segunda-feira, dezembro 31, 2007

Pobrezinhos, mas honestos refilões


Às leitoras e leitores de O Mundo Perfeito, os menos frequentes, os fanáticos da 17 entradas diárias, inclusive os que cá vêm só para dar e levar com o pau de marmeleiro, desejo um ano de 2008 cheio de profícuas lutas.
Resmunguem, refilem, falem alto, gritem, respondam, provoquem, saiam à rua, e saiam juntos, de preferência, mas não se deixem amarrotar pela sociedade global nem pelos invisíveis poderes do consumo. Acima de tudo, pensem o mundo e ajam nele de acordo com uma moral pessoal.
Aproveitem para rir com gosto e dar valor a pequenos gestos e coisas que só aparentemente não têm nenhum. O mundo perfeito é simples.

O suíno

Era muito iberista, mas curou-se quando se viu na contingência de gastar um par de horas com Paquito, espanhol de Pamplona, terra mui preciosa, con flores de mil colores y una famosa corrida de toros. Compreendeu, então, as razões que teriam levado o conde D. Henrique a trair o rei de Leão e Castela. Em condições tão adversas, quem não fundaria meia dúzia de reinos de Portugal?!

quinta-feira, dezembro 27, 2007

Até já

Se cá não voltar antes do ano novo, isso quer dizer que:
1. o modem avariou.
ou
2. o meu namorado surfer indonésio me convidou para ir com ele a Londres visitar uns familiares paquistaneses, e ainda não voltei [sinceramente, tinha muito mais tempo para o blogue quando não havia tanto sexo à solta, de maneira que os leitores tem de escolher: ou blogue e falta de assistência ou muita assistência sem blogue].

terça-feira, dezembro 25, 2007

Onde desembocam os esgotos de Almada?

Depois do bacalhau e das couves, arranjou maneira de deixar cair a dentadura dentro da minha sanita (a placa de cima e a de baixo); esqueceu-se completamente do acidente, puxou o autoclismo, e sentou-se a ver televisão com menos cinco centímetros de boca.
Este é o Natal da Isabela.

Natal chinês

Agora, que o Natal acabou, há alguma possibilidade de passarem à fase em que se retiram das janelas todas as decorações com estrelas, botas, pinheiros e espirais orgástico-luminosas que se compram nas lojas chinesas?

segunda-feira, dezembro 24, 2007

Tlim, tlim, tlim



Enquanto me preparo para ir ali à cozinha fazer de conta que sei cozinhar, desejo às leitoras e leitores de O Mundo Perfeito um Natal muito quentinho (votos especiais de tempo especialmente fresco para o Brasil, África e outras regiões tropicais).

domingo, dezembro 23, 2007

Telefonema do afilhado, 17 anos, tipo gótico

Estou... Isabela... olaaaaá. Então, não vens cá?! Ah, ok. Olha, este ano não te preocupes com prendas, para mim basta dinheiro.

sexta-feira, dezembro 21, 2007

Bali

Uma das fotos que tirámos na praia: eu e Siriarta, num dos muitos momentos em que comparava o brilho do sol com o dos meus olhos, para concluir que o sol perdia; garantiu desejar entregar a sua vida nas minhas mãos e pertencer-me para todo o sempre, ámen.


Peguei nas cadelas e respectivos boletins de vacinas e fui a Bali por um par de dias, só para descontrair os músculos e gastar uns tostões em excesso. Peço imensa desculpa pela ausência de postes, mas o acesso à internet foi-me dificultado por um namorado surfer indonésio que me chamava sua deusa, praticamente não me deixava sair do bungalow, e me saciou a secular fome de sexo que me tem caracterizado desde que iniciei o blogue, e da qual os estimados leitores tanto se queixam.
E pronto, agora vou ser boazinha outra vez, e escrever sobre assuntos doces e natalícios.


Quero pertencer a uma facção terrorista



Chegou, finalmente, via CTT, a proposta de adesão a um determinado partido político, a qual havia solicitado pela internet. Fiquei decepcionada. Na coluna destinada à listagem das actividades nas quais pretendo colaborar não encontrei nada que me apetecesse realmente fazer, nomeadamente:
- aprender a enrolar e fumar charros de maneira que a moca bata forte.
- assar chouriças e comê-las com pão e tinto alentejano, enquanto discutimos assuntos relacionados com a vida e obra de Rosa Luxemburgo.
- dormir com poetas revolucionários na casa dos 30, de cabelos compridos e despenteados, com caras sujas por barbas atrasadas, cachecóis de malha cinzenta enrolados à volta dos gorgomilos, tresandando tabaco por todos os poros, ao quais tenho de pagar voluntariamente o café e a Macieira, porque não ganham um chavo nem fazem por isso.
- pintar slogans contracultura nas paredes dos edifícios públicos.
- fazer greve de fome.
- partir esta merda toda.
Pensando melhor, eu quero é aderir a um movimento terrorista. Qual será o que se situa mais perto aqui do burgo, tirando a ETA, claro?

