domingo, setembro 30, 2007

Impulso de destruir


Se a castração química parece resultar em pedófilos e outros agressores sexuais, por que não usá-la em indivíduos incapazes de controlar o impulso de desrespeitar e destruir com violência raças e culturas diferentes da sua? Não será essencialmente o mesmo?

Ao pequeno-almoço


"Larga a menina. Não vês que ela não quer?! Tarado! Não deixes, querida. Todos iguais. Pode mudar a espécie, mas não muda a estratégia. Tarados!"
Isto é o que vou dizendo enquanto bebo o café com leite, de manhã, sentada na mesa da cozinha, de onde alcanço os telhados dos prédios vizinhos: os pombos do bairro arrastam as asas e as penas da cauda às pombinhas, ensaiando extemporâneos rituais de acasalamento. Os tarados.

quarta-feira, setembro 26, 2007

Respigadores de crianças



Os candidatos à adopção são tratados pelas instituições portuguesas como pais de segunda classe. Respigadores de crianças a quem cabe calar: uns pobres e mal agradecidos.

A semana passada, na RTP 1, assisti a uma reportagem sobre adopção, nomeadamente sobre o desajustamento entre o ideal do filho desejado e a realidade das crianças que reúnem condições para adopção no nosso País.

Saliento dois aspectos que merecem alguma atenção por me parecerem bastante incorrectos:

- primeiro, a presunção, pelas autoridades, de uma espécie de culpabilidade, lançada sobre os candidatos a adoptantes, considerando-os irrealistas e ambiciosos ao pretenderem um filho até aos 3 anos, sem deficiências, e de raça branca.

- segundo, o facto de, ao longo da reportagem, tanto responsáveis pelas instituições, como repórteres, se referirem aos candidatos à adopção como "os casais".

Gostaria de esclarecer o seguinte:

1. Desde há um par de anos, qualquer indivíduo singular, homem ou mulher, celibatário, divorciado ou viúvo, até aos 50 anos de idade - em casos excepcionais até aos 60 - é legítimo candidato à adopção. Portanto, uma reportagem sobre o assunto não pode referir-se aos candidatos como "os casais". Parece-me trabalho mal feito.

2. Se é legítimo direito das crianças desejarem e merecerem os pais dos seus sonhos, é igualmente direito dos candidatos a pais adoptivos sonharem, como quaisquer pais e mães biológicos, com um filho perfeitinho, depositado nas suas mãos em condições psicológicas que ainda possibilitem uma educação de valores. De igual forma, não é nenhum crime desejar um filho da mesma raça.
Não são os candidatos a adoptantes que têm de se adaptar ao que o mercado tem para lhes oferecer, mas o mercado que deve abrir-se para que possam encontrar a criança que procuram.
A taxa de infertilidade tem aumentado nos últimos anos. Prevê-se que cresça, pelo que o número de candidatos à adopção crescerá em igual medida. Cabe ao Estado alterar a lei que agora impede que milhares de crianças em centros de acolhimento possam ser adoptadas, ou abrir caminho para a existência e acção, em Portugal, de agências vocacionadas para a adopção internacional.

3. Os candidatos a adoptantes não são mecenas do Estado, ou seja, não lhes cabe exonerá-lo das suas obrigações quanto aos cuidados de afecto, saúde e educação a que as crianças menos adoptáveis (mais de sete anos, com deficiências graves) têm direito. É absolutamente normal que um pai ou uma mãe deseje sê-lo nas melhores condições possíveis. A escolha voluntária da adversidade, bem como o altruísmo, são causas nobres, mas não podemos esperar que pais normais, trabalhadores, tenham tempo e vocação para desportos de tão alto risco.

4. Prevalece uma exagerada protecção legal dos direitos de pais biológicos aos quais foi retirada a tutela, por negligência ou maus tratos, mas não autorizam a adopção dos descendentes - embora não cumpram a obrigação de os visitar periodicamente nas instituições em que estes se encontram.

O mês passado, uma mãe com problemas psiquiátricos, e avessa à medicação, atirou uma bebé de meses pela janela do segundo andar. A criança sobreviveu, sendo entregue ao pai, ausente, que não deseja o encargo nem pode suportá-lo.
A quem protegeu a Lei? Quem ganhou com tal decisão?

terça-feira, setembro 25, 2007

O trabalho do tempo


Aos 20 anos queria ser magra para encontrar um príncipe encantado inteligente, sensível e fiel que gostasse muito de mim, e eu dele, e viver um romance cor-de-rosa até ao fim dos tempos.
Agora, gostava de não me cansar tanto a subir escadas.


