quarta-feira, novembro 28, 2007

Novos colonialistas desiludidos

As pessoas não mudam. Quando as reencontramos, muitos anos depois, percebemos por que nos afastámos.

A minha mãe acha que vai morrer e não pode deixar-me sozinha no mundo. Por isso, localizou-a. Eu quero estar sozinha no mundo. Quero a minha mãe e mais os amigos que escolhi, e me escolheram. De resto, por favor, deixem-me completamente sozinha no mundo, mas não me ofendam com as palavras brutais que tive de escutar a vida inteira sem poder protestar, e de que fugi quando fui senhora de mim.

A minha mãe deu-lhe o meu número. Ela queria muito falar comigo. Tinha-me perdido o rasto. Tinha saudades da doce menina perdida: eu. Em 20 minutos, o passado bateu-me no rosto com uma fenomenal chapada. "Os negros, os cabrões, os filhos-da-puta. Vim de lá há um ano. Nunca deixei que me faltassem ao respeito. Chamavam-me mamã, chamavam-me tia, e eu dizia-lhes, não sou tua mãe, que eu não sou puta. Nem tia, ó meu cabrão. E não me assaltas que eu sou branca e estrangeira e ponho a polícia atrás de ti, meu escarumba de merda."
Ouvi isto toda a minha vida. Venham-me falar no colonialismo suavezinho dos portugueses... Venham-me cá com essa história da carochinha.

As pessoas não mudam. Um branco que viveu o colonialismo será um branco que viveu o colonialismo até ao dia da morte. E toda a minha verdade é para eles uma traição. Uma afronta à memória do meu pai, mas com a memória do meu pai podemos bem: eu e ele. Se não fosse pela minha mãe, pelo respeito e amor que lhe tenho, rebentava-lhes os olhos com a minha verdade.
Os carniceiros foram todos tão bonzinhos que quando matavam o cabrito davam as vísceras aos pretos. A tripa. A pele. Pagavam-lhes o trabalho escravo com porrada e a farinha, que comiam com as mãos, aqueles porcos, e se os faziam trabalhar sete dias por semana, sem horário, era apenas o legítimo tratamento de que precisavam os preguiçosos. Um favor que o branco lhes fazia. Civilizar os macacos. E agora, em Maputo, uma falta de respeito. "Faltamos lá nós. Têm saudades. Um branco é constantemente assaltado. Na rua. Em casa. Roubam-nos tudo, os cabrões."
"E, olha, assim que puderes vem cá visitar a madrinha."

Pode bem esperar sentada.

terça-feira, novembro 27, 2007

Felizmente, vem nos livros

Será o século XXI a idade de ouro do orgasmo?, lê-se na contracapa de A História Íntima do Orgasmo, livro que comprei muito baratinho num saldo da passada Festa do Avante, e cuja leitura iniciarei durante a actual gripe, entre o amoxicilina das 15 e o Zyrtec das 18.
Respondo já: não, não é. Se vivêssemos na idade de ouro do orgasmo eu não haveria de a atravessar de uma ponta à outra sem dar por nada. Portanto...

segunda-feira, novembro 26, 2007

A máquina do Natal



Estamos no final de Novembro, mas os centros comerciais estão enfeitados com gambiarras, trenós e renas, desde o início do mês. No dia de São Martinho vi crianças sentadas ao colinho do Pai Natal, no Almada Fórum. Promoções de brinquedos, no Jumbo, muitas. Créditos especiais "compre agora e pague depois", com ou sem juros, inumeráveis. Este fim-de-semana, o trânsito direccionado às grandes superfícies intensificou-se. Os centros comerciais abarrotavam.
Compre, adquira, ofereça, tenha, possua, exiba, use, satisfaça, seja como todos os outros que compram, adquirem, oferecem, têm, possuem, exibem, satisfazem. Gaste já o seu subsídio de Natal, caso o tenha recebido, porque foi para isso que o recebeu. Alimente o monstro com o seu crédito. É esta a letra oculta dos Jingle Bells que se vão ouvindo pelos altifalantes do centro comercial. Oh-oh-oh-oh-oh, compra-compra-compra...
Mas eu gosto do Natal. Antecipo a noite, os bolos-rei, os pudins, a mesa do jantar com o bacalhau, que é melhor ou pior, mas que sabe sempre bem, quentinho e regado a azeite. Gosto de me rir e conversar enquanto estamos todos juntos, recordando situações do passado, contando histórias.
Quando era pequena passava a tarde do dia 24 de roda das saias da minha mãe que fritava quilos de filhoses para distribuir pela vizinhança e pelos amigos. A D. Alice faz sempre filhoses de cenoura a mais para mim e para a minha mãe, e nós levamos-lhe um bolinho rei. Ou de chocolate. Ou um pão-de-ló. Que bom estarmos juntos, falarmos, bebermos licores e comermos docinhos. Que bela altura para estarmos juntos. O Natal devia ser só isto. Era o principal. Chegava.
Entretanto, não há ninguém na rua; estão todos nos centros comerciais a comprar prendas.
Não é verdade que os portugueses pensem gastar menos este Natal, ou seja, que a crise diminua o consumo associado à troca de prendas.
Estamos ainda a um mês da comemoração do nascimento do homem que se insurgia contra os vendilhões do templo... e toda esta movimentação se realiza em nome da dádiva e do amor, ou seja, em seu nome.
O consumo natalício já se percebeu, não vai diminuir. Que não chegue para o bacalhau e para as batatas, mas há-de chegar para a máquina de café Nespresso e para o camarão tigre, é certo.

