quinta-feira, julho 31, 2008

Desde Janeiro, 29 mulheres assassinadas pelos companheiros


O Courrier Internacional deste mês trazia, como tema de capa, a questão da divisão das tarefas domésticas dentro do casal, as quais continuam a carregar sobremaneira as mulheres, mesmo quando ambos os membros do casal trabalham fora de casa. As mulheres continuam a fazer o triplo do trabalho doméstico.
A percentagem de trabalho realizado pelas mulheres que não estão empregadas não diminui significativamente em relação às que estão. Mesmo quando é o homem a ficar em casa, grande parte do trabalho doméstico continua a recair sobre as esposas. Portanto, a conclusão do estudo assumia que a quantidade de trabalho realizado não assenta na quantidade de dinheiro que se traz para governar o núcleo, mas sim na tradicional divisão de tarefas pelos diferentes sexos. É esse o factor determinante.
Por outro lado, nos casais homossexuais, as tarefas encontram-se melhor repartidas. Quando há filhos, cada elemento reclama para si grande parte do trabalho e responsabilidades com aqueles relacionados o que, como qualquer pai ou mãe sabe, não é pêra doce.
O referido estudo, publicado no Courrier Internacional deste mês, deve considerar-se deveras importante no que respeita aos estudos de Género; embora se tenha baseado em dados recolhidos pela Sociologia e Psicologia nos Estados Unidos, aplica-se que nem uvas à nossa salada de fruta ibérica.

Ocorreu-me que os meus primos chegados, actualmente com 18 e 22 anos não foram educados para fazer coisa alguma dentro de casa. Não sabem limpar, coser, cozinhar. Creio que saberão fazer a própria cama. Não são normalmente solicitados a realizar tarefas domésticas. Ora, este tipo de educação não abona grande coisa a favor da divisão de tarefas domésticas conjugais ou outras. Esta cultura, esta educação transmitida aos rapazes é tudo menos saudável. Quero acreditar que um dia eles se esforçarão por realizar as tarefas domésticas a par com as pessoas com quem viverão, por uma questão de lógica e justiça, mas não é certo.

No jornal Público de hoje, o Observatório de Mulheres Assassinadas - até me custa escrever isto - divulga o relatório de ocorrências relativas aos primeiros sete meses do corrente ano: 29 mulheres mortas pelos companheiros num cenário de violência doméstica. Excluídas estão, obviamente, as tentativas de homicídio cujas vítimas escaparam aos ferimentos, que serão o triplo. Ou seja, desde Janeiro, foram mortas pelos companheiros ou namorados, uma média de quatro mulheres por mês. Num país tão pequeno como nosso, convém meditar sobre o assunto. Sobretudo, porque os discursos públicos oficiais, que entraram nos pensamentos e linguagens comuns, relevam uma igualdade de géneros e paridade de comportamentos e oportunidades que a vida lá fora não me mostra. Os discursos decoram a realidade, bem distinta, a qual não depende tanto, como se pensa, do estrato social a que se pertence.
Portanto, bem me podem vir com a conversa sobre o sucesso das mulheres, sobre a igualdade das mulheres, sobre as superiores capacidades das mulheres, que enquanto eu as vir a morrer que nem tordos às mãos dos homens com quem dormem, porque se não és minha não és de mais ninguém, não permitirei que se reclame, na minha cara, qualquer sucesso. Enquanto as vislumbrar, quando chegam do emprego, na cozinha a fazer o jantar, e simultaneamente dando banho aos miúdos, enquanto o marido vê o telejornal, e vai à net, não vejo igualdade alguma que mereça alardeamento.

Mas devo relevar que as mudanças a acorrer não dependem exclusivamente do sexo masculino. Em 20, 30 anos os homens poderão mudar, mas se as mulheres continuarem a permitir deixar-se conduzir como entidades destituídas de pensamento e vontade, totalmente dependentes da segurança e desejos dos seus companheiros, tudo continuará igual.
Estou absolutamente convencida que este tipo de comportamento do sexo masculino só sobrevive porque as mulheres permitem, porque o consideram a ordem natural das coisas. Ora, convém que as investidas do macho não saiam do quarto.
Recentemente, regressei de uma viagem ao estrangeiro; no mesmo voo viajava um grupo de meia de dúzia de jovens portuguesas, alegres, barulhentas, que puseram o avião inteiro a rir-se. Com elas traziam um rapaz da mesma idade. Vinha de guarda.
Andar às ordens de um homem (ou de uma mulher ou de uma máquina) e depender da sua protecção, foi coisa que nunca me passou pela ideia, por carecer de sentido na minha visão do mundo. Somos só donos de nós, e, tirando os filhos até certa idade, não mandamos em ninguém.

Sou uma mulher. Matéria de carne humana, povoada de ocasionais emoções ruins. Também me quis vingar das relações amorosas falhadas com um valente par de estalos, umas joelhadas nos tomates, mas não vinguei; evitei, como quem tem vontade de comer uma carcaça cheia de manteiga, e não come; e os sentimentos, com o tempo, esfriam, graças a Deus. Agora, assassinar um amante, porque se não for meu não será de mais ninguém, sinceramente, é lá coisa que possa ocorrer a alguém culturalmente saudável?



quarta-feira, julho 30, 2008

O ponto G



As revistas femininas, e até as masculinas, preocupam-se cada vez mais com explicações precisas sobre a localização do ponto G. Acho uma ternura, e uma missão pedagógica de elevado valor cívico, que se preocupem em fornecer ao leitor noções fundamentais de geometria. Sobretudo a pessoas como eu, que nunca foram grandes barras a matemática.

