quinta-feira, janeiro 31, 2008

Um caso com Nuno Gomes

Apareceu-me o Nuno Gomes na garden party, todo mesuras. Para onde quer que fosse, onde me sentasse, o Nuno não me largava. Isabela, isto, Isabela, aquilo. Lá estava o rapaz a fazer-me a corte sem ser correspondido. Acabei por pensar o que penso muitas vezes, isto é, ok, não te livras dele, portanto, conversa um bocado; pode ser que lhe descubras interesse; nunca se sabe que surpresas a vida nos reserva. Lá me deixei estar sentada com o Nuno, escutando uma conversa que não me interessava um chavo, cordial, sobretudo concentrada no que bebia, disfarçando o tédio, e eis que o filho-da-mãe se aproveita de um momento de proximidade física e me pespega um irracional beijo molhado. Receber um beijo de alguém de quem não se gosta é nojento. Ninguém, com dois dedos de testa, avança para um beijo molhado sem roçar um braço, uma perna sem querer. Sem ritual. Um beijo é gradual. Vai-se progredindo.
Fiquei chateadíssima, como é óbvio, pelo que peguei nele ao colo e o sentei na outra ponta do sofá, de castigo. Quis ralhar-lhe sem dó, mas, ao senti-lo tão leve, só me ocorreu dizer-lhe, "filho, estás magrito. Assim não dá... já pensaste fazer um tratamento?" Ao que ele me respondeu, muito preocupado, "Sim, vou começar um tratamento para repor massa". Esclareci rapidamente, "mas comigo não alimentes esperanças, mesmo com massa, percebes?!"
A minha ex-psicanalista havia de ter gostado deste sonho.


segunda-feira, janeiro 28, 2008

Yes, we can

No próximo mês terei de abrandar a postagem de textos. Apenas abrandar. Provavelmente, não poderei escrever todos os dias. Sabem lá os leitores o que me custa! Deve ser como andar a fumar ao ritmo de um maço por dia e, de repente, não poder ultrapassar os três cigarros, um de manhã, outro à tarde e outro à noite. É a vida, meus amigos, ou melhor, a necessidade de ganhar a vida, mas prometo que assim que tiver tempo livre volto em força e vamos partir tudo o que ainda estiver inteiro. Como diz Obama, yes, we can change, yes we can heal this nation... [Bem, a nossa já não.]

Utopia em progresso

Barak Obama e mulher em campanha

Com um bocado de sorte, e cansaço, e raiva dos americanos, é provável que dentro de nove meses Barak Obama seja eleito presidente dos Estados Unidos da América.
Até há pouco tempo não acreditaríamos que um homem negro tivesse hipótese de chegar à presidência dos EUA. Seria necessário esperarmos 50 anos. Talvez 80. Dizíamos. Parecia-nos muito mais provável que os americanos, influenciados pela Europa, escolhessem eleger, primeiro, uma presidenta. Hillary Clinton, naturalmente. Mas Hillary não parece prometer mudança com a autenticidade de Obama nem com a mesma voz, as mesmas mãos. Hillary esteve no sistema. Está. Não há grande garantia de que não seja mais do mesmo. Não convence. Ou melhor, não suplanta Obama, que discursa como um pregador, como um Luther King, um negro. Escutei o seu recente discurso da vitória, na Carolina do Sul, e apanhei-lhe a prosódia sincopada, arrastada nas palavras-chave, de quem ouviu com muito atenção o registo de I have a dream. Ele evoca de novo, aos americanos, esse sonho amputado de justiça para todos.
Mas Obama é, acima de tudo, uma ideia tornada possível por um produto televisivo. Quando, a 4 de Novembro, próximo futuro, tiver vencido as eleições, e eu espero que sim, agradecerá primeiro à mulher e às filhas, que pouco o viram no último ano, dirá assim, e, em segundo, aos guionistas, realizadores, produtores e actores envolvidos na série 24; só depois aos cérebros da sua campanha. Seria justo. Antes da série 24 nos ter posto perante a figura de um digno presidente americano, negro, nunca tal nos teria parecido possível. Era ficção. Real apenas enquanto ficção. Eis como um produto de televisão é responsável pela rápida materialização de uma utopia.


David e Sherry Palmer, personagens da série televisiva 24

sábado, janeiro 26, 2008

O vendilhão da França

Sarkozy e Carla Bruni em Gizé, Cairo, nos último dias de 2007


Não me interessa a vida privada de Sarkozy. Se gosta de falar de rabos, como li hoje na Imprensa, e contar anedotas picantes, qual o número que calça, se usa cuecas especiais, quantas vezes traiu Cécilia, ou ela a ele, quando casará com Carla Bruni ou se já casou, se lhe tremem as veias da testa por vinho italiano, quanto vezes esteve no Algarve ou se julga ser Napoleão Bonaparte nos momentos de delírio privado. Não quero saber.
As figuras públicas de Estado têm todo o direito às suas idiossincracias, mas a excessiva exposição torna-as ridículas, cómicas, intoleráveis. Como é que aqueles que me aumentam o tempo para a reforma, me roubam o hospital e o centro de saúde podem ter a lata de gozar férias de luxo no Egipto, nas minhas barbas, acompanhados de namoradas-modelos, sorrindo, usando festinhas nos respectivos dorsos?! Não quero nem ver. Com que cara me vêm pedir sacrifícios?
Pelo menos, José Sócrates tem o bom-senso de não se passear com a namorada junto às pirâmides de Gizé, ou em Petra, sob uma chuva de fotógrafos. Se se atrevesse a passar um fim-de-semana romântico, que fosse, de mãos dadas, na Serra da Estrela, haveríamos de o gozar alarvemente. Havia de ser certinho.
Ora, os conselheiros de imagem de Sarkozy não pensam assim. E isto porque o actual namoro do presidente francês não visa melhorar-lhe aleatoriamente a imagem, mas distrair a atenção dos meios de comunicação franceses e internacionais das medidas políticas que pretende aprovar em França, as quais inveja ao seu homólogo português, cuja coragem política muito admira.
Reclama Sarkozy, perante as críticas, que não chamou os fotógrafos durante a visita que realizou com Bruni, na véspera de Ano Novo, ao Cairo, bem como nas que a antecederam e precederam. Não terá chamado ele, posso crer, mas os jornalistas serviram bem os seus interesses, e por isso não foram enxotados nem mantidos à distância, o que as fotos comprovam. Se Sarkozy não estivesse interessado na sua presença teria poupado nas poses, a visita não teria acontecido ao pôr-do-sol, essa hora mágica para as lentes das câmaras, e a proximidade estabelecida seria outra, bem como, em consequência, a qualidade da imagem.
As fotos publicadas em todo o mundo não jogam apenas a masculinidade do presidente junto do eleitorado, ao pretender ser visto e imaginado privadamente com o troféu desejado, mas a serenidade com que se pretende que os franceses encarem o que se seguirá. A sorridente Bruni está ali para amaciar vozes. Providencialmente, declara-se de esquerda. Que cereja em cima do bolo! Sarkozy é, afinal, um presidente sensível, apaixonado, romântico. Melhor, aberto, dialogante. E um homem com eles no sítio, ideia que convém fixar desde que Cécilia abandonou o barco. A política poderia ser uma actividade nobre, mas, infelizmente, não passa disto: marketing sem lei.


