Confesso que me dava muito mais jeito comemorar a passagem do ano a 7, 12 ou mesmo 24 de Agosto.
terça-feira, dezembro 30, 2008
Data imprópria
Confesso que me dava muito mais jeito comemorar a passagem do ano a 7, 12 ou mesmo 24 de Agosto.
domingo, dezembro 28, 2008
Monstros que a minha geração criou

A professora não gostou da brincadeira. O filme mostra-a ameaçando o aluno com falta disciplinar. Contudo, a simulação de um disparo com a pistola de plástico, e de socos, acompanhados da pergunta-ameaça, "então, dá positiva ou não dá?!" continua à sua frente e, quando se senta, nas suas costas. Ultrapassa a mera brincadeira, embora a professora se sinta impotente relativamente à situação. Pode marcar falta disciplinar, de facto, mas aquela é a última aula do período, o objectivo é apenas falar sobre classificações, fazer a auto-avaliação, sair mais cedo. Deveriam estar todos sentados nos seus lugares? Deveriam! Deveriam estar calados, ouvindo, para depois se pronunciarem? Deveriam! O que andam aqueles miúdos a fazer em pé, de volta da professora, gozando, numa atitude nada própria de uma sala de aula? O que pode um professor fazer, nos dias de hoje, perante uma situação de desrespeito grave, sozinho numa sala cheia de jovens que não possuem consciência do que seja isso do respeito, e à mercê de prováveis violências físicas ou verbais? Os professores já não geram medo, nem respeito, e a questão não está no não se darem ao respeito, mas no não conseguirem ser respeitados, porque já não se respeita ninguém. Essa é a lei.
Para estes miúdos dos bairro do Cerco ou da Quinta da Princesa ou das melhores escolas de Almada, tudo e todos devem servi-los, garantir o seu conforto, a sua predominância social e poder, que não dependem da cultura que adquiriram, mas da aparência que projectam.
Estes monstros foram criados pela minha geração.
A educação está mal, porque está seriamente doente fora da escola.
Para estes miúdos dos bairro do Cerco ou da Quinta da Princesa ou das melhores escolas de Almada, tudo e todos devem servi-los, garantir o seu conforto, a sua predominância social e poder, que não dependem da cultura que adquiriram, mas da aparência que projectam.
Estes monstros foram criados pela minha geração.
A educação está mal, porque está seriamente doente fora da escola.
Outros monstros
Outro monstro que entretanto se está criando: Esmeralda, a filha disputada entre pais afectivos e biológicos.
Ao mostrar-se feliz durante as actuais férias com o pai biológico, que deve mimá-la até aos limites do suportável, está a trair os pais afectivos, que entretanto a aguardam impacientes, desejando poder rapidamente mimá-la ultrapassando os outros, porque eles é que são os pais verdadeiros, eles é que são os melhores, e oferecem as melhores prendas. Duvido que esta criança tenha algum desejo não satisfeito. Na sua cabeça o mundo deve dividir-se entre quem cede muito e quem cede mais.
Ao mostrar-se feliz durante as actuais férias com o pai biológico, que deve mimá-la até aos limites do suportável, está a trair os pais afectivos, que entretanto a aguardam impacientes, desejando poder rapidamente mimá-la ultrapassando os outros, porque eles é que são os pais verdadeiros, eles é que são os melhores, e oferecem as melhores prendas. Duvido que esta criança tenha algum desejo não satisfeito. Na sua cabeça o mundo deve dividir-se entre quem cede muito e quem cede mais.
sexta-feira, dezembro 26, 2008
Cenários do Natal no meu bairro
1. Cenário: a minha rua e ruas adjacentes. As iluminações natalícias sino-histéricas diminuíram este ano uns bons cinquenta por cento.
2. Cenário: exposição de bolos nos cafés da minha rua: 18 horas do dia 24. O café dos homens e o café das senhoras não conseguiram, este ano, vender todos os bolos-rei, troncos de Natal, trufas de chocolate e azevias expostos para venda.