Aos 20 anos queria encontrar um homem bom na cama, e ter com ele noites escaldantes, e tardes, e manhãs, e cumulativamente entendermo-nos às mil maravilhas fora dela.
Agora, o meu objectivo é dormir a noite inteira e profunda.

Aos 20 anos queria ser bonita.
Agora, os outros dizem-me que estou bonita.

domingo, setembro 23, 2007

As salas de aula das escolas públicas



O Ministério da Educação considera que a DECO não tem competência para avaliar as condições ambientais nas salas de aula das escolas públicas, nomeadamente temperatura, circulação de ar e humidade.
Embora compreenda os fundamentos da reacção de Maria de Lurdes Rodrigues, uma vez que o seu ministério é veículo da maior parte das acções de propaganda do governo que integra, considero-a inteiramente responsável pelos ataques discriminatórios que são hoje feitos à escola pública por parte dos lobbies privados - os quais poderão estar na origem do estudo da DECO, ou não.
Maria de Lurdes Rodrigues criou a injusta má imagem que hoje a sociedade tem da escola pública, e dos seus agentes, e pagou-a com dinheiro dos nossos bolsos.
Pela minha parte, não matricularia um filho meu numa escola privada mesmo que a pudesse pagar, e talvez pudesse. Nenhuma escola privada pode garantir melhor educação que uma escola pública, e o motivo é muito simples: o ensino nas escolas privadas continua a ser mantido, em grande parte, por "perninhas" de uma ou duas turmas que os professores das escolas públicas aí fazem com o objectivo de alcançar mais uns tostões. O que as escolas privadas têm, é alunos cujos pais podem pagar melhores explicadores, melhor material e todo um suporte educativo que alguns dos que estão nas escolas públicas nunca conheceram e nunca poderão oferecer aos seus próprios filhos.
As escolas privadas não têm de fazer médias com meninos que vêm do bairro da lata; com meninos que só comem quando comem na escola; com meninos cujos pais saem de casa para o trabalho à hora a que eles entram, e que ainda não chegaram quando toca o despertador de manhã, e que nem sequer lá estão para lhes lavar a roupa, passá-la, dar-lhes o pequeno-almoço e beijá-los. Por este motivo, e só este, as médias das escolas públicas não podem competir com as das escolas privadas.
Agora, quanto às condições ambientais nas salas de aulas das escolas públicas, cada um de nós, que aí tem filhos, sobrinhos, afilhados e vizinhos reconhece que a DECO não errou. Cada um de nós sabe que mesmo nas melhores escolas públicas do país, os alunos permanecem com os quispos vestidos nas salas, onde a temperatura média rondará os 12/14º, no Sul, todo o Inverno, e que em Maio dificilmente aí respiram, transpirando hormonas até à náusea colectiva. É um facto que qualquer jornalista poderá constatar em entrevistas aos estudantes à saída dos portões das escolas. E o ministério sabe-o muito bem.

(Muitas professoras e professores lêem O Mundo Perfeito. Gostaria de lhes pedir que aqui se manifestassem relativamente às condições das salas de aula nas quais leccionam.)

sábado, setembro 22, 2007

Ando à procura de casa e emprego em Vila Real de Santo António

Derivado duma catarata em fase inicial no meu olho esquerdo.