sexta-feira, janeiro 25, 2008

Os fãs

Sim, confirmo, sou uma gorda deliciosa, e gira, para além de discreta, modesta, submissa e sensata, qualidades que o homem português muito aprecia.
No entanto, lamento, nesta fase do ano não ando à procura de namorados, até porque só começo a fazer a depilação em Maio. Voltem a contactar-me por essa altura, que pode ser que se arranje alguma coisa, mas, por favor, não gastem as vossas energias enviando toques. Não respondo a toques de números identificados, quanto mais de anónimos. Não gosto de cobardes. Mal por mal, escolheria os mentirosos, não fosse serem todos comprovadamente cobardes.

A bondade divina

Não me admira nada que tenha caído um velhote de uma maca, no hospital de Aveiro, vindo a morrer disso, eventualmente; o que me admira, e muito, conhecendo o estado das urgências hospitalares no nosso país, é que não caiam meia dúzia deles por hospital, todos os dias. Se este milagre não vos fizer acreditar na providência divina, o que fará?!

Os filhos são umas verrugas

Criamos os filhos para que sejam responsáveis, cumpridores, e uma série de outras coisas altamente positivas, que sabemos serem incompatíveis com a vida real, mas, paciência, é o que está certo, portanto fazêmo-lo. Depois crescem, enchem-se de soberba sobre o certo e o errado, mil razões lógicas, cegas como a Lei, muito certas, certo, mas literais como uma pedra, e acusam-nos de sermos irresponsáveis, irrealistas, incapazes de cumprir seja o que for, o que me parece o equivalente a morder a mão do dono, sendo-se cão. Esta mania dos filhos, que eu, por acaso, acho que também tive, de se considerarem acima dos mortais, logo melhores que os pais, é chata, e, se não fossem nossos filhos, apetecia mandá-los para a puta que os pariu.

Perdida

Receio que a fronteira entre espontaneidade e excentricidade seja estupidamente ténue. Estou convencida de que a cruzo amiúde. A melhor prova disso é sentir-me tão nas tintas.

quarta-feira, janeiro 23, 2008

Os escritores do mais-que-perfeito-simples

Cá por coisas, desconfio sempre de quem escreva mensagens de post it usando o mais-que-perfeito simples. Tal como os ovos, o pretérito-mais-que-perfeito simples é impossível de manter em pé sobre uma folha de papel.

Problemas com as válvulas

Há uma idade em que a expressão mijei-me a rir deixa de ser uma inofensiva figura de estilo. Ninguém nos avisa antes.

terça-feira, janeiro 22, 2008

Crise II


Esta semana tenho andado muito dada à cozinha. Ainda dizem que a vida está cara. Mentira! Moelas a 1,85€, no Minipreço. A meio-quilo delas incorporei-lhes logo dois copos de arroz, e mais um punhado de ervilhas: que petisco! Já marcharam. Estufei o restante com macarrão. Que danado de prato mais requintado! Eu sabia lá que gostava tanto de moela! Tem sido um tirar a barriga de misérias. E mais latas de polvo de tomatada a 49 cêntimos. Com batatinha cozida. O que eu gosto de polvo de tomatada com batatinha cozida! E sopinha de grão, em frascos de 57 cêntimos, com espinafres congelados e prensados, a 90 o saquinho. O único pensamento que me ensombra o horizonte próximo é o gás. Se se me acaba o gás, Nossa Senhora das Aflitas!

O gigantesco pénis de David Beckam


David Beckam voltou a ser fotografado em cuecas para a marca Emporio Armani. É normal. Alguém tem de ajudar a vender as cuecas do senhor Armani. Compram-se iguais na praça de ciganos do Feijó, a um euro o par, mas quem sou eu.
Outdoors espalhados pelas capitais que interessam, exibem hoje esta foto de Beckam, com a anafada horta em aparente repouso, devidamente endireitada e aconchegada em algodão strech. Victoria, a sagaz esposa, foi já entrevistada sobre o assunto. Respondeu a tudo. Tenho imenso pena de já cá não ter a Maria desta semana, onde li sobre esta questão de estado, mas entretanto seguiu o destino para o qual foi comprada. Victoria afirma estar orgulhosa do pénis do marido. Diz que é gigantesco, trabalhador, e que o adora, muito, muito, que está muito satisfeita, muito satisfeita, e que até vai mandar fazer uma estátua do membro viril, toda em mármore, para colocá-la num altar. Ou várias estátuas do membro. Uma espécie de Stonehenge do calhamaço. Victoria acrescenta que se tivesse o corpinho do marido, andava sempre de cuecas por todo o lado, ou melhor, na rua. Victoria presta total culto ao corpo do seu David, igualmente sagaz. Foi assim que li, tal e qual. Alguém que tenha aí uma Maria à mão pode confirmar, para que eu não passe por mentirosa?
Adoro os casais do futebol. Já quando o Cristiano Ronaldo e a Merche se separaram tive cá uma pena.

segunda-feira, janeiro 21, 2008

A crise

Estava com a luzinha da reserva a rebentar há uns bons 50 quilómetros. Pensei, pá, não chego a casa, e se me falta a gasolina na auto-estrada estou feita.
Cartão de crédito com a banda magnética estragada. Cartão multibanco com 56 cêntimos. No porta-moedas, uma moeda de um euro, mais uma chincalheira de pretos. 1,99. Foi a conta que apurei após despejar todo o metal em cima do balcão, contá-lo, e dizer à senhora da bomba, que sorria que nem uma rã inchada de gozo, olhe, ali aquele Opel Corsa, registe aí 1,99 da de 95. Ela repetiu, para mal da minha vergonha. 1,99? Respondi baixinho, sim, sim. Não digam nada à minha mãe.

