segunda-feira, março 31, 2008

O animal bonito é o animal morto

Daniel Proença de Carvalho é o convidado especial do programa Sentido do Gosto, que passará amanhã à noite da RTP1, e no qual se discutirá o fascínio da caça.
Ah, eu também gosto muito de programas sobre caçadores. A ternura com que eles fitam os olhinhos mortos da lebre, da perdiz, do passarinho indiscriminado e, até mais ver, mole, comove-me. Ah, a caça, essa arte! Premir o gatilho, essa arte!
A natureza é perfeita e os caçadores adoram-na, e mais à bicharada. Olha, ali vai uma perdiz. Que lindo animal. Deixa cá ver se lhe acerto à primeira. Pum, pum. Busca, Bobi, busca.

O meu dinheiro

Não suporto pagar contas. Analisar um registo dos movimentos bancários enerva-me. Dá-me insónias, antes e depois. Por isso, vou ligar para o Millenium BCP Prestige para que me aceitem como cliente, e o meu gestor tratará das minudências financeiras em meu lugar.

domingo, março 30, 2008

Uma história sem moral

O professor, ele é professor de música na escola, foi sair com uma professora e viu o pai. O pai agora é um pedinte, um sem-abrigo, mas antes era professor universitário, só que morreu-lhe a mulher, começou a beber, e desgraçou-se. Os miúdos da escola falam com ele sentados no muro; dá-lhes conselhos muito bons; é um homem que fala muito bem, porque, está-se a ver, foi professor universitário e sabe discursar; os miúdos às vezes até lhe trazem coisas de casa, ou levam-no com eles para comer com as mães e pais. Gostam muito dele.
O professor que viu o pai, quer dizer, pensou que o viu, e até disse à professora, parece que está ali o meu pai, foi a correr atrás dele, mas o velho escondeu-se atrás de uma árvore, e ele ficou sem saber se era mesmo o pai. Agora é que isso se vai desenvolver melhor.
Este foi o reconto do episódio de Morangos com Açucar de ontem, segundo a minha mãe, à hora de almoço. Escuto estes relatos sorrindo. Ela sente-se feliz, e, por arrasto, também eu. Bendita telenovela.


sábado, março 29, 2008

A casa dele

Alfred Wallis, The Hold House, circa 1932



Não o incomodo. Não lhe dou trabalho. Fica tudo como estava antes de eu entrar. A sua vida igualzinha, sem tirar nem pôr. É assim todos os dias desde que arranjei a chave da sua casa. Custou-me muito, mas consegui, por mor de antigas cunhas e muito seguras. Quando estou cansada e vazia, e se ele não está, entro em silêncio, sento-me num sofá, e perco-me a contemplar os pormenores da mobília, a folhear os livros de família e os diários em gavetas. Como se ele estivesse na capa deste livro; as suas mãos terão folheado este livro; aperto-o contra o peito, com ternura; beijo-lhe a capa; cheiro-a de olhos muito fechados. Ele há-de estar ali. Remexo-me no sofá. Não o incomodo. Não perturbo uma leve aragem do seu dia. Tudo igual ao que era antes de eu ter nascido. Mas o seu corpo senta-se neste sofá. A sua roupa. Deve ter o seu cheiro. Se fosse uma cadela poderia cheirá-lo nesta coberta; que pena não ser uma cadela. Nascer, morrer, ter um dono. Percorro toda a casa, até a arrecadação, sobretudo as coisas velhas. O quarto onde dorme acompanhado, onde faz amor com a mulher que ama. Os seus ténis velhos. Um casaco castanho. A camisa de dormir com que a mulher cobre os seios que ele adora. E tanta dignidade. O quarto das crianças, que cheira tão bem, tão a novo. Que casa tão bonita, tão leve, despretensiosa. Que bem que se está na sua casa, que rescende a amor, sol e flores vivas. Saio recomposta. Suspiro como se tivesse calcorreado quilómetros e precisasse descansar. Ele está bem; que bom, saber que está bem, que é feliz, que poderia ser feliz, que é o único a sentir-se morto lá dentro.

Acção política


Está bem, não me importo, rapem-me o cabelo, vistam-me a farda, participo em tudo, de preferência em acções terroristas clandestinas, mas, por favor, não me tratem por camarada, não me enviem mails começados por camarada, nem sms's ou outras formas de tocar a reunir com a palavra camarada, para que não me sinta personagem do Dr. Jivago, e o meu paizinho não se revolva na tumba.

quinta-feira, março 27, 2008

As massas da minha massa

Fico a olhar, fascinada, as pessoas na televisão. Os portugueses. Políticos. Intelectuais. Ou não. Os convidados das notícias. Que bem parecem. A forma gentil como movimentam as mãos. São pessoas sérias. Todas humildes e modestas. Higiénicas. Ninguém mija fora do écran, quanto mais dentro. O meio sorriso, nem muito aberto nem muito fechado. A cabecinha de lado, o sorriso retórico, politicamente correcto, socialmente correcto, culturalmente correcto. Os trejeitos com a boca, exclamativos, semânticos; a preocupação em dizer as coisas certas, com as palavras que se esperam. Os tiques que procuram aceitação, o abanar de cabeça, o baixar de cabeça, as palavras que rabiscam numa folha, e que infelizmente não vemos. Que repetitivos, que vazios, que chatos. Dêem-me a rua, por favor: as pessoas que passam, as mulheres que vendem no passeio, o homem que diz, "haviam de pagar mais de um milhão por cada divórcio", e a senhora que está convencida que "agora facilitam tudo, depois é esta falta de respeito, então uma pessoa quando se casa não é para sempre?" Gosto mais destes; as massas que não fazem jeitinhos, que não prestam vassalagens aos que prontamente pagam as vassalagens.

quarta-feira, março 26, 2008

Três anos em contramão

É verdade que sempre senti o apelo dos atalhos, dos caminhos enviesados, cheios de buracos, lama, mas a minha mãe nunca me deixou iniciá-los por serem perigosos. A minha mãe ou a materialização dos medos que me transmitiu. A pedagogia do medo é uma tradição lusitana.
Se não fosse estupidamente fiel, podia ter-lhe mentido, mas, em alternativa, acatei a responsabilidade. De todas as vezes que pensei, ah, apetecia-me tanto ir por ali, à cautela, fui por acolá. E errei. Quer dizer, acertei, e assegurei, mas errei.

