sexta-feira, junho 03, 2005

A vida na torre

"Crazy", ao sol da manhã, dançar Crazy, de Seal, de frente para o mar, o céu, a brisa - dormentes de azul e transparentes - que se precipitam pela janela panorâmica, aberta, do 11º andar.
À solta. Em cuecas.

Resumo

Pensar que se é livre.
Não aceitar termo de posse.

Único senão

Desconfio sempre de promoções.
Com o meu novo kit ADSL veio, grátis, um telefone fixo-portátil marca Siemens, modelo Gigaset C100 SMS.
E agora, pergunto, como programar a geringonça sem ler o livro de instruções de fio a pavio?
Melhor, como ler o livro de instruções e conseguir aplicá-las, com sucesso, ao funcionamento da geringonça?
Se já tivesse mandado fazer um averbamento na certidão de nascimento (ou mesmo sem!) dizia agora daqui, bem alto, "ó filho, anda cá, mor, a ver se descobres como é que se lêem os SMS´s e se gravam os números na lista... e se mudas o toque a esta porra, que é insuportável!"
Entretanto, ia pôr no cabelo uma máscara de beleza Pantene ProV - cores brilhantes - que acabei de comprar e cujas intruções nem preciso de ler!

quinta-feira, junho 02, 2005

Ao que não termina, regressaremos


Henri Cartier-Bresson

Nunca regressei a um lugar de onde tivesse partido. Nunca regressei.
No entanto, os inúmeros lugares de onde parti permanecem intactos pelos portais da memória, guardando pormenores sinestésicos como o chiar azul de um portão, o sabor das pétalas de rosa debruçadas de um muro estalado de cal, o odor quente e ligeiramente carbonizado de uma mão cheia de amendoim torrado e embrulhado em meia folha de papel de jornal antigo, a textura longilínea e áspera das fibras acumuladas num troço de cana-de-açúcar, mastigado, sugado, a entalar-se entre os dentes enquanto larga sumo.
A sede macia das mãos que subiram as minhas pernas pela primeira vez. A segunda primeira vez em que me disseram, olhando bem dentro e bem ao fundo do campo de estio dos meus olhos "perder-te, seria perder-me..."
(E foi!)

Todas as memórias são memórias de lugares, porque o corpo habita imperiosamente os espaços por que vagueia. A memória de um rosto que sorriu, de uns olhos que olharam, de uma particular refeição de queijos e vinho, numa tarde de início de Dezembro, não podem dissociar-se dos espaços nos quais se tornaram realidade.
Há memórias que sustentam dias medíocres a funcionários públicos nos momentos em que olham a rua através das janelas dos seus tristes gabinetes, e recusam acreditar que aquilo que na infância julgavam que seria ser importante é, na realidade, ser isto.
Memórias a que voltamos sozinhos, no silêncio das casas, periodicamente, para nos deliciarmos como se ouvíssemos a música muito lenta que é já o ritmo do nosso corpo. Repetimos as faixas de que mais gostamos, fechamos os olhos, estendemos o corpo pelas superfícies frias, rebolamos pelo pavimento. Escutamos. Repetimos tudo outra vez.
Memórias tão perfeitas, tão bem cuidadas, a que limpamos o pó, que encaixilhamos em molduras de qualidade e bom gosto, mas que encaram com fatalidade a alteração dos seus traços originais.
Podemos jamais regressar, mas se um dia atravessamos esses lugares, pretendemos de volta as imagens guardadas nos arquivos mentais. Não queremos inovações, estradas de alcatrão... queremos o lajedo onde esfolámos os joelhos; nada de aquecedores, mas as lareiras que nos secavam as botas; queremos os antigos bustos erguidos a figuras cujos nomes não nos lembramos, nas praças onde começámos a namoriscar, não as esculturas novas, com mãos estilizadas, em ferro. Queremos o antigo coreto à roda do qual os velhos se sentavam, ao domingo tarde, deixando-nos em paz com os nossos segredos; sabiamo-los lá certos.
Queremos o que existe, a estampa que existe, essa fatia de espaço no tempo, viva em nós.
A realidade é essa memória.

quarta-feira, junho 01, 2005

Abraçar-te


Foto em Xupacabras
(Laureen Bacall e Humphrey Bogart em Porto da Angústia)

Queria dizer-te coisas, enquanto te beijava. Tantas coisas. Dizia-tas e beijava-te, e de vez em quando as palavras ficariam incompletas, mas tu percebias. Entrecortadas. Mas percebias. Beijava. Dizia.
Segredava-te dez mil anos de indizível magia. Sem que respondesses, sem que percebesses o que acontecia: respirasses, apenas.

A praia

Começou hoje oficialmente a época balnear e eu tenho, como é que hei-de explicar, uma questã: adoro a praia; as esplanadas dos bares de praia; os areais imensos (não, não me venham cá com a beleza dos areais encaixados em arriba, com a gente a espirrar e a ver devolvido o eco por um pedregulho mega-tonelar de calcário ou rochas de intrusão); a água se possível muito verde e muito esmeralda, ou só de um azul que seja transparente e deixe antever os peixinhos quase de aquário que andam assolapados na babugem; e a liberdade livre de correr ou atirar-me ao chão como nos filmes em câmara lenta; e o sol, e mesmo aquela leve aragem que no meridião se levanta ao fim da manhã a encapelar ligeiramente as águas.

Pois, a questã: a questã é que tenho, digamos assim, um nome a defender; e não há coisa mais burgessa que a praia: as senhoras a mostrar a banha pendente da baixa coxa, os cavalheiros e a filha da puta da bocha de malte fermentado, as meninas e o ofegante triângulo de pano e o bamboleante cu a custo subido sem o salto erguendo-se alternativamente como quem não quer a coisa os calcanhares, o vozeirão de loteamento com sotaque arrastado nas vogais a chamar as crianças para o iogurtezinho corpos danone «que te faz, filho, tal mal este jijuum que só estás côos ceriaaais», a Bola e o Record muito concentrados no drama do treinador que se vai embora ou do jogador que parece que não pode ir à selecção porque tem uma impingem ou um panarício num dedo, a caldeirada na mesa quatro de calções e chinelas de borracha, o peito nu demonstrando encaracolados pêlos em redor do mamilo, oh, e os desajustados fios dentais do biquini, e os lábios pintados antes do mergulho, e o bronzeador, e o fato de banho descaído deitando-se a senhora de costas na toalha e, em levantando a cabeça, o cuidado de trazê-lo de novo a tapar metade do volume da mama, e o passeio higiénico de gel e óculos escuros tamanho XL que é o que agora parece que se vende como quem diz «ó pra mim que transpiro beleza e saúde e, atenção, virilidade».

Portantos, quer dizer, confesso que também lá ando, entre envergonhado e feliz, e olhando em redor cuidadosamente a ver se me escapo de alguém conhecido que me possa topar nesta figura de turista em férias no Algarve.

Natureza do instante


Foto de Alain Azambuja

Claro que o amor ideal existe.
Claro que existe o homem perfeito, bem com a mulher que sempre se sonhou.
Não é claro que existam para todos. Não é certo que compareçam, simultâneos, na conjuntura de espaço/tempo em que deveriam encontrar-se. E mesmo que compareçam, não é certo que as circunstâncias permitam esse encontro.
Mas se o homem e a mulher, perfeitos, que se sonharam, transportando nas mãos abertas o amor ideal, couberem sem circunstâncias adversas no fragmento de espaço/tempo que os unirá, ter-se-á, nesse momento, pergunto eu, criado o mundo perfeito?

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...