sábado, novembro 29, 2008

Nacionalização dos bens de Fernando Pessoa



A distância relativamente ao objecto de análise é, por vezes, condição essencial para o compreender com clareza.

Não tenho grandes dúvidas que o terreno, no valor de 300 mil euros, pertencente ao senhor António Martins, o qual faleceu sem ter deixado testamento, pertence por igual, ou percentualmente aos seus herdeiros, que o dividirão a gosto ou contragosto. Mas outros bens existem cujo valor e posse não se podem reger pelos artigos e alíneas do regime legal das heranças normais. Refiro-me a bens culturais e científicos, de valor universal, dificilmente quantificável, tal a sua importância histórica.

Tem havido, nas últimas semanas, basta discussão sobre o leilão dos bens de Fernando Pessoa, respectivos valores, interessados, e eventuais duplas vendas que a família do poeta parece ter realizado - ameaçando, agora, ter mais lotes para leilão. Acho graça à família Pessoa! Isto de se ser herdeiro de Pessoa é uma bela árvore das patacas! E que herdeiros? Os filhos? Netos? Não! Sobrinhos e primos afastados de uma família a quem Fernando Pessoa se fartou de envergonhar com o seu comportamento pouco dado ao trabalho e às coisas normais de uma vida decente de homem do Estado Novo.

O Fernandinho é poeta! Como se alguém comesse da poesia! São, pois, os herdeiros desta família, igual às outras famílias, que vêm agora reclamar dinheiro pelos manuscritos, rabiscos, capas de livros, folhetins de cordel, correspondência, sola velha de um sapato do tio, primo, cunhado afastado, objectos que não são e nunca foram sua pertença, apenas estiveram à sua guarda. Pague-se-lhes a guarda! Mas o que sobrou de Fernando Pessoa, seja o que for que sobrou, pertence em primeira instância ao mundo, e em segunda, porque o mundo é muito grande e disperso, ao Estado Português, que tem a obrigação de reunir, tratar e continuar a estudar esse espólio. Portanto, aos primos e sobrinhos que conheceram tão bem o tio, como eu, e pelos mesmos meios, não cabe dinheiro algum. Usarem-lhe o apelido considera-se crédito suficiente. Para mim o negócio é simples: leilão?!, qual leilão?!, nacionalização de todos os bens de Fernando Pessoa, já, e sem apelo. Quem suporta oportunistas?!

domingo, novembro 23, 2008

O maior drama do mundo civilizado



O filme A Turma, ainda em exibição, veio despertar as consciências para o que é hoje a escola, e as opiniões sucedem-se na blogosfera. Pretendo comentar esta, não porque discorde, mas porque me parece importante clarificar alguns aspectos.

O saber não ocupa lugar, dizia-me o meu pai todos os dias. Não estou a exagerar: era todos os dias. O meu pai nunca foi um sábio, pouco frequentou a escola, mas tinha a convicção de que o saber não era demais. Não estava em questão se esse saber me era ou me iria ser útil, mas o facto de ser sabedoria, e de o valor universal da sabedoria não admitir discussão. O meu pai estava certo. Lamento tudo o que não aprendi por preguiça ou arrogância.

O que é a escola? O que foi a escola desde o tempo dos gregos, em que não se aprendia álgebra nem filosofia para fins profissionais?! Na minha opinião, a escola é o lugar onde nos mostram como se poderá chegar à sabedoria, mediante uma quantidade razoável de esforço e persistência; o docente revela-nos onde se encontram guardados os mistérios que ainda não conhecemos, todos os princípios gerais sobre o funcionamento do nosso mundo, e ajuda-nos a ler teorias eventualmente complexas, a pensá-las, tornando-as mais transparentes ao recriá-las através de metáforas e alegorias, para que possamos ver mais facilmente, ou seja, criar o percurso que nos levará ao saber. A escola não é um livro aberto, uma definição. A escola não serve para ensinar o que já é sabido. Ninguém vai à escola para aprender a dizer "bué da fixe". Já sabemos dizer "bué da fixe". No máximo, iremos à escola estudar o contexto de formação das gírias.

