos, se me derem licença.
sexta-feira, junho 29, 2007
Psicanálise
O passado não nos procura, porque o passado acabou, mas nós perseguimo-lo, tão inocentes quanto incautos; seguimos a sua pista, alegando outros pretextos. Não, não, já não nos interessa o passado. Finish. Agora é sempre adiante. O que lá está, lá está. Agora, o presente, o futuro. Agora, a felicidade, justificamos.
É tudo isso, mas, no final de um percurso, ao parar para ver onde chegámos, à nossa frente, como novo, está o arame farpado de certas longínquas manhãs com excesso de luz. Foi sem querer que ali viemos ter. Mas queremos, então, resgatar os recortes da nossa pele que lá ficou presa, rasgada. Estamos a vê-los tão bem. O sangue ainda está tão fresco. Não murchou. Quem diria? Passados tantos anos. Precisamos de os coser depressa na carne que ainda está tão viva. Não sabíamos. Não sabíamos. Foi o destino.
É tudo isso, mas, no final de um percurso, ao parar para ver onde chegámos, à nossa frente, como novo, está o arame farpado de certas longínquas manhãs com excesso de luz. Foi sem querer que ali viemos ter. Mas queremos, então, resgatar os recortes da nossa pele que lá ficou presa, rasgada. Estamos a vê-los tão bem. O sangue ainda está tão fresco. Não murchou. Quem diria? Passados tantos anos. Precisamos de os coser depressa na carne que ainda está tão viva. Não sabíamos. Não sabíamos. Foi o destino.
Do desenrascanço em ditadura

Tenho uma ideia para contornar este lamentável imbróglio do deficit de liberdade de expressão, proibindo funcionários de manter a alegria no trabalho, ao afixar comentários jocosos sobre o patrão ou patroa, nos placards do emprego.
Façamos assim: os funcionários do BCP pedem aos seus amigos e familiares funcionários públicos que afixem as expressivas mensagens de indignação nos placards dos ministérios onde trabalham. Por sua vez, os funcionários do banco encarregam-se de colar por todos os BCP's do universo fotocópias do certificado de habilitações do cidadão Sócrates.
Dentro da função pública, o problema pode resolver-se da seguinte forma: o pessoal médico entrega caricaturas do ministro, e respectivas legendas jocosas, aos funcionários do ministério da educação, para abundante afixação pelas escolas. Os funcionários da educação, por sua vez, carregam o pessoal médico de panfletos a espalhar por hospitais, e centros de saúde, com a carantonha da ministra lamentando-se: "diz-me, espelho meu, porque tenho medo, tanto, tanto medo de ir às escolas com aviso prévio?"
E assim já ninguém pode ver-se acusado de estar a gozar o patrão dentro do próprio local de trabalho.
quinta-feira, junho 28, 2007
O princípio, o meio e o fim
Do meu conhecimento da história das ideias, parece-me poder concluir que as culturas atravessam períodos de tirania cíclica - têm um final, mas, enquanto vigoram, matam mais do que moem.
Tive a sorte de nascer nos anos 60, pelo que pude crescer rodeada de mensagens de amor e revolta. Foi um tempo inseguro e violento, por momentos fervente, histérico, mas via-se luz ao fundo. Era uma luz intensa; haveríamos de lá chegar; aconteceria paz e desafogo. Liberdade. Sei que acreditámos colectivamente nessa luz.
Não consigo, por isso, reconhecer esta época de trevas e betão, povoada de gente engravatada, que se vê na rua à hora do almoço, e ao final a tarde, uniformizada em fatos da mesma cor e corte, parecendo sorrir, mas assaltada de fobias relacionadas com o outro: comunicar, sentir afecto, solidariedade. Para não ofender sensibilidades, não mencionarei o tocar. Não se mexe com as mãos. Com nada. Em nada. As pessoas cumprimentam-se indiferentemente. Ou desprezam-se e odeiam-se, sem se conhecerem, como nunca antes havia presenciado.
São pessoas para quem uma empresa e um país não se gerem com o coração.
Os nazis também diziam aos filhos, ao almoço, "sim, Gunter, claro que podemos fazer o funeral ao teu canário, mas há outras coisas em que não se pode pensar com o coração". Depois, saíam para lá dos seus portões, e ordenavam que se ligasse a câmara de gás principal, ou se realizasse a execução das 14 horas; o que era bem pior do que ligá-la eles, ou executarem quem haveria de ser executado, pelos seus próprios meios. É exactamente o mesmo tipo de gente subserviente, pequena, pronta a seguir o clube que ganha, desde que ganhe também, e pronta a mandar.
Algumas pessoas estão tão certas de que o coração não serve para tudo, que bem poderiam deitá-lo fora em qualquer contentor para resíduos organicos. Tenho boas razões para suspeitar que uma boa parte já o tenha feito. São os mortos-vivos da actual economia de consumo. De vez em quando passam por mim. Reconheço-os pelo cheiro putrefacto a impiedade.
Tive a sorte de nascer nos anos 60, pelo que pude crescer rodeada de mensagens de amor e revolta. Foi um tempo inseguro e violento, por momentos fervente, histérico, mas via-se luz ao fundo. Era uma luz intensa; haveríamos de lá chegar; aconteceria paz e desafogo. Liberdade. Sei que acreditámos colectivamente nessa luz.
Não consigo, por isso, reconhecer esta época de trevas e betão, povoada de gente engravatada, que se vê na rua à hora do almoço, e ao final a tarde, uniformizada em fatos da mesma cor e corte, parecendo sorrir, mas assaltada de fobias relacionadas com o outro: comunicar, sentir afecto, solidariedade. Para não ofender sensibilidades, não mencionarei o tocar. Não se mexe com as mãos. Com nada. Em nada. As pessoas cumprimentam-se indiferentemente. Ou desprezam-se e odeiam-se, sem se conhecerem, como nunca antes havia presenciado.
São pessoas para quem uma empresa e um país não se gerem com o coração.
Os nazis também diziam aos filhos, ao almoço, "sim, Gunter, claro que podemos fazer o funeral ao teu canário, mas há outras coisas em que não se pode pensar com o coração". Depois, saíam para lá dos seus portões, e ordenavam que se ligasse a câmara de gás principal, ou se realizasse a execução das 14 horas; o que era bem pior do que ligá-la eles, ou executarem quem haveria de ser executado, pelos seus próprios meios. É exactamente o mesmo tipo de gente subserviente, pequena, pronta a seguir o clube que ganha, desde que ganhe também, e pronta a mandar.
Algumas pessoas estão tão certas de que o coração não serve para tudo, que bem poderiam deitá-lo fora em qualquer contentor para resíduos organicos. Tenho boas razões para suspeitar que uma boa parte já o tenha feito. São os mortos-vivos da actual economia de consumo. De vez em quando passam por mim. Reconheço-os pelo cheiro putrefacto a impiedade.
terça-feira, junho 26, 2007
Um número ao serviço do sistema
Para conseguir resolver o que de mais ordinário existe na minha vida, dependo de sequências de algarismos constituídas por 4 a 9 unidades. Códigos.
Há uns anos anotava-os todos com letra muito pequenina num papelinho que escondia na mala de mão. Não é que fosse ingénua, mas sempre confiei demais, acrescentando a mania de que existem ocorrências, as quais, pela lei das probabilidades, dificilmente me baterão à porta. Penso eu. Depois, sou muito dada à descontracção. E é isso que me vai vencendo.
Há uns anos, quando o meu pai morreu, deixei a mala de mão na bagageira do carro, enquanto desci ao cemitério para enterrá-lo. Ao regressar, não havia mala nem documentos nem crédito bancário. Haver carro foi sorte. Chamo-lhe o dia em que perdi tudo, mas depois houve outros. Há sempre alguma coisa para perder a seguir.
Também para ganhar, mas, no meu caso, não facilitemos.
Nesse ano mudei de táctica. Passei a decorar todos os códigos de que preciso.

Descobri que o meu cérebro funciona de forma peculiar. Associa sequências a contextos. Não tenho sequer consciência de que decorei todos esses conjuntos numéricos. Nem nunca me lembro deles, com medo de os esquecer. Vamos supor que alguém me pergunta, frente a uma máquina Multibanco, qual é o código-pin do meu telemóvel. Não faço ideia. Tal como na caixa do Jumbo só sei o código do cartão Jumbo.
Hoje, por exemplo, tentei usar, num computador alheio, uma sequência de nove algarismos que tenho por hábito digitar no meu computador. Nunca me esforço por recordar esta difícil sequência, mas quando entro no site, a partir de casa, ela surge-me do céu como uma divina benção de memória. Hoje, noutro computador, era o lembravas! Foi preciso chegar a casa. E em casa, sim, sem problema algum, o código saiu-me inteirinho.
Isto lembra-me as fiadas de orações da minha mãe. A minha mãe sabe de cor umas trezentas orações, mas não me saberá repetir, se lho pedir, um parágrafo daqui ou dali. Sabe cantar-me a oração toda, de rajada, sem pensar.
"Queres o quê? O responso ao Santo António?!" E desfia-o. Mas se lhe pergunto qual a última frase da responso, tem de o repetir todo, de novo.
Para escrever este poste rabisquei numa folha, seguidos, sem pensar, todos os códigos que sei de cor para me identificar, e poder aceder, hoje em dia, seja ao que for. Quis contá-los. São 23. Os que sei. Porque depois há os que uso menos e que estarão algures onde nunca os encontrarei. Uns dias antes de precisar de os usar, hei-de pedir segunda via. É certinho.
Não imaginava ter memorizado 23 códigos essenciais à vida social, civil, financeira, profissional. Ou seja, 23 nomes para além do que tenho no bilhete de identidade, o qual, na verdade, de nada me serve. Chamar-me Isabela ou Florbela, que interessa isso nos dias de hoje?! O que interessa mesmo é ser o 357892 para X e o 9073 para Y.
Vinte e três sequências de números! Vinte e três nomes! Uma pessoa tem de pensar nisto. Quem é que imaginou, quando criança, que a possibilidade de uma vida adulta normal, integrada no sistema, no segundo milénio, implicaria a aprendizagem de códigos de identificação que tornariam os nossos nomes tão pouco importantes?!