O respeitinho foi muito bonito, quando?


Sob influência do poste anterior, portanto, no que respeita a "lançar lixo para o quintal do vizinho", gostaria ainda de evocar os exercícios com F16, a 50 metros do solo, e à velocidade do som, que ocorreram, a semana passada, sobre os telhados nocturnos de Penamacor. Pela descrição das testemunhas, a mim, que sou nova, e urbana, e outras coisas, tinha-me dado o badagaio. Imagino, portanto, a inquietação sentida por velhotes, crianças e animais incapazes de perceber a origem das explosões, e de as racionalizarem.
Estamos ainda demasiado próximos dos habitantes dos bairros de Lisboa que, há poucos séculos, lançavam os dejectos pela janela, à baldada. Cada um suja como pode. Atira fora. Alguém limpará. Ou não. Que importância tem isso?!
Tudo isto, a meu ver, se relaciona muitíssimo com a questão humanista do respeito pelo outro, que está muito esquecida, ou nunca existiu, sei eu lá.


Vou abrir a janela e livrar-me já disto, enquanto ninguém vê

A semana passada, a funcionária de limpezas de um laboratório da Faculdade de Farmácia, da Universidade de Lisboa, atirou para fora do edifício um frasco contendo um químico da família do enxofre, e com o mesmo cheiro, o qual se espalhou velozmente pela zona da Cidade Universitária. Por acaso, não era químico cujo derrame pudesse constituir risco de maior para a saúde pública. Mas, se fosse?
Acho uma certa graça a esta história da dona Ermelinda que encontra um frasquinho fissurado no frigorífico do laboratório, pensa que o melhor é deitá-lo fora, e, em lugar de usar os depósitos de lixo próprios de um laboratório, assunto para o qual deve ter recebido formação, escolhe lançá-lo janela fora, para um baldio contíguo. Isto faz-me lembrar uns vizinhos meus, de diferentes prédios, que há anos atiravam os sacos do lixo doméstico pela janela do 5º ou do 4º andar, os quais sobrevoavam as nossas cabeças para aterrar uns metros mais à frente. É, sou testemunha desta original forma de alguém se desfazer do lixo doméstico.
A ideia é a mesma. A de mandar o lixo para o quintal do vizinho. A de não nos darmos aos trabalho que nos compete, a de desconhecer a noção de responsabilidade cívica. Tudo tão português e tão atrasado. Ainda.

domingo, janeiro 20, 2008

Uma gorda que não faz jogging e por isso não arranja namorado



Acabei de chegar a este comentário neste blogue, digitando omundoperfeito no Google. É um texto demasiado alucinado para não o partilhar com os leitores.

«Hi! I just found your blog because I know a portuguese lady that writes in a blog called omundoperfeito.blogspot.com, that translates to English as aperfectworld.blogspot.com! I love to annoy her because she is a fat lady, she does not do exercise like you do, and then she simply can't find a boyfriend and is always complaining about her sex life! It's a shame that you probably don't know portuguese and can't visit your Portuguese sister and make a few comments, because the debate is always interesting!
Your blog is fine, I don’t understand why you don’t get any comments!
I am a big fan of some music from Texas, particularly from Austin.
I’ll visit you again soon. Keep jogging!»

O comentador gosta de me aborrecer porque sou gorda, e não faço exercício. Podia ser porque sou chata, porque estou errada, porque tenho mau feitio, porque dou respostas tortas, porque não estou para aturar malucos, mas não, é por esse insuportável defeito: ser gorda. Tenho tido muito tempo ao longo da vida para pensar nos inconvenientes sociais disto de se ser gorda, sendo que o maior deles reside no facto de os outros nos olharem como uma espécie de deficientes por culpa própria. É possível um gordo fazer uma certa ideia do que significa ser cigano ou negro, e discriminado por esse facto, porque um gordo é discriminado todos os dias, olhado de lado. O gordo não tem apenas de lutar com o seu corpo, com o problema físico ou psicológico que o leva a engordar, mas trava, igualmente, uma luta contra o estigma que pesa sobre a sua aparência. Sinceramente, já houve dias em que me custou sair à rua. Não me apetecia levar com os outros. Suportar as alcunhas, os ditotes. Acho que ter sido gorducha desde a puberdade fez de mim uma pessoa desconfiada, reflexiva e só. Penso que um gordo é, como um alcoólico, gordo para sempre, mesmo que aparentemente seja igual a todos os outros. No que tenho de mais verdadeiro, de mais fundo, serei gorda para sempre.