Estou segura de que alguém, um dia, me há-de pedir contas do que não fiz, e eu hei-de dizer, não fui eu, foi o meu signo, e a minha mãe. Por mim, tinha-me atirado à asneira de braços escancarados. É natural e humano que me defenda, sabendo, contudo, que não tenho razão, que as escolhas foram minhas.
Este blogue começou torto e assim se tem mantido. Que enorme caminho enviesado, a maior parte das vezes, percorrido em contramão. Faz hoje três anos. E como sempre, em datas de aniversário assim tão pessoais, nunca me ocorre nada para dizer.

Treze quilómetros II

Procuro-te por todos os lugares do mapa-mundo, mas a terra onde te coseste a boca não tem sequer um nome.

terça-feira, março 25, 2008

O amor é paciente

Ainda que eu falasse
a língua dos anjos
Se não tivesse amor
Seria como um sino ruidoso.
Ainda que tivesse o dom da profecia
O conhecimento de todos os mistérios
E de toda a ciência
Ainda que tivesse toda a fé
A ponto de transportar montanhas
Se não tivesse o amor
Nada seria.
O amor é paciente.
O amor é prestativo.
Tudo espera.
Tudo suporta.
O amor jamais perecerá.
As profecias desaparecerão
As línguas desaparecerão
Agora, portanto, permanecem
a fé, a esperança e o amor.
A maior delas, porém,
é o amor.

Texto baseado na I Carta aos Coríntios, do Novo Testamento, e letra da composição de Zbigniew Preisner, para o filme Trois Couleurs - Bleu (1993), de Krzysztof Kieslowski


Os poemas do amor

Nunca mais era velha. Estava a ficar velha. Começava a ver rugas nas mãos. Era o tipo de mulher para quem tinham sido escritos todos os poemas de amor, mas que nunca recebera um poema do amor.

Não acredito no amor

repete a andorinha residente, que não acredita senão no amor.

Animais


A Morena dorme comigo; a Micas, no bercinho de verga aos pés da cama, porque sofre dos ossos, e tem ciúmes, ou dormiríamos enroladas as três, lobas enjeitadas da mesma matilha. Quando me deito, abraço o corpinho da Morena, bêbeda de sono, puxo-a para mim, beijo-a, digo-lhe, minha bebezinha, suspira, penteio-a com os dedos, no escuro, e deixo-os pousados entre os fios de manteiga do seu pêlo. Durante a noite, viramo-nos uma para a outra, sobressaltamo-nos, escutamo-nos respirar - às vezes ladram baixinho - e os nossos corações batem a mesma pancada de amantes eternas.

segunda-feira, março 24, 2008

Tudo é relativo

A verdade é que a semana me correu mal. Chateei-me na fábrica com uma colega que tem a mania que é dona da linha de montagem, e que sabe mais de parafusos do que eu, e com que modos, a malcriada!; zanguei-me com a minha mãe por causa das compras do Jumbo, a mal agradecida - estive dois dias sem lhe falar; avariou-se-me a torneira do lava-louça, mas, bem, essa parte resolveu-se com ajuda da minha mãe; fiquei empanada na auto-estrada com o Opel a deitar fumo pelo capot, e o mecânico até me telefonou agora, que é a junta da cabeça - 600 e tal euros, e se não houver mais nada!, eu nem pio; mas o que me tirou do sério, o que me lixou o sistema todo foi, ao pequeno-almoço, o leite ter fervido, e deixar-se entornar, para mais de 1/4 de litro, por cima do fogãozinho lavado de fresco com tira-gorduras.

domingo, março 23, 2008

Estás à espera de quê para te ires embora?



- Como foram esses tempos?
- Nessa época, aos domingos, refugiava-me na eira para estar sozinha com os gatos e as galinhas. No Inverno, estendia-me no chão, à chapa do sol. Era bom. Não ouvia ninguém.
- Então, mas o que tira de bom desses tempos?
- De bom, desses tempos... - Nada, era o que me vinha à cabeça. Nada. Não seria o que esperavam ouvir, mas como sempre acreditei na bondade das respostas imediatas, decidi continuar, que se lixasse, e o que havia nisto de afronta, raiva e verdade! - Não precisar de ninguém. Ter-me tornado ab-so-lu-ta-mente autónoma. Fazer sozinha, com as minhas valências, o que a outros custa multidões.
- Tornou-se demasiado independente?!
- Enfim, dependo de saber que os outros existem, mas não dependo deles. Detesto a distância que me separa dos outros, contudo, tudo me parece no seu lugar à distância. Aprendi a estar longe, e isso tornou-se a minha casa. Há coisas que não sei fazer acompanhada... não sei, pronto, o que quer que lhe diga? Ir ao cinema, por exemplo... é estranho ir acompanhada... ao supermercado... a um museu, uma exposição... andar sozinha na rua... Não sei. Sei mal. E estou sempre à espera de perder. À espera que alguém se vá embora. Que desistam de mim. Que me digam que não têm tempo. Que não podem. Essa é a resposta natural. E quando acontece, mais tarde ou mais cedo, até respiro fundo. Finalmente foi-me dito o que esperava e nunca mais vinha. Finalmente, a ordem, e tudo pode retomar o seu curso normal.
Ela não me respondeu. Esperava que continuasse. Sorriu-me, séria, contudo, e senti que me ouvia, que talvez pudesse compreender-me.
- Mas não pode esquecer essas pessoas, pois não?!
- Não, não consigo... tenho-as sempre entaladas aqui - e fiz o gesto, a mão na garganta, como se a cortasse à navalha, mas não era isso, e sorri com o meu sorriso mais bonito - às vezes, sabe?!, penso que não esquecer os outros é a minha vingança contra a pouca importância que me deram. Contra terem-me largado com a minha total complacência. Melhor, respondendo ao meu persistente estímulo. Contra nunca terem insistido, nunca terem dito, oh minha grande filha-da-puta, eu não vou nada fazer aquilo que esperas, vais ter que lidar comigo, vais ter que gerir a tua vida comigo, vais engolir esse orgulho...
- Mas é contra si...
- É sempre contra mim.