Eu, que treinei a minha assinatura, em cadernos, até à exaustão do papel e da tinta! O que vale agora a minha assinatura? Para que serve o meu nome?
Como poderia imaginar que viria a ser apenas um conjunto de códigos ao serviço do sistema e prontos para servi-lo?
Há uns anos anotava-os todos com letra muito pequenina num papelinho que escondia na mala de mão. Não é que fosse ingénua, mas sempre confiei demais, acrescentando a mania de que existem ocorrências, as quais, pela lei das probabilidades, dificilmente me baterão à porta. Penso eu. Depois, sou muito dada à descontracção. E é isso que me vai vencendo.
Há uns anos, quando o meu pai morreu, deixei a mala de mão na bagageira do carro, enquanto desci ao cemitério para enterrá-lo. Ao regressar, não havia mala nem documentos nem crédito bancário. Haver carro foi sorte. Chamo-lhe o dia em que perdi tudo, mas depois houve outros. Há sempre alguma coisa para perder a seguir.
Também para ganhar, mas, no meu caso, não facilitemos.
Nesse ano mudei de táctica. Passei a decorar todos os códigos de que preciso.

Descobri que o meu cérebro funciona de forma peculiar. Associa sequências a contextos. Não tenho sequer consciência de que decorei todos esses conjuntos numéricos. Nem nunca me lembro deles, com medo de os esquecer. Vamos supor que alguém me pergunta, frente a uma máquina Multibanco, qual é o código-pin do meu telemóvel. Não faço ideia. Tal como na caixa do Jumbo só sei o código do cartão Jumbo.
Hoje, por exemplo, tentei usar, num computador alheio, uma sequência de nove algarismos que tenho por hábito digitar no meu computador. Nunca me esforço por recordar esta difícil sequência, mas quando entro no site, a partir de casa, ela surge-me do céu como uma divina benção de memória. Hoje, noutro computador, era o lembravas! Foi preciso chegar a casa. E em casa, sim, sem problema algum, o código saiu-me inteirinho.
Isto lembra-me as fiadas de orações da minha mãe. A minha mãe sabe de cor umas trezentas orações, mas não me saberá repetir, se lho pedir, um parágrafo daqui ou dali. Sabe cantar-me a oração toda, de rajada, sem pensar.
"Queres o quê? O responso ao Santo António?!" E desfia-o. Mas se lhe pergunto qual a última frase da responso, tem de o repetir todo, de novo.
Para escrever este poste rabisquei numa folha, seguidos, sem pensar, todos os códigos que sei de cor para me identificar, e poder aceder, hoje em dia, seja ao que for. Quis contá-los. São 23. Os que sei. Porque depois há os que uso menos e que estarão algures onde nunca os encontrarei. Uns dias antes de precisar de os usar, hei-de pedir segunda via. É certinho.
Não imaginava ter memorizado 23 códigos essenciais à vida social, civil, financeira, profissional. Ou seja, 23 nomes para além do que tenho no bilhete de identidade, o qual, na verdade, de nada me serve. Chamar-me Isabela ou Florbela, que interessa isso nos dias de hoje?! O que interessa mesmo é ser o 357892 para X e o 9073 para Y.
Vinte e três sequências de números! Vinte e três nomes! Uma pessoa tem de pensar nisto. Quem é que imaginou, quando criança, que a possibilidade de uma vida adulta normal, integrada no sistema, no segundo milénio, implicaria a aprendizagem de códigos de identificação que tornariam os nossos nomes tão pouco importantes?!
Eu, que treinei a minha assinatura, em cadernos, até à exaustão do papel e da tinta! O que vale agora a minha assinatura? Para que serve o meu nome?
Como poderia imaginar que viria a ser apenas um conjunto de códigos ao serviço do sistema e prontos para servi-lo?
domingo, junho 24, 2007
Mulher grizzly
Durante muitos anos recorri a uma fantasia que me ajudava a adormecer.
Imaginava-me vivendo com uma comunidade de animais peludos: cães selvagens, lobos, ursos..., e adormecia com eles, a céu aberto, na rostilhada do seu calor, odor e protecção. Não fantasiava coisa alguma sobre as minhas ocupações diurnas, afastada da civilização. Interessava-me a noite sem luz ou abrigo artificial.
Na noite dos animais havia conforto. Eu era um ser de carne entre outros seres de carne, tão juntos que quase se amalgamavam. Essa evocação dos corpos quentes, olorosos, que se empurravam contra as carnes mútuas para se aquecerem, sossegava-me, e adormecia, finalmente, na minha incoerente noite civilizada.
Ao longo da vida desejei ser apenas um animal selvagem. Ter o cheiro não lavado de um bicho peludo: uma mistura agridoce de terra, vegetais, sangue, suor e excremento. Procurei dar importância apenas ao importante, usando a tabela de valores de um animal, para o qual um prato de ouro, um sabonete, e uma mola da roupa, são objectos da mesma ordem.
Tenho sido, até onde me deixaram ser, naturalmente selvagem. Não fossem a leitura, o cinema, a música, e as artes plásticas e cénicas, que aqui me prendem, porque me libertam tanto quanto mais selvagens se assumem, e todo o interesse pela cultura humana haveria de me passar ao lado. Que se lixassem todos e mais as suas lutas, que me ferem tanto. Mais os seus ódios, egoísmos, egotismos, que me ferem tanto, e nos quais tenho de me envolver, porque afinal não sou apenas um animal. Nem cega nem surda nem autista.
Os animais não são bons nem maus nem sabem o que é a justiça tal como a concebemos, nem a solidariedade ou a liberdade. Sentem-nas. São associais e apolíticos. Contudo, têm uma ética e respeitam-na. Lambem as feridas uns dos outros. E os olhos, os focinhos, as orelhas, as vulvas, os ânus sem nenhum outro interesse que curar, conhecer, procriar, limpar. E lutam por domínios, mas lutam corpo-a-corpo, com as garras e as presas. Mordem-se, arranham-se, mutilam-se; uns ganham, outros perdem, mas olham-se bem nos olhos ao longo dos processos. Tocam-se. Rasgam-se. E comem-se, se têm fome, porque têm fome, mas olham-se nos olhos. Tudo isto me parece sempre muito mais humano do que a nossa vida humana.
Sigo avidamente casos conhecidos de meninos ou meninas selvagens encontrados após anos de vida com os animais. Tenho sempre pena deles. Por terem sido encontrados. Vejo desgosto nos seus rostos; prisão, inadequação; desejam fugir, regressar à selva para dormir na rostilhada morna dos animais.
Eu também preferia ter vivido sempre com os lobos e os macacos e os ursos, e morrer quando tivesse de morrer, mas andar nua e descalça e ser livre, e não ter de fingir nem ser o que não sou nem interrogar-me todos os dias sobre aquilo que, sendo impossível ou indesejável, os seres humanos possibilitam até ao descarnamento da essência da vida.
Imaginava-me vivendo com uma comunidade de animais peludos: cães selvagens, lobos, ursos..., e adormecia com eles, a céu aberto, na rostilhada do seu calor, odor e protecção. Não fantasiava coisa alguma sobre as minhas ocupações diurnas, afastada da civilização. Interessava-me a noite sem luz ou abrigo artificial.
Na noite dos animais havia conforto. Eu era um ser de carne entre outros seres de carne, tão juntos que quase se amalgamavam. Essa evocação dos corpos quentes, olorosos, que se empurravam contra as carnes mútuas para se aquecerem, sossegava-me, e adormecia, finalmente, na minha incoerente noite civilizada.
Ao longo da vida desejei ser apenas um animal selvagem. Ter o cheiro não lavado de um bicho peludo: uma mistura agridoce de terra, vegetais, sangue, suor e excremento. Procurei dar importância apenas ao importante, usando a tabela de valores de um animal, para o qual um prato de ouro, um sabonete, e uma mola da roupa, são objectos da mesma ordem.
Tenho sido, até onde me deixaram ser, naturalmente selvagem. Não fossem a leitura, o cinema, a música, e as artes plásticas e cénicas, que aqui me prendem, porque me libertam tanto quanto mais selvagens se assumem, e todo o interesse pela cultura humana haveria de me passar ao lado. Que se lixassem todos e mais as suas lutas, que me ferem tanto. Mais os seus ódios, egoísmos, egotismos, que me ferem tanto, e nos quais tenho de me envolver, porque afinal não sou apenas um animal. Nem cega nem surda nem autista.
Os animais não são bons nem maus nem sabem o que é a justiça tal como a concebemos, nem a solidariedade ou a liberdade. Sentem-nas. São associais e apolíticos. Contudo, têm uma ética e respeitam-na. Lambem as feridas uns dos outros. E os olhos, os focinhos, as orelhas, as vulvas, os ânus sem nenhum outro interesse que curar, conhecer, procriar, limpar. E lutam por domínios, mas lutam corpo-a-corpo, com as garras e as presas. Mordem-se, arranham-se, mutilam-se; uns ganham, outros perdem, mas olham-se bem nos olhos ao longo dos processos. Tocam-se. Rasgam-se. E comem-se, se têm fome, porque têm fome, mas olham-se nos olhos. Tudo isto me parece sempre muito mais humano do que a nossa vida humana.
Sigo avidamente casos conhecidos de meninos ou meninas selvagens encontrados após anos de vida com os animais. Tenho sempre pena deles. Por terem sido encontrados. Vejo desgosto nos seus rostos; prisão, inadequação; desejam fugir, regressar à selva para dormir na rostilhada morna dos animais.
Eu também preferia ter vivido sempre com os lobos e os macacos e os ursos, e morrer quando tivesse de morrer, mas andar nua e descalça e ser livre, e não ter de fingir nem ser o que não sou nem interrogar-me todos os dias sobre aquilo que, sendo impossível ou indesejável, os seres humanos possibilitam até ao descarnamento da essência da vida.
sábado, junho 23, 2007
Isso não é um bicho?

Enquanto decorre, algures em Lisboa, a Feira da Pornografia, fora do recinto, e sem pagar bilhete, os portugueses vão sendo sujeitos a difíceis provas de aferição em língua latina (à excepção de uma senhora que, tendo esquecido o dominus, domini, perguntou se podia responder em português, e por acaso teve 20 valores).
