terça-feira, setembro 30, 2008

Nada é ridículo


As minhas cartas de amor não são ridículas. Quer dizer, eu não me sinto ridícula porque escrevo e destino a alguém as minhas cartas de amor. Se calhar sou ridícula. Mas o que não vemos não nos mata. Se o objecto do meu amor se ri das minhas palavras, se se enfurece com elas, se os assistentes se divertem no circo das minhas cartas de amor, isso é com eles. Eu amo, e no meu amor nada é ridículo.

segunda-feira, setembro 29, 2008

Substância eterna do amor


Foto: Gregory Crewdson


Abro os olhos, e ao longe alcanço as altas montanhas negras que teria de transpor durante um longo, rigoroso inverno para te alcançar. Haveria de me enterrar na neve e gelar e passar fome. Imagino-me perdida, moribunda, mas cantando lá, lá, lá. Escutas? É o meu fantasma futuro. Que alegria a concessão da graça divina de poder enterrar-me na neve, e passar fome para te vislumbrar do outro lado, sério, muito sério, medroso, amante, ainda duvidoso, incerto, mas ver-te, e seres tu aquele, e que o que fosses estivesse cheio do teu primeiro lapso de tempo na noite.


Nota: versão de um poema que é a versão de outro poema

Manto de pedras preciosas


Todos os dias saio à rua com o mesmo manto. Inverno ou Verão. Quem não me conhecer não acreditará.
É um longo manto de boa tecelagem, confeccionado em diferentes texturas e cores, acrescentado ao longo dos anos e todo bordado a pedraria. Profusas hematites espalhadas a todo comprimento. Turquesas e opalas razoavelmente distribuídas. Cornalina e jaspe, uns poucos. Olho-de-tigre, citrino e ametistas ocasionais. Os acrescentos periódicos foram-lhe conferindo um aspecto patchwork um tanto hippie. Não é um luxuoso manto de azevinho como usam os reis nos contos populares. Arrasta pelo chão sujeito aos elementos. Molha-se. Suja-se. Às vezes rompe-se. Mas eu enxugo-o, lavo-o, remendo-o. É um belo manto indestrutível. Até ver.
Certos dias, ao fim da tarde, volto-me para trás e contemplo o meu manto. Sorrio o meu sorriso íntimo, meditativo, profundo, triste. Reconheço os acrescentos, os remendos, mas não tenho qualquer explicação para o desenho que se foi formando nem para a forma como a pedraria se distribuiu. Encolho os ombros. Emito um som de desilusão e conformismo. Não sei se gosto do meu manto. Parece-me confuso, demasiado longo e pesado. Mas é o meu manto. Não posso trocá-lo nem dá-lo nem cortá-lo, seleccionando apenas as zonas com melhor aspecto. Um manto, pelo menos o meu, deve manter-se intacto. De todas as coisas que possuo, nenhuma é tão pessoal, tão minha como este manto.


domingo, setembro 28, 2008

Um Domingo na vida da Morena




Acordar. Lamber o nariz da dona e receber festas. Ir à rua. Correr atrás do melro que se esconde no arbusto grande da escola. Ir cheirar outros cães. Deitar-se debaixo da mesa da esplanada enquanto a dona bebe o galão e come o pãozinho autorizado. Pedir bocadinhos de pão à dona. Receber festas de crianças e lamber-lhes as mãos. Ir com a dona até ao supermercado e ficar à porta sossegadinha, mas inquieta. De regresso a casa, visitar o contentor do lixo em frente ao café e verificar se alguém deixou cair ossos, espinhas ou outra porcaria qualquer. Entrar em casa. Beber água. Ir dormir debaixo da cama da dona. Acordar e ir para a cozinha quando sente o cheiro do almoço. Ouvir a dona falar, mas não perceber nada do que diz. Receber festas e beijinhos. Comer alguns grânulos de ração. Beber água. Dormitar perto da dona. Sentar-se a olhar para ela com um olhar angélico e desesperado ao longo de todo o almoço. Chamar a atenção da dona com uma patada na perna porque quer provar, seja o que for. Ir dormir para qualquer sítio. Ladrar porque ouve mexida junto ao elevador. Vir receber festas. Ouvir a voz da dona, na-na-na, na-na-na, na-na, na-na. Não perceber nada, mas gostar da ladaínha. Ir dormir. Acordar porque tem fome. Comer. Mostrar os dentes à Micas. Beber água. Ir à rua. Dar uma volta muito grande porque a dona precisa de andar. Ficar muito cansada com a língua de fora. Receber festinhas. Regressar a casa e atirar-se para um sítio qualquer a dormir profundamente. Fazer uma grande festa à dona, como se não a visse há dois anos, porque saiu de casa e não a levou, mas entretanto regressou. Receber muitas festinhas. Ir à rua outra vez. Fazer a ronda dos caixotes do lixo. Ouvir um ralhete e levar um safanão porque traz na boca uma cabeça de peixe podre. Chegar a casa frustrada e beber água. Ir para cima da cama da dona a cheirar a peixe podre. Chamar a dona para ir dormir com ela. Aturar a dona a dar-lhe beijinhos e a fazer-lhe festinhas na barriga. Dormir.
Quem quer experimentar a vida da Morena?

