
O comportamento homicida, e criminoso, de forma geral, e a psicologia forense, fascinam-me tanto quanto a observação e análise dos comportamentos humanos vulgares. Que estranhos bichos somos nós?
Julgo que a maior parte dos homicidas nunca teve intenção de cometer o acto que o condena. O que faz o homicida não é o acto assassino em si, o qual acontece frequentemente por acidente ou precipitação, mas a ocultação do crime, a forma como se desfaz do cadáver e cria álibis e ficções.
A rapariga que regou o namorado com ácido sulfúrico, em 2001, não terá pretendido matá-lo, mas desfigurá-lo, magoá-lo profundamente; no entanto, matou-o. Foi um acidente que não faz dela exactamente uma assassina, apenas uma agressora - embora tenha sido a responsável pela morte de uma pessoa, e deva responder por isso.
O tio de Joana não teve intenção de matar a sobrinha. O homem só queria "coiso" com a irmã, prática habitual que a miúda testemunhou sem querer. A Joana morreu porque levou uma bofetada fortíssima, bateu com a cabeça na parede e caiu fulminada. O problema começa no momento em que tio e mãe percebem que a criança morreu e pretendem esconder o acto, inventando uma história mal amanhada.
O que aconteceu, lembra-me algo que se passou comigo aos 13 anos, e cuja culpa carrego desde esse dia, sentindo ainda uma vergonha estúpida, uma vez que o acontecimento, em si, não teria gravidade alguma se tivesse sido assumido.
Fui passar uma semana a casa de uns tio-avós, pessoas nos seus setentas, sem filhos, muito sérias, muito rigorosas, cuja casa parecia uma sacristia forrada a plástico, com as salas fechadas para não se sujarem - eu tinha-lhes medo, sobretudo à minha tia, um velho abutre, e sentia necessidade de me portar bem.
Havia na casa uma boneca bailarina, um objecto que me chamava a atenção, e que manuseava com cuidado, pois sabia tratar-se de um bibelot de estimação. Era um bibelot, recordo agora, não propriamente uma boneca de brincar. Sem querer, uma tarde, no quarto de trás, voltado para a fábrica de vidro - consigo lembrar-me da luz amarela desse início de Setembro -, parti ou desloquei um membro à boneca. Ou um braço ou uma perna ou a cabeça. Tentei reparar a peça, mas não foi possível. Talvez pudesse ser reparada; creio que sim, mas não por mim. Senti um medo indescritível. Não queria que me ralhassem. Que me desprezassem. Condenassem. A minha reacção foi exactamente igual à do tio de Joana: como é que havia de me ver livre daquilo? Olhando à volta, e num curto espaço de tempo, decidi escondê-la num armário embutido na parede, em cima, junto ao tecto, entre colchas e cobertores. Aí deixei a boneca entalada entre panos. Durante o resto das férias vivi assaltada pelo medo de que o meu crime fosse descoberto, e até à morte do meu tio, há uns dez anos, esperei que alguém me falasse na boneca que espatifei.
E se fosse uma criança? Se houvesse ali um bebé, e, brincando com ele, o deixasse cair, e fosse responsável pela sua morte? Tê-lo-ia escondido no armário de cima até feder?
Tenho a ideia que todos os seres humanos se tornam crianças quando percebem ter cometido falhas muito graves. Têm medo, e o medo torna-os irracionais, maximizando a asneira. Somos todos muito parecidos. Há pessoas más, mas a maior parte de nós é apenas uma pessoa, o que já é demais.