terça-feira, julho 29, 2008

Casos da Vida - Bruno



Bruno pretende uma namorada que seja muito bela, inteligente mas submissa, frágil mas forte, com plasticidade mental para aceitar inovações contudo consciente do seu papel feminil, compreendendo que mulheres e homens não são a mesma matéria, e que essa diferença é muito importante ao nível dos comportamentos, sobretudo na cama
Infelizmente,a maior parte das mulheres que conhece tem pêlos. Bruno censura-as mentalmente por não fazerem a depilação como deve de ser. Tornam-se, assim, ásperas, e uma mulher deve adaptar-se ao que é agradável ao seu parceiro. E são, parece-lhe, ele acha, demasiado emancipadas, embora nunca faça alusões desta ordem. Permanecem nos seus pensamentos.
Respeita tão inteiramente a essência do feminino, que só por isso ainda não arranjou namorada. Não quer nada passageiro, superficial ou indigno. Sobretudo para a mulher. É muito selectivo, e o modelo da mulher desejada ainda não lhe aconteceu em qualquer dos corredores do emprego. Quem o conhece, sabe que as considera macias e mornas como a vida antes da vida; num outro plano de análise, espiritualmente superiores, sagradas. A matriz do mundo.
Por isso, enquanto a mulher ideal não surge, prefere ir frequentando uma amiga de uns amigos, aos sábados. Ultimamente, com a descida de poder de compra, apenas quinzenalmente. Depilação integral. É uma jovem que pratica sexo pago para evitar prostituir-se.

domingo, julho 27, 2008

Casos da vida - Andreia


A vida é que está difícil, por isso dorme com os amigos e eles pagam-lhe. E os amigos dos amigos. E os amigos dos amigos dos amigos. Até uns que vieram agora de férias da Alemanha, luso-descendentes.
Andreia arranjou este esquema para evitar ser prostituta.


sábado, julho 26, 2008

Deseducação à hora do lanche


Quando chega o bom tempo gosto de ir ler para a esplanada. Levo comigo as cadelas, que se deitam no chão, ao lado da cadeira, ou debaixo dela, e ali ficam contemplando o movimento, pachorrentas, lambendo as patas ou dormitando à sombra enquanto leio. Numa mesa perto, há de vez em quando uma criança lanchando, cuja mãe incentiva a beber o leite apontando para as minhas cadelas e dizendo, olha os cães, se não bebes vêm os cães maus e bebem-te tudo, olha os cães. Levantou a cabeça, vês?!, já está a olhar para ti, se não te despachas...
Tenho pena da mãe, mas tenho muito mais pena da criança.

terça-feira, julho 22, 2008

A inocência


Fotograma de Viagem em Itália, Roberto Rosselini, 1953


Moi et mon ami tivemos uma discussão a propósito do filme Viagem em Itália, de Rosselini, 1954. Não gostei. Datado. Lugares-comuns. Uma mulher e um homem que se detestam, que não comunicam, pior, que se agridem psicologicamente, percebendo-se que tudo aquilo vai acabar em reconciliação. Sem surpresas. Previsível. Um filme estúpido, afirmei.
Não suporto, na vida real nem na arte, a temática da mulher resignada a um casamento que não passa de um campo de batalha. São coisas que me transcendem. Se ao menos ela lhe espetasse um sólido ferro da cozinha no ombro, e o deixasse a esvair-se em sangue, e arranjasse um belo napolitano, e com ele tivesse uma aventura escaldante... podia ser que me conformasse.
Mon ami ficou para morrer. Que eu era taxativa, e burra. Ai, ai, quase lhe espetei eu um ferro no coração. Espèce de connard. Que não passava de um elitista presunçoso, convencidão, intelectual só das aparências, que considerava antes a marca, acima do produto. Só porque era um... Rosselini. Como se Rosselini fosse um Deus, e os filmes dos anos 50, a preto-e-branco, todos excelentes, porque são dos anos 50 e a preto e branco. Je lui ai accusé.

Mas ontem fomos ver o Panda do Kung Fu, da Walt Disney, e ambos viemos maravilhados, em total consonância opinativa.

Conclusão: devemos deixar para os adultos os filmes de adultos, e para as crianças os filmes das crianças.

segunda-feira, julho 21, 2008

O meu dente-de-leão





Quando estava a varrer a cozinha, apareceu-me, dançando com os cabelos da vassoura, uma semente de dente-de-leão. Apanhei-a sem a magoar, e soprei-a. Que lindo! Tinha mil patas de aranha branca e um coração de palha. Larguei a vassoura junto ao lava-louça, e estivemos a brincar. Caía tão lentamente, com tanta suavidade. Como um floco de neve elegante. Se movimentava o meu braço para a direita, ela elevava-se ou virava à esquerda, inesperada. Impedi-a de pairar sobre o frigorífico, porque não queria perdê-la da vista, nem suportaria que ficasse a morrer entalada num sítio onde não pudesse aceder-lhe.
Bailámos
muito tempo, até que reparei na vassoura caída no chão; tinha ainda muito que fazer, e quis guardar a semente de dente-de-leão para brincarmos mais tarde. Como tinha medo que fugisse com a deslocação do ar, ou que acabasse nas patas das cadelas, procurei uma caixa onde pudesse conservá-la certa. Acabei por metê-la numa embalagem quase vazia de chá preto da Zambézia. Continuei a trabalhar, mas quando passava o chão a esfregona, lembrei-me que o chá é muito odorífero, se calhar a semente podia sentir-se mal, ou ter falta de ar assim fechada; eu também não gostava que me fechassem, e, portanto, tinha a certeza que ela seria muito mais feliz se pudesse voar, ser livre para sempre, noutras mãos, ou não. Mas livre para voar com o vento. Abri a caixa do chá, levei-a na mão até à janela, como se fosse um passarinho muito frágil e pequeno, e soprei-a para o infinito.

sábado, julho 19, 2008

Separando o romance e o sexo da procriação


Este vídeo corresponde ao nascimento de Matilda, filha de duas lésbicas inglesas, sem bigode, sem músculos, sem voz grossa, porém, com com péssimo gosto musical; duas mulheres absolutamente normais, quem diria?! A criança foi fecundada através de inseminação artificial caseira (1), um método como qualquer outro, e o dador de esperma aparece numa das imagens do vídeo.
Eis o que considero uma família feliz. Não sei se o dador é amigo das mães, se apenas se conheceram para o efeito. Sei que a menina está ali, nasceu, e que nascem, desta forma, muitas meninas e meninos, todos os dias. É impossível controlar esta vaga procriativa que exclui
da concepção de um ser humano o romance e o sexo entre dois indivíduos. Essas crianças são aos milhões, por todo o mundo. Parece-me um extraordinário avanço civilizacional que um homem ou uma mulher não dependam de um casamento, ou de uma relação conjugal para se multiplicarem, mas apenas de uma generosa colaboração.