Para ver, aqui, este outro "tapa na pantera".sexta-feira, junho 22, 2007
Pela estrada dentro

Não há pessoas simples. Nem histórias. Nem vidas. Simples. As histórias a que chamamos simples são uma fina teia de complexidades invisíveis e caladas que se aceitaram. Aí está a simplicidade. Nessa aceitação.
A metáfora total está nas histórias simples on the road.
Há uma estrada que é necessário percorrer, seja qual for o meio. Esse caminho é tudo o que queremos, precisamos fazer. Atravessamos campos de trabalho ao sol, à chuva, pela turvação do pó do trigo levantado, pela claridade do amanhecer, do entardecer, para chegar a um lugar que não sabemos muito bem onde fica, mas é lá longe. Aí faremos as pazes com o nosso irmão desavindo. Connosco. Podemos estrebuchar, mas, no final, no que toca aos outros, e a nós, resta-nos aceitar, sorrir e calar. Parece tão simples, não parece?!
A metáfora total está nas histórias simples on the road.
Há uma estrada que é necessário percorrer, seja qual for o meio. Esse caminho é tudo o que queremos, precisamos fazer. Atravessamos campos de trabalho ao sol, à chuva, pela turvação do pó do trigo levantado, pela claridade do amanhecer, do entardecer, para chegar a um lugar que não sabemos muito bem onde fica, mas é lá longe. Aí faremos as pazes com o nosso irmão desavindo. Connosco. Podemos estrebuchar, mas, no final, no que toca aos outros, e a nós, resta-nos aceitar, sorrir e calar. Parece tão simples, não parece?!

quinta-feira, junho 21, 2007
Os cornos do diabo
Por que é que o cidadão Sócrates processa o autor de Do Portugal Profundo e não o jornal Público?
1 - Porque o Do Portugal Profundo acertou com os dedos todos na ferida.
2 - Porque o Público não é uma "fonte muito perto da fonte" que lhe interesse calar.
3 - Porque a comunicação social "organizada" é controlável.
4 - Porque a blogosfera ganhou mais poder como veículo de opinião.
5 - Porque a única oposição relevante se situa na blogosfera, não na comunicação social (a oposição eleita democraticamente, e com assento na Assembleia da República, limita-se a ver os bois passar - desculpem a informação redundante.)
6 - Porque o cidadão Sócrates tem mais medo à blogosfera que aos cornos do diabo, e nos quer avisarzinho, e amedrontarzinho, para a gente ter cuidadinho com o tecladozinho, z, z, z.
1 - Porque o Do Portugal Profundo acertou com os dedos todos na ferida.
2 - Porque o Público não é uma "fonte muito perto da fonte" que lhe interesse calar.
3 - Porque a comunicação social "organizada" é controlável.
4 - Porque a blogosfera ganhou mais poder como veículo de opinião.
5 - Porque a única oposição relevante se situa na blogosfera, não na comunicação social (a oposição eleita democraticamente, e com assento na Assembleia da República, limita-se a ver os bois passar - desculpem a informação redundante.)
6 - Porque o cidadão Sócrates tem mais medo à blogosfera que aos cornos do diabo, e nos quer avisarzinho, e amedrontarzinho, para a gente ter cuidadinho com o tecladozinho, z, z, z.
terça-feira, junho 19, 2007
De Bruxelas para a Benard, só para tomar chá com com uns amigos
Serviço de chá e café em prata autêntica, constituído por cinco peças requintadamente decoradas, e respectivo tabuleiro.Isto são pérolas a porcos, sendo que os porcos somos nós, é claro.
Terça-feira, Junho 19, 2007
MUNDO MODERNO
Uma amiga minha, belga, com perto de 80 anos, tradutora de poetas portugueses, volta não volta mete-se no avião em Bruxelas para vir a Lisboa almoçar ou tomar chá com dois ou três amigos. Vem no voo das 7 da manhã, regressa no das 7 da tarde. Ontem foi um desses dias. Vá-se lá saber porquê, às 16:10h teve um colapso na esplanada da Benard. Estava um indivíduo (encostado às montras do Paris em Lisboa) a tocar um batuque infernal, e eu até relacionei uma coisa com a outra. Rapidamente, um poeta que estava connosco ligou para o 112 e uma equipa do INEM chegou ao Chiado em três minutos. A minha amiga tinha entretanto recuperado os sentidos, mas estava visivelmente abalada, com níveis de pressão baixíssimos. A equipa do INEM foi eficiente e gentil durante os cerca de vinte minutos em que esteve com ela. Depois a minha amiga foi para o aeroporto, onde o pessoal da companhia belga foi alertado para o ocorrido. A ideia era olharem por ela. Que sim, não se preocupem. Mas no momento do check-in exigiram atestado médico. A minha amiga não tinha atestado, não embarcou. Foi dali para Santa Maria, onde lhe fizeram exames até às 3 da madrugada. Às 4 teve alta. Às quatro da madrugada. Podia, se quisesse, ficar sentada na sala de espera. Ficou. Àquela hora não lhe passou pela cabeça incomodar ninguém. Às 6 foi para a Portela. O primeiro avião onde teve lugar (e foi preciso comprar outro bilhete, claro) foi o que saiu às 09:45h. O século XXI é isto, na sua forma mais exacta.
Etiquetas: Saúde, Sociedade
posted by Eduardo Pitta at 7:00 PM
Insegurança Social Total

Nem todos os textos são fáceis. Este tenho-o adiado.
O caso da professora de Cacia - Aveiro que sofria de leucemia, e à qual não só não foi concedida a justa reforma por invalidez, como negada a baixa médica, obrigando-a a trabalhar em sofrimento até à morte, é de uma tal gravidade que me pergunto o que estamos a fazer frente aos computadores? Por que não estamos lá fora no Terreiro do Paço, frente à Assembleia da República, nas ruas, manifestando luto e repúdio e raiva pelo desrespeito, desamparo mortais a que foi condenada? Estamos calados porquê? Com medo de quê, exactamente? De nos "aleijarmos" porque pensamos, porque nos manifestamos?
E os colegas? E os alunos? Os pais do alunos? E o Sindicato de Professores? Como é que um caso desta gravidade só é revelado após a morte da professora?
Isto não foi um engano que se cometeu com a professora de Aveiro. Isto é aquilo a que cada um de nós está condenado no dia em que não puder trabalhar.
Parece que não é com ninguém, que não toca a ninguém? Isto é o que nos vai acontecer quando precisarmos do apoio da Segurança Social para a qual contribuímos a cada salário.
O que este caso nos atira pelos olhos dentro é tão simples quanto isto: as juntas médicas a que são sujeitos os funcionários incapacitados, têm ordens para devolver aos serviços as pessoas que se encontram impossibilitadas de o realizar. Estão às ordens do poder político, não da saúde.
Ficamos a saber que as decisões dos clínicos que compõem as equipas que realizam as juntas do Ministério da Educação, e de outros, dependem, agora, não de diagnósticos comprovados medicamente, mas de decisões políticas, das que lhe pagam a avença. Executores, portanto. Que não se sentem na legítima obrigação de sobrepor a sua decisão clínica a uma qualquer decisão administrativa da Insegurança Social.
Como cidadã portuguesa, contribuinte, e ser humano, quero que me expliquem muito bem, e depressa, porque vêm aí as férias de Verão, as razões por que não o fizeram. Por que código deontológico se regeram, neste caso?
Por outro lado, as escolas foram já informadas sobre como proceder no caso de professores que sofram de doenças incapacitantes, inclusive as contraídas no exercício da actividade - facilmente comprováveis, e na grande maioria relacionadas com o foro psiquiátrico ou a especialidade de otorrinolaringologia: estes não poderão ver a sua componente lectiva convertida noutro tipo de trabalho dentro das instituições.
Um docente que tenha contraído cancro nas cordas vocais ao longo dos anos de exercício, e mesmo recuperado após operação, caso não esteja habilitado a leccionar (após remoção das cordas vocais, dificilmente!), não poderá realizar tarefas de carácter pedagógico, didáctico, administrativo, de apoio às actividades curriculares e extracurriculares, essenciais ao funcionamento das escolas. Não poderá trabalhar na planificação, realização, coordenação de actividades, provas, exames; não poderá ocupar-se do apoio a espaços como uma sala de estudo, uma mediateca ou uma biblioteca. Não podendo leccionar, restar-lhe-á apresentar atestado médico após atestado médico, recebendo, desta forma, avaliação anual negativa por falta de assiduidade, e sendo rapidamente colocado nos excedentários.
Quem adoece, entra, portanto, em situação de despedimento por justa causa, sem direito a reforma por invalidez. Os doentes são excedentes. Quem deu os seus melhores anos a uma profissão, e nela se incapacitou, perdeu o lugar. Perdeu o direito à protecção que qualquer honesto patrão garante, e para a qual contribuiu justamente. Tornou-se lixo. É esta a salvação do mundo que louva a rapaziada dos blogues aqui mesmo ao lado: o doce capitalismo louco e impiedoso que nos matará depressa. A mim, claro. À professora de Aveiro. E a vós, que me ledes pensando que sim, é verdade, mas é só com os outros.
"Porque temos de pensar só em nós, ser individualistas. Dar espaço ao privado. Ninguém por ninguém. Cada um por si. Cada um que se desenrasque. Como na América, esse paraíso."
O que aconteceu à professora de Aveiro foi simples: tinha leucemia. Era lixo. Merecia nada. Desenrascasse-se lá como quisesse ou pudesse. É o que nos vai acontecer se não mexemos uma palha, se continuarmos aqui muito sentadinhos a deixar que nos tomem pelos parvos que nem somos.
Quem não trata os alheios como gostaria que o tratassem a si, e aos seus, atropelando princípios básicos universais de solidariedade e justiça, deve ser julgado por crimes contra a humanidade. Aqueles que não matam com as suas mãos, mas assinam a mandar matar. Que delegam. Estes.
Proponho, assim, que o governo português, um colectivo de hipócritas, seja julgado, em tribunal internacional, por crimes contra a humanidade, por instauração da destruição sistemática dos sistemas legais de suporte de vida dos cidadãos que cumprem as obrigações que lhes são impostas.
Quero o Governo Português no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos como qualquer criminoso de baixa índole. Que é.
Temos de ir para a rua. Para a rua. Para a rua. Para a rua. E temos de ser muitos.