Nota: as 24 horas na vida da Micas ficam para outra oportunidade.

sábado, setembro 27, 2008

Ex-amantes 2


O meu ex-amante número dois também me odeia com todas as ganas. Não compreendo porquê. Considerando que me deve uma quantia equivalente a três dos meus ordenados, fora os ameaços, dinheiro que nunca mais verei na vida, e que lhe foi emprestado com tanta dedicação, para o ajudar, só para o ajudar, penso que haveria lugar a que me amasse loucamente.


sexta-feira, setembro 26, 2008

Ex-amantes


O meu ex-amante odeia-me.
O que resta dos ex-amantes é a força demente com que se culpam e odeiam.


quinta-feira, setembro 25, 2008

Um negrinho com o pé boto


Já me estava destinado. Vinha a caminho. Afinal eu merecia, alguém tinha decidido.
Era um menino negro muito leve e franzino, com o pé direito boto. Era meu filho. Peguei nele ao colo, era de espuma. Tinha um ar sério. Nunca se ria. Beijei-lhe o pé torto, beijei-lhe os braços e as pernas, e dei graças a Deus por esse filho tão perfeito e esperado. Amar é servir por vontade. Ah, que prazer cumprir esse dever!


quarta-feira, setembro 24, 2008

O meu treinador pessoal



Sou a única mulher no ginásio entre dezenas de garotos em boa forma.
Se tivesse 20 anos isto era capaz de me preocupar; ai que estava suada, o cabelo desalinhado pela transpiração, as formalidades da beleza todas comprometidas, a celulite, a celulite... mas aos 40, sinceramente, olho para eles com admiração pelos exercícios que fazem melhor que eu, e com mais carga. É tudo. Sinto-me completamente integrada. Sou uma mulherona?! Olha, pois sou. Estou gorda?! Olha, pois, vendo bem, estou. Os 40 são realmente uma idade generosa, sobretudo para uma solteirona de carreira, que sabe não interessar a miúdos, sendo que os graúdos a que possa interessar estão casados com as mulheres, nuns casos, com os filhos, noutros, e com a economia doméstica, na maior parte deles. Sou por deixar os homens casados sofrerem em paz o enorme erro de não me terem dado a oportunidade de lhes infernizar a existência. Bem feita!
Adoro ir ao ginásio. Sinto-me interessante. Dão-me atenção. São gentis. Até os garotos me cumprimentam com o género de sorriso que se dedica à tia. Mas o mais importante é o meu instrutor, que quis o fado se chamasse Camané. O Camané segue-me pelo ginásio, transportando a minha toalha e a garrafinha de água, que pousa perto da máquina que escolheu para mim. Põe-me a toalha nos ombros, quando estou tão transpirada que acho que já nem vale a pena, e vai, voluntário, encher-me a garrafinha de água, porque tenho de repor os líquidos. Até me sinto mal. E diz, agora a Isabela vai puxar pelos peitorais, agora os tricepes, agora as coxas. Exemplifica, e, senhores, não sai dali. Fica a ver-me e a contar as séries. Os miúdos mandam-lhe umas bocas, mas o Camané não ouve. Está empenhado no meu projecto. Vê-se a admiração com que me põe a trabalhar. Isto queima muito, Isabela, tem que ter cuidado com a alimentação. Veja lá a sua dieta. Coma uma banana antes de vir. E bolachas. Olhe que isto queima. Acredito. Não há músculo que não me doa. Músculos que não pensei existirem. Sou uma chaga toda inteira de dor física que se movimenta a poder de vontade. Como lenitivo penso na minha saia branca de Verão. No próximo Verão, a minha cinturá parecerá a curva do Mónaco, e hei-de ver-me muito ao espelho e sorrir e fazer poses, e exibir a minha beleza por todo o lado, e ser atrevida, olhem, olhem para mim, grandes filhos-de-uma-mãe-que-nem-uma-trinca-cá-hão-de-dar. Hei-de mostrar os braços e os ombros todos nus, e as pernas torneadas, e vestir fatos-de-banho ousados e apaixonar-me muito por mim. Já começo a sentir-me tão bonita outra vez.
Não sei quanto paga a Madonna pelo seu treinador pessoal, mas o meu é bom e sai-me barato.

