quarta-feira, abril 30, 2008

O resto acabou

Foto: Count Olympe Aguado, 1855, França


Não havia nada a dizer, o cão estava morto. Dormia no palheiro, e era eu que lhe abria a porta de manhã, e a fechava à noite, mas naquele dia não; estava morto. Tinha-lhe feito a cama com trapos numa velha caixa de fruta. Aí dormia, há cerca de um ano, perto do lume, mas não demasiado, por causa do fumo, das labaredas.
As noites eram frias de metal, de um frio que as noites nunca tinham tido, porque eram sós e cortavam, e estávamos perdidos, eu e ele, e desgarrados um do outro por vontade alheia. Ele, um cão, um reles cão preto; eu, uma menina com o coração asa-de-corvo, um negro-azul-esverdeado. Era eu.
No dia anterior o cão andara moribundo: imóvel, mole, espumando da boca, vomitando verde e negro. Quis levá-lo ao veterinário, mas a Júlia disse que não, que talvez no dia seguinte. No dia seguinte o animal estaria curado, não haveria precisão de médicos nem gastação de dinheiro, porque carne de cão curava-se sozinha.
E eu esperei pelo dia seguinte, que havia de ser o dia em que o cão estava morto. Acordei, vesti-me, e corri em direcção ao palheiro. Parei junto à caixa: que corpo tão despovoado, tão longínquo. Olhei-o de cima. Chamei-o baixo. Mas percebi. Estava morto. Tinha voado para mim durante a noite, sobrevoara-me, e seguira para o Norte de África em busca de um lugar morno e sem venenos, de preferência. Enrolado sobre si como uma serpente, mas com os membros esticados. Era uma figura rígida e despenteada. Um anel de vida entregue à morte. Devia ter morrido ao princípio da noite, quando o aninhei na cama e me fui embora, muito lenta, com tanto medo de sair, porque tinha tanto medo de voltar.
Foi então que me dobrei sobre a caixa, peguei nele e veio inteiro. Não lhe descaiu uma pata nem uma orelha nem a cauda. O pêlo frio, o focinho, as patas geladas. Apertei-o entre os braços, contra o meu peito, e não sei se chorei. Não tinha casa dentro da qual chorar, e já não sabia como se fazia. Arranjei uma caixote de cartão, e coloquei-o dentro. O meu tio disse-me que não era preciso vedá-lo com fita-cola nem forrá-lo, e confiei, por isso, quando a primeira pá de chão lhe caiu em cima, ouvi distintamente o peso da terra fértil e húmida sob a nogueira da fazenda dobrar as abas da caixa de cartão, e cair sobre o seu corpo duro. Esse barulho da terra a tocar no seu corpo incomodou-me durante muitos anos, mas mais tarde tornei-me existencialista, e achei bonita a ideia de que o seu corpo envenenado pudesse ganhar raízes com reflexos púrpura, esverdeados dentro da caixa.
Mais tarde, o meu tio abateu a nogueira para ali plantar um batatal. Eu já estava noutro lugar. Devem ter comido o meu cão envenenado acompanhado com bacalhau, regado a bom azeite, e deve ter-lhes feito bom proveito, porque quando a Júlia morreu de cancro, uns anos depois, eu não me admirei.

terça-feira, abril 29, 2008

Autobiografia

Foto: Pejotek

Não me venham com coisas sobre ser discreto e resguardar a esfera privada e manter as aparências e não dar a entender, como se cada livro que escolhemos, cada filme, cada poema não tivesse o infinito poder de nos conotar a um pensamento, um passado, uma memória, uma ideologia. Como é que cada um de vós pretende passar incólume por entre as largas colunas do templo da verdade, se as palavras que diz, a forma como as diz, os prende a um lugar, um tempo, um quotidiano, uma classe? Ninguém escreve nada autobiográfico! Mil cuidados. São apenas citações, ideias alheias. Como se as citações, as ideias alheias que recolhemos no nosso caderno não fossem o resultado das nossas necessidades e identificações. Como se não gritassem por nós o que não queremos gritar porque não temos coragem de arrancar o coração e mostrá-lo na mão, olhem, está aqui, aproveitem, façam o que quiserem, a mim já não serve.

segunda-feira, abril 28, 2008

Não me faças sofrer

Foto de Herodote Christophe, La gironde


Li numa revistazeca de fim-de-semana que para mudarmos de vida temos de abandonar a zona de conforto na qual nos instalámos, e arriscar. Sentirmo-nos incómodos.
Mas, oh meu amigo, vamos lá ver, eu não me instalei; eu não tinha para onde ir, e fui ficando. Não foi uma zona de conforto. Foi uma zona. E tentei que nem uma desgarrada largá-la. Tenho tentado que nem uma enterrada viva. Sair. Quero sair da zona e nunca mais voltar. Respirar fora. Arrancá-la de mim como se arranca a pele a um coelho acabado de socar, como se degola uma codorniz. Só isso. Sair. Mudar. Tirar. Arrancar. Degolar. Matar. Eu quero dar cabo disto, e ser outra, dar cabo disto e ser outra, outra.

Não me importo de... tratar da saúde ao mecânico

Paulo Granjo do Antropocoiso, incluiu-me na corrente do «Não me importo…» Não sou muito fiel a correntes, e peço desculpa aos vários leitores que me desafiaram, e aos quais não correspondi, porque acabei por esquecer o assunto. As correntes servem para os bloguistas interagirem, darem a conhecer-se, e, no meu caso, não se justifica, porque já sou por natureza uma pessoa muito dada e excessivamente cognoscível.

