quinta-feira, fevereiro 28, 2008

A louca e a fascista

Eu e a minha mãe nunca nos entendemos como anjos com anjos devido a uma ligeira diferença morfossintáctica, que configura, no entanto, uma absoluta diferença semântica no que respeita à forma de se encarar e viver as relações sociais. Eu defendo que só se perde o que fica por dizer; ela jura que o que fica por dizer nunca perde. Ora, isto são mundos diferentes. Ela considera-me desequilibrada, com o coração na boca, e crê que não hei-de sobreviver sozinha, quando ela morrer, e repete-o muita vez, quando eu morrer, quando eu morrer. Eu acho que a minha mãe, na plenitude da sua boa educação, é o exemplo perfeito da escrava do fascismo, e mesmo que pudesse viver sem ele, não saberia como. É possível que ambas tenhamos razão.

terça-feira, fevereiro 26, 2008

Um ferro no coração



Se me puser a procurar no arquivos lembro-me de tudo. Olha, por acaso até me lembro do dia em que te disse, espeta-me um ferro em cheio no coração, como se faz aos porcos; espicha-me, que há-de doer rápido e passa, e é o que mais quero; mas pedi-te que esperasses, e foi o meu erro; que tinha de ir cortar as unhas dos pés à minha mãe, e aparar-lhe o cabelo, e fazer-lhe um avio de mercearias para dez anos; que era só um bocadinho, já voltava; mas depois lembrei-me das cadelas: alguém teria de as beijar por mim, lavar-lhes os tapetes mijados com o mesmo amor; e pedi-te, desculpa lá, aguenta mais um bocadinho enquanto resolvo este encargo; e aproveitei para achar quem quisesse herdar os meus botões, que podem vir a ser precisos, hão-de faltar a alguma blusa, um dia, e tenho-os ali guardados; e um cachecol que estava a tricotar, e cotos de lápis que gastei, mas não fui capaz de atirar fora; e tu, compreendo, cansaste-te de esperar com o espicho alçado na mão, pronto a cair sobre o meu peito, e foste-te embora, e não mo cravaste no coração, que eu juro teria sido mais fácil, e até te tinha prometido que não havia de guinchar, que não havia de guinchar nem nada. Deixaste-me solta na eira como se deixa um porco demasiado ruim para o abate, e sozinha tive de arrancar o coração até à voz, e atirá-lo janela fora como se fosse um traste muito velho e sujo e inútil. E nunca mais o encontrei.


Só queria fazer amor com ele

Hoje subi aquela mesma rua paralela às Barrocas, mas mais inclinada, que costumávamos subir os dois quando vínhamos a correr para minha casa, à tarde, para fazermos amor antes dos meus pais chegarem. E lembrei-me de uma discussão que tivemos. Que eu tive. Vinha danada porque queria ter a tarde toda para me deitar nua com ele, e abraçá-lo, beijá-lo, falar baixinho, e irmos fazendo amor aos bocadinhos, sem pressa. Saímos do autocarro e ele caminhava devagar. Rebentei. Se ele não queria fazer amor comigo. Se ele não gostava de fazer amor comigo. Porque é que tinha gasto tanto tempo em Lisboa, entretendo-se com aquela gente que não interessava nada, quando sabia que aquela era a tarde que tínhamos para fazer amor, e que eu estava à sua espera, e que agora já não tínhamos tempo. Nem valia a pena apressarmo-nos, para quê?! Chateou-se. Já não sei o que disse. Amuou. Que eu não compreendia. Que eu não tinha paciência. A verdade, e isto ele não disse nunca, é que eu já era uma mulher, e sabia o que queria, e queria-o a ele e ao seu amor, e ele era um puto que para ali andava atrás do meu cio formidável, insaciável, reflexo de mim. Não foi zanga suficiente para que não tivéssemos feito amor à pressa, antes dos meus pais chegarem. Para ele tanto fazia; ser à pressa. Fazia e pronto. Para mim, fazer amor era tudo. Era o tempo que estava com ele, era espremer-lhe os pontos negros, fazer-lhe cócegas nos pés, morder-lhe as orelhas. Um orgasmo era apenas uma ínfima parte de fazer amor.
Hoje lembrei-me disto. Vinha a subir a lateral às Barrocas, porque fui pôr o carro à revisão. Lembrei-me da voz dele, da suas calças de ganga, do amor. E pensei que para os homens, fazer amor, é só isto: aproveitar meia hora enquanto alguém não chega. Foi sempre assim. E que isto implicaria uma negociação entre os sexos na qual nenhuma diplomacia teria êxito.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Alien, bicho mimoso


