
sábado, novembro 29, 2008
Nacionalização dos bens de Fernando Pessoa

domingo, novembro 23, 2008
O maior drama do mundo civilizado

O que é a escola? O que foi a escola desde o tempo dos gregos, em que não se aprendia álgebra nem filosofia para fins profissionais?! Na minha opinião, a escola é o lugar onde nos mostram como se poderá chegar à sabedoria, mediante uma quantidade razoável de esforço e persistência; o docente revela-nos onde se encontram guardados os mistérios que ainda não conhecemos, todos os princípios gerais sobre o funcionamento do nosso mundo, e ajuda-nos a ler teorias eventualmente complexas, a pensá-las, tornando-as mais transparentes ao recriá-las através de metáforas e alegorias, para que possamos ver mais facilmente, ou seja, criar o percurso que nos levará ao saber. A escola não é um livro aberto, uma definição. A escola não serve para ensinar o que já é sabido. Ninguém vai à escola para aprender a dizer "bué da fixe". Já sabemos dizer "bué da fixe". No máximo, iremos à escola estudar o contexto de formação das gírias.


sábado, novembro 22, 2008
Tudo o que há para aprender sobre o amor
Lucien Freudquinta-feira, novembro 20, 2008
Princípios da leitora revoltada

sexta-feira, novembro 14, 2008
Fusão
Lá estarás à minha espera, no final. O meu coração há-de sobressaltar-se, quando te vislumbrar na distância, e hei-de, num segundo, rememorar todo o nosso amor, cópia total do que me dedicas. E a falta, a ausência, a distância será recompensada nesse abraço que dermos, que não será um reencontro, um mero abraço e um beijo, mas a merecida fusão das nossas almas, para não mais se desencontrarem.
quarta-feira, novembro 12, 2008
Não vivemos em democracia
A democracia não funciona. É grave termos chegado ao século XXI com um sistema governativo que continua a não saber representar aqueles que o elegem, e que permite que pelas falhas mal vigiadas da sua tessitura penetre toda a espécie de aldrabões e caciques. O que se passou a semana transacta no parlamento da região autónoma da Madeira é a prova de que a democracia é um sistema frágil, facilmente usurpado pela autocracia. Numa democracia genuína, Alberto João Jardim e os seus partidários nunca teriam permanecido tanto tempo no governo. Numa democracia genuína não seria possível eleger como deputado um individuo chamado José Manuel Coelho, que até possui uma bandeira do partido nazi para chamar aos outros... nazis. Numa democracia que repressentasse efectivamente a voz do povo, e os seus anseios, um ministério teria obrigatoriamente de rever uma política na qual não se revêm 80 por cento dos seus funcionários. Uma ministra da Educação cega aos protestos da quase totalidade dos funcionários do seu ministério não destoaria no governo do Dr. Salazar, se vivêssemos nesse tempo e contexto, e nesse caso não estranharíamos. É que nessa altura não tínhamos uma democracia. Ou tínhamos? Sinceramente, tenho cada mais dificuldades em perceber a diferença. É por isso que me parece que a democracia não está a funcionar.
segunda-feira, novembro 10, 2008
Talheres feitos de batata
Caixas para levar comida feitas a partir de cana do açúcar, copos em cuja manufactura entra xarope de milho e talheres feitos a partir de batata. No meu tempo, desculpem, no meu tempo, a cana do açúcar mastigava-se e chupava-se, e era uma extraordinária fonte de energia, o xarope de milho entrava na nossa alimentação, e a batata, enfim, a batata comia-se com couves e bacalhau. É provável que eu seja uma conservadora, no final de contas, porque me aflige que as coisas mudem a um ponto em que se podem fazer talheres da alimentícia batata. Mas afinal não há no mundo escassez de alimentos?! Andarei mal informada?