3. Cenário: café dos homens: 18h00 de dia 24. Todos bêbados. Para estes já não há ceia.
4. Cenário: contentores do lixo frente ao café das senhoras, meio-dia de 25 de Dezembro.
Um casal de ciganos romenos remexe caixas e caixas amontoadas ao lado dos contentores de lixo repletos, de onde tira camisolas, lençóis, objectos que não distingo bem. Uma senhora loura e alta vai passando, pára e diz-lhes, levem, levem... ainda dizem que há crise, que há miséria... e agora volta-se para mim e esclarece, eu trabalho num café... ontem, houve clientes que levaram aos 100 e 200 euros de valor em bolos e guloseimas... há agora miséria! Levem, levem, coitados...
5. Cenário: a minha televisão na SIC. Telejornal de um dia desta semana. Tema da reportagem: como passam o Natal aqueles que não são cristãos. Entrevistas a hindus, a chineses, japoneses, muçulmanos... Um muçulmano interrogado ganha o meu prémio "Natal a sério". Diz o senhor, passo o Natal rezando a Jesus, porque as escrituras da minha religião falam dele e dizem que há-de voltar. Devo dizer que tirando a minha mãe, que efectivamente reza durante o Natal, não conheço mais nenhum cristão que nesta época considere oportuno rezar a Jesus.
6. Cenário: ruas vazias, 15 horas do dia 25. O dia de Natal serve para curar a ressaca da comezaina e da bebida em excesso. Feriado religioso?!
2. Cenário: exposição de bolos nos cafés da minha rua: 18 horas do dia 24. O café dos homens e o café das senhoras não conseguiram, este ano, vender todos os bolos-rei, troncos de Natal, trufas de chocolate e azevias expostos para venda.
3. Cenário: café dos homens: 18h00 de dia 24. Todos bêbados. Para estes já não há ceia.
4. Cenário: contentores do lixo frente ao café das senhoras, meio-dia de 25 de Dezembro.
Um casal de ciganos romenos remexe caixas e caixas amontoadas ao lado dos contentores de lixo repletos, de onde tira camisolas, lençóis, objectos que não distingo bem. Uma senhora loura e alta vai passando, pára e diz-lhes, levem, levem... ainda dizem que há crise, que há miséria... e agora volta-se para mim e esclarece, eu trabalho num café... ontem, houve clientes que levaram aos 100 e 200 euros de valor em bolos e guloseimas... há agora miséria! Levem, levem, coitados...
5. Cenário: a minha televisão na SIC. Telejornal de um dia desta semana. Tema da reportagem: como passam o Natal aqueles que não são cristãos. Entrevistas a hindus, a chineses, japoneses, muçulmanos... Um muçulmano interrogado ganha o meu prémio "Natal a sério". Diz o senhor, passo o Natal rezando a Jesus, porque as escrituras da minha religião falam dele e dizem que há-de voltar. Devo dizer que tirando a minha mãe, que efectivamente reza durante o Natal, não conheço mais nenhum cristão que nesta época considere oportuno rezar a Jesus.
6. Cenário: ruas vazias, 15 horas do dia 25. O dia de Natal serve para curar a ressaca da comezaina e da bebida em excesso. Feriado religioso?!
quinta-feira, dezembro 18, 2008
O que é que o Natal tem?
São os grupos tradicionais de cantares da época, a culinária doce e salgada, os produtos alimentares que levam mais gordura e menos gordura, as possíveis ofertas de toda a espécie e preço, os contos e lendas, os que tiveram a sorte de nascer nessa noite ou nesse dia, os que por azar têm de trabalhar enquanto outros festejam, as ceias em moda nos hóteis de luxo, os locais ideais para as férias da época, a família que já não é o que era, ou ainda é, as crianças, os programas de variedades nos hospitais e nos lares de terceira idade, a caridade dos "anjos da guarda", os jantares de todas as entidades e empresas... desde o fim-de-semana passada que as revistas, jornais e programas de televisão se encheram de notícias e sugestões de Natal, que são as mesmas todos os anos, e começam montes de tempo antes do acontecimento propriamente dito. É que o Natal, se não estou em erro, é só daqui a uma semana. Com que outros assuntos natalícios estão a pensar torturar-nos até lá? Mas que grande frete uma pessoa tem de passar todos os anos! Como se diz em bom Português da minha rua, já deito Natal pela ponta dos cabelos
Inverno
Quando digo que no Inverno as manhãs são geladas, e anoitece cedo, não me refiro à meteorologia.