Era uma romântica das antigas. Entre ver a ministra da Educação mascarada de Halloween nos Prós e Contras, ou Alien 3, A Desforra, optou pelo bichinho viscoso, porque este, afinal, tudo o que queria era apenas alimentar-se, e garantir a perpetuação da espécie, mas não agia por maldade, com golpes sujos; podendo atacar Ripley, que a tinha à mercê, não atacava, porque tinha instinto e coração. Do raio do bicho até se poderia dizer que era humano.

Gordas que nem texugos

Ultimamente, o sitemeter tem registado uma certa procura por gordas. Gordas assim, gordas assado, gordas a fazer isto ou aquilo, e até bloggers gordas, médicas gordas, professoras gordas, enfim, gordas, gordas, gordas.
Ora, como parece que mulher gorda, afinal, tanto vos convém, aqui a tendes para total regalo do que quer que seja que vos apeteça regalar. Como a oferta é reduzida, porque nos outros blogues parece mal, e estraga a estética do sítio, não posso perder este segmento de mercado.




Fotos de Amélie

Eu, que raramente meto línques

Resolvi oferecer-vos este.

domingo, fevereiro 24, 2008

Aprender a não ter medo


Detesto a sobranceria ignorante, a agressividade gratuita, a vulgaridade, a indiferença, mas acima de tudo desprezo a cobardia e o medo. O medo tolhe, cala e humilha. Se estamos convictos da justiça de uma ideia, o único medo justificável é o de que essa ideia se perca porque nos calámos, porque desistimos, porque tivemos medo. Os poderes contam com o nosso medo da punição: a prisão, a multa - para nos controlarem. Se muitos não tiverem medo, os poderes não terão poder para nos controlar. É preciso que muita gente perca o medo. Se não obedecermos todos, se muitos não obedecerem, que poder tem o poder? O essencial é perceber que o poder não tem, afinal, poder nenhum. Somos nós, ao temê-lo, que o legitimamos.
Os portugueses precisam de aprender a não ter medo; sendo uma elementar e eficaz forma de resistência, logo, de sobrevivência, nunca lhes foi ensinada na família nem nos bancos da escola, nem no grupo social. Em todos os lugares, outros, ao seu redor, viveram, vivem sob o manto do medo, e ensinaram-no como exemplo - viver dissimuladamente, sem dar nas vistas, temendo em silêncio, para nos safarmos sem chatices, sem compromisso, sem exposição.
Mas convém aprender a não ter medo. Tenhamos medo do nosso medo. Isto é apenas um princípio. Um ponto de partida que pode levar-nos longe, e dar bom fruto.


A culpa dos Pachecos Pereiras e outros da mesma laia

Ultimamente, farto-me de encontrar pessoas trabalhando doentes. Funcionários que exercem as suas funções em serviços de contacto com o público em estado de total abalroamento por gripes de caixão à cova; professores sem voz; estafetas de pernas partidas; cozinheiros com braços ao peito... Desde que o governo Sócrates, seguindo as tendências revivalistas destes tempos, se propôs repor os níveis de segurança social que tínhamos antes do 25 de Abril, há quem tenha de trabalhar mesmo que não possa justamente fazê-lo: as pessoas temem faltar por motivos de doença legítima. Eis onde chegámos!

Trabalhar doente não se pode chamar trabalho, mas expiação, e sacrifício sem produto. Mostra, igualmente, que as condições de trabalho são tão precárias, que os funcionários preferem abdicar da pouca protecção social de que ainda podem beneficiar na doença, porque temem que isso lhes custe o posto de trabalho. Isto é grave. Num país da Europa civilizada, dito civilizado, é um retrocesso que não pensei viver para testemunhar.

As pessoas que morreram a semana passada, arrastadas pelas enxurradas provocadas pela chuva, levantaram-se cedo, viram que o tempo estava impróprio para sair de casa, mas deixaram os filhos ao cuidado de quem podia cuidá-los, e saíram, indo trabalhar, faça chuva ou faça sol, comportamento comum aos que não têm gestores de conta e precisam de, honradamente, pagar a renda de casa para comprar arroz, batatas, e Ben-U-Ron.