sábado, janeiro 19, 2008

Tenho saudades do senhor António

O senhor António sempre foi um exemplo conjugal no prédio. Baixito, franzino, moreno, mas, sobretudo, trabalhador, prestável e honesto, casado com uma senhora trombuda, cujo nome se desconhece, mais larga de ombros que de anca, que mesmo maquilhada, e vestida de cerimónia, nos continua a parecer um moldavo das obras, mas de saias, pai de um adolescente com dimensões suínas, autor de todas as grafitagens nas paredes vizinhas, e de pontapés aleatórios em cães aleatórios, porque é um revoltado e lhe apetece. Ao senhor António, homem da minha idade, nunca lhe faltou nada.
Eu e a minha mãe davamo-nos bem com o senhor António, que sempre nos tratou com simpatia. Há dois anos deixámos de ver, e o escândalo estalou. Veio a saber-se, boca-por-boca, que tinha arranjado uma brasileira, saído de casa, acenando bye-bye à vida de honesto pai de família. A minha mãe desculpou-o, coitado, que tinha uma vida muita presa e queria soltura. Que os homens não querem paradeiro e que chegando aos 40 começam a saltar dos eixos, até o meu pai, que Deus tenha. Tínhamos pena dele; ocorría-nos a imagem mental da mulher e do filho e, bem, eu tinha.
Encontrei hoje o senhor António, no Laranjeiro. Estava no Oásis com uma dengosa mulata. Deixou crescer o cabelo, e molda-o com um gel molhado. Usa brincos de diamantes. Chamou o gerente, para lhe dizer que não pagava o ginger-ale, porque o tinham trazido quente e sem gelo, como o pedira. Aconselhou-me a fazer sempre valer os meus direitos, em todo o lado, que se uma pessoa paga, tem direito a ser bem servida.
Ainda dizem que o sexo anal tem contra-indicações.

sexta-feira, janeiro 18, 2008

A Márcia olha-me com raiva

Observo com preocupação alguns adolescentes que foram crianças doces e se tornaram maus, hostis, agressivos. Não percebo o que lhes aconteceu. A educação falhou por escassez ou por excesso? Como é que se educa pela medida certa? Como é que uma mãe, ou um pai, sabe que é correcto dizer não num momento, e sim no outro? Cede-se? Não se cede? É a olho? Seguimos os livros? Posso educar a minha filha como a minha mãe me educou. Seria bastante mais fácil. De bofetada em bofetada, a miúda iria crescendo. Tenho a certeza.
O que determina que um adolescente seja uma pessoa respeitadora, confiante, educada, e, outro, um pequeno monstro de malvadez e má educação? Como posso eu saber no que se transformará a minha filha? Isto preocupa-me. Havia de sofrer muito, e sentir-me impotente e amarrada, se se transformasse numa Márcia.

Se pudessem baixar-lhes o volume

As crianças são amorosas, é evidente; vêem o mundo com uma lógica que perdemos, ou melhor, que tivemos de adaptar. São lindas, são boas, são puras, o pior é a gritaria.

Um bairro chique

Amantes, no largo, acabam de esfrangalhar, em voz alta, os últimos despojos de dois anos de relação. Nos degraus da porta, namorados de 15 anos amolgam-se, enquanto escolhem os nomes dos filhos futuros. As vizinhas do 4º e do 6º insultam-se das varandas por causa de uns pingos de roupa com lixivia pendurada no arame. Um par de homens, e respectivas testemunhas, brigam por nada à porta do café dos fumadores. Uma avó grita pelo neto que se atirou pela estrada atrás de um cão. Gosto do meu bairro. Vive-se tanto como em Campo de Ourique, e as rendas são por metade do valor.

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Por que é que a gestão das autarquias cheira sempre tão mal?

O governo vai fechar a maternidade de Chaves. Entretanto, entidades privadas preparam-se para construir um hospital nessa cidade. Privado. A pagantes largos. Parece que a população da zona tem muitas economias guardadas debaixo do colchão, e como ainda lá não chegou, em força, o consumismo, querem gastá-las em operações à próstata e partos de risco.
O presidente da Câmara, João Baptista, mostra-se contente. Considera que o concelho ficou a ganhar com a aquisição de terreno para o hospital, porque "para o alargamento do Centro de Saúde nº 1, que é um investimento público (...) a autarquia teve de adquirir terreno".
Para o Presidente da Câmara, "a aposta no privado é oportuna". Lá isso é. Mais, é rápida. Gostaria de saber quantos dias após anúncio do encerramento da maternidade foi adquirido o terreno para a obra. Ou antes. E há quanto tempo as entidades privadas esperavam pelo encerramento do hospital público. E que contactos existiram entre Câmara e Ministério da Saúde sobre o assunto. E quantos médicos, gestores de que hospitais, são conselheiros da autarquia. Uma série de questões que provavelmente nunca terão resposta. Não sei se a povoação do concelho estará interessada em colocá-las ao respectivo presidente. Se calhar não vale a pena, como andaram juntos na escola, e namoraram as mesmas raparigas...


Texto transcrito é proveniente de notícia do DN de hoje (contracapa).

terça-feira, janeiro 15, 2008

Querida, vou trocar-te por outra

No People & Arts passa um programa de troca de esposas.
Durante duas semanas, os elementos femininos dos casais largam os seus lares e integram agregados familiares estranhos, dos quais saem, igualmente, as mulheres que se ocuparão dos seus.
As esposas largam a casa, obrigatoriamente, e nunca os maridos, pelo que deduzo que as regras assentem na filosofia de que o proprietário do imóvel, bem como da união, é o homem, sendo que o elemento portátil, o qual se acha legítimo mudar, como um sofá ou uma arca frigorífica, a mulher.
Este tipo de programas, embaraçosos, lamentáveis, ajuda-me a demonstrar que a emancipação da maior parte das mulheres, sobretudo as casadas, ainda não aconteceu, ou aconteceu pouco e mal, sendo que as mais elementares reivindicações do feminismo se encontram por realizar.
Gostava que os leitores meditassem 15 segundos sobre estes indícios de cultura patriarcal, aparentemente tão inofensivos.


