terça-feira, outubro 30, 2007

Limpar-lhes o sebo

As armas de fogo são fáceis e limpas. Algumas pessoas não podem tê-las. Resistir à tentação não está ao alcance de todos.


Determinante demonstrativo

Ao ler, em caixas de comentários alheias, referências à Isabela de O Mundo Perfeito como "essa blogger com a qual normalmente não concordo", não consigo evitar um sorriso.
Compreendo: até para mim sou insuportável.

Todo o amor

O cão da cigana anda na pele e no osso. Não come. Não dorme. Há duas semanas que não sai da porta do número cinco aqui da rua. Estende-se na pedra mármore da entrada, e para ali fica com os mesmos olhos doridos com que me observa quando passo e lhe atiro, "isso é que é amor, rapaz". A caniche da dona Luísa continua saída.


Zen 2



Há três semanas roubei cinco pés de um arbusto florido, no jardim da igreja. As flores minúsculas exalavam um perfume lento, que se espalhava pela casa e me entorpecia. Caíram todas. Resta nenhuma. Na jarra ficaram as hastes verdíssimas, multiplicando-se em rebentos claros, macios, que se agarram à água como se fosse chão.

Zen 1

Sol das oito da manhã.
Os pombos arrulhando quietos, quentes, sobre os telhados dos prédios vizinhos.

segunda-feira, outubro 29, 2007

O sexo alternativo chegou às massas


Enquanto seco a primeira demão de verniz azul opaco, voltemos, salvo seja, ao sexo anal, e a uma ou outra das chamadas parafilias.
Não ignoro que a busca do prazer sexual sempre transcendeu tabus. Não traz qualquer mal ao mundo que parceiros avisados desejem explorar o prazer e o façam numa moldura de "mútuo consentimento verdadeiramente livre". Convém ter presente aquele consentimento que se limita a ceder a uma pressão, o qual reveste uma submissão, constituindo, no mínimo, um acto de violência da vontade. Não se trata de livre arbítrio. Homem ou mulher que assinta relativamente à prática de actos sexuais que não deseja, mas que sente dever cometer para não perder o parceiro, não está realmente a consentir. Portanto, há que perder algum tempo na questão do consentimento. Do verdadeiro consentimento.
A corrente do sexo alternativo, tal como hoje se consome, advém de uma outra pressão que se exerce sobre todos nós colectivamente, e cujos frutos tenho vindo a observar: a do mediatismo sensacionalista assente na máxima "sexo vende, seja ele qual for". Sabemos como há pessoas que gostam de andar sempre na moda. Quem compra camisas com caveiras, porque é tendência do pronto-a-vestir 2007, igualmente adquirirá com facilidade todo um pacote ideológico relacionado com o outrora sexo marginal. De há uns anos a esta parte começaram a aparecer, na nossa Imprensa, as primeiras grandes reportagens sobre o tema do swing ou do sadomasoquismo, entre outros. Na altura eram curiosidades. Práticas privadas de grupos que pretendiam manter-se privados. Desde então, os discursos têm vindo a multiplicar-se, parecendo acompanhar uma prática alargada. Quase massificada. Tem sido o descalabro. Miúdos de 12 anos sonham com swing e chicotes. A minha amiga sueca conta-me que, no seu país, meninas de 14 anos são levadas a praticar sexo anal para não se sentirem out, uma vez que este se encontra completamente legitimado entre jovens. Casais aborrecidos procuram clubes de troca de parceiros para rejuvenescer a sua relação. O ti António quer ir ao cu à ti Joana. Convenhamos que a coisa tem limites, quanto mais não seja de mero bom gosto.
A revista Maria, e similares, que vendem milhares de exemplares, e são consumidas por individuos de ambos os sexos, e todas as idades, têm-se encarregado da legitimação cultural de uma prática que pertencia a uma élite de "exploradores sensuais" que devem hoje sentir-se insultados. A Maria apresenta reportagens semanais sobre as vantagens do swing, os prazeres da dominação e as melhores formas de praticar sexo anal,
com infografia e fotografia a cores. Quem pode ignorar? A revista Maria trouxe o sexo alternativo para as massas, e a massificação do sexo é desastrosa. Ter de escutar as confissões da dona Ermelinda, da tasca do Benfica, segredando-me que está com o rabo todo magoado porque o marido lhe disse que, se não deixasse, arranjava uma brasileira, até a mim me dói. O sexo enquanto arte deve permanecer com os artistas, os que desprezam Anal Ease. Precisar de analgésico anal é mau começo. E mau fim.
E vou agora para a segunda demão de verniz.

quinta-feira, outubro 25, 2007

Alívio anal [sessões contínuas]

Googlava eu, surrealisticamente, por aí, buscando imagens de analgésicos para o poste anterior, e deparo-me com a seguinte informação que me apresso a divulgar para máximo prazer dos leitores de O Mundo Perfeito:




Anal Ease (marca registada)

Lubrificante para ser usado na zona anal, com propriedades anestésicas [porque o sexo anal não dói nada, é muito relaxante, e vale tudo menos tirar os olhos da cara, mas só os da cara, nada de confusões], que proporciona uma maior facilidade na penetração e elevado prazer, sem dor [claro, tudo sem dor, a gente já sabe que é muito bom, e que as terminações nervosas na zona do... e mais a massagem da próstata...]!

