quinta-feira, julho 26, 2007

Vida (os ninhos do Verão)


Salvo dúzias de passarinhos caídos, assustados, recém-saídos dos ninhos, batendo num primeiro voo contra os absurdos vidros das lojas e casas. Recolho-os tão leves, miúdos, macios e mornos; os coraçõezinhos batem tão aflitos na palma da minha mão ao devolvê-los aos segundos voos que mal sabem voar.


quarta-feira, julho 25, 2007

Os problemas de trânsito do macho latino



Um dos hábitos asquerosos do macho latino consiste em mofar das mulheres que perdem tempo a arrumar os veículos. Se um homem não arruma o carro à primeira, o lugar é apertado; se se trata de condutora, é previsivelmente incompetente. A mim acontece-me ficarem a rir-se descaradamente, com sorrisos boçais impregnados de hálito azedo a minis, tabaco, ignorância e decomposição neurológica irreversível, enquanto eu me imagino a capá-los com um só golpe certeiro e definitivo.
Entre mim e o macho latino existe uma incompatibilidade inata, sanguínea e cromossómica. Higiénica. Se me convidassem para um inquérito de Verão no qual me perguntassem quem preferiria levar para uma ilha solitária, como companhia de brincadeiras na areia: uma osga, uma ratazana ou um macho latino, escolheria a ratazana, sem hesitação, com certa pena de menosprezar o réptil em favor do roedor mamífero. A osga ou a ratazana não insultam ou agridem sem motivo. Não se consideram donas de um estatuto atribuído por uma questionável identidade sexual. Para além do mais não cheiram mal dos pés nem estão à espera que lhes lave as cuecas enquanto fantasiam sexo rápido com as minhas amigas.

Ora, ando nas últimas voltas antes da partida para férias.
Há umas horas atrás, pretendendo estacionar o carro num lugar em espinha, e após assinalar tal intenção, o condutor-macho-latino atrás de mim, a quem afrontei por ter cometido o fatal erro de parar, recusou ultrapassar-me ou recuar um metro para me facilitar a manobra de frente. O macho não tinha qualquer veículo atrás de si, mas não podendo eu, por questões de geometria angular, arrumar de frente, decidi manobrar: rodei o volante para a esquerda, ocupei a contramão que se encontrava livre de trânsito, e, com o carro atravessado, "desfiz" no sentido contrário, arrumando de uma só vez com a traseira. O macho latino arrancou, mas abrandou para me gritar do habitáculo o que penso ter sido um elogio: "esperta do caralho". Só pode ter sido um elogio pela perfeição da minha manobra, porque o macho não pretendia estacionar. Agradeci em pensamento, porque o saco-de-testosterona-desperdiçada não me deu tempo para lhe responder.
Ocorreu-me ter lido, ontem, no Correio da Manhã do café, sobre um homicídio, junto à doca de Setúbal, por uma questão relacionada com estacionamento de veículos. Tira, não tiro, filho-da-puta, cabrão, porrada... Dois machos latinos.
E pensei, "tive sorte."

terça-feira, julho 24, 2007

A Isabela anda na Lua



O Verão não tortura. Corre doce como nunca o senti, e já lá vão alguns. Sabem-me bem as noites frescas e os dias muito amenos.
Acabo de iniciar as férias, e sinto-me justificadamente preguiçosa e desapegada do computador. Pela primeira vez, desde que O Mundo Perfeito foi criado, passearei e descansarei bem longe dos percursos, caras e afazeres habituais.
A publicação não será totalmente interrompida, mas dependerá da minha possibilidade de acesso à internet, do tempo disponível e das dores nas pernas depois das passeatas. Não me recordo de ter estado mais de três ou quatro dias sem escrever no blogue, por isso não me posso impor metas irrealistas.
Desejo umas descansadas ou empolgantes férias às leitoras e leitores habituais ou esporádicos. Aos que podem gozá-las. Aos que já as gozaram... bom trabalho.

sexta-feira, julho 20, 2007

Paulinho agradeceu submarinos a Nossa Senhora de Fátima

(Roubei-a num blogue muito giro, cheio de montagens deste género. Não me lembro do nome do blogue nem dos bloggers. Espero que estes não se chateiem comigo. Já tenho isto guardado há uns tempos, esperando uma oportunidadezinha.)