O caso da professora de Cacia - Aveiro que sofria de leucemia, e à qual não só não foi concedida a justa reforma por invalidez, como negada a baixa médica, obrigando-a a trabalhar em sofrimento até à morte, é de uma tal gravidade que me pergunto o que estamos a fazer frente aos computadores? Por que não estamos lá fora no Terreiro do Paço, frente à Assembleia da República, nas ruas, manifestando luto e repúdio e raiva pelo desrespeito, desamparo mortais a que foi condenada? Estamos calados porquê? Com medo de quê, exactamente? De nos "aleijarmos" porque pensamos, porque nos manifestamos?
E os colegas? E os alunos? Os pais do alunos? E o Sindicato de Professores? Como é que um caso desta gravidade só é revelado após a morte da professora?
Isto não foi um engano que se cometeu com a professora de Aveiro. Isto é aquilo a que cada um de nós está condenado no dia em que não puder trabalhar.
Parece que não é com ninguém, que não toca a ninguém? Isto é o que nos vai acontecer quando precisarmos do apoio da Segurança Social para a qual contribuímos a cada salário.
O que este caso nos atira pelos olhos dentro é tão simples quanto isto: as juntas médicas a que são sujeitos os funcionários incapacitados, têm ordens para devolver aos serviços as pessoas que se encontram impossibilitadas de o realizar. Estão às ordens do poder político, não da saúde.
Ficamos a saber que as decisões dos clínicos que compõem as equipas que realizam as juntas do Ministério da Educação, e de outros, dependem, agora, não de diagnósticos comprovados medicamente, mas de decisões políticas, das que lhe pagam a avença. Executores, portanto. Que não se sentem na legítima obrigação de sobrepor a sua decisão clínica a uma qualquer decisão administrativa da Insegurança Social.
Como cidadã portuguesa, contribuinte, e ser humano, quero que me expliquem muito bem, e depressa, porque vêm aí as férias de Verão, as razões por que não o fizeram. Por que código deontológico se regeram, neste caso?
Por outro lado, as escolas foram já informadas sobre como proceder no caso de professores que sofram de doenças incapacitantes, inclusive as contraídas no exercício da actividade - facilmente comprováveis, e na grande maioria relacionadas com o foro psiquiátrico ou a especialidade de otorrinolaringologia: estes não poderão ver a sua componente lectiva convertida noutro tipo de trabalho dentro das instituições.
Um docente que tenha contraído cancro nas cordas vocais ao longo dos anos de exercício, e mesmo recuperado após operação, caso não esteja habilitado a leccionar (após remoção das cordas vocais, dificilmente!), não poderá realizar tarefas de carácter pedagógico, didáctico, administrativo, de apoio às actividades curriculares e extracurriculares, essenciais ao funcionamento das escolas. Não poderá trabalhar na planificação, realização, coordenação de actividades, provas, exames; não poderá ocupar-se do apoio a espaços como uma sala de estudo, uma mediateca ou uma biblioteca. Não podendo leccionar, restar-lhe-á apresentar atestado médico após atestado médico, recebendo, desta forma, avaliação anual negativa por falta de assiduidade, e sendo rapidamente colocado nos excedentários.
Quem adoece, entra, portanto, em situação de despedimento por justa causa, sem direito a reforma por invalidez. Os doentes são excedentes. Quem deu os seus melhores anos a uma profissão, e nela se incapacitou, perdeu o lugar. Perdeu o direito à protecção que qualquer honesto patrão garante, e para a qual contribuiu justamente. Tornou-se lixo. É esta a salvação do mundo que louva a rapaziada dos blogues aqui mesmo ao lado: o doce capitalismo louco e impiedoso que nos matará depressa. A mim, claro. À professora de Aveiro. E a vós, que me ledes pensando que sim, é verdade, mas é só com os outros.
"Porque temos de pensar só em nós, ser individualistas. Dar espaço ao privado. Ninguém por ninguém. Cada um por si. Cada um que se desenrasque. Como na América, esse paraíso."
O que aconteceu à professora de Aveiro foi simples: tinha leucemia. Era lixo. Merecia nada. Desenrascasse-se lá como quisesse ou pudesse. É o que nos vai acontecer se não mexemos uma palha, se continuarmos aqui muito sentadinhos a deixar que nos tomem pelos parvos que nem somos.
Quem não trata os alheios como gostaria que o tratassem a si, e aos seus, atropelando princípios básicos universais de solidariedade e justiça, deve ser julgado por crimes contra a humanidade. Aqueles que não matam com as suas mãos, mas assinam a mandar matar. Que delegam. Estes.
Proponho, assim, que o governo português, um colectivo de hipócritas, seja julgado, em tribunal internacional, por crimes contra a humanidade, por instauração da destruição sistemática dos sistemas legais de suporte de vida dos cidadãos que cumprem as obrigações que lhes são impostas.
Quero o Governo Português no Tribunal Europeu dos Direitos Humanos como qualquer criminoso de baixa índole. Que é.
Temos de ir para a rua. Para a rua. Para a rua. Para a rua. E temos de ser muitos.
segunda-feira, junho 18, 2007
Flávia

Para Flávia, a velha dos gatos, que morreu há dias.
Era o fim desta tarde, e havia já sombra no baldio de ervas secas onde costumo levar as cadelas. E era tão triste essa sombra das sete. Fria, silenciosa, solitária como a mulher dos gatos que morreu há dias. Os caules secos das ervas altas tombavam-se uns nos outros, criando um barulho só, muito só, de palha que se emaranhava sem vida, como a mulher dos gatos que morreu há dias.
Que lugar tão solitário, e tão puro na réstia de luz que ainda escapava. Que lugar tão silencioso desse barulho que era uma dança seca. Tão puro, tão só, tão frio.
A velha dos gatos devia estar ao meu lado. Devia estar a contar-me, "o meu marido morreu muito novo. Depois morreu o meu filho. Tinha diabetes. Primeiro amputaram-lhe as pernas, coitadinho. Sofreu muito." A velha dos gatos devia estar a repetir-me a mesma história pela centésima vez, mesmo perto do meu ouvido. Mas agora eu não ouvia, e não pensava, "é como se estivesses morta - morreste com eles". Não podia. Agora eu não pensava, "fala, fala - alguém tem que te ouvir!"
A velha dos gatos morreu há uma semana, e eu sei que não abandonaria os seus queridos. Portanto, ali estava ela, velando pela comida deles, para que a Micas não fosse lambiscá-la, ou a chamá-la de longe, "minha querida, minha linda, estás tão gordinha", e eu, furiosa, porque me atrasava o passeio; eu que estou sempre com pressa.
A velha estava ali. No meio da erva seca, em pé, ao meu lado, contemplando a cadela, "que linda, que gordinha; só não quero que me vá comer a comida dos gatos; e a sua mãezinha, como vai?" Olhei para os dois lados. Para trás. Para a frente. Olhei mesmo, e hei-de ter acertado. Com os olhos postos adiante disse-lhe, "vai-te embora, Flávia, agora vai em paz. Aqui já não há nada para ti." E sei que chorou. Quem não choraria? Não é fácil ser-se mandado embora. Nem mandar. A Flávia sempre chorou como uma criança, e falava gemendo, e fazia-me chorar, como se eu não tivesse outra profissão. Chorar o choro dela.
Chamei a Micas. "Vamos embora. Está frio. São horas". A Flávia ficou a ver-nos partir, abraçada ao peito, como fazia, com os braços deformados. Abraçada ao velho peito só, e alheado. Abraçada com os gatos pretos e os gatos brancos e os gatos malhados, todos num grande molho que aquecia no encolhido peito oco.
domingo, junho 17, 2007
A minha cultura é melhor do que a tua?
À noitinha, estando na cozinha a preparar o jantar, ouço a banda sonora de um filme sueco na sala. A própria Ingrid Bergman está sentada na minha mesa, explicando ao Rosselini, pelo Skipe, com gravidade, os solavancos, as pausas próprios da língua eslava, por que motivo ele não pode ser tão latino, por que motivo tem de saber ouvir uma crítica e trabalhar em equipa.
E eu, entre o pastel de bacalhau e o arroz de tomate, sinto-me muito pequenina e dividida entre a sapiência da mamã e a intuição do papá.
E eu, entre o pastel de bacalhau e o arroz de tomate, sinto-me muito pequenina e dividida entre a sapiência da mamã e a intuição do papá.
sábado, junho 16, 2007
Altruísmo
Era uma mulher altruísta, e havia decidido doar o corpo à ciência. Mas a ciência, pensou, "era fria, e não fazia uso cabal de cada centímetro útil de pele arável" - era mais as entranhas: o coração, os fígados, e custava-lhe pensar nas suas partes tão queridas que seriam desperdiçadas, atiradas para a incineradora do hospital como uma vulgar perna amputada.
Por esse motivo, decidiu doar o corpo inteiro, ainda em vida, à associação de lésbicas do seu município, e foi muito mais feliz.
Por esse motivo, decidiu doar o corpo inteiro, ainda em vida, à associação de lésbicas do seu município, e foi muito mais feliz.
sexta-feira, junho 15, 2007
Passeio dos tristes
Os portugueses, como se sabe, gostam de sofá, e não sentem motivação para se unirem em movimentos populares espontâneos.
Ah, não é bem isso, que injustiça para os portugueses! Claro que existe movimentação popular espontânea, mas só em casos específicos de justificado interesse público: ou seja, se lhes cheirar a sangue, se houver catástrofe, se for mórbido.
Os portugueses não saem de casa para contemplar um final de tarde marítimo, mas não resistem a uma visita à zona norte da Caparica, a tal que as marés destruíram.
Os portugueses não encontram sentido na observação da natureza, a menos que, no meio da paisagem, se estendam os despojos amalgamados de um violento acidente de viação.
Portanto, este Domingo, o habitual passeio dos tristes será campestre, e a Sul: Odiáxere, estrada rural na serra algarvia, junto a Arão, a cerca de 15 quilómetros da praia da Luz.
Esperam-se vendedores de farturas.
Ah, não é bem isso, que injustiça para os portugueses! Claro que existe movimentação popular espontânea, mas só em casos específicos de justificado interesse público: ou seja, se lhes cheirar a sangue, se houver catástrofe, se for mórbido.