É dermatologicamente testado e facilmente removível com água. Aplicar na zona anal e aguarde cerca de um minuto [agora espera aí um bocadinho, e sem desanimar, que se te portares bem até te faço festinhas donde mais gostes]. Limpe (p.ex. com uma toalhinha) antes da penetração [então, mas se é um lubrificante...] ou pode também retirar a sensibilidade do pénis ao seu parceiro [eh, pá, agora é que é mau; uma pessoa ver-se compelida a levar com o macete, e a precisar de analgésico tópico, ainda vá, mas agora aleijar também o parceiro, isso é que não. Que não se faça a festa com dois quando pode fazer-se só com um]. Logo sentirá as propriedades anestésicas a começar a ter efeito. Compatível com o preservativo. Com aroma a cereja [motiva bastante os amantes da fruta]. Embalagem de 44ml.

Automedique-se



Tenho noites em que sonho que sou dona de uma farmácia, e danço a banda sonora de Música no Coração abraçada a um pacote gigante de Xanax, por entre filas de prateleiras repletas de medicamentos de alta dosagem e toxicidade, cujo avio obriga à apresentação de receita médica.
Sem exagerar, as parafarmácias fascinam-me como uma árvore de Natal a uma criança.

Não compreendo o que motiva os técnicos de saúde contra a automedicação. Há lá alguma coisa mais sensata que uma pessoa decidir por si que medicamentos vai tomar, e em que quantidade? Qualquer pessoa que saiba ler, compreende as instruções de uma bula de medicamentos. Posologia, tal e tal. Eu funciono assim:
"Estou com uma neura de camião TIR, portanto vou tomar três Stilnoxes, e acrescento-lhe um Sedoxil de hora a hora." Resulta.
"Ando aqui com uma constipação que mal me seguro em pé; ora deixa-me cá enfiar dois Actifedes de 12 em 12 horas". De ontem para hoje, por exemplo, corre-me mais Actifed nas veias do que sangue propriamente dito, e que maravilha! Rouca, mas sem pingo no nariz.
A mesma coisa para o Ultralevure, o Nimed, o Clavamox. À custa de Nimed curei o raio de uma tosse nocturna e seca a um cão muito rafeiro ao qual dava abrigo. Era o Putchi. Acabou por morrer atropelado, mas sem tosse.
A uma amiga que sofria lancinantes dores de período fiz-lhe o favor de recomendar um Nolotil de oito em oito horas. Não só lhe tirou as dores, como perdeu a sensibilidade da cintura para baixo, com o bónus de ter igualmente ficado com a língua a tremer. Se tivesse aproveitado para fazer uma cirurgia aos joanetes, ou até mesmo uma cesariana, não sentiria a ponta do bisturi. Ainda hoje me está agradecida, evidentemente, e quem não estaria?!

O gangue do swing

Dois miúdos de 12, 13 anos, na paragem de autocarros do meu bairro, com as mochilas às costas, comentam o caso Maddie:

Primeiro miúdo - Está comprovado que os pais da Maddie praticavam swing e para se livrarem da miúda, mataram-na, por causa que ela sabia alguma coisa sobre eles.
Segundo miúdo - Iá. E também é muita estranho que um padre dê a chave da igreja à mãe para ela esconder o corpo da miúda. De certeza que o padre é cúmplice.
Primeiro Miúdo (rindo) - O padre também andava no swing.
Segundo Miúdo - Os gajos esconderam-na para ganhar dinheiro e para não serem descobertos de praticar swing, porque a filha já tinha descoberto as cenas. Vais ver se não é.

terça-feira, outubro 23, 2007

O circo do sexo


A palavra sexo é não só a mais procurada no Google, como a que mais equívocos gera nas interacções verbais.O adjectivo correspondente [sexual], não remete obrigatoriamente para uma actividade genital. Sexual refere também o conjunto de características fisiológicas distintoras dos seres. O macho possui as características sexuais A; a fêmea, as B. Do indivíduo com características A espera-se o comportamento X; do que possui as características B espera-se o comportamento Y.
Ora, a libertação sexual não foi apenas, como defendi no texto anterior, uma libertação para o sexo. Foi uma libertação do sexo. Do que os sexos se libertaram foi de uma moldura de comportamentos associados, a qual designava, invariavelmente, o género a que pertenciam, atribuindo mais ou menos culpas aos transgressores. Uma rapariga que subia às árvores era uma Maria-rapaz, e tal incursão em 'território alheio' valia-lhe censura.
O aprisionamento sexual não se tratava, portanto, de uma mera questão relacionada com a fornicação. A fornicação era o menos. O aprisionamento sexual correspondia a uma esfera de aço dentro da qual se encontravam os limites de comportamento para cada homem e cada mulher. O que podiam fazer, aceder. Os lugares da esfera pública e privada aos quais podiam aceder. Etc. Etc.
A libertação sexual libertou-nos dessa marca a ferro do sexo. Isto foi o que de mais interessante nos trouxe. A pornografia, o marqueting do sexo, legitimando o swing e o recurso a quinquilharia e práticas diversas, que certa Imprensa se encarrega de divulgar e promover, são anedóticos. Fazem-me sorrir, pelo menos. A maior parte das vezes prefiro acreditar que se trata de uma encenação teatral humorística. Tenho uma peninha das mulheres vítimas de penetração dupla! Se a Inquisição usasse tais práticas - se calhar usou - haveriam de lhes chamar tortura. Mas como é na cama, e alegadamente voluntário, ah, que delícia.
A libertação sexual não trouxe a ninguém mais e melhor sexo, apenas o liberalizou, remetendo-o para a praça pública como produto de consumo. Foi pena. A exposição da sexualidade tem-na transformado em acto estético e acrobático. Qualquer dia teremos de ser todos artistas de circo.


