Começou hoje oficialmente a época balnear e eu tenho, como é que hei-de explicar, uma questã: adoro a praia; as esplanadas dos bares de praia; os areais imensos (não, não me venham cá com a beleza dos areais encaixados em arriba, com a gente a espirrar e a ver devolvido o eco por um pedregulho mega-tonelar de calcário ou rochas de intrusão); a água se possível muito verde e muito esmeralda, ou só de um azul que seja transparente e deixe antever os peixinhos quase de aquário que andam assolapados na babugem; e a liberdade livre de correr ou atirar-me ao chão como nos filmes em câmara lenta; e o sol, e mesmo aquela leve aragem que no meridião se levanta ao fim da manhã a encapelar ligeiramente as águas.
Pois, a questã: a questã é que tenho, digamos assim, um nome a defender; e não há coisa mais burgessa que a praia: as senhoras a mostrar a banha pendente da baixa coxa, os cavalheiros e a filha da puta da bocha de malte fermentado, as meninas e o ofegante triângulo de pano e o bamboleante cu a custo subido sem o salto erguendo-se alternativamente como quem não quer a coisa os calcanhares, o vozeirão de loteamento com sotaque arrastado nas vogais a chamar as crianças para o iogurtezinho corpos danone «que te faz, filho, tal mal este jijuum que só estás côos ceriaaais», a Bola e o Record muito concentrados no drama do treinador que se vai embora ou do jogador que parece que não pode ir à selecção porque tem uma impingem ou um panarício num dedo, a caldeirada na mesa quatro de calções e chinelas de borracha, o peito nu demonstrando encaracolados pêlos em redor do mamilo, oh, e os desajustados fios dentais do biquini, e os lábios pintados antes do mergulho, e o bronzeador, e o fato de banho descaído deitando-se a senhora de costas na toalha e, em levantando a cabeça, o cuidado de trazê-lo de novo a tapar metade do volume da mama, e o passeio higiénico de gel e óculos escuros tamanho XL que é o que agora parece que se vende como quem diz «ó pra mim que transpiro beleza e saúde e, atenção, virilidade».
Portantos, quer dizer, confesso que também lá ando, entre envergonhado e feliz, e olhando em redor cuidadosamente a ver se me escapo de alguém conhecido que me possa topar nesta figura de turista em férias no Algarve.