domingo, novembro 25, 2007

Loura nº 7



Sempre fui uma gabada, lustrosa e naturalíssima loura-acinzentada. Antigamente, nas cabeleireiras, as empregadas chamavam-se umas às outras, "Oh Carla Sofia, anda cá ver o tom desta senhora.... ah, é tal e qual o 7B da Vitacor, já viste?!, mas mais natural... É natural, não é?! Ah! Que sorte! Cátia Vanessa, olha-me este cabelo! Querias, não querias?!" Nos últimos 44 anos tem sido assim; que posso fazer contra a perfeição genética resultante do mais rafeiro cruzamento de genes da Estremadura?!
Esporadicamente, nos últimos anos, senti-me uma loura nº 8, pelo que experimentei, e gostei. Em alturas críticas fui uma nº 9. Abusei tanto! É óbvio que nunca se é demasiado loura nem demasiado morena ou ruiva, desde que nos sintamos equilibradamente etéreas. Mas, ultimamente ando com os pés muito enterrados na terra, pelo que ontem, sentindo já saudades de mim, pedi à cabeleira que me pintasse o cabelo de louro-acinzentado. "A sua cor natural?", perguntou a senhora. "Sim, a minha exacta cor natural".


Interjeições

Ui, ui, dizem eles, enquanto passamos [os educados]. Ui, ui.
Por que pronunciam eles ui-uis perante a expressão feminina da vaidade?


Comer, dormir, ir à rua e receber festinhas

A cama da Micas é muito mais macia, quentinha e confortável que a do Menino Jesus. Azar do Menino Jesus.

sábado, novembro 24, 2007

Até ganhei amor à mosca



Por uma vez, sem exemplo, concordo com o Dadinho. Desde que a ASAE aparece diariamente nas notícias dei em ter saudades de uma linda carcaça de boi pejada de moscas, de um cherne de olho azul colado à banca da peixeira, de um pão alentejano à venda mesmo ao lado das garrafas de detergente...
Felizmente, a ASAE não mete o bedelho nas nossas cozinhas, e é o que nos vale para continuarmos a ter direito ao nosso saboroso quinhão de bactérias privadas.

sexta-feira, novembro 23, 2007

Ontem adormeci assim

Ontem foi quinta-feira. À quinta sinto-me um caco. Seria o dia ideal para publicar um You Tube muito divertido, que ninguém veria, mas que alimentaria o blogue, ou um poema traduzido do ronga, quem sabe do mandarim, línguas a que passei com 10 valores, e só porque era gira, mas que domino amplamente; querendo ser mais ousada, uma foto a noir et blanc de uma linda actriz dos tempos áureos do cinema; como título, qualquer coisa como «Hoje adormeci assim». Mas, não. Insisto. Portanto, ontem, apesar do cansaço, aproveitei para responder ao desafio feito pelo JMS do Desmancha Prazeres [ler texto seguinte]. Tendo postado, estendi-me, de consciência leve, no sofá, e adormeci a ver Roma, de Fellini.
Eis o motivo por que falto à minha palavra: declarei que passaria esta corrente [ler poste seguinte] aos primeiros cinco bloguistas que entrassem n'O Mundo Perfeito a partir das 23h07 de ontem, mas, uma vez que adormeci, e o site meter só regista as últimas 100 visitas, esta manhã já só me foi possível identificar entradas a partir da uma e meia da manhã.
Todo este palavreado só para anunciar que os felizes contemplados são os seguintes:

Ideafix, de Ideafix
Pearl, de Lágrima de Prata
Gi, de Garden of Philodemus
Bolachinha, de Ponto... Apenas
Suroeste, de Nubosidade Variábel


quinta-feira, novembro 22, 2007

Quero lá saber que não gostem

JMS, do Desmancha-Prazeres, pediu-me que indicasse os meus cinco filmes.
Nomeio dez. Elaborei uma lista maior, mas eliminei todos aqueles dos quais não conseguisse seleccionar, mentalmente, uma cena marcante. Filmes de ambiente, que adoro, como Blade Runner, ficaram de fora.
Tenho imensa pena de não poder enumerar grandes xaropadas europeias. Xarope, só Bisolvon Linctus, e apenas se o vírus me atacar com força a garganta.
"Filmes de Cinemateca", tipo Casablanca, são muito lindos, gosto muito, mas ficam por enquanto na Cinemateca. Já sei: sou uma insensível.

Rumble Fish
, Francis Ford Copola - destroem a loja de animais e matam os peixes.

Thelma & Louise, Ridley Scott - humilham o poder, e o Grand Canyon é um lindo sítio para salto em altura.



Os Amigos de Alex
, Lawrence Kasdan - maridos fazem filhos em mulheres alheias, a pedido.

As Asas do Desejo
, Wim Wenders - o anjo deseja recuperar os sentidos humanos.


A Vida É Bela
, Roberto Benigni - a minha vida também é apenas um jogo entre bons, maus e assim-assim.

Melhor é Impossível, James Brooks - as cenas do Jack Nicholson a saltar entre mosaicos, na rua, e com o cão, são as mais hilariantes a que já assisti.

Matrix, irmãos Wachowski - também queria uma tomada na nuca para aprender alemão em 50 segundos.

Guantanamera, Tomás Gutierrez Alea e Juan Carlos Tabío - pela memória e pelo amor, juntos sem remédio.

Magnolia, Paul Thomas Anderson, pelo recomeço de todas as coisas.

Passo esta corrente aos primeiros cinco blogues que cá entrarem a partir das 23h07 de hoje, dia 22 .


terça-feira, novembro 20, 2007

Nem eu nem aquelas tão fortes como eu



A nós, solteironas feministas, nenhum homem nos faz o ninho atrás da orelha. Queriam, mas está para vir o dia. Não se aproximem com falinhas mansas. Inútil. Nada do que possam dizer-nos surtirá efeito. Topámo-los. Somos duronas. Inflexíveis. Conhecemos a cantiguinha de cor. Desistam os colegas que não usam aliança, mas que, acertadamente, calculamos bem casados: os que nos deitam olhinhos sem avanços, só os olhinhos. Como se não soubéssemos que quem é livre e tem um copo e pode beber, bebe. Como nos rimos destes rituais de corte que nada significam para nós. Os primitivos. Vade retro. Estão marcados. Não vale a pena. Não acreditamos em cenas românticas. Agora já só cá estamos para ver as vistas. Desistam de se chegar com progressivas festinhas na cara e no cabelo. Não cedemos. Ficamos no mesmo lugar, não nos mexemos, não cedemos, nem pensar. Nada, nenhuma emoção visível, e não é da nossa conta que a pele do nosso rosto siga tão colada à palma das suas mãos, quando se afastam, que recorde tão contra nossa vontade a suavidade dessas mãos afastadas, que queira tão tolamente a proximidade de todas, todas essas mãos que nos tocam os rostos, e que não queremos, que não queremos.

segunda-feira, novembro 19, 2007

Conflitos de classes


Sempre fui um animal. E rainha das bactérias. Adoro comer com as mãos. Lá em África era muito assim, e isto conjugado com o belo estômago com que os genes me agraciaram, leva a que morram tarde, melhor, que morram nunca tais velhos hábitos.
No café aqui da rua arrebanho rissóis e croissantes com a mão, trinco-os, e só depois olho em volta, envergonhada, calculando os pares de olhos que me viram atacar a peça impudicamente, e lá a embrulho num papelinho, a custo, disfarçando o primeiro instinto. Não é fácil. Não domino bem a técnica. Como nunca me foi dado a ler o livro da Paula Bobone, pensei que as pessoas finas não sujavam as mãos. Que nem um milímetro de pele tocava o alimento. Afinal, não é bem assim. Acabei de ler no blogue do Dadinho Pitta que, em Portugal, apenas
"uma pequena minoria indiscutivelmente educada" come primeiro com as mãozinhas e limpa os dedinhos a seguir. E é assim que deve ser. Obrigada, Dadinho. Acho isto delicioso. E liberta-me totalmente. Claro que aqui no meu bairro vai ser difícil convencer disso a malta lá de baixo do café.