Quem tem horários flexíveis, e salários adaptados à residência em zonas altas, como
o cidadão Pacheco Pereira, não precisa de se aventurar nas enxurradas, morrendo nelas. Basta-lhe telefonar para a secretária, "oh, Jessica, como é que você conseguiu aí chegar?! Está um tempo dos diabos, vou assim que isto melhorar, ok?! E olhe, telefone ao engenheiro José Manuel por causa daquilo..." Pode dar-se ao luxo de esperar pela bonança, antes de descer à garagem do condomínio, que também não fica situado sobre uma linha de água, porque pôde escolher não viver em Belas, nem na Amadora nem em Odivelas. Pôde pagar uma casa numa zona privilegiada, com vista para as zonas das enxurradas onde os outros morrem.
Nem nos desastres naturais a justiça é igual para todos. Quem tem pouco paga primeiro, paga mais e fatalmente, e da sua dor e tremenda injustiça, enquanto se discute quem é que deveria ter desentupido os esgotos, nunca se fará história.
Mas a futuras avenidas Pacheco Pereira já estão todas garantidas nas zonas altas.


Nada

Não sou nada, nunca serei nada, não posso querer ser nada, à parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Álvaro de Campos

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Natureza do poste

Um beijo, porque os meus postes andavam tristes. Tristes?, perguntei-lhe melhor, achas que andam tristes? Sim, tristes. Mas os meus postes só são tristes antes de saírem, depois escrevo-os e já são alegres.



quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Clandestina no sistema

No armário por debaixo do lava-loiças escondi a História Íntima do Orgasmo, e toda a minha colecção de Foucault, Simone de Beauvoir e do Marquês de Sade. Dentro do saco do pão meti as caixas de Sedoxil, Cloxam, Lendormin, Kainever, Citalopram e Stilnox que estavam em cima da banca da cozinha, a maior parte delas clandestinas, e algumas roubadas à minha mãe, mais umas cinco embalagens de diferentes tipos de valeriana, em pastilhas, bebível, injectável é que ainda não.
Desinfectei a casa com lexívia e mandei as cadelas para casa da avó, por causa do pêlo e da barulheira.
Espalhei base na cara,
light sable, e mais blush, e pintei os lábios de cor-de-rosinha porcelana. Coloquei um sorriso sábio, responsável e medíocre. Respondi a tudo com os lugares-comuns mais apreciados pelo sistema.
Hoje vinha cá a casa a inspecção da ASAE e queria muito que não me fechassem o estabelecimento.
Agora já posso desarrumar tudo, e voltar a ser a pessoa normal que sou só para mim.

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

Aviso às solteironas

Não levem, nunca, para vossa casa, candidatos a namorados que não tenham a certeza de poderem vir a ser the one, pais dos vossos filhos, para toda a vida, ámen. Não os metam na vossa cama, não os deixem conhecer o padrão dos vossos lençóis nem a decoração do vosso quarto. Se virarem as costas, minhas amigas, estarão a vasculhar as vossas gavetas, no disco do vosso computador, nas caixas de fotos, e a mandar bujardas inclassificáveis sobre o que a vossa vida é e o que deveria ser. Ninguém lhes encomende o sermão e não lho tolerem. Uma solteirona profissional dispensa tanta preocupação. Em poucas palavras, eles que vão mandar bujardas para a puta que os pariu, que com certeza deve ser uma excelente senhora.

terça-feira, fevereiro 19, 2008

Até enjoam

Há pessoas muito felizes, que não sabem que são felizes. Até pensam que são tristes, mas não, são felizes. São felizes para caraças. Andam para aí a queixar-se, e chateiam este e mais aquele, mas, vá-se lá saber da justiça divina!, são felizes. Também há pessoas amadas que não dão valor ao amor. Até pensam que ninguém gosta delas, mas é mentira, têm sempre um ombrozinho certo onde chorar. São amadas para caraças. Queixam-se que ninguém gosta delas, e mais isto e mais aquilo, mas injustamente, porque são amadas, amadas, tão amadas que até chateia. Pior, enjoa. Quem tem tudo não sabe o que é viver com nada.

