sexta-feira, agosto 31, 2007

O spa III (coisas que me fazem sentir velha e sorrir)

1. Consumir ao jantar, entalados entre a garoupa com camarões e fiambre, e o leite creme, instrumentais com flautas-de-pã electrónicas de sucessos da música ligeira, como o Careless Whisper, ou os best of de Lionel Richie e Whitney Houston, e sentir que é tão relaxante.

2. A felicidade com que me deixo perseguir pelos vendedores de artesanato carregando paninhos de linho trabalhado, os quais me esvaziam a conta bancária sem quaisquer resquícios de piedade.

3. Esperar meia hora à porta de uma loja de antiguidades para comprar uma Santa Bárbara muito linda para a minha mãe, e gozar com a antecipação do momento da oferta.

O spa IV (coisas que me fazem sentir nova e sorrir)

1. Sentir-me a mais fresca e bonita de todas, no restaurante, e ter a certeza que os outros pensam o mesmo (acaso não pensem, estão com problemas de vista).

2. Conversar com a menina dos tratamentos faciais sobre o facto de "desde os quarenta que", e ela interromper-me sinceramente:
- "Quarenta?! Tem quarenta?! Não parece!"
Eu sei, minha querida.

3. O meu anti-depressivo (acho eu).

O spa V

Segunda contrariedade que venho sentindo diariamente, desde que cheguei: a menina do restaurante perguntar-me se quero repetir as deliciosas refeições que me serve, e eu ter de me negar o prazer da gula. Custa.

A corja de sempre

Luís Filipe Menezes visita meninos carenciados. Luís Filipe Menezes visita a Urgeiriça. Luís Filipe Menezes aparece nas notícias todos os dias. Luís Filipe Menezes quer liderar a oposição. Luís Filipe Menezes pretende trocar o seu palácio em Gaia pelo de Belém. Que traição à corja do Norte, precisamente igual à corja do Sul. Já não nos bastavam as negociatas escuras do que agora lá está! Que linda alternativa: Luís Filipe Menezes com carta branca para corromper o País às claras!

quinta-feira, agosto 30, 2007

O problema de Barrancos

Matar os touros na arena ou matá-los fora é exactamente a mesma cobardia. Para o touro, sinceramente, é melhor que aquilo acabe ali e depressa; se fizessem favor, podiam dar-lhe a estocada mortal antes mesmo da tourada.
Não há nada de especialmente desumano nas touradas de morte. A morte do touro está sempre certa. O problema está na existência da tourada enquanto entretenimento de massas. A mim sempre me causou arrepios que a agonia dos condenados à morte, dos acidentados espectaculares fossem o circo das multidões. A agonia dos animais não é diferente. O sofrimento e a indignidade não são mais sofridos nem mais indignos porque a vítima é um touro, um galo, um cão. O sofrimento dos seres, de todos, mas sobretudo o dos inocentes, cria uma onda de aço que se propaga no éter e acaba por nos atingir e envolver invisivelmente.

Pelo menos os adeptos do sadismo divertem-se com alguém que consentiu ser amarrado e submetido. Convinha que os adeptos das touradas percebessem que os touros não consentem nem deixam de consentir, mas que não servem como oferta à morte.


O spa II

Dar um filme do Cantiflas, hoje, na RTP, exactamente à mesma hora da massagem com pedras vulcânicas é a primeira contrariedade destes dias de céu que agora podemos comprar a dinheiro, não com preces, algum tempo antes do inferno.

domingo, agosto 26, 2007

O spa


Com licença, mil desculpas, é apenas uma última semaninha de férias dentro das férias, sem acesso à internet, e para acabar o mês em beleza. Portanto, vou ali, já venho.
Chova ou faça sol, o spa é que ninguém me tira.
Difícil vida de solteira!