domingo, novembro 18, 2007

De como a minha mãe enganou o meu pai durante 38 anos


Toda a vida ouvi a minha mãe queixar-se do custo de vida. O pão estava caro, bem como os grelos e o peixe. "Sabes quanto me custou este molho de agriões? Dois escudos. Isto não são agriões; isto é fogo." O dinheiro nunca chegava. Era a conversa à mesa, ao jantar, já na recuada década de 60. "Mas precisas de mais dinheiro para esta semana?", perguntava-lhe o meu pai. Precisava. Precisava sempre. Mesmo comprando do mais barato, o dinheiro nunca chegava.
Só por volta dos 10, 11 anos percebi para onde ia parte do dinheiro que o meu pai lhe entregava para governo da casa, o qual ela alegava ser insuficiente: economizava-o para nós. Para comprar tecidos para os nossos vestidos, para as calças do meu pai, e para as prendas do Natal. Para os nossos ganchinhos. Literalmente para as nossas coisinhas: uma bandolete para mim, uma bisnaga de creme Tokalon para o seu rosto. Escondia o dinheiro num frasco ou numa lata, em sítios onde o meu pai não tocasse, o que era fácil: o meu pai era um grande macho: não tocava em nada. Quando conseguia que lhe desse dinheiro contado para uns sapatos de que eu precisava, podia então comprar-mos, e mais umas calças. Chegadas a casa, mentia-lhe de novo, afirmando que tinha conseguido um desconto especial, que comprara as duas peças pelo preço de uma. O meu pai alegrava-se por ter arranjado esposa tão poupada, e engolia as mentiras, radiante. Os homens são fáceis de enganar, é uma constatação bastamente documentada.
Mais velha, assisti, calada e divertida, e até ajudei, às mentiras que a minha mãe pregava ao meu pai. Regressávamos das compras, e ela avisava-me: "vamos dizer-lhe que isto custou x". Sempre o dobro. O meu pai nunca deve ter ouvido um preço certo, enquanto viveu connosco. O custo de vida esteve sempre, para ele, muito sobreavaliado. Fui-me rindo em surdina, e nunca me desmanchei. Ao longo dos anos verifiquei que as outras mulheres faziam o mesmo. As que trabalhavam fora de casa também mentiam nos preços aos maridos, conseguindo guardar, incógnito, algum dinheiro para os filhos, e um mínimo de purpurina. Primas, mães de amigas. Sem nunca comunicarem sobre este assunto, todas procediam da mesma forma. Era uma forma de sobrevivência. Um ridículo, mas justo pagamento que se atribuíam pelo trabalho não considerado que desenvolviam em casa. Uma gorjeta.
Lembrei-me disto porque a minha mãe passa a vida a queixar-se-me sobre o dinheiro. Que é pouco. A reforma é baixa. Mas, quando menos espero, pergunta-me, "precisas de dinheiro?", e mete-me 10 euros na mala, para tomar um café. Claro que isto, meus amigos, não tem preço.



quinta-feira, novembro 15, 2007

Que morram longe



Perder alguém que se amou fecha-nos para os outros, mesmo aqueles para quem até somos importantes. Homens e mulheres passam por nós, sorriem-nos, falam-nos, mas ninguém pode substituir a alma de quem se amou muito. Não permitimos, porque não queremos, durante muitos anos, não se fazendo contas ao tempo. Suportamo-lo voluntariamente, rangendo os dentes.
Uma defesa? Sobretudo uma vingança, realizada em nós, por nós, em nome dos outros. Um autosacrifício vivido com amargura dissimulada na raiva. Que os outros expiem connosco a nossa dor. Não se comprazerão com a possibilidade de nos amarem. Não estamos lá para mais ninguém.