sábado, setembro 20, 2008

As invejosas


Anteontem revelei às minhas colegas da linha de montagem que andava a fazer dieta. Têm-me visto a levar o almoço no taparuere, já nem vou ao refeitório nem nada, e intrigaram-se. Expliquei-lhes que agora estou a fazer uma dieta muito boa, muito certinha, que estou muito motivada, que vou à ginástica quatro vezes por semana, que já comecei a emagrecer, e que quando chegar ao Natal estou uma autêntica miss Portugal das Ex-colónias.

Riram-se, responderam-me, todos os anos dizes a mesma coisa, e viraram-me as costas caminhando na direcção do bar, onde, de certeza, iam enfardar-se de bolos de natas e doce de ovos. Gordas invejosas.

quarta-feira, setembro 17, 2008

Um preto é um preto


A semana passada não houve tempo para comentar a interessante notícia segunda a qual os portugueses gostam mais de McCain do que de Obama, ao contrário da generalidade dos europeus.

A ditadura portuguesa foi das últimas a cair na Europa Ocidental, e não se tratou de um acaso. Os portugueses são conservadores, gostam de sentir o peso da autoridade, mesmo que prepotente. Vinga entre a maior parte dos sectores, não apenas na direita, a ideia de que "o papá é rígido e mau, mas o papá sabe o que é melhor para nós." Não uso aleatoriamente o termo papá. Os portugueses não saíram, política nem socialmente, da primeira infância. Não têm consciência do seu poder enquanto cidadãos reclamantes, e muito menos enquanto grupo. Não acreditam no exercício activo da cidadania como quem acha que nunca será capaz de conduzir uma automóvel, e nem tenta.
Mas esta notícia não me informava apenas sobre as nossas ideias conservadoras. Fornecia-me outra informação muito precisa: os portugueses não gostam de pretos; em Portugal nenhum Obama chegaria onde este chegou. Em Portugal, um preto é um preto.
No Domingo, uma senhora descrevia a outra, lá em baixo, umas cerimónias inusitadas em Fátima, uns festejos, e dizia que tinha sido uma coisa muito linda, que até tinham vindo de África uns tocadores de batuque acompanhados por um padre preto. E reforçou que era padre apesar de preto.
Os portugueses mantêm aquela ideia muito colonial de que o preto é bom para trabalhar barato, mas que nunca poderá equiparar-se profissional nem humanamente a um branco. Um médico preto, um professor preto e um advogado preto são, para uma boa maioria dos portugueses, profissionais de segunda classe, e sabe-se lá como conseguiram o diploma.

Deprime-me reconhecer no povo ao qual pertenço tanta ignorância, tanto atraso e um desenvolvimento tão incipiente dos valores humanistas mais elementares. Portugal degrada-se em ódio e ignorância, como uma velha peça que enferruja.

terça-feira, setembro 16, 2008

Os homens não querem cuidar


Não, não é português. É um americano num centro de cuidados paliativos. Ou, se calhar, é gay.