sábado, março 22, 2008

Abençoados homens


Abençoados homens de 61 anos, carecas, reformados e com caixa de ferramentas.
Avariou-se-me ontem a torneira do lava-louça e não conseguia parar o fluxo de água, mesmo fechando a válvula de segurança, no exterior. Uma avaria estranha!
Telefonei à minha mãe, para me valer, como de costume, que telefonou à Dona Francisquinha, a vizinha dos cães, cujo filho trabalha na construção, mas não podia; veio cá o marido logo de manhã, de mangas arregaçadas, desenrascar a dona Isabelinha, que a sua mãe disse-me que está aqui com um problema, isto em casa há sempre pequenas coisas que ninguém quer fazer.
Abençoados homens. Deus lhes dê saúde, longa vida e braços que possam carregar caixas de ferramentas para atarraxar o que precisa de atarraxamento.
O marido da Dona Francisquinha tocou-me à campainha como um anjinho da Páscoa, pousou a caixa no chão, abriu-a, e nela foi desencantando anilhas de borracha, bocados de arame, parafusos, porcas, sisal, isto para além das ferramentas, enquanto me pedia lubrificante, que até podia ser óleo de fritar; parecia o MacGyver.
- O senhor parece o MacGyver.
- Ah, pois, eu não perdia um episódio.
- Eu também não. Até me regalava de os ver com o meu pai; o senhor lembra-se do meu pai?
- Então não lembro, Dona Isabelinha, então não lembro? Era um homem muito bem disposto. Mas, isto, nós não somos nada, é o que lhe digo... a minha mãe também já lá está, com a mesma doença do seu pai... há dois meses... mas a propósito do MacGyver, arranje-me aí um fósforo, que estou a precisar de qualquer coisa para fazer aqui enchimento.
- Um fósforo serve-lhe?
Riu-se.
- Dona Isabelinha, eu estive no Luxemburgo. Sabe por que gostam de nós lá no estrangeiro? Por causa disto. Os portugueses são capazes de arranjar tudo com poucos meios. Adaptam-se ao material. Dão-lhe o que ele quer. E resolvemos os problemas. Não há nada que um português não resolva.
E foi verdade; com óleo Fula, um fósforo e um bocado de papel de um folheto do Jumbo arranjou-me a torneira, depois o estore da sala, e a porta, que fechava mal, e pôs-me a luz da despensa a acender, e não me levou dinheiro nenhum, e eu sei, tenho a certeza absoluta, que este homem, para cúmulo da perfeição, ainda deve ter meias solas em condições para bater na cama.
Nunca imaginei que haveria de querer casar-me com o abençoado marido da Dona Francisquinha.

sexta-feira, março 21, 2008

De que se morre numa cruz?

"De que morreu Jesus na cruz?", leio em subtítulo, num dos suplementos de hoje do jornal Público. "De asfixia, de embolia pulmonar, de choque hemorrágico?" Existe toda uma investigação à volta deste problema de suma importância para o cristianismo.
Imaginemos que me aprisionam e me torturam, com instrumentos um bocado cortantes e flagelantes, durante dias consecutivos. Imaginemos que, debilitada pelas sevícias, pelo consequente enfraquecimento físico, me obrigam a arrastar a minha própria cruz, de madeira sólida, ao longo de quilómetros, sob o sol, e à mercê do que nasça, até ao cimo de um monte. Imaginemos que me pregam a uma cruz, ou que a ela me amarram, para que fique exposta à dor e à morte. Imaginemos que aí me abandonam, já exangue. Isto, agora, assim com toda a objectividade, imaginam que morrerei de quê?

A complexidade do cérebro humano

Olhei lá para fora pelos janelões da sala. Que lindo dia! Entretanto, ouvi a Morena coçar-se furiosamente nas minhas costas, e pensei com os meus botões, é hoje que a meto na banheira, é hoje! Virei-me e disse-lhe, sorrindo, é hoje! Levantou-se com o rabo entre as pernas e foi-se esconder no quarto, debaixo da cama.
Ainda ontem tinha ouvido, num programa sobre fauna, no canal Odisseia, a seguinte frase: "o ser humano possui o cérebro mais complexo de todos os animais." Deviam estar a referir-se a uma outra raça humana, talvez noutro planeta.

quarta-feira, março 19, 2008

Treze quilómetros

Eu também suportaria esperar 51 anos e nove meses pelo amor, mas considerando o desgaste que levam as minhas retinas, é provável que tenha de ficar para a próxima encarnação.

segunda-feira, março 17, 2008

Já não há ninguém

Sobre o progresso


Ainda há pastores?, filme de Jorge Pelicano
(clicar sobre a imagem, para aumentá-la.)