terça-feira, novembro 13, 2007

Não fabricam tangas para o meu número


Embora por volta dos 17 anos tenha negado a existência de uma dimensão divina, sempre mantive um espírito religioso, pelo que o ateísmo durou pouco. Sempre me forcei ao racionalismo e à dúvida, pretendendo manter-me tão lúcida quanto possível, mas, em chegando às questões religiosas, soçobro. Percebo exactamente o que significa a fé. O que não pode explicar-se não se explica. Não é absolutamente necessário. Agrada-me não ter explicação para tudo; viver segundo a ideia de que algo mágico permanece ao meu redor; guardar mistério sobre realidades que não estão ao meu alcance; ter consciência de que sei nada.
Embora se tenham feito largos progressos desde o 25 de Abril, altura em que foi proibido acreditar em Deus, tendo mesmo chegado a existir um despacho normativo que regulamentava o assunto, o espírito religioso continua a não estar conforme ao evidencialismo deste tempo, e não tem grande saída que não seja a compartimentação, ou a oferta do peito aos mais alarves sarcasmos sociais.
Antigamente, tinha o hábito de me benzer antes de começar a conduzir. Tinha pouca prática e, caramba, o trânsito é o que se vê. Não me venham dizer que não se justifica rezar um terço antes de ligar a ignição. A minha prima afastada, no banco ao lado, ria-se em surdina. Isto implicava uma de duas soluções: ou abdicava da prática religiosa da auto-benzedura pública, e a guardava para compartimentos privados, ou a minha prima abdicava do gozo. Nem uma coisa nem outra. Continuo a benzer-me, e a minha prima a rir-se, quando me apanha. É certinho. Ela não se mete nos meus pai-nossos, e eu nunca tive a intenção de lhe dar missa. Vivemos bem assim.
Manter um espírito aberto ao plano imaterial implica consciência e livre-arbítrio. Compreendo muito bem os jovens seminaristas que, ao ser entrevistados sobre a sua escolha de vida, a crise de vocações e a prisão do celibato, afirmam sentir-se mais livres enquanto seres religiosos. Sinto-me das pessoas menos influenciáveis em matéria de Igreja, seja ela qual for. A institucionalização dos credos, e o seu comércio, não colhem frutos com as minhas mãos. Creio que a verdadeira atitude religiosa não se vende e não se compra, tal como não deve vender-se nem comprar-se o amor.
Como é que alguém pode lembrar-se de pedir 30 euros para limpar auras?! Em nome de que caixa registadora me vêm dizer que tenho de alinhar os chacras pensando na próxima ascensão do planeta que ocorrerá em 2012, e que tal me vai custar 50 euros? Quem verdadeiramente se preocupasse com a qualidade das nossas auras e do nosso destino não nos pediria dinheiro.
Isto vem tudo a propósito de umas mensagens que tenho recebido via e-mail, convidando-me para reuniões da seguinte natureza, e bem pagas:

"Iremos revitalizar-nos, tomando nas nossas mãos o poder e a força para dissolver velhos vínculos e amarras que nos mantêm ligados a contratos antigos, e que mantêm emaranhados energéticos, sejam eles verbais ou não verbais, conscientes ou inconscientes. Fortaleceremos o nosso “coração” e a nossa capacidade de amar, limpando a nossa aura das “cicatrizes” que restaram de relações terminadas, para seguir em frente numa nova vida."


Não há qualquer diferença entre este tipo de discurso e Fátima Shopping a 13 de Maio. É apenas mais uma entre muitas eucaristias de beatificação de pastorinhos.
Os misticismos transformaram-se num fabuloso negócio que financia inúmeras novas catedrais de Fátima pelo mundo fora, e ninguém parece reparar. Não podemos limitar-nos à crítica gratuíta do comércio católico, e a seguir pagar fortunas a não sei quem, que estava desempregado, foi fazer um curso de seis meses, tornou-se mestre de reiki, e agora "dá" uns workshops muito giros sobre técnicas de salvação empacotadas. Uma coisa é religião, outra, muito diferente, é tanga, e a tanga, a mim, nunca me passou nas coxas. Não há para o meu número.



O melhor resumo da lenda de São Martinho

Ao fim da tarde do dia de São Martinho, comendo castanhas, acompanhada pela minha mãe:

- Mãe, conheces a lenda de São Martinho?
- Conheço.
- Conta lá.
- São Martinho era... olha... era um homem!

Desordem

No centro comercial já vi Pai Natal e presépios. As folhas do Outono começaram agora a cair. Às 10 horas tenho demasiado calor para vestir casaco. Tenho saudades de Purple Rain, aquela canção do Prince.

segunda-feira, novembro 12, 2007

Como uma erva daninha

Quando nasci a minha mãe contou-me que o mundo ia acabar. Estaria para breve. Já a sua avó lhe tinha contado que do chão brotariam chamas altas como casas. Nasceriam monstros. Haviam de ser vistas coisas impossíveis e incríveis. A sua bisavó tinha contado à sua avó, pelo que a minha mãe cumpria a bem intencionada missão de me avisar. Que me portasse bem. Escarafunchando na memória dos inícios, acho que lhe terei perguntado para que fizera questão que eu nascesse, afinal, e não havendo resposta satisfatória, pus de lado a questão. Os pais nunca sabem explicar por que motivo desejaram que nascêssemos. Esforçam-se, mas não sabem. Nascemos porque nascemos, porque sim. Porque se nasce como nascem as ervas daninhas.
Nunca mais pensei nisso do fim dos tempos, a
té sexta-feira passada, data em que encontrei à minha frente, na fila do posto médico, uma negra com seis dedos em cada pé. Baixei-me para brincar com a filha de um ano de idade, perguntei-lhe o nome, Késsia, e confirmei, seis dedos, a mãe tinha mesmo seis dedos em cada pé. E uns chinelos de enfiar no dedo com a bandeira do Brasil. Se isto não é um sinal...