Não sei quê da negociata de uns submarinos, por valores altíssimos, serve para beneficiar um partido ao qual pertence o ex-ministro da Defesa... Milhão e não sei quanto de euros numa agência do BES, gota-a-gota, periodicamente... pagamentos chorudos, coincidentes com a entrada de fundos... o homem está a reflectir... os outros estavam agarrados ao poder... ele é um mãos largas... Quer dizer, os meus impostos serviram para financiar o CDS-PP. Como é que um de país de corruptos mafiosos, todos em fila, entretidos num comboizinho que chega ali abaixo a Corroios, pode medrar? Isto não se arranja; isto não se arranja.

quinta-feira, julho 19, 2007

Terrível dúvida que assola o meu pensamento

Por que emigram tantos cérebros portugueses, cientistas, investigadores, técnicos e artistas, da dança à literatura?! Por que não permanecem junto das sua famílias, e amigos, falando a sua língua materna, gozando os naturais prazeres do seu clima e exercendo os seus talentos?
E o Zés e Marias do povo, os tontos; a salto para as Franças, com carta de chamada para as Áfricas; contratos esquisitos na Holanda, no Médio Oriente. Apanha de morangos no Reino Unido, e em Espanha. Camas a fazer no Luxemburgo e na Bélgica. Que inquietação tão estranha! Que inconstância!


quarta-feira, julho 18, 2007

«O rosto com que fita [será sempre] Portugal»



Saramago é um homem amargo, mas não doido. Permite-se afirmar o que lhe der na veneta, do alto dos seus 85 anos, do seu prémio Nobel, e em bicos de pés sobre o valor da sua invejável obra.
A sua visão futura de uma Ibéria não me parece uma utopia, mas o caminho muito provável da província antes chamada Lusitânia. Pensando na nação em que Espanha se tornou, economica, social, culturalmente teríamos tudo a ganhar. Seria a árvore das patacas. O Brasil. Trabalhar-se-ia, mas havíamos de ver os frutos maduros bem redondos nas mãos.
Lamento, mas Portugal, tirando o valor maior da língua e do legado cultural, dentro de portas e além-mar, sim, isso é verdade!, é um país que não se justifica. Uma miudeza que não adianta. Um enorme equívoco sem remendo à vista.
Somos um povo mal e porcamente governado por uma democracia sucedânea da pior aristocracia, roubando-nos, sem escrúpulos, o pão nosso de cada dia para alimentar vícios de cortesãos. Vivemos desavindos, porque em casa onde não há pão todos ralham e poucos têm razão. Padecemos de depressão colectiva endógena. Transformaram-nos em mortos-vivos. Somos pequenos. Sentimo-nos pequenos.
Sinceramente, eu entro e saio de Espanha como se fosse ao Algarve e voltasse, mas com maiores benefícios. E em Espanha nem tenho de falar tanto inglês, o portunhol serve-me perfeitamente.
Se me incomodaria ser ibérica, desde que pudesse manter o Português como minha primeira língua, e os meus hábitos, a minha cultura? Desde que pudesse comer a minha cebolinha portuguesa, o meu nabo, a minha cenoura, a minha batatinha? Oh, não permitam que me pergunte isto uma segunda vez!

terça-feira, julho 17, 2007

Laços de desamor e abandono

Foto DN

Os pais de Andreia, raptada em 2005 do hospital de Penafiel, desempregados, vivendo com seis filhos numa casa sem espaço, nem água nem luz, constituindo família considerada de risco pela Segurança Social, exigem uma indemnização de 35 mil contos à desgraçada que fez o favor de lhes criar a criança durante um ano, melhor do que eles quereriam ou poderiam fazer.
A prova está em que Andreia, após ter sido entregue aos pais, este ano, foi-lhes posteriormente retirada, por falta de condições, e está aos cuidados de uma vizinha, tal como aconteceu, no passado, a outros dois filhos deste casal, devidamente colocados em famílias de acolhimento.