Ouvi esta descrição de produtos feitos a partir da cana, da batata e do milho num programa da Oprah dedicado ao dia da Terra. A actriz Sandra Bullock, convidada da apresentadora, é proprietária de um restaurante algures na Califórnia onde todos os produtos take away são biológicos, biodegradáveis. Nada de plástico. A questão que ponho relativamente aos assuntos que me incomodam é sempre a mesma: porque é que isto me incomoda? Porque é que acho que o caminho para um melhor ambiente não está em transformar alimentos em objectos usa-deita-fora? Bem, em primeiro lugar, porque na minha lógica antiquada, os alimentos devem alimentar, antes de mais nada. Num mundo onde a carência alimentar continua a reinar, parece-me um insulto fazerem-se talheres a partir de batatinhas que haviam de encher a barriga a quem as comesse. Parece-me um insulto que se plante seja o que for para se fazerem objectos, ou usar como combustível.
Em segundo lugar, incomoda-me a filosofia do usa-deita-fora, que transforma o nosso planeta numa enorme lixeira. Quanto era pequena todos vivíamos doutra maneira. Tínhamos caixas e copos de plástico que reutilizávamos até ao esgotamento. Deitamos hoje fora embalagens que, noutros tempos, se nos viessem parar às mãos, guardaríamos religiosamente e serviriam como contentor para qualquer outra coisa.
E mesmo pensando positivamente que todo aquele material plástico será reciclado, ele será reciclado para outros produtos que se destinam a deitar fora, perpetuando o ciclo do lixo, ou que não têm utilidade alguma: este fim-de-semana, após uma gigantesca limpeza cá em casa, a minha mulher-a-dias disse-me que a maior parte do plástico reciclado é usado para se fazerem flores artificiais, daquelas que se põem no cemitério. Parecia deliciada com a posse deste conhecimento, mas, oh, como odeio as flores artificiais, que não são flores! Não é possível reciclar o plástico para algo mais sólido e durável, como banheiras, bancos de jardim, peças para automóveis?!
domingo, novembro 09, 2008
A escola, o Inferno

O filme é fraquinho, com personagens estereotipadas, como o professor bonzinho e sensível, o professor inflexível e racional, o director carrancudo e formal, as professoras preocupadas com os problemas docentes dos colegas, por quem podem ter um eventual fraquinho, e os alunos problemáticos, todos imigrantes.
Contudo, como disse, o filme vende. Tenho uma teoria: todas as pessoas sentem uma certa nostalgia da escola, de onde saíram e onde não regressaram. Sentir saudades da escola é uma forma de nos mantermos ligados à nossa juventude e a esse tempo bom em que éramos apenas limitadamente responsáveis. Ainda não tínhamos de ser adultos nem de levar com todo este lixo social e profissional que aguentamos todos os dias. Há uma certa aura de inocência e de liberdade ligada a esses tempos. Por isso, todos têm opiniões sobre a escola, como pais ou como observadores. Todos lá queriam estar para mudar, para fazer melhor, para transformar todos aqueles rapazes e raparigas perdidos para o ensino em Clubes de Poetas Vivos.
Mas a escola real tornou-se um lugar deprimente onde ninguém é livre. Já não há lugar para os bons professores, aqueles que entusiasmavam uma turma sem quadros interactivos, apenas com a voz, um texto, o quadro negro, um pau de giz. Estamos na era da aula em power point, com uniformização dos procedimentos. O bom professor é o que aguenta 12 horas de trabalho, que os power points dão trabalho, não mija fora do buraco, aguenta as bocas dos alunos que consideram a matéria uma merda, e até lhes perguntam, então e por que acham V. Exas. que é uma merda? Vamos dialogar. Os senhores não pensam, recusam pensar, não reconhecem o valor do pensamento, mas estou disposto a ouvi-los, façam favor de me sujar com a vossa opinião de rebeldes sem causa. Façam o favor de me insultar mais um bocadinho, porque é para isso que aqui estou.
A escola tornou-se um lugar em que ensinar se transformou no que há de mais secundário. Importante é preencher papéis com planificações e objectivos que visam cumprir formalidades, e realizar reuniões para aferir critérios e competências e objectivos irrealistas, eduquês, eduquês para arquivo, porque no fundo, no fundo, no fundo, toda a gente na escola sabe que quer os alunos aprendam, quer não aprendam, são para passar. Todos os crimes são sem castigo.