sábado, agosto 25, 2007

Pão ou dor, tanto faz

Pain. De um dia para o outro, o vocábulo apareceu grafitado numa parede aqui ao lado.
Li à francesa [], considerando-o o suprasumo dos grafitis: pão: farinha amassada com água e sal, e nada mais. Tudo o que há para dizer numa única palavra: pão. Todas as lutas, todas as tréguas.
Mas tratava-se de um grafiti a negro, com caligrafia dura, pelo que o repensei: provavelmente estaria em inglês [peine]". Não vejo que os miúdos do bairro se ofereçam grandes ímpetos poéticos e filosóficos. Enfim, a poesia da rua... Encontro, então, mais sentido na segunda versão: dor. A que nos é infligida. A que infligimos. E desgostei.
De seguida, num exercício gratuito, inevitável, relacionei semanticamente os vocábulos homónimos nas diferentes línguas, e considerei que, especulativamente, algo os ligava: em todas as línguas o pão se conquista com dor. Ou não se conquista. Mas a dor permanece. Matizes, níveis de dor. Mas dor. Portanto, pão ou dor, tanto faz. O grafiti é perfeito.


sexta-feira, agosto 24, 2007

Eu nunca matei uma galinha, mas...

Como não achar graça às minhas amigas nascidas depois de 74, as quais, após tirar a pele ao frango cru, exclamam, muito aliviadas, o rosto ainda em esgares, já merecerem todo o céu e arredores?


Embora as use há 30 anos...

Como esfregar os olhos, saborosa, descontroladamente, sem que nos caia uma lente de contacto, ou se entale toda na pálpebra?

A única dieta capaz de desvirtuar uma montra de pastelaria


Comer de duas em duas horas. Alcachofra. Quitosano. Chá Verde. Chá vermelho. Chá de 324 marcas e compostos diferentes. L-Carnitina. Puehr. Algas. Glucomanato. Cáscara sagrada. Eficazes químicos inibidores do apetite. Tudo mentira. Quando gostamos de comer não há dietas indolores e eficazes, capazes de nos fazerem rejeitar o cheirinho de um croissante morno, estaladiço, que se deseja desfazer entre a língua e os dentes; um pastel de nata moreninho, com açúcar e canela; o bacalhauzinho frito, da mamã, com molho de cebola, mais batatas fritas impregnadas em azeite. Nada. Dieta nenhuma. Como valorizar um orgasmo colocando-o ao lado de um cozinhado da mamã?! O cozinhado da mamã dura mais, é simultâneo, e não exige preparativos nem trabalhos forçados. Quem fala nem sou eu; é o meu corpo por mim. E, oh, como o meu corpo tem espaço por onde se exprimir!
Apenas uma única dieta pode apresentar sucesso, levando-nos a odiar o rissol de camarão e a fugir do cheiro de uma inofensiva posta de pescada cozida. Infelizmente, é atribuída por sorteio, sendo, portanto, o seu objecto, completamente aleatório: chama-se vírus gastrointestinal do género do que apanhei nas férias e me mantém a chá e maçãs cozidas desde há 3 dias.

quarta-feira, agosto 22, 2007

As férias da corja

Este mês tenho andado invulgarmente feliz e bem-disposta. Ontem, ao ver o telejornal, percebi porquê: não são apenas as minhas férias: não, não. É que não tenho visto o Sócrates nas notícias, nem a ministra da educação nem o da saúde, e o resto dos hipócritas. Apenas o ministro da agricultura empunhando a maçaroca transgénica. As férias da corja dão-me saúde.


segunda-feira, agosto 20, 2007

Nas férias

É chato obrigar as pessoas a ler dossiers sobre milho transgénico, e a consultar páginas do google em inglês. Férias são férias.


domingo, agosto 19, 2007

O peso do ser insular

Alberto João Jardim acabou de ler A Insustentável Leveza do Ser e está agora de volta do livro da Zita Seabra.

Só enquanto a lei não contemplar o casamento de homossexuais, e além disso, agora, já não é pecado viver junto

D. José Saraiva Martins, ao Correio da Manhã de hoje:

"E a verdade é que os padres não querem casar."


Retórica de sacristia: as mulheres são demasiado bentas para o sacerdócio


D. José Saraiva Martins, ao Correio da Manhã, hoje.

(...)
– Há quem defenda que a crise de vocações se resolvia com a ordenação sacerdotal das mulheres.


– Estou certo de que a ordenação das mulheres nunca acontecerá.

– Porquê?