quarta-feira, dezembro 19, 2007

Troco 10 milhões de portugueses

A quem interessar, declaro-me disponível para colaborar em acções que visem a entrada ilegal, nesta choldra, de imigrantes de qualquer nacionalidade, vindos de choldras piores, por via marítima, aérea ou terrestre. Desloco-me em viatura própria. Preferência em horário pós-laboral ou fins-de-semana. Levo cobertores, roupa em segunda mão, farinha Nestum e bilhetes de identidade falsificados. Não estou a brincar.


Somos muito bons

O privilégio de uma extraordinária lucidez paga-se caro. Quanto mais humano mais desumano.

Jacinto do Prado Coelho, Diversidade e Unidade em Fernando Pessoa

O que eu gosto de bichas

Ponham o braço no ar todos os outros que estiverem habituados a rentabilizar a marcha lenta da Estrada Nacional 10, entre Corroios e o Fogueteiro, às oito da manhã, lavando e colocando as lentes de contacto, depois o creme hidratante, mais a base unificante, o rimel, o baton de cieiro, e por cima o gloss, acabando a pentear-se, e a levantar uns fios de cabelo com gel, sempre ao volante, sempre a circular.

terça-feira, dezembro 18, 2007

Só o casamento me tornaria uma senhora

No Central, onde me delicio a ler o Correio da Manhã, o senhor Gonçalo, para aí 28 anos, empregado de mesa, solteiro sem namorada, disse-me:
- Menina, se já leu o jornal, passe ali aquele senhor que está à espera.
Olhei. O senhor era o Bruno, um miúdo meu vizinho que brincava com o Pantufa, e entrou há uns anos para engenharia. Tem para aí 23 anos. Consta que dá explicações de Matemática.
Eles, a quem assoei o ranho com lencinhos às flores, já são todos senhores. Eu é que ainda sou uma menina.

Uma botija de água quente para cada mulher



Isabela - (chateada) Faz-me festinhas nos corredores e chama-me o seu amorzinho querido...
Amiga - O que é que queres mais?
I. - Mas ele é casado...
A. - Como é que sabes? Tem aliança?
I. - Não, mas não avança. Achas normal um homem fazer-te tantas festinhas, meter-te a mãozinha na cintura, dizer-te um ror de palavras doces, e não avançar?
A.- (rindo) Pois.
I. - Não avança porque não pode, percebes?! Tem o rabo preso. Tenho a certeza que é casado.
A.- Pois.
I. - Havias de ver o carro dele. É uma daquelas carrinhas monovolume. Só pelo tamanho da carrinha deduzo que tenha uns cinco filhos.
A.- Oh, pá, deixa lá. Pelo menos tens alguém que te faça festinhas.
I. - Deixa lá, não. Já viste o azar que tenho?! Só putos ou casadões.
A.- Eu, que sou casada, não tenho quem me chame o seu amorzinho querido.
I. - Falas de alto, porque quando chegas à cama tens quem te aqueça os pés.
A.- (rindo) Isabela, tu desculpa, mas não é nada que não resolvas com uma botija de água quente, com a vantagem de que não te ressona aos ouvidos.

segunda-feira, dezembro 17, 2007

Don't give up

Tenho este fraco: gosto que as pessoas leiam o blogue e se divirtam, rindo-se lá em casa da minha confessada humanidade cheia de erros exactamente iguais aos seus, e digam "a gaja é maluca", ou se irritem com as minhas posições extremadas, desculpem, as minha indiscutíveis verdades, e me insultem, e me acusem de ressabiamento, e que o meu problema é a falta de sexo e ter sofrido com os homens. Gosto. É um óptimo pretexto para a seguir lhes dar uma libertadora carga de porrada.

Porreiros, pá

Os Gatos trouxeram para a televisão o normal convívio de café entre putos que se conhecem de há muito e mandam umas bacoradas com graça. Como os nossos vizinhos que vimos crescer desde meninos, e que agora estão ali, olha, no Central, a gozar com tudo, e todos, porque não vale a pena levar muito a sério o que dói muito. Até vale, mas, e se, pelo caminho, soltarmos uma boa gargalhada de escárnio? Há lá alguma coisa mais terapêutica do que gozar com o Sócrates?! Gozar com o Sócrates ao Domingo à noite é o que nos levanta os ossos da cama à segunda de manhã.
As bacoradas dos Gatos parecem-se tremendamente com as dos putos nossos vizinhos que já são crescidos, mas ainda não muito. Têm aquela graça dos rapazes solteiros sem grandes responsabilidades, e, para além do mais, escrevem bem, sabem representar, são destemidos e parecem honestos. É isso, uns putos honestos e bem intencionados.
Compreendo que devem parar, descansar, renovar-se, mas vou ter saudades de me rir com eles, aos Domingos à noite. Beijos, rapazes.