Tenho que indicar seis coisas de que não me importe. São as seguintes:

1. Não me importo de ir com as cadelas à rua quando está a chover, porque elas precisam, e quem tem filhos tem cadilhos

2. Não me importo de cuidar da minha mãe, apesar de estar chata, porque percebo que envelheceu muito e se tornou dependente, e custa-me pensar que há velhos que foram tudo para todos, e que hoje não têm ninguém que lhes dê uma palavra, um abraço.

3. Não me importo de pagar uma renda de casa cara, porque preciso de um sítio bonito e arejado onde possa viver.

4. Não me importo de ser uma desenraizada, contracorrente, excêntrica e persona non grata a vários sistemas e entidades, embora isso me traga dissabores ao nível da socialização, porque não poderia ter-me transformado noutra coisa.

5. Não me importo de trabalhar, embora a maior parte dos dias seja mesmo muito difícil, porque o trabalho dá-me sentido, obrigando-me a sair de casa e de mim.

6. Não me importo de me ter posto em bicos de pés com o mecânico, e de lhe ter dito que a obrigação dele é arranjar-me o carro, e descobrir por onde é que perde água, porque pago-lhe para isso, e não dar-me lições de moral sobre quantas vezes devo olhar para o manómetro da temperatura numa viagem de quinze quilómetros. Não me importo nada, nada, nada de lhe ter mostrado uma cara muito feia e de lhe ter dito que não tenho tempo a perder com conversas, ponto final, quero isto a funcionar, e de ter pensado, se julgas que não tenho tomates para ti estás bem arranjado, grande incompetente que ainda há um mês cá tiveste o carro. Filho-da-mãe, que estou-te com uma sede...

Tenho de passar a corrente a cinco bloguistas: Francisco Carvalho, JPN, José Bandeira, Cristina GS, Mónica em Campanhã e Inominável.

Regras:

- Dizer 6 coisas que não se importe de fazer ou de ter.
- Colocar o link da pessoa que o "mimou".
- Colocar as regras no blog.
- Desafiar 6 pessoas, deixando um comentário nos seus blogs.

domingo, abril 27, 2008

Da bofetada ao direito a sujar-se

Acho graça ao anúncio do Skip sobre o direito das crianças a sujarem-se, porque me lembro das tareias que eu e os outros miúdos levávamos quando chegávamos a casa cheios de terra nas batas e calções. Hoje, as crianças têm o direito a sujarem-se, e, sejamos objectivos, a tudo. Porque são inocentes, e não percebem, e, sobretudo, porque existem boas máquinas de lavar e detergentes branqueadores, e detergentes para cores... Ora, a minha mãe só teve máquina de lavar em 1973, por isso, quando eu era pequena, ela malhava-me exactamente porque eu era inocente, e não percebia nada, e convinha que começasse a perceber rapidamente, e a bofetada tinha o efeito de estimular muito a lembrança.

Os músculos da face

Fotograma de 88 Minutos

Ultimamente desisti de ir ao cinema com o objectivo de ver obras-primas. Para isso vou à Cinemateca, compro um dvd, tento apanhar qualquer coisa no TCM. Mas acontece-me estar em casa às nove da noite com a cabeça em água, uma grande neura, e decidir que preciso de sair por duas horas, sendo que uma boa opção é ir ao cinema mais próximo; pode ser que me ria um bocado, pode ser que o filme dê para soltar uma lágrima... e os 5,40 euros lá se pagam. Contudo, é raro.

Na sexta-feira calhou-me o 88 Minutos, filme que estava a começar naquele momento, e que apresentava Al Pacino como protagonista. Bem, Al Pacino é o Al Pacino do Scarface, e uma pessoa pensa, mesmo que o filme não valha um carapau seco, sempre é o Al Pacino.

88 Minutos é, juntamente com os restantes 13 filmes que se encontram em exibição nas salas Lusomundo do Almada Fórum, inclassificável, inqualificável. Os críticos de cinema devem ver-se em apuros para dizer duas palavras sobre este lixo. A maior parte do cinema americano, mas não só, é feito para alimentar burros, mantendo-os burros. Não há nada sobre que pensar, nenhuma novidade estética, ideológica. Nada de criativo. Temos os bons e os maus. Por vezes os maus são bons, e os bons maus, e percebe-se logo. Os maus morrem no fim, e os bons ficam vivos para continuar a caçá-los, justiceiros. Em alguns casos, os maus assassinam os bons sem piedade, e ficam cá para nos aterrorizar muito, como se a gente já não tivesse o Governo do Sócrates e a ministra da Educação. Lixo, lixo, lixo, milhões de euros de lixo que a cabeça dos jovens sentados ao meu lado consome como arte legítima.

E quanto a Al Pacino, a sua badalada técnica de representação influenciada pelo Actor's Studio, está hoje completamente ultrapassada pelo método Botox. Al Pacino não passou a representar em underacting, não é serenidade, os músculos da face é que não mexem mais do que aquilo.


quinta-feira, abril 24, 2008

Digam-me o que sabem e o que têm ouvido

Caras leitoras e leitores,

eis uma pergunta séria e importante, para eu decidir se poupo uns tostões:

1) O que me dizem da qualidade do serviço Meo, no que respeita a televisão por cabo e, sobretudo, internet - está sempre a ir abaixo, a ligação de 8 não-sei-quê é lenta?