quarta-feira, dezembro 17, 2008
Da defesa da arte do copianço
Antes que eu me desmanche para aqui a rir sozinha, e ainda a propósito de plágios, esses cavalos alados, e antes que dê início à publicação de textos do Eduardo Pitta e do Pedro Mexia, e outros, como se fossem meus, que bem me apetecia, porque na blogosfera tudo é de todos e não há lei nenhuma, leiam-me com atenção esta pérola da ignorância e da argumentação para a roubalheira mais descarada.
Se calhar, a partir de amanhã passo a publicar aqui textos de referido blogue, e todos sob a minha assinatura. Peço desculpa se não gostarem. Mas segundo esta bloguista, é perfeitamente natural. E eu às vezes nem tenho tempo; dá-me jeito entreter os leitores com qualquer coisita que se possa ler e não ofenda.
Balha-me Deus!
terça-feira, dezembro 16, 2008
Atada com correntes de um ferro muito resistente
Foto: Julia Margaret Cameron, Generations (Family Circle), 1865No restaurante chinês, entre uma massa chau-min com gambas:
Mãe - A coisa está má, não está?!
Isabela - Está
Mãe - É o Sócrates. Ele é terrível.
Mãe - A coisa está má, não está?!
Isabela - Está
Mãe - É o Sócrates. Ele é terrível.
Isabela - É o Sócrates e a vida, de forma geral.
M. - Tens de aguentar.
I. (com lágrimas nos olhos) - Não aguento. Estou farta. Não aguento mesmo. A vida é muito triste.
M. - Então e os outros?! Pensas que para os outros é melhor?!
I. (engolindo as lágrimas) -A tristeza dos outros não me alegra.
M. - Mas a vida é assim, filha.
I. (a serena choradeira em curso) - Só queria largar tudo, arranjar trabalho em Moçambique, numa multinacional, ganhar bem para pôr cá dinheiro, vir a Portugal de seis em seis meses, pedir à Marília que tomasse conta de ti...
M. - Não. Não podes.
I. - Não posso porquê?
M. - Ela não vinha tomar conta de mim.
I. - Vinha, vinha, se eu lhe pedisse e pagasse.
M.- Moçambique já não é o que era. Pensas uma coisa e é outra. Agora há lá muitos assaltos. Olha, a tua madrinha que veio de lá há pouco tempo...
I. - A minha madrinha é uma racista, que queria continuar a tratar os pretos como os tratava no tempo do colonialismo, esperas que ela diga o quê?!
M. (silêncio...) Mas tens as cadelas.
I. - Levava as cadelas.
M. - Não podes.
I. - Mas porquê, mãe, porquê?
M. - Eu ia sentir muito a tua falta.
(Silêncio.)
I. - Então, a D. Lucinda já foi operada às cataratas?
domingo, dezembro 14, 2008
A cada manhã um novo plágio
Não tenho grande amor pelos textos que vou escrevendo. Duas semanas depois já os desbasto para metade, e no mês seguinte acho que não os deveria ter escrito.