Uma jovem comentou, neste blogue, um dia destes, que teria muita vergonha se os colegas da escola descobrissem que era filha de duas lésbicas, caso fosse. Era o seu argumento contra a procriação em famílias homossexuais. Bem, minha querida, compreendo: na escola existe imenso bullying a propósito de tudo. Comigo, por exemplo, gozavam porque era gorda; com a Teresa Esparguete, porque era magricelas; com o miúdo do 7º F, porque parecia mariquinhas; com o do 8º H porque tinha a cabeça grande... é difícil sair-se ileso de traumas da escola, mas ainda se vive um bocado depois disso. Há pessoas que conseguem mesmo chegar a velhas. Além disso, por este caminho, a coisa está aí, impossível voltar atrás, deitar fora, fechar os olhos; dentro de pouco tempo, uma percentagem razoável de alunos começará a ter duas mães ou dois pais nas reuniões de encarregados de educação, e já não haverá razão para vergonhas. Podem é, porque a maldade é sempre infinita, gozar com os filhos das famílias tradicionais, que esses, sim, começam a rarear.

(1) Receita para inseminação artificial caseira (ingredientes e utensílios): esperma (para obter o referido fluído deve proceder-se exactamente como nas clínicas, quando se realizam testes de fertilidade para contagem de espermatozóides viáveis); um recipiente de plástico igual ao que se usa para guardar urina para análise; uma seringa de tamanho médio; uma cama; uma mulher em período ovulatório cheia de vontade de engravidar. Este método serve seja para quem for: alguns casais heterossexuais com problemas de ejaculação, independentemente do tipo de problema ou do motivo, são aconselhados a proceder desta forma.

quinta-feira, julho 17, 2008

Desobrigada


Foto de Joel D. Levinson


A escrita entra em ritmo de férias a partir de hoje e até final de Agosto. Hei-de cá vir quando puder, quando uma leitura ou uma observação me motivarem um texto, e se a internet estiver perto, mas sem a obrigação que normalmente sinto de actualizar o blogue porque os leitores "já devem estar fartos daquele texto". Virei menos, mas hei-de vir.
Boas férias.

terça-feira, julho 15, 2008

A pobreza e o luxo




Guardei o recorte. O artigo chamava-se A necessidade de empobrecer. Tratava-se da crónica de Vasco Pulido Valente, no jornal Público, há quase um mês. VPV defendia a ideia de que o slogan mudar de vida, muito repetido pelos políticos como forma para resolver parte da crise, apelando a um uso cada vez mais moderado do petróleo, e recorrendo às energias alternativas, é uma fraude. Afirmava que não é hoje possível mudar de vida sem voltar à pobreza "pela força e pelo sofrimento". Para VPV, a registar-se um empobrecimento generalizado, "num país como Portugal, com a sua miséria e o seu atraso, 80 por cento da população não a suportaria. «Mudar de vida» seria pior que uma revolução, seria o fim de uma civilização".

Isto da pobreza, comoveu-me. Por outro lado, a ideia de fim de uma civilização, considerando o desastre que é a nossa, animou-me.

Eu própria defendo a ideia de que deveríamos todos ser mais pobres. Mas pobreza, a meu ver, é qualidade de vida, e não inclui qualquer sofrimento. A pobreza a que VPV se refere, ao falar dos tempos em que não havia telefonia nem auto-estrada nem ar condicionado, é apenas uma forma de vida que exclui os luxos da sociedade de consumo. Consumir menos, mais barato, melhor, e reaproveitar. Considero óptimo que as roupas e os livros e brinquedos passem de irmão para irmão, que a comida seja reaproveitada, que não se acendam luzes sem necessidade, nem se gaste água à toa. Continuo a bater na ideia de que todos compram produtos acima do que podem e necessitam. Sobretudo maquinaria, mas também roupas, sapatos, malas, mobiliário, pechisbeque. Uma coisa é pobreza, outra é a miséria. Ora, eu defendo que é possível viver modestamente, aquilo a que VPV chama pobreza, sem viver na miséria.

Ultimamente tenho andado à procura de um carro para substituir o meu, que chegou às últimas, e reparo que os vendedores de automóveis me apresentam viaturas afirmando, bem, não é um carro como aquele ali, que vai aos 200, mas chega com facilidade aos 160, 170, uma velocidade decente para auto-estrada. 160, 170?! Mas para que quero eu um carro a atingir velocidades dessas?! Eu quero lá circular a 160?! Quero andar sossegadinha, com uma velocidade moderadazinha, com um carro seguro, com bons travões, espaço para carregar cadelas e objectos, que sou de carregar, e boa suspensão, porque gosto de estradas más. O melhor possível em termos de segurança e consumo, aliado ao melhor preço. É o meu lema para tudo.

Não penso que seja fácil viver hoje confortavelmente sem frigorífico e máquina de lavar roupa. Não são luxos. No meu caso pessoal, devo incluir nesta lista uma televisão, aparelhagem de som e computador com ligação ADSL. E isto, sim, para mim, é luxo. Poderia viver só com os meus livrinhos. Como cultura, chegaria. Mas digamos que é um luxo mínimo. Defendo-me, escolhendo bem, e não desperdiçando aquilo que já tenho. Acho os écrans plasma muito funcionais, com óptima imagem, mas os respectivos preços não, por isso, quando comprei a minha televisão, exclui essa hipótese. E não me passa pela cabeça deitar fora esta televisão para adquirir um objecto melhor. Viverá o seu tempo, e depois logo se vê. Exactamente como com o meu carro. Já prometi que vou andar mais de transportes públicos, mas por uma série de motivos pessoais não consigo cumprir as minhas obrigações sem um carro.