A capacidade de ver, ou seja, de saber, não é definível como algo objectivo cujo fim serve para aplicação directa em a ou b. Nem eu nem a maior parte dos leitores sabemos exactamente para que nos serviu uma série de saberes que aprendemos na escola. É muito provável que alguns desses conteúdos tenham apenas sido um belo pretexto para disciplinar, estruturar a nossa matéria intelectual. O poder da leitura, por exemplo, age no leitor muito para além da fruição imediata que lhe chega da identificação com a acção e as personagens. Ler é também treinar a capacidade linguística. O que uma criança leitora faz enquanto lê é equivalente, do ponto de vista do desenvolvimento das suas capacidades linguísticas, ao treino diário de um atleta. Quando mais corre, quanto mais aguenta, melhor correrá, mais correrá, a sua performance tornar-se-á excelente. Por outrao lado, não existe um pensamento especulativo, criativo e produtivo sem capacidades verbais. Verbalizar melhor não implica apenas comunicar melhor, mas pensar melhor. O pensamento precisa da linguagem. Por isso a treinamos, lendo, não apenas para descobrir, chegados à pagina 327, que Simão vai para o degredo, coitadinho, e morre, e Teresa também, e que já agora, Mariana se suicida. Claro que tudo isto é sumamente interessante, mas o mais interessante ainda, é que de morte em morte se vai formando a capacidade de pensar. E é disso que precisamos no mundo: de pessoas capazes de pensar abrangentemente. Esta é a função da escola: produzir esses agentes de pensamento. Para a seguir criarem, transformarem.



Que um aluno do 8º ano questione a utilidade do uso do modo conjuntivo porque no seu meio não o utiliza, é grave. Não é apenas grave para o professor, coitado, mas para a sociedade no seu conjunto. O uso do conjuntivo não é uma opção porque o aluno lá em casa nunca ouviu, porque no seu bairro não se fala. A única falha admissível, para um falante de uma língua materna como o francês ou o português, é desconhecer que nome dar à estrutura verbal chamada conjuntivo, ou não saber quais as características línguisticas do modo em questão, mas deter a competência para o usar em situações comuns de fala é uma obrigatoriedade; deveria ser uma capacidade adquirida antes de chegar à escola. Quando pela primeira vez na minha vida estudei o modo conjuntivo, limitei-me a reconhecer e a nomear um modo que já usava a cada três minutos. Aprendi falando e ouvindo falar, porque os meus pais, e aqueles que me estavam próximos, e que não eram sábios, conjugavam o conjuntivo, intuitivamente, como normais falantes de Português, língua materna. Assim falavam os seus pais e os seus avós. A língua muda, está muito certo, mas cuidado com aquilo que na língua muda. As alterações lexicais, ortográficas, e até as semânticas, são diárias, e não afectam o "esqueleto" da língua, mas uma alteração ao nível da ordem sintáctica, como por exemplo o mau uso do conjuntivo, pode muito bem corresponder a uma espécie de eliminação da vértebra L1 ou C3. E os problemas nas vértebras, bem como tudo o que me meta coluna vertebral, dói muito.

Creio que o que estaria em causa, ao aceitar-se que um aluno não teria que conhecer o conjuntivo e saber usá-lo, seria uma amputação linguística com as consequências ao nível do pensamento. Seria aceitar igualmente uma amputação do pensamento. E isso tem acontecido. Estes alunos são a prova.



Se os alunos de hoje não reconhecem o conjuntivo e não o usam, é porque os seus pais também perderam essa capacidade de falar, logo pensar. Ou seja, os portugueses não sabem falar a sua língua; a ignorância linguística chegou a um ponto tal que não só a língua se degradou, como, consequentemente, se degradaram a identidade e outros valores fundamentais, sendo que um deles foi pensar-se que era possível viver sem esforço, sem disciplina.