Respostas na caixa de comentários, como é costume, por favor, e muito obrigada.

quarta-feira, abril 23, 2008

O mundo perdido

Abril, por Dhao Ge, 2002

O mundo está a ser atravessado por triliões de quilómetros de estradas transitáveis e intransitáveis, e triliões de quilómetros de chão livre, sem estradas ou caminhos, porque o mundo é grande como um planeta selvagem, mas ninguém está plantado no mundo. Estão todos a trabalhar em fábricas de embalagens de plástico e escritórios de import-export, enquanto o mundo floresce e murcha, floresce e murcha.

terça-feira, abril 22, 2008

As minhas amigas

Tiveram maridos e filhos, e eu invejo-lhes a riqueza e a normalidade que me foram negadas (que me neguei). Têm tudo e ainda se queixam.
Permaneço solteira e sem prisões, e elas invejam-me a autonomia e liberdade que mantive (a que tive de me adaptar). Acham-me cool e dizem que não tenho de que me queixar.

segunda-feira, abril 21, 2008

Máximas e sentenças da minha prima afastada I

Sobre a extrema importância da poesia para a salvação do mundo:

Coitadinha da Morena, anda aqui no mundo de um lado para o outro, e nem sabe que tu lhe escreves poemas tão bonitos.

Máximas e sentenças da minha prima afastada II

Sobre a auto-suficiência do meu celibato e certas queixas de solidão:

Tu não precisas de homem nenhum, já tens a tua mãe e as cadelas, e chegam-te bem.


sexta-feira, abril 18, 2008

O corpo do meu pai era bom

Foto: Monika Wiechowska, Portrait of my parents


O meu corpo foi uma guerra, era uma guerra, comprou todas as guerras. O meu corpo lutava contra si, corpo-a-corpo, mas o do meu pai era grande, pacífico e de carne. O corpo do meu pai era dele e valia a pena. O seu corpo era o do outro, que estava em mim, mas sem guerra. Redondo, macio, arranhado, o corpo do meu pai dava-se ao riso, às cócegas, ao meu corpo.
O meu pai tinha os pés rosados, de uma pele muito branca e quebradiça; escamava; dizia que era a filária, e que não lhe puxasse as peles. A minha mãe não me deixava andar descalça por causa da filária, que dava muita comichão, e seria preciso queimar a pele, com gelo, até ao osso. O meu pai tinha, nos pés, umas escamas como massa folhada, que desejaria puxar e comer. A carne do meu pai era doce. A pele do meu pai era morna e morena.
Os seus pés eram bem acabados, cheios, com os dedos desenhados ao pormenor, como uma escultura do Renascimento, e as unhas redondinhas, transparentes, brilhantes. À hora da sesta de Domingo, quando eles se deitavam, e eu não tinha que fazer, a não ser brincar com o Piloto, que a minha tia envenenou em Alcobaça, anos mais tarde, e com os gatos, que ficaram em Lourenço Marques, desculpem, no Maputo, e que fugiram atrás das gatas, e foram, de certeza, apanhados, mortos e comidos como coelhos pela pretalhada esfomeada, disse a minha mãe, e que a pretalhada havia de amargar o que tinha feito aos brancos; nessas tardes eu ficava a brincar com os pés do meu pai, atravessada na cama.
A minha tia envenenou-me o Piloto em Abril de 1978, e acusou os vizinhos. Foi nas férias da Páscoa. Embalei o meu cão morto. Nunca tinha tido aninhado um cadáver contra o peito. Tinha os olhos abertos, vidrados, as patas traseiras contorciam-se rasando o focinho, duro, gelado. Segurei-o nos braços, e apertei-o, e chorei sobre o seu corpo inocente a minha culpa, dor, perda, impotência e abandono. Enterrei-o por debaixo da nogueira que existia na fazenda. Mais tarde abateram a nogueira. Os meus tios sempre me olharam com a mesma emoção com que se trata um electrodoméstico. O que era um cão? E que importância tinha o cão da retornada? Que a retornada, que roubara aos pretos, se tinha dado ao luxo de trazer para a Metrópole, quer dizer, para Portugal?! Se para retornados não havia lugar, para cães de retornados...
O meu pai apertava os pés um contra o outro, pressionava-os, fazia força, e ria-se. Eu não conseguiria separá-los, brincar como queria. Os pés do meu pai cheiravam a pêlo de cão. Era um cheiro seco e doce. Os cães cheiram a terra e a pão. Cheiravam a pão, sim, a terra e a pão, e eu queria tanto fazer-lhes cócegas, e morder-lhes, e ele ria-se, e dizia, larga-me rapariga, e eu ria-me, e fazia pior, e a minha mãe dizia, larga o teu pai, rapariga, e eu ignorava-a, tem juízo rapariga, vai para a tua cama rapariga.
O corpo da minha mãe era geométrico e seco. Não tinha autorização para lhe tocar. No corpo da minha mãe apenas me interessava o seu peito grande e mole. Que delícia haveria de ser poder mexer-lhe, mamar, chupar por todo o lado. Apalpar com força. Sacudia-me, está quieta. Tocar na minha mãe era uma atitude pouco própria. O corpo do meu pai, pelo contrário, sólido, redondo, disponível, era uma colina cheia de arbustos e vegetação à qual podia trepar, e sentir, cheirar, beliscar, morder. Puxava-lhe os pêlos, as unhas. A barriga das pernas do meu pai tinha uma curva tão harmoniosa, tão ondulada, e era tão cheia. Simulava que as mordia com muita força, e ele simulava gritar, ai, ai, está quieta rapariga. Que belas pernas tinha o meu pai. Brancas. Nem demasiado musculadas nem gordas, embora fosse gordo. Compridas, torneadas. Os calções assentavam-lhe a matar. Eram umas pernas quase femininas. Atiçava-me, provocador, sorrindo cheio da mesma falta de modéstia que tão bem conheço, querias ter umas pernas tão jeitosinhas como as minhas, Isabela?! Querias, não querias?! As minhas vão à amostra a umas senhoras. Dizia isto muito vez, quando estava bem vestido, vou à amostra a umas senhoras. E eu pensava que brincava. As pernas do meu pai, que raiva. Seguia-se uma competição de beleza de pernas, em que cada um mostrava os seus maiores atractivos e em diversas posições.