Cães e homens: os meus dois temas preferidos, pelo melhor e pelo pior. Ora vamos lá.
No último poste, alguns leitores lançaram a ideia de que um homem que se interesse por cães é gay. Não é verdade. Mas desenvolvamos a questão: o assunto merece atenção porque já tinha constatado que os homens não têm grande gosto por cães pequenos. Gostam de cães de caça, porque gostam da caça, mas não ficam a chorar o cão ficar perdido no mato enquanto eles regressam a casa com as lebres e as perdizes. Gostam dos chamados cães de poder, os doberman, os buldogues, os pitebuls, etc. Um cão de poder, como já referi, reafirma a masculinidade, ao permitir associações entre a força e agressividade do cão e as seu dono. Tenho cá a ideia que os homens estão para os cães, como para os carros: quanto maior e mais potente ele for, mais importante e viril aparentarei ser, porque a verdade é que não passo de um medíocre mesquinho, e sem força na verga, mas há que disfarçar.
No meu bairro, por exemplo, só vejo rapazes e velhotes a passearem cãezinhos. Não há muitos de 30 nem de 4o. Devem recear parecer amaricados, como dizia o leitor em poste anterior, ou, outra teoria minha, os homens relativamente jovens estão ainda demasiado cheios de si, da importância da sua imagem, de adrenalina e testosterona, e buscando satisfação, para se preocuparem com alguém. Os homens de certa idade são sacos de egoísmo, de egocentrismo e de vacuidade. Isto é científico.
Uma realidade que conheço bem: as associações de protecção a animais juntam menos homens do que mulheres preocupados com acções voluntárias do cuidado ao outro. São na sua maioria constituídas por mulheres. E não apenas as solteironas como eu, as que não têm filhos ou as viúvas e divorciadas, tudo mulherio perdido para o sexo até ver, que se vai entretendo com acções de benfazer. Estão cheias de mulheres casadas, com filhos, netos, trabalhos, absolutamente convictas que mais vale limpar as boxers de 50 cães do que passar uma tarde a aturar os complexos de superioridade dos maridos.
Tudo isto me leva a pensar que os homens, de forma geral, não gostam de cuidar, não querem cuidar, não lhes interessa o sofrimento alheio. Eles são todos "muito bons"! Nunca conheci um que pensasse não ser. E quando se lhes mete na cabeça que, para além de serem muito bons, são também muito idóneos e respeitadores, fazendo tudo como deve ser, aceitando a inevitabilidade da mudança, da vida, ainda pior. Cobardolas, é o que é! Quem os pode aturar! Até eu prefiro limpar as boxes da União Zoófila de fio a pavio, lavando o chão de joelhos com um esfregão encharcado em lexívia.

domingo, setembro 14, 2008

Donos de cães







No meu bairro são os donos de cães que estabelecem as melhores relações de vizinhança. Excepção seja feita aos donos de roteveilers, pitebules e raças concorrentes. Não compreendemos a mística do pitebule. Detestamos esses donos, não os animais sempre presos por trela curta, sempre afastados dos outros. Eles detestam-nos porque trazemos os cães à solta, podendo aproximar-se dos deles, ferozes, donos da rua, e porque os referidos cães os tornam, digamos, pessoas importantes. Para os nossos cães um pitebule é apenas um animal. Querem cheirá-lo.
Os donos dos cães normais, ou seja, rafeiros de pêlo curto e pêlo comprido, caniches, bolas peludas, salsichas falsificados conversam animadamente em qualquer troço do caminho. As primeiras conversas são sobre os nossos animais. Ai, o que é que dá de comer ao seu? E põe sal? Veja lá que quando o meu saiu do sofá deixou uma mancha de sangue; fui a ver e era dum testículo. A minha é muito mansinha. É cadela ou cão? Ah, ainda bem, porque o meu é cão. Este é um paz d' alma. Qualquer cão lhe impõe respeito. E já viu o tamanho dele? Olhe, não vá para ali que já lá passei e vi aquela mulher horrososa com o pitebule que morde. Tive de dar uma palmada no meu. Atravessou a estrada a correr. É um perigo. Qualquer dia é atropelado. A minha, no outro dia, ficou ali mesmo no meio de dois carros que passavam. Foi uma sorte.
Claro que passada a fase do diálogo canino, vem a discussão sobre outros temas da actualidade: dizer mal do Governo em todas as vertentes possíveis e imaginárias; falar do custo de vida; contar histórias começadas por "isto faz-me lembrar", relatar encontros com os fiscais da câmara que não deixam os nossos cãezinhos pisar meio metro quadrado de relva, mesmo que já tenham feito as necessidades todas. Estamos convictos que a culpa é toda atribuível à nossa presidente da Câmara, que não passa de uma tia que gostava de ser fina, mas que não é, embora se farte de imitar. Dizer mal da presidente da Câmara também liberta muito. Pessoalmente, é dos meus temas preferidos, a par das pragas rogadas ao Governo.
Como se imagina, estes encontros de donos de cães e respectivos animais dão azo à descoberta de novas pessoas e ao estabelecimento de relações que podem revelar-se gratificantes. No outro dia tive a veleidade de alimentar pensamentos pecaminosos relativamente a um vizinho da minha idade, sem aliança, giro, bem vestido, com dois cães que são um amor. Tão simpático. Tão bem falante. Mas hoje estive observá-lo melhor. A forma como fala quando se emociona, como anda, a sua gentileza, até a sua abertura e simpatia me dizem que é gay. É gay, gay, gay. Ponho as minhas mãos no fogo. Tenho este azar de seleccionar como homem ideal, entre todos os homens possíveis, um gay. Assim uma pessoa não desencalha.