Não há direitos de autor na blogosfera, portanto, conta-se sempre com uma ética tácita: ou seja, não me importo nada que venham cá copiar textos, e nem precisam de meter línques, desde que assinalem que aquilo foi escrito por uma tal Isabela. Se usam um texto meu e o assinam por baixo, por cima ou de lado, chama-se plágio. Ora, o plágio é bués de feio, os plagiadores são uns mentirosos de meia-tijela, eu detesto mentirosos e mentirosas, e, finalmente, alguém me escreveu a alertar para esta vergonha, por isso cá vai:
Nem se deu ao trabalho de lhe mudar o título, o que me ofende. Exige-se um mínimo de esforço. E parece que é o pão nosso de cada dia. Há por lá textos copiados da blogosfera inteira. Quem é que esta bloguista irá plagiar amanhã?!
sexta-feira, dezembro 12, 2008
Os dias
Os amigos escrevem-me, afirmando que se não actualizo o blogue com tanta frequência, isso quererá dizer que ando cheia de trabalho. Não é mentira, mas já andei, antes, com igual quantidade de obrigações, e escrevia mais.
A verdade é que a realidade me deprime e chega uma altura em que não sei sobre que escrever sem custos para a minha paz interior.
Não chega falar das dioxinas na carne de porco, é preciso chamar a atenção para a industrialização da morte de animais, em fábricas onde são tratados como meras peças de carne desde o momento do nascimento até à indigna morte. E isso faz-me sofrer. É preciso coragem para abordar o assunto.
Não basta falar das faltas dos deputados que elegemos para que nos representassem no parlamento. Seria necessário questionar de novo a democracia, o que se pensa ser este sistema e o que se faz dele. E isso faz-me sofrer.
Abordar a questão da luta dos professores por uma avaliação diferente seria fastidioso de extenso, e far-me-ia sofrer.
Deixei de acreditar no julgamento Casa Pia, embora conceda à juíza as melhores das intenções. O caso BPN não me interessa nem o do Banco Privado. Assuntos de bancos, sinceramente, só se for para levantamentos de dinheiro, e sem comissão, o que já nem na CGD é possível. Também me dava jeito que o meu banco me mandasse depressa o cartão de débito que substituirá o desmagnetizado, bem como o cartão de crédito com nova validade, porque, sinceramente, nestas condições está a ser difícil fazer as compras de Natal. Depois dizem que o consumo baixou!
Não tenho nada para dizer sobre os homens nem sobre as mulheres. Passam por mim, quase não existem. Os vizinhos de baixo, que não conheço, colocaram-me na caixa do correio um bilhete onde escreveram, sem erros, se perdeu um lençol, está cá em casa. Não perdi.
Basicamente, a única coisa que tenho para dizer é que tenho reparado muito que as actrizes e apresentadoras de tv com mais de 40 anos estão todas grávidas à porfia, e que o cancro agora também dá imensa capa nas revistas do coração, o que muito me espanta. Hoje de manhã fui à rua com as cadelas e verifiquei que a chuva vinha muito gelada. Em alguns lugares deve estar nevar. Eu já vi nevar uma vez. É bonito.
A verdade é que a realidade me deprime e chega uma altura em que não sei sobre que escrever sem custos para a minha paz interior.
Não chega falar das dioxinas na carne de porco, é preciso chamar a atenção para a industrialização da morte de animais, em fábricas onde são tratados como meras peças de carne desde o momento do nascimento até à indigna morte. E isso faz-me sofrer. É preciso coragem para abordar o assunto.
Não basta falar das faltas dos deputados que elegemos para que nos representassem no parlamento. Seria necessário questionar de novo a democracia, o que se pensa ser este sistema e o que se faz dele. E isso faz-me sofrer.
Abordar a questão da luta dos professores por uma avaliação diferente seria fastidioso de extenso, e far-me-ia sofrer.
Deixei de acreditar no julgamento Casa Pia, embora conceda à juíza as melhores das intenções. O caso BPN não me interessa nem o do Banco Privado. Assuntos de bancos, sinceramente, só se for para levantamentos de dinheiro, e sem comissão, o que já nem na CGD é possível. Também me dava jeito que o meu banco me mandasse depressa o cartão de débito que substituirá o desmagnetizado, bem como o cartão de crédito com nova validade, porque, sinceramente, nestas condições está a ser difícil fazer as compras de Natal. Depois dizem que o consumo baixou!