A verdade é uma profissão de alto risco


Um primo meu afastado, filho de uma prima que viveu muitos anos no Zimbabwe, mantendo, em plena selva, uma cantina na qual vendia peixe seco aos indígenas, é hoje técnico de saúde num hospital de grande tiragem da região de Lisboa.
Não é que lhe tenha grande afeição. Partilha certos ideais da política liberal da moda, e de vez em quando solta umas graças machistas, o que me desgosta, mas os laços familiares, bem como favores prestados pela sua família à minha, obrigam-me a certos rituais socializantes.
Ontem, veio cá jantar uns bifes de cebolada, e relatou-me algumas das suas preocupações de âmbito profissional. O rapaz não compreende por que motivo os médicos do seu serviço permanecem fechados nos gabinetes, enquanto os doentes esperam horas pelo atendimento de urgência. Não percebe, por exemplo, por que aguardam que se acumulem as inscrições de vinte utentes para começar a atender o primeiro; não percebe como podem deixar para os enfermeiros, auxiliares e seguranças a função de acalmar as hostes aflitas e bravias com a dor própria e alheia, cujo alívio alguns clínicos adiam até à fronteira da correcção deontológica, enquanto comentam entre si, num encolher de ombros, que "os utentes reclamem a quem de direito", e "que não se fazem omoletes sem ovos".
Ouvi-o com muita atenção. Afinal, a infância na selva fez dele um idealista objectivo. Acredita na justiça, nos bons princípios e no zelo. Também eu. Por isso é que lhe respondi que tão mau como não haver ovos para omeletes, é haver, mas não se lhes conseguir quebrar a casca para que realizem o milagre de matar a fome a quem a tem.


sexta-feira, setembro 21, 2007

A blogosfera dos senhores patrões e a blogosfera da criadagem

Dadinho Pitta escreveu ao O Mundo Perfeito. O Mundo Perfeito é importante. Corrijo: aquelas de quem eu sou ódio de estimação, e entram anónimas, todos os dias, e fazem de conta que me ignoram imenso, e bem, informaram Dadinho Pitta sobre a existência deste antro soez. Que aborrecido as pessoas importantes, que por delicadeza quase perdem a vida, verem-se assim tão obrigadas a descer aos andares da criadagem.
Pretende Dadinho Pitta que passe a tratá-lo pelo seu nome. Oh, mais valia pedir-me que fosse lá a casa de castigo fazer-lhe a ménage, e de joelhos, correndo o risco de lhe quebrar as malgas Limoges, e outras.
Creio que choverão problemas na Mandala no dia em que lhe fizerem o boneco para o Contra Informação. Sejamos justos, o afinco com que Dadinho se dedica à defesa das valorosas políticas governamentais, deveria valer-lhe merecido reconhecimento pelos excelentes serviços de propaganda gratuita.

Estaremos todos muito bem arranjados no dia em que não puder chamar Lurdocas à senhora ministra, e Zeca Diplomas ao meu vizinho de baixo, que consta ter sacado o dele no mercado paralelo. Qualquer dia tinha que começar a portar-me bem, esquecer a gíria, fechar o blogue maudit, frequentar lojas gourmet e deixar os preparados culinários a repousar três horas no frigorífico, nunca menos. Ora, não me faltava mais nada.

quinta-feira, setembro 20, 2007

O problema da falha humana


Uma pessoa compra um caixote de reciclagem dividido em três partes e separa desperdícios altruistica e obsessivamente, distinguindo, nas embalagens de iogurte, o rótulo de papel do recipiente propriamente dito, e, nas de escovas de dentes, a base de cartão da respectiva cobertura de plástico, as quais desmonta meticulosamente a bem do planeta, logo, da vida vegetal e animal racional e irracional.
Depois, inadvertidamente, enfia o saco das embalagens no vidrão, o do papel no contentor das embalagens e o das garrafas no papelão.
Portanto, intenção, competência, e especialização não chegam para evitar a falha humana.


Please, don't go, don' t go, don't go away

I dont´t agree that Mr. José leaves Chelsea. I like to listen to Mr. José speaking in english. If Mr.José goes to another club in another country, maybe he will not speak english anymore. Maybe he has to speak french or spanish or german or italian, and it is not the same thing for me. Mr. José speaking in english is a show within the show. I know that Mr José is really the best, and has a nice house and family and a beautiful dog, and he also is a millionaire and really despise english people, all right, but I don´t think he can live elsewhere.
Stay, Mr. José, stay, for press conferences sake. Stay.


quarta-feira, setembro 19, 2007

Como subir na vida

Uma alternadeira seduz um careca de óculos com severos problemas de impotência e resolve a vida. Como se chama? Qual a sua profissão agora?
A ex-namorada dum jogador de futebol famoso não ganha para os tratamentos à celulite desde que acabou o namoro. Quem era ela antes? Fazia o quê? E o que faz agora?
O namorado da socialite da linha arranjou um bom negócio. É conhecido. Concedem-lhe crédito para abrir empresas da noite, fazer solário e levantar-se tarde. Quem era ele? Melhor, quem é?
A namorada do político alcançou uma projecção profissional que nunca terá imaginado nos bancos da faculdade. Quem era ela antes? Assinava o quê? E onde?
Na vida é preciso subir com o pulso!

segunda-feira, setembro 17, 2007

É só isto



Cinco últimas aves passaram em bando perto da minha janela, eram sete e tal da tarde, voando para Nordeste um voo atrasado.