– Não sei porque é que esse problema se há-de colocar. As mulheres são preciosas para a Igreja e têm um vastíssimo campo de trabalho, no qual têm dado mostras de grande capacidade. Contudo, essa questão teológica da ordenação não deve ser colocada. É que não há no Evangelho nada que nos permita trilhar esse caminho. Além de toda a tradição histórica da Igreja. Repare: os apóstolos foram ordenados por Cristo e Nossa Senhora não. No entanto, no plano do culto, Nossa Senhora está acima dos apóstolos. Isto para dizer que as mulheres não precisam de ser ordenadas para atingir o mais alto do Céu.

– Mas há alguma questão teológica de fundo que impeça a ordenação das mulheres?

– Há, devido à linha de conduta traçada pelo Evangelho e que tem sido respeitada ao longo de dois mil anos de História. E não me parece que essa questão venha algum dia a ser resolvida. Eu sou a favor da mulher. Fui, enquanto reitor da Pontifícia Universidade Urbaniana, o primeiro a admitir uma mulher como professora de uma universidade do Papa. Mas o caso da ordenação sacerdotal é diferente e penso que, por impedimento dogmático, as mulheres nunca receberão o sacramento da Ordem.
(...)

Desobediência civil

Desejaria que a acção dos activistas ecológicos do Movimento Eufémia Verde, em Silves, ceifando um hectare de milho transgénico, não constituísse um mero acto isolado, mas desse início à formação de um saudável hábito generalizado de manifestação subversiva, o qual deveria ocorrer em todas as áreas da ditadura chamada democrática.
A desobediência civil colectiva é uma voz inesperada, incontrolável e eficaz, a usar com frequência sob o consulado dos corruptos desenrasca-diplomas.


O pensamento religioso


Gosto que os ateus me confrontem com os sete palmos abaixo de terra, e depois o nada, com o não-sentido da existência. Que puxem pelos meus incompreensíveis, improváveis argumentos de fé. O não-sentido da existência: eles têm razão. O grande paradoxo do ateísmo: um tão forte princípio religioso.

sábado, agosto 18, 2007

Uma diferença igual



Os biólogos do mundo antigo, frequentemente com idade para serem meus filhos, candidatando-se aos respectivos tabefes, pelam-se por aplicar ao ser humano as leis científicas da especialização de tarefas que parecem render no mundo animal, fazendo por esquecer que as mulheres e os homens são animais sociais.
Defendem os jovens investigadores, entre a muda das imberbes fraldas experimentais, que o macho recolhe o alimento e a fêmea cuida das crias, e por aí fora, e igualmente na família moderna, esquecendo que a família moderna é de uma plasticidade impossível de fixar, como sempre desejou ser, isto porque as mulheres e os homens são, de todos os animais, os mais criativos, desejosos e insatisfeitos - e contra isto nada pode a ciência, a não ser que nos encharque em benzodiazepinas.
João Miranda, investigador em biotecnologia, em crónica publicada no DN de hoje, serve-se da especialização de tarefas para defender a ideia de que a paridade é uma utopia, visto que homens e mulheres têm capacidades diferentes. Gostei muito! Sonho com o dia em que jovens cientistas tenham a gentileza de não insultar a minha inteligência com argumentos gastos. Que leiam qualquer coisa antes de escreverem as pérolas de macho com que me mimoseiam, e aos restantes leitores da Imprensa diária. Vão à Wikipédia. Não se promoverão por aí, entre universidades, encontros entre investigadores das diversas áreas? Seria do maior interesse realizar uns intercâmbios. Ou experimentar a vida real. Os diplomas da vida real costumam valer, e eu estou por tudo.

Escreve João Miranda que:

"A paridade, isto é, a ideia de que as profissões mais apetecíveis devem ter igual percentagem de homens e mulheres, é uma das utopias das democracias modernas. (...) A paridade tem levado, um pouco por todo o mundo, à criação de quotas na política, nos cargos dirigentes das empresas e nas universidades, mas não nos serviços de recolha de lixo ou na construção civil.
A paridade pressupõe que homens e mulheres têm, em média, as mesmas capacidades e as mesmas preferências. Mas a verdade é que as diferenças entre homens e mulheres são demasiado relevantes para serem ignoradas. (...)
E, muito importante, as mulheres são mais ligadas aos filhos que os homens. Estas diferenças têm uma origem biológica e cultural.(...)
A biologia, a cultura e a economia sugerem que homens e mulheres têm competências e preferências diferentes que levam à especialização de papéis e impedem a paridade em várias profissões. (...)"