Evitem deslumbrar-se com iates, automóveis caros, caviar e champanhe francês

Entretanto, enquanto os Gatos se preparam para uma pausa em beleza, lembro uma piada do Herman José que ouvi, na TSF, a semana passada.
Ei-la, sem comentários, conforme a recordo:

O que é que o José Castelo Branco e o Dalai Lama têm em comum?
Ambos dizem, "Gosto muito de Ti Bete."

domingo, dezembro 16, 2007

Os homens de que elas gostam



Há dois tipos de homens disponíveis no mercado heterossexual: os bons, com bom ar, lavadinhos, simpáticos, compreensivos, tolerantes, fiéis, que aceitam, sem questões, dividir tarefas domésticas, e tratam bem as companheiras, e os maus, porcos, brutos, egoístas, ciumentos, fodilhões do que quer que mexa, agressivos, maltratando todas, excepto as mães, essas santas (a mãe destes é sempre mais santa que a dos outros, não sei porquê).
As mulheres consideram adoráveis os homens bons: são uns queridos, e portanto dedicam-lhes afecto, embora não tanto como estes desejariam; por outro lado, casam e procriam com os maus, num fenómeno que poderei classificar como "sindroma da salvação do mundo".
Sobre os homens maus já se disse tudo: são maus, uns cabrões diplomados, e elas sabem, mas querem-nos a qualquer preço. Hão-de mudá-los, um dia. Dão-lhes imensa luta, normalmente a vida inteira, pelo que têm muito tempo para desenvolver por eles insanas paixões fatais. Vigiam-lhes as carteiras, os telemóveis, desconfiam de todas as vizinhas solteiras com que partilham o elevador, fazem-lhes esperas às amantes, essas putas que os desencaminham, porque eles, coitados, não são responsáveis; são elas, elas, as outras...
Aos homens maus, as mulheres querem pertencer até ao tutano, enfiarem-se por eles dentro, de todas as maneiras, fundirem-se-lhes nas peles curtidas de filhos-da-puta, cozinharem-lhes arrozinho-doce e canjinha que não merecem, comendo elas o pão que o Inferno amassou, lavarem-lhes as cuecas, anularem-se em desmesura, aturando-lhes as taras e psicoses, e arranjando, deles, um par de crianças malcriadas, destinadas à inevitável divisão judicial do poder paternal.
Enquanto descrevo as outras faço os possíveis por ignorar a quantidade de homens bons que se fascinaram por mim ao longo dos tempos, e que me teriam amado de forma realista e boa, os quais desdenhei só porque, e juro que me custa dizer isto!, eram bons, e sinceros, e decentes.

quinta-feira, dezembro 13, 2007

Depoimento: adoro sexo e preciso de me entreter


Licenciei-me em Comunicação Social, trabalho em part-time no atendimento de uma empresa de telecomunicações, e, para me distrair, criei um blogue muito giro onde escrevo manifestos sobre a liberdade sexual das mulheres do sexo XXI, e as vantagens terapêuticas do sexo anal, do bondage, e isso. Para além do mais, sou casada, e adoro sexo, mas o meu marido, que é professor de Filosofia numa escola de Sacavém, e traz quilos de testes para corrigir, acaba por não ter tempo para me satisfazer como gosto, ou seja, imenso à bruta. Há uns meses fiz-lhe um ultimato, e atirei-lhe: "Toni, desculpa, mas não pode ser: não quero ficar ressabiada como a Isabela; sabes bem que preciso de, pelos menos, tipo... um, dois orgasmos por dia; portanto, se não podes, vou buscá-los onde existem: passo a prostituir-me para gozar. Porque quero gozar, gozar doidamente, aqui, acolá, e mais adiante, e ninguém tem nada a ver com isso. Aproveito e ganho mais qualquer coisa para a gasolina e o cartão de crédito, livre de impostos. Junto o útil ao agradável".
Respondeu-me ele, levantando os olhos de um trabalho sobre Descartes, integralmente copiada da internet, "fazes bem, querida; antes das férias do Natal, não só não tenho tempo para ti, como nem pensar em levar-te ao clube de swing. A prostituição não tem mal nenhum, e, se eles te chamarem puta, pelo menos sabes que não é do entusiasmo da função. Entretens-te. Se gostas... Por mim... Tu é que sabes... Eu, para dizer a verdade, tenho é medo que te enchas de celulite estando parte do dia sentada no call center; e esquece a ideia de te inscreveres para as limpezas do Almada Fórum. Sabes bem que a lixívia te descasca a pele toda, para além de que espirras com o cheiro dos detergentes. Pede a carrinha emprestada à minha irmã, que ela agora já só trabalha no Passerele, e não te esqueças de levar rolos do papel de cozinha e toalhetes refrescantes."