segunda-feira, janeiro 14, 2008

A crítica não gostou de Call Girl

A maior parte dos filmes portugueses que ninguém quer ver teve boas críticas, embora vos garanta não saber a quem servem tão ilustradas obras. O cinema português das últimas décadas esforçou-se arduamente por se fechar ao público, e conseguiu. Eu, nem que me paguem. Não há pachorra para histórias de incesto entre irmãos toxicodependentes que se automutilam até à morte, ou de prostitutos homossexuais que vendem os corpos decadentes em prédios macabros, onde por acaso também se traficam órgãos humanos. Que a fotografia seja muito boa, que o texto se encontro pejado de indescritíveis arroubos literários, nada me comove. O que eu quero é um história bem contada, um texto são e escorreito, sem tiques intelectualóides, inteligente e veloz. Mas eu sou o público, não a crítica, a qual arrasou Call Girl, o último filme de António-Pedro de Vasconcelos. Para a crítica, Call Girl não passa de um telefilme cheio de lugares-comuns. Os críticos, todos homens, alguns com blogue, saídos dos melhores colégios, possuem um livro de regras muito restrito, quase todo baseado no Casablanca ou outro histórico do cinema a preto-e-branco, que eu muito respeito. Não é que façam mal. Que eu me recuse a ler uma crítica antes de ver um filme é outra história.
Entretanto, António-Pedro Vasconcelos vai sorrindo. O filme vende. É comercial?! Claro que sim, mas o óleo Fula e a pasta Colgate, também.
Se a ideia é fazer cinema, convém começar por algum lado.
O problema de Call Girl, para a crítica, é que o filme se vê bem. O argumento está decentemente esgalhado, com graça, e a interpretação não é nada má, tirando a de Ana Padrão, que treme demais para tão pouco. Na sessão a que assisti, com casa cheia, o público manteve-se preso à história, e divertido, envolvido pela caricatura dos polícias à Hollywood. Soraia Chaves é linda, mas, sinceramente, o filme sobreviveria com qualquer actriz dotada de glândulas mamárias mais modestas. Não é uma obra-prima, mas não envergonha quem nela participou. Que mais se pode pedir numa fase ainda tão primária do campeonato?



Fotograma de Call Girl, com Soraia Chaves e Ivo Canelas

domingo, janeiro 13, 2008

Come-me

No desejo dos homens não há moral nem culpa nem censura, mas bruteza e urgência e um desespero estrangeiro. O desejo dos homens é cego e surdo-mudo. Cheira como um cão, e abocanha, e morde no escuro, guiado pelo faro e lambuzado de saliva; é a besta perdida e esfomeada da matilha. O desejo dos homens é uma faca aquecida na forja; terra inculta, ignorante. Os homens não fazem amor connosco de madrugada: puxam a nossa carne, sonolentos e loucos, agarrando-se ao naco mais quente, suado, o qual montam, irracionais, desalmados, comendo-nos com fogo e fúria e raiva sem objecto. E é por esse desejo tão rasteiro, tão cão, tão puro.

sábado, janeiro 12, 2008

Um país tão desgovernado

Não há problema algum no facto de o governo recuar nas suas medidas. Eu própria mudo de ideias pelo menos uma vez por semana. Ainda na quarta-feira, ao almoço, no snack-bar ao lado da minha fábrica, tive de chamar o senhor Lino, que é como se chama o empregado de mesa, e dizer-lhe, "olhe, desculpe lá, afinal não me traga a feijoada, que ando mal da figadeira; pode ser antes o peixinho", e não houve ondas. A questão não reside na mudança de ideias, mas no facto de, comprovadamente, o governo não pensar o que faz, quando pensa fazer. Trabalha em cima do joelho, logo, mal.
Enquanto habitante da Margem Sul, agrada-me que o distrito de Setúbal tenha sido escolhido como base para o novo aeroporto. No entanto, devo um reparozinho à acção do governo: se a escolha da OTA como localização para um novo aeroporto nunca foi consensual, os estudos adicionais encomendavam-se no momento em que se recebeu a pasta, não após o anúncio da primeira localização e respectiva contestação. E isto vale para todas as tomadas de posição, seguidas de recuo, nas quais o governo do cidadão Sócrates se tem visto envolvido. Primeiro pensa-se, pondera-se, depois age-se com certeza. Para além de que não se governa um país, nem uma casa, atirando culpas para o governo antecessor: avaliam-se situações e resolvem-se problemas.
Se me desse na veneta mandar construir uma vivenda de dois andares, com circuito de manutenção e parque de diversão para cadelas, preocupar-me-ia em eleger um local interessante, e possível, o lote de terreno mais adequado, uma boa arquitecta, empresa de construção civil, materiais, prazos, custos, entre outros. Só após ter reflectido tudo isso muito bem, ter pesado vantagens e desvantagens do empreendimento, me daria ao luxo de o tornar público junto de amigos e conhecidos. Trabalhar à cegas, sem avaliar abrangentemente um projecto, aparentando serviço e eficácia, só aparentando, isso é que jamé.
Igualmente, me sinto no direito de questionar se todas as medidas que o governo tomou até hoje, e nas quais não recuou, foram as melhores. Se calhar dava jeito que o governo reavaliasse, também, uma série de políticas injustas e desastrosas que implementou na Segurança Social, Administração Pública e outras áreas que se tornaria fastidioso enumerar. É legítimo pensar que também nessas se tenha enganado.
Cá fico, portanto, à espera da retractação.


sexta-feira, janeiro 11, 2008

10 segundos

O belo-horrível.

Quero-te tanto

Foto: Callaveron


Hoje li um poema de amor. Comecei a ler um poema de amor. Trazia a onda salpicada de marulho e sal, o relâmpago quase a rebentar, uma espécie de beijo roubado contra o muro do parque, uma vertigem, um abaixamento da tensão arterial, repentino, oportuno, e, num segundo, esse ápice, e não mais, atravessou-me a estúpida lembrança de me ter esquecido tão ignobilmente do amor.

quarta-feira, janeiro 09, 2008

Não posso, querido, que agora estou na palhaçada

Brigitte Bardot e Jane Birkin apanhadas com a cabeça descoberta


As judias ortodoxas têm uma sorte que não cabe às cristãs. Podem enrolar-se livremente umas com as outras, sem restrições, porque lesbianismo não é pecado. Trata-se, apenas, de duas moças na palhaçada, portanto, nota zero em preocupação.
Estava ali um marido a queixar-se bastante num documentário do canal Odisseia. A mulher arranjou uma amante, não lhe liga uma uva, já não lhe lava as peúgas, e o homem, coitado, quer divorciar-se, naturalmente, mas o rabi não vê motivo. "Deixa as miúdas divertirem-se", alega o responsável religioso, acrescentando que "nada consta nos livros sagrados". Qual é o problema? Pecado é não trazerem a cabeça devidamente coberta.
Eu, que em tempos perdi, por uma unha negra, a inscrição no Clube das Periquitas Desengaioladas, acho tudo isto uma delícia ímpar.