Os nostálgicos da escola não haveriam de querer saber o Inferno em que esta se tornou.
quinta-feira, novembro 06, 2008
O meu ginásio
Ontem, no meu ginásio, o Preto Grande trouxe Bob Marley para comemorar a vitória de Obama. Todos dançavam reggae enquanto levantavam halteres, e o Camané veio perguntar-me se a música me estava a incomodar. Pelo contrário.
Gosto muito do meu ginásio de bairro, refundido, com salitre nas paredes mal pintadas, esfolado, cuja balança pesa cinco quilos acima do peso real, para enganar a massa muscular dos rapazes, e onde sou a única mulher no meio de tantos homens de todas as idades, raças e estratos sociais. Gosto que me venham cumprimentar quando entram, que se despeçam quando saem, e que, no entanto, mantenham relativamente a mim a distância e o respeito que me permitem não ter vergonha, não me sentir apenas uma gorda que precisa de perder peso e melhorar a sua condição física. Não sinto necessidade de parecer sexy, nem de parecer, como tantas vezes me aconteceu quando estava no meio de indivíduos do sexo masculino. Não há ali qualquer tensão sexual que alimente ou que sinta. Só gente a fazer exercício. Custa-me, mas o sacrifício deles também me dá alento. Observo-os gemendo enquanto levantam pesos que eu nem consigo mexer, o que acontece quando mudo para uma máquina de onde eles saíram. Onde arranjam eles aquela força de animal? Ajudam-se mutuamente com os halteres, falam enquanto descansam, picam-se para ver quem aguenta mais e durante mais tempo, medem os bícepes com fita métrica, almejando ter ganho mais meio centímetro. São homens muito decentes, mas aquilo é outro mundo. O mundo dos homens é outro mundo.
Ontem reparei que o Preto Grande tem a sua foto de tronco nu no écran do telemóvel, fazendo músculo para a câmara. Parece um touro bufando. Acha-se lindo.
Sorri, continuo a sorrir: estes rapazes cultivam o corpo muito a sério!
quarta-feira, novembro 05, 2008
Apontamentos sobre a vitória de Obama
No café, um homem bastante jovem dizia, o Barraca Abana ganhou, não te dizia?!, agora é ver os pretos entrarem todos pela Europa acima. O companheiro de cerveja respondeu-lhe, não, estás parvo, querias que o outro ganhasse?! Nem pó!
E se o primeiro tem razão e os pretos entram mesmo pela Europa acima, e nós podemos descer livremente África abaixo, não seria tão bom?! Não seria tão bom sermos livres sem fronteiras, sem raças, com acesso a todas as oportunidades?! Com Obama, não tenho apenas muitas esperanças para a América, mas para o mundo. É preciso dotar os EUA de um serviço de saúde publico e decente. É necessário garantir o acesso à educação para todos. É sobretudo necessário diminuir a riqueza dos muito ricos e redistribui-la. A riqueza excessiva e os consumos associados são um insulto para a humanidade em geral. Corrompem. Criam cancros. A excessiva riqueza de uns implica a excessiva pobreza de outros, e é absolutamente necessário equilibrar esta balança. Isto implicará uma grande mudança, portanto um grande sofrimento. É preciso ter esta ideia presente: não há mudança sem um grande sofrimento.
Acredito que Obama poderá tornar-se uma tendência, como os ténis de marca, mas o seu oposto. Talvez o mundo inteiro se torne um pouco mais humano. Não escutam o sofrimento do mundo?! Eu escuto-o todos os dias. Aflige-me. Não me deixa adormecer. Nenhuma beleza, e o mundo é belo, pode eliminar o som de fundo, constante, do sofrimento que o atinge.
Alimento muita esperança de que os EUA, e a sua enorme influência ao nível dos comportamentos, olhem verdadeiramente para a geografia humana africana e não, como até agora, para os interesses económicos que advêm da enorme riqueza deste continente. Angola não é importante porque tem diamantes e petróleo, mas porque tem angolanos. Um melhor nível de vida em África trará a diminuição de conflitos armados, tornará a escravidão obsoleta. Tudo o que for possível fazer em África se fará pelo mundo.