Quando for grande a minha mamã quer que eu seja puta


Olha, eu cá, quando acabei a licenciatura em Estudos Portugueses meti-me nas limpezas do
Almada Fórum, mas depois a minha mãe começou a dizer que não era higiénico andar a limpar resquícios de fluídos alheios, mais a vergonha da bata, das luvas, da touca, e o que é que os vizinhos iam dizer se me reconhecessem, e porque é que eu não ia para puta, e que ganhava mais, e sempre era actividade liberal com horário flexível, e pronto, cá estou.
Hoje está um briol! Não tens os pés gelados?

A profissão

Comentários dos leitores a este poste:

"(...) a filha de 13 anos de uns amigos meus, gente acima de qualquer suspeita, dizia a uma amiga, enquanto ambas apanhavam sol na varanda, que assim que deixasse de ter acne ia para puta, pois apetecia-lhe ter um jeep antes de acabar o curso de direito para o qual sentia enorme vocação. Aliás, talvez mesmo antes, mas apenas
strip com webcams, pois os pais não lhe queriam dar a playstation portable branca de que ela muito gosta."

Fernando AC

"Só tenho filhos, por isso vai-me dizer que é muito fácil falar, mas acho que preferia que a minha filha fosse puta a que tivesse de limpar casas de banho em centro comerciais (...)"

Marta

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Comédia dos dias

Foto: Tom Chambers, Burning Dress, 2003

O fogo e a neve dos tempos da nossa vida convertem-se, com os anos, em meia dúzia de anedotas irresistíveis para contar ao serão. É a maior vantagem que tiramos de um longo passado: podermos rir-nos dele.

terça-feira, dezembro 11, 2007

Penélope de Natal

Todas as varandas do meu bairro se enchem de estrelas ou espirais ou Pais Natais luminosos made in China, mais gambiarras em tubo, tudo pisca-piscando nervosamente. Dispõem-nas sem planeamento algum: caoticamente enroladas, ou muito esticadas, ou simplesmente caídas como moribundas lombrigas enforcadas, perdoe-se-me a imagem. A ideia é ostentar, perdoe-se-me o verbo, umas luzes exteriores exactamente iguais às que os outros têm. Porquê? Porque os outros têm. Qual o objectivo? Os outros terem. Que necessidade pretendem satisfazer? Ter como os outros.
Penso nisto, e em tantas outras coisas, e chego à mesma conclusão de sempre: podia ser tudo tão mais fácil se cá andasse apenas por ver andar os outros, como qualquer pessoa normal, e me sentisse sumamente feliz enrolando lombrigas luminosas no estendal da roupa.


Refinado humor lusitano

O vizinho reformado-muito cedo da Marinha, o do bigode, no elevador, metendo conversa sobre as cadelas:
- Eu também gosto muito de bicharada, como a vizinha: frango de churrasco, coelho à caçadora, ensopado de vitela, leitão à Bairrada... he, he, he.

segunda-feira, dezembro 10, 2007

Tags e grafitis do meu bairro I

[muro da escola]

Maloka (deve ser Maluka).

Feat Big Nik The One (deve ser Fat Big Nik).


Tags e grafitis do meu bairro II

[muro da escola]

Amo-t Ana 8F (numa ponta do muro).

Amo-t Rita 8F (na outra ponta do mesmo muro).

A mesma letra, o mesmo traço, o mesmo discurso. Deve ser um daqueles casos muito bicudos de indecisão que se mantém pela vida fora. Às tantas as moças até são as melhores amigas, mas uma é loura, outra morena.

Tags e grafitis do meu bairro III

[muro da escola]

PUTOSXTÚPIDOS (assim tão eloquente nem sinto necessidade de comentar.)

Aniversários importantes



Hoje é o dia de aniversário da declaração universal dos direitos que nenhuma nação cumpre, embora passe a vida a lembrá-los às outras. É como o trânsito nas estradas portuguesas.
Cumulativamente,
a SOS Racismo faz 17 anos. Eis o seu novo cartaz e os meus parabéns.

domingo, dezembro 09, 2007

A linguagem corporal dos ditadores

O Mugabe tem um ar muito abichanado. A forma como caminha. Como coloca as mãozinhas. Não é por nada, mas sendo quem é, dá má fama às bichas.