Delicadeza

Estão-me sempre a passar o garfo e faca, mas eu prefiro comer com as mãos todas nuas.

Esgotam a imaginação toda na cama

O meu meu amorzinho lindo tinha as cuecas rotas em zona de entrepernas, pelo que o convenci a comprar um set de boxers sexy da Calvin Klein, muito justos, muito fashion.
Na fila da caixa, à nossa frente, outros individuos do sexo masculino pagavam as suas peças de roupa. O primeiro adquiriu duas camisas brancas com risca vertical azul, exactamente iguais; o segundo levou sete, sendo que três eram brancas e quatro pretas, todas do mesmo feitio; um terceiro comprou uma em cremezinho, lisa, sem grande fantasia, mas, vá lá, bonitinha.
A moral deste fait-divers quotidiano é coisa simples: alguma leitora alguma vez adquiriu, para uso próprio, uma série de camisas exactamente iguais: duas, três, quatro? Não se tratando de uniforme, bem entendido.

terça-feira, janeiro 08, 2008

A vida antes do saco de plástico


Até aos anos 70, meados de 80

Íamos a pé à mercearia do bairro, ao sábado. Levávamos sacos de pano ou oleado e uma lista de géneros. Às vezes havia bicha. As outras mulheres entretinham-se conversando sobre a vida, os filhos, os maridos, as vizinhas, enquanto a dona Maria ia debitando o avio, "um pacote de açúcar, um pacote de cotovelinho, uma garrafa de azeite, esse não, dê-me do Galo; uma lata de salsichas das grandes, uma lata de atum Bom Petisco, não tem Bom Petisco?!, quando é que vem? então levo p'ra semana; um pacote de café de cevada, uma garrafa de vinho branco, qualquer uma que é para o marido; um pacote pequeno de caldos Knorr, um pacote de rebuçados do Dr. Bayard, esparguete, tem do Nacional?..."
Regressávamos carregadas com o avio da semana. A mercearia era suficientemente perto e familiar para lá darmos um pulinho quando faltava algo, de repente. Batíamos no vidro da porta, ou íamos chamar o proprietário a casa, "oh, senhor António, desculpe lá, mas preciso tanto de um pacotinho de erva doce para as castanhas. Venda-me um, se faz favor."
Se íamos à praça levávamos os mesmos sacos de pano ou oleado. Se aí nos deslocávamos de improviso, ou nos esquecíamos dos sacos, era necessário comprar um de plástico, ou dois; os vendedores penduravam-nos nas bancas e vendiam-nos a cinco escudos a peça. Gastar dinheiro num saco plástico, dos bons, que guardávamos religiosamente, era um drama. Evitava-se bastante.

Ideias importante a reter:

1. Aviávamo-nos todos as semanas, e os avios eram pequenos, consentâneos com o que podíamos transportar nos sacos das compras.

2. Já existiam supermercados, como o Jumbo, no Centro Sul, onde se ia muito de vez em quando, mas não se tinha dada a explosão de hipermercados, a qual veio rebentar com o comércio tradicional. O consumo por atacado implicou a necessidade de sacos por atacado.

3. O lixo era depositado directamente do balde doméstico para o contentor. A campanha dos sacos surgiu posteriormente, dando utilidade aos que se traziam dos hipermercados.

Era outra vida. Impor limites ao uso de sacos de plástico implica, de alguma forma, voltar a um estilo de vida passado. Por mim, no que respeita às mercerias de bairro, venha ele. O pior são os contentores do lixo.

segunda-feira, janeiro 07, 2008

O meu anjo bebe até cair

(Para o meu anjo.)

Tolero quase tudo aos que amo. Lá me custa, lá remoo, mas engulo. O álcool como vício, não. Não falo de um copo aqui, uma cerveja acolá; quero dizer, tremer de vício, cheirar a ele. O álcool degrada, corrompe, marca, destrói velozmente; faz das pessoas aquilo que nunca foram. Cria monstros que se apaziguam com veneno.
Nada posso fazer por um alcoólico, porque ele está todo dentro da garrafa, só e imundo na sua garrafa, que é todo o seu mundo, tudo o que vê, e não consegue escutar-me, nem sentir comigo. Nem quer.
Isto ocorreu-me agora, enquanto assistia ao excelente documentário sobre o Luíz Pacheco que passou na RTP2: o filho mais novo, o que viveu com ele, revelava ser o alcoolismo o único hábito do pai que o incomodou, e que nunca tolerou. Compreendi muito bem. Também eu tenho os meus alcoólicos, em relação aos quais me sinto impotente como um muro de cimento.

domingo, janeiro 06, 2008

O trangressor passou-se

Luiz Pacheco


O Pacheco não pretendeu ser outra coisa que não um homem. Era a sua insubmissão, a sua graça, e a sua vitória sobre a cultura vã, povoada de senhoritos sem mácula, que não espirram, não mijam, não fornicam nem são vis nem piedosos nem nada, mas que vestem fato e gravata Massimo Dutti, lavam as mãos com Dove e recitam eloquentes poemas que não compreendem nem sentem.
O Pacheco tinha mácula, e isso tornava-o imaculado. O Pacheco era exactamente o que nós somos, mas de que fazemos segredo, para passarmos por educados, gente de classe, coisas assim, que os outros possam aceitar. Nós somos o Pacheco, mas o Pacheco dava-se ao luxo de ser gente por todos nós.
Não me dá jeito nenhum que o mestre tenha morrido a noite passada.


sábado, janeiro 05, 2008

A minha vida dava um filme do Fellini

Fellini filmando Satyricon, 1969
Foto: Mary Helen Mark


(Ou, talvez, um Almodóvar.)