segunda-feira, outubro 22, 2007

Diz-me o que entendes por liberdade sexual

Foto: W. Cieniu


A libertação sexual foi, ao contrário do que pensam os saudosos da família tradicional, um progresso civilizacional assinalável, com consequências irreversíveis e vantajosas em todas as áreas da sociedade, economia e política, sendo que a mais relevante de todos consistiu no acesso à partilha de papéis. Nunca a justiça e a produtividade se associaram para tão belos frutos.
Os saudosos da família tradicional não alimentam reais saudades da família, mas da mulher-criada doméstica com especialização em puericultura. Implicava uma escravidão, mas dava jeito. Os judaico-cristãos, ou só judaicos, ou só cristãos, esforçam-se por ignorar que a dita família tradicional nunca passou de uma prisão, e para todos. O homem sustentava a casa e a insatisfação, e fornicava dentro e fora. A mulher geria a casa e a infelicidade, e fornicava mal dentro, fazendo o que podia por fora, à custa de "lanches com amigas". Não eram casamentos, mas associações procriativas e comerciais compostas de membros que se detestavam.
Depois, devagar, chegou a liberdade sexual, conceito ainda muito impreciso na mente colectiva. A libertação sexual não foi apenas uma conquista das mulheres, e não coincide exactamente com fornicação generalizada e compulsiva. Pelo contrário, implica, como nunca, uma enorme responsabilização individual relativamente às escolhas que realizamos enquanto seres sexuados. Tornámo-nos livres sexualmente, todos, mulheres e homens, porque perdemos a culpa inerente ao desejo, porque o sexo se tornou independente do casamento e da procriação, e porque legitimamente ganhámos o direito a não ser julgados, em nenhum aspecto das nossas vidas, pela nossa identidade sexual ou de género.
A libertação sexual não foi apenas uma libertação para o sexo, mas do sexo, uma vez que nos libertou de todas as normas que nos prendiam a tarefas e comportamentos fixos que pesavam sobre homens e mulheres.
Há, contudo, um conjunto de implícitos (e explícitos) relacionais entre os homens e mulheres que não se alteraram apesar da libertação sexual. Um deles relaciona-se com o binómio amor-sexo. Independentemente das necessidades e escolhas sexuais absolutamente sem critério do sexo masculino, as mulheres continuam a ir para a cama porque amam alguém; porque acreditam no amor. Deitamo-nos com a pessoa x porque a queremos para nós. Temos a ilusão de que poderá vir a ser o nosso amor, se ainda não for. O sexo que as mulheres fazem é apenas uma parte do que pretendem manter com o objecto do seu amor. Passar um bocado bom vem em longínquo segundo lugar.
Isto poderá sofrer alterações em casos pontuais, em situações específicas, e mais ou menos passageiras, mas não vejo grandes tendências para mudança. Portanto, os homens podem esperar sentados até que nos apeteça dormir com eles porque são muito giros. Dormimos com eles porque queremos ter filhos com deles, porque queremos acordar ao seu lado e sentir a sua respiração, porque nos dá jeito que nos levem o carro à revisão e nos sintonizem o vídeo com o televisor. E tudo o resto, como dizem os brasileiros, é mera sacanagem.


domingo, outubro 21, 2007

Os blogues sem comentários

Foto: Zak Pawel


Ter um blogue sem comentários é como ficar fechado em casa e não abrir a porta a vivalma. A não ser que vivalma tenha classe, quero dizer, poder, ou, desculpem, influências, conhecimentos, possibilidade de tachos. Mas, nesse caso, entra pela porta de serviço. Entra à socapa. Fechar as caixas de comentários é uma intolerável recusa a chafurdar na vida, e eu detesto cobardes.
Viver é chato e dá trabalho, mas viver é exactamente isso: chafurdanço. Levar com os outros. Aturá-los. Irritarmo-nos, mandá-los a todas as partes que nos ocorram. Levar porrada. Dar porrada. Arrependermo-nos, ou não. Escolhermos dar confiança a esta e não aquele, ou vice-versa. Detestar os outros. Não conseguir viver sem os outros. Ter dúvidas. Errar com todos os sentidos e, muito de vez em quando, acertar com um ou outro.
O que pode distinguir um blogue de uma ordinária publicação on line é a caixa de comentários. As pessoas gostam de mandar bitaites, e toda a gente tem direito ao seu bitaitezinho diário, até os malucos; sobretudo esses. Contraria-me muito visitar um blogue com textos giros, querer deixar o meu lamiré e não poder. Fico sem vontade de voltar. Que interesse tem um blogue que não se pode comentar? Para isso compro um livro e leio-o, e faço anotações nas margens, ora essa.
Um blogue serve para levar na corneta, para desenvolver largura nas costas. Se os comentários nos chateiam, e chateiam, apagamo-los. Depois havemos de levar porrada porque os apagámos. A porrada está sempre certa.
É impossível não ter inimigos. Passando na rua, em silêncio, arranjamos inimigos: aqueles que não vão com a nossa cara, que nos acham idiotas ou ridículos.
Blogues sem comentários dizem-me "sou uma pessoa muito importante e não desço ao vosso nível". Mentira. Os bloggers sem caixa de comentários sabem lindamente descer a qualquer cave, bastando-lhes esquecerem-se das usuais três camadas de verniz.
Blogues sem comentários dizem-me, "tenho muitas ocupações e zero tempo para manter atenção à caixa de comentários". Mentira. A maior parte dos bloggers sem comentários trabalha em casa escutando música clássica, e não pega às nove na fábrica de parafusos, e não chega a casa incapaz de ouvir uma nota musical, de tímpanos cansados pelo barulho das máquinas na linha de montagem.
Blogues sem comentários dizem-me, "não quero ouvir o que tens para dizer". E isso irrita-me. Os blogues sem comentários irritam-me tanto que juro, juro mesmo não comentar em nenhum.

