os olhos que te viram partir sim escondendo as lágrimas sim
tentando em vão apagar memórias
são ainda os mesmos olhos que num sobressalto pelo fim da tarde
se o rumor de uma ave cruza o pequeno espaço do pátio
se erguem para ver se és tu que regressas
são os mesmos olhos sabes que em subindo ao terraço
vigiam os caminhos da encosta vigiam o vale
vigiam as sombras que as luzes minúsculas da cidade projectam nas águas
como pequenas luzes amarelecidas nos seus nomes
é assim sabes o que seria de nós o que seria da vida se
não conseguíssemos pôr de parte o orgulho
o que seria de mim se o orgulho me precedesse quando movo as mãos
por exemplo à procura de um objecto que
as tuas mãos tocaram nos meses de novembro
se não tivéssemos forças para espremê-lo até ser volátil
o que seria de nós se não conseguíssemos amassar o orgulho como se
amassa o pão nas manhãs de domingo
eu sei lá o que digo meu amor disperso-me sabes
perco-me nas minhas próprias frases
eu falava do orgulho
dizia que não te peço mais nada
não te peço mais nada não te peço que me recordes não te peço que reconsideres
não te peço que me ames peço-te meu amor
peço-te
apenas te peço que adormeças devagar esta noite dizendo apenas o meu nome
que adormeças como se eu estivesse ainda a teu lado
e por um instante mudasses a cabeça de lugar
sentindo a minha respiração nos teus ombros
quinta-feira, maio 05, 2005
Uma mala
A minha não o faz por mal. É atenciosa. E sabe que nas coisas do amor devemos ser presentes, e que o amor é sobretudo uma especial atenção e um especial cuidado com as pequenas coisas diárias. Eu sei que não faz por mal. Que é por amor. A verdade é que me oferece, de quotidiano, coisas múltiplas e espantosas: bonequinhos de madeira com um papelinho colado na base a dizer «o amor é...», postais impressos aos milhões com uma anedotazinha específica (do género «tu és o melhor jogador do mundo», acompanhando-se a frase com o desenho dum sujeito de calções, gesso e muletas), isqueiros enfiados em suportes decorativos, pequeninas peças de porcelana (porquinhos para a estante das facturas da palha, anjinhos armados em Cupido para pendurar no retrovisor da station, elefantezinhos de alevantada tromba metafórica...), exemplares geológicos a imitar ao fóssil, porta-chaves com pompons... É por isso que me divido. Porque o faz por amor. Eu sei. E são tantas coisas que a páginas tantas também eu acabo por ter necessidade damá-la.
quarta-feira, maio 04, 2005
Miss Maio

Isto anda mau. O pessoal anda todo a sofrer de síndroma pré-menstrual.
Eu, sobretudo, mas nem a esse luxo me posso entregar.
Eu, que passei a tarde a discutir representações do feminino na literatura do século XIX, a urgência de um novo feminismo e as armadilhas do patriarcado! - vejo-me na contingência de fazer uso do discurso icónico do mesmo patriarcado com o objectivo de levantar a moral às tropas.
Ainda pensei colar aqui uma florzinha com umas palavrinhas cristãs, sobre o lindo dia de sol que vai estar amanhã, sobre a bonança que se segue à tempestade, mas pensei melhor: o que é que recupera eficazmente, sem falha possível, a moral às tropas? E lembrei-me da Marilyn no Vietnam ou na Coreia ou lá-onde-é-que-era a cantar para uns do "Apocalipse Now". Estou a ver-lhe bem o vestidinho e respectivo decote. Um decote realiza milagres. Constipações também, mas a minha vida pessoal não é para aqui chamada...
Enfim, só hoje, e porque isto é serviço público!, e porque valores mais altos se levantam!, perdoe-se o mal que me sabe, pelo bem que lhes faz.
Aparência
A Primavera é perfeita.
Súbitas constipações, espirros e alergias ao pólen constituem óptima desculpa para olhos vermelhos.
Súbitas constipações, espirros e alergias ao pólen constituem óptima desculpa para olhos vermelhos.
Segundo segredo de Isabela
Fazer vida de artista.
Em dias opacos realizar os gestos de sempre: levantar, lavar, vestir, pentear, disfarçar as olheiras, comer, sair, caminhar, falar, sorrir, gracejar.
Em dias opacos realizar os gestos de sempre: levantar, lavar, vestir, pentear, disfarçar as olheiras, comer, sair, caminhar, falar, sorrir, gracejar.
Tenha o pai morrido de madrugada... the show must go on.
Em quinquagésima mão, e depois?!
Revista Maria, edição nº 1382, semana de 4 a 10 de Maio, €0,65, (crucifixo banhado a ouro por apenas + €1,25).
Página 1, rubrica “Em Primeira Mão”
Título: Diana e Carla têm novos amores
Corpo da notícia: As participantes do Big Brother 4 estão a aproveitar da melhor forma os efeitos da Primavera. Depois de uma relação conturbada com Zé, Diana tem novo namorado. O jovem chama-se Marco e a ex-concorrente do programa da TVI diz-se muito contente com o novo amor e a nova vida, pois as mudanças não se limitaram ao plano amoroso, estendendo-se ao profissional. É que Diana interrompeu os estudos na faculdade para começar a trabalhar numa loja. Por outro lado, a atraente Carla, que proporcionou algumas cenas tórridas durante o reality show, confessa também ter encontrado a sua alma gémea em Ricardo e o casal já vive junto. Parece que, desta feita, as meninas encontraram a merecida felicidade.
Profissão dos alvos de notícia: ex-concorrentes de programa de televisão e atraentes.
Assunto que motiva a notícia: novos namorados - o Marco (será o da Marta?) e o Ricardo (o das “cenas tórridas” também era Ricardo, ou são as anestesias gerais que já se fazem sentir?).
Culpado dos acontecimentos relatados na notícia: os efeitos da Primavera.
Informação suplementar que enriquece a notícia: estão muito contentes – tanto que a primeira até largou a faculdade para trabalhar numa loja; a segunda encontrou a sua vigésima-quinta alma gémea com quem faz a sua quadragésima-sexta tentativa de vida em comum.
Moral da notícia: encontraram a merecida felicidade.
terça-feira, maio 03, 2005
"Mais olhos que barriga"
O tempo de um gelado no McDonalds
Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...