A minha ideia de pobreza está, portanto, relacionada com a esforçada recusa do luxo. Os portugueses acham que viver bem é viver no luxo, e sentem uma enorme apetência pelos sinais exteriores de riqueza. É exactamente aí que é preciso cortar, emendar. Melhor, educar. Só um povo muito pobre, pobre de ideias, de valores - é essa a nossa maior pobreza - pode julgar suplantar a pobreza por via da aparência, do luxo. Seria o mesmo que pintar um velho bidão ferrugento com verniz de purpurina. Não precisamos de luxo, mas de eficácia, e de conforto na eficácia. Isso já é viver bem, ou, se quiserem, pobremente.

Já agora, a secretária sobre a qual tenho o computador no qual escrevo este blogue, veio lá de baixo do lixo. Exactamente. Estava entre os contentores do lixo orgânico e os da reciclagem de vidro, papel e embalagens. Alguém a deitou fora. É uma óptima secretária em estado novo, a qual, com sorte, ainda chegará aos os meus netos. Pobre, muito, muito pobre foi aquele que deitou fora uma secretária destas. A minha mãe admitiu que era uma excelente secretária, mas acrescentou que devia parecer muito mal aos meus vizinhos verem-me levar para casa coisas do lixo. Já não me lembro bem, mas acho que me ri.


domingo, julho 13, 2008

A moral de M. Shyamalan


Fotograma de O Acontecimento de M. Shyamalan


A moral está muito fora de moda. As pessoas escarnecem da moralzinha, como de tudo o que não esteja profundamente enraizado na materialidade. Não existe uma moral sobre nada, o que existe é o ser humano afogado nos seus interesses pessoais, no que consegue realizar ou adquirir para os satisfazer. Se tem meios para o conseguir, tudo está certo e os deuses em calma. Se não tem, a vida é injusta. Toda a vida contemporânea se centra no individuo enquanto centro do mundo. Tudo o que existe na Terra deve subordinar-se ao individuo e servi-lo, sendo que não cabe ao individuo subordinar-se à Terra e servi-la. Não há muitas décadas, ouvia-se a Terra e esperava-se pelas suas ordens. Hoje, cala-se a Terra, elimina-se esse obstáculo ao desenvolvimento da sociedade.
Toda esta filosofia de vida parece ignorar uma verdade da qual toda a existência deve partir: somos de Terra. Lama. Mesmo que o nosso corpo se aproxime a passos largos do ciborgue, somos ainda Terra, e sê-lo-emos enquanto formos mortais. A eliminação da Terra enquanto organismo vivo do qual viemos e ao qual regressaremos, implica uma destruição mais rápida das formas de vida futura. Não apenas dos seres que estão enraizados objectivamente no chão, como as árvores, as plantas, os animais, mas da nossa própria vida. O afastamento de uma existência em equilíbrio com a natureza, e a sua consequente destruição, é um ritual suicida. Se deitarmos abaixo o pinhal de Leiria, cimentarmos o solo sobre ele, e construirmos centros comerciais desinfectados de 30 em 30 minutos, para evitar as infecções, as bactérias, as alergias, desenvolveremos mais infecções, mais bactérias e alergias. As crianças de hoje podem nascer todas indigo, ter vindo todas à terra para nos preparar para a transição em 2012, mas, caramba, como sofrem de asma e de alergias ao sol, ao frio, ao tempo, às árvores, às flores, à relva, à alface. Que fragilidade aos elementos! Vão atravessar 2012 atafulhadas em embalagens de lenços de papel e de bombas para as crises asmásticas.

O filmes de M. Night Shyamalan estão cheios de uma moral sobre o enorme poder da natureza, e o castigo em que incorremos ao desrespeitá-la. Gosto disso. Dessa moral. Desse poder. Do mistério vagamente inocente no qual envolve toda a existência. O terror de Shyamalan às vezes faz-me rir. Em O Acontecimento, aconteceu-me. Não se tratava de um terror igual ao que concebemos normalmente na sétima arte, mas de uma caricatura do terror: o que em M. Night Shyamalan existe de terror somos nós com o nosso medo à solta. O mesmo medo que sentíamos quando éramos pequenos e imaginávamos que no escuro do quarto pairavam seres mágicos, e, por debaixo da cama, cobras e crocodilos.
Quem é o tipo, este Shyamalan, para nos vir dizer que se fizermos isto, teremos aquilo? E repetir-se na mensagem, duas, três vezes.
M. Night Shyamalan insiste em escrever e filmar a essência do individuo, constituindo-o como mera parte de um todo natural do qual participam os elementos, a fauna e a flora, em igual grau de importância. Resta-nos baixar à bolinha perante um cedro, uma ninhada de coelhos ou um tufo de erva. Perante isso valemos pouco, valemos a lama de que somos feitos, nem mais nem menos. E eu gosto disso em Shyamalan: dessa insistência numa moral à qual todos querem fugir. Gosto que nos faça temer as árvores, as nuvens, o chão, que lhes restitua o poder que não pode ser-lhes tirado. Os críticos afirmam, a propósito de O Acontecimento, que as árvores se voltaram contra os humanos. Nada mais errado. Os humanos voltaram-se contra as árvores, logo, os humanos voltaram-se contra si. É só isto, e é muito simples.

sábado, julho 12, 2008

A esperança


Tive tanta esperança aqui. Tive tanta esperança naquele lugar além; naquela estrada, tive uma esperança quase total, uma fé toda absurda. Neste banco, neste jardim, nesta praia, ali naquele primeiro-andar ao Feijó, na camioneta para Setúbal, e numa casa velha a caminho de Cantanhede, e mais acolá, naquela lavra de arroz quase maduro.
Os anos passam muito depressa, e, resistindo-lhes, tenho tido muita esperança em todos os lugares, de manhã, à tarde e à noite, porque um dia me disseram que a esperança é a última a morrer. Com sorte, eu morro na segunda, e a esperança na terça, sem que nunca nos tenhamos encontrado.