sexta-feira, setembro 12, 2008

A meteorologia do amor



Consigo escutar o vento na foto de Cartier-Bresson que ilustra o texto aqui publicado anteontem. Faz um frio de rachar, e a atmosfera carregada de humidade, de gotas de água salgada, cheira a mar batido. Rodeados pela intrepidez da natureza invernal, sentindo-a, contudo imunes a ela, os amantes sorriem. Sorririam se nevasse, se chovesse, se a temperatura baixasse para níveis insuportáveis. Desejam estar juntos e esse desejo suplanta a necessidade de conforto. O conforto é estarem juntos, sejam as condições o que forem.
Reconhecemos estes sentimentos desde o tempo em que vivemos um amor. Éramos novos e não tínhamos casa exactamente nossa onde os beijos, os afagos inocentes, depois adiantados, pudessem esconder-se. Deambulávamos pelos locais mais ou menos desertos. No Inverno, na praia gelada, fazíamos amor na areia, sentindo-a húmida debaixo de nós. Enregelávamos. Constipávamo-nos. A Costa da Caparica era um lugar muito apropriado para o amor. As praias mais afastadas estavam desertas. Mas também me lembro do vento cortante que fazia sempre em Cacilhas, enquanto nos aninhávamos num canto do cais dos cacilheiros para nos enrolarmos em beijos, no calor dos peitos quase afogados. Ainda passo por lá e sei apontar os cantinhos onde beijei os beijos mais afogueados, ao final da tarde, pela noite fora. Já não existe um café mesmo à saída dos barcos, onde nos recolhíamos da chuva. Era um café antiquado, com poucas mesas, muito frequentado por namorados. Na Cruz de Pau havia um outro café, junto à Estrada Nacional, que também procurávamos para fugir à chuva. Ainda existe. Tinha uns pastéis de bacalhau muito abatatados, e os mil-folhas eram de terceira qualidade. Por outro lado, o nosso porta-moedas tinha o dinheiro contadinho. Passo aí todos os dias. Para lá chegarmos tínhamos de nos ir abrigando das bátegas por debaixo das varandas da rua principal, a que desce até à Amora. Ficávamos tão encharcados no Inverno. Não tínhamos um lugar nosso. Éramos apaixonados que ocupavam o espaço público, viandantes.
A minha memória do amor é feita de molduras de frio, de chuva, de dificuldade.
Tive outras pseudo-amores depois desse amor. Menos difíceis, mais rodeados dos devidos equipamentos favoráveis à intimidade, mas não guardei memórias. Já nem me lembro do nome deles. O que aconteceu e onde e como, sei lá dizer! Mas o frio, o vento, e a chuva do amor autêntico perduraram na minha memória e nos meus sentidos até hoje.

À homem


Esta foi uma das fotos premiadas no World Press Photo de há dois ou três anos. Lamento ter perdido a referência autoral.