Uma paixão racional


Não sou muito dada a medos, com uma excepção: mulheres apaixonadas.
As mulheres apaixonadas são carros sem travões, air bags, gps, abs, direcção assistida e sistema electrónico para fecho de portas e janelas. Não há nada que se possa dizer a uma mulher apaixonada para que mude de ideias sobre uma relação catastrófica. Nada.
- Olha que ele bebe.
- Ah, mas o meu amor vai curá-lo!
- Tem cuidado que ele droga-se.
- Ah, mas o meu amor vai passar a ser a sua única droga!
- Contaram-me que o homem é um ladrãozeco, um vigas.
- Ah, não é bem assim, foram só 3000 euros para um écran lcd, e agora ele nunca mais!
- Ele bate-te, como é que toleras tal coisa?
- Ah, é porque gosta muito de mim e morre de ciúmes dos outros, coitadinho!
- Ele é um calaceiro que te explora sem escrúpulos.
- Ah, mas anda à procura de emprego, e se ainda não encontrou foi por excesso de habilitações, e além disso eu dou-lhe porque quero, o pobrezinho!
- Ele é casado.
- Ah, mas já nem dorme com a mulher, só estão juntos por causa dos filhos, e a relação está desgastada... por um fio!

Enfim, uma mulher apaixonada entra em estado catatónico para o mundo, para além de que cega e ensurdece. Larga as amigas, os amigos, os colegas, os hobbies, a família, e, caso tenha perdido totalmente as estribeiras, o emprego, ou seja, a autonomia, os meios de sobrevivência fora da relação, o que acabará por se revelar fatal.
Nisto, as mulheres têm de mudar muito. Não endeusarem o amado. Não darem o que não é retribuído. Não tolerarem o que não é tolerável, porque tolerá-lo é promovê-lo. Não se atirarem de cabeça até onde as leva o coração. Isso são apenas frases feitas para títulos de romances. O coração sozinho nunca nos leva a sítio de jeito.

domingo, setembro 16, 2007

Como é que uma mulher pode desencalhar?!


Ao acordar muito fresca da sesta dominical, estive a organizar mentalmente a minha próxima festa de aniversário, e eis que ao listar os amigos a convidar, fui levada a concluir que será necessariamente uma gay party.

O puzzle

Uma colega garantiu-me que o corpo da criança está escondido no velho cemitério desactivado. Uma amiga acha que poderá mesmo estar dentro da igreja, numa pequena urna devidamente calafetada. Um amigo próximo, concordante com a minha prima afastada, acha que aquilo pode ter sido um ritual satânico, no qual eles se comprometeram a oferecer a criança. No café, ouvi, hoje, na mesa ao lado, que de certeza a atiraram ao mar. Já ouvi a hipótese de um enterramento na praia, ou mesmo perto do aparthotel. Eventualmente, na propriedade de Murat. Sinceramente, acho que o Find Maddie vai tornar-se o mais famoso jogo para Playstation 2.

sexta-feira, setembro 14, 2007

Almas sensíveis


Não pretendo parecer ninguém especial nem ter um estilo determinado. A minha única preocupação consiste em fazer os possíveis por não me parecer com uma senhora. Detesto a ideia de ser uma lady. Como qualquer mulher solteira, pretendo continuar a gozar do estatuto de menina. Sou uma rapariga, penso para mim. Sou apenas uma rapariga.
Apesar de tudo, andava convencida de que as pessoas conseguiriam aperceber-se da minha fina sensibilidade mau grado o aspecto descontraído, excessivamente normal e juvenil com que piso as pedras da rua. Não sei onde fui buscar a ideia de que as almas sensíveis se reconhecem por um brilho no olhar, um perceptível halo dourado, mesmo que vestidas de serapilheira, despenteadas e cheias de ramelas nos olhos, mas afinal era só uma impressão minha. Mais uma vez, erro, erro.