A barriga do meu pai descaía quando se deitava de lado. Que solenidade. Que importância, a de uma barriga assim dilatada. Tinha-lhe respeito. Ele protegia-a com os braços, e aos genitais, se bem que os últimos não me causassem interesse. Quando se deitava de lado, se vestia calções largos e curtos, era possível vislumbrar nesses lugares certas sombras medonhas. Desviava o olhar por vergonha e medo e nojo. As partes íntimas do meu pai eram uma mancha escura e mole. Que contacto visual tão desagradável.
Lembro-me do roçar da sua cara mal barbeada na minha cara, nos meus lábios. Vai fazer a barba. Já fiz a barba, agora vê lá. Querias ter uma pela tão maciazinha, não querias, Isabela?! Querias! Era macia. Lembro-me do cheiro a suor do seu pescoço. Suor de homem. Denso. Da massa enorme que era o seu corpo, tão segura, tão certa. Sentar-me ao seu lado, ao seu colo, às suas cavalitas. O corpo do meu pai era um trono. O corpo do meu pai era bom.

O que dele restou encontra-se arrumado numa gaveta da 8ª secção do cemitério do Feijó. Quanto ao resto que lhe pertencia, não consegui arrumá-lo em lugar algum. Não cabia. Não há-de caber.


quinta-feira, abril 17, 2008

A minha nova gabardina verde

De manhã, chovia, e chove agora. A chuva foi uma bela oportunidade meteorológica para estrear uma linda gabardina para Primavera, verde vivo, que comprei numa promoção recente.
Saí de casa toda airosa, porque o verde me assenta que nem uma folha, e recebi sorrisos, acenos de cabeça, três pessoas correram na minha direcção de braços abertos, uma delas abraçou-me com emoção, gritando. Foi estranho. Foi assustador. Não conhecia ninguém de lado nenhum, e só por volta do meio-dia tive notícia do sucesso ontem obtido por um clube de futebol nacional no campeonato. Percebi que tinha sido um mau dia para estrear a minha nova gabardina verde.

Os que me amam

Dali e Gala

O homem era um romântico. Não sei, talvez não. O que é um romântico? Todo o contacto que tomava comigo o perturbava. Se nos víamos de relance na passadeira do Almada Fórum, tremia, e não ousava voltar-se para trás; se nos encontrávamos na Feira do Livro, trocávamos palavras de circunstância, titubeava, percebia que me mentia, que os sentimentos que mantinha por mim permaneciam bem escondidos no seu sorriso social; era a sua sisudez excessiva, os olhos muito abertos, apavorados; se olhava para mim, se me descobria, tremia. Não o percebia trémulo, pelo contrário, parecia-me bem seguro, indiferente, e contudo, eu sabia, ele tremia. Lia uma palavra minha. Descobria-me a caligrafia num livro que alguém lhe emprestara. Ouvia o meu nome no corredor. No elevador parecia-lhe sentir o meu cheiro. Aquela mulher, vista por trás, tinha o meu corpo. Ao longe, pelo corte de cabelo, parecia eu. Uma mulher com dois cães... Uma mulher com uma mãe, talvez levasse a minha a passear. Um carro igual ao meu, mas com outra matrícula. Tremia. Eu era viciante. Eu era o vício. A ideia. A fantasia de mulher. De vida. O sonho. O futuro. O brilho do dia. O sol na solidão do quarto. Podia confiar: eu era o seu mais seguro nada.

quarta-feira, abril 16, 2008

Eu cá espetava-os todos contra as paredes do Ministério da Economia


Quando eu era nova havia uns mânfios que roubavam carros. Uma chatice. Roubavam-nos, levavam-nos para a loucura da noite, ouvindo Xutos, esses marados, e era sexo, e drogas, sobretudo drogas, drogas, e roubos por esticão; no dia seguinte, o Fiat Uno lá aparecia espetado contra um muro da Avenida das Descobertas, muito mazelado. Mas não compensava a assaltante nem a assaltado.
Hoje, os mânfios especializaram-se, e trabalham em bancos e têm salários de gestor. Ou administram fundações culturais e outras. Felizmente, acabaram-se esse ladrõezecos de meia-tijela, sem gosto, sem conhecimento da arte da ladroagem, do produto que vale a pena roubar. Agora temos o carjacker, individuo encapuçado e armado que vê muitos filmes de acção americanos, em vídeo ou dvd, e usa muito o comando para congelar a imagem, fazer pause, zoom, repeat, marker, etc. O carjacker pratica o carjacking, modalidade desportiva a que muito gostaria de dedicar-me, estando do lado de fora do veículo, naturalmente, isto se não tivesse que fazer à noite.
É que ainda há bocadinho estive a ver uma entrevista a um carjacker, no Canal 1, e, com toda a sinceridade, acho que fazia aquilo com mais estilo, sem medo que as mulheres se me atirassem ao capuz, e não diria, de certeza que não diria, "a seguir chamei ela".

terça-feira, abril 15, 2008

Os cobardes

A cobardia alugou uma casa sem janelas num beco escuro e sem nome. Entra por uma porta vulgar, que se perde entre outras portas, e, lá dentro, senta-se no chão, chorando largamente, a fio, sem ser vista; maldiz a vida, chora a vida, chora-se, enquanto as sobrancelhas embolorecem, e pouco a pouco, toda a pele do rosto apodrece de tristeza.
A preguiça pode salvar-se, a má-vontade, até o vício negro. A cobardia não tem salvação.