Um vozeirão negro, todo vadio

A voz treme? Vou a pé pela berma, um pouco aos esses, e de vez em quando piso o alcatrão. Salto depressa. Ferve, o cabrão. Quase me mata. Caminho, devagar. Nada previsível. Por aí, vagueando com pouca carga, saltos altos e muito baton. Nada de importante. Canto, mas posso calar-me.
Também cantarolo no chuveiro enquanto ensaboo os sovacos. Enquanto lavo a louça, e sacudo o esfregão de arame após ter areado o fundo dos tachos da sopa. Sem ouvintes. Mais alto. Mudando o ritmo. Murmurando. Mastigando as palavras. Mais depressa. Devagar. Olha, como me apetece. Fora de tom. Falando. Assim, porque sim, assim. Mudando, porque me apetece ouvir de outra maneira. Uma pausa que não estava programada. Uma paródia na melodia. Não tem muita importância. E recomeço. No big deal, isto é apenas a voz com que encomendo os burguers and fries no drivetru, e não me custa nada.



Cai do cavalo, Quixote!

Recusei-me ontem a ver a entrevista com o primeiro-ministro na SIC. Tenho de me poupar. A saúde, caramba. Aquilo faz-me mal. Sobe-me a tensão. Só de lhe ouvir a voz, revolta-se-me o estômago.
Hoje recebo um e-mail da Irlanda a informar-me que o homem declarou que os professores estão satisfeitos com as reformas na educação, e arrependi-me, claro. Afinal perdi um belo excerto da encenação do D. Quixote lusitano.

domingo, fevereiro 17, 2008

O animal que de verdade sou

Canal Odisseia. A mamã ursa-castanha roubava mel da colmeia que derrubara. As abelhas atacaram-na, pelo que fugiu para junto das crias, com a barriga cheia e uma ou duas picadas no focinho. Os ursinhos brincavam. Quando a mamã chegou, deitou-se de costas, expondo as quatro tetas húmidas, disponíveis. Os três bebés treparam para cima dela e, escarranchados no enorme corpo fofo, chupavam-lhe o leite, enquanto seguravam a saliência da mama e a pressionavam delicadamente, para que corresse mais, para que corresse melhor. Larguei o Público aberto sobre o sofá, e deixei-me estar boquiaberta, os olhos fixos no écran, sequiosa da teta sobrante e do corpo enorme e macio no qual também eu queria escarranchar-me, sem idioma, despida e igual, gozando o doce manto oloroso, para poder ser, de verdade, o animal que de verdade sou.

Infértil

No lugar do quarto onde pensei colocar o berço do meu filho, muito junto a mim, perto da cabeceira, pus as camas das cadelas. Uns açafates de verga forrados a mantas que eu própria crochetei, aproveitando restos de lã de há 20 anos. Umas alcofas, como a minha mãe lhe chama. As camas das minhas cadelas parecem-se com a alcofa na qual passei os meus primeiros meses de vida, mas sem rendinhas. Ouço-as respirar a noite inteira. Não choram e não tem crises de dentes, apenas mijam frequentemente fora do bacio. Ralho-lhes só um bocadinho. E limpo. Fazem-me aqueles olhinhos piedosos. Cedo.
Podemos ir adiando para o mais longínquo milénio
a adultícia, e as coisas sérias da existência que nos levam a sair cedo da cama, mas não conseguimos adiar o nosso corpo por uma singela década.

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

Toma-me e leva-me

Sou a única mulher de 45 anos que, à sexta-feira, às vezes ao sábado, se abraça aos ursos castanhos das lojas Natura Selection, segredando-lhes telepaticamente, "toma-me para ti e leva-me contigo". Estarem ali tão presos ao chão, imóveis, e terem sido fabricados em material sintético, não muda a autenticidade das minhas intenções.

