terça-feira, maio 03, 2005

Desejar amá-la



Quantas mulheres conhecemos que não usem mala? Uma? Nenhuma?!
A maior parte de nós terá respondido "nenhuma". Não acontece por acaso. As mulheres são seres práticos e objectivos: antecipam, previnem: sabem que uma mala é um kit de sobrevivência! O McGyver, por exemplo, não o sabia, e às vezes via-se bem enrascado! Todos sabemos que uma mulher, à excepção de um pneu furado, coisa para a qual, admito, nos falta um gene - o da sujidade -, nunca se enrasca! Mas, de qualquer forma, temos métodos infalíveis, que não divulgarei aqui, para (nos) reparar(em) os pneus!
A bem dizer, qualquer mala nos serve: de mão ou de tiracolo, mochila ou saco; grande ou pequena; de pele, plástico, tecido ou corda; do que precisamos é de uma mala na qual possamos transportar e guardar os objectos que asseguram a diária existência biológica, económica e social.
Ora a questão que aqui se põe é a seguinte: como é que os homens podem andar na rua de mãos sacudidas? Como sobrevivem eles sem mala (nos anos 80 lembro-me de os ver andar de pochette)? Residirá aí a justificação para os chumaços que exibem nos bolsos? Onde raio transportam eles os seguintes objectos unisexo sem os quais é impossível sair, e passo a listar(??):
- chaves de casa
- chaves do carro
- telemóvel
- porta-moedas
- carteira com documentos, cartões de toda a espécie, cheques, fotografias da família, talões multibanco, facturas de compras, guias para levantar radiografias, etc., etc.
- esferográfica e bloco para anotações
- livro e lápis para sublinhar
- baton (hidratante)
- escova de cabelo
- aspersor de perfume
- tablete de Ben-U-Ron
- tablete de Nimed
- garrafa de água
- embalagem de soro fisiológico para as lentes de contacto
- lenços de papel
- óculos escuros ou de ver ao perto ou de ver ao longe
- caixa de adoçante para café
- caixa de fio dental
- pequena máquina de calcular
- cigarros e isqueiro (caso fumem)
- cêntimos, clips e elásticos (caídos)
- conta da luz, lista do supermercado, uma carta de amor
- alguns post-it amarfanhados com números ou recados escritos
- coisinhas que se vão arranjando aqui e ali (uma seixo da praia, uma noz, um rebuçado de mentol, um bonequinho de madeira que uma menina nos ofereceu...)

Como estimaria desvendar esses profundos, nebulosos segredos do eterno masculino!

Ainda os quatro minutos



Não digo em quatro minutos. Mas em duas horas, menina, fazia-lhe o cadastro. Juro pela blogosfera e pela coca cola, que não me deixam mentir.