Um pastor perdido na serra. Num dia certo ao ano, ia às brasileiras, à cidade mais próxima. Se eu por acaso acharia que a prostituição, neste caso por misericórdia, se justificava. Foi nestes termos que me falaram no referido documentário, há cerca de um ano. Tinha passado na SIC. Fiquei curiosa, mas comprei o dvd há cerca de duas semanas, apenas.
O filme é de uma beleza que rompe os limites entre documentário e cinema, se é que alguma vez isso existiu: limites. É um documentário porque documenta o fim desse mister, e dos que dele se ocupam: a pastorícia, tudo o resto é grande cinema.
Esperava encontrar em Hermínio, o pastor de 27 anos que o documentário transforma em personagem principal, uma personagem pura, com desejos animais, mas inocentes. Encontrei um homem que pastoreia, mas que anseia por uma vida igual à dos outros da vila, da cidade, dos outros que têm direito aos domingos e feriados para descansar. Até aí tudo bem. Haveria de ser possível a um pastor ter quem o substituisse um dia por semana, para que vida e profissão não se confundissem totalmente, porque os tempos mudaram, e em alguns casos, sejamos honestos, para bem melhor. Que não sejamos escravos da sobrevivência. Também acho que não tanto.
Hermínio delira com a música e concertos de Quim Barreiros, "hei-de mamar nos peitos da cabritinha", canta ele, acompanhando a voz do intérprete, proveniente do reprodutor de cassetes, "meto o carro, tiro o carro, da garagem da vizinha...", canta, canta, de rádio ao ombro, sorrindo, deliciado com o tom brejeiro que considera cool. Mais tarde, após a frequência continuada das brasileiras, escuta música igual à que ouço num apartamento do prédio aqui ao lado: uma espécie de vira do Minho com influências tupi, acho. Uma coisa mexida para lá do samba, entre o samba e a música cigana do centro da Europa. Um som horrendo. Para o Hermínio, cool. Tudo o que não seja gado e serra é cool. A decadência de todo o código de socialização rural é cool. O pastor que já não quer ser pastor deseja a civilização, o progresso. Já não suporta a vida de solidão e natureza rija. E tenho pena.
Há poucos dias, na Baixa de Lisboa, tragava uma sopinha de repolho e uma febra no pão, acompanhada do meu amigo francês, e diz-me ele, exclamativo, isto é que é progresso.
Isto o quê?
A sopa, a sandes. Percebes, Isabela, percebes o que quero dizer?! Isto é que é o progresso.
Referia-se ao que comíamos. Comida autêntica sem franchising. Que saciava e nutria. E eu percebi, de facto, e verbalizei a sua ideia, sem sotaque, afirmando que progresso é o que nos faz bem, porque é bom, não porque vemos os outros fazer. Se era isto que ele queria dizer?
Era: o progresso é o que é bom e o que nos faz bem. O resto é a moda.
O pastor de Casais de Folgosinho não almeja, portanto, uma vida melhor, e não a terá quando deixar de ser pastor. Porque uma vida melhor não é ir mais vezes às putas nem levantarmo-nos às onze, nem trocar a solidão da serra pela do cimento - o seu sonho. Isto ele não sabe, provavelmente ninguém lho dirá, e mais tarde ou mais cedo, largará a pastorícia, para seu mal. E custa-me isso de já não haver almas de pastor, de já não haver ninguém.


domingo, março 16, 2008

Hino à carnuç... digo, à beleza

(Clique sobre a foto para aumentá-la.)

Uma foto de autor anónimo, tirada em França, cerca de 1875, que faz parte do meu tesouro de imagens. Agrada-me a alegria dos fotografados, tal como a encenação que as mãos de ambos realizam: as dela, postas religiosamente entre as mamas, como as de uma Nossa Senhora, e a dele, cravada no seu púbis, segurando-lhe a barriga ligeiramente descaída, reclamando posse e luxúria espirituosa.
Pode tratar-se de uma foto para consumo erótico ou de um retrato com a meretriz preferida, a da moda. Ela é adorável: acho-a bonita, de sorriso malandro, mas não estragado, exactamente como ele; redondinha, tão deliciosamente redondinha que tenho ganas de lhe trincar um pedaço da barriga, da anca, do braço, da perna. É uma das minhas gordas preferidas. Um pedaço de céu.

Foi Domingo de Ramos



Gosto muito da igreja da minha freguesia, embora não a frequente. É um edifício recente, de interiores claros, sóbrios, minimalistas. Apetece-me muito rezar na minha igreja. Enchê-la dos pai-nossos e avé-marias que me esqueço de rezar em casa. De muitas preces belas que ouço a minha mãe murmurar pelas seis da tarde, e promessas, e dores e aspirações, mas para ser uma boa católica precisaria de esquecer que a minha igreja é católica, e que nela, alguns filhos de Deus, imaculados filhos de Deus, estão proscritos.
Hoje, a missa de Domingo de Ramos era campal. O padre trouxe os fiéis para o jardim, e, enquanto passeávamos os cães, líamos o jornal, íamos ao minimercado, escutávamos os améns e os cânticos entoados por mulheres e homens empunhando ramos de oliveira.
O padre da minha freguesia é um homem duro, de poucas palavras, diria arrogante. No dia em que enterrou o meu pai pronunciou umas palavras desapiedadas e breves sobre a vida eterna, e o sofrimento dos que ficam, não dos que partem. Aquilo tocou-me. Tentei agradecer-lhe, com lágrimas, mas o homem evitou-me, mostrou-se apressado, indisponível para receber a minha gratidão. Não me esqueci. Hoje, ele lá estava ao ar livre, com os seus fiéis, imitando uma igreja aberta. Como se aquele fosse um grupo aberto, um verdadeiro grupo aberto, e não um círculo fechado como um punho. Não me juntei a eles. Estava com as cadelas, e para as pessoas que adoram o Senhor, os animais não comem à mesa do sagrado. Andei.


sábado, março 15, 2008

Monólogo da solteirona II

Foto: Pejotek

Cenário: quarto de dormir.