E a coisa continua pelas raias da aberração.
Ora, a associação entre o comportamento humano e o de outros animais é, como se sabe, brutalmente perigosa e especulativa: se os comportamentos femininos e maternais do mundo animal pudessem transpor-se para a vida humana social tornar-se-ia legítimo que as fêmeas humanas matassem e comessem, inconsequentemente, os próprios filhos, após o parto? Ou abandonassem uns em detrimento de outros? No mundo animal, as fêmeas cuidam dos filhos enquanto estes não sobrevivem sozinhos. A partir desse momento, as crias tornam-se um peso, e as fêmeas estão-se bem nas tintas. A minha cadela Lili mordia na filha, perante a minha indignação, quando achou ter chegado a altura do desmame. Poderia eu dar uma dentada no meu filho quando já não me parecesse adequado continuar a amamentá-lo? Pô-lo a andar, olha, agora desenrasca-te?!

E que tremenda cegueira afirmar que os filhos desinteressam aos homens como aos cães, por razões biológicas e culturais. Se vejo alguma coisa interessar aos homens, são os filhos - território absolutamente sagrado nos casamentos, acima da união conjugal. Qualquer mulher, de qualquer tempo, sabe que se algum interesse segurou um homem a um casamento, por muito mau que fosse, foi um filho. Os filhos interessam-lhes, e como, e cada vez mais, conforme o mundo se vai tornando menos genderizado. Reparo que, em grande parte das famílias onde se dividem tarefas, se há especialização nos cuidados aos filhos, ela está cada vez mais reservada aos homens no que respeita a dar-lhes banho, alimentá-los, entretê-los, ajudá-los nas tarefas escolares e adormecê-los. Assisto a este fenómeno com bastante agrado. Por outro lado, consta que as mulheres, afinal, não sentem particular prazer em cuidar dos filhos, pelo menos a partir de certo momento. Segundo uma investigação realizada recentemente (li no mesmo DN, há semanas), a satisfação experimentada pelas mulheres quando se ocupam dos filhos é igual à que sentem enquanto realizam tarefas domésticas. Nem mais nem menos. E, sinceramente, ao pensar no trabalho que uma criança dá, concluo que deve ser bem mais relaxante lavar a louça, até mesmo limpar o pó ou passar a ferro.



É óbvio que mulheres e homens são seres biologicamente diferentes. É nisso que está a sua maravilha. Onde está a novidade disto?
Não tenho massa muscular para carregar baldes de massa, mas muito homens também não a terão. Por outro lado, não me parece que hoje se possa dizer que os homens são mais dotados para o cálculo matemático e as mulheres para as línguas. Não é o que vejo no mundo académico. O que vejo, sim, é as mulheres abdicarem de investigar e progredir nas carreiras para se dedicarem à família, o que de forma alguma as exclui de habilidades em cálculo. Tenho um amigo biólogo que adora picar-me com os lugares comuns debitados pela ciência recente sobre a alegada capacidade das mulheres para realizar inúmeras tarefas simultâneas, enquanto as considera más no que toca à orientação espacial. Como detesto estas conclusões que categorizam e restrigem. E como as temo. E como erram. Eu que até sou uma bússola ambulante que, por acaso, é incapaz de ouvir música enquanto escreve ou lê.
Espanta-me que o argumento da força física seja tão importante para alegar superioridade masculina, mas não para defender a prevalência de negros sobre brancos.