Estive sem arranjar as unhas durante todo o tempo de férias, o que não é costume. Portanto, a semana passada aventurei-me num novo salão, com as unhas bastante descuidadas, e encetei conversa aparentemente inocente com a manicura, versando o tema "cutículas", para lhe dar a entender que as quero impiedosamente arrancadas.
Disse-lhe eu, tentando dar-me certos ares entendidos:
- Sabe, as minha unhas fazem muita pele!
- Se calhar a senhora mexe muito em água.
- Pois é, mexo, mexo. - respondi, pensando que não tenho máquina de lavar louça, que lavo muita roupa à mão, sobretudo no Verão, e que, de forma geral, gosto de chafurdar em água para lavar a banheira, o lavatório, o bidé, enfim, gosto, é verdade; sim, dou tudo para me encharcar até ao pescoço.
Rematou a senhora:
- Quem mexe muito em água tem este problema. Trabalha na cozinha de algum restaurante, não é?
Consegui responder que não e ficar a rir-me para dentro o resto da tarde.
Não tenho nada contra as almas sensíveis que trabalham nas cozinhas dos restaurantes, mas julgo que há em mim qualquer coisa de inocente. De muito inocente.

quarta-feira, setembro 12, 2007

Os felizes



O Dalai Lama ri às gargalhadas enquanto fala e caminha. As pessoas sérias, como o Papa, não dão gargalhadas: abençoam e rezam, e depois, abençoam e rezam. As gargalhadas autênticas e sonoras estão compreensivelmente reservadas aos anjos, aos loucos e às crianças; quero dizer, aos verdadeiros inquilinos do reino dos céus.


O sagrado ao alcance de todos


Só à chuva podemos chamar água benta.

O silêncio


Desligam-se as máquinas, uma a uma, e o silêncio avança através da noite, húmido, uma tintura de seiva lenta, entorpecendo a vida para que seja possível uma nova vida.


terça-feira, setembro 11, 2007

Prece diária

Meryl Streep,1994


Clyde Connel, 1982

Fotos de Mary Ellen Mark


Nunca, duas vezes, pela mesma água, seja qual for o rio.

segunda-feira, setembro 10, 2007

10 secas de morte

José Carlos Barros, do Casa de Cacela, pede-me que indique os dez livros que NÃO mudaram a minha vida. Para despachar isto sem delongas, apresento uma lista de dez pincéis que me ocorrem instantaneamente - há quem lhes chame grandes obras; a mim, aborrecem-me de morte. Sinceramente, se não tivessem sido escritos, nunca lhes teria sentido a falta:

- Lusíadas, Luís de Camões
- Sermões, Padre António Vieira
- Mensagem, Fernando Pessoa
- Amor de Perdição, Camilo Castelo Branco
- Viagens na Minha Terra, Almeida Garrett
- Memorial do Convento, José Saramago
- Capitães da Areia, Jorge Amado
- Dom Casmurro, Machado de Assis
- O Amante de Lady Chatterley, D. H. Lawrence
- Madame Bovary, Gustave Flaubert

Passo aos seguintes amigos e amigas da blogosfera: Cecília R., do Aspirina B; Siona, do FishSpeakers; Suroeste, do Nubosidade Variábel; jmnk, do Descrita e Miguel Marujo, do Cibertúlia.

domingo, setembro 09, 2007

Aos fabricantes de papel higiénico sensitive impregnado com loção de aloé vera


A gente compra-o para o levar no saco de férias, a tiracolo, juntamente com os batons, o hidratante, o de cor e o gloss, o soro fisiológico para olhos cansados das lentes de contacto, as pílulas contraceptivas, o anti-depressivo, o Ben-U-Ron, o anti-ácido, a escova, os óculos de sol, o spray limpa-óculos, o cartão de crédito e o resto dos documentos, a agenda, o bloco de apontamentos, as esferográficas, o livro que andamos a ler, o lápis para sublinhados, o porta-moedas, as chaves, e a primeira vez que o usamos descobrimos que para andar com o rabo húmido mais vale não o limpar.