Os jardineiros

Greenhouse, Anónimo, 1910

Tinha chegado tarde ao curso. Os outros inscritos tinham já plantado muitas árvores. Um deles, pela minha idade, possuía uma palmeira em franco desenvolvimento, três abetos, mas dois deles ainda bastante atrasados. Resolvi dedicar-me às rosas do Japão, em vaso, alguns gerânios muito vermelhos e farfalhudos, os quais transplantei com as mãos bem enterradas no substrato negro: e outras plantas que poderia facilmente podia dar ou transportar. Tinha chegado tarde ao jardim, ao curso, por isso era natural que ficasse com as sobras dos outros. Por amor à hortofloricultura não poderia plantar árvores. Por isso, entre a humidade dos vasos, eu que não plantara árvores, dei abrigo às lagartixas, sapos e rãs que escolhessem esse meu pedaço de jardim. O primeiro sapo caiu do céu num aguaceiro forte de Abril. Caiu muito pequenino e ficou para sempre, mesmo quando o meu jardim secou.


Waterlily, Anónimo, 1910

segunda-feira, abril 14, 2008

Do parasita (literal)

Um ninho de carraças pretas, em desenvolvimento, numa prega da orelha direita. Uma carraça igualzinha a uma uva branca de mesa, e do mesmo tamanho, a meio do pavilhão auricular da esquerda. E dormiu toda a noite com a cabeça encostada à minha. Não há sabão suficiente para me lavar capazmente a ponta dos dois dedos. Adiante. Adiante.

No ginecologista

- Ah, mas a senhora tem um útero muito lindo, muito fechadinho.
- É, doutor, parece o cofre do Banco de Portugal, mas com os fundos rotos.

domingo, abril 13, 2008

A obra poética de Dick Hard I

WARNING

Tu, que te abandonaste ao gozo
sentindo a roçar no sexo

o húmido duma língua desejada


Tu, que fechaste os olhos em delírio
e afagaste os cabelos sedosos
dum ser que te deu prazer

Tu, que gemeste como louca
em noite de trovoada

com travo orgiástico

Tu, que sentiste na goela
o frio da lâmina

a cortar-te as veias

Tu, sim, tu

devias ter-te lembrado

antes de morrer

Os serial killers
também fazem
minete

Dick Hard (2004), De Boas Erecções está o Inferno Cheio, Lisboa, Edições Polvo

Diverte-me o pastiche: a sátira à poesia neo-romântica de quinta categoria, presente no título, em presunçoso inglês; os vulgaríssimos paralelismos anafóricos, em início de estrofe, "tu", "tu"; o vocabulário barato, em "gozo", "orgiástico", semeado ao longo dum discurso pejado de lugares-comuns, como "cabelos sedosos", "gemeste como louca" e "ser que te deu prazer".
Agrada-me o humor negro, a sátira ao acto sexual fortuito e perigoso, e o ligeiro non sense relativo ao objecto poético, que devia ter-se lembrado de qualquer coisa "antes de morrer", enquanto se abandonava ao gozo e fechava os olhos em delírio.
Um poema destes é trabalho difícil, porque é difícil conseguir escrever mal, copiando todos os estereótipos duma pseudopoética risível, e fazê-lo bem, escrevendo bem. Este é um anti-poema feito no fio da navalha.
Dick Hard está eleito poeta-culto, poeta oficial deste blogue. A partir de agora, no more ai lave ius.