Não é obrigação da escola adaptar-se à ignorância nem à preguiça nem à facilidade enquanto forma de vida, mas ensinar o conjuntivo a quem não o sabe, independentemente de o quererem usar, embora, eu, muito sinceramente, não esteja neste momento a ver a alternativa sintáctica a um "a minha mãe não quer que eu faça". Será que devemos dizer, "a minha mãe não quer que eu fazer"?! Estaremos a brincar ao linguajar dos bebés?!

Um dos objectivos nos quais assentou o actual modelo de ensino, obtendo total sucesso, teve a ver com o desenvolvimento do espírito crítico dos alunos. Creio que nunca os alunos tiveram tanto espírito crítico como nos dias de hoje, o que é óptimo quando se critica com argumentos, com base num discurso reflectido e bem articulado.

A escola de hoje, não vale a pena tapar o sol com a peneira, é um espaço de constante questionamento dos saberes, e isso é perfeitamente legítimo e desejável, desde que se baseie numa atitude de construção, desde que se cumpram as regras do debate; mas o questionamento gratuíto, só porque sim, porque não nos apetece, não tem estrada por onde caminhar, porque não lhe cabe resposta neste contexto. É para outro lugar.
Quando o professor do filme A Turma responde à aluna que a decisão sobre usar ou não um nível de língua cuidado depende da intuição, talvez faça mais do que o que lhe é pedido. Não se encontra de facto a responder a uma dúvida linguística, mas ao questionar de uma ordem do mundo: a língua tal como é falada por quem a fala correctamente, ou seja, segundo os alunos daquela turma, os burgueses; eu, por exemplo. O que a aluna lhe está a dizer é "eu não sou capaz de falar dessa forma, nem quero aprender, porque essa é a linguagem dos integrados, e eu não sou um deles." O que ela questiona é toda uma identidade. Um mundo. Porque a língua é isso: a identidade a que o uso do pensamento nos habilita, e em todas as suas acepções. Esse inábil questionar do mundo pode refectir-se na escola, mas cabe-lhe resolver-se fora dela, porque a escola obrigatória não pode ser um campo de batalha sem graves consequências para a qualidade das aprendizagens, nem os professores são soldados habilitados para tal combate.

Qualquer pessoa com valores devidamente formados sabe se pode usar com o interlocutor x a expressão "bué da fixe". Todos temos uma intuição sobre as relações de poder que permitem o uso de tal expressão. E essa aluna, à sua maneira, também a tem. Mantenho, pois, que a sua dúvida não é linguística, não é escolar, ou sê-lo-á apenas na medida em que as dúvidas existenciais são escolares. O problema principal que se põe na aula do professor deste filme é sobretudo um problema de valores. Aqueles rapazes e raparigas não sabem o que é falar bem ou falar mal como não sabem o que é pensar bem e mal. Falam. Pensam. Sentem qualquer coisa. Qualquer coisa que não está bem mas que não compreendem, como uma doença não diagnosticada. E nisso não se distinguem de um cão que ladra. Imitem sons, mas perderam o direito ao benefício do uso de uma língua, tal como perderem o poder que isso confere. São jovens destituídos de poder e de valores, num ciclo vicioso, o qual, como escreve a autora do poste que comento, não cabe à escola resolver. Os princípios da escola não se lhes aplicam. Podem ser integrados numa turma de currículos alternativos, o que lhes dará a eles, e à sociedade, a ilusão de estarem minimamente escolarizados; apenas frequentaram a escola, não a usaram. E eles têm a intuição disso. Têm-na, e é essa enorme frustração que trazem para a escola. Não poderem, não serem capazes de se tornar iguais aos que falam e decidem. Penso que esta perda de linguagem, de pensamento, de identidade, é um dos maiores dramas do mundo civilizado.