Pouco sei sobre leões e leoas, cavalos e éguas, mas imagino que sejam biologicamente diferentes, de igual forma! A reprodução da matéria viva precisa dessa diferença para se realizar. Por enquanto não há volta a dar. Parece-me muito lógico e natural que diferentes animais da mesma espécie possuam as mesmas aptidões em quantidade e qualidade diferentes. O macho não podia estar mais próximo da reprodução, mas tem nela um papel de quantidade e qualidade diferente a partir do momento da fecundação, o qual não lhe veda o acesso ao gozo da paternidade. A guarda conjunta dos filhos, em caso de separação dos casais, parece-me uma medida bastante justa, uma vez que atribui aos homens paridade enquanto pais e seres humanos. A paridade não é um conceito cuja justiça e eficácia dependa das diferentes aptidões dos sexos. A paridade reivindica uma intervenção o mais igual possível, que seja justa para os géneros, e deva estar por igual ao alcance de iguais. A igualdade não é uma noção que dependa de capacidades físicas e intelectuais. Somos humanos, somos companheiros, complementamo-nos e acumulamo-nos intersexos como intrasexos. Aqui reside a substância e poder dessa igualdade. Mais nada.

Poderia enumerar uma série de tarefas que estão ao alcance das mulheres na construção civil, para além da limpeza final dos edifícios, mas o problema é que esse mundo profissional lhes permanece hostil. Ainda me lembro do sururu que consistiu no aparecimento, nos estaleiros diversos, e explorações agrícolas, das primeiras engenheiras. Os trabalhadores espantavam-se porque, "apesar de serem mulheres, sabiam trabalhar e dar ordens como homens". Foi a hierarquia que salvou as engenheiras e as legitimou.
Paralelamente, também vejo sectores reclamarem quotas para a entrada dos rapazes em cursos de Medicina, mas não nas limpezas a dias nem a lavar cabeças nos cabeleireiros.



Pelo que pude ler hoje, as mulheres ainda são encaradas pelos biólogos de pacotilha, e outros, como minorias cuja mais-valia humana reside na utilidade ovárico-uterina e mamária - lembro que a maior parte dos departamentos de estudos de género, nas universidades, incluem estudos queer, o que mete no mesmo saco os estudos sobre mulheres e LGTB, embora não se incomodem mutuamente. Mas se o argumento é cientifico, devo dizer que as mulheres prevalecem duplamente sobre o mundo; primeiro, numericamente, sem contestação; em segundo, porque o poder social do patriarcado, e consequente violência, apenas se sustém na medida em que, pelo mundo fora, as mulheres o toleram e alimentam. São as mulheres quem, para o mal, tem traçado o destino do mundo, construindo e perpetuando os poderes masculinos que as secundarizaram paternal e conjugalmente, criando os filhos que marginalizarão as filhas das outras, e as filhas que aceitarão ser marginalizadas, e perpetuarão a marginalização pelos filhos dos filhos às filhas das filhas. E tem sido assim durante muitos, muitos, demasiados anos. As armas do patriarcado têm sido fabricadas pelas mulheres para seu próprio sacrifício.
O exercício de paridade efectiva mudará o ciclo vicioso de vítimizados-vitimizadores, de ambos os sexos, que mal vêm aguentando um sistema de castas que já se nega, já se cansou, já se não vê reflectido no mundo que pisa as ruas lá fora.
Já compreendemos que somos pares, e contra esta evidência, caros biotecnólogos da farinha Amparo, não há cromossoma que vos valha.


sexta-feira, agosto 17, 2007

Os companheiros

Foto: Jan B.


O amor sentimental existe com sucesso comprovado sobre a face do planeta. O que não existe é o amor sentimental tal como fomos levados a concebê-lo: fantasiado, irreal, difícil de transportar como uma mala muito pesada, ao longo da interminável gare; insistimos no erro do amor passional, o qual tomamos como via certa inquestionável.
Compreendo que não se acredite em Deus ou em extraterrestres, mas o amor relacional é uma verdade científica comprovada diariamente em triliões de microespaços planetários simultâneos.
Não me refiro ao amor rosa-claro ou vermelho-seda que as mães ou amigas nos disseram que havia de ser assim, por ser assim, nem ao dos romances ficcionais tradicionais, ou filmes franceses de autor, ou americanos de grande bilheteira, que vivem do encontro sentimental, traição e perdão, ou melhor, dor e redenção; não se trata do amor droga-anestesiante-excitante, mas do amor, só isso, do amor muito simples, muito limpo, do amor nada-de-especial, rotineiro, descomplicado, que se renova com choques ou sem eles, dando desconto ao intrínseco erro humano.
O amor anda devagar, ri e chora, mas não se consome e dilacera nos actos. É doce, mas não enjoativo. Pica, mas não nos queima a boca. Sente paz, sabe bem, contenta, alimenta, pacifica. Quando observo os seus agentes, parece-me vê-los felizes, e desejo-o para quem desistiu, alegando a humana impossibilidade do amor.
Os grandes amantes parecem-me aqueles que se tornaram bons e saudáveis companheiros. Lamento que isto desfantasie tão completamente toda a construção passional do amor, mas como me acontece observá-lo assim, tantas vezes, achei que devia partilhá-lo.