sábado, outubro 20, 2007

Ser convencida, e gostar

A diferença entre mim e aquelas pessoas que parecem muito interessantes, mas que são uma fraude, é que eu não sou uma fraude.


Laços muito apertados

Da série Conversas com a minha mãe

Isabela - Queres pintar as unhas?
Mãe - Não pinto as unhas desde que era nova.
I. - Não sejas exagerada. Não te lembras. Acho que chegaste a pintar as unhas em Moçambique.
M. - Talvez. Não me lembro.
I.- Queres que cor?
M. - Da cor das unhas.
I. - E as minhas? Vê lá se gostas das minhas? Queres esta cor?
M. - Hum. Pode ser. Ficamos a parecer irmãs gémeas.
I. - Mas nós somos mais que irmãs gémeas.

Da vida das filhas únicas (e solteironas) III

A filha

Filha, tu não és bem gorda; és uma mulher desenxovalhada, é o que é!


Da vida das filhas únicas (e solteironas) II

Os óculos

Isabela, estás a ver os meus óculos?! (mostra-me uns óculos com as hastes quase na vertical, todos tortos). Sentei-me em cima deles na banqueta da casa-de-banho. O que é que queres, não os vi! Não tinha óculos!

Como preciso de os ter quando me levares ao oftalmologista a semana que vem, por causa daquele medicamento que me receitou o reumatologista onde me levaste a semana passada, que ele não sabe se as vistas aguentam, tens de levar os meus óculos lá acima ao oculista para os endireitar, que eu preciso deles com muita urgência. E é que também não consigo ver a televisão.

Da vida das filhas únicas (e solteironas) I

A dentadura

Isabela, vem aqui depressa procurar-me a dentadura. Não me lembro onde é que a deixei, e se as cadelas a encontram, comem-na.

quinta-feira, outubro 18, 2007

Eusébio apanhado com um polícia pela mulher


No tempo em que as galinhas tinham dentes, factos banais não eram notícia. Fenómenos sobejamente conhecidos, ainda menos. Esmiuçando, se um cão mordesse um homem, o acontecimento não fazia notícia, mas se fosse o homem a morder o cão, ah, isso sim, já interessava. Princípio elementar.
Atentemos agora nos três títulos da edição de hoje do 24 Horas, jornal que se especializa em não-notícias:

1) Cadáver em putrefacção liberta sempre fluídos (em página interior, e relacionado com o caso Maddie).
Realmente liberta. Libertam todos. É isso a putrefacção. Por isso se enterram ou incineram os cadáveres.

2) Nicolau Breyner rapou o cabelo todo (com chamada na capa).
Imagino o clamor que seria se fosse apanhado a arrear na amante. Era capaz de dar manchete.

3) Eusébio apanhado com uma mulher pela polícia (capa).

Se fosse
Eusébio apanhado com um polícia pela mulher

não seria novidade, mas sempre podíamos comparar com o George Michael. Era uma maldadezinha de lamber os beiços. Ou, à falta de pimenta, e com o mesmo material

Eusébio bate na amante

A existência da amante não surpreenderia ninguém, mas tratando-se do Eusébio, esse símbolo tão caro ao futebol português, e dado o destaque à inesperada faceta violenta de um homem que sempre se mostrou tão conciliador... passava.

Não ignorar, como antetítulo

Totalmente recuperado do problema cardíaco

Mas a quem pode interessar que Eusébio tenha sido apanhado com uma mulher? Há algum futebolista que não seja apanhado com mulheres? Que não arranje complicações com mulheres? Que não morra pela boca e pela conta bancária por causa das mulheres?
Não percebo. Não percebo.


quarta-feira, outubro 17, 2007

Na relva

Os estudantes universitários deitaram-se hoje todos juntos na relva, e ao sol, frente à reitoria da Universidade de Lisboa, para alertar as consciências nacionais contra a pobreza.
Compreendo perfeitamente estas iniciativas. Nos meus tempos de universidade também tudo me servia de pretexto para me deitar com os colegas.