sábado, novembro 22, 2008

Tudo o que há para aprender sobre o amor


Lucien Freud

Fomos as três à praia, corremos, fizemos buracos na areia, lemos 20 páginas de um livro do Coeetze, bebemos chá e chegámos a casa bem ensonadas. Deitámo-nos, ainda havia réstias de sol no horizonte, e adormecemos na paz do universo. Acordámos por volta das 9; ouviam-se as múltiplas sirenes das ambulâncias e dos carros de bombeiros misturadas com as luzes poéticas da cidade. Um grande rebuliço lá fora e nós muito quentinhas na cama. Levantámo-nos brevemente. Comemos porque tínhamos fome. Fizémos xi-xi porque era uma urgência. Concluimos que se estava bem no ninho, por isso metemo-nos outra vez na cama, umas a ler, outras a dormir. Tapei as pernas da Micas e disse-lhe, se não estiverem quentinhas depois vão doer-te. Disse à Morena, chega-te para lá, que estás toda no meu lugar. Mexeu-se um bocado. Estivemos assim toda a noite. Apagámos a luz por volta da uma. Dormimos embaladas pelos sonos mútuos, ouvindo sem ouvir os ruídos produzidos, sentindo sem sentir os movimentos em que se muda o corpo de posição, uma perna, um braço, o tronco todo, e nos empurramos, e aconchegamos, e quando acordámos percebemos sem perceber, porque era sobretudo um sentimento inexprimível, que há muitos anos nos havíamos transformado em apenas uma.

quinta-feira, novembro 20, 2008

Princípios da leitora revoltada




Ontem, pelas sete e trinta da alvorada, ouvi Manuel António Pina dizer, na TSF, algo em que penso muito, no contexto de uma entrevista sobre a sua conferência na Fundação Luso-Americana a propósito de Ezra Pound. Parece que o escritor Ezra Pound tinha dois defeitos: era excelente escritor e melhor fascista, ou que, pelo menos, era excelente escritor e fazia a vénia a Mussolini, diz Manuel António Pina - eventualmente fa-lo-ia sobretudo por razões estéticas. Mas o que me ficou foi a afirmação de Manuel António Pina sobre não podermos esperar que um escritor não seja um homem como os outros homens, inclusive má pessoa, como qualquer um de nós.

Tenho a pior ideia possível dos escritores. Foi uma coisa que me aconteceu com a perda de inocência. Também acreditei, quando criança e adolescente, e jovem adulta, que os escritores estavam mais perto de Deus. Que esse dom da expressão, que é também um talento para construir viagens interiores, os excluía do odor pútreo da natureza humana. Mas não, uma boa parte dos escritores são más pessoas, e temos de viver com isso. São vaidosos ou corruptos ou arrogantes ou perversos ou tudo junto. Dizia Manuel António Pina que é absolutamente necessário separar a obra e o autor. Concordo. Teoricamente, defendo o mesmo. Não há, aliás, atitude intelectual mais séria. Contudo, na minha vida pessoal de leitora ainda tenho direito a escolhas, uma ou outra. E uma daquelas em que faço finca-pé é a de não ler a obra de filhos-da-puta. Não leio, pronto. Eh, pá, se calhar vou perder grandes lições de vida que até souberam enunciar embora não praticassem. Paciência. Livros de filhos-da-puta, fora da minha biblioteca. Renego todos os que já li. Foram por engano. Não quero escritores, quero boas pessoas. Estou cansada de génios, de gente bestial que tem nas mãos o poder da criação e dele se serve para destruir a pureza, a bondade, tudo o que resta de genuíno e bom. E os escritores não se salvam desta minha revolta. Quero lá saber se têm um ar tão frágil, tão terno, tão sensível!

sexta-feira, novembro 14, 2008

Fusão


Lá estarás à minha espera, no final. O meu coração há-de sobressaltar-se, quando te vislumbrar na distância, e hei-de, num segundo, rememorar todo o nosso amor, cópia total do que me dedicas. E a falta, a ausência, a distância será recompensada nesse abraço que dermos, que não será um reencontro, um mero abraço e um beijo, mas a merecida fusão das nossas almas, para não mais se desencontrarem.