Morena salta para cima da cama, ainda por fazer, e amersenda-se sobre os lencóis, suspirando fundamente, o focinho na almofada, como um cão dos filmes. Atiro-lhe, o que é que vieste cá esconder desta vez? (Silêncio, olhando-me de lado, porque estou a incomodá-la.) Um osso velho aos pés da cama? Um rato podre debaixo da almofada? (Nada, ignorando-me.) És a coisa mais porca que já dormiu nesta cama... e olha que já cá dormiu muita desgraça à qual nunca devia ter franqueado aquela porta... (Silêncio compreensivelmente despiciente).

Uma ASAE para o piercing

Continuando a sua saga de proibições e aberrações, as quais, não tenhamos cuidado, nos levarão a uma espécie de estado-nacional socialista de punho fechado substituindo a suástica, o Partido Socialista quer proibir a colocação de piercings na língua e órgãos genitais, não apenas a menores de 18 anos, mas também a qualquer adulto, proprietário do seu corpo e da sua vida.
Eu, que detesto piercings, considerando, apesar de tudo, a sua inegável função decorativa, vejo aqui um atentado grave à liberdade de cada um fazer com o seu corpo o que lhe der na real gana, e um insulto à inteligência, de forma geral.
Os piercings fazem mal à saúde, alegam os autores do projecto-lei. Se o que está em questão é a saúde dos portugueses, tenham a coragem de avançar para uma proibição do consumo de álcool, tabaco, alimentos fritos ou gordos, bolos e chocolates. O gozo que havia de me dar comprar um rissol de camarão e uma caixa de Ferrero Rocher na candonga!
Sinto este governo tão desesperado; e tão ridículo.

quinta-feira, março 13, 2008

Isabela vai à médica de família



Fui à médica de família porque não ando a sentir o antidepressivo. E disse-lhe, doutora, é como se não andasse a tomar nada. Não me sinto melhor nem pior. Os dias correm bem ou mal, nuns rio, noutros choro, mas não sinto o antidepressivo, veja-me lá a dosagem se faz favor.
E desabafei. Melhor, não me controlei: o que ele me tem feito; as horas a que chega a casa; as manchas nas cuecas; que não o excito; que tem uma miúda. Que tem uma miúda, santo Deus, uma miúda! E quem sou eu na vida dele, afinal? O que vem fazer a minha casa? Contei-lhe, claro; tudo. Desde que a minha prima afastada foi viver para Roma, o meu maior interlocutor é a máquina de lavar roupa. Até isto lhe contei. Caramba, ela é médica; estudou para ouvir e aliviar a dor. Não são apenas os nomes dos ossinhos. As emoções doem como o reumatismo. Sinto-me um trapo usado e deitado fora... esteve longe durante anos e agora não o excito, que sou uma amiga... que respeita muito. Que tem uma miúda! E eu perguntei-lhe, andas metido na cama com miúdas?! Respondeu-me que para ter sexo com quem quisesse não precisava de ir para a cama, bastava-lhe um vão de escada.
E ela, que é médica, que estudou ciência, fisiologia, as emoções... atenção, não sou eu a falar, que me baseio só no que ouço dizer, e penso, e intuo; que acredito no invisível e incognoscível; foi ela, que é médica, disse-me, Isabela, convença-se, os nossos homens não prestam. Foi ela: os nossos homens não prestam. É médica. Estudou ciência. Fisiologia. Hormonas. E reforçou-me a dosagem do antidepressivo.

quarta-feira, março 12, 2008

Monólogo da solteirona

Cenário: cozinha.
Eu, entrando de pijama, acendendo a luz, e dirigindo-me à máquina de lavar roupa que está a funcionar no programa 4, a 40º, portanto mais económico:

- Então, como vamos de lavagens?
(Silêncio cortado pelo barulho da centrifugação.)
- Muito bem. Assim é que é. Quero essa roupa toda lavadinha.

Isto é um exemplo da conversa-tipo que gostava de manter com um candidato a namorado.

Sobre monstros à nossa volta

Algumas pessoas resguardam-se do medo do escuro usando uma lanterna. Tenho algumas ressalvas a opor a este método. Se o medo do escuro se justifica, e nele existe uma ameaça grave, a lanterna será útil? Se não havia perigo, foi inútil. Se havia perigo, e fomos capazes de nos salvar, então terá sido útil. Mas se a lanterna não servir a não ser para conhecer de frente o rosto infernal do perigo que nos liquidará, com lanterna ou sem ela, sinceramente, não será melhor entrar no túnel completamente às escuras e, sei lá, aguardar pela intervenção divina, ou pelos segredos guardados do destino de cada um.