O primeiro, último amor

Vi um filme de André Téchiné com o Dépardieu e a Deneuve. Ele vai à procura dela em Tânger, 30 anos após a separação. Aquela mulher foi o seu primeiro amor, e nunca procurou outro. Ela já tem o filho criado, etc., o marido é um valdevinos, e, no final, enfim, ficam juntos. Dá jeito a todos.
Estou pelos cabelos com as mentiras do cinema. Às urtigas a verosimilhança. A partir de agora só vejo séries sobre vampiros.

terça-feira, outubro 16, 2007

Desmanchos



Da série Conversas com a Minha Mãe


Mãe
- A minha avó era muito má. Rogava pragas à minha mãe.
Isabela - A tua avó rogava pragas à tua mãe?!
M. - Rogava. Zangava-se com o filho, e quem pagava era a minha mãe.
I. - Era fresca.
M. - E caíam. Rogou uma praga à minha mãe em como ela haveria de ter tantos filhos que nem os distinguisse uns dos outros. E a minha mãe, coitada, era uns fora, outros dentro.
I. - Fez muitos abortos?
M. - Ora... era quase todos os meses na Adénia. A Adénia vivia daquilo. Era especialista. Toda a gente lá ia. Era uma mulher gorda, baixa. Lembro-me dela. Tinha sete filhas. Andavam todas aperaltadas.
I. - Era parteira.
M.- Não, mas sabia. Tinha um moinho, mas pouca gente lá ia moer. A freguesia era para os desmanchos. Sabes lá os que foram por aquele rio Baça abaixo!
I. - Mas sabia dar anestesias.
M. (com indignação) - Não. Antigamente não se davam anestesias.
I. - Sem anestesia?! As mulheres eram raspadas sem anestesia?
M. - Sim. A sangue-frio.
I. (fazendo uma grande careta) - Não me contes mais nada.
M. - As mulheres antigamente sofriam muito. Sabes lá!
I. - E as mulheres não ficavam doentes, não ganhavam infecções?
M. - Nas mãos da Adénia, não. Ela sabia daquilo. Era muito conhecida. Chegou a ir presa. Mas ia presa e depois punham-na cá fora outra vez.
I. - Se calhar também fazia abortos às mulheres dos juízes.
M. (rindo) - Pois. Era a todas.


segunda-feira, outubro 15, 2007

Entretém

Da série Conversas com a Minha Mãe

Isabela - Nove?!
Mãe - Sim, nove. A minha avó teve nove filhos. Cinco rapazes e quatro raparigas.
I. - Bem, antigamente era normal...
M . - Era. Havia mulheres que tinham aos 12 e aos 15.
I. - Credo. Não sei como é que elas aguentavam.
M. - Aguentavam. Antigamente não havia televisão nem cinema, nem os entretimentos que há agora.


Peixinhos

Da série Conversas com a Minha Mãe.

Mãe - O Manuel Luís Goucha diz que a coisa de que mais gosta é de chocolate. Mas agora já não o pode comer. Quer ser elegante.
Isabela - Hum.
M. - Havias de o ver ontem naquele programa da... com uma camisa cheia de ramagens, e fios. O que ele gosta daquelas coisas. Parece...
I. - Amaricado?!
M. - Há quem diga que é "peixinho". Agora os homens são todos. Por isso é que não querem casar com as mulheres.
I. - Oh mãe, o Goucha não é "peixinho", já é peixão.
M. - Diz que até nas boas famílias há deles "peixinhos". Até doutores.

Ter classe

Quando era pequena queria ser crescida. Quando crescesse haveria de ser uma pessoa importante como as outras. Uma senhora como a minha madrinha. Reconheceriam a minha existência. Atribuir-me-iam valor. Teria uma voz.
Hoje acho que ser crescida é ter um blogue sem comentários. Isso é que é ter classe.

As gordas

Vou à rua com as cadelas. Passamos por um homem barrigudo, de camisa às riscas, sentado na mesma mesa, da mesma esplanada, todos os dias da semana, seja qual for a hora do passeio. Já não é novo. Gasta tempo. O homem fita-nos e interpela-as. Diz-lhes, "oh gordas!".
Sorrio-lhe, mas sinto-me sempre atingida.

Uma voz humana

Foto: W. Cieniu

Então vocês nunca levaram porrada?! Andam por aí sendo campeões em tudo?! Nunca foram reles, porcos, vis, parasitas, sujos sem desculpa?! Como me impressiona que tomem banho todos os dias e tenham paciência!
Não vos calha darem-se por ridículos e absurdos, ou mesquinhos, submissos e arrogantes?! Nunca foram enxovalhados e se calaram?! Não confessaram os vossos pecados, as vossas infâmias? As violências? As cobardias?
Caramba, e eu que me sinto, todos os dias, tão Álvaro de Campos.



domingo, outubro 14, 2007

Aldrabão, traidor, vigarista e ladrão

Emídio Rangel, em artigo de opinião publicado, ontem, na página dois do Correio da Manhã, pergunta:


É democrático um primeiro-ministro deslocar-se oficialmente a uma escola, uma fábrica, uma empresa, eu sei lá, e ser recebido por uma "manifestação espontânea", com trinta ou quarenta cidadãos vindos de fora e que, a par dos assobios, despejam epítetos soezes, como , filho da puta e muitos outros "mimos" que fazem "corar as pedras da calçada"? Um cidadão, legitimado pela escolha dos portugueses em eleições livres, chamado a ser primeiro-ministro, tem de suportar, sempre que se desloca em serviço pelo País, estas ofensas e indignidades?