Aos 44

Creio que é capaz de ter o seu interesse saber de onde viemos e para onde vamos. Mas, útil, seria perceber com exactidão o que fazemos aqui. E, tendo-o percebido, por volta dos 40 anos, quando se percebe por volta dos 40 anos, agir consequentemente.

domingo, novembro 11, 2007

No peito dos desatarraxados também bate um coração


Uma colega da linha de montagem aproximou-se da mesa onde eu lia um manual sobre técnicas de atarraxamento, e desabafou:
- Estou como tu. Eu também não encaixo.

Sorri como resposta. Nunca falo com as colegas da linha de montagem sobre o meu sentimento de desencaixe. Na linha de montagem falo muito pouco, seja com quem for, e apenas sobre assuntos estritamente relacionados com o trabalho. Não faço pândega à hora do almoço no bar ao lado da fábrica. Não acompanho ninguém na sala de convívio visionando You Tubes divertidos. Não é por mal. Não tenho nada para dizer e custa-me sorrir forçadamente. Não pertenço, e este é um sentimento que conheço bem, que me acompanha desde que me lembro. Sei que aos outros devo parecer superior e chata. Paciência.
Há algo de paradoxal nisto: ser incapaz de me encaixar e, no entanto, fabricar parafusos que servem para atarraxar em estruturas e, caso sejam bons, ou mesmo maus, sustentá-las, para o bem ou para o mal.

sábado, novembro 10, 2007

Salvação

Abrir as janelas. Sol, outra vez. Céu limpo. Luz. Dois navios no Tejo. Barcos à vela, uma dúzia. O pombo continua atrás da pomba, no telhado do prédio em frente. Lá em baixo, pessoas carregam pacotes e crianças. Silêncio.
Aquecer o leite e meter-lhe café. Doce de ameixa no pãozinho. Não lavar a louça de ontem. Não fazer a cama. De vez em quando um traquinar reconfortante na cozinha do apartamento ao lado; alguém está vivo, como eu; de resto, silêncio.
As manhãs de Sábado.

sexta-feira, novembro 09, 2007

Este blogue não é gratuito

Compreendo o que é o espírito, mas não a alma. O que é a alma? Preciso que alguém mo explique, sem palavras complicadas, para que perceba se tenho uma.

quinta-feira, novembro 08, 2007

Dá-lhes


Impossível ignorar o Correio da Manhã. Deve ser o único jornal do mundo onde se podem ler frases de retinto jornalismo, recolhidas na fonte, e transcritas ipsis verbis, das quais esta é um bom exemplo: "A filha do senhor José Mourinho disse que o jovem teria proferido algumas palavras insultuosas para com o pai. Já o Pedro assegurou que não disse aquilo que a Matilde diz que ele disse." Isto é poesia informativa.

Mas vamos ao facto: Mourinho anda à porta das escolas privadas aqui do distrito dando coças em miúdos malcriados. Imagine-se que parava frente aos portões das escolas públicas, locais onde a violência atinge proporções épicas, aí pelas 18h30. Seria um massacre.
Boa, Zeca. Finalmente, um justiceiro como deve ser. Um Robin Wood da educação. Um gajo com eles no sítio, e inteiros. É caso para se admitir: bendita testosterona.
Obviamente, estou com Mourinho. Alguém tem de explicar aos miúdos deste país, e de preferência com cinco dedos, o que significa um "atina-te", ou, como se dizia há muitos anos atrás, "o respeitinho é lindo". Os pais não sabem o que fazer deles, muito menos os professores, portanto venha o Mourinho pôr ordem nas escolas como se fossem clubes de futebol.
Quero o Mourinho a reescrever o estatuto do aluno recentemente aprovado na Assembleia da República. Tenho a certeza que um clone de Mourinho à porta de cada escola valeria por duas brigadas da Escola Segura. Um clone do Mourinho em cada agregado familiar com prole garantiria melhor pedagogia que dois progenitores graduados em ciências da educação. O ministério da educação para Mourinho, e já, e nem sequer estou a brincar.