Aos jornalistas interessados em questões de género


Como detesto notícias sobre mulheres que singraram em "mundos tradicionalmente masculinos", mantendo-se, apesar de tudo, femininas num mundo de homens e máquinas! É um destaque que as singulariza negativamente, que faz dela seres excepcionais, invulgares, procurando-se, embora, justificar a alegada excepcionalidade, ao acrescentar informação sobre a manutenção dos hábitos feminis: roupa, acessórios, maquilhagem. Por outras palavras, exercem num mundo de homens, mas, sosseguem as hostes, não são homens.
Objectivamente, parece que os profissionais de informação estão a fazer grande coisa pela política da igualdade de género, mas, subjectivamente, o que o nosso cérebro compreende é exactamente o contrário; tal
tratamento de excepção continua a veicular, entre-linhas, a mensagem do que "não é normal". Contraproducente.
O que eu e as outras mulheres pretendemos é que mecânicas, canalizadoras e ladrilhadoras deixem de ser notícia, embora nos interesse continuar a vê-las integradas em reportagens ordinárias sobre o mundo do trabalho.
Isso, sim, seria uma bela ajuda. Isso, sim, seria avançar.

sexta-feira, setembro 07, 2007

Os heróis da heroína

A realidade tornou-se o meu programa de humor favorito. Ultimamente, não consigo ver as notícias sem me desmanchar a rir.
Os toxicodependentes de longo curso que aderem aos kits de injecção distribuídos pelo Estado, os quais são constituídos por seringa, soro, preservativo (que serve de garrote!), carica e ácido cítrico, como substituto do limão, não usam o ácido porque têm ouvido dizer que o ácido, pá, o ácido faz mal ao organismo.

Estranhos bichos


O comportamento homicida, e criminoso, de forma geral, e a psicologia forense, fascinam-me tanto quanto a observação e análise dos comportamentos humanos vulgares. Que estranhos bichos somos nós?
Julgo que a maior parte dos homicidas nunca teve intenção de cometer o acto que o condena. O que faz o homicida não é o acto assassino em si, o qual acontece frequentemente por acidente ou precipitação, mas a ocultação do crime, a forma como se desfaz do cadáver e cria álibis e ficções.
A rapariga que regou o namorado com ácido sulfúrico, em 2001, não terá pretendido matá-lo, mas desfigurá-lo, magoá-lo profundamente; no entanto, matou-o. Foi um acidente que não faz dela exactamente uma assassina, apenas uma agressora - embora tenha sido a responsável pela morte de uma pessoa, e deva responder por isso.
O tio de Joana não teve intenção de matar a sobrinha. O homem só queria "coiso" com a irmã, prática habitual que a miúda testemunhou sem querer. A Joana morreu porque levou uma bofetada fortíssima, bateu com a cabeça na parede e caiu fulminada. O problema começa no momento em que tio e mãe percebem que a criança morreu e pretendem esconder o acto, inventando uma história mal amanhada.
O que aconteceu, lembra-me algo que se passou comigo aos 13 anos, e cuja culpa carrego desde esse dia, sentindo ainda uma vergonha estúpida, uma vez que o acontecimento, em si, não teria gravidade alguma se tivesse sido assumido.
Fui passar uma semana a casa de uns tio-avós, pessoas nos seus setentas, sem filhos, muito sérias, muito rigorosas, cuja casa parecia uma sacristia forrada a plástico, com as salas fechadas para não se sujarem - eu tinha-lhes medo, sobretudo à minha tia, um velho abutre, e sentia necessidade de me portar bem.
Havia na casa uma boneca bailarina, um objecto que me chamava a atenção, e que manuseava com cuidado, pois sabia tratar-se de um bibelot de estimação. Era um bibelot, recordo agora, não propriamente uma boneca de brincar. Sem querer, uma tarde, no quarto de trás, voltado para a fábrica de vidro - consigo lembrar-me da luz amarela desse início de Setembro -, parti ou desloquei um membro à boneca. Ou um braço ou uma perna ou a cabeça. Tentei reparar a peça, mas não foi possível. Talvez pudesse ser reparada; creio que sim, mas não por mim. Senti um medo indescritível. Não queria que me ralhassem. Que me desprezassem. Condenassem. A minha reacção foi exactamente igual à do tio de Joana: como é que havia de me ver livre daquilo? Olhando à volta, e num curto espaço de tempo, decidi escondê-la num armário embutido na parede, em cima, junto ao tecto, entre colchas e cobertores. Aí deixei a boneca entalada entre panos. Durante o resto das férias vivi assaltada pelo medo de que o meu crime fosse descoberto, e até à morte do meu tio, há uns dez anos, esperei que alguém me falasse na boneca que espatifei.
E se fosse uma criança? Se houvesse ali um bebé, e, brincando com ele, o deixasse cair, e fosse responsável pela sua morte? Tê-lo-ia escondido no armário de cima até feder?
Tenho a ideia que todos os seres humanos se tornam crianças quando percebem ter cometido falhas muito graves. Têm medo, e o medo torna-os irracionais, maximizando a asneira. Somos todos muito parecidos. Há pessoas más, mas a maior parte de nós é apenas uma pessoa, o que já é demais.