A obra poética de Dick Hard II

UM BOCADO CÃO

Sei que sou

um bocado cão

de manhãzinha

Quando vou
atesoado

à casa da vizinha

Eu deito-a na mesa
com o cu de fora

o rabo bem espetado

A minha ponta acesa
ora vamos lá embora
p'ra ficar aviado

E numa luta insana
ora a viver lá dentro
ora a murchar cá fora


Eu dou-lhe uma canzana
penetro pelo centro

ao romper d'aurora

Dick Hard (2004), De Boas Erecções está o Inferno Cheio, Lisboa, Edições Polvo

sexta-feira, abril 11, 2008

As quatro avós do meu amor


A minha prima afastada telefonou-me de Roma para dizer que tinha sonhado comigo.
Tinha vindo a minha casa, e encontrara-me ocupada a tomar conta de quatro velhotas.
Perguntou-me, "Não achas que são demasiadas velhotas para tomar conta?", e eu respondi-lhe que não, que sabia perfeitamente que se fizesse aquilo, o Meu Amor Perdido voltaria para mim.
Ri-me ao telefone. Quatro velhotas. Como se já não me bastasse a minha própria, que ainda ontem lá me chamou porque o quadro disparou, estava sem luz em casa, e não sabia carregar num botão, e além disso tinha as unhas das mãos demasiado grandes e precisava que eu lhas cortasse, e talvez pusesse um nadinha de brilho.
Ri-me. As quatro avós do Meu Amor Perdido! Isso devia dar as duas avós dele, e mais as duas da mulher. Grande sentido de abnegação. Acredito que se deva fazer algum sacrifício para atingir o nirvana do amor, mas quatro avós?! E no final, cuidadas as avós, o que me diria o Meu Amor Perdido? Algo parecido com isto: "olha, querida, obrigada por teres tomado conta das minhas avós, e também das da minha legítima esposa, mas agora, desculpa lá, bem sei que é injusto, mas tem que ser, temos de nos conformar, assumir os nossos erros, no caso, os meus; agora que já estou tão habituado à minha mulher, e ela a mim, e a vida dela já ficou estragada por acção do meu medo, cobardia e desejo de normalização, e por arrasto também a minha, fico com ela, está bem?! Para ser justo, fico com ela. Olha, não te chateies, já sabes que te amarei sempre, sempre, e deixo-te com o consolo do nosso amor eterno. E hei-de sempre pensar em ti. Juro. Agora vai lá dormir com as tuas doces cadelinhas, que eu também vou ali deitar-me com a minha esposa, que me aguarda com braços macios, e que acabou de me passar o pijama a ferro, e ainda está quentinho."

quinta-feira, abril 10, 2008

O que é a felicidade?



Uma mulher casa aos 46, e vive com felicidade esse relacionamento tardio. Trata-se de um casamento pacífico, atravessado pelo companheirismo. Gostam um do outro. Têm rotinas nas quais se apoiam. Adoptam um cão, e, certo dia, correndo atrás do animal que lhe fugiu para a estrada, o marido é gravemente atropelado, sofrendo um traumatismo craniano profundo que alterará a sua percepção da realidade. A mulher fica sozinha, na casa sozinha, com o inocente cão que não consegue culpar.
Uma Vida e Três Cães
, de Abigail Thomas, oferece-nos as memórias desta mulher, jornalista, escritora, a sua relação com a doença do marido, internado numa clínica para doentes com lesões cerebrais irreversíveis, com os seus familiares, vizinhos, os cães, que vai adoptando, e que dormem todos na sua cama. Mas a obra é, antes de mais, uma simples reflexão, redigida com grande despojamento literário, sobre a natureza da felicidade, a importância dos hábitos do dia-a-dia, das coisas que nos vão dando alento, como comer gelados, fazer malha, sentir a respiração morna dos cães contra a pele do nosso braço, ver e escutar os outros. É um livro sobre a felicidade, porque é um livro sobre a aceitação da vida. Ofereceram-mo porque a autora e protagonista era uma mulher como eu, uma mulher que dorme com os cães. Voltei a questionar-me sobre a felicidade, assunto que é muito recorrente em mim, que vai e volta, mas permanece pairando sobre tudo o que penso ou escrevo. A felicidade. O que eu julgava que ela seria, aos 18 anos, e o que penso a esse respeito, agora. Ser livre, pensava eu. Ser feliz era ser livre. E o que penso hoje sobre a natureza da liberdade, sobre as múltiplas prisões que a seguram pela corrente. Li-o e fui sorrindo. Dou comigo sentada no sofá a dizer à Morena e à Micas, somos tão felizes as três, não somos?! Não respondendo, dizem-me que sim. Somos mesmo felizes as três, cum caraças! Demorei muito anos a descobrir a enorme felicidade disponível, gratuita, à solta dentro de mim. Achava que não podia existir na solidão. A felicidade está na solidão. Achei que não poderia encontrá-la dentro de casa. A felicidade está dentro de casa. Pensava que para ser feliz precisaria da viver experiências ruidosas e coloridas. Tropeço em felicidade nos passeios que vou dando através da Serra do Louro, ou quando vou à praia, a S. João da Caparica, e deixo as cadelas de bofes à boca. Não têm pedalada para mim, as gordas. Às vezes, se me meto pelo mato, apanho carraças nas pernas, e isso também é a felicidade. Não conseguia imaginar a minha vida quando tivesse 40 anos. Achava que seria uma infeliz mulher rejeitada, de meia idade, quase velha, demasiado velha. Mas agora, que tenho 45, não me sinto velha nem rejeitada nem de meia idade nem infeliz, mas viva, e cada vez mais capaz de me maravilhar, de me deixar tocar pelos elementos. Também cada vez mais capaz de responder aos outros, de destrinçar o certo do errado. Sei muito bem o que me faz bem e o que me faz mal, mas aí não incluo os rissóis nem os bolos de arroz. Não passei a ganhar mais dinheiro, nem fiz mais amigos, nem nada. Limitei-me a aceitar que esta é a minha vida, e que é boa, que tive sorte. A felicidade resulta dessa aceitação.


Abigail Thomas (2008), Uma Vida e Três Cães, Lisboa, Sextante Editora (12,60€ na FNAC)

Vida urbana

Outro comovente exemplo de felicidade seria se o carro que está lá em baixo a buzinar, em contínuo, há cinco minutos, se calasse para todo o sempre, e me deixasse trabalhar.

quarta-feira, abril 09, 2008

Companheiro de cama

Adormeci a ler. O lápis de sublinhados rolou para debaixo do meu corpo e fui sentindo o bico picar-me toda a noite. Nas costas, na barriga, nas coxas, rebolando-se comigo, quando eu me rebolava. Não tentei tirá-lo: estava a gostar de me sentir picada.