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Os eufemismos da fornicação


Começou andaria eu pelos 15 anos, e tenho atravessado todas as modas associadas à comemoração. Agora são as cuecas-tanga enroladas numa rosa de tecido sintético. Tenho saudades dos corações de peluche, das canecas com ursinhos e das caixas de chocolates com laçarotes vermelhos. Tenho sempre saudades de muita coisa, o que deve querer dizer que começo a acumular demasiado tempo.
Um dia no qual se tornou vulgar oferecer lingerie destinada ao sexo, não poderá chamar-se dos namorados, nem consagrar-se ao amor. A bem da lógica e do bom senso, chamem-lhe dia dos amantes ou dia internacional da queca, e cumpram as obrigações da fornicação com o mínimo de ruído possível, que eu cá tenho trabalho até para lá das duas da matina.

quarta-feira, fevereiro 13, 2008

O mal é humano

Jack Nicholson


O doce precisa de salgado e o salgado de doce. A minha mãe ensinou-me a temperar o arroz-doce com sal, e as favas guisadas com açúcar. Funciona, e aplica-se a tudo. À ficção, então, nem se fala. Penso nisto a propósito das personagens mais interessantes da história da ficção. Que interesse pode ter uma personagem boazinha? A madre Teresa de Calcutá, por exemplo? Como tornar interessante uma madre Teresa de Calcutá ficcional? Pelo silêncio. Calá-la. O silêncio permite subentender todas as vilezas e perversidades que temperam uma vida humana. Miná-la de dúvidas e angústias, seria outro caminho. Com um bocado de sorte suicidava-se na ponte 25 de Abril. Haveria história. Drama. A sua existência transcenderia a biologia.

Há uns anos, um santo padre que desejou salvar-me para si, dizia-me que o meu maior atractivo era o silêncio altivo, cheio de segredos. E eu explicava-lhe, "não é altivo, é vergonha". "Não parece, minha filha, não parece; quem te observe dirá que te encontras acima dos mortais", respondia-me, enquanto me procurava a deliciosa menina dos olhos. Sobre uma personagem calada tudo se pode imaginar. Não fala, porquê? Que traumas guarda? Viu o que não devia? Não desce ao mundo comezinho? A ninguém ocorrerá a hipótese mais plausível: é muda, tem uma voz feia, os dentes tortos; é tão tímida como um rabanete.

A irmã Lúcia, por exemplo, só tem salvação pela comédia. Transformá-la-ia num ex-libris do que sempre foi: fanática, burra como as casas. Não se faz mais nada com aquilo. Também a colocaria com gozo no centro de uma cena de terror, da qual seria o agente. O terror precisa de personagens normaizinhas, esperáveis, para a seguir se transformarem em monstros com ou sem escamas. O prazer que deve dar transformar uma irmã Lúcia num monstro que deita fogo da boca e tresanda a pecado! Eu até esfregaria as mãos!
Nada é inverosímil numa personagem má, porque a maldade humana é certa e infinita.

O mal resulta. Revemo-nos nele; o nosso mundo está lá. Um fulano piedoso, contudo, cheio de taras; a da limpeza é sempre hilariante. Estou sempre a lembrar-me da personagem interpretada pelo Jack Nicholson em Melhor É Impossível, uma das minhas comédias favoritas. O homem é mau, mas não, o homem até é um doce. Melhor, o homem é um querido, mas tem aqueles problemas de sociabilidade, logo, o homem é mau. Caramba, afinal o homem é bom ou mau? Ou um senhor muito simpático, dadivoso, honesto trabalhador e pai de família, que viola no banco da frente do carro, às terças e quintas, rapazes aos quais dá boleia à saída do emprego.
Depois lava as mãos, a boca, beija amorosamente o crucifixo que traz no porta-luvas, e reza 20 pais-nossos. Como resistir a personagens destas?

Mr. Bean e Charlot funcionam porque estão cheios de boas intenções, contudo falham. Querem ser certinhos, fazer o bem, mas asneiram e estragam tudo. Sempre. Entre o que eu sou e o que eles são a distância é curta. Quantas vezes me rio das coisas ridículas que digo ou faço, e me apanho a pensar que afinal já vi aquilo num Mr. Bean? Quantas vezes me sinto um Charlot no feminino?
Transformar uma personagem má numa boazinha, sem cair no ridículo, é difícil. Só uma mão virtuosa. Vinda do mal, ou chegada do nada, entrando virgem na acção, uma personagem adjuvante tem de ser endurecida, ou torna-se lamechas, e o lamechismo é insuportável. Aos bons, temos de retirar características humanas. Sim, é bom mas abdicou disto e daquilo. Para se ser verdadeiramente humano é preciso abdicar de quase toda a humanidade. Dizemos, "ele é bom para a humanidade, mas implacável com o cumprimento de regras", e, nesse caso, torna-se associal e ninguém o suporta. Logo, mau.