Os que têm vergonha de ser feministas

Foto: Craig Buchan, Boot


Os crimes relacionados com o tráfico de pessoas têm vindo a substituir os que consistiam no tráfico de droga. A maioria das vítimas são mulheres oriundas dos países da ex-URSS, África e Brasil, usadas como matéria-prima no mercado da prostituição ocidental.
É normal que os cidadãos de um país em crise pensem fazer biscates ou emigrar para encontrar trabalho, mas vender o corpo e a dignidade não surge como uma primeira opção, como acontece com as cidadãs. Que tragédia, a dos que são levados a encarar a prostituição, e a sua esclavização, como forma de sobrevivência! E como isto nos grita a realidade sobre o pensamento do mundo em que vivemos! Do mundo civilizado, imagine-se. Por que motivo a prostituição, e respectiva escravatura, haveria de custar menos às mulheres do que aos homens? Não custa. O que houve, foi, desde sempre, e não terminou ainda, uma legitimação generalizada da prostituição feminina como destino natural daquelas que a fortuna desafortunara. Hoje, chegámos mais longe: a prostituição profissionalizou-se para servir eficazmente o mercado do sexo como anestesia da vida, substituindo-se às drogas. Hoje, as prostitutas têm orgulho no seu trabalho, e publicam livros, o que é centenas de milhar de vezes pior para a dignidade das mulheres como um todo, e, portanto, pior para a humanidade, do que a vulgar prostituição das miseráveis, ou das que foram culturalmente destituídas dos meios de sobrevivência que não adviessem da sua sexualidade. É que essas queriam ser outras, tinham alguma consciência da sua exploração, mas as prostitutas de hoje, não. Oferecem-se voluntariamente à prostituição! Por amor à arte! Que cordeiros de Deus! Uma mulher feliz porque é prostituta não pode ser feliz, nem livre, porque, dêem-lhe as voltas que derem, o sexo nunca poderá, sem desvirtuamento, transformar-se num produto de consumo. A existência de um comércio sexual sólido e lucrativo, desde sempre, mas actualmente sem paralelo, não tornará essa realidade em algo desejável, elegível segundo os princípios básicos de uma moral transversal à maior parte das culturas mundiais. Tenho muita pena, mas é exactamente assim. O sexo que temos lá fora, rápido, industrializado, em muitos casos vil, é bem o reflexo desta filosofia tão sombria para a dignidade das mulheres como o foi a subalternização dos papéis, aceite através do casamento tradicional e respectivos deveres, aos quais algumas sobreviveram mediante continuadas estratégias de guerrilha.
De que outra grande prova necessitamos para compreender que o estatuto social das mulheres não mudou como se pensa, e que estas permanecem culturalmente subalternizadas, como regra? Este é o motivo pelo qual as reivindicações feministas continuam, hoje, tão actuais como o foram ao longo do século XX.
Há quem tenha vergonha de ser feminista. Não há qualquer vergonha sobre ser-se ecologista, anti-racista, defensor dos animais, mas feminista é que não, porque hoje já não se justifica lutar pela igualdade dos géneros. Somos todos tão iguais, pois não somos?

sábado, dezembro 08, 2007

As minhas cuecas



Estou desertinha que chegue o Natal. Tenho o armário cheio de cuecas, mas nenhumas me servem. Do que estou mesmo a precisar é de umas valentes cuecas de gola alta de algodão, confortáveis, que muito aprecio, mas que me envergonha comprar na loja, para que as vendedoras, todas de madeixas louras e cobre, e rimel, e fio dental tamanho 36, com rendinhas, não me julguem velha e gorda. Sim, porque o julgamento das meninas conta-me muito. Portanto, espero ansiosa pela salvação que, querendo o Menino Jesus, me há-de trazer o Pai Natal da D. Trindade, e da D. Maria, e da D. Natalinha...

Não se explicam

Estávamos sentadas perto de uma miúda loura, mais colegas de grupo. Procuravam qualquer coisa sobre a cidade de Almada, no Google, e desaguaram num site sobre Almada Negreiros. Comenta uma delas, em voz alta:
- Almada Negreiros?! Quem é este gajo?
A minha companheira de leitura adverte-a:
- Oh, menina, o Almada Negreiros não foi um gajo. Está a falar de um dos nossos melhores escritores e pintores, portanto vamos lá ter mais cuidadinho com a língua.
A miúda engoliu em seco.
A minha companheira concentra-se na leitura. Um par de minutos depois, interpela-me:
- Ouve lá, Isabela: O mito é o nada que é tudo/o mesmo sol que abre os céus/é um mito brilhante e mudo... o que é que este cabrão queria dizer com isto?

O meu programa preferido

É o 3, para algodões, a 60º, na minha máquina Indesit.