Fantasma

Disse alto, com voz forte e jovial, muito perto da minha cabeça:
- Olá!
Era um olá grande, impositivo, ao qual me seria impossível não responder.
Reconheci a sua voz, e, ainda no sono, pensei, não podes ser tu; tu já morreste. E abri os olhos.

terça-feira, abril 08, 2008

O novo aspecto

Muitos leitores me têm escrito a pedir uma foto autografada de uma das minhas cadelas ou de ambas. Sou muito renitente nisto das fotos. Faço questão de manter o maior low profile da blogosfera em língua portuguesa, rechaçando qualquer avanço sobre a minha vida privada e a das minha cadelas. Metam-se nas vossas vidas, meus senhores. Estou cansadinha de vos avisar que nada do que aqui se escreve é auto-biográfico. Enfim, vocês é que sabem. Querem andar iludidos, iludam-se.
Bem, avançando: apenas porque não pretendo dar a impressão de ser criatura pouco sociável, e apenas por isso, resolvi, no momento em que senti um premente desejo de mudança quanto ao aspecto d'O Mundo Perfeito, postar um banner com a foto da Morena. É verdade, é a minha Morena, a minha Morenita, namorados não tem, ninguém acredita, numa das viagens que recentemente fizemos ao Peru, na senda dos extraterrestres de Shirley Maclaine, os quais aí mantêm uma base, algures sob o lago Titicaca. Descobri que o Mundo Perfeito sou eu, a minha Morena, os Andes, o Lago Titicaca, meia dúzia de aliens soterrados e nem o sopro de vivalma num raio de 300 quilómetros.

O relacionamento perfeito

A minha prima afastada está zangada com o marido, porque os amigos dele são uns suínos que lhe invadem a casa, sujam, atrapalham, e não pedem licença. Discutiram. O meu amigo francês está zangado com o companheiro, que não passa de um ciumento sem remissão. Dormiu no sofá. A Jessica está piursa com o Tiago, porque, como chovia, ele, que saía mais cedo, não a esperou à porta da escola, e se gostasse dela esperava. Hoje não lhe dirigiu um olhar. A minha melhor amiga telefonou-me a dizer que o marido é um bruto e um comodista, e que nem é capaz de lhe levar o saco do lixo quando vai beber o café ao Central, depois do jantar. Vai haver fita, e de certeza que o põe a dieta. A Micas roubou-me, ainda há um nadinha, um grande pedaço de carne assada da banca da cozinha, e eu até lhe disse, se era para roubar, roubavas o mais pequeno, mas não discutimos nem nada.

segunda-feira, abril 07, 2008

A boa velha sátira pós-moderna



Denuncio um caso flagrante de discriminação masculina. Bem sei que é a primeira vez.
Temos aqui uma Adília Lopes muito legível e desenjoativa, mas como é homem chamam-lhe ordinário, devasso, esse grande taradão. Se calhar é capaz de ser, mas tarados, tarados, obra à parte.
Ultimamente, ando viciada na poesia de Dick Hard, aliás Luís Graça, meu conhecido dos tempos do DN Jovem. Encontrei, na FNAC, um livro seu de que me haviam falado nos seguintes termos: "o gajo publicou uma merda qualquer com erecções no título, umas bacoradas, o gajo está passado de todo".
O livro chama-se De Boas Erecções Está o Inferno Cheio, não é nenhuma "merda", e se o "gajo" está passado, resta-me dar graças a Deus. Deixo-vos com algumas pérolas. Não me coibirei de vos ir oferendo outras, nos próximos dias:



Pony Express
Se as paixões
não são correspondidas
a culpa pode muito bem
ser dos correios


Oh! As Mulheres Bilingues
As mulheres bilingues duplicam o prazer
da felação
as poliglotas
provocam-nos múltiplos orgasmos.


Poema Canino
Ontem vesti um par de boxers
cada um deles me comeu
um tomate
Eram vegetarianos.


Raiva
Ele saiu de casa
violou criancinhas
sodomizou velhinhas
e roubou cassetes à bófia

Partiu montras
fez cunilingus a um pinguim com frio
deu estaladas em cangurus
e saiu do zoo

Calmamente
entrou no metro sem passe
saiu no Marquês de Pombal
e foi a pé para casa

Chegou ao lar
tomou um duche
leu uma revista porno, rezou as suas orações
deitou-se e adormeceu.


Dick Hard (2004), De Boas Erecções está o Inferno Cheio, Lisboa, Edições Polvo

(O livro é baratíssimo, meia dúzia de tostões, seis euros se não me engano.Vale cada cêntimo. Um grande saravá para ti, Dick, e mantém-te Hard!)



domingo, abril 06, 2008

O meu corpo foi à guerra

Foto: Bjorn Moback


Observo o meu corpo nu ao espelho, coisa rara, já que me esforço tanto por esquecer que existe e me mantém em pé. Vou seguindo com os olhos e as mãos o rasto das cicatrizes de múltiplas operações, as manchas, porque me queimei aqui e ali, caí, ou rasguei-me ou fui atacada. O baixo-relevo de uma necrose de tecidos. As estrias na anca, nas coxas, nas mamas. Os sinais de nascimento. As marcas do meu quotidiano, hora após hora. A gordura. As borbulhas da Primavera e as de um chocolate. Um corpo miudamente tatuado pelo tempo, e, nesse aspecto, de uma grande beleza que não poderia ser captada à luz da ideologia estética que alimenta as imagens que consumimos. Seria injusto ter travado com este corpo uma guerra cruel e lenta e não ter podido guardar para sempre as marcas de tão longa batalha.