De novo no café do bairro, exercendo o mister do voyeurisme, actividade tão pouco praticada por estes dias.
Ao balcão, bebendo uma Super Bock, o rapaz de 20 e tal anos grita para o miúdo de 7, sentado a uma mesa com a tia:

- Então, pá, a escola começou hoje?
- Não. Na segunda.
- Eh lá, quero ver como é que te vais dar.
- Não sei.
- Não sabes mas vais saber. É para começar à homem, estás a ouvir, à homem.

Alguém deveria espalhar pelo bairro que as pessoas não podem falar assim à minha frente. Pergunto, o que será começar à homem? Começar à homem é melhor do que começar à mulher? Os resultados escolares demonstram que começar à mulher parece trazer mais vantagens. Cumulativamente, nas turmas onde existem mais rapazes do que raparigas os resultados tendem a baixar, o comportamento piora, revelam-se falhas de concentração e de estudo. Não há nada de errado com a inteligência dos rapazes. Passa-se que em grupo repudiam praticá-la para não parecerem gays nem toinos, e porque é muito mais divertido incendiar o conteúdo de um spray altamente inflamável com o isqueiro Bic. Começar à homem será começar com coragem? Os rapazes serão mais corajosos do que as raparigas? Do ponto de vista físico, talvez. Se aos sete anos já lhes fazem a lavagem cérebro-cultural do "à homem"...
Alguma alma caridosa fará o favor de me sugerir possíveis sentidos para a enigmática expressão?


quinta-feira, setembro 11, 2008

Uma coisa estúpida


Foto: Henri Cartier-Bresson, Generations


Quem teve uma vez um amor, e o perdeu, habitua-se a negar que tenha sido de facto amor. Diz-se, não foi amor, foi sexo, foi amizade, foi um impulso apaixonado, uma coisa estúpida que não deveria ter acontecido, porque não foi amor. Se tivesse sido, teria durado. Se tivesse sido, não teria acabado sem moral, sem história, dominadas as vontades pelo orgulho, pelo silêncio, pelo "se pensas que não me safo, estás bem enganado(a)". Porém, resguardados os casos em que o afecto e a raiva nunca se confundiram para ser breve vencidos pela intimidade e pelo desejo, é muito provável que tenha havido amor. Um amor que acabou mas não morreu, que viaja através do tempo recusando fixar-se num passado qualquer onde possa definhar em silêncio. Um apêndice imaterial vogando sobre as nossas cabeças, sorrindo e exclamando, olha, estou aqui. Sei que não me queres, mas deste-me vida há 10, 20, 30 anos, criaste-me, e agora acompanho-te, sigo os teus passos, acordo contigo, adormeço contigo, e dou-me ao luxo de interferir nos teus sonhos e pesadelos. Quem teve um dia um amor e o perdeu sabe que isto se sente desta forma.
Por isso, o amor do passado não foi uma ilusão, embora preferíssemos. Os seus sujeitos pensam nele como um incómodo, um vício maléfico do pensamento de que são os únicos culpados. Porque para eles esse amor nunca existiu, nunca existiu.

A vida noutras dimensões


O grande acontecimento científico da década, não pretendendo exagerar, prende-se com a entrada em funcionamento, ontem, com total sucesso, do maior acelerador de partículas do mundo, o LHC, construído em forma de anel, com 27 quilómetros de comprimento, a 100 metros de profundade, sob a fronteira franco-suiça. Os físicos pensam que as experiências que levarão a cabo lhes permitirão compreender mistérios por desvendar, relacionados com a existência do universo no qual os seres humanos se incluem. Nomeadamente, qual a energia que provoca a expansão contínua do universo, onde está a antimatéria e que outras dimensões existem para além das conhecidas. Conviria que cada um de nós tivesse consciência da importância de um projecto que se desenvolve numa área de cariz tão ontológico. Teoricamente, a física já provou a existência de seis dimensões, mais duas do que as que conhecemos: altura, largura, comprimento e tempo, sendo que a última apresenta complexidade. Procurar duas novas dimensões e encontrá-las implicará uma revolução científica, logo humana, civilizacional, para além de que transformará a ficção científica em ficção literária comum. Um novo mundo, melhor que este, poderá ter-se iniciado ontem. Gostaria de conhecê-lo ainda no meu tempo de vida.