quinta-feira, agosto 16, 2007

Os Parisienses I

Tendo outros blogues dado início à publicação de reportagens fotográficas de férias, sinto-me com igual direito a torturar os habituais visitantes.
Se isto não é arte pura, e eu não sou uma promessa...


Na carreira 96 - Montparnasse/Porte de Lilas











Paris, Agosto, 2007


Os parisienses II

Domingo em Rotonde de la Vilette









Paris, Agosto de 2007

segunda-feira, agosto 13, 2007

A anglofonia global

Estas citações que agora se põem, em inglês, nas colunas laterais dos blogues, no meu tempo - gosto tanto de dizer isto: nos blogues do meu tempo! - eram todas em francês. E a gente gostava. E era muito mais bonito. O inglês é uma língua muito gráfica. Ça y est.


Contidos e discretos como uma pedra gasta na calçada


Paulo Macedo, ex-director da Direcção-Geral das Contribuições e Impostos, deu uma entrevista ao Expresso desta semana, na qual "aceitou falar um pouco de si, mas sempre de forma contida e discreta."
É o que se pode ler na página 48 do referido semanário.
Parei e reli as últimas palavras da introdução: "sempre de forma contida e discreta".
É isto que os portugueses mais desejam ser: contidos e discretos. Quem é contido e discreto sabe estar. Sabe imenso estar. É o tipo de sabedoria que emburrece, limita, e me irrita até às profundezas da minha ténue paciência, perdoe-se-me o paradoxo.
Contidos e discretos: mas que desperdício de tempo à vida, e que tédio!
A minha prima afastada, boa portuguesa, e excelente rapariga, passa a vida a repreender-me sobre um enorme defeito que não tenho sido capaz corrigir; tentando reproduzir mais ou menos as suas palavras, afirma ela que sou como um animal: quando tenho fome, como; se tenho sede, bebo; se me apetece falar, falo; se é para gritar, grito; se quero ir à casa-de-banho, arranjo maneira; se tenho sono, deito-me; quando acordo, levanto-me; se me dói, queixo-me; se tenho gozo, manifesto-me; quando me apetece cantar e dançar, canto e danço; se tenho dúvidas, pergunto; se tenho vontade de suspirar, suspiro; se me apetece bocejar, bocejo; se estou farta, nota-se, e se não estou, também; quando quero dizer sim, assinto; se é para negar, nego; se estou interessada em ver e ouvir, vejo e ouço ilimitadamente, e sem cerimónias; se sinto frio, tapo-me; quando me sobem os calores, destapo-me... e a lista, senhoras e senhores, é interminável.
A moça tem razão: sou um habilitadíssimo animal. Tenho reacções. Mexo-me. O meu rosto regista expressões visíveis a olho nu. Ocupo espaço, realmente. Não se pode sair comigo à rua. Não se me pode levar a casa de ninguém. Sítios chiques é melhor esquecer. Sou um bicho. O sonho de qualquer Dadinho Pitta seria transformar-me numa
fair lady, enquanto eu lhe gritaria, "deslarga-me: quero bazar da loja gurmé" e "fizestes pouco de mim, à séria, quando descobristes tipo quanto é que eu ganhava na fábrica".
Claro que tal constatação sobre os meus comportamentos associais me deixa desolada. Após as críticas da minha prima afastada, e enquanto enquanto penso nas inegáveis contra-indicações deste assinalável defeito, costumo perguntar-lhe se parece mal respirar caso sinta que me falta o ar nos pulmões. Os animais respiram, periodicamente, e receio que o bafo da respiração possa não ser suficientemente contido e discreto. Claro que posso sempre respirar às escondidas, tal e qual como quando me atiro aos pastéis de nata, mas o que não quero é que se perceba que estou viva, de forma alguma.




domingo, agosto 12, 2007

É só para a posteridade

Pintura italiana do século XVII.
Retrato de um senhor que também gostava muito de croissantes com fiambre, e de massa com queijo, manjericão e azeite.