quarta-feira, novembro 12, 2008

Não vivemos em democracia


A democracia não funciona. É grave termos chegado ao século XXI com um sistema governativo que continua a não saber representar aqueles que o elegem, e que permite que pelas falhas mal vigiadas da sua tessitura penetre toda a espécie de aldrabões e caciques. O que se passou a semana transacta no parlamento da região autónoma da Madeira é a prova de que a democracia é um sistema frágil, facilmente usurpado pela autocracia. Numa democracia genuína, Alberto João Jardim e os seus partidários nunca teriam permanecido tanto tempo no governo. Numa democracia genuína não seria possível eleger como deputado um individuo chamado José Manuel Coelho, que até possui uma bandeira do partido nazi para chamar aos outros... nazis. Numa democracia que repressentasse efectivamente a voz do povo, e os seus anseios, um ministério teria obrigatoriamente de rever uma política na qual não se revêm 80 por cento dos seus funcionários. Uma ministra da Educação cega aos protestos da quase totalidade dos funcionários do seu ministério não destoaria no governo do Dr. Salazar, se vivêssemos nesse tempo e contexto, e nesse caso não estranharíamos. É que nessa altura não tínhamos uma democracia. Ou tínhamos? Sinceramente, tenho cada mais dificuldades em perceber a diferença. É por isso que me parece que a democracia não está a funcionar.

segunda-feira, novembro 10, 2008

Talheres feitos de batata


Caixas para levar comida feitas a partir de cana do açúcar, copos em cuja manufactura entra xarope de milho e talheres feitos a partir de batata. No meu tempo, desculpem, no meu tempo, a cana do açúcar mastigava-se e chupava-se, e era uma extraordinária fonte de energia, o xarope de milho entrava na nossa alimentação, e a batata, enfim, a batata comia-se com couves e bacalhau. É provável que eu seja uma conservadora, no final de contas, porque me aflige que as coisas mudem a um ponto em que se podem fazer talheres da alimentícia batata. Mas afinal não há no mundo escassez de alimentos?! Andarei mal informada?
Ouvi esta descrição de produtos feitos a partir da cana, da batata e do milho num programa da Oprah dedicado ao dia da Terra. A actriz Sandra Bullock, convidada da apresentadora, é proprietária de um restaurante algures na Califórnia onde todos os produtos take away são biológicos, biodegradáveis. Nada de plástico. A questão que ponho relativamente aos assuntos que me incomodam é sempre a mesma: porque é que isto me incomoda? Porque é que acho que o caminho para um melhor ambiente não está em transformar alimentos em objectos usa-deita-fora? Bem, em primeiro lugar, porque na minha lógica antiquada, os alimentos devem alimentar, antes de mais nada. Num mundo onde a carência alimentar continua a reinar, parece-me um insulto fazerem-se talheres a partir de batatinhas que haviam de encher a barriga a quem as comesse. Parece-me um insulto que se plante seja o que for para se fazerem objectos, ou usar como combustível.
Em segundo lugar, incomoda-me a filosofia do usa-deita-fora, que transforma o nosso planeta numa enorme lixeira. Quanto era pequena todos vivíamos doutra maneira. Tínhamos caixas e copos de plástico que reutilizávamos até ao esgotamento. Deitamos hoje fora embalagens que, noutros tempos, se nos viessem parar às mãos, guardaríamos religiosamente e serviriam como contentor para qualquer outra coisa.
E mesmo pensando positivamente que todo aquele material plástico será reciclado, ele será reciclado para outros produtos que se destinam a deitar fora, perpetuando o ciclo do lixo, ou que não têm utilidade alguma: este fim-de-semana, após uma gigantesca limpeza cá em casa, a minha mulher-a-dias disse-me que a maior parte do plástico reciclado é usado para se fazerem flores artificiais, daquelas que se põem no cemitério. Parecia deliciada com a posse deste conhecimento, mas, oh, como odeio as flores artificiais, que não são flores! Não é possível reciclar o plástico para algo mais sólido e durável, como banheiras, bancos de jardim, peças para automóveis?!