sexta-feira, julho 11, 2008

Os campeões


No autocarro entre o Fogueteiro e o Casal do Marco.
Dois rapazes nos seus 18, sentados nos últimos bancos. Um baixote, de óculos antiquados, fora de moda: pobre. Parece um sapo a rir-se. Julga-se feio. Acho-lhe alguma piada. Outro mais alto, alourado falso, suado, calças rasgadas, um certo ar de sujo: pobre.
Julga-se bonito. Não tem piada alguma. O que se julga feio presta reverência ao que se julga bonito. Está tudo claramente esmiuçado na linguagem corporal que estabelecem.
Numa paragem entram duas meninas dos seus 15 anos.
Asseadinhas, arranjadinhas. Pobres. As duas muito bonitas, mas uma delas percebe-se que veio do Leste da Europa. Um louro branco, pele muito clara, olhos azuis, formato de rosto quadrado. Linda e diferente demais para os nossos padrões de beleza morena.
Os rapazes no último banco do autocarro começam a remexer-se; risinhos; ouço pouco; vejo mais. O que parece um sapo contente vai do lado da janela e provoca o colega. Diz-lhe algo do género, gostavas, não gostavas? O outro ri-se, quase boçal, afirmativo. O sapo não tem coragem, acha que para si não seria possível manjar tão rico, mas provoca o amigo, achas que conseguias? E o outro, oh, pá..., oh, pá..., e a sua expressão facial não engana; o que ele lhe responde é que, pá, aquilo marchava tudo. Mas ambos sabem que é demasiada areia para qualquer das camionetas.
O sapo distrai-se das miúdas, olha através da janela e começa a cantarolar um tema dos Queen: we are the champions... mas não sabe o resto da letra. O outro, o bonitão que não é bonito, sabe. Percebo que é uma música com cuja letra se identificam. O bonitão que não é bonito continua, and we will fight till the end... O outro entusiasma-se, repete, and we will fight till the end, mas calam-se, ambos, após o breve coro. Não sabem mais.
Olho-os de novo, porque o que vejo não me chega. O que significará para eles lutar até ao fim? Sentir-se-ão campeões de quê? Qual será a sua luta?

quinta-feira, julho 10, 2008

Extrema solidão



Não gostamos dos homossexuais porque são homossexuais, e as suas práticas são contra naturam. Não gostamos dos pretos porque são pretos e cheiram a catinga. Não gostamos dos imigrantes porque são imigrantes e nos roubam trabalho. Não gostamos dos brasileiros porque são brasileiros e vivem às três famílias no mesmo apartamento e fazem muito barulho. Não gostamos dos gordos, porque são gordos, e não controlam o que comem. Não gostamos dos magros, porque são magros e nós também gostaríamos de ser. Não gostamos dos baixinhos porque são baixinhos e ainda por cima não há nada que os faça ficar altos. Não gostamos dos altos, porque são altos e o que daríamos por mais cinco centímetros! Não gostamos dos mal vestidos porque são mal vestidos, e isso os categoriza como pobres e de mau gosto. Não gostamos dos peludos, porque são peludos, e os pêlos são feios. Não gostamos de mulheres a ocupar cargos de responsabilidade porque são mulheres e têm aquele andicape de engravidar e ter de faltar ao trabalho. Não gostamos de reciclar, porque reciclar é chato e não conseguimos aprender a que cor corresponde cada embalagem. Não gostamos nem de cães nem de gatos, porque são animais e cheiram mal e deitam pêlo e têm doenças. Não pensamos no sofrimento dos animais que comemos porque são animais para comer e não podemos desenvolver afectos por gado. Não gostamos de nos deitar na relva porque a relva está plantada na terra e a terra tem bichos. Não gostamos de andar descalços porque o chão é porco e sujamos os pés. Não gostamos de quem passa por nós na rua, porque ocupa o nosso espaço, e é gente feia, nós somos bem melhores. Não gostamos dos ricos porque são ricos e têm mais do que nós. Não gostamos dos pobres porque são pobres e têm menos que nós. Não gostamos dos nossos vizinhos porque são nossos vizinhos e levam vidas que não percebemos. Não gostamos das nossas famílias porque são nossas famílias e tinham a obrigação se lembrarem mais de nós ou de nos convidarem para isto e aquilo. Não gostamos dos nossos pais porque são nossos pais e estão velhos e chatos e dão trabalho e já viveram a vida deles. Não gostamos dos nossos colegas porque são apenas colegas e não se pode confiar neles para nada.
Não gostamos de viver, mas enquanto vivermos vamos pôr em prática a nossa equação de ódios, que não nos interessa compreender. Não gostamos de compreender apenas porque não gostamos de compreender. De resto, somos muito abertos e não temos nada contra ninguém.

quarta-feira, julho 09, 2008

Uma peça na engrenagem



Hoje, tivemos uma reunião com o patrão, lá na fábrica. Quer melhorar a produtividade, e esteve a explicar-nos a teoria da engrenagem.
O doutor Mouzinho, eloquente, com o dom da palavra, de cabeça erguida para a assembleia de trabalhadores, e braço estendido, disse que o que se pretende é o que funcionário faça um percurso de identificação com a sua tarefa, baseie o seu desenvolvimento pessoal e profissional nos pontos fracos e fortes do seu desempenho, e realize, a todo o momento, uma constante auto-avaliação do seu trabalho diário, obrigatoriamente por escrito. Mais, o trabalhador não se pode abstrair da organização, no seu todo, para definir os seus objectivos na linha de montagem, relativamente à tarefa que lhe cabe. Cada um de nós deve considerar-se uma peça da organização, e funcionar enquanto tal. Neste momento, lembrei-me do Charlot, em Tempos Modernos, e imaginei-me no seu lugar, uma peça na engrenagem. Apenas uma peça na engrenagem.
Fiquei triste. Não quero ser uma peça. Não quero fazer parte da engrenagem.