Inspirado pelo visionamento de Alien I, II, III (o IV está esgotado).

terça-feira, março 11, 2008

"Um desejo absurdo de sofrer"

Enquanto saboreio um talharim cozinhado no meu tacho, penso que gostaria de ser italiana para sofrer imenso de todas as vezes que tivesse de comer fora da pátria, e poder dizer, "não, não é massa, é pasta", e "esta pasta está insuportavelmente cozida", e "o molho de tomate não está suficientemente natural", bem como outras afirmações gastronómicas igualmente temperadas.


segunda-feira, março 10, 2008

O carácter relativo da putrefacção

Está um vento de loucos e o passeio das meninas teve de ser muito curto.
A Morena abocanhou uma massa orgânica castanha e espalmada, e manteve-se muito ciosa dela. Não tentei arrancar-lha da boca, pelo que a trouxe para cima.
Dói-me tudo, enquanto na cozinha se delicia às escondidas com o pitéu. Pode ser uma posta de peixe-espada putrefacta ou uma rata dos canos atropelada. Prefiro que seja uma rata dos canos, só por causa do nauseabundo cheiro a peixe que me há-de ficar no tapete.

domingo, março 09, 2008

Linguagens seculares e blogues

As linguagens seculares estão em declínio. Penso que o fenómeno reflecte, inapelavelmente, o tempo pouco rigoroso que atravessamos e atravessaremos. As linguagens seculares carregam o peso da erudição, de um discurso nem sempre fácil, reclamando concentração, e os tempos são outros: o leitor procura, na literatura, como no resto, o fácil e o rápido, conclusão a que chego sem censura: também estou cansada de certos discursos seculares, os quais, frequentemente, pouco me dizem. Os blogues têm sabido responder a esta procura, com texto curto, inteligente e satírico, cuja leitura não exige acurada atenção. Por outro lado, usando as linguagens não textuais, como a "caderneta de cromos", ou seja o fotoblogue, e a praga do You Tube. O You Tube fala pelo bloguista. Exige-lhe menos trabalho, e satisfaz por igual o leitor, confrontando-o com informação nova e inesperada. A questão da autoria é alheia ao leitor do blogue. Não lhe interessa quem produziu o que lê ou vê, mas a emoção produzida.

Este é o estado das linguagens seculares, e é assim porque o mundo mudou, nós mudámos, a cultura mudou. Deseja-se interacção, imediatismo e intensidade. A ficção tem dificuldade em superar a intensidade da vida real. O carácter excessivo da vida real colide com o pudor da ficção. Como ficcionar a realidade sem a tornar inverosímil, sem a transformar numa novela das 7? A ficção perdeu pathos. A grande literatura perdeu pathos. Os leitores emocionam-se com o big brother, por excelência a novela da vida real, e é nesse aspecto que o blogue de quotidiano, diarístico, confessional, entra, e funciona. O blogue torna-se uma espécie de big brother que o autor manipula a gosto, seleccionando as imagens do seu real que quer passar. E passando-as, escolhe a música de fundo com que pretende que sejam visionadas. A vantagem do blogue no qual se insere O Mundo Perfeito, e o seu sucesso, está neste equilíbrio inconfessado, nunca verdadeiramente declarado, entre o real e o ficcional. Por vezes não interessa nada ao leitor que aquele poste seja a realidade. Por vezes, só consegue lê-lo como autobiografia em estado puro. Para mim, enquanto bloguista, tanto faz. O texto postado é para o leitor aquilo que o leitor precisar de ler nele. Nisto, o blogue revela uma plasticidade insuperável, e é um meio de comunicação absolutamente surpreendente.

A actual tendência para a uma literatura rápida, curta, confessional, regista visível crescimento a nível editorial. Não me lembro de as livrarias exibirem tantas novidades editoriais na área do memorialismo, do texto biográfico e autobiográfico bem como irónico, auto-irónico. Os leitores procuram a confissão, o documento: mais uma vez, o pathos da vida real que tão bem serve o blogue-diário.
N' O Mundo Perfeito, por exemplo, os leitores preferem as aventuras pseudo-verídicas da Isabela, operária suburbana, solteirona, com excesso de peso, uma mãe, duas cadelas, que trabalha numa fábrica de parafusos, e evidencia uma certa má relação com os homens e o sexo. A Isabela tem um passado de vivências exóticas e intensas, sonha um futuro qualquer que há-de vir, e narra as aventuras da sua vida solitária e social, os amores e desamores, traumas, medos, caprichos, incoerências, revelando uma humanidade tão chã quanto nobre, com a qual o leitor vulgar se pode identificar. "A Isabela é perfeita, mas a Isabela não é perfeita. A Isabela é como eu ou a Isabela é tudo o que desprezo. Amo-a. Odeio-a." Escreva a Isabela bloguista o que escrever, o que até poderá ser a fórmula química da vacina contra a sida, e os leitores não recusarão ler e comentar, mas o que vende, o que aqui se procura, é a personalidade amorosa, mas brutal, contraditória, radical, teimosa, idealista, bastante romântica e vagamente fora de moda e contracultura da Isabela, que se pode amar e odiar livremente, a quem podemos deixar declarações de amor ou insultos, coisa que não podemos fazer relativamente à Clara Ferreira Alves ou outras "personagens" pelas quais sentimos igual paixão. As linguagens seculares pouco entram neste insuperável trânsito de pathos. Desprezam o confessionalismo, olham-no tão de lado quanto possível, mesmo que se declare contaminado.

Isto seria o que eventualmente teria dito sobre o tema "O modo como as linguagens seculares (que aprendemos sem ter em conta a rede) se moldam, hoje em dia, à rede e mais concretamente aos blogues", caso esta conversa tivesse ocorrido na Casa Fernando Pessoa, no passado dia 6. Como não aconteceu, deixo aqui a minha participação. Para a próxima, por favor, convidem-me a participar via net, e assim posso vir logo para casa vestir o pijama e meter-me debaixo do aquecedor enquanto vejo o telejornal.