Não tenho nada para dizer sobre os homens nem sobre as mulheres. Passam por mim, quase não existem. Os vizinhos de baixo, que não conheço, colocaram-me na caixa do correio um bilhete onde escreveram, sem erros, se perdeu um lençol, está cá em casa. Não perdi.
Basicamente, a única coisa que tenho para dizer é que tenho reparado muito que as actrizes e apresentadoras de tv com mais de 40 anos estão todas grávidas à porfia, e que o cancro agora também dá imensa capa nas revistas do coração, o que muito me espanta. Hoje de manhã fui à rua com as cadelas e verifiquei que a chuva vinha muito gelada. Em alguns lugares deve estar nevar. Eu já vi nevar uma vez. É bonito.
segunda-feira, dezembro 08, 2008
O valor de uma Nossa Senhora de Fátima

Estou sempre a pensar no valor dos objectos, que é completamente aleatório, e não depende em absoluto do seu valor de custo.
Ultimamente deitei fora uma série de objectos que eventualmente teriam algum valor de troca, mas de que apenas pensava ver-me livre. Poupei outros que julgo não terem valor algum, mas que considero serem marcos dos quais não posso separar-me por agora. Destaco um de sândalo trabalhado que poderá servir como capa de esferográfica, se é que isto existe, e que trouxe da Índia quando lá estive há muitos anos. Não me lembro onde o comprei. Em tempos teve um bico e uma carga e escreveu. Agora é só um objecto que me evoca a Índia, sobretudo o desejo de voltar a esse continente. Tenho objectos da minha infância. Por exemplo, o valor do pisa-papéis que foi do meu pai, quando era menina, e que aqui está, é impossível de calcular para mim.
Quanto à bomboneira vermelha, da fábrica Raul da Bernarda, que a minha mãe levou para África no enxoval, que regressou nos contentores dos retornados, e que agora me serve de porta-lápis, é possível quantificar o seu valor, para mim?
Outro exemplo: quando o meu pai morreu, a minha mãe apareceu na capela mortuária com uma pequena estátua de Nossa Senhora de Fátima em plástico pintado, mostrou-ma às escondidas, e disse-me, ele tinha por Ela uma fé muito grande, era a sua madrinha, e devia ir com ele, vê lá se lha escondes no corpo. Deixou-ma nas nãos, e eu olhei para a pobre figurinha barata pensando que não valia a pena dizer-lhe que aquilo era apenas um objecto. Há situações em que mais vale deixarmo-nos ir na onda. Era verdade, o meu pai tinha uma fé enorme na santa; fora sua madrinha de baptismo e para a minha mãe era importante que aquele objecto o acompanhasse. Acerquei-me do caixão e num movimento muito rápido e sem testemunhas, que os rituais supersticiosos envergonham a morte católica, abri uma das mãozorras mortas do meu pai, não sei qual, e tentei fechá-la de novo sobre a Nossa Senhorazinha de faces doces. Não se fechou como eu queria. Apertei-a, tentando moldá-la com a minha, mas não se fechou. Ficou semi-fechada com a Nossa Senhora lassa no seu interior. Lembro-me das mãos inertes do meu pai, muito brancas e frias, mas ainda não enrijecidas. A santa lá foi para baixo de terra escondida no ninho da carne do meu pai, e por lá foi ficando, meia dúzia de anos, por entre a carne putrefacta do meu pai, os ossos descarnados do meu pai. Ainda lá estaria no dia em que lhe levantaram os restos mortais e a terão deitado para o lixo, descolorida, juntamente com a prótese da anca, o ferro no joelho, os restos do fato de boa fazenda, os sapatos e atacadores, e aquelas matérias que pertenceram aos defuntos, os fizeram, e contudo os vermes rejeitaram e não se consideram suficientemente dignas para ocupar espaço nas gavetas de ossadas.