A gravidez não planeada da mãe de Andreia Elisabete acabou por ser a sorte grande. Imagino que à falta de numerário para recorrer à desmanchadeira da terra, tenha ingerido inomináveis beberagens abortivas, sem resultado, e a gravidez lá foi decorrendo, inevitável, entre pragas ao céu e à sorte, e constantes "ai a minha vida".
Não se pode dizer que Andreia fosse uma filha desejada. Era mais uma que vinha dar trabalho, gastos nem por isso, porque onde não há para gastar, não se gasta, e que haveria de se desenrascar sozinha, a seu tempo.

O instinto maternal, o amor de mãe, essas coisas que se dizem inatas nas mulheres, encontravam-se de tal forma desenvolvidas, na mãe de Andreia, que a Polícia Judiciária tomou-a de imediato como suspeita, ao saber que tinha ficado calmamente a acabar a refeição, quando lhe disseram que a bebé tinha sido roubada da enfermaria. Eu, no seu lugar, com a sua vida, teria feito o mesmo.

Deve ter pensado com os seus botões, "era sorte a mais", e continuou a encher a barriga, que a comidinha do hospital é limpinha, e traz sobremesa, como nos hotéis onde vão os ricos. Aliás, o hospital de Penafiel deve ser o hotel de cinco estrelas da família da Andreia. Devem estar desejosos de ficar doentes a ponto de merecer internamento, amesendados em camas lavadinhas, com criadagem vestida de branco imaculado a trazer-lhes tudo o que pedem, e a dar-lhes banhinho.
E, claro, agora, os 35 mil contos davam-lhes um jeitão para comprar uns plasmas, e umas mobílias cheias de torneados, em Paços de Ferreira, e mandarem pôr umas janelas e portas de alumínio, e construírem uma casa de banho com torneiras douradas, anexa ao espaço que serve de cozinha, e isso. Um carro como os dos emigrantes... Qualidade de vida...
Entretanto, a desgraçada que fez à família, e ao Estado, o favor de tomar conta da criança, de cuidar dela, de a manter saudável e bem alimentada, está em prisão preventiva há quatro meses.
Acho sempre muita graça à importância legal dos laços de sangue.

segunda-feira, julho 16, 2007

Virtual, não obrigada

Caros leitores que esta semana me têm endereçado enigmáticos convites para aderir ao hi5:
- agradeço o vosso interesse, mas trocas de impressões, conhecimentos e estabelecimento de amizades, só presenciais, em lugares públicos, para um carioca de limão ou, nos dias em que tiver dormido mal, eventualmente, um café.
Nada de chats, nada de hifives, nada de virtual. Também não estou inscrita no Second Life. Uma first life basta-me e surpreende-me mais do que pretenderia.

sexta-feira, julho 13, 2007

Um corpo diferente todas as semanas

Foto: Michael V.

Percebi que os homens encaram a sexualidade da mesma forma, quer sejam gay ou straight.
Quando pergunto a amigos homossexuais como conseguem dissociar sexo e amor, é frequente responderem-me que sexo é uma forma de amor.
Medito no caso. Sinceramente, não consigo conceber tal separação, embora tenha momentos de honesto esforço; infrutífero.

Sexo é amor?! Como poderá ser assim? Sexo só poderá ser amor se existir amor, ou seja, um afecto consistente, que não termina com o final da excitação sexual. Sim, sou teimosa nisto; ano após ano, nego tornar-me moderna, podres de gira, e liberalíssima.