Os portugueses não saem de casa para contemplar um final de tarde marítimo, mas não resistem a uma visita à zona norte da Caparica, a tal que as marés destruíram.
Os portugueses não encontram sentido na observação da natureza, a menos que, no meio da paisagem, se estendam os despojos amalgamados de um violento acidente de viação.
Portanto, este Domingo, o habitual passeio dos tristes será campestre, e a Sul: Odiáxere, estrada rural na serra algarvia, junto a Arão, a cerca de 15 quilómetros da praia da Luz.
Esperam-se vendedores de farturas.
quinta-feira, junho 14, 2007
Revisitar o caso Joana
Uma menina desapareceu, em Portimão, em Setembro de 2004.
Aparentemente, os pais não lhe dedicavam grande carinho ou atenção. Crescia ao Deus-dará.
Desempregados; pobres, mal formados, e quase lumpens. Os culpados ideais, sem dinheiro para grandes defesas, ignorantes dos processos legais. E melhor, com cara de culpados.
A mãe aparentava calma. Não se lhe vislumbrava tristeza nem pena. Não parecia sofrer. Isso, bem como a falta de credibilidade de uma história mal contada, alertou as autoridades.
No princípio, os vizinhos ainda referiram uma eventual venda da criança, pelos pais. Falou-se nisso, mas a tese morreu. Oh, aquilo era gente má. Bichos que moravam na última casa da rua. Ainda me lembro do argumento imbatível de uma vizinha: deixavam a roupa a secar no arame, se preciso fosse, a semana inteira. Assassinos!
A mãe da menina, irmão e companheiro foram interrogados, os dois primeiros considerados suspeitos, e sujeitos a prisão preventiva. Confessaram homicídio. O corpo da criança passou a ser procurado por todos os lugares. Organizaram-se "batidas" ao cadáver. O tio ia dizendo à polícia que o tinha depositado por ali, achava, mas não se lembrava exactamente: tinha sido de noite - em nenhum desses lugares apareceu o corpo de Joana.
Parecia querer ganhar tempo, o raio homem, não reconhecer os sítios, não saber o que fazia e dizia.
Seguiram-se rumores de que a criança havia surpreendido mãe e tio em pleno acto sexual, e que esse teria sido o móbil do crime. A meu ver, só se justificaria a morte de uma criança, por tal motivo, em caso de acidente: ter-lhe-iam dado um encontrão, um bofetão, a miúda caíra e batera com a cabeça de forma fatal. Caso contrário, qualquer mãe negligente saberia subornar uma criança, iludi-la bem iludida, provar-lhe que não vira o que pensava ter visto.
Umas semanas depois da prisão, soube-se que os já culpados tinham confessado: tinham-na cortado às postas e congelado na arca frigorífica; mas depois já era num congelador vulgar. Tinham atirado os restos aos porcos. O povo deixou cair as queixadas. Era tudo o que se queria ouvir. Parecia um filme americano dos que passam no Lusomundo do Fórum Almada, admito.
Entretanto, as provas apresentadas a tribunal não foram conclusivas. O sangue nas arcas não pertencia à menina assassinada. Havia vestígios de sangue na parede, e no chão, mas quando a polícia chegou, estava tudo lavado com lixívia. Eis aqui a explicação para a roupa no arame a semana inteira: preocupavam-se mais com a higiene dos interiores.
O sangue poderia vir de um dedo cortado ao descascar batatas, de caça trazida para dentro. Não havia provas. Apenas as confissões fáceis ou difíceis dos suspeitos - difíceis, no caso de Leonor Cipriano, pelo estado que documentam as fotos de que se serviu para apresentar queixa por sevícias, durante um interrogatório levado a cabo por agentes que se julgariam personagens da série 24.
O tribunal condenou cada irmão a década e meia de prisão, sem que tenha sido encontrado o corpo da criança. Foram, portanto, condenados por um presumível homicídio. E, voltemos à questão mal sarada: ocorreu, de facto? Joana poderá estar morta. Mas tê-la-ão matado a mãe e o tio?
Uma coisa é certa, os suspeitos não foram defendidos por João Nabais, Serra Lopes ou Ricardo Sá Fernandes, ou teriam entrado no processo uns tickets da Brisa, ou similares, e muita água correria ainda por debaixo de todas as pontes.
Outra coisa é certa: aquela gente de Portimão tem uma pele muito escura, e falta de dentes, e andam tão mal vestidos! Parecem tão reles, tão baixos! Trazem a sentença escrita na testa.
João Grade, advogado da mãe, afirma, agora, estar convencido que Joana não foi assassinada, mas vendida a alguém por 50 mil euros. Nesse caso, mãe e tio estarão inocentes do crime de que os acusam, para serem, eventualmente, culpados de outro.
Se assim for, o que os terá levado a esconder tal negócio, trocando-o pela grave condenação de homícídio voluntário? A necessidade de que a criança não fosse procurada pela via do desaparecimento/rapto, nem encontrada, porque 50 mil euros é dinheiro, e a render em Espanha, durante década e meia, deve dar para casa com piscina, e minis para toda a vida?
Parece-vos impossível?
A mim, não. O caso, visto a esta segunda luz, torna-se tão palpável, tão mais familiar.
E se Joana e Maddie seguiram ambas o mesmo destino, por portas que se abriam com chaves diferentes?
Especular, etimologicamente, usar o speculum (espelho), permite olhar uma imagem, vê-la de fora para dentro. O real não tem uma única direcção. O espelho mostra essa inversão de sentido de um mesmo caminho. Pode ser um trabalho útil. Não é um fim, mas um meio, e aí se confina.
E Joana, estará viva?
Aparentemente, os pais não lhe dedicavam grande carinho ou atenção. Crescia ao Deus-dará.
Desempregados; pobres, mal formados, e quase lumpens. Os culpados ideais, sem dinheiro para grandes defesas, ignorantes dos processos legais. E melhor, com cara de culpados.
A mãe aparentava calma. Não se lhe vislumbrava tristeza nem pena. Não parecia sofrer. Isso, bem como a falta de credibilidade de uma história mal contada, alertou as autoridades.
No princípio, os vizinhos ainda referiram uma eventual venda da criança, pelos pais. Falou-se nisso, mas a tese morreu. Oh, aquilo era gente má. Bichos que moravam na última casa da rua. Ainda me lembro do argumento imbatível de uma vizinha: deixavam a roupa a secar no arame, se preciso fosse, a semana inteira. Assassinos!
A mãe da menina, irmão e companheiro foram interrogados, os dois primeiros considerados suspeitos, e sujeitos a prisão preventiva. Confessaram homicídio. O corpo da criança passou a ser procurado por todos os lugares. Organizaram-se "batidas" ao cadáver. O tio ia dizendo à polícia que o tinha depositado por ali, achava, mas não se lembrava exactamente: tinha sido de noite - em nenhum desses lugares apareceu o corpo de Joana.
Parecia querer ganhar tempo, o raio homem, não reconhecer os sítios, não saber o que fazia e dizia.
Seguiram-se rumores de que a criança havia surpreendido mãe e tio em pleno acto sexual, e que esse teria sido o móbil do crime. A meu ver, só se justificaria a morte de uma criança, por tal motivo, em caso de acidente: ter-lhe-iam dado um encontrão, um bofetão, a miúda caíra e batera com a cabeça de forma fatal. Caso contrário, qualquer mãe negligente saberia subornar uma criança, iludi-la bem iludida, provar-lhe que não vira o que pensava ter visto.
Umas semanas depois da prisão, soube-se que os já culpados tinham confessado: tinham-na cortado às postas e congelado na arca frigorífica; mas depois já era num congelador vulgar. Tinham atirado os restos aos porcos. O povo deixou cair as queixadas. Era tudo o que se queria ouvir. Parecia um filme americano dos que passam no Lusomundo do Fórum Almada, admito.
Entretanto, as provas apresentadas a tribunal não foram conclusivas. O sangue nas arcas não pertencia à menina assassinada. Havia vestígios de sangue na parede, e no chão, mas quando a polícia chegou, estava tudo lavado com lixívia. Eis aqui a explicação para a roupa no arame a semana inteira: preocupavam-se mais com a higiene dos interiores.
O sangue poderia vir de um dedo cortado ao descascar batatas, de caça trazida para dentro. Não havia provas. Apenas as confissões fáceis ou difíceis dos suspeitos - difíceis, no caso de Leonor Cipriano, pelo estado que documentam as fotos de que se serviu para apresentar queixa por sevícias, durante um interrogatório levado a cabo por agentes que se julgariam personagens da série 24.
O tribunal condenou cada irmão a década e meia de prisão, sem que tenha sido encontrado o corpo da criança. Foram, portanto, condenados por um presumível homicídio. E, voltemos à questão mal sarada: ocorreu, de facto? Joana poderá estar morta. Mas tê-la-ão matado a mãe e o tio?
Uma coisa é certa, os suspeitos não foram defendidos por João Nabais, Serra Lopes ou Ricardo Sá Fernandes, ou teriam entrado no processo uns tickets da Brisa, ou similares, e muita água correria ainda por debaixo de todas as pontes.
Outra coisa é certa: aquela gente de Portimão tem uma pele muito escura, e falta de dentes, e andam tão mal vestidos! Parecem tão reles, tão baixos! Trazem a sentença escrita na testa.
João Grade, advogado da mãe, afirma, agora, estar convencido que Joana não foi assassinada, mas vendida a alguém por 50 mil euros. Nesse caso, mãe e tio estarão inocentes do crime de que os acusam, para serem, eventualmente, culpados de outro.
Se assim for, o que os terá levado a esconder tal negócio, trocando-o pela grave condenação de homícídio voluntário? A necessidade de que a criança não fosse procurada pela via do desaparecimento/rapto, nem encontrada, porque 50 mil euros é dinheiro, e a render em Espanha, durante década e meia, deve dar para casa com piscina, e minis para toda a vida?
Parece-vos impossível?
A mim, não. O caso, visto a esta segunda luz, torna-se tão palpável, tão mais familiar.
E se Joana e Maddie seguiram ambas o mesmo destino, por portas que se abriam com chaves diferentes?
Especular, etimologicamente, usar o speculum (espelho), permite olhar uma imagem, vê-la de fora para dentro. O real não tem uma única direcção. O espelho mostra essa inversão de sentido de um mesmo caminho. Pode ser um trabalho útil. Não é um fim, mas um meio, e aí se confina.