segunda-feira, maio 02, 2005

Túnel de luz e silêncio


Foto em http://www.fleshandcolor.com


A acção decorre neste momento.
Não a conheço. É uma mulher morena, bronzeada, alta, imponente. Veste um fato de saia e casaco de sarja branca, justo. Traz uns enormes óculos escuros de armação branca.
Recostada num sofá individual branco, descai o busto negligentemente, entreabrindo as pernas de frente para as enormes janelas franqueadas à brisa feliz da Primavera; as cortinas de fino algodão branco, translúcidas, esvoaçam como as de uma casa de praia à beira-mar.
As mãos morenas, com irrepreensíveis unhas brancas, abandonadas abertas para o lado de fora; os cotovelos apenas pousados nos braços do sofá. Como alguém que se oferece para receber uma dádiva invisível.
Acabo de chegar de fora, de longe, onde sempre estive. Entro na imensa sala branca de paredes indefinidas e contemplo-a de perfil. Crianças correm de um lado para o outro, à sua volta, ruidosas, em desassossego. Não são nossas. A mulher, como um robot desligado, não se incomoda, não se sobressalta.
A voz de uma outra mulher, que atravessa a sala, apressada, carregando à cintura uma trouxa de roupa para lavar, informa-me, indiferente, "esta é a filha do teu pai". Ouço e corrijo de imediato, mentalmente, "esta é a outra filha do meu pai". Olho-a. Recordo as múltiplas, nunca assumidas infidelidades do meu pai. Acrescento para mim, "pode ser!"
Activada pela voz que passou, a mulher majestosa levanta-se imediatamente, alisa a saia antes de se endireitar, volta-se de frente para mim e estende-me o braço, sorrindo, olhando-me por cima dos óculos. É bonita, caramba.
É uma mulher enorme, inteira, com um longo e farto cabelo escuro, umas longas pernas bem torneadas, como uma miss das ex-colónias, como a Ana Paula Almeida, como a Riquita... Sinto-me insignificante perante o esplendor sensual daquela filha do meu pai. Que mulher fabulosa!
Assim que me estende o braço, as frentes do casaco, desabotoado, mas encostado ainda ao peito, abrem-se completamente, e expõem todo o seu tronco: e vejo-a nua da cintura para cima. Entende-me o braço, mas eu não posso responder com o meu, porque agora olho apenas aquele espaço nu até ao recorte púbico que a saia descaída permite. Um nu escultórico, de mármore: as mamas crescidas e cheias, espetadas na minha direcção como setas, os pequenos mamilos tesos, de um castanho quase rosa, o abdómen musculado, esticado, o ventre liso, a perfeita curva da anca.
E como se, consciente de tanta majestade, tivesse desejado tornar-se irreal, toda a sua pele brilha sobre o bronzeado, acrescentada de luz. Uma finíssima película de pó prateado cobre-lhe o pescoço, as mamas, o abdómen, o ventre, as ancas, cada milímetro da generosa pele. Pinta-a. Veste-a de nudez. E tal nudez é o tesouro.
Mantém o braço estendido na minha direcção. Continua a sorrir, a olhar-me por cima dos óculos, que ainda não tirou. Quer ser minha amiga, embora não mo tenha dito. Vai dizer-mo agora. Não trocámos uma palavra. Mas vai falar agora.
Sinto medo. Sinto muito medo da filha do meu pai.

domingo, maio 01, 2005

Pertencer a outro

Ontem, evocaram-me, pela primeira vez, não pelo meu nome próprio, mas enquanto “a mulher de...”.
Foi estranho, assim à primeira, mas penso que me habituarei rapidamente.
Mudei de apelido, como convém. Nunca tinha revelado o de “solteira”, e agora também já não vale a pena; fica o de casada, pelo qual desejo ser conhecida.
Sou a mulher do Blog, portanto, Isabela Blog.
Terei razões para sentir, como sinto, que sou traída?

Os outros (a que pertencemos)

Hoje disseram-me, “os bloggers não pensam em mais nada, vivem completamente dependentes do computador!”.
E eu concordei; era um bocado verdade; a maior parte deles passa-se, “realmente, eles queimam as pestanas em frente ao ecrã”.
Responderam-me, “eles não, vocês... tu queimas as pestanas frente ao ecrã... larga o computador!”
Nesse instante percebi que, se calhar, vivo um casamento de grande dependência; terei perdido completamente a autonomia? O Blog não só me trai com mais alguém, de certeza, como exige uma atenção constante. Não me larga. Pede resposta atrás de resposta. Faz enorme chantagem emocional.
A vida (a dois?) não é fácil.

Para sermos bem fodidas...


Ticiano, Vénus com organista e Cupido

O surrealismo dos homens chega a ser surrealista.
Pensam eles, desde que começaram a alambazar-se com a coxa "irreprimível e audaz", a barriguinha à Ticiano, o rabo farto, tudo devidamente recheado, que nos estão a fazer um grande favor. Acho-lhes piada.

Agora já não os podemos acusar de desdenhar a fartura, de se deixarem levar pelos modelos culturais hedonistas. Não, agora são uns bonzões, uns pacholas, uns modernos - até gostam da carnuça. Gostam de mulheres naturais, sem maquilhagem, sem produtos de beleza corporal; se pensamos e agimos ao contrário, continuando a embebermo-nos, matinalmente, em White Musk, lait scintillant pour le corps, da Body Shop, é porque não passamos de umas tontas, presas, ainda, ao padrão que acorrentou os nossos corpos durante o tempo das revoluções. A nossa insistência em manter uma beleza que já não valorizam, pelo menos da mesma forma, diz-lhes que não evoluímos. Acho-lhes piada.