Cada época tem o António Ferro que merece

Dadinho Pitão é a favor do Imposto sobre o Saco de Plástico (ISdP), porque não suporta vê-los pendurados, com o objectivo de afugentar pombos, nas varandas das avenidas elegantes e Lisboa, isto é, Estados Unidos da América, Roma e transversais. Ah, Dadinho, que amofinação hein?! Só as ruas permanecem elegantes, de resto, que chusma de pindéricos plastique-nouveaux-riches!

sexta-feira, dezembro 07, 2007

Acaso

Não gosto de explicar porque gosto das coisas. De um poema. Das pessoas. Se calhar devia, mas não gosto. Quero gostar das coisas e dos poemas e das pessoas sem ter de explicar por que me picam os olhos, as mãos, a boca só por que um dia parei e as encontrei nuas, sem querer.

quinta-feira, dezembro 06, 2007

Aguenta e não chora (uma crónica sobre altas finanças)


O Governo pretendia acabar com a poluição mediante a tributação do Imposto sobre o Saco de Plástico (ISdP). Portanto, eu que já uso os do supermercado para colocar o lixo doméstico, sendo que os preços dos produtos comprados no Jumbo incluem os gastos da empresa com os ditos, e portanto nem sequer são à borla, passaria a pagar acrescidos cinco cêntimos por cada unidade. Parece-me bem. A algum sítio tem o governo do cidadão Sócrates e conjurados de ir buscar receita, continuando a deixar por resolver os fracassos estruturais, todos culturais, de que padecem as finanças da nação.
Fiquei muito satisfeita, logo de manhã. Ia no carro para a fábrica, ouvi a notícia na TSF, e passei o resto do dia sorrindo. Imposto sobre o saco de plástico: ah, leões! Podia ser finlandesa e ter a melhor educação do mundo. Podia emigrar para o Canadá e beneficiar de excelente Segurança Social. Tinha possibilidade de ir para a Suécia ganhar um bom ordenado. Se quisesse casava com o meu amigo espanhol, reproduzíamo-nos que nem ratos nas clínicas de fertilização humana, e receberia subsídios de maternidade uns atrás dos outros. Mas não, o que eu quero é mesmo ser portuguesa, porque me divirto mais.
Para que possamos não só resolver os nossos problemas ecológicos, como encher os cofres da nação e reduzir o déficit, à custa da pura exploração dos cidadãos, todos já de fio dental, ou seja, matar três coelhos de uma só cajadada, proponho os seguintes impostos: ainda no âmbito do plástico, temos outras realidades altamente poluentes e passíveis de taxa. Isto é só um supor, mas vejamos: Imposto sobre a Garrafa de Plástico (IGdP); Imposto sobre os Pacotes de Batatas Fritas, Bolycaos e outros Snacks (IPBFBeOS); Imposto sobre Embalagens de Legumes, Frutos Secos e Fruta Fresca, ou de Qualquer Natureza, Tipo Detergente, Shampô, Dentífrico e Etc. (IELFSeFFQNTDSDeE). E já agora, para que não se elimine apenas a poluição plástica, vamos à das latas: Imposto sobre Todo o Tipo de Lataria (ITTL). Quanto à quantidade de garrafas de cerveja largadas no chão das zonas da noite, muitas delas escaqueiradas: o impostozinho da ordem (IGCLCZN).
Como os postos de trabalho nas empresas de reciclagem diminuirão drasticamente, proponho um plano de acções de formação em processamento de impostos, custeadas pelos trabalhadores, os quais seriam integrados nas repartições de finanças, onde o trabalho se multiplicaria, mas tudo a recibos verdes.
Outros impostos que convinha ponderar devido ao elevado número de cidadãos a que se aplicariam: Imposto sobre a Respiração (IR) - com condições especiais para asmáticos; Imposto sobre o Cagalhão Canino (ICagaCan) - só para donos de cães ou simpatizantes. Neste caso, seria necessário criar uma Polícia do Cagalhão (PolCaga) ou, em alternativa, promover a denúncia entre vizinhos; como os vizinhos bufos são bastante poluentes da atmosfera social, só por existirem, criar-se-ia o Imposto sobre o Bufo (IBufa). Da mesma forma, proponho o Imposto sobre a Estúpidez (IEst), mas, neste caso, o Governo seria o principal contribuinte. Contudo, era apenas dinheiro a entrar e dinheiro a sair, para além de criar postos de trabalho, todos a recibo verde, cujo objectivo seria cobrar o imposto ao Governo e, numa fase posterior, receber o imposto do Governo.
Nunca imaginei a quantidade de interacções contribuitivas que o Imposto sobre o Saco de Plástico podia gerar, pelo que o considero mais uma das geniais ideias deste Executivo.

Sobre o assunto, mas num registo sério, valerá a pena ler este poste no Quarta República.

quarta-feira, dezembro 05, 2007

Mais um saco azul

Vamos a contas: se entre 1994 e 2003 houve 25 mil divórcios, alguém poderá elucidar-me sobre o destino dos 25 mil individuos do sexo masculino que obtiveram a consequente carta de alforria?