Os mauzinhos são fáceis. Para fazer um vilão basta deixá-lo deslizar. Chega lá sozinho se lhe dermos espaço, porque as personagens, como as pessoas, têm faro para a o erro, a corrupção e a desgraça. Não é que a maldade seja mais natural que a bondade: ela existe enquanto substância legítima, independente de juízos valorativos. E é mais interessante, mais rica, portanto mais ficcionável. Quanto aos nossos confrontos com a maldade na vida real, isso já é outro assunto. Ficção é ficção, conhaque é conhaque, e as misturas caem sempre mal.


terça-feira, fevereiro 12, 2008

Reposição 1

Ando sem tempo para alimentar o blogue. Podia ir enchendo com You Tubes, mas, sendo mulher piedosa, resolvi fazer a reposição de alguns textos já publicados, cuja recepção não me satisfez nem um bocadinho. Começa agora.


Dilema da carne


É paradoxal termos sido oferecidos de uma vida de carne para que possamos escolher viver sem ela.


domingo, fevereiro 10, 2008

Projectos de um engenheiro diplomado ao Domingo

Um dos edifícios com projecto assinado por José Sócrates. Foto do jornal Público, aqui.

A minha amiga sueca contou-me que no seu país, há uns anos, uma ministra foi obrigada a demitir-se do cargo, após a Imprensa ter descoberto que usava o cartão de crédito do governo para comprar chocolates Toblerone nas bombas onde parava para meter gasolina. O cartão de crédito adstrito às despesas de representação! Toblerone!

A minha amiga sueca acha graça à politica portuguesa. Ri-se e pergunta-me, "mas ele não cai?", "mas vocês não exigem a sua demissão?", "mas como é isso possível", e a seguir telefona para a Suécia e ri-se muito enquanto diz Portugal, Portugal, e uma outra palavra que me soa a palonços, palonços.
Numa democracia moderna, o caso "diploma da Moderna" teria afastado qualquer político do activo. A honra é uma coisa séria, e, quando se perde, está perdida. Ora, se o "diploma da Moderna" apenas feriu o primeiro-ministro, mas de forma alguma o desapeou do cavalo, a polémica sobre os lamentáveis projectos de construção civil numa câmara do centro-norte, não o matará. Quer dizer, Sócrates já está suficientemente morto. Apenas se mantém como chefe do governo cuja principal medida tem consistido na informatização da administração pública. Que os cidadãos não possuam competência para usar o referido software, ou mesmo hardware, não lhe diz respeito. Eduquem-se nas "Novas Oportunidades". Já não é mau. Ele também se formou depois dos 40, e etc., etc. E adquiram portáteis Toshiba.
Realmente, o primeiro-ministro não tem grande saída no que respeita ao caso divulgado pelo jornal Público a semana passada. Se os projectos de facto lhe pertencem, então não respeitou a exclusividade a que estava obrigado enquanto deputado, cargo que exercia à época. Mas isto não lhe causará mais mossa. Alcançar um diploma com data de Domingo é feito de que nem todos se poderão gabar, mas quebrar o dever de exclusividade...
No entanto, a questão do Domingo é importante, como se vê pelos projectos que podem conhecer seguindo o línque (legenda da foto). Um engenheiro de Domingo não pode ser tão expedito como um de segunda-feira. O engenheiro de Domingo fica na cama até às tantas, anda de fato de treino, vai lavar o carro ao Elefante Azul e engana-se a contar centímetros porque bebeu três copitos ao almoço, e está no seu direito. Porque é Domingo. Como pode alguém pretender que o cidadão Sócrates assine projectos melhorzinhos?! Há coisas que o homem realiza sem grande competência: uma é projectar edifícios, a outra, governar um país.

sábado, fevereiro 09, 2008

Uma solteirona desaustinada

Arrecadação de uma fábrica de parafusos. Vassouras, pás e esfregonas encostadas às paredes; baldes e detergentes espalhados pelo chão. Penumbra. Uma operária desaustinada e pujante de vitalidade, em período ovulatório, submete colega do sexo masculino contra uma das paredes livres, toda escarranchada nele.