Ele gostava de mim. Ele era um amor. Ele dava-me massagens nas costas. Ele disse que ia comprar uma casa e oferecer-ma, para que eu vivesse nela com a minha filha, e largasse o emprego na fábrica, dedicando-me totalmente à escrita. Eu ri-me, claro. Não acreditei. Não há nenhum ser humano tão altruísta, para além de que não tinha a intenção largar o meu emprego na fábrica; gosto da fábrica, desde que não me chateiem demasiado os cornos. E não é isso, meus amigos, como é que uma mulher pode largar o seu ganha-pão para se tornar dependente de outrem, sobretudo se for um homem, essa espécie que pensa com o mangalho?! Nã.
De repente, ele facilitou-me bastante a tarefa. Apaixonou-se por um morcão do Norte: um gajo com bossa de gordura abaixo do pescoço, que cheirava mal dos pés e coçava os colhões entalados na cueca. Que ele tinha muita cultura geral, e que era o seu homem. Não se notava, mas não o contrariei. Passou a massajar as costas do morcão e eu nunca mais o vi. Os morcões são remédio santo.

O mundo das gordas

Apareceu um médico no programa da Oprah, um que vai lá muito falar da gordurança na barriga, declarando que quem faz dieta, e pretende obter sucesso neste empreendimento, necessita de receber compensações em prazer. Uma dessas fontes poderá ser o sexo, outra, dormir profunda e regaladamente.
Fiquei feliz por saber que tenho acesso a uma delas.

quinta-feira, janeiro 03, 2008

Qualquer coisa de intermédio

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio

Mário de Sá-Carneiro

Se me chego aos certinhos, chamam-me torta, e miram-me de través; em me encostando aos tortos, logo me acusam, que me mostro atinada, escondendo de mim todos os planos e segredos; se me volto à esquerda acham que devo à direita; se me refugio na direita, reclamam que sou radical, que ali, oh virgem!, não se parte nada.
Caramba, há algum lugar onde façam o favor de me deixar pertencer?

Os fumadores são nossos amigos

Na fábrica onde trabalho sempre houve uma sala de fumo. Nos intervalos entre empreitadas, os meus colegas fumadores saíam à pressa da linha de montagem e enfiavam-se lá dentro, fumando os cigarritos do seu prazer. Não incomodavam ninguém.
Ontem, a sala foi fechada. Agora, os meus colegas fumadores vão à rua. Obviamente, acabar com uma sala de fumo onde ela já existia é ridículo e não serve ninguém.

E que tal mascar tabaco?

Um amigo sueco é grande viciado em snus - tabaco sueco para chupar. Traz consigo duas caixas, sempre: uma com saquetas semelhantes às da imagem, que vai entalando nos maxilares, e outra onde coloca as que consumiu, porque não lhe passa pela cabeça atirá-las para o chão.


Não me incomoda que as pessoas bebam até cair ou inalem coca, desde que, naturalmente, curem as suas nódoas negras e acarretem sozinhas as vantagens e desvantagens dos seus vícios. Também não me importa que produzam quilos de lixo, desde que não o atirem para o chão, reservando-o para os contentores próprios. A mim, confesso, custa-me um bocado apanhar as poias das cadelas que passeio lá fora, e o acto tira-me alguma classe momentânea, pelo menos aos olhos dos outros transeuntes, mas vergo a espinha e recolho-a em pequenos sacos que atiro para o primeiro caixote do lixo. É a minha obrigação enquanto cidadã. É assim que tem de ser, porque a minha liberdade individual não deve restringir as liberdades dos outros.

Quem vive em sociedade tem de compatibilizar as suas liberdades com as dos demais. Trata-se de um elementar exercício de cidadania.
O que vinha acontecendo até hoje é que os fumadores gozavam de direitos especiais. Vivíamos, sim, o fundamentalismo dos fumadores. Um mundo de pernas abertas para eles. A permissão do fumo em espaços fechados e públicos tem sido o equivalente a roer as unhas no café, e, a seguir, cuspir os despojos para a mesa ao lado. O que acharia o senhor Antunes, a beber a sua meia de leite, ou não, enquanto lê o calmo jornal, se eu, na mesa contígua, me lembrasse de lhe atirar para cima meia dúzia de lascas de unha? Eu bem sei que os fumadores sentem que estão a ser perseguidos, que são vítimas de uma terrível injustiça, remetidos para um terrível gueto de exclusão, etc., etc. , mas a coisa é simples: não têm razão. Nunca tiveram. Ninguém lhes nega o direito a fumar, têm é de guardar para si o seu vício ou o seu hobby, como quer que o encarem. O grande problema é que até ontem aquilo que os fumadores consideravam a sua liberdade, tratava-se apenas do seu conforto, em detrimento do dos que partilham consigo o espaço social. O conforto dos fumadores tem sido a prisão dos outros, o gueto dos outros.

Quando estou a beber o meu café, a minha presença apenas incomoda o outro na medida em que não goste do meu aspecto ou do que me ouve dizer. Não ajo de forma a prejudicar a integridade de ninguém, mas os fumadores tem agido de forma a prejudicar-me com o fumo que produzem, o qual me afecta do ponto de vista físico e imediato. Lamento ver-me obrigada a recordar isto aos eminentes poetas, escritores e pensadores que lêem O Mundo Perfeito, mas o exercício democrático do direito a fumar colide com o exercício democrático do direito a não fumar. Considerando que o natural é não fumar, por se tratar o consumo de tabaco de um comportamento desnecessário à vida, portanto acessório, sobretudo perante a urgência de que se reveste o acto de respirar, é da mais elementar justiça que os fumadores se adaptem a um espaço que não é só deles mas de todos. Se isto lhes custa muito, paciência. É assim que deve ser.