Resposta:

1. Filho-da-puta, sinceramente, tenho dúvidas. É capaz de ser injusto.

2. Hitler também foi legitimado pela escolha dos alemães, e contudo, a sua obra faz corar as pedras da calçada.

3. A democracia não isenta os cidadãos eleitos de terem de suportar as tempestades que semeiam com os seus ventos.


Baixar o som

Estive ainda agora no quarto, arrumando roupa com a televisão ligada na outra ponta da casa.
Acabei a interrogar-me sobre como conseguiu Júlia Pinheiro fazer carreira na rádio e televisão. Não tem uma voz, mas uma faca. É um espicho para abater animais, tenho a certeza. A voz da Júlia atravessa-me o coração e sai-me pelas costas.

Outono com manga curta

Os expositores das lojas enchem-se de camisolas para uma estação que se extinguiu.

sábado, outubro 13, 2007

Ensaio sobre a Lucidez II

Sonhei matá-lo de tantas formas. Havia de o deixar esvair-se em sangue, e esfregar-me no seu corpo lacerado, para que, vivendo, trouxesse o peito sujo e cheio do que a vida me roubara. Sonhei matá-lo.
Mas em nome da sua paz, e do que para mim estava perdido, abdiquei do projecto. Todos nós pensamos um dia matar um amor impossível. Viveríamos em sossego - a culpa da sua morte não haveria de ser pior do que isto. Mas não matamos. Chama-se uma pinga de lucidez. Chama-se ser vencido e aceitar.
Parece um filme rasca, mas a vida é o raio de um filme de péssima qualidade.

sexta-feira, outubro 12, 2007

Ensaio sobre a lucidez I

Foto Francesca Woodman


Não sou infeliz. Trabalho na linha de montagem de uma fábrica de parafusos, e os dias deslizam, sucedendo-se entre pensamentos sobre o trabalho. Quando estou na fábrica não penso em mais nada. E à noite sonho que torneio parafusos atrás de parafusos, que desentorto os tortos, que não fui capaz de reparar peças com defeito, que me esforço por dar ainda mais brilho aos de primeira qualidade.
Fabricar parafusos é não só uma psicoterapia como uma técnica que poucos compreendem. É preciso amor ao parafuso, teimosia e paciência. Não basta ser especialista. Ter frequentado muitas acções de formação sobre parafusos e aparafusamento não chega. É preciso, de facto, amar o material para além do processo de fabricação.
A semana de trabalho na fábrica é muito longa. À sexta-feira, sinto-me cansada, e só penso em evadir-me. Podia ter-me lançado nas drogas - consta serem eficazes para o efeito, mas a minha mãe sempre me proibiu de aceitar rebuçados a estranhos, por esse motivo acabo por ir ao cinema, ao teatro, a exposições, e a livrarias. Sinto-me, então, bastante feliz, e por duas horas não penso em parafusos, não tenho corpo nem alma nem existo.
Evadir-me implica morrer duas horas por semana.

quinta-feira, outubro 11, 2007

Detesto Polícia



Não suporto a PSP nem a GNR e o seu batalhão de trânsito. Uma boa parte destas forças de segurança é constituída por indivíduos prepotentes, arrogantes e ignorantes sem remissão. Frequentemente, tenho vontade de lhes devolver as guias de multa com os erros ortográficos corrigidos, acrescentando que apresentam caligrafia demasiado infantil e incipiente, própria de quem fez o 9º ano porque já tinha 17 anos e não valia a pena andar a empatar.
Quando me informam que infringi o artigo 43 do código da estrada, dava imenso jeito que pudessem iluminar-me, e de preferência em Português, sobre o conteúdo do referido legislativo. Multem-me, mas multem-me com dignidade.

Detesto polícias, contudo tenho consciência de que o espaço público, e frequentemente o privado, quando se cruza com o público, depende deles, pelo que a sua missão se torna crucial para a segurança de qualquer estado. Por tal motivo não posso compreender que o Poder invista tão fracamente nas Polícias. Em formação, sobretudo. É intolerável e perigoso que uma profissão sobre a qual recai tanta responsabilidade, e da qual é obrigatório exigir idoneidade e sentido de justiça irrepreensíveis, receba salários miseráveis, não usufruindo de vantagens oferecidas, por exemplo, ao poder judicial. Não devemos esperar discernimento, nobreza e boa reputação apenas dos juízes. Exigir dos agentes policiais habilitações tão reduzidas, bem como rasteira formação humana, cívica e deontológica é um preço que as sociedades pagam alto. Custa-me dizê-lo. Fere os ideais nos quais preciso de acreditar, mas a verdade é que a nobreza de carácter e o zelo profissional pagam-se, compram-se. Com euros. Quem exige tão pouco e paga tão mal, só poderá esperar fracos e negligentes serviços.
Surpreende-nos que os agentes de autoridade sejam alvos fáceis de todo o tipo de corrupção, tentando desenrascar a vida ao aceitar subornos, ou motivando-os? Agridem cidadãos nas esquadras, fecham os olhos aos negócios da noite, melhor, até colaboram, integram os esquadrões racistas da praça para andar a filmar negros algemados contra muros, em acções policiais nocturnas? Pode pedir-se mais? A culpa não é deles, mas de um Estado para o qual a segurança é coisa tão pouco importante.