E Joana, estará viva?
quarta-feira, junho 13, 2007
Um sítio de ninhos

A minha casa fica no ar. No Verão, abro as janelas o dia inteiro. A minha casa fica na copa de uma velha árvore alta, entre ramos e folhagem, para que eu exista no mundo como se não lhe pertencesse.
Hoje, ao anoitecer, uma andorinha-bebé entrou pela janela da sala e ficou voando aos círculos, perdida, sem compreender por onde entrara.
Escondeu-se na estante, num vão entre livros, local onde fui resgatá-la, fechando-a muito de leve na concha das mãos, olhando-lhe o biquinho, a ponta da cauda, só um instante, a medo.
Assustava-se.
Como pensa uma andorinha-bebé que ainda não conhece a vileza ? "Estou neste lugar; não é o meu; quero sair deste lugar." Mais nada. Quando me aproximei, terá pensado, "um bicho grande e feio: não quero ser apanhada. Bato as asas."
Pousei-a no rebordo da janela, e abri as mãos, com pena; percebeu-se livre e voou em direcção ao Mar da Palha. Perdi-a de vista muito antes.
Um dia a minha casa será um pombal, um sítio de ninhos, e quem chegar não me encontrará, porque estarei a catar as outras aves da minha espécie.
Hoje, ao anoitecer, uma andorinha-bebé entrou pela janela da sala e ficou voando aos círculos, perdida, sem compreender por onde entrara.
Escondeu-se na estante, num vão entre livros, local onde fui resgatá-la, fechando-a muito de leve na concha das mãos, olhando-lhe o biquinho, a ponta da cauda, só um instante, a medo.
Assustava-se.
Como pensa uma andorinha-bebé que ainda não conhece a vileza ? "Estou neste lugar; não é o meu; quero sair deste lugar." Mais nada. Quando me aproximei, terá pensado, "um bicho grande e feio: não quero ser apanhada. Bato as asas."
Pousei-a no rebordo da janela, e abri as mãos, com pena; percebeu-se livre e voou em direcção ao Mar da Palha. Perdi-a de vista muito antes.
Um dia a minha casa será um pombal, um sítio de ninhos, e quem chegar não me encontrará, porque estarei a catar as outras aves da minha espécie.
O último andar

No último andar é mais bonito:
do último andar se vê o mar.
É lá que eu quero morar.
O último andar é muito longe:
custa-se muito a chegar.
Mas é lá que eu quero morar.
Todo o céu fica a noite inteira
sobre o último andar
É lá que eu quero morar.
Quando faz lua no terraço
fica todo o luar.
É lá que eu quero morar.
Os passarinhos lá se escondem
para ninguém os maltratar:
no último andar.
De lá se avista o mundo inteiro:
tudo parece perto, no ar.
É lá que eu quero morar:
no último andar.
Cecília Meireles, Ou isto ou aquilo
terça-feira, junho 12, 2007
domingo, junho 10, 2007
A dor é igual
Esporadicamente desaparecem crianças sem que haja testemunhas, sem que seja possível incriminar alguém. Os suspeitos plausíveis estão sempre acima de suspeita: estranho padrão.
Em Portugal é muito conhecido o caso do Rui Pedro, porque a inconformada mãe do rapaz veio para a rua gritar a sua dor, chorar, acusar as autoridades, e exigir delas uma investigação empenhada, como eu teria feito se o meu próprio filho desaparecesse. Chamaram-lhe maluca. Que a mulher era uma histérica, uma desequilibrada. Que se calasse. Que ridícula!
Outros pais de crianças desaparecidas têm sofrido, num silêncio abatido, a perda incompreensível que os atingiu, até restar uma dor seca, morta.
Até hoje, em Portugal, a polícia investigava até onde conseguia, depois avisava as organizações internacionais, e sentava-se à espera que as crianças aparecessem, vivas ou mortas, por obra e graça do espírito santo. Muito de vez em quando, seguiam uma pista que dava em nada. Nunca nenhuma apareceu. O método, comprovadamente, não resulta.
Com Maddie, alguma coisa parece ter mudado.
Os pais de Maddie andam em tour. Acho bem. Quem, podendo, não moveria montanhas, não as rebentaria por dentro, não mandaria legados aos quatro cantos do planeta, com a missão de procurar o filho em casas pobres e ricas, pequenas ou grandes, sótãos, caves, arrecadações, armários, fundos falsos? Quem não mandaria furar o planeta até ao núcleo?
A mãe de Rui Pedro, e outros pais, portugueses ou não, não puderam fazê-lo. Não eram cardiologistas nem empresários de gabarito. Trabalhavam para pagar a comida, a renda e o carro. Não tinham rendimentos para tirar férias, quanto mais para viajar. Era preciso trabalhar e assegurar a sobrevivência dos restantes filhos. Não eram ninguém. Quem é ninguém não sonha ser recebido pelo papa nem pelos representantes máximos das polícias internacionais. Quem é ninguém não tem como andar em tour, buscando o seu filho. Quem é ninguém fica em casa, com os olhos presos a fotos, perguntando "porquê, porquê" até a palavra se tornar um gemido informe.
Maddie tornou-se um caso internacional, com grande exposição, e as polícias parecem realmente preocupadas. Já li sobre investigações via satélite. E acho bem, já disse.
Mas milhares de crianças que não são louras, nem particularmente brancas e abonecadas, nem filhas de pais britânicos de classe alta, com bom aspecto e vida perfeita, suficientemente fotogénicos e decorativos para merecer destaque nas revistas, têm desaparecido ao longo dos anos, continuarão a desaparecer, merecendo exactamente o mesmo tipo de tratamento, no que respeita à investigação dos seus casos pelas autoridades.
Não há filhos mais importantes. Há é pais com mais poder que outros. E esses, nisto, como em tudo, têm mais atenções.
sexta-feira, junho 08, 2007
E depois arranquei as penas
As histórias de amor não podem ter finais felizes.
Na sua essência, digamos, helénica, as histórias de amor são de uma exacta rigidez trágica: arrancam-nos o coração pela costas. E não há outra forma. Se existe uma ordem do mundo, esta regra está nela contida.
As histórias de amor que terminam bem transformam-se em comédias do quotidiano, da vida privada: e depois viveram felizes para sempre; ela lavava a louça, e ele limpava os pratos com um pano de cozinha às flores amarelas. Um dia rompeu-se um cano, houve uma inundação em casa, e quase tiveram problemas com os vizinhos de baixo, um casal de swingers, felizmente muito compreensivo.
Gostamos de comédia de costumes, mas a comédia, que nos liberta à sua maneira, não nos arranca o coração pelas costas.
Queremos o amor intemporal, que rasga com faca larga, arranca as entranhas num golpe frio, nos aniquila, nos suicida, real ou simbolicamente. Queremos a garantia de que ultrapassámos as circunstâncias do corpo, sagrado e estúpido, e já não somos o nosso lugar. Nenhum lugar.
Na sua essência, digamos, helénica, as histórias de amor são de uma exacta rigidez trágica: arrancam-nos o coração pela costas. E não há outra forma. Se existe uma ordem do mundo, esta regra está nela contida.
As histórias de amor que terminam bem transformam-se em comédias do quotidiano, da vida privada: e depois viveram felizes para sempre; ela lavava a louça, e ele limpava os pratos com um pano de cozinha às flores amarelas. Um dia rompeu-se um cano, houve uma inundação em casa, e quase tiveram problemas com os vizinhos de baixo, um casal de swingers, felizmente muito compreensivo.
Gostamos de comédia de costumes, mas a comédia, que nos liberta à sua maneira, não nos arranca o coração pelas costas.
Queremos o amor intemporal, que rasga com faca larga, arranca as entranhas num golpe frio, nos aniquila, nos suicida, real ou simbolicamente. Queremos a garantia de que ultrapassámos as circunstâncias do corpo, sagrado e estúpido, e já não somos o nosso lugar. Nenhum lugar.
quinta-feira, junho 07, 2007
quarta-feira, junho 06, 2007
Truques velhos da nova mulher [com cérebro de homem]
Quanto mais pensará Fátima Felgueiras ter de baixar e alargar os decotes para conseguir a entretida e consolada complacência (indizível, impensável!) de tribunal, governo, causídicos, comunicação social e opinião pública, no que respeita ao seu pouco provável envolvimento no caso "saco azul-corrupção larga"?
Porque, bem vistos os decotes, como é que uma senhora tão linda, tão simpática, e com mamas tão jeitosas, haveria de ser meter em assuntos tão pouco elegantes?
Quem olhe bem para Fátima Felgueiras, e a veja toda, toda e muito bem, e de perto, percebe que a senhora está a léguas de culpada.
Porque, bem vistos os decotes, como é que uma senhora tão linda, tão simpática, e com mamas tão jeitosas, haveria de ser meter em assuntos tão pouco elegantes?
Quem olhe bem para Fátima Felgueiras, e a veja toda, toda e muito bem, e de perto, percebe que a senhora está a léguas de culpada.
terça-feira, junho 05, 2007
Um frasco de veneno
Um miúdo de 12 anos escolheu-me para perguntar se eu acreditava que se podia morrer de tristeza.
Respondi-lhe sem hesitação. Que sim, que tinha a certeza absoluta, que podia morrer-se de tristeza.
Mas ele quis perceber melhor, e pediu-me que esclarecesse, "Porque se deixa de comer, e se fica muito fraco, e por isso se morre, não é?"
Fixei-o durante cinco segundos no máximo. Ele tinha 12 anos. "Que se lixe", pensei, e respondi, segura, "Não, não, morre-se porque a tristeza mata como se se bebesse um frasco de veneno!"
O miúdo calou-se.
Depois tive pena dele, voltei-me, e disse-lhe, "Deixa lá, não ligues, eu é que sou muito trágica!"
Respondi-lhe sem hesitação. Que sim, que tinha a certeza absoluta, que podia morrer-se de tristeza.
Mas ele quis perceber melhor, e pediu-me que esclarecesse, "Porque se deixa de comer, e se fica muito fraco, e por isso se morre, não é?"