Bué d'amigas



"Ninguém me deixa tão húmida". Eis o que uma morena de cabelos compridos diz a outra de cabelos curtos, mais velha. A cena está quente. "Vamos para casa?", pergunta uma delas.
Enquadramento seguinte: uma casa com grandes janelas sem cortinas, toda virada para o mar; deve ser em Santa Mónica, Califórnia, ou coisa assim. Ambas vestem confortável lingerie preta, pelo que não percebo por que sentem tanta dificuldade em desapertá-la. Para um primeiro encontro não está nada mal.
Não sei se as lésbicas vêem muito a L Word. Os homens heterossexuais não perdem um episódio: entusiasma-os imenso o enredo cheio de mulheres de todos os estilos, despindo-se umas às outras e engalfinhando-se sem pudores. E os diálogos. A atenção que eles fixam nos diálogos! Até se pelam!
A mim, L Word [péssimo título] recorda-me umas sitcoms que passavam na tv no início dos anos 90, com jovens amigos que habitavam os mesmos bairros californianos ou nova-iorquinos, partilhando casas, cafés, camas, vivendo triângulos amorosos, às vezes hexágonos, criando e solucionando conflitos e problemas existenciais mais ou menos complexos; uns drogavam-se, outros eram betos; uns queriam mudar de vida, outros não; eram parvos, ou muito cool; adoeciam, curavam-se; engravidavam, abortavam, raramente tinham filhos... eram bué de modernos, e nós queríamos ser como eles. Alguém se lembra disto?
A L Word não é muito mais que uma série de amigos que são amigas e arfam muito. Constato, neste nomento, na RTP2:
"É verdade que nunca fizeste isto?"
(gemidos)
"Quero que te venhas", diz-lhe a de cabelo curto, como se estivesse ao quilómetro 35 da maratona.
"Meu Deus, meu Deus", responde a de cabelo comprido já a pisar a meta.


quarta-feira, novembro 07, 2007

terça-feira, novembro 06, 2007

Toma-nos por parvos

Antes do Verão, assisti, pela AR TV, a um debate na Assembleia da República no qual a deputada Heloísa Apolónio, dos Verdes, questionava o primeiro-ministro sobre a inclusão da vacinação contra o cancro no colo do útero no Plano Nacional de Vacinas, como já acontece noutros países europeus. Sócrates, com a arrogância que lhe é conhecida, praticamente ignorou a interpelação da deputada, respondendo, com enorme desvalor, que tal não era o caso em nenhum outro país da comunidade. Recordo mentalmente a expressão de Heloísa Apolónio perante esta resposta. Riu-se, incrédula. Eu também me ri. Humor negro. Sócrates possui uma incapacidade política grave: é surdo, para além de uma lamentável ausência de sentido de humor. As duas vão levá-lo à mais saborosa derrota política desde Cavaco Silva, e eu cá estarei para ajudar.
Hoje, no debate do Orçamento de Estado, Sócrates, esquecido do que respondeu a Heloísa Apolónio antes das férias, veio anunciar a inclusão da vacina contra o cancro no colo do útero no Plano Nacional de Vacinação. Pelos vistos, vamos ser pioneiros na Europa.



segunda-feira, novembro 05, 2007

domingo, novembro 04, 2007

Momentos felizes

Há dias em que desejo morrer, como toda a gente. Afortunadamente, nessas alturas lembro-me que tenho de levar a minha mãe à injecção, que as cadelas estão aflitas para ir à rua, que não tenho batatas nem espinafres para a sopa, e isso muda tudo: continuo a desejar a morrer, muito gulosa, mas não morro. Não posso. Além do mais, este mês ainda não paguei a renda. Para o senhorio era chato.

As dores das mulheres desfavorecidas



Catarina Furtado pariu o segundo filho. Para além do marido, assistiram também ao parto o pai e a mãe da apresentadora, através de uma "janela indiscreta" existente no respectivo bloco operatório do Hospital da Luz. A primeira filha de Catarina Furtado acha o irmão mais bonito que um Nenuco. Antes de nascer, o feto chamava-se Girassol, por isso o recém-nascido foi apresentado à Imprensa com um verdadeiro girassol enfiado nas roupinhas. Assim que olharam para a criança, os pais decidiram que havia de se chamar João Maria. O médico "que acompanha a apresentadora há mais de 20 anos", portanto, desde a puberdade, "contou que Catarina lhe pediu para que a epidural só fosse aplicada quase no final do parto. Ela queria sentir as dores que as mulheres desfavorecidas que não têm acesso à anestesia sentem, afirmou. Só quando estava com quatro centímetros de dilatação é que lhe demos a epidural."
Agradeço à revista TV Guia desta semana, página 99, toda a informação disponibilizada. Peço aos leitores que agradeçam, igualmente.

sábado, novembro 03, 2007

O teu amor

Deixou-me os pés gelados.