terça-feira, julho 08, 2008

As oportunidades comerciais da depilação masculina


Foto Harry Lapow, Hairy Man, 1963

Estive a observar o movimento de homens que entravam para fazer depilação na cabeleireira do meu bairro. Jovens. Compridões. Embora me tenha acostumado a ver homens depilados na praia e nas revistas, não me tinha ocorrido que faziam a depilação fora da casa.
A depilação é, portanto, uma tendência masculina destes tempos, pelo que quero deixar aqui um lembrete para quem se encontre desempregado e pretenda montar um negócio lucrativo: considerando o tamanho da superfície a depilar, e o preço da depilação por metro quadrado, aconselho vivamente um pequeno salão de depilação exclusivamente masculino. Um sítio onde eles se sintam bem, porque é só para homens, e possam descascar-se todos, e andar de badalo solto, como tanto gostam.
Num local estratégico. O Porto não conheço, mas em Lisboa a zona ideal seria o Príncipe Real, São Bento ou aquela zona do Jardim da Estrela a descer para o Rato, alargando até lá acima a Campo de Ourique. Que negociozão! Olhem que estou a falar a sério! Quanto é que custará depilar umas costas, um peito, uma pernaça de homem? O tamanho daquilo, em pelunça, quanto é que dará em euros?! É que um buçozito não se faz por menos de três, quatro! No bairro!
A mim até me cresce água na boca só de antecipar o prazer que seria cobri-los todos de cera depilatória e arrancar-lha aos repelões. Vou ali dentro buscar um guardanapo!


segunda-feira, julho 07, 2008

Mamonas assassinas, 2ª parte





O que acontece, afinal, aos implantes mamários acidentados?! Ou o saco se desloca dentro da mama, quer seja um implante intra ou extramuscular, e se posiciona anormalmente, causando um inchaço e deformando a mama severamente, ou pior, o saco rompe, o que é muito frequente, e o conteúdo espalha-se pelo corpo, o que apresenta alguns riscos para a saúde.

Se o conteúdo for uma solução salina, espalha-se rapidamente, e a mama diminui de tamanho, como um balão que se esvazia. Se for de silicone, os estragos são menores, porque o silicone é uma substância com outra densidade, e não se escapa tão facilmente. Em qualquer dos casos, a mama terá que ser alvo de operação de carácter urgente, para substituição dos implantes acidentados.

A parte pior, a qual me incomoda especialmente, é a que se segue. Tirados os implantes, mediante incisão peri-aureolar, e à mão, claro - o cirurgião mete os dedos dentro do buraco aberto no mamilo, rebusca o implante velho, e extrai-o - o que resta de mama é um saco velho e amarrotado que cai sobre o peito da paciente. Uma pele. Como se nada existisse lá dentro para além do silicone. Nem gordura, nem glândulas mamárias. O Dr. Rey (ver poste de sexta-feira passada) puxa essa pele como se fosse tripa para fazer chouriço, abre-lhe a "boca" mamilar, despeja soro fisiológico, porque é preciso lavar o "saco", e prepara-se para inserir o novo implante. Nesta fase, ou insere um implante ligeiramente menor, ou do mesmo tamanho, mas nesse caso é preciso retirar pele, porque esta esticou bastante com o que já lá esteve, e a operação torna-se mais complicada, com mais cicatrizes; outra opção, a mais escolhida, consiste em inserir um implante maior, em consonância com a pele esticada que é preciso encher.

Em alguns casos o implante é introduzido já cheio, o que é mais difícil, porque o médico tem de o empurrar com os dedos muito para dentro da mama; e o implante lá entra, lá se encaixa, e lá fica apertadinho como o Rossio na rua da Betesga. Noutros, o implante é inserido ainda vazio, e enchem-no mediante um tubo que entra por cada mamilo. Quando os implantes estão cheios, saca-se o tubo e cose-se o resto do mamilo. Vê-se a mama ir enchendo, crescendo de tamanho, como as das bonecas insufláveis.

E é assim que as mamas das americanas vão aumentando de ano para ano, enquanto a pele for esticando.

Aprendi tudo isto só a ver o referido programa (conferir poste de sexta passada). Claro que no meio de todos estes procedimentos, a pergunta que mais me faço é "onde está a mama verdadeira, a que existia antes do implante?", porque tudo o que vejo é uma pele ser cortada, esvaziada, lavada por dentro e de novo esticada. E isto, desculpem lá, já não é uma mama, mas uma mera prótese cujos fins decorativos, de tão artificiais, me escapam. Onde estão as glândulas mamárias daquelas raparigas e mulheres?

Devo dizer que a maior parte destas cenas de bloco operatório são horríveis de se ver, e que de vez em quando tapo os olhos com os braços e pergunto à Morena, já passou?, já passou? Sujeito-me a visionar estes filmes de terror, apenas para informação dos leitores do blogue; atenção, meus amigos, que tanto altruísmo, sinceramente, merecia uma distinção qualquer...

O leitor menos habituado ao meu estilo poderá pensar que sou inimiga da operação plástica, mas não é verdade. A cirurgia plástica e reconstrutiva presta-nos bons serviços, mas este uso que dela se faz, associa o hedonismo ao consumismo da pior forma. Vai longe demais no que considero ser a ética dos actos de natureza médica, promovendo a fobia à natureza do corpo humano e cedendo a uma visão estereotipada da beleza e da perfeição. Não resolve os problemas destas mulheres, os quais não se situam no seu corpo, mas na forma como julgam que os outros as vêem, e como, por consequência, se encaram. Continuam a odiar-se após a primeira operação, e a segunda e a terceira. Os seus corpos estão sempre errados. E destroem-se, literalmente, sem a dignidade do envelhecimento.

Quando olho para o rosto da Manuela Moura Guedes lembro-me de como ela era interessante quando tinha rugas e expressão. Agora não tem rosto, mas uma estranha massa inchada no lugar da face. Que aberrações fazemos ao nosso corpo?!

Eu sei o que é odiar o corpo, porque odiei o meu durante muito tempo, e ainda, cof, cof, mas como dizia a minha psicóloga, de quem me divorciei, é possível que haja quem a ache gorda, mas não serão todas as pessoas a achá-la feia, pois não? E o mais importante é o que você acha de si. Acha-se feia, Isabela? E eu respondi.


(Talvez ainda continue. Não sei. Ça dépend.)

domingo, julho 06, 2008

Ingrid e os media



Estamos todos de acordo relativamente à boa nova que constituiu a libertação de uma série de reféns em poder das FARC. Imagino o calvário que será para os que ficaram ainda aprisionados. De que medidas de retaliação terão sido alvo devido à fuga deste grupo? Onde estarão, e em que condições, neste momento?