Até tinha feito este esquema das ideias principais, à hora do almoço. Usei-o agora para escrever este texto.

terça-feira, março 04, 2008

Os altos e baixos do Poder

Montagem pedida emprestada ao Kaos in the Garden (ele ainda não autorizou o empréstimo...)

A luta dos professores pelo direito a uma avaliação justa e digna, tal como a que devem aos seus alunos, remete-me para uma reflexão que tem a ver com os altos e baixos do Poder, ou seja, o poder do Poder, questão que hei-de moer enquanto não puder matar.

As reivindicações dos professores relativamente às alterações do sistema educativo, que criaram duas classes diferentes de docentes-colegas iguais, excepto em tempo de serviço prestado, são hoje rigorosamente as mesmas de há ano e meio atrás. Nessa altura preparava-se a aplicação do sistema de avaliação de que agora se fala. A diferença é que há um ano atrás, para a opinião pública, os professores eram uma classe preguiçosa e cheia de privilégios. Foi essa a imagem que o poder político, encabeçado pela sombria ministra, promoveu, entre outros através de publicidade que comprou na Imprensa diária, e a que chamou esclarecimento ao público. Pagou, com o dinheiro dos contribuintes, a criação de uma má imagem da classe docente, o que levaria a uma perda de poder dos professores, logo, a uma quebra na sua indesejável força reivindicativa. Tem sido uma das estratégias, sujas, deste Governo.

A mesma Imprensa que deu páginas de opinião anti-professores ao Governo, e divulgou com gáudio a mensagem do Poder, acha, agora, que, se calhar, este sistema de avaliação... é complicado demais, parece a rede do metro de Londres, os prazos são inviáveis...
Manuel Villaverde Cabral afirmou, ontem, no Prós e Contras, que os professores se tornaram uma classe diabolizada pelo poder político. Marcelo Rebelo de Sousa, Domingo passado, declarou que se tinha sentido incomodado com o enxovalho de que tinha sido alvo a ministra no anterior programa de Judite de Sousa, mas que a governante tinha colhido o que semeara. Que a revolta, a tremenda raiva dos professores era consequência de uma desautorização do seu trabalho, do seu estatuto e da sua honra, da qual ela tinha sido a principal agente. Que o desrespeito da ministra pelos professores se tinha reflectido num desrespeito por ela. Ora, o recente volte-face favorável aos professores, e toda a discussão sobre o novo sistema de avaliação dos docentes aprovado pela maioria parlamentar, agora de execução obrigatória, só se tornou possível porque o governo perdeu, nas recentes sondagens, sem apelo nem agravo, a maioria absoluta que já tinha perdido na rua, logo, perdeu poder.

Os professores foram colocados na mó de baixo enquanto o Governo esteve na mó de cima; agora, que Sócrates e pandilha se têm esforçado por cavar a sua cova bem funda, as estruturas pensantes, e satélites do poder, devolvem aos professores a sua voz. E nisso, a honra perdida.
O poder tem os seus seguidistas, que barato o abandonam por poderes mais poderosos. A ver quais serão estes, por agora. O poder vai e vem. Tira e devolve. Embora seja interessante observar estes fenómenos,
considero que há algo de perverso para os professores no facto de a sua luta estar directamente relacionada com as vitórias e derrotas do Governo. É perverso que a desejável mas improvável saída da ministra da avaliação, implique uma derrota política e moral que o Governo não se pode dar ao luxo de admitir.

Mas termos chegado a um ponto em que os últimos cartuchos de crédito de um Governo dependem, tão só, da substituição da sua ministra da educação, não lhe augura grande saúde. E que nenhuma paz se conceda à sua alma! Deixem-no à merecida voragem das aves de rapina suas iguais. A ascensão e a queda sabem melhor em grande!
Entretanto, os professores preparam uma manifestação histórica para o próximo fim-de-semana, e mal posso esperar pelos episódios que se seguem.

segunda-feira, março 03, 2008

Não sei quê das linguagens seculares

Vou participar nesta conversa sobre blogues, na próxima quinta-feira, na Casa Fernando Pessoa, onde nunca entrei por medo de partir alguma coisa: os óculos do poeta, as teclas da máquina de escrever.
Agradeço as opiniões de leitoras e leitores que, na caixa de comentários, queiram ajudar-me a pensar sobre o tema em questão. Se só quiserem ouvir-me e conhecer-me, bem como aos restantes bloguistas, esses realmente famosos, não esqueçam que é na quinta, pelas 18h30, mais coisa menos coisa, altura em que Dadinho Pit, ai, caraças, que não posso, desculpem!, Eduardo Pitta, fará a apresentação do próximo livro de Luís Carmelo sobre a blogosfera. Se me estiver a enganar, alguém há-de vir corrigir-me.

Os selvagens

Enquanto vigio o passeio das cadelas, observo os miúdos da escola do meu bairro, postando-me do lado de fora do gradeamento. Os putos saem do edifício gritando, e permanecem chiando, berrando, urrando ao longo da meia hora de intervalo, sem razão aparente. Espalham-se pelo pátio e interagem uns com os outros gritando. Não falam, gritam. Gritam muito, ao mesmo tempo, em diferentes tons, sem combinação. Uma coisa medonha.
Penso que também nos fazia bem sermos autorizados a meia horinha diária de gritaria sem censura, sem desconfianças de loucura. Cada um para seu lado, ou em uníssono, criativa ou tradicionalmente. A ideia agrada-me excessivamente. E seria um grande incremento para a indústria dos tampões para ouvidos.