terça-feira, outubro 09, 2007

Grandes campanhas falhadas II


Todos leram nos jornais que o Ministério da Educação tem estado a oferecer computadores portáteis, bem como respectiva placa para banda larga, aos alunos do secundário que beneficiam do escalão 1 da Acção Social Escolar (ASE), ou seja, aqueles cujo rendimento do agregado familiar é tão baixo que não chega para pagar a conta da electricidade doméstica. Os alunos do escalão 2, cujos familiares conseguem pagar a electricidade de vez em quando, mas que mandaram desligar o telefone, beneficiam de um desconto bastante vantajoso. Os restantes alunos sem benefícios sociais podem obter o mesmo portátil pelo valor inicial de 150 euros, mediante contrato de fidelização com uma empresa de telecomunicações, e por módica quantia. Grande negócio. Para todos: empresa, governo, e, por último, os alunos.

Eu estudei sem computador. Batia os trabalhos à máquina e requisitava livros na biblioteca. O computador, o acesso à net e os downloads não me beneficiaram. Não tenho nada contra a internet. Já nem vivo sem ela. Bem usada é útil a todos. Mas acordemos que o sucesso escolar não depende da posse de um portátil pessoal, em nenhum nível de ensino. Pelo contrário, conheço alunos, alguns são da minha família, cujos pais precisaram de lhes vedar o acesso ao computador para que começassem a tirar uma ou outra positiva de vez em quando.
Creio que a fabulosa campanha "1 aluno, 1 computador" se transformará, no final do ano lectivo, em "a cada aluno o seu chumbo". O barato sai sempre caro.

segunda-feira, outubro 08, 2007

Foi mais enganado do que eu

No canal 2 da RTP, acabei de ouvir um coleccionador de arte afirmar que fez psicanálise durante dez anos, quatro vezes por semana, e que continua a precisar que gostem dele. Quem é que não precisa?!

domingo, outubro 07, 2007

Ao menos usem aliança para a gente perceber logo


Entrou um colega novo lá para a empresa. Desde que chegou, tem-se chegado muito a mim.
"Olá, colega, então que fazes por aqui hoje?", pergunta-me, penetrando-me o olhar com uma espécie de visão raio X que me atravessa de um lado ao outro da testa. O raio do homem ainda me arranja algum descolamento na retina.
Considerando que trabalhamos ambos na mesma fábrica de parafusos, e que ambos produzimos artigos de tamanho médio, e exactamente na mesma secção, gostaria de saber que raio de pergunta é aquela? A resposta correcta seria "faço exactamente o mesmo que tu, ora essa!" Mas não, não posso retorquir de tal forma e tornar-me indelicada. É preciso ver que enquanto me penetra o olhar, o colega sorri com a boca toda, pelo que lhe respondo, sorrindo também, de fugida, meia de lado, "Adianto uns trabalhos. Tem de ser. Compreendes..."

Os homens muito gulosos embaraçam-me. Quando se torna muito óbvio que me estão a fazer a corte, e olhinhos ternos, e sorrisinhos, e me querem tocar na mãozinha, e fazer conversa sem terem nada para dizer, seguros do implícito "eu sei que tu estás a perceber que estou interessado", sinceramente, envergonham-me. Torna-se contraproducente, porque só penso em fugir. Assim não dá, não consigo.
Gostava tanto que estudassem uma conversa qualquer, de forma a que eu não percebesse tratar-se de medíocre engate, e deixassem correr. Liam-me uns poemas. Levavam-me a umas livrarias com café. Ao cinema. A passear não sei onde. Explicavam-me a teoria do big bang pela trigésima-quinta vez, ou como se faz uma ponte suspensa, ou lembravam-me os princípios da trigonometria. Depois logo se via o que é que dava. É que não vou a lado nenhum com conversa de engate. É oca; é óbvia. Com uma mulher do meu género não dá.
Em alternativa, parecer-me-ia bem que o meu colega arranjasse coragem para dizer, "Ó Isabela, sais às quê? Anda ali à Cruz de Pau tomar um café!" Eu diria que sim, já a perceber tudo, pois, mas ia, e o homem explicava-se, desengasgava, e eu faria um esforço enorme para não me rir, mas ele não daria por nada, e pelo menos tinha do seu lado a prova maior que para mim constitui a coragem. Coisa mais linda, e rara, a coragem! Se calhar até tinha sorte. Se calhar até o deixava ver-me os olhos ao fim-de-semana, e quatro ou cinco anos depois quem sabe se não estaria quase a deslizar-me a alça do soutien.
Quando gosto de um homem, tenho uma técnica: digo-lhe. Não ando a empatar com linguagem corporal que só embaraça, e verbal, "não sei quê, o que é que andas aqui a fazer". Conclusão, ou o colega novo é cobardolas, e não serve, ou é dos casados, e sem aliança, e, logo, também não serve.