Fixei-o durante cinco segundos no máximo. Ele tinha 12 anos. "Que se lixe", pensei, e respondi, segura, "Não, não, morre-se porque a tristeza mata como se se bebesse um frasco de veneno!"
O miúdo calou-se.
Depois tive pena dele, voltei-me, e disse-lhe, "Deixa lá, não ligues, eu é que sou muito trágica!"
segunda-feira, junho 04, 2007
nacionalidade
Quando chego a casa após um dia inteiro de trabalho, barulho e calor, e abro a porta, e me atinge uma baforada de sombra e silêncio, sinto que atravessei a fronteira, e que cheguei ao meu pais. E tenho ganas de rasgar o passaporte.
nº 162, do lado direito de quem sobe, e eu sou o mais bonito
Ao final do dia, quando encerra a feira do livro, resta sempre muito lixo, muita papelada que os empregados da câmara maldizem, mas têm de recolher. É para que serve a criadagem, mesmo a dos serviços públicos de limpeza!Fiz copy/paste deste poste de ontem, no Da Literatura, que é um blogue sobre literatura, louça Limoges e lojas gourmet, variado, portanto, como O Mundo Perfeito, mas não de tão baixo coturno.
Considero que qualquer blogger responsável deverá saber escrever um poste igualmente rico em informação sobre feiras do livro, localização dos pavilhões, edições próprias, et coetera.
Publico por motivos puramente didácticos.
Também acabei agora de ler o Cidade Proibida, e declaro-me mortinha por trocar impressões literárias com alguém!
Sábado, Junho 02, 2007
FEIRAS DO LIVRO
Hoje à tarde, das 16:30h às 18:00h, vou estar na Feira do Livro de Lisboa, no pavilhão da QuidNovi [n.º 162, lado direito de quem sobe do Marquês], a assinar três livros: o romance Cidade Proibida, os contos reunidos em Persona e o soi disant livro do blogue, Intriga em Família. Os dois primeiros são da QuidNovi e o terceiro da Quasi (mas hoje estão todos à venda no pavilhão n.º 162). No próximo sábado, dia 9, farei o mesmo no Porto.
posted by Eduardo Pitta at 10:40 AM
Considero que qualquer blogger responsável deverá saber escrever um poste igualmente rico em informação sobre feiras do livro, localização dos pavilhões, edições próprias, et coetera.
Publico por motivos puramente didácticos.
Também acabei agora de ler o Cidade Proibida, e declaro-me mortinha por trocar impressões literárias com alguém!
Sábado, Junho 02, 2007
FEIRAS DO LIVRO
Hoje à tarde, das 16:30h às 18:00h, vou estar na Feira do Livro de Lisboa, no pavilhão da QuidNovi [n.º 162, lado direito de quem sobe do Marquês], a assinar três livros: o romance Cidade Proibida, os contos reunidos em Persona e o soi disant livro do blogue, Intriga em Família. Os dois primeiros são da QuidNovi e o terceiro da Quasi (mas hoje estão todos à venda no pavilhão n.º 162). No próximo sábado, dia 9, farei o mesmo no Porto.
posted by Eduardo Pitta at 10:40 AM
domingo, junho 03, 2007
Do recente interesse das mulheres pelo futebol

O que importa são as tendências. Para compreender o que se passa fora das nossas paredes, convém escrutinar amálgamas de comportamentos face à moda, à gastronomia, ao sexo, linguagem, desporto, e por aí fora. Nenhum fenómeno social aparece do nada. No nosso tempo, a falácia da liberdade sexual, gerou uma espiral de mudanças que nos soam estranhas.
Cá na minha ideia, o interesse das mulheres pelo desporto é uma tendência em tudo paralela ao uso de apetrechos sexuais, e à prática de sexo anal. Trata-se, no essencial, do mesmo fenómeno de descoberta, associado ao trabalho eficaz da máquina que hoje produz comportamentos e consumos: media e publicidade.
Quando tinha 18 anos, aos vibradores chamava-se-lhes massajadores faciais, e as raparigas riam-se de embaraço, quando os viam nos catálogos de vendas por correio. Hoje, estão nas prateleiras das farmácias de serviço, bem acondicionados, é certo, mas ao lado de qualquer outro produto Durex. Há umas semanas, cheia de honesta e ingénua curiosidade, perguntei à ajudante da farmácia onde me abasteço, o que continham as caixas lilás e rosa ao lado do Durex play; a senhora explicou-me, com a mesma seriedade com que descreve a toma do antibiótico, as diversas funcionalidades dos objectos que se encontravam nas duas ou três caixas de diferentes tamanhos.
Aos 18 anos, imaginava que o sexo anal fosse um comportamento assaz desviante, próprio do universo homossexual, mas hoje constato que querer dar ou levar na padeira, própria ou alheia, pouco ou muito, só para experimentar ou já nos domínios da parafilia, é fenómeno que atingiu a todos.
Mas, o futebol, senhores! Que nunca foi pecaminoso nem propriamente proibido às mulheres! Que apenas as enfadava! Como compreender o súbito interesse por fruto tão pouco apetecido?!
O recente entusiasmo das portuguesas pelo futebol - jogos, jogadores, clubes, campeonatos - surgiu primeiro noutros países europeus onde as mulheres atingiram, cedo, territórios masculinos, e aparentemente justifica a sua permanência nesse mundo que foi só deles: a repartição, o gabinete, o café, o grupo de colegas de escola, universidade ou emprego. Integra-as. Se as mulheres partilham os espaços profissionais e culturais onde eles eram maioritários, e reinantes, faz um certo sentido, numa óptica patriarcal, a única visão do mundo que as mulheres conhecem e aceitam, ainda, que passem a interessar-se pelos discursos que os moviam e ligavam nesses contextos. A saber, independentemente da classe social a que pertençam os elementos do sexo masculino: futebol, cervejolas e gajas.
As mulheres entraram no futebol, inicialmente, pela porta dos jogadores: conheciam-nos; o Simão tinha pernas lindas; o cabelo do Nuno era de morrer, e o rabo de não sei quem era delicioso. Lembro-me desta época. Lembro-me que achei estranho. Até aí, poucas mulheres se interessavam por bola. Eram sobretudo as mães de rapazes, que suportavam dominicais injecções de convívio futebolístico.
No princípio, os homens gozaram um bocado. Elas comentavam os atractivos sexuais dos jogadores?! Okay, justificava-se, eram mulheres. Era o mais longe que conseguiam chegar.
Cá na minha ideia, o interesse das mulheres pelo desporto é uma tendência em tudo paralela ao uso de apetrechos sexuais, e à prática de sexo anal. Trata-se, no essencial, do mesmo fenómeno de descoberta, associado ao trabalho eficaz da máquina que hoje produz comportamentos e consumos: media e publicidade.
Quando tinha 18 anos, aos vibradores chamava-se-lhes massajadores faciais, e as raparigas riam-se de embaraço, quando os viam nos catálogos de vendas por correio. Hoje, estão nas prateleiras das farmácias de serviço, bem acondicionados, é certo, mas ao lado de qualquer outro produto Durex. Há umas semanas, cheia de honesta e ingénua curiosidade, perguntei à ajudante da farmácia onde me abasteço, o que continham as caixas lilás e rosa ao lado do Durex play; a senhora explicou-me, com a mesma seriedade com que descreve a toma do antibiótico, as diversas funcionalidades dos objectos que se encontravam nas duas ou três caixas de diferentes tamanhos.
Aos 18 anos, imaginava que o sexo anal fosse um comportamento assaz desviante, próprio do universo homossexual, mas hoje constato que querer dar ou levar na padeira, própria ou alheia, pouco ou muito, só para experimentar ou já nos domínios da parafilia, é fenómeno que atingiu a todos.
Mas, o futebol, senhores! Que nunca foi pecaminoso nem propriamente proibido às mulheres! Que apenas as enfadava! Como compreender o súbito interesse por fruto tão pouco apetecido?!
O recente entusiasmo das portuguesas pelo futebol - jogos, jogadores, clubes, campeonatos - surgiu primeiro noutros países europeus onde as mulheres atingiram, cedo, territórios masculinos, e aparentemente justifica a sua permanência nesse mundo que foi só deles: a repartição, o gabinete, o café, o grupo de colegas de escola, universidade ou emprego. Integra-as. Se as mulheres partilham os espaços profissionais e culturais onde eles eram maioritários, e reinantes, faz um certo sentido, numa óptica patriarcal, a única visão do mundo que as mulheres conhecem e aceitam, ainda, que passem a interessar-se pelos discursos que os moviam e ligavam nesses contextos. A saber, independentemente da classe social a que pertençam os elementos do sexo masculino: futebol, cervejolas e gajas.
As mulheres entraram no futebol, inicialmente, pela porta dos jogadores: conheciam-nos; o Simão tinha pernas lindas; o cabelo do Nuno era de morrer, e o rabo de não sei quem era delicioso. Lembro-me desta época. Lembro-me que achei estranho. Até aí, poucas mulheres se interessavam por bola. Eram sobretudo as mães de rapazes, que suportavam dominicais injecções de convívio futebolístico.
No princípio, os homens gozaram um bocado. Elas comentavam os atractivos sexuais dos jogadores?! Okay, justificava-se, eram mulheres. Era o mais longe que conseguiam chegar.

Demonstrar interesse por gajas não foi, para as mulheres, missão propriamente difícil. No meio de homens, e muito ajudadas pela suprema fantasia masculina do paraíso - miúdas no rebolanço umas com as outras - as mulheres perderam a vergonha de dizer abertamente o que me valeu fama de lésbica desde o 7º ano de escolaridade: que as mulheres são lindas e desejáveis, inclusive para outra mulher. Hoje, é lícito declarar-se, em grupos de mulheres, sem se ser olhada de lado, que as mamas de fulana são faraónicas. Que sicrana é belíssima. Mas há dez anos atrás, as mulheres ainda afirmavam não saber apreciar mulheres, mentira piedosa da qual me fui rindo em silêncio.
Embora custe a crer, a cervejola tem sido o principal obstáculo à progressão da portuguesa no mundo do futebol. A cervejola lusa amarga que se farta, mesmo gelada, mesmo a morrer de sede, e não fosse a ajuda do panaché, mais leve de sabor, enfim, bebível, e, recentemente, a bela ideia das cervejeiras, com as green, as pêssego, as framboesa... tudo teria sido mais difícil.