Porém, quanto aos meus amigos gay, quando os ouço descrever as suas variadas e recentes aventuras, aqui, acolá, com aquele, com o outro, parece-me perceber, naquele discurso, a realização do sonho de diversidade e inconstância sexual da maior parte da população masculina lusitana dita straigh, com ou sem aliança: uma pessoa diferente a cada semana. Nenhuma promessa. Nenhum compromisso. Nenhuma obrigação de amar. Relações abertas, etc.
Neste aspecto, os homossexuais servem-se melhor uns aos outros, porque, em princípio, ambos, ou os três ou os quatro, querem o mesmo, não existindo limites para a liberdade sexual da qual todos estão conscientes, e que desejam.
Não é que não conheça homossexuais que vivam juntos e fiéis há muito tempo, mas é raro. Embora o desejem, a partir de certa altura, as melhores intenções acabam por falir; o apelo do sexo fora da relação é muito forte. O apelo do sexo é sempre absurdamente forte nos homens.
Para os heterossexuais, coitados, é uma trabalheira quase sempre: o ritual de cortejamento, os piropos que convêm ser criativos, quando é que um não é um não ou um sim. As mulheres são labirínticas, e é raro o processo reger-se por um certo esquema gay explícito "és lindo, tu também, queres?, quero, vamos".
Mesmo na net, é preciso alimentar conversa de palha até chegar ao que interessa. Os gays que conheço, entram no mirc, e entabulam conversa aleatória, escrevendo, "olá, sou o Mike, 34, activo, chaser admirer, Picheleira, interessa?!" Não estou a ver isto resultar com uma mulher, a não ser que seja muito jovem, muito gira, muito moderna e precise de carregar depressa o telemóvel com 10 euros.
É por isto que às vezes tenho pena do macho lusitano não gay. Episodicamente. Só por instantes que rapidamente se evaporam. O paleio que têm de inventar! As mentiras que têm de conceber para convencer a mulher de que estão com os amigos, e a amante sazonal de que têm trabalho, ou vice-versa. Deve desgastar psicologicamente, e, claro, depois o sexo não compensa.
Era tudo muito mais fácil se aderissem ao movimento gay. O que o machão lusitano quer, mas não compreende, é ser gay com mulheres, e às vezes, inconfessadamente, com homens. E adiante.

terça-feira, julho 10, 2007

Trabalhar, trabalhe o preto

A acção decorre na rua, frente a uma obra situada perto da Loja do Cidadão, em Sete Rios, Lisboa.
O dia está claro e soalheiro. É verão.

Intervêm duas personagens:

- um arrumador de carros magrito, com pele cinzenta-amarelada; cabelo de tonalidade indefinida, emaranhado, ressequido e empastado; roupa cor-de-esfregona velha, uniformemente larga e solta. Traz uma bandeirinha da qual se serve como instrumento auxiliar para arrumação de veículos.

- um negro das obras, alto e forte, vestido com roupa de trabalho, e uma ferramenta pendurada no cinto largo.

(O arrumador colocou-se no centro da rua, gesticulando expressivamente, apontando para o que considera um lugar vago para estacionar. O pequeno espaço situa-se entre o portão de entrada para a obra e a garagem privada de um prédio de escritórios e habitação.
Os condutores manobram para não o atropelarem, seguindo caminho. Um negro sai da obra com ar sarcástico. Pára a três metros do arrumador.)

Negro - Não pode estacionar aqui. Aqui é para camiões da obra virem descarregar.

(O arrumador olha-o de esguelha e mastiga qualquer coisa entre dentes. Não se percebe.)

Negro - Aqui não pode ser, olha lá. Cai cimento. Tens aqui tabuleta para não arrumar.

(O arrumador ignora-o.)

Negro - Vais ficar culpado de carros estragados. Aqui não é bom. Vai lá mais para cima, pá.

(O arrumador continua a ignorá-lo. Vai murmurando expressões imperceptíveis. O negro fica calado, observando a cena. Volta-se para trás e ri-se. Três homens, brancos e negro, debruçam-se do 1º andar do prédio em construção, e riem também.)

Negro (para os homens no 1º andar) - Este gajo vai obrigar chamar polícia quando chegar a betoneira...

(O arrumador volta-se, rápido, e arremete com a bandeirinha em direcção ao negro, explodindo.)

Arrumador - Vai trabalhar, malandro. Vai trabalhar, malandro. Vai trabalhar. Vai. Desanda. Vai trabalhar. Não fazes nenhum. Vai, malandro.