domingo, novembro 09, 2008

A escola, o Inferno



Encontra-se em exibição, com assinalável sucesso, o filme A Turma, de Laurent Cantet, versando os temas quentes da escola dos nossos dias: uma insolência que consiste em considerar a ignorância legítima, sem argumentos, apenas porque é chato estudar, desafiando de forma desconcertante a utilidade do saber. Uma insolência confundida com diálogo, onde não existe sequer capacidade para o diálogo, apenas um desrespeito soez.
O filme é fraquinho, com personagens estereotipadas, como o professor bonzinho e sensível, o professor inflexível e racional, o director carrancudo e formal, as professoras preocupadas com os problemas docentes dos colegas, por quem podem ter um eventual fraquinho, e os alunos problemáticos, todos imigrantes.
Contudo, como disse, o filme vende. Tenho uma teoria: todas as pessoas sentem uma certa nostalgia da escola, de onde saíram e onde não regressaram. Sentir saudades da escola é uma forma de nos mantermos ligados à nossa juventude e a esse tempo bom em que éramos apenas limitadamente responsáveis. Ainda não tínhamos de ser adultos nem de levar com todo este lixo social e profissional que aguentamos todos os dias. Há uma certa aura de inocência e de liberdade ligada a esses tempos. Por isso, todos têm opiniões sobre a escola, como pais ou como observadores. Todos lá queriam estar para mudar, para fazer melhor, para transformar todos aqueles rapazes e raparigas perdidos para o ensino em Clubes de Poetas Vivos.
Mas a escola real tornou-se um lugar deprimente onde ninguém é livre. Já não há lugar para os bons professores, aqueles que entusiasmavam uma turma sem quadros interactivos, apenas com a voz, um texto, o quadro negro, um pau de giz. Estamos na era da aula em power point, com uniformização dos procedimentos. O bom professor é o que aguenta 12 horas de trabalho, que os power points dão trabalho, não mija fora do buraco, aguenta as bocas dos alunos que consideram a matéria uma merda, e até lhes perguntam, então e por que acham V. Exas. que é uma merda? Vamos dialogar. Os senhores não pensam, recusam pensar, não reconhecem o valor do pensamento, mas estou disposto a ouvi-los, façam favor de me sujar com a vossa opinião de rebeldes sem causa. Façam o favor de me insultar mais um bocadinho, porque é para isso que aqui estou.
A escola tornou-se um lugar em que ensinar se transformou no que há de mais secundário. Importante é preencher papéis com planificações e objectivos que visam cumprir formalidades, e realizar reuniões para aferir critérios e competências e objectivos irrealistas, eduquês, eduquês para arquivo, porque no fundo, no fundo, no fundo, toda a gente na escola sabe que quer os alunos aprendam, quer não aprendam, são para passar. Todos os crimes são sem castigo.
Os nostálgicos da escola não haveriam de querer saber o Inferno em que esta se tornou.

quinta-feira, novembro 06, 2008

O meu ginásio


Ontem, no meu ginásio, o Preto Grande trouxe Bob Marley para comemorar a vitória de Obama. Todos dançavam reggae enquanto levantavam halteres, e o Camané veio perguntar-me se a música me estava a incomodar. Pelo contrário.