O amor conjugal comove-me

No instante em que a mulher, debruçada sobre a banca da cozinha, começa a cortar feijão verde para a sopa da janta, e grita ao miúdo que largue o computador e faça os trabalhos de casa, ele faz-me festinhas no rosto, chamando-me o seu amorzinho querido. Talvez a mulher tenha opinião diferente, mas quem sou eu para os contrariar?!

terça-feira, dezembro 04, 2007

O terrorismo da geração-nada

Nunca gostei de desperdício e estrago. Nunca desenhei, na casca das árvores, corações atravessados por setas, nem sequer o meu nome nas mesas da escola. Por isso, dificilmente compreendo a febre de escrever nas paredes, com tinta em aerossol, o gatafunho do próprio nome, ou um nick, actividade que, no meu subúrbio, se denomina tagging.




Tagging significa etiquetagem, e uma etiqueta é, por definição, um símbolo de identificação. A tag deve considerar-se, portanto, o anúncio de alguém. Quem deixa uma etiqueta em algo reclama a sua posse. Como é lógico, não ponho etiquetas com o meu nome nas malas dos meus companheiros de viagem, apenas nas minhas. Porém, muitos jovens deixam as suas etiquetas [tags] em paredes de edifícios, contentores de lixo e de reciclagem, cabines telefónicas, postos de iluminação pública, caixas multibanco, degraus de escadas, toldos, portões, esculturas, caixas da electricidade, gás e telefones, paragens de autocarro, às vezes nos próprios autocarros. No Verão passado reparei que não existiam, em Paris, carrinhas de transporte comercial que não estivessem completamente grafitadas com tags. Se existiam, não as vi.

No momento em que o tagger desenha o seu nome sobre uma superfície, declara pertença sobre o objecto grafitado; "este caixote do lixo e este lugar são meus", pensamos nós. Encaramo-lo como declaração de posse e, consequentemente, afirmação de um poder que assenta sobre a insegurança que gera. Um bairro com tags ganha o aspecto desordeiro próprio dos territórios pertencentes a um clã, e não a uma uma comunidade que vive junta, mas independente. A tag parece, assim, constituir uma poderosa afirmação de identidade marginal sem princípios que não os do máfia criminosa. Transmite-nos a impressão de que poderemos ser atacados com uma faca ou um pitbull na primeira esquina. Neste aspecto, a tag reveste uma muito eficaz forma de terrorismo.

Como desejei que o meu hóspede alemão de ontem não tivesse reparado nas horríveis pinturas que mancham as paredes do meu bairro! Mas reparou. A
disseminada tag desfeia lugares sobre os quais houve uma tentativa de ordenação urbana, caso da minha rua, e tranforma-os em território aparente inseguro e perigoso. Percebi que foi essa a impressão com que o meu amigo ficou da zona: um subúrbio perigoso!, o que rigorosamente não corresponde à verdade. "Aqui, à noite, não há jovens fazendo distúrbios?", perguntou-me. Expliquei-lhe que vivo num bairro habitado pela classe média-baixa. Ninguém me parece especialmente rico nem especialmente pobre. As pessoas saem de manhã para o trabalho e regressam ao final da tarde, vivem, têm filhos despenteados, mal mas dispendiosamente vestidos, que vão à escola, bebem cervejas, fumam charros e ouvem música inaudível, como qualquer outro jovem. Quem se ocupa, então, da grafitagem das referidas tags? Sem sombra de dúvida, os filhos dos meus vizinhos, pelo que é impossível não me interrogar sobre a tão grande necessidade de inscrição que sentem estes jovens possuidores de computadores pessoais, leitores de mp3, telemóveis topo de gama, roupa de marca, grandes consumidores de bifes, batatas fritas e fast food.

Quando passeio as cadelas atravesso zonas cheias de tags e perco tempo a analisá-las. Normalmente são horríveis. Mal desenhadas. É uma grafitagem gratuita; parece não haver qualquer mensagem a transmitir. Quem as escreveu não possui caligrafia bem definida, e mal sabe desenhar símbolos sobre papel, a esferográfica, quanto mais na parede, e com spray. A legendagem é insignificante: abreviaturas, palavras em inglês incompreensível, vocábulos muito street, como merda, fuck, the boss, qualquer-coisa rules e nicks, muitos nicks, sobrepostos. Abundam nos lugares mais escuros, nomeadamente nas traseiras de prédios. É, portanto, algo que é feito às escondidas, a medo. Quem os faz, fá-los pouco seguro, vigiando os passantes. Quem o faz sente não pertencer a este território, embora viva nele. Mais do que reclamar a sua posse sobre o lugar, parece desejar que o lugar o possua. Ver-se espelhado.