(O negro volta-se e vai-se embora, rindo alto.)

A cena termina com o clamor de risos dos passantes e de quem trabalha na construção do prédio.

Cai o pano.

segunda-feira, julho 09, 2007

«Então vá»

Tem sido um fartote de textos literalmente de luxo, e sobre gastronomia, no meu blogue-culto, o Da Literatura.
Eis, aqui, apenas mais um copy-paste integral e delicioso. Como resistir?!
É óbvio que não sei o que é um Grandjó Late Harvest, que "é o Sauternes dos pobrezinhos". Também não sei o que é o Sauternes. Cá pelos meus cálculos, trata-se de vinhaça francesa.
Praticamente não conheço 2/3 das referências, e se as conhecesse não as poderia comprar no Lidl. Também não imagino como é que isto pode substituir uma sopa de feijão com nabo, mas isso é problema comum à esquerdalha não-caviar, sem qualquer classe que não seja a do prédio proletário, na rua proletária, do bairro proletário. E mesmo que já não exista proletariado.

VERÃO


Ó Isabel, não me meta em sarilhos... Enguiça a cadeia...? Então vá. Com o calor que está, ao almoço, nada como sandes de pepino e salmão fumado. Fatias de pão sem côdea, barradas com manteiga, tiras de salmão fumado polvilhadas com malagueta vermelha picada na altura e, por cima, rodelas de pepino muito finas, polvilhadas com sal rosa do Himalaia. Frigorífico com elas. Servir ao fim de uma hora, acompanhadas de Grandjó Late Harvest 2002, muito gelado. Se não tiver ou não gostar de salmão, o pepino chega (e vice versa). Como sabe, o Grandjó Late Harvest é o Sauternes dos pobrezinhos. Ao jantar pode elaborar um pouco mais. Coza pasta de sêmola dura durante oito minutos. Pode ser bavette, esparguete ou pennoni rigati, a que preferir. Depois de escorrer bem, deite numa tigela larga e funda onde possa manipular o conteúdo à-vontade. Acrescente duas colheres de sopa de chutney de maçã doce, uma colher de sopa de molho de chili doce e picante (o melhor é o sul-africano da Fynbos Fine Foods), e outra de tomate seco com mangericão. Envolva tudo muito bem até a pasta ficar bem “oleada”. Depois junte sultanas douradas, azeitonas verdes sem caroço e uma mão cheia de rúcula. Antes de voltar a envolver tudo, regue com duas colheres de sopa de azeite temperado (a gosto: alho, basílico, coentros, piri-piri, etc.). Envolva bem. Despeje para o recipiente em que for servir, e meta no frigorífico durante nunca menos de quatro horas. Tire do frigorífico 20 minutos antes de servir. Pode, se quiser, polvilhar com Emental ralado. Acompanhe com um bom Syrah.

Etiquetas: Gourmet

posted by Eduardo Pitta

Sopa de feijão com nabo explicada a clientes de lojas gourmet

Nabo é uma coisa com rama verde que cresce debaixo de terra e tem uma cabeça branca e roxa. Cenouras, batatas e cebolas também crescem debaixo de terra, apresentam rama verde, arrancam-se ao solo com as mãos, que ficam uma porcaria de sujas, mas não têm a cabeça branca e roxa - excepto a cebola, que até pode ter, sendo muito nova - e só se lhes aproveita a rama em situações muito especiais.

Receita, propriamente dita: Sopa de feijão com nabo au salaire minimum

Vá à praça ou ao supermercado mais perto e compre os seguintes ingredientes:

- 1 batata (grande).
- 1 cenoura (grande).

- 1 nabo com rama (grande ou dois médios).


Vá ao Lidl ou Minipreço e compre:


- 1 frasco grande de feijão manteiga ou encarnado pré-cozido, dos mais baratos.
- 1 pacote de sal, dos mais baratos, tipo linha branca.
- 1 garrafa de azeite qualquer, mesmo espanhol.