Certas funcionalidades das máquinas fotográficas digitais vieram infernizar qualquer inocente fotografia de férias. O zoom, por exemplo, serve apenas para confirmar que já não somos o que ainda imaginaríamos ser, com boa vontade: as manchas na cara, os dentes mais escuros, a falta de pêlo na cabeça e o seu excesso no bigode, a celulite no rabo, uma borbulha que pensávamos ter conseguido disfarçar, as olheiras, a papada, a filha-da-puta da papada... nada engana.
Os instantâneos de férias são o espelho desenfeitiçado da madrasta da Branca de Neve. Não há tempo para perguntar, "diz-me, espelho meu..." Eles dizem-nos cruamente o que não quisemos perguntar nem conseguimos compreender: «Eis a figura que nunca escolherias no catálogo de aspectos. És aquela olheirenta. Vai ali uma gorda de costas, e és tu. Olha os teus dentes. Sim, fazes esta expressão com frequência. As sobrancelhas mal arranjadas?! Não gostas?! És uma mera figura do catálogo da biologia. Quando te moves, gesticulas, falas, ris, amuas, sentes-te uma personagem parecida contigo, mas que não és tu. Detestas-te. És ridícula, não és?! És tu. Isto és tu. Isto é o que os outros vêem, quando te vêem.»

E depois, num segundo momento, pensando bem, qual é o problema de se ser inevitavelmente aquilo que se é? Uma mulher de 30 ou 40, igual a todas as outras, sobre quem não se pensa nada de especial. Que bom! Aquela que vai deitar o lixo às 20, depois do jantar, com chinelos amarelos de enfiar no dedo. A que passeia os cães. A que tem o Opel Corsa azul. A mãe da miúda que namora nas escadas. É simpática? Sorri? Então é bonita. Que maravilha ser apenas um ser humano cuja riqueza depende de um sorriso, de uma palavra agradável.

Outra funcionalidade das modernas máquinas digitais socorre-nos, calando a amarga voz da inimputável lente: o botão do lixo. Carrega-se, e o sistema pergunta-nos, "deseja apagar esta imagem?" Sim, sim. Clique. Imagem apagada. Que alívio. Fintámos o espelho. Continuem a ver-nos como quiserem; como somos. Que interessa? Sei bem que sou uma princesa etérea, toda em ouro, chifon cor-de-rosa e azul-celeste, como nas mais belas ilustrações dos livros infantis que ainda recordo.


sábado, agosto 11, 2007

A maldição das solteironas


O técnico veio recolher o frigorífico às nove da matina. Estava eu a dormir com a minha Moreninha quase em cima da cabeça e a minha Micas no tapete, as três muito felizes e maravilhosamente acompanhadas.
Tocou. Anunciou "frigorífico"; respondi "um bocadinho, se faz favor"; lavei a cara, equilibrei os óculos, penteei-me desastrosamente, e vesti um roupão ridículo do qual toda a gente se ri, mas que me recuso a pôr de lado, porque foi a minha mãe que mo fez, que o desenhou, cortou e coseu, e hei-de usá-lo até se esfarrapar.
O homem já assobiava quando lhe abri a porta. Entrou com um ar muito sábio e expedito, desejoso de debitar a sua moral electrodoméstica, e explicou, olhando para o frigorífico, não para mim, que afinal tinha conseguido "vir mais cedo", ao que lhe respondi mentalmente, "estou a rebentar de felicidade". Rapidamente deslocou o frigorífico do seu lugar e o carregou para fora, ajudado pelo filho de 12 anos, que vestia uma t-shirt com um horrível boneco cornudo fazendo um pirete.
Despediu-se, desejando umas "boas férias para os senhores". Ora, vejamos: ontem, quando o homem cá veio diagnosticar o problema, estava sozinha; hoje, ao abrir-lhe a porta, estava sozinha... terá o homem visto na minha casa companhia que para mim é invisível?!
Isto das solteironas, agora, é uma chatice, sobretudo porque já não parecem solteironas. Vivem em casas normais, vestem-se normalmente, não escondem os bicos das mamas inteiriçados, não são púdicas, não se levantam cedo, não vão à missa, não sorriem timidamente, são umas chatas insubmissas, reclamam, resolvem os problemas sozinhas tornando obsoleta a ancestral protecção masculina, são excelentes, são bonitas, são desejáveis mas nem por isso fáceis. Como identificar hoje uma solteirona? Como pode o velho mundo reconhecer numa enorme solteirona, enormemente feliz, a solteirona estereotipada dos tempos em que uma mulher precisava de um casamento para existir? Não pode. Não consegue. Ainda não consegue.