Falo do assunto porque, no meio de todo este barulho, há algo que me incomoda. Primeiro, no meio de todos reféns chegados, fala-se e filma-se sobretudo a antiga candidata presidencial colombiana, Ingrid Betancourt. Ingrid Betancourt tranforma-se, assim, de mártir às portas da morte, em estrela mediática que descreve o seu dia-a-dia perante as câmaras.
Segundo, o presidente Sarkozi vai retirando dividendos políticos da libertação: beija-a respeitosamente, em exuberante campanha de marquetingue da sua pessoa, escuta-a reverencialmente, enquanto a doce Carla Bruni se arrepia, de mão na cara, cada vez que Ingrid fala na experiência da selva: os picos, as pulgas, as carraças, as tarântulas, e o resto da bicharada... Depois, no hotel, o filho de Betancourt apaga-lhe a luz do wc, sem querer, e ela declara ter pensado estar de novo em poder das FARC. Não sei, não sei, não quero ser injusta, mas acho que nesta altura esperaria mais contenção mediática da parte de uma pessoa que sofreu experiências tão traumatizantes.

O lugar de procriação é o indíviduo, não a família





Manuela Ferreira Leite afirmou a semana passada, na TVI, que o casamento tem como objectivo a procriação, e que, portanto, as uniões de homossexuais, não sendo dessa natureza, não deverão beneficiar das mesmas regalias fiscais e civis de um casamento.

Manuela Ferreira Leite é uma política conservadora, pelo que as suas afirmações não devem causar espanto. Pessoalmente, parece-me bem que tenha enunciado o seu pensamento a este respeito. Gosto de pessoas que dizem muito claramente aquilo que pensam. Com quem fala claramente é possível dialogar; pelo contrário, quando não sabemos que filosofia se esconde por detrás de abundantes discursos eufemísticos, não é possível comunicar.

Manuela Ferreira Leite não fez mais do que enunciar em voz alta aquilo que 70 por cento da população portuguesa pensa: as uniões homossexuais são contra naturam.
A natureza contra naturam que as civilizações baseadas numa religião institucionalizada atribuiram às relações entre pessoas do mesmo sexo, baseou-se na preocupação com a procriação, e centrou-se numa visão exclusivamente sexual destes relacionamentos. Porém, a sexualidade é apenas uma parte da vida dos homossexuais, pelo que sempre considerei tudo isto de uma injustiça e preconceito atroz.

Ouço com ironia afirmações como, eles agora são todos do clube, antigamente não era assim, etc., etc., ignorando que a humanidade, desde os princípios dos princípios, foi livre sexualmente, muito mais livre do que hoje. O clube sempre teve inúmeros praticantes, adeptos e simpatizantes.
O relacionamento sexual entre pessoas do mesmo sexo não pode ser considerado um pecado de natureza universal, como o vêem algumas religiões, porque outras religiões, igualmente legítimas, nomeadamente algumas orientais, não excluem a homossexualidade, não a castigam, considerando-a apenas mais um meio para atingir um fim. Portanto, em que ficamos? Trata-se de um pecado "local". No fundo, de um normativo. A noção de pecado associada ao sexo e à homossexualidade veio criar uma ordem social e sexual aparente, porque debaixo dos panos, tudo se manteve igualzinho.

O que escapa à sociedade em geral, e a Manuela Ferreira Leite, em particular, embora seja remediável, é que a família não é realmente um lugar de procriação. Como explicar, então, os inúmeros casais que não têm filhos, que se recusam a tê-los, ou não podem, e que preferem adoptar, ou não? Perdem o estatuto de família por recusar procriar ou por não poderem fazê-lo? Conheço meia dúzia de casos deste género. Vamos tirar-lhes os benefícios sociais e fiscais que o Estado concede ao que chama família? Convém sermos coerentes. Que diferença existe, ao nível de constituição de família, entre o senhor Belarmino e a dona Maria, que moram no prédio da minha mãe, e nunca tiveram filhos, e a Patrícia mais a Xana, que moram no meu, e tiveram há poucos meses uma bebé fruto de uma inseminação artificial?
A Xana inseminou a Patrícia com o esperma de um norueguês que contactaram através de um grupo de dadores existente na internet. O homem veio cá passar uns dias, pagaram-lhe a estadia, e foi-se embora todo feliz e cheio de escaldões. Não sabem a morada dele nem ele a delas. Foram três felizes encontros no hotel dele, em dias estratégicos. Chegou. Digam-me, por favor, quem é mais família? O senhor Belarmino e a dona Maria, ou a Xana e a Patrícia? É fácil, não é?

O lugar de procriação nunca foi a família, mas o indivíduo. Pensar desta forma implicaria voltarmos ao tempo de Salazar e ressuscitar o estatuto distinto do filho bastardo, com toda a ignomínia que acarretava.

A procriação não tem regras, ou melhor, recusa-as, por muito que no-las tentem impor. Quem quer ter filhos, tê-los-á, independentemente da natureza emocional ou sexual da relação mantida, ou na sua ausência; quem não quiser filhos, há-de evitá-los; e os acidentes, o foi sem querer, agora não calhava nada, o que é que eu faço, acontecerão sempre, com a mesma certeza com que vem a chuva e depois o sol.

Actualmente, com auxílio da reprodução medicamente assistida ou sem ela, porque os métodos artesanais também funcionam lindamente, nada, nada, nada impede um homem ou uma mulher, homossexuais, heterossexuais ou assim-assim, solteiros, casados ou a viver uniões de facto de se reproduzirem livremente. E aos núcleos de pessoas que escolheram viver juntas chama-se família, porque não há outra palavra para os designar. Que a porca torça o rabo como quiser torcê-lo, mas estas são famílias efectivas, funcionais, existem aos milhões por todo o lado, é impossível ignorá-las, não podem ser desfeitas, e terão de beneficiar dos mesmos direitos que os outros tipos de família, ou estaremos a estabelecer diferenças entre legítimos e bastardos, o que a própria lei não permite.