sexta-feira, abril 04, 2008

Algumas cartas que queimei




Encontrei uma carta escrita pelo meu pai à minha avó, na Metrópole, datada de 17-07-1973, Cidade Salazar, nome que a certa altura deram à Matola. Estava na caixa de fotografias, juntamente com umas que vieram de casa da minha avó. Relatava-lhe ele o meu insucesso no exame da 4ª classe.
Eu já ando há muito tempo para escrever mas a disposição tem sido pouca, 1º porque a Isabela estava muito atrasada para o exame e tive que ser eu a puxar por ela todos os dias e a todas as horas que tivesse livres. O que ele queria dizer, era que tinha sido ele a dar-me enxertos de porrada diários, depois de jantar, e que a minha capacidade de aprendizagem em questões aritméticas teimava em resistir ao seu excelente método da bofetada, até porque todo o meu corpo estava concentrado no cálculo da relação peso-velocidade da próxima bofetada e respectivo impacto. E continuava, porque isto é a Rainha das Mandrionas, mas tanto apertei com a coisa, que estraguei tudo, ela sabia, e sabe o suficiente. Mentira, não sabia a ponta dum corno em aritmética; a D. Adelaide, minha professora, chamava-me burra com b grande. Mas na altura do exame, caras novas, ela muito nervosa, muito recomendada que tinha de fazer tudo, resultado, chumbou logo no ditado. Mentira, que infâmia, como é que ele pôde escrever isto à minha avó?, por que não admitiu a verdade?, que eu nunca dei um erro, e chumbei na aritmética, senhores, na aritmética. Já não teve apelo, e por acaso era aquilo em que ela era melhor. Paciência mais um ano de sacrifício. Mais um ano de sacrifício para mim, que continuei a não conseguir aprender Matemática segundo o eficaz método da bofetada, exemplarmente levado a cabo pelo meu pai e suas incontroláveis manápulas. Eu era malhadiça.
Li esta carta com um grande sorriso. Era a voz do meu pai. As desculpas do meu pai. Pareceu-me ouvi-lo falar, naquele momento.
Lembrei-me que já nada resta das cartas que eu e os meus pais trocámos entre 1975 e 1984, fase em que estivemos separados, eles em Moçambique, trabalhando para comprar uma casa, um carro, pouca coisa, mas digna; eu cá.
Talvez possa ainda haver uma ou outra espalhada por qualquer gaveta em casa da minha mãe, ou no sótão. Perdida. Não sei. Lembro-me que por volta de 1985, 86, queimei todas as que encontrei, num acesso de raiva, numa afirmação de revolta e liberdade face ao que eles eram, representavam, e esperavam de mim. Foi um auto de fé de que não tirei qualquer benefício. Primeiro, porque as cartas também ardem mal, e tornou-se uma má experiência de fogo, fumo, sujidade e cheiro, depois, porque não obtive satisfação do acto. Não me tornei mais livre nem me pacifiquei, senão muitos anos depois. Para além disso, não confessei tê-lo feito. Não sei se me perguntaram por essas cartas, se lhes sentiram a falta. Não me lembro. Eu sinto-lhes a falta. Gostaria, hoje, de poder ler tais palavras cheias de angústia e esperança que lhes dirigi, e que me dirigiram. Quando vens?, está quase! Ao queimar esse passado, e sei que queria queimá-lo, eliminei a possibilidade de reconhecer, factualmente, episódios dessa época. Tudo o que hoje sei é uma reconstrução, um esforço de memória. E arrependo-me muito.

quarta-feira, abril 02, 2008

Da vontade


Dois miúdos de catorze anos, mais coisa menos coisa, sentados no muro da escola do meu bairro, enquanto a Morena e a Micas fazem xixi contra a jante muito cara de um carro muito caro.

Primeiro - Viste a gaja?! Tá boa!
Segundo - Eh, pá!
Primeiro (gesticulando como se sopesasse duas melancias carnudas, reboludas, uma em cada mão) - E viste o rabo da gaja, hein?! Viste aquilo?!
Segundo (emitindo uma espécie de assobio, mas com mais cuspe) - Eh, pá! Mesmo boa, boa, boa!
Primeiro - Quem é a gaja?
Segundo - Acho ké a mãe do Rúben.
Primeiro - A mãe do Ruben?!
(silêncio meditativo)
Primeiro (mais baixo, como se falasse sozinho) - Era na mesma.

Do altruísmo

Não se fazem omoletas sem ovos. Tento ser tão realista e prática quanto possível. Quando chega a Primavera, tudo o que desejo é doar o corpo inteirinho a qualquer projecto-piloto de castração química aplicada, um qualquer que requisitasse os meus préstimos, sem credenciais, era de cabeça.



terça-feira, abril 01, 2008

Quando eu casar

Botero

A vida de uma solteirona é esgotante: a depilação, as madeixas no cabelo, a pedicura e manicura, o baton, as blusas que nos caem melhor, porque a gente sabe lá quem encontra, quem passa por nós, e é preciso estar sempre relativamente apresentável. Quando me casar, juro, quando me casar, arranjo um par de filhos mimosos ao meu marido, e uma hipoteca em comum, e a esteticista perde-me o norte; acabaram-se a depilação, as madeixas, os perfumes. Vai ser assim. Eles habituam-se facilmente, e depois até gostam. Tenho cá uma inveja às casadas!

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...