Volte para casa e verifique a rama do nabo. É a tal coisa verde que vem pegada à respectiva cabeça. Se lhe tocar, verificará que possui uma desagradável textura rugosa, e uns pêlos que picam. Parece um bicho aquático. Não tenha medo. Arranque-a toda de uma só vez, torcendo a rama para o mesmo lado. Não use luvas. Se as fibras dos caules forem duras, e a tarefa se mostrar difícil, use a faca.
Constatando que a rama está murcha, meta-a numa bacia com água, que a coisa arrebita pouco depois. Se já vier arrebitada, meta-a em água, à mesma, isto se pretender lavá-la. A lavagem não é obrigatória, já que nela se perde muita proteína.

Pegue numa panela meia de água da torneira, e meta-a ao lume até ferver. Em fervendo, junte-lhe a batata cortada aos quartos, a cenoura grande às rodelas, e a cabeça de nabo toda migadinha. Deixe cozer a mistela.

Quando verificar que está cozida, junte-lhe 1/3 do frasco de feijão, que terá lavado previamente, e sem luvas (nenhuma lavagem é obrigatória, note, até porque a água da torneira paga-se, e é preciso poupar nela e no conteúdo da carteira).
De seguida, prepare a "varinha mágica", retire a panela do lume, e enfie-lhe com o triturador, de forma a espapaçar os tubérculos, e o feijão, tudo muito bem espapaçado.

Assim que tiver realizado esta operação, sem luvas, inclua, no creme obtido, que há-de ficar acastanhado, o resto do frasco de feijão, bem como a rama do nabo toda esfarrapada.
Leve de novo ao lume, tempere com sal e azeite, e deixe ferver ligeiramente, de modo a que a rama de nabo não amarele. Deve ficar, apenas, al dente.

Retire do lume, mexa, tire para uma malga uma porção generosa, e coma em cima da mesa da cozinha sem toalha.
Acompanhe com pão e azeitonas, e um vinho qualquer que se deixe beber sem muita acidez.
As noites de Verão estão frias e ventosas e a gente precisa é de aquecer o estômago.

domingo, julho 08, 2007

O amor em Portugal

Foto: Monika Wiechowska, Bending


Em 2006, em Portugal, a violência doméstica provocou morte ou ferimentos graves a mais de uma mulher por semana (39 mortes e 43 agressões graves). Este dado, revelado na Imprensa, no final da passada semana, deveria levar-nos a questionar a ideia de que a igualdade de géneros, assunto tão em remissão nas agendas, se tornou uma realidade na nossa cultura, que efectivamente as mulheres ganharam estatuto de iguais na relação com o sexo oposto, e que, portanto, tais questões são um anacronismo.
Estes são os números oficiais. Falta-lhes juntar os inúmeros casos de violência doméstica, física ou psicológica, que por medo e vergonha das mulheres nunca chegarão ao conhecimento das autoridades e nunca serão contabilizados. Casos que me estão próximos, ou que testemunho em mulheres com as quais me tenho cruzado, no bairro, ou no exercício da minha actividade profissional.
Aquelas que levam bofetadas, porque foram lavar escadas às escondidas, e não estão em casa quando o marido chega, e a quem chamam puta; "por onde é que andaste, minha puta? Com quem te andaste a deitar enquanto saí, minha puta?"
Mulheres que são obrigadas a estar em casa, disponíveis para qualquer prepotência, a quem não é dado dinheiro, nem possibilidade de comunicar.
As que são sistematicamente violadas após cargas de porrada, como se a brutalidade do murro fosse um preliminar sexual.
Mulheres que têm medo, que mentem por medo, como se a verdade, a vida normal fosse um pecado que cometem. Que só podem, só sabem defender-se na mentira, criando o único mundo que lhes está autorizado.
Mulheres da minha idade ou dez anos mais novas ou mais velhas. De todas as classes. Conheço-as. Nunca fizeram queixa. Creio que nunca farão. Vivem no medo porque não sabem viver de outra forma. Não acreditam que se possa viver doutra forma.