Gostava de ver o que acontecia se, naturalmente, deixássemos de nos preocupar com a maciez das mãos com que os tocamos, se desprezássemos o vegetal cozido que vai conservando alguma graça na "voraz oscilação de ancas", o anticelulítico que ilude a "coxa irreprimível e audaz"; havia de ser lindo se, apesar do actual discurso que eles nos destinam (e que não é exactamente o mesmo que mantêm com os outros gajos, sobre gajas!), não fizéssemos por levantar as mamas e as nádegas, e não redobrássemos os abdominais que lhes oferecerão o torso que consideram apresentável, dentro da chamada categoria "bem servida"; se não mantivéssemos os lábios frescos, joelhos e cotovelos sem calo, dentes sem cáries e o sexo sem candidíase, surpresa com que periodicamente eles nos presenteiam; havia de ser lindo.

Acham que fazem um favorzinho à vida real: não se importam que a fruta seja de maior diâmetro, desde que cumpra as normas da CE; ou seja, brilho de cera, nada de toques nem dedadas. Ou seja, devidamente hidratada, depilada, perfumada. Acho-lhes piada.

A questão assenta, continuamente, no desejo que os meninos e as meninas albergam em igual proporção. Nesse desejo para eles tão volátil. Sim, vão gostar de nós eternamente, manter-se connosco para sempre, para o bem da família, dos filhos, da consciência da moral e bons costumes, não duvidamos (sabemos que os temos seguros, porque, felizmente, o divórcio, as divisões de tralha, as pensões para as crianças são uma trabalheira!); mas estamos cientes de que, enquanto nos abraçam, em pleno centro comercial, e nos ciciam, ao ouvido, "querida, tu é que sabes, tu é que mandas", nesse exacto momento, à nossa frente, contudo, nas nossas costas, grudam o olho abrasado à "beleza natural" que circula sobre uns tacões da moda, cabelos soltos levantando-se na corrente de ar deslocado. E à noite, quando lhes abrimos as pernas, fodem-nas a elas, não a nós, as maravilhosas e satisfatórias Vénus de Ticiano.

A questão, no final, é o desejo. O deles, sim, mas também o nosso. A questão é, afinal, aquilo que precisamos de continuadamente fazer ao nosso corpo para conquistar o direito a ser bem fodidas, magistralmente fodidas, como gostamos e queremos, e sem hipocrisia. O direito a ser não apenas eternamente companheiras, mas, para sempre, a "beleza natural" que circula ao vento, e à qual o desejo dos seus olhos e da sua alma completa se prende.

Na verdade, desprezamos os tais 4 minutos de obrigação e alívio, que acontecem porque estamos ali logo ao lado e, em aflição, "a cavalo dado não se olha ao dente". Não queremos ser úteis na qualidade de paramédicas. Na chamada prestação de cuidados básicos de saúde, basilar tratamento de urgência, apenas para manter intactos os sinais de vida, e depois, "pronto, já está!". Mero pronto-socorro.

O pessoal paramédico, às vezes, nem acredita na velocidade a que acabou de ser cilindrado, e fica de olhos abertos, um bocado vazios, a pensar que, realmente!, a vida, o amor são fodidos!

Futurologia: o amor



Iniciei, há uns tempos atrás, a coluna "Futurologia".
O primeiro capítulo versou o tema "educação no mundo perfeito".
O de hoje mostra-nos como encaram os jovens o "amor perfeito" - alunos(as) do ensino secundário.

De acordo com informações da professora que realizou o trabalho, as raparigas responderam com grande facilidade ao tópico; por outro lado, os rapazes pediram para o trocar por qualquer outro tema, afirmando não saber o que escrever, não ter ideias...