segunda-feira, setembro 08, 2008

Ética 1



A dor

"A dor é má e quantidades similares de dor são igualmente más, seja quem for aquele que sofre. Incluo aqui no termo «dor» todos os géneros de sofrimento e de angústia. Isto não significa que a dor seja o único mal ou que seja sempre errado infligir dor. Por vezes pode ser necessário infligir dor e sofrimento a nós próprios ou aos outros. Fazemo-lo a nós próprios quando vamos ao dentista e fazemo-lo ao outro quando repreendemos uma criança ou prendemos um criminoso. Mas isso justifica-se porque a longo prazo conduzirá a menos sofrimento; a dor em si não deixa de ser um mal. Inversamente, o prazer e a felicidade são bons, seja quem for aquele que os possui, mas pode ser errado fazer certas coisas, como maltratar os outros, de modo a conseguir prazer ou felicidade."


Peter Singer, Escritos sobre uma Vida Ética

sábado, setembro 06, 2008

A pecar na santa paz do Senhor


Jose Mantero, padre espanhol que afirma ser gay

Os homossexuais católicos ibéricos reúnem-se em Évora, no último fim-de-semana de Setembro. Durante o encontro decorrerão palestras, debates e orações. Esta iniciativa merece destaque entre todas as outras que juntam grupos homossexuais, porque, como se sabe, não existem homossexuais católicos, nem as hierarquias da Igreja têm a ver com isso, porque, como é óbvio também não existem padres homossexuais. Mais, a expressão do desejo só existe no contexto procriativo da família, essa sim, a célula sagrada da Igreja e da sociedade.
Os promotores deste encontro informaram as estruturas da Igreja, solicitando um sacerdote para prestação de serviço espiritual. Se o arcebispado de Évora recusar, o que penso virá a acontecer, o problema resolve-se da seguinte forma:
um padre espanhol que acompanha o grupo de Málaga poderá ministrar os serviços religiosos.
Não sei o que é que a Igreja Católica vai fazer com estes fiéis que agora se dizem homossexuais, mas que está aqui um lindo problema, está. Não os podem abençoar. Não podem dar-lhes a comungar o corpo de Cristo. Não os podem casar segundo a lei de Deus. Só se os exorcizarem, regando-os com muita água benta, na tentativa de lhes arrancarem aquele bicho das entranhas. Ah, que saudades dos tempos em que estavam todos arrumadinhos no quarto escuro a pecar clandestinamente e na santa paz do Senhor sem incomodar a ordem estabelecida.

Sem esperança


Segundo a edição de hoje do jornal Expresso, o governo angolano recusou vistos a jornalistas do Expresso, SIC, Visão, Renascença e Público como forma de retaliação pelo que nestes espaços é livremente noticiado sobre o país ou para melhor controlar a cobertura mediática das eleições.
Escrevi governo angolano, mas enganei-me. Não existe governo em Angola. O que existe é uma maioria tribal vestida à europeia, exercendo impiedosamente o poder do soba e enriquecendo à custa do cargo que exerce. Sabemos que José Eduardo dos Santos é multimilionário, mas não conhecemos a origem dos seus rendimentos. Gostaríamos de conhecer. Não ficava nada mal que apresentasse ao povo angolano a sua declaração de rendimentos. A sua e a dos seus capangas, também chamados apoiantes do MPLA. Claro está que se o líder da oposição ocupasse o cargo de José Eduardo dos Santos, eu estaria aqui a escrever as mesmas exactas palavras. Não há esperança. O problema angolano é um problema africano: excesso de pensamento e autoritarismo tribais.


quarta-feira, setembro 03, 2008

Não há sandes para ninguém




Tenho a certeza que após a seca que ontem apanharam sobre dieta, estão à espera que vos faça uma apreciação mediamente inteligente sobre a actualidade, ou que escreva um apanhado sobre os quase invisíveis paradoxos da existência e do quotidiano. Para variar. Mas não, hoje é dia de... relatório da dieta.

1. Ando com os nervos à flor da pele. Sou capaz de chorar se partir o bico de lápis ou me cair ao chão a rolha da garrafa de água.

2. Fui inscrever-me no cardiofitness. O coach é um senhor de 60 anos com um aspecto muito saudável, muito sorridente e muito simpático. Disse que me ia ajudar a queimar aqui e acolá. Gostei mesmo dele. Gostar das pessoas é uma excelente motivação para me pôr a fazer algo que detesto. Infelizmente, parece que estar sentada ao computador ou no sofá não emagrece tanto como esperava.