A Nossa Senhora era um objecto sem valor. Tenho a certeza que o meu pai não foi para a morte mais protegido porque a levou fechada na mão. Contudo, foi para nós um acto importante, que de alguma forma nos alivou relativamente à desprotecção que aquele homem sofria agora que não lhe podíamos valer. Se já lá não estávamos nós, estivesse ao menos ao santa na qual ele cria. Um bocado de plástico que os coveiros deitaram para ao lixo, enquanto praguejavam contra a quantidade de objectos que as pessoas metem nos caixões, não perecebendo que nenhum ouro do mundo podia substituir aquela Senhora de plástico.
quarta-feira, dezembro 03, 2008
Um 2009 maravilhoso
Não há nada como, para terminar o dia, e uma pessoa se ir deitar bem disposta, dar uma boa gargalhada. Imaginem que um primeiro-ministro de um país europeu, no meio de uma crise económica danada, responsável pela descida das taxas de juro e do preço da gasolina, comunicava ao país que o ano de 2009 ia ser maravilhoso para os seus cidadãos, que o nível de vida ia melhorar muito, que iam ter mais dinheiro, exactamente porque as taxas de juro e a gasolina baixaram. Imaginem que, ao mesmo tempo, na sala ao lado, o seu ministro da Economia alertava para as necessárias resistências a desenvolver para sobreviver a um ano económico terrível e cheio de adversidades, o de 2009.
Amanhã começa a mesma desgraça de novo

A bd Calvin e Hobbes é uma das minhas favoritas. Lembro-me frequentemente das pranchas em que Calvin se levanta da cama a contragosto, vai para a escola a chover, atura a professora e a matéria, blá, blá, blá, é assaltado pelos mânfios do costume, cai, magoa-se, as suas malfeitorias não acertam o alvo, as boas intenções muito menos, e ao regressar a casa é obrigado a fazer os trabalhos de casa e a comer uma porcaria qualquer verde; não o deixam ver televisão e mandam-no para a cama com a certeza de que no dia seguinte começará a mesma desgraça de novo, outra, outra vez.
Há várias pranchas deste género. Há uma em que depois do martírio diário, quando Calvin abre a porta de casa, Hobbes atira-se a ele, dando-lhe um grande abraço peludo, funcionando essa amizade única como um lenitivo para a vida dura daquele dia e de todos. A mãe pergunta-lhe, como correu o dia, e o miúdo responde-lhe que está a melhorar.
Sinto-me muitas vezes assim quando chego a casa e as minhas cadelas me recebem exuberantemente. As coisas são más, mas a sua recepção melhora-as. Identifico-me muito com o Calvin. Também não tenho mau coração, embora pudesse ser melhor, faço quase sempre tudo mal, só tenho ideias desastrosas, detesto que me mandem fazer o que não gosto, tenho um verdadeiro horror à obediência cega por regras que não compreenda, etc., etc.
E mais, tal como o Calvin, não compreendo os adultos. Quando era pequena achava que nunca seria capaz de ser adulta como os meus pais, de ser como os outros eram, que não seria capaz de fazer o que os outros fazem, que a vida era uma prisão da acção e da imaginação. Depois de me tornar adulta, isto o Calvin ainda não sabe, descobri que estava cheia de razão: nunca serei adulta como os meus pais, não sou capaz de fazer, sem custos graves para a minha saúde, o que os outros fazem, e a vida é, a maior parte do tempo, uma prisão da acção e da imaginação.
A ditadura
Conversa apanhada a duas colegas minhas no refeitório da fábrica:
Primeira - Cada vez percebo menos qual é a diferença entre esta democracia e a ditadura em que viveram os meus pais.
Segunda - Tens de ver as coisas pelo lado positivo: por enquanto ainda não te levam para a prisão, não te fazem a tortura do sono durante 15 dias enquanto te espancam, não te arrancam as unhas, nem te dão choques eléctricos, entre outros mimos que vou deixar de lado.
Agora, de resto... não estejas à espera que alguém te represente ou que isto seja efectivamente o Governo do Povo, para o Povo.
O tempo de um gelado no McDonalds
Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...