Portanto, é isto que temos de explicar à Dra. Manuela Ferreira Leite, com a formidável calma que advém da certeza e da segurança.

sexta-feira, julho 04, 2008

Mamonas assassinas

Dr. Rey, cirurgião-estrela de Dr. 90210

Desde que mudei para o Meo passei a apanhar um canal televisivo intitulado E!. No essencial, e no acessório, E! consiste numa espécie de revista do coração passada para a televisão. Quem é famoso, quem é o mais famoso entre o famosos, quem é sexy, quem é o mais sexy entre os sexies, episódios de novela da vida real com pessoas que julgo serem vip nos EUA, e o meu programa de humor preferido: Dr.90210. O programa não é de humor, mas para mim é como se fosse: que pratinho.
Trata de operações plásticas inimagináveis, a meu ver, respondendo à procura dos californianos por este produto: a transformação do corpo com que nasceram. Raparigas de 16 anos, e mulheres de 60, descobrem em si defeitos que eu não descortino, como o queixo ligeiramente recolhido ou as sobrancelhas descaídas. As clientes do Dr. Rey são mulheres absolutamente normais, com características faciais e físicas que as definem, que as tornam diferentes dos outros, e não menos bonitas, talvez até mais. Saudáveis mamas portuguesas, normais em tamanho e forma, e bem mantidas, causam traumas na Califórnia. Nunca um implante de silicone com menos de 500, 600 cc. Por outras palavras, umas mamonas. Aliás, qualquer corpo português normal teria de ser reformulado de cima até abaixo na clínica privada do Dr. Roberto Rey, brasileiro de nascimento, emigrado para os States para se tornar um cirurgião plástico famoso. Conseguiu. Bonitão. Vestido como um gigolo dos caros. Bisturi fácil e ligeiro.

As californianas realizam operações que nunca passariam pelo meu horizonte de possibilidades se não visse este programa. Vamos aos exemplos: uma das pacientes anunciou que ia realizar uma labioplastia, e tendo eu reparado que possuía os lábios finos, pensei que fosse engrossá-los. Engano meu, a paciente, ia operar os lábios vulvares, porque após o parto tinham ficado muito largos "e metiam-se para dentro durante o sexo".
Uma outra encontrava-se já de quatro no bloco operatório, e com as pernas abertas, realizando algo a que chamou um branqueamento anal, e que me pareceu pertencer à família dos peelings faciais da Lili Caneças. Aquilo deve queimar um bocado. Não sei. Segundo a paciente, o ânus ia ficar com muito melhor aspecto após o branqueamento. E eu acredito, mas também com o uso que dou ao meu, não preciso de melhorar. A mesma doente revelou que tinha implantes nas bochechas, mas que um deles começara a sair-lhe pelo olho, magoando, portanto foi preciso substituí-lo; mandou então prender ao osso, com um parafuso de titânio que não apita nos aeroportos, o implante substituto. Eu vi a operação. Faz-se rasgando a cara por dentro, acima do maxilar superior. A maior parte das intervenções ao queixo, bochechas e nariz fazem-se por dentro. Tenho ganho um grande endurance cirúrgico a ver o Dr. Rey. Cortar parece-me fácil. A coser também não havia de me sair mal, agora para estancar o sangue é que me dava jeito um curso técnico-profissional. A mesma cliente, eu deveria dizer, o mesmo filão de ouro, queixou-se muito de celulite na parte de trás de uma coxa. Eu vi: eram três piquinhos causados pelo próprio encaixe muscular e que quase toda a gente tem. Eu acho um encanto, mas os piquinhos envergonhavam-na tanto que não permitia ao marido vê-la de costas em biquini. O médico, com um sorriso, sempre o mesmo sorriso, pegou numa seringa, tirou-lhe gordura de onde ela não a tinha, porque é difícil encontrar-lha em que lugar seja do corpo, e injectou-lha nos buraquinhos que pareciam sorrisos. O homem passa a vida a transferir gordura daqui para ali; uma massa amarela misturada com sangue. Tira gordura das pernas, da barriga, e injecta-a na cara, aqui e ali, em múltiplas pequenas picadas que têm como efeito preenchê-la, encher rugas, o diabo a sete. E diz, apreciador, "aqui está um bela gordura". Convém ver o programa com a digestão já feita.
Outra cliente na casa dos 40, 50, é difícil dizer, já transformada numa múmia egípcia, e juro que não exagero; apenas menos seca, e menos castanha, até porque pinta o cabelo de louro e usa baton cor-de-rosa, repete, o meu corpo está melhor que aos 18 anos, o meu corpo está melhor que aos 18 anos. Honestamente, o corpo dela já não tem idade, mas também não respeita a ideia que tenho de um corpo: transformou-se numa estrutura suportada por implantes de fibra de vidro, metal e silicone. É um ciborgue. Tem os olhos muito arregalados, porque a pele da testa foi repuxada por uns fios interiores cosidos no alto do crânio, tapados pelos cabelos. É uma visão aterradora. Quem inicia este processo de operações é obrigado a viver nele até ao fim dos seus dias. Deixem-me explicar-vos o que acontece a uma mama com um implante de 600 cc. quando começa a descair, ou o implante rebenta numa queda de bicicleta?

(Continua amanhã, ou isso.)

terça-feira, julho 01, 2008

A leitura da tradução


Inspirada por todos aqueles bloguistas que andam a ler O Homem sem Qualidades, traduzido por João Barrento, e só por acaso escrito por Robert Musil - por esses que sentem uma necessidade inelutável de citar passos da obra-prima no respectivo blogue - resolvi deixar aqui, igualmente, uma singela transcrição do livro que ando agora a ler, e exactamente nos mesmos moldes:

Os refegos cruzados não se fazem em tecidos grossos e só se usam em tecidos lisos.
Os refegos largos são geralmente estreitos, com largura vulgar de meio centímetro.
Este enfeite é constituído por refegos, feitos no sentido do fio direito do tecido, e por refegos no sentido do fio atravessado cruzando os primeiros.

A Arte de Coser e Bordar, tradução de Elísio Remendado dos Santos, p. 163

Não escrevo mais hoje, e explico, é que ando enfronhada na leitura desta excelente tradução, e desejo avançar depressa para a página 164, onde se encontra o capítulo "Letras para lenços e blusas". Portanto, Isabela... lavar dentinhos, já, pezinhos, a seguir, outras partes do corpo necessitadas, e... cama com Elísio Remendado, esse deus da tradução.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...