sexta-feira, julho 06, 2007

Mais pares

Marlon Brando e Jack Nicholson, 1975


Dustin Hoffman e Willem de Kooning, 1983


Paul Bowles e alguém, 1983



Fotos de Mary Ellen Mark

quarta-feira, julho 04, 2007

Consequências do terrorismo de Estado

Observando o cenário político e económico-social no nosso País, que penso aproximar-se cada vez mais do que se designa como terrorismo de Estado, e que claramente não poderia subsistir sem um contexto de apoio internacional, ou seja, uma tendência generalizada para este tipo de associação autoritarismo/medo, parece-me que entramos numa fase em que o autismo governativo poderá fomentar o aparecimento de células terroristas selectivas de retaliação.
O terrorismo deixará de ser um fenómeno circunscrito às exigências de um povo concreto sobre um ou vários governos específicos. O terrorismo é o futuro.
Não havendo forma de exprimir descontentamento, e ver satisfeitas necessidades básicas, a ordem natural das sociedades levará à criação de grupos de resistência camuflados no interior das instituições e culturas. O fenómeno deixará de estar circunscrito aos gangues negros dos bairros sociais da Margem Sul, e das saídas a norte de Lisboa, embora seja, na sua essência, o mesmo. Serão as mesmíssimas razões.
É a segunda vez na vida na vida que estou a ver isto. Qualquer pessoa que cozinhe com panela de pressão sabe que é necessário abrir-lhes o pipo, ou explodem. Isto é um lugar-comum que até as crianças compreendem.


Querem a brasa a arder


Ouço queixarem-se do Verão.
Para mim, estamos no Verão.

Parece-me que se confunde calor ardente e Verão; e que se gosta de sofrer - é isso.
Estão desejosos dos 40º. De não poder andar lá fora ao sol, de reclamarem que não se pode dormir em casa nem na rua, nem respirar, e que já não há água nas barragens, e mais os fogos.
Ninguém quer um verãozinho ameno como no norte da Europa. Um verãozinho doce e sossegado.

Para daqui a poucos anos, as mudanças climáticas anunciam o clima do Norte de África a bater-nos à porta. Haverá, então, um grande, longo, mortal Verão para todos.

terça-feira, julho 03, 2007

Ímpares

Patrick Swayze, 1995



Lorena Bobbit, 1993


Boy George, 1993


Fotos: Mary Ellen Mark

Por favor, eu sou uma intelectual fina...


Na febre do prémio "blogue com tomates" caí na asneira de escrever, algures, que só aceitaria prémios de blogues quando fossem dirigidos ao equivalente citrino nas mulheres.
As Lésbicas Simples atribuíram-me, agora, o prémio "blogue com grelo", e não tenho como fazer-me fina e escapar.
Pergunto-me: porque não premeiam a Câncio, a Bomba, o Dadinho Pitta, etc.? Ah, pois, caraças, o Dadinho não poderia ser, eu é que ia lançada! Não os premeiam porque são pessoas finas que não alinham nestas coisas, porque sabem estar. E eu... enfim, sabe Deus!

Não leio muitos blogues, mas, vendo-me acorrentada à minha palavra, tenho de premiar alguns sítios de meninas que visito regularmente, de que gosto, e onde encontro muito grelo arrebitado. Assim, premeio, por ordem alfabética do nome (nos blogues colectivos designei-as todas por meninas):


a. de Um Amor Atrevido
inominável de Ponto de Saturação
Marta R. de Astro que Flameja
Meninas de Um blog que seja seu
Meninas do Cusquices de Gajas
Meninas do Lésbicas Simples
Pimpinela de Ki-tsh-Net
Siona de FishSpeakers
un-dress de Un-dress


“O blogue com grelos premeia mulheres que, na sua escrita para além de mostrarem uma preocupação pelo mundo à sua volta ainda conseguem dar um pouco de si, dos seus sentires e com isso tornar mais leve a vida dos outros. Mulheres, mães, profissionais que espalham a palavra de uma forma emotiva e cativante. Que nos falam da guerra mas também do amor.”


O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...