Mas repetir comportamentos masculinos, reforçando-os, para provar serem suas iguais, só seria útil aos grupos sociais se os homens fossem realmente o sexo forte. Nunca foram. E a nós também não nos interessará enfatizar tal concepção muscular e emocional de fraco e forte.
Esse tem sido o grande erro das mulheres: quererem ser aquilo que eles não provaram ser! Quem quer ser homem como os homens? Nem eles!
Evidentemente, a entrada das mulheres neste "pequeno" mundo do futebol não foi conquista alguma. Os homens também se adaptaram?! Passaram a gostar de patinagem no gelo, de néctares de pêssego?! Começaram a admitir que sabiam apreciar gajos?! Que fulano de tal, afinal, era giro?! Não me parece. Portanto, se apenas uma parte da população adaptou novos comportamentos, tudo ficou igual.
Temos, pois, que as mulheres permanecem doces e suaves, mas podem filiar-se no território dos homens, até porque são decorativas, dão graça, alegram. E que os homens continuam durões, aceitando mulheres doces e suaves filiadas no seu território - até lhes dá jeito tê-las à mão - mas, atenção, mantêm-se durões.
Isto foi só o princípio.
Depois, veio o Europeu, a seguir o Mundial - ou ao contrário, sei lá - ambos com a respectiva praga de bandeiras portuguesas, e de efeito pátria. Gostar de futebol já não era apenas gostar de algo pertencente ao território masculino, ao qual passámos a ter acesso. Gostar de futebol era também ser bom português, ou boa portuguesa. E isso contou muito.
Era verão, estava calor, passarinhas e passarões ferviam de exaltação. Sabia bem brincar ao Carnaval, ao final da tarde, depois dos caracóis na esplanada. Era um espectáculo de massas, martelado até ao esgotamento por todas as televisões, em todos os noticiários maiores e menores, e na publicidade, por fios de horas, de fios de horas. A mensagem visual transmitida pelos media, e publicidade, em concorrência, envolvendo mulheres jovens, bonitas e seminuas, ou velhotas gordas, de bata e lenço na cabeça, sacudindo bandeiras nacionais ou ramalhetes de panos da cozinha verdes e vermelhos agradou ao marketing do espectáculo. Promovia-o. Engrandecia-o. Gerava mais receitas. Portanto, a visibilidade das mulheres envolvidas no espectáculo de massas, chamou mais mulheres.
Creio que grandes finais internacionais de futebol desta década terão restabelecido os caudais mínimos de comunicação em muitos casamentos perto do estado pantanoso. De repente, a conversa animou ao jantar. Como tinha sido o jogo de ontem, e a seguir quem jogava com quem, que prognóstico era possível fazer... Nunca as portuguesas aprenderam tanto vocabulário técnico-desportivo em tão pouco tempo: marcar um canto, penalti, falta disto e daquilo... foi uma verdadeira acção de formação nacional massiva.
Acrescente-se-lhe, agora o salutar hábito conjugal mediterrânico, que em Portugal se respeita: gaja que é gaja, e gosta do seu gajo, esforça-se por dialogar com o dito - vem nos conselhos da revista Maria sobre como manter a magia no casamento. Se o seboso só consegue falar de futebol, fale-se de futebol; se não é possível ir com ele a mais lado nenhum, excepto o estádio, ou o café com écran gigante e Eurosport, venha de lá estádio e café com écran e Eurosport, porque, em Portugal, e isto aprende-se cedo, aprende-se em casa, mulher que é mulher, esforça-se primeiro por agradar ao seu homem, e depois logo se vê se vale a pena respirar, viver para além dele.
Resumindo, que isto do futebol cansa-me, e excluindo desta conversa aquelas mulheres que sempre gostaram genuinamente de futebol, porque sempre gostaram de desporto, tal como muitos homens sempre gostaram genuinamente de patinagem no gelo, a maior parte das portuguesas da minha geração, e da que me precede, aprenderam a gostar futebol por motivo bastante ordinário: a integração num grupo de homens - agradar aos companheiros conjugais, de forma geral; acompanhar marido e os filhos; responder às bocas no horário de trabalho ou fora dele, com colegas.
No entanto, é muito provável que a actual tendência acabe por gerar um interesse verdadeiro nas raparigas das gerações futuras. O impacto do futebol junto das mulheres vai, certamente, implicar alterações culturais, e o futebol deixará de ser um feudo masculino. Espero que sim. Resta-me esperar, igualmente, que o futebol se transforme em efectivo desporto, não num mafioso reduto de violência, dentro e fora do campo, ou não as servirá a elas, tal como não os tem servido a eles.
Embora custe a crer, a cervejola tem sido o principal obstáculo à progressão da portuguesa no mundo do futebol. A cervejola lusa amarga que se farta, mesmo gelada, mesmo a morrer de sede, e não fosse a ajuda do panaché, mais leve de sabor, enfim, bebível, e, recentemente, a bela ideia das cervejeiras, com as green, as pêssego, as framboesa... tudo teria sido mais difícil.
Mas repetir comportamentos masculinos, reforçando-os, para provar serem suas iguais, só seria útil aos grupos sociais se os homens fossem realmente o sexo forte. Nunca foram. E a nós também não nos interessará enfatizar tal concepção muscular e emocional de fraco e forte.
Esse tem sido o grande erro das mulheres: quererem ser aquilo que eles não provaram ser! Quem quer ser homem como os homens? Nem eles!
Evidentemente, a entrada das mulheres neste "pequeno" mundo do futebol não foi conquista alguma. Os homens também se adaptaram?! Passaram a gostar de patinagem no gelo, de néctares de pêssego?! Começaram a admitir que sabiam apreciar gajos?! Que fulano de tal, afinal, era giro?! Não me parece. Portanto, se apenas uma parte da população adaptou novos comportamentos, tudo ficou igual.
Temos, pois, que as mulheres permanecem doces e suaves, mas podem filiar-se no território dos homens, até porque são decorativas, dão graça, alegram. E que os homens continuam durões, aceitando mulheres doces e suaves filiadas no seu território - até lhes dá jeito tê-las à mão - mas, atenção, mantêm-se durões.
Isto foi só o princípio.
Depois, veio o Europeu, a seguir o Mundial - ou ao contrário, sei lá - ambos com a respectiva praga de bandeiras portuguesas, e de efeito pátria. Gostar de futebol já não era apenas gostar de algo pertencente ao território masculino, ao qual passámos a ter acesso. Gostar de futebol era também ser bom português, ou boa portuguesa. E isso contou muito.
Era verão, estava calor, passarinhas e passarões ferviam de exaltação. Sabia bem brincar ao Carnaval, ao final da tarde, depois dos caracóis na esplanada. Era um espectáculo de massas, martelado até ao esgotamento por todas as televisões, em todos os noticiários maiores e menores, e na publicidade, por fios de horas, de fios de horas. A mensagem visual transmitida pelos media, e publicidade, em concorrência, envolvendo mulheres jovens, bonitas e seminuas, ou velhotas gordas, de bata e lenço na cabeça, sacudindo bandeiras nacionais ou ramalhetes de panos da cozinha verdes e vermelhos agradou ao marketing do espectáculo. Promovia-o. Engrandecia-o. Gerava mais receitas. Portanto, a visibilidade das mulheres envolvidas no espectáculo de massas, chamou mais mulheres.
Creio que grandes finais internacionais de futebol desta década terão restabelecido os caudais mínimos de comunicação em muitos casamentos perto do estado pantanoso. De repente, a conversa animou ao jantar. Como tinha sido o jogo de ontem, e a seguir quem jogava com quem, que prognóstico era possível fazer... Nunca as portuguesas aprenderam tanto vocabulário técnico-desportivo em tão pouco tempo: marcar um canto, penalti, falta disto e daquilo... foi uma verdadeira acção de formação nacional massiva.
Acrescente-se-lhe, agora o salutar hábito conjugal mediterrânico, que em Portugal se respeita: gaja que é gaja, e gosta do seu gajo, esforça-se por dialogar com o dito - vem nos conselhos da revista Maria sobre como manter a magia no casamento. Se o seboso só consegue falar de futebol, fale-se de futebol; se não é possível ir com ele a mais lado nenhum, excepto o estádio, ou o café com écran gigante e Eurosport, venha de lá estádio e café com écran e Eurosport, porque, em Portugal, e isto aprende-se cedo, aprende-se em casa, mulher que é mulher, esforça-se primeiro por agradar ao seu homem, e depois logo se vê se vale a pena respirar, viver para além dele.
Resumindo, que isto do futebol cansa-me, e excluindo desta conversa aquelas mulheres que sempre gostaram genuinamente de futebol, porque sempre gostaram de desporto, tal como muitos homens sempre gostaram genuinamente de patinagem no gelo, a maior parte das portuguesas da minha geração, e da que me precede, aprenderam a gostar futebol por motivo bastante ordinário: a integração num grupo de homens - agradar aos companheiros conjugais, de forma geral; acompanhar marido e os filhos; responder às bocas no horário de trabalho ou fora dele, com colegas.
No entanto, é muito provável que a actual tendência acabe por gerar um interesse verdadeiro nas raparigas das gerações futuras. O impacto do futebol junto das mulheres vai, certamente, implicar alterações culturais, e o futebol deixará de ser um feudo masculino. Espero que sim. Resta-me esperar, igualmente, que o futebol se transforme em efectivo desporto, não num mafioso reduto de violência, dentro e fora do campo, ou não as servirá a elas, tal como não os tem servido a eles.
sábado, junho 02, 2007
Eis a vossa revelação
Só se vê bem com os olhos. O essencial é invisível ao coração.
Série Actualizar os clássicos: Saint Exupéry
Série Actualizar os clássicos: Saint Exupéry
sexta-feira, junho 01, 2007
Procuro casa e emprego na zona mais poluída de Roma
Um estudo levado a cabo pelo Conselho Nacional de Investigação de Itália concluiu que, no ar que respiram, os habitantes de Roma convivem, além do pólen das plantas, dos gases emitidos pelas indústrias e dos automóveis, com partículas de cocaína e de outras drogas como haxixe.
Correio da Manhã, hoje
O tempo de um gelado no McDonalds
Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...