Gosto muito do meu ginásio de bairro, refundido, com salitre nas paredes mal pintadas, esfolado, cuja balança pesa cinco quilos acima do peso real, para enganar a massa muscular dos rapazes, e onde sou a única mulher no meio de tantos homens de todas as idades, raças e estratos sociais. Gosto que me venham cumprimentar quando entram, que se despeçam quando saem, e que, no entanto, mantenham relativamente a mim a distância e o respeito que me permitem não ter vergonha, não me sentir apenas uma gorda que precisa de perder peso e melhorar a sua condição física. Não sinto necessidade de parecer sexy, nem de parecer, como tantas vezes me aconteceu quando estava no meio de indivíduos do sexo masculino. Não há ali qualquer tensão sexual que alimente ou que sinta. Só gente a fazer exercício. Custa-me, mas o sacrifício deles também me dá alento. Observo-os gemendo enquanto levantam pesos que eu nem consigo mexer, o que acontece quando mudo para uma máquina de onde eles saíram. Onde arranjam eles aquela força de animal? Ajudam-se mutuamente com os halteres, falam enquanto descansam, picam-se para ver quem aguenta mais e durante mais tempo, medem os bícepes com fita métrica, almejando ter ganho mais meio centímetro. São homens muito decentes, mas aquilo é outro mundo. O mundo dos homens é outro mundo.
Ontem reparei que o Preto Grande tem a sua foto de tronco nu no écran do telemóvel, fazendo músculo para a câmara. Parece um touro bufando. Acha-se lindo.
Sorri, continuo a sorrir: estes rapazes cultivam o corpo muito a sério!


quarta-feira, novembro 05, 2008

Apontamentos sobre a vitória de Obama


No café, um homem bastante jovem dizia, o Barraca Abana ganhou, não te dizia?!, agora é ver os pretos entrarem todos pela Europa acima. O companheiro de cerveja respondeu-lhe, não, estás parvo, querias que o outro ganhasse?! Nem pó!
E se o primeiro tem razão e os pretos entram mesmo pela Europa acima, e nós podemos descer livremente África abaixo, não seria tão bom?! Não seria tão bom sermos livres sem fronteiras, sem raças, com acesso a todas as oportunidades?! Com Obama, não tenho apenas muitas esperanças para a América, mas para o mundo. É preciso dotar os EUA de um serviço de saúde publico e decente. É necessário garantir o acesso à educação para todos. É sobretudo necessário diminuir a riqueza dos muito ricos e redistribui-la. A riqueza excessiva e os consumos associados são um insulto para a humanidade em geral. Corrompem. Criam cancros. A excessiva riqueza de uns implica a excessiva pobreza de outros, e é absolutamente necessário equilibrar esta balança. Isto implicará uma grande mudança, portanto um grande sofrimento. É preciso ter esta ideia presente: não há mudança sem um grande sofrimento.
Acredito que Obama poderá tornar-se uma tendência, como os ténis de marca, mas o seu oposto. Talvez o mundo inteiro se torne um pouco mais humano. Não escutam o sofrimento do mundo?! Eu escuto-o todos os dias. Aflige-me. Não me deixa adormecer. Nenhuma beleza, e o mundo é belo, pode eliminar o som de fundo, constante, do sofrimento que o atinge.
Alimento muita esperança de que os EUA, e a sua enorme influência ao nível dos comportamentos, olhem verdadeiramente para a geografia humana africana e não, como até agora, para os interesses económicos que advêm da enorme riqueza deste continente. Angola não é importante porque tem diamantes e petróleo, mas porque tem angolanos. Um melhor nível de vida em África trará a diminuição de conflitos armados, tornará a escravidão obsoleta. Tudo o que for possível fazer em África se fará pelo mundo.
Obama tem a enorme vantagem de ter tido contrariedades. Identifico-me muito com este homem que não veio de uma família burguesa bem colocada, que não tem nome de família: um pai precocemente falecido, uma mãe ausente; foi criado pela avó; trabalhou na área dos direitos humanos e do apoio às comunidades desfavorecidas. Meu Deus, é lá possível não apostar tudo nas ideias deste homem?! Na influência que poderá ter no mundo inteiro?! Acredito que ele ouve o sofrimento do mundo. Acredito nisto, tal como acreditei há nove meses atrás que ele seria o próximo presidente dos EUA.