Penso que a identidade de género do autor(a), ou, se quiserem, as marcas culturais e sociais associadas às características biológicas de cada sexo são, aqui, facilmente identificáveis. Parece-me poder extrair-se alguma "moral da história" Não só pela clara diferenciação ao nível das atitudes, de acordo com o sexo, como também pelas noções de amor que apresentam: a fidelidade, a necessidade de evitar o divórcio, o amor para sempre... Fico na dúvida sobre se tudo isto enforma uma tendência social generalizada ou se reflecte apenas a ingenuidade de quem pensou e escreveu.

Imagino, também, o que escreveria sobre o amor no futuro, num mundo perfeito! Necessitaria de dois textos distintos: um primeiro sobre o que penso virá a ser, e no qual seguiria de perto as teorias de Giddens sobre "sexualidade plástica"; um segundo centrando-me no que queria para mim, ignorando totalmente o que se passasse no mundo, em geral.
Lá estão a teoria e a prática, de novo, em conflito. Nem sempre quero para mim aquilo que defendo teoricamente!

Se calhar, devíamos pensar nisto tudo.

(Nota: a transcrição respeita, na íntegra, a morfologia, sintaxe e semântica empregue pelos alunos.)

- "Deveria de haver uma onda hippie neste mundo actual."

- "Havia sempre sexo no primeiro encontro."

- "Se por acaso alguém trai-se alguém, este seria perdoado, pois errar é humano."

- "Deveria haver um rapaz ideal para cada rapariga, de maneira a que não houvesse indecisões e inseguranças que só atrapalham uma relação. Deveria haver um padrão de rapaz/rapariga que fosse quase perfeito(a). (...) Também não deveriam existir entraves às relações. Não poderiam haver relações de dualidade, Para isso deveria ser implantado um chip no corpo do homem/mulher pertencentes ao casal, para que se pudesse identificar, através da tecnologia avançada, onde está o outro, o que está a fazer, de maneira que existisse maior proximidade e cumplicidade entre o casal."

- "As curtes não deixavam de existir pois são necessárias para que não nos sintamos presos, comprometidos para sempre. Para evitar os divórcios, implantava uma lei em que, cada casal apenas se podia casar após cinco anos de namoro e um ano a viver juntos. Todo o amor era correspondido e ninguém sofria por ele."

- "As pessoas que se amassem não teriam vergonha de o demonstrar, e as outras pessoas não ficariam com um ar chocado por ver humanos a amarem-se. Estou a referir-me, por exemplo aos namorados que se beijam e acariciem na rua, por entre outras coisas normais."

- "Um casal ao decidir-se unir, unir as suas vidas, deveriam assumir um compromisso em que a pessoa que ele amasse seria parte do seu corpo. Assim deveriam-se respeitar, compreender-se mutuamente, fiéis e que o amor sentido fosse eterno, em que as pessoas veriam o seu par mais que um namorado ou marido, mas sim como um eterno amigo, a quem amariam, tendo sempre com quem contar."

- "Inventariamos também formas de corrigir o mau funcionamento cerebral pois a homossexualidade é um problema cerebral. Senão só existiria um sexo em vez de dois. Os problemas dos amantes nas relações não seria problema pois com a máquina poderia tratar todos os infiéis."

- "O amor deveria ser visto como uma pedra preciosa única com valor superior a tudo. Assim o estimaríamos até ao fim das nossas vidas, pois nunca encontraríamos nada igual. Depressa acabaria a infidelidade e o desrespeito pelo companheiro, tornando-se assim tudo mais cor-de-rosa. Caso contrário seria condenado à pena de morte, deixando de fazer parte da nossa sociedade."

- "Amor não é imortal/ acaba por morrer um dia/ e quem sofre no final/ é quem não esqueceu ainda."

- "As pessoas que querem casar cedo, sem conhecer devidamente o seu parceiro, deveriam ter a certeza do passo gigante que vão dar, o casamento, pois por vezes vão fazer a maior asneira da sua vida. Antes desse enorme passo, deveriam fazer testes ou desafios aos seu companheiro, para verem se o amor é verdadeiro ou se não passa de uma grande mentira, pois o casamento é para durar para toda a vida."

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...