Obama tem a enorme vantagem de ter tido contrariedades. Identifico-me muito com este homem que não veio de uma família burguesa bem colocada, que não tem nome de família: um pai precocemente falecido, uma mãe ausente; foi criado pela avó; trabalhou na área dos direitos humanos e do apoio às comunidades desfavorecidas. Meu Deus, é lá possível não apostar tudo nas ideias deste homem?! Na influência que poderá ter no mundo inteiro?! Acredito que ele ouve o sofrimento do mundo. Acredito nisto, tal como acreditei há nove meses atrás que ele seria o próximo presidente dos EUA.
segunda-feira, novembro 03, 2008
Não temos nada, temos tudo
Os tempos de crise proporcionam mudanças nos indivíduos e instituições. A crise é profícua porque nos obriga a esbracejar, a nadar bem ou mal para nos mantermos à tona, ou melhor, para nos salvarmos, partirmos para a próxima com esta lição sabida.
O mundo, vê-se, está a mudar: pessoas singulares e colectivas não têm dinheiro nem para mandar cantar um cego, o Estado português nacionaliza um banco em falência, a América prepara-se para eleger um presidente mulato. Finalmente chegou o novo milénio, e, provavelmente, um mundo novo.
domingo, novembro 02, 2008
Não quero morrer
Os cemitérios são lugares tenebrosos e solenes, como são todos aqueles cujo terreiro, alguns palmos abaixo dos nossos pés, se encontra juncado de cadáveres. Por dois motivos que me ocorrem: porque a putrefacção nos produz nojo (anunciou-se, nesta data, o concurso público para um incineradora no cemitério do Feijó) e porque o território de um cemitério pertence a essa gente sem corpo que teve uma vida, se alegrou, entristeceu, enraiveceu, pariu, matou, criou, sofreu, fez sofrer e, como recompensa, morreu. Tal intuição provoca-nos imenso respeito. Não queremos tomar grande consciência disso, afastamos os pensamentos com as duas mãos, mas aquele também será o nosso lugar. Hoje pude ver o sol, escutar os barulho dos pássaros nas árvores, escrever um texto, pintar as unhas de vermelho berrante, mas um dia as minhas mãos estarão debaixo de terra, o que é uma ideia insuportável, porque não imaginamos o nosso corpo desabitado, porque acreditamos ser a morte apenas esse lugar debaixo de terra. Se eu morresse agora, o meu cadáver apodreceria com as unhas impecavelmente esmaltadas, e este paradoxo faz-me sorrir.
Tenho medo da morte, como todos os animais. Não quero morrer nunca, o que é bastante normal no contexto dos seres encarnados. Contudo, acredito que a morte não é um drama, porque não destrói a existência do espírito. Creio, cega e firmemente, que o espírito perdura pelo infinito. Para mim, e para o padre Anselmo Borges, a morte é um lugar sem tempo: "sai-se do tempo e entra-se na eternidade. Na eternidade do nada ou na eternidade de Deus."
Comecei a desenvolver este pensamento razoavelmente cedo, creio que na adolescência. A ideia de uma falta de sentido para a existência, num mundo natural em que tudo tem obrigatoriamente um sentido, uma lógica, apavorava-me. Estas minhas preocupações encontraram refúgio na filosofia religiosa e aí se albergaram.
Por isso, para mim, comemorar o dia dos mortos implica lembrar e saudar o seu espírito eterno, e é isso que faço todos os anos.
sábado, novembro 01, 2008
Este amor
Às seis da manhã, talvez às sete ou às oito, se calhar às cinco, a Morena enfiou-se por dentro da roupa e aninhou-se no ângulo entre as minhas coxas e barriga, e ficou ali muito quentinha, muito cheia de pêlo macio e eu acordei e adormeci confortada com este amor.
O tempo de um gelado no McDonalds
Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...