Soluções? E que tal mascar folhas de tabaco?

quarta-feira, janeiro 02, 2008

Zé Diogo, atina-te

José Diogo Quintela foi apanhado a conduzir com uma elevada taxa de álcool no sangue na noite de passagem de ano. Conduzir depois de beber não é grave pelo facto de ser punível por lei, como se sabe, mas porque da condução sob a influência de álcool podem advir consequências desastrosas para os próprios e para outrem. Vindo de quem vem, a falha causa decepção. José Diogo Quintela não pode, enquanto crítico de costumes, dar-se aos luxos das pessoas vulgares. Mas, enfim, é novo, tinha acabado um programa difícil, e encerrado uma fase da vida, pelo que os copos até se desculpavam, não fosse o segundo erro do humorista, o qual aconteceu, segundo o Correio da Manhã de hoje, quando "quis impedir, com modos ameaçadores, que fosse fotografado". Apanhado, cabia-lhe assumir o erro, gracejando airosamente sobre as qualidades alcoólicas do champanhe que, com graça, o vimos consumir em directo no programa de fim de ano, e abrir os braços às críticas. Mais nada. Errar é chato, mas pior é não se assumirem as responsabilidades.


terça-feira, janeiro 01, 2008

A vida sem grande moral

No passado dia de Natal, o Cardeal-Patriarca de Lisboa manifestou preocupação com o facto de a Igreja Católica ter dificuldade em atrair jovens. Exceptuando os escuteiros, não é fácil descortinar alguém com menos de 60 anos nos bancos das igrejas. Poderá a Igreja ser totalmente responsabilizada pela indiferença e afastamento dos seu fiéis naturais?
Vejamos, qual de nós não consegue enumerar mentalmente, em poucos segundos, meia dúzia de assuntos de alguma forma relacionados com a sexualidade ou o estatuto social das mulheres e de alguns grupos, relativamente aos quais a Igreja se mantém incompreensivelmente intolerante, afastando jovens e adultos? A haver renovação, seria de melhorar nestas esferas, embora admita não estar à espera que a Igreja abdique dos princípios nos quais se funda quanto à sua essência teológica, mas que, ao menos, se revele capaz de incluir e cuidar quem a procura, sem olhar a outra causa que a própria busca.




Por outro lado, as tomadas de posição da Igreja podem garantir o necessário contrapeso à confusão ideológica que assalta cada vida em particular. De uma Igreja espera-se, precisamente, que reflicta sobre os tempos e fenómenos que atravessa, e que, confrontando-os com a filosofia religiosa defendida, exponha eventuais consequências de um conjunto de crenças, elegendo-as ou rejeitando-as, e estabelecendo uma ética. Obviamente, não lhe cabe o papel de agradar, nem o de acompanhar as modas do tempo sem as meditar. Se alguma coisa louvo às Igrejas é exactamente a teimosia com que se mantêm fiéis a um conjunto de princípios quando todos se preparam para abandonar o velho barco, substituindo-o por um recente modelo em fibra de vidro, mais leve, porque, aparentemente, mais fácil de manobrar.

Escrever Deus com minúscula

Que responsabilidade detém a Igreja no que respeita ao facto de maior parte dos adolescentes escrever o vocábulo Deus com letra minúscula, revelando desconhecer o valor próprio e simbólico do termo?! O que isto significa, muito literalmente, é que a maior parte deles não recebeu formação religiosa de qualquer natureza, equação na qual entra a família.
As famílias de hoje, seja qual for a forma que revistam, não consideraram necessário fornecer às crianças os utensílios necessários para pensar a cultura na qual se movem, tendo excluído do processo educativo o ensino organizado dos fundamentos de uma moral cristã, ou de qualquer moral teológica. E eis o dilema: substituiram-na por que outra visão do mundo? Não tendo oferecido nada em troca, como olhar o mundo construtivamente sem a habilitação de uma moral? Como fazer para tomar decisões sobre a adequação de uma nova ideia ao edifício pessoal de crenças? Ou melhor, como integramos no nosso sistema de valores o que é novo? Compramos este produto ideológico ou nem por isso?

O fascismo digitalizado

Nos velhos tempos, a educação religiosa fornecia-nos a cartilha de valores que permitia seleccionar informalmente o material ideológico que melhor nos servia; esse crivo supria as ausências parentais no que respeitava à transmissão de valores. Se em casa não se aprendia a diferença entre o Bem e o Mal (os adolescentes também escrevem Bem e Mal com minúsculas), ela aprendia-se na igreja, fosse qual fosse a confissão. Havia sempre uma igreja para cada um. Inclusive para aqueles cujos pais se tinham tornado ateus por excesso de uma errada ideia de religião nas suas vidas, o que faz todo o sentido. Contudo, fornecer aos filhos uma educação religiosa era uma forma de os iniciar na cultura a que pertenciam, para além de que decorar os 10 Mandamentos nunca fez mal a ninguém. Mas isso acabou. Os mandamentos de hoje são outros: rouba antes que te roubem; lixa antes que te lixem; nada importa porque tudo é relativo.
Reparo que os jovens que a Igreja Católica deseja ver no seu culto adquiriram já um sistema de valores assente no culto ao ego e ao prazer como princípio e fim. É um sistema que afronta o meu, por excluir deliberadamente valores que considero essenciais para os grupos humanos, como os da solidariedade. Não me espanta, portanto, que o nosso tempo pulule de jovens engravatados defendendo a economia liberal, o capitalismo, as leis da selva aplicadas aos actos económicos, políticos e sociais, resumindo, o fascismo digitalizado: elimina os pequenos e torna-te maior.

Bater nos padres (e nos professores)

Grupos que por desagrado ou vingança mandam espancar os seus padres, figuras sacralizadas, como ocorreu em Alijó, na véspera de Natal, perderam todo o contacto com o sagrado. Igualmente, cresceram ignorando o respeito que se deve aos detentores do saber e aos transmissores do conhecimento. Em que outro tempo e espaço teria sido possível agredir um ministro de Deus sem temer a irreparável condenação ao fogo eterno?! Ser-me-ia possível compreender atitudes de revolta anti-clerical e de condenação da religião enquanto entretém desresponsabilizador do povo, sempre que ela o foi, mas o que se passa hoje é diferente. A religião nunca saiu da vida dos agressores de padres, porque nunca chegou a entrar.
Creio que a educação dos valores entrou em lento colapso com a perda de influência da Igreja, após o 25 de Abril. Tal perda de influência terá constituído uma inconsciente penalização clerical, em alguns casos justa, já que a Igreja Católica colaborou inquestionavelmente na disseminação da ditadura e na sua manutenção, mas reflectiu, igualmente, a abertura da nossa cultura a uma errónea modernização através da glorificação do rápido e do fácil, que tão tortos frutos produzem.
A perda de influência da Igreja, com todos os males que acarretava, ocasionou danos culturais geracionais que não poderão já ser superados pelos jovens, ou jovens adultos, que a mesma cobiça.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...