sexta-feira, agosto 10, 2007

O frigorífico e a amêijoa - duas histórias que quase se encontravam


1. O frigorífico avariou. Um furo na tubagem do gás refrigerante, esperando não estar a dizer nenhuma asneira.
Custo do arranjo: 140 euros; porque agora vai levar um kit em alumínio, "da cor das calças que a senhora traz", adaptado ao interior, e o material é caro, e mais conversa, que não pedi, sobre as mais-valias dos electrodomésticos "de qualidade", contra a fancaria dos que se compram nas grandes superfícies. Blá, blá, blá. O técnico. Que deve ter uma loja. E uma vivenda. E um Mercedes para o fim-de-semana. E um combinado deluxe em cada assoalhada. Certo. 140 euros.

2. Almocei uma deliciosa amêijoa vietnamita, cozinhada pela minha mãe, com cebola e coentros. Comprei-a congelada, no Jumbo, a 2 euros e meio o quilo. Feita a digestão, ainda não tive dores de estômago. Parece, portanto, que sobrevivi à maldição do produto congelado, esse mito urbano pouco explorado. Mas questiono como será possível transportar uns bichinhos congelados, do Vietnam e arredores, até à Europa, e colocá-los à venda a 2 euros o quilo, se o carapau na praça está a 4, no mínimo, e com o olho morto, e o técnico de frio me vai levar 140 mocas por uma peça que, de certeza, há-de vir da China.

quinta-feira, agosto 09, 2007

Proibir Deus

Buda


O governo chinês decretou que o actual dalai lama, bem como linhagens antecedentes ou futuras são ilegais. Mais, que a sua reencarnação é proibida, bem como a de qualquer outro ser vivo racional ou irracional. Assim elimina o governo chinês a possibilidade de uma mosca da fruta regressar à vida como borboleta de colecção, se se portar bem nos caixotes da royal gala.
Não é que seja novidade, mas torna-se impossível não desenhar sorrisos irónicos perante as tentativas de intromissão dos poderes laicos nos religiosos, e vice-versa.
A Igreja Católica, pelo contrário, tem-se especializado em manobrar sombrias influências executivas e legislativas. Por outro lado, já todos vivemos para testemunhar poderes socialistas proibindo qualquer manifestação religiosa, incluindo católicas, e mesmo a existência de Deus. Em Portugal, durante bons anos após o 25 de Abril, esteve muito fora de moda a crença e prática religiosas. Deus mereceu umas boas risotas. Ultimamente, com a crise, andam todos no reiki. O nome do deus não interessa, mas apenas o que se faz em seu nome, e como.
Que Deus não existe! Por decreto. Que Deus é uma excelente narrativa criada pelos humanos, por medo ao caos existencial. Que se Deus existisse não permitiria a miséria e a dor. Para mim, os argumentos têm a sua graça.
Tal como teria muito mais graça se os governos, uma espécie de ficção-Páginas Amarelas criada pelos humanos, por medo ao caos existencial, existissem menos para proibir, e mais para remediar a miséria e a dor que eles próprios geram, e à qual são cegos e surdos. Mas Deus, claro, tem as costas largas.


O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...