Admitamos que uma assinatura nos inscreve em algo. Temos direito a uma assinatura num bilhete de identidade porque pertencemos a um país, e não porque o país nos pertence. Através da tag, os meus jovens vizinhos reclamam pertença ao mundo, exactamente como quem preenche uma ficha de inscrição para sócio da sociedade filarmónica. "Quero que me admitam no mundo", escrevem, e assinam por baixo, sem saber o que querem. Não é de estranhar que aqueles que trouxemos ao mundo, mas sentem nada poder esperar dele, que em nada acreditam, porque nada lhes oferecemos para acreditar, e que nada esperam, reclamem espaço, identidade, existência. As odiosas tags do meu território dizem-me "eu sou daqui".
Quando Os Delfins cantaram que mais do que a um país, família ou geração pertencíamos só a nós e a mais ninguém, não poderiam ter imaginado as consequências perniciosas de tal filosofia. Cada vez que uma tag é grafitada, o que os jovens do meu bairro reclamam é a simples posse da superfície, e de todos nós, sobre si. Sentiram-na pouco: a posse, e todos precisamos de ser de algo, ser de alguém, e de conhecer os limites dessa pertença, para depois sermos selvagens, sermos nós. Tagging é apenas isso: a geração-nada deseja qualquer coisa. Por exemplo, pertencer. Para eles é já tarde: cresceram num vazio de pertença a ideias, a regras, a obrigações. Não estão filiados nem se filiarão. Não podem aceitar agora o que mais desejam. A tagging é o seu terrorismo inconsciente. E se pensarmos bem, merecemo-lo.


segunda-feira, dezembro 03, 2007

Os tempos da escola

Ontem e hoje deparei-me com uma novidade do blogger: para comentar em blogues alheios necessitei de escrever a minha "alcunha". Primeiro pensamento reflexo: "Orca, a fúria dos mares".


O quarto mundo

Desde quinta-feira que não há recolha de lixo em Almada. A avaliar pelo aspecto dos contentores de resíduos sólidos orgânicos, e zonas adjacentes, e se os camiões da câmara não vierem esta noite, amanhã declaro uma epidemia de cólera na Margem Sul.


Lançar a rede

(Toque de telemóvel.)

Isabela - Estou.
Alguém do outro lado - ...
Isabela - Sim...
Candidato casado, de certeza - ...olá. Estás boa?
I. - Sim... mas quem fala?
C.C.D.C. - É o Vítor Hugo.
I. - Ah, Vítor Hugo, olá. Mas como tens o meu número de telemóvel? (nunca lho dei, juro.)
C.C.D.C. - Quando queremos muito uma coisa, conseguimo-la...
I. - (risinho amarelo) Pois... (A aliança é o único sinal de casado que este candidato não traz.)
C.C.D.C. - Queridinha, hoje andei à tua procura e nada... esperei até há uma e meia, mas não te vi.
I.- Estou doente. Não fui.
C.C.D.C. - Então, amorzinho?
I. - Gripe. Cheia de febre. Afónica.
C.C.D.C.- Fazes bem. Olha, linda, como já deves ter reparado a minha vida não é aquilo. Tenho uma fábrica de parafusos só minha, e agora estamos a pensar fabricar peças de tamanho grande, pelo que pensei em ti. De todas as pessoas lá da fábrica, és a que me parece ter o perfil mais adequado. (Sou a única cujos olhos ele atravessa com os seus, deve ser isso.) Estás interessada?
I. - Ah, Vítor Hugo, falamos melhor sobre isso amanhã. Pode ser?
C.C.D.C.- Pode, queridinha, pode. Trata de ti, minha linda. Amanhã almoças comigo e quero-te fina.
I. - Sim. Tchau. Até amanhã.

(A minha fábrica emprega quase 200 operários, e eu sou a escolhida para os biscates. Que sorte!
Claro que enquanto escrevo este poste ele esfrega as mãos, antecipando o pitéu reboludo, carente, e frágil que fará o especial favor de consolar às meias-horas, no sossego da fábrica particular.
Mas o pitéu é velho e, infelizmente, sabido!)

domingo, dezembro 02, 2007

O amor dos outros



É surda-muda. Baixa. Uns olhos pardos e muito tortos que as lentes dos óculos não disfarçam. Feiasita. Nem gorda nem magra, mas grávida de nove meses com a barriga ainda muito levantada.
Da minha idade. Uma saia de peitilho. Sapatos velhos. Escolhe produtos de higiene, na secção "Bebés", no Jumbo, e chama a atenção do companheiro com "hum-huns".
Ele fita-a com meio sorriso, fascinado, de mãos nos bolsos, amoroso e dedicado. Estático.

Afinal a beleza nunca foi grande argumento para o amor.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...