Homem desejável, mas mesmo que não fosse
(Debatendo-se sensual e mansamente.) Isabela...

Isabela
(Esfregando a boca no seu peito.) Não digas nada, querido.

Homem desejável, mas mesmo que não fosse
Não é isso, linda, é que eu...

Isabela
(Levantando a cabeça.) Aproveita o momento. Olha que à meia-noite volto a transformar-me em abóbora. (Colocando o indicador direito no mamilo esquerdo.) Estás a ver que até já começam a aparecer as pevides?!

Homem desejável, mas mesmo que não fosse
Mas preciso de te dizer que...

Isabela
Oh, por favor, não fales; deixa-me ter a ilusão afrodisíaca de estar a corromper um homem inteligente.

Homem desejável, mas mesmo que não fosse
Ouve-me, é que eu sou...

Isabela
Oh, filho, eu sei, és casado. E muito amigo da tua mulher, embora se tenha acabado a paixão e não tenham sexo há mais de 12 anos, e só estejam juntos por causa das crianças e da casa, que é dela.

Homem desejável, mas mesmo que não fosse
(Visivelmente entusiasmado, movimenta as pernas e derruba alguns baldes de limpeza.) Não, não...

Isabela
Querido, deixa isso e aproveita-te de mim toda inteirinha.

Homem desejável, mas mesmo que não fosse
Oh, Isabela, enquanto não me largares os pulsos não posso; além disso, sou míope, e quando me estavas a morder o pescoço, e me lambeste a cara, arrastaste-me uma lente de contacto... está a brilhar em cima da tua mama... se pudesses dar-me dois minutinhos só para ir pô-la outra vez...


quarta-feira, fevereiro 06, 2008

Resta-me respirar fundo


Perdidas todas as esperanças sobre a experiência superlativa da felicidade existencial ou da liberdade social e de expressão, resta-me a certeza última de poder arrancar o soutien todos os dias, assim que chego a casa.

terça-feira, fevereiro 05, 2008

Gostamos de apanhar tautau

Lá na minha fábrica, a chefe de secção é execrável. Pelos corredores, todos lhe cortam na casaca, o mais possível, em sussurro.
Registei um sorriso geral de vingança satisfeita quando chegou com o carro amolgado, a semana passada. Eu não fui excepção. Primeiro que tudo a moral, mas, antes da moral, o ressentimento. Bem feita, ouvia-se; era um clamor geral sem fonética. A mulher merece.
Sendo o seu cargo decidido por eleição anual entre pares, qualquer pessoa normal pensaria que a ditadora histérica está há pouco tempo na função, e não voltará a ser alvo de sufrágio, mas a verdade é que a víbora é eleita consecutivamente há uns bons oito anos e não se prevê que saia. Ninguém fala em mudança. Estou em crer que os meus colegas adoram levar nas trombas, e temê-la, para a seguir lhe morderem na sombra. Uma coisa masoquista que não terá grande explicação fora da psicanálise.
Por esta, e por outras, habilito-me a defender a ideia de que os portugueses não acreditam na democracia, e, mesmo que acreditassem, varriam-na para debaixo do tapete. Os portugueses gostam é que o papá, ou a mamã, dêem tautau, e digam não, não fazes, não, não podes, e faço isto para teu bem, meu filho. Depois choram, reclamam e batem o pé, mesmo sabendo que não adianta, porque não está nas suas mãos, que bom, alguém decide a sua vida por eles, seja o que for, por isso até não se importam de ir para o quarto de castigo, obedientes e lindos meninos chorosos com a catarse realizada. Tenho a ideia que a maioria dos portugueses está na fase dos 12, 13 anitos. Ai, que medo da vida dos crescidos!

domingo, fevereiro 03, 2008

Nunca demasiado loura

A recém-casada Brigite Nielsen, com o marido, num momento de relax da sua lua-de-mel.


Queria, há muito, imitar o look Annie Lennox, de maneira que resolvi cortar o cabelo radicalmente, e pintá-lo de louro claríssimo. A minha prima afastada diz que sim, que estou com um ar eighties, e ligeiramente punk, mas que pareço é a Brigitte Nielsen em bonito e em xl. Pode ter sido um bocado ao lado, mas divirto-me à mesma, e isso é que conta.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...