Prazeres não usufruídos II

O teu amor.

Prazeres não usufruídos




Alba
, de A Clareira, pediu-me que:


1. Pegasse no livro mais próximo, com mais de 161 páginas – implicando acaso e não escolha.
2. Abrisse o livro na página 161.
3. Na referida página procurasse a 5.ª frase completa.
4. Transcrevesse na íntegra para o seu blogue a frase encontrada.
5. Passasse o desafio a cinco bloggers.

Eis:

Recomenda o Alcorão: "Sereis chamados a prestar contas de todos os prazeres permitidos na vida de que não tiverdes usufruído durante a vossa estada na terra".

in "Mulheres que Correm com os Lobos. Mitos e Histórias do Arquétipo da Mulher Selvagem", de Clarissa Pinkola Estés.

[Tenho de começar a fazer a minha longa lista. Não foi nada disto que me ensinaram na catequese.]

Passo aos primeiros cinco bloguistas que entrarem n'O Mundo Perfeito a partir da meia-noite e um minuto de amanhã, dia 4 de Novembro (aqueles cujas entradas conseguir identificar através do site meter - agora há muitos unknown).


E os felizes contemplados são:

1. Partícula, de A Seiva dos Dias

2. Mar, de Ponto sem Nó

3. Luís Maia, de O Sítio dos Eurocus (entre outros)

4. P., de Dias Úteis

5. JMS, de Desmancha-Prazeres


Para onde vais, agora?

Caiu a noite sobre todas as coisas que nascem da terra, que tocam a terra, que confinam os seus limites. Tu estás sobre a terra. Quero dizer, revolves-te nela. Estendeste o teu corpo ao comprido entre os arbustos, quieta, sentindo comichão pelos insectos que deixas subirem-te os braços, sorvendo o odor enjoativo do chão, agora em repouso, o odor acre das folhas que a frescura da noite humedeceu. Era isto que querias. Este cheiro. Sentas-te. Sorris. É exactamente como imaginavas. Purpurinas multicolores brilham entre os ramos das árvores, iluminando os vultos das aves caladas. Fragmentos de luz que se ateiam e apagam na escuridão, suspensos como libélulas. Libélulas. Barulhos tão leves. Asas. Uma ave piou. A brisa levanta folhas. Folhas batem em folhas. O peso de patas quebra ramos. Os cães selvagens espreitam-te. Os que como tu não são nada bem definido, nem cães nem lobos. Não te ladram. Os cães nunca te ladraram. Cheiras-lhes os sexos. Sim, são da tua laia. Boa companhia. Lambes-lhes os focinhos. Podes lamber. Dormir enroscada na matilha. Se quiseres. O cheiro doce do sono, do calor. Tão embalada. Não te importa a terra no cabelo nem nas unhas. Esfregas-te. Ris. Ouves o teu riso incomodar a noite. Que silêncio. Que ternura. Tudo é verdade. Trincas terra. Lambe-la contra o céu da tua boca. Claro que recordas esse sabor. Sabias que havias de recordar esse sabor. O chão tem todo o mesmo travo final a argila e a osso de vaca moído. A terra é doce. E agora podes subir de novo às árvores. Os limoeiros. Recordas. Ainda não o vais fazer. Já não. A seu tempo. Mas podes fazê-lo. Sentes-te leve. Se calhar podes voar, como outrora voaste. Tinhas saudades. Confessas para ti própria, tinhas saudades disto. A liberdade.
A noite caiu longa, e a noite é o teu dia. Vais adaptar-te. Uma vida tem muitas vidas, tu sabes. É a primeira noite que dormes na rua. Que não tens cama. Estás eufórica. Como vai ser a tua primeira noite? A que casa regressarás? Quanto tempo vais permanecer sobre a cova onde o teu corpo apodrece? Não devias pisar a tua campa, Isabela. Para onde vais? Para onde vais, agora?








quinta-feira, novembro 01, 2007

As aves

Shen Quan, Pássaro voando sobre peónia e bambu, dinastia Quing, cerca de 1760


Quando morrer só peço um par de asas.



Orgasmo 2

Usar a escova de cabo, a de ensaboar as costas, para coçá-las durante três minutos, e à bruta.

Zen 3

Estar a cair de sono. Dormir enrolada na Morena, um saquinho de carne felpudo e quente.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...