quarta-feira, setembro 05, 2007

Augusta Street Blues



A Polícia de Segurança Pública realizou hoje uma aparatosa acção na rua Augusta, em Lisboa, tendo detido vendedores/as ambulantes, prostitutos/as, e mais uns cromos que têm a lata de andar a vender massa de louro, eu repito, massa de louro, chamando-lhe haxixe. Parece que houve queixas dos transeuntes. Eu cá, se me vendessem massa de louro em vez da moca, também me ia queixar à esquadra. Certinho. Vegetarianos, vegetarianos, mas nada de exageros.
Gostava de perguntar à senhora chefe da polícia se não estará interessada em mandar os seus subordinados/as perseguir tipo... até tenho medo de estar a exagerar!, mas... eu sei lá, criminosos... ou isso?!


Os incríveis pais de Maddie

Foto: Luís Forra/Lusa

Imaginam que os pais de uma criança desaparecida possam sentir grande disposição para dar entrevistas semanais à imprensa cor-de-rosa, posando sentados em sofás caros, e no chão, sobre almofadas, lendo as inúmeras cartas de apoio recebidas e espalhadas pela carpete?! Embora me esforce por me sentir na pele dos outros - é um exercício que realizo para conseguir situar-me imparcialmente face às situações - nunca imaginaria tal coisa. O meu horizonte emocional não o permitiria. Nunca vi pais de crianças portuguesas desaparecidas aparecerem senão em notícias de jornal, reclamando sobre a impotência dos meios disponibilizados para investigar os respectivos casos.
No entanto, na última semana deparei-me com três ou quatro capas da Lux, Gente, Caras, etc. alimentadas pela imagem dos pais de Maddie, ampliando a brutal campanha de marqueting pessoal que têm levado a cabo nestes meses. A vida dos pais de uma criança desaparecida tornou-se uma notícia de sociedade. Um caso muito negro enche páginas cor-de-rosa. Os pais da criança são igualmente cor-de-rosa: médicos lourinhos, branquinhos, magros e bem relacionados. Não gostamos deles, pois não. Como poderíamos?! Não está em causa se têm alguma culpa no caso. Isso transcende-me. Supreeender-me-ia bastante que os pais de uma criança aparentemente tão desejada, a ponto de ser concebida com recurso à procriação medicamente assistida, pudessem de alguma forma estar envolvidos em cenários tão macabros como os que os comentadores, e alguns jornais, sugerem. Os pais de Maddie poderão estar inocentes como anjos. Mas, na nossa cultura, os pais desesperados não têm assessores de imprensa que 'mandam dizer' aos jornalistas. Que decidem pronunciar-se, ou não, conforme estes se portam bem ou mal, ou seja, conforme lhes são mais ou menos favoráveis. Se calhar sou eu que sou antiquada, mas na nossa cultura os pais desesperados não se passeiam em carros de luxo nem acedem a vivendas a estrear, emprestadas. Na nossa cultura os pais desesperados não são recebidos pelo responsável do quartel-general das investigações sobre desaparecimentos, nos EUA. Nem pelo papa. Não fazem tours pelo mundo, como se fossem embaixadores da UNICEF. Na nossa cultura, os pais desesperados desesperam, e os de Maddie parecem-nos tão calmos e conformados com a demora nas investigações. Imagino que seja efeito dos calmantes com que se automedicam. Sinceramente, espero que tanta serenidade seja trabalho do Xanax e do Sedoxil. Isso poderia compreender. Quanto ao resto, gostaria que o peluche de Maddie que a mãe transporta para todo o lado, nas mãos, pudesse falar. E fala, não fala? Parece-me que fala.


terça-feira, setembro 04, 2007

Dúvida cartesiana I

Duvido que as batatas fritas pré-congeladas sejam efectivamente... batatas.
Hidratos de carbono, de proveniência indefinida, congelados em finos paralelepípedos?!