sábado, outubro 06, 2007

Geografia dos Sábados à tarde

Foto: Samantha Wolov

Encontrávamo-nos na Cruz de Pau.
Ele tinha um blusão de ganga justo, e umas calças do mesmo material, afuniladas, ruças. A roupa era sempre a mesma. Uns ténis de pano. Brancos. Encardidos. Ou pretos cheios de pó. A tiracolo, uma sacola de carneira escura, gasta, com autocolantes do Che, anti-nucleares, anti-fascismo, pró-liberdade, pró-Cuba, pró-Abril.
O passe dele servia para as carreiras de Paio Pires até à Cruz de Pau; o meu dava para todo o lado.
Descíamos até à Amora. Regressávamos ao centro, junto à estrada nacional 10. Às vezes ele tinha ido a pé com o pai até à Siderurgia. Eu não sabia o que era um cabouqueiro. Ele ria-se. Como era possível alguém não saber o que era um cabouqueiro?! Quando chovia muito resgardávamo-nos debaixo das varandas ou dos telheiros das lojas, ou entrávamos nas cervejarias para secar a roupa e descansar do frio; ele pedia uma imperial e um pastel de bacalhau. Ou um café e um mil-folhas. Trazia duas ou três moedas, não mais.
Os nossos encontros tinham três objectivos muito precisos: discutirmos política e cultura, e discordar; olharmo-nos de novo, fascinados, após uma semana de ausência; beijarmo-nos encostados às paredes da Cruz de Pau, nas esquinas da Cruz de Pau, nos bancos da Cruz de Pau, nos vãos de escadas da Cruz de Pau, a céu aberto na Cruz de Pau, e desejarmos o dia em que havíamos de fazer amor, fosse onde fosse, para podermos calar-nos, e concordar.
Eu considerava-o bastante radical de esquerda; ele via-me muito arraçada de direita. E entre beijos e trincas e as juras, que nunca... sorríamos.
Ele não se lembra disto, mas a Cruz de Pau ainda ali está. E eu também.

terça-feira, outubro 02, 2007

Grandes campanhas falhadas

Conheço muito bem o uso que os velhotes fazem dos telemóveis. Há uns meses comprei o primeiro à minha mãe e, claro, prestei-lhe a assistência possível: gravei-lhe o meu número na tecla 1, o da sobrinha favorita na tecla 2, o do irmão na tecla 3; logo a seguir, ensinei-a a carregar no botão verde para realizar a chamada ou atender, e no vermelho para desligar. Expliquei-lhe que quando o aparelho ficasse sem bateria tinha de o ligar à corrente com "este cabo, assim", depois carregar "neste botão, aqui" e "pôr estes quatro números". Mas os dedos da minha mãe, não sendo maiores que os meus, apanham três botões de uma vez, e quando lhe telefono atende-me carregando no botão vermelho, e depois diz que o telefone não atende bem, e quando me quer ligar, liga para a minha prima, ou vice-versa, e quando se lhe acaba a bateria telefona-me para o fixo para me informar, muito chateada, que "o telemóvel estragou-se".
Ora, a minha mãe até tem óculos, vive num prédio com vizinhas, e vê os Morangos com Açucar. Permitam-me, agora, imaginar a cara dos velhotes que vivem isolados nos confins interiores do País, sem óculos, sem vizinhos, sem filhas a viver a dois passos, no momento em que receberam os telemóveis distribuídos pelo governo para combater o isolamento. O que eu dava para ter lá estado!


segunda-feira, outubro 01, 2007

Na minha mala de enxoval


Antigamente, a minha mãe não me deixava mexer na mala do enxoval, nem eu queria. Detestava as peças antiquadas diversas que me tinham oferecido aos oito anos, e depois aos treze, mais as que ela me tinha comprado porque haviam de me ser muito úteis, um dia, quando tivesse marido, filhos e uma casinha, a qual pertenceria sobretudo aos últimos, embora eu aí desse o litro como uma escrava de facto caseira.
Na minha mala do enxoval, de madeira sólida, trabalhada à mão pelos negros de uma qualquer marcenaria de Lourenço Marques, que cá veio parar nas entranhas de um contentor de retornados, não sei se se lembram, havia, ainda há, têxteis com padrões psicadélicos dos anos 70, nomeadamente os de cozinha, e outros com bordados e decorações intemporalmente românticos, nomeadamente a roupa de cama, sobretudo os lençóis da noite de núpcias - a qual, se bem me lembro, veio a acontecer à tarde, numa pensão barata, embora já não esteja bem certa.
Hoje, a minha mãe já me dá acesso à mala de enxoval, e autoriza-me a retirar de lá tudo o que me apeteça, porque, coitadinha, perdeu a esperança, e justificadamente. Assim, abro a minha mala de enxoval, com cuidado, não tirando nada, apreciando com gozo, apenas, as peças tão retro, tão bonitas, que não poderia pôr a uso sem estragar, e que não quero estragar porque são únicas e insubstituíveis. De maneira que abrir a minha mala de enxoval se transformou numa espécie de ida ao antiquário.


A minha actual vida de casada

Sem pensar, refiro-me à cama que permanece no meu intacto quarto, em casa da minha mãe, como a minha cama de... solteira.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...