domingo, março 02, 2008

Canibal

Foto: Tomatello

Comer os lábios húmidos de um rapaz que passa por nós, que conhecemos, não sei se alguém ainda se lembra. Quando tinha 15 anos masturbava-me artesanalmente, sempre que podia, por amor aos lábios do Pedro, e pensava Pedro, Pedro, no momento em que me dividia entre o meu corpo e as endorfinas que o transcendem. O Pedro tinha 18 anos, lábios grossos, escuros, húmidos, os quais eu desejava lambuzar e morder e comer, mas estava-me completamente proibido. A namorada chamava-se Mena, tinha um carro que o pai lhe dera pelos anos, era rica, e tinha saído da escola porque não tinha cabeça para os estudos. Ninguém sabia muito bem para que é que ela tinha cabeça, mas era visível que abusava de umas mamas deliciosamente leiteiras, e dum cabelo claro a condizer com uns olhos do Minho; estas seriam, não quero ser má, nem nada, as características mais salientes do seu talento intelectual. O Pedro e a Mena namoravam e passeavam muito de carro, ele adorava-a e eu odiava-a proporcionalmente.
As carnes lentas e leitosas da Mena não obstaram a que, poucos anos mais tarde, o Pedro fosse apanhado pelo pai, num sofá da empresa, com um tal Rui, a fazer não sei quê de que não se falou muito, e a coisa avançou. Acho que casou e teve uma filha, que já deve ter idade para ser minha mãe.
Ontem, na bicha da ponte, apanhei um Pedro no banco de trás do carro que avançava paralelamente, noutra faixa, metro a metro. O rapaz fumava com o braço todo estendido para fora da janela, de cigarro entre os dedos. Tinha as mãos tenras como patinhas de animal que ainda não se formou. Umas mãos lisas, perfeitíssimas, e secas; apetecia trincá-las. E os lábios húmidos e luxuriosos. Um perfeito Pedro. Todo ele era um sólido exemplo carnal de luxúria não ostensiva. Muito jovem, mas homem, o seu corpo não podia conter a força do desejo nem da frescura que o atravessavam. Desejei comê-lo, porque invejei toda essa juventude que rescendia. Era sexual, apenas na medida em que o sexo atravessa, inteiro, o incauto impulso de desejo. Era sexual, mas não havia sexo. Desejei incorporar em mim a humidade lisa da sua ignorante juventude. Desejar trincá-lo, enformou a busca de um prazer indefinido que era, na sua essência, canibal. O prazer consistia em apoderar-me das características da sua juventude em estado tão puro. As minhas mãos seriam as suas mãos. O meu coração, o seu. E claro, possuindo-o, poderia recomeçar outra escrita, sobre tabula rasa.

sábado, março 01, 2008

Tudo o que há para saber sobre roubo de automóveis de alta cilindrada


Eu sei lá se devo sentir-me ofendida por não pertencer à elite com direito a ser vítima de car jacking! Rejeitando-me sem apelo, os assaltantes estão a dizer-me, "oh, filha, não vales um carapau seco; se queres que a gente se digne considerar-te na nossa lista, livra-te desse Opel Corsa cheio de riscos e compra um topo de gama cujo abafanço valha a pena".
Antigamente, toda a gente tinha direito a que lhe roubassem a carripana, e qualquer marca servia. Havia uns ferros amarelos que metíamos por dentro a bloquear o volante e a embraiagem do Renault. Hoje, para se ser roubado, é preciso, primeiro, uma pessoa endividar-se em empréstimos bancários de valor igual ao do salário, comprar um Mercedes não sei quê, e, logo a seguir, começar a fazer biscates que rendam o suficiente para pagar o carro novo e, já agora, comer; ora, um dos biscates rentáveis será fazer car jacking. Isto, sinceramente, é o mesmo que vender droga para consumir droga.
Quando ouço falar em roubo de carros de alta cilindrada, ocorro-me logo querer saber quem os compra. Estão encomendados? É trabalho feito em free lance? Se estão encomendados, trata-se de pessoas que querem possui-los por quantias menores, suponho, e que pertencem ao mesmo mundo cultural dos assaltantes. O carro já alterado não poderá iludir o facto de ser em segunda mão, e o tipo de transacção realizada, mesmo que no estrangeiro, deverá levantar algumas suspeitas. Portanto, é bastante provável que quem compra um veículo nesta situação, mesmo que roubado em regime de free lance, faça uma ideia do que está a comprar. Quem alinha nestes esquemas de criminalidade, fá-lo porque é importante ter um automóvel caro, mesmo que tenha de se ficar a dever no crédito Jumbo. A bomba dá status. E o status tem sido moeda de troca ao longo dos tempos; com ele se compra confiança, integração, sexo, bajulação, e todas as consequências que daí se tiram.
Em última análise, os culpados do roubo de carros de alta cilindrada são os seus possuidores. Responderam ao estímulo de possuir uma bomba de que muito provavelmente não precisam, só porque sim, e encontram-se a reproduzir o mesmo estímulo, em burros de igual quilate. Quem não precisa de transportar carga e não pode circular a mais de 120 quilómetros por hora, precisa de topos de gama para quê? A mim não me passa pela cabeça passar do Fiat utilitário. Se hoje me oferecessem o crème de la crème dos automóveis, empenhava-o amanhã, e dirigia-me ao concessionário Opel desta praça para trocar o meu velhinho por um novinho com direcção assistida. O restante gastava-o em bacalhau com natas e tratamentos à celulite, por exemplo.

Nota: acabei de ler que o destino de uma parte dos automóveis roubados em car jacking é servirem para um outro tipo de assaltos, no qual se exige que um carro vá dos zero aos 240 quilómetros/hora em meia fracção de segundo. Ora, isso já é motivo plausível para se precisar de um automóvel de alta cilindrada.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...