segunda-feira, novembro 03, 2008

Não temos nada, temos tudo


Os tempos de crise proporcionam mudanças nos indivíduos e instituições. A crise é profícua porque nos obriga a esbracejar, a nadar bem ou mal para nos mantermos à tona, ou melhor, para nos salvarmos, partirmos para a próxima com esta lição sabida.
O mundo, vê-se, está a mudar: pessoas singulares e colectivas não têm dinheiro nem para mandar cantar um cego, o Estado português nacionaliza um banco em falência, a América prepara-se para eleger um presidente mulato. Finalmente chegou o novo milénio, e, provavelmente, um mundo novo.


domingo, novembro 02, 2008

Não quero morrer


Foto P.Gelonik

Comemorou-se ontem mais um dia dos mortos, ao qual nunca sou indiferente, embora já não vá ao cemitério neste dia, nem em nenhum. Desde que os restos mortais do meu pai passaram para uma gaveta, no cemitério do Feijó, acabaram-se as flores, não as homenagens. O assunto parece ter-se tornado tabu para a minha mãe, e para mim está bem assim: ir ao cemitério foi, durante os primeiros quatro ou cinco anos após a sua morte, uma trabalheira de fim-de-semana; o meu pai continua a ser recordado e homenageado, por mim e por ela, tenho a certeza, não tivesse a sua existência sido importante demais para conseguirmos esquecê-la.
Os cemitérios são lugares tenebrosos e solenes, como são todos aqueles cujo terreiro, alguns palmos abaixo dos nossos pés, se encontra juncado de cadáveres. Por dois motivos que me ocorrem: porque a putrefacção nos produz nojo (anunciou-se, nesta data, o concurso público para um incineradora no cemitério do Feijó) e porque o território de um cemitério pertence a essa gente sem corpo que teve uma vida, se alegrou, entristeceu, enraiveceu, pariu, matou, criou, sofreu, fez sofrer e, como recompensa, morreu. Tal intuição provoca-nos imenso respeito. Não queremos tomar grande consciência disso, afastamos os pensamentos com as duas mãos, mas aquele também será o nosso lugar. Hoje pude ver o sol, escutar os barulho dos pássaros nas árvores, escrever um texto, pintar as unhas de vermelho berrante, mas um dia as minhas mãos estarão debaixo de terra, o que é uma ideia insuportável, porque não imaginamos o nosso corpo desabitado, porque acreditamos ser a morte apenas esse lugar debaixo de terra. Se eu morresse agora, o meu cadáver apodreceria com as unhas impecavelmente esmaltadas, e este paradoxo faz-me sorrir.
Tenho medo da morte, como todos os animais. Não quero morrer nunca, o que é bastante normal no contexto dos seres encarnados. Contudo, acredito que a morte não é um drama, porque não destrói a existência do espírito. Creio, cega e firmemente, que o espírito perdura pelo infinito. Para mim, e para o padre Anselmo Borges, a morte é um lugar sem tempo: "sai-se do tempo e entra-se na eternidade. Na eternidade do nada ou na eternidade de Deus."
Comecei a desenvolver este pensamento razoavelmente cedo, creio que na adolescência. A ideia de uma falta de sentido para a existência, num mundo natural em que tudo tem obrigatoriamente um sentido, uma lógica, apavorava-me. Estas minhas preocupações encontraram refúgio na filosofia religiosa e aí se albergaram.
Por isso, para mim, comemorar o dia dos mortos implica lembrar e saudar o seu espírito eterno, e é isso que faço todos os anos.

sábado, novembro 01, 2008

Este amor


Às seis da manhã, talvez às sete ou às oito, se calhar às cinco, a Morena enfiou-se por dentro da roupa e aninhou-se no ângulo entre as minhas coxas e barriga, e ficou ali muito quentinha, muito cheia de pêlo macio e eu acordei e adormeci confortada com este amor.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...