Dúvida cartesiana II

Duvido que as flores de plástico com que em Portugal se decoram os lares possam considerar-se... flores.
Petróleo trabalhado quimicamente e moldado?!

Dúvida cartesiana III

Duvido que às plantas carnívoras possamos chamar... plantas.
Animais predadores praticando a fotossíntese?!

segunda-feira, setembro 03, 2007

Abrir as asas

Foto: W. Cieniu

Há mulheres que são umas senhoras. Adoro-as. Deliciosas de discretas. Caladinhas, falando num fio de voz, caminhando quase cosidas aos muros e montras das lojas, quase enfiadas no chão, quase em estado gasoso. Há mulheres que pouco se manifestam. Não ocupam espaço. São delicadas. Não falam alto. Não dão uma gargalhada em público. Não escolhem. Mal se repara que existem. Há mulheres maravilhosas. Em alternativa, existo eu.


Não apalpem a fruta


Por favor, não apalpem o cu aos melões. Não é bom método. Só amolga quando a fruta está excessivamente madura. Má escolha.
A expressão de desalento dos clientes perante uma carga de melão mete-me dó. Farta de assistir às lutas inglórias que os consumidores com eles travam nos super, minimercados e vendas de estrada, resolvo hoje partilhar a minha comprovada sapiência no manuseio da fruta.
O melão escolhe-se mediante o peso e a forma. Eu, que tenho muitas dúvidas e quase sempre me engano, nos melões, raramente. Escolho unidades pequenas, mas pesadas, maciças, de preferência alongadas e estriadas. Saio-me bem.
Com as laranjas é exactamente o mesmo: pesadas, com a pele lisa e fina. São as mais doces e sumarentas.
Gosto da fruta maneirinha. É mais saborosa. Pensem no sabor das bananas mais pequenas, as da Madeira, por exemplo. Não se deixem iludir pelo aspecto muito limpo. Uma casca brilhante e polida pode apenas querer dizer que foi lavada e encerada. E polida. A fruta caseira, a das quintas, nem sempre tem bom aspecto, e, normalmente, sabe melhor.
A minha mãe, que viveu e trabalhou numa quinta até ir para África, transmitiu-me este ensinamento nas diversas visitas que gostamos de fazer ao mercado.
Também me ensinou a escolher peixe fresco, mas isso fica para um poste que se chamará "Não espetem o indicador no besugo".

Da importância do açúcar para a felicidade dos humanos


Ao longo da semana coleccionei todos os pacotes de açúcar que acompanharam cafés, galões e diversos chás que fui bebendo. Ao todo, contei hoje, 38 saquetas contendo cerca de 9 gramas de açúcar cada um. Façamos as contas: multiplicando 9 gramas por 38 pacotes, obtemos um consumo de 342 gramas semanais, ou seja, 1,368 por mês. Quase um quilo e meio de açúcar! Não é pelo preço do açúcar, claro, mas parece-me doce a mais. Somando-o ao dos pastéis de nata, e aos açúcares naturais contidos nos alimentos mais inofensivos, acabamos por nos tornar numa gigantesca escultura açucarada, com dentes cariados, pneu na cintura, mas nem por isso criaturas mais doces.
As pessoas sempre se sentiram felizes com guloseimas, em todos os tempos, mas estas não estavam tão disponíveis, e os meios de subsistência eram escassos e incertos como hoje não nos é possível conceber. No campo, era necessário garantirem o pão e o toucinho para o jantar. Era preciso encher a barriga porque era precisa força para trabalhar. Qual açúcar! Uma colher rasa do mascavado no café tomado à noite! Muito bem racionado: uma colher para o pai e só meia para a mãe e filhos. Quando havia.
A minha mãe gosta de recordar comigo os tempos em que ia à romaria com o irmão mais novo, por volta de 1933, e gastavam dois tostões: um na ilustração de um santinho da devoção, e outro guardado religiosamente para um pirulito - o único que saboreavam ao longo do ano. E chegava. Eram felizes. É isso que sinto quando ouço a minha mãe contar-me a vida tal como a viveu antes da II Grande Guerra, e depois. Eram felizes. O nosso tempo, privilegiado como se tornou, confundiu o açúcar com a felicidade. De acordo com a minha mãe, hoje, os pobres consomem como os ricos do seu tempo. E, no entanto, são tão tristes!



O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...