3. Os tachos de teflon são um verdadeiro milagre. Permitem cozinhar quase tudo com uma colher de azeite. Dentro do que se podem considerar os limites do fascínio em trens de cozinha, posso dizer que estou fascinada.

4. Normalmente comemos os cogumelos afogados em molhos. Mas hoje fi-los salteados só com sal, para acompanhar outros legumes, e nunca imaginei que fossem tão saborosos. Carimbo de aprovado.

5. Uma das vantagens da dieta é comer muito menos carne. Não gosto de comer carne, embora admita ser saborosa ao paladar. Hoje ouvi na TSF que os chineses estão espantados com dois cães-guia pertencentes aos atletas paraolímpicos. Poucos lhes fazem festas, manifestando, a maior parte deles, repulsa pelos animais. O locutor lembrou que os chineses comem carne de cão. Não era preciso lembrar. Pensei nas minhas cadelas, que estão por aqui deitadas à minha volta enquanto escrevo. Toda a gente sabe que eu adoro animais. Praticar violência sobre um animal é-me uma ideia totalmente insuportável. Mas a verdade é que a nossa cultura se apressa a condenar os chineses, que têm efectivamente imensos telhados de vidro, e nós também comemos carne de vaca e de porco e de coelho e, pior, de vitela, de leitão, tudo bebés de mama. Uma carnificina infame de inocentes. E não me venham dizer que uma vaca tem menos inteligência, menos sensibilidade e é menos capaz de afeição do que um cão.

6. Gosto de tudo o que tenho cozinhado. Não sinto apetite. Tenho preparado alimentos de fácil confecção e saem-me saborosos. Contudo, sinto que passo demasiado tempo na cozinha. Pelo menos muito mais do que aquilo a que estou habituada. A sandes despacha muito, e agora não há sandes para ninguém. Creio que uma das razões por que como o que não devo tem a ver com o facto de detestar perder tempo a cozinhar. Por tal razão, peço muito encarecidamente aos leitores e leitoras que me deixaram mensagens tão amorosas no poste anterior, que por favor me enviem as vossas receitas simples, hipocalóricas, que exijam um mínimo de tempo de preparação, e que incluam sobretudo legumes, peixe, tofu, seitan, queijo, e nada de carne. Prometo que se emagrecer produzirei uma tira que poderão usar no layout dos vossos blogues; qualquer coisa como "Eu também ajudei a Isabela a emagrecer".

7. Tenho de ficar muito magrinha como este senhor. As vantagens são assinaláveis.

terça-feira, setembro 02, 2008

Dos legumes


Ando a fazer dieta pela quadragésima vez desde que comecei a respirar. Faço-a porque a gordura me deixa infeliz e me limita. Mas a dieta deixa-me igualmente infeliz e limitada, e ao olhar para uma cenoura, um pêro, um grelo de bróculo, perco rapidamente a vontade de sorrir, pensar e escrever uma linha. O médico diz que tenho de entrar em dieta para toda a vida, que isto não é só coisa para durar seis meses, um ano. Que tenho de me reeducar alimentarmente, aprendendo a viver como se não tivesse uma perna. Que deprimente! Tudo. Mas toda a vida sem comer pãozinho alentejano com queijo ou chouriço do bom, sem arroz-doce, sem leite creme... Até me vêm as lágrimas aos olhos.

segunda-feira, setembro 01, 2008

Na moda II


Para comemorar o início do ano escolar, resolvi hoje oferecer aos leitores uma questão lexical, desta vez relacionada com o uso impróprio do vocábulo "energético".

Enérgico e energético são dois adjectivos derivados do vocábulo energia, mas com significados distintos.

É energético aquilo que produz energia. É enérgico aquilo que tem energia. Portanto, as pessoas e os animais são enérgicos, ou seja, têm energia, são animados por ela. As pessoas não são energéticas, porque não são produtoras de energia.
Energético é o carvão, o petróleo, a cafeína
, componentes da bebida Red Bull e das pastilhas de ecstasy. Fornecem energia.
Há compostos energéticos, bebidas energéticas, centrais energéticas, mas pessoas energéticas, não.


O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...