sábado, fevereiro 04, 2006

Poemas de Teresa, 6 anos

se uma rosa implodir
não se pode olhar essa luz
de frente
sem os óculos
do eclipse

e no entanto
uma rosa não
é mais que a água
das nascentes
de junho

em cada uma
das pétalas
adormece
uma outra rosa
incandescente

depois de tudo
em cada uma das mãos
haverei
de ter
uma pétala

Madrugada

Um dia perde-se o mundo. Não a vida; o mundo.
Não é a tragédia. É possível viver sem terra debaixo dos pés, sem abrigo ou agasalho. Respira-se. O sangue circula, mais rápido, ou não, sem que se pense nisso.
Perder, acorda-nos totalmente. Açula uma fome que sabe esperar, e tem fome.
Quando se perde o mundo, é preciso aprender nova língua; amassar barro com palha, que se seca ao sol; abrir caboucos; erguer novas paredes. O tempo demora; ficamos suspensos. Pensamos que a vida não começou; ansiamo-la ainda. Mas erguer os muros caídos, esse momento tão inseguro, é já o novo mundo. O princípio do mundo. E não há mais nada.


Dorothea Lange, Migrant Mother, 1936

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Para que servem os homens

Corre por aí a ideia de que os homens sabem cozinhar. Depois eles acreditam, e ensaiam aquilo a que chamam petiscos, ao fim-de-semana; sempre variantes do mesmo, normalmente carne embrulhada em natas com pimenta ou em cebola com piri-piri, para acompanhar as Super Bock.
Corre por aí a ideia de que existe uma nova geração de homens mais civilizados. Não sei onde foram buscar tal ideia peregrina! É verdade que prestam mais atenção aos filhos: banho, janta, deita. Porque eles, agora, só pertencem aos seus filhos, de resto, nasceram selvagens! Na generalidade, continuam a acumular a mulher de casa com a da rua; a meter-nos os cornos com as amigas, as deles e as nossas, protegendo-se com o emprego e os compinchas; e marcam as suas reuniões de machos para falar, com estardalhaço, de carros que não servem para nada de útil, a bola do costume, e gajas, gajas, aventuras com gajas que eles supostamente conquistam com um estalar de dedos. Não são operários da Setenave, mas meninos de 20 anos, licenciados nas melhores universidades, saídos dos escritórios da praça, uniformizados de fato e gravata comprados nas mesmas lojas, todos das mesmas cores.
Antigamente, os homens, mesmo os mais marialvas, tinham utilidade. A gente dizia-lhes, “o ferro não aquece”, e eles, mesmo que fossem pasteleiros, respondiam “ah, isso é o termóstato”, ou então, “deve ser a resistência”; pegavam nas ferramentas, desmontavam o electrodoméstico e punham-no a trabalhar, mesmo que sobrassem peças na operação de remontagem. Gozávamos, mas faziam alguma coisa. Agora, se se estraga uma fechadura, mandam-nos chamar o técnico. Alguma vez, antigamente, um homem mandava chamar um técnico?! Homem que era homem desenrascava tudo numa casa, começando numa cozinha e acabando nos caixilhos das janelas. Não sabiam, mas punham-se a isso. Eram curiosos; engenhocas. Uma mulher podia andar mal servida, mas, ao menos, tinha o Mc Gyver em casa. Agora, temem magoar as mãos, estragar em pele, danificar o objecto; não sabem! Não estão para isso!
Se uma mulher não pode contar com um homem para lhe arranjar o esquentador e desentupir o cano do lava-louças, já para não falar em levar o carro à revisão, e à inspecção periódica, qual é vantagem em ter um, em permanência, dentro de quatro paredes?


quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Os meus problemas

1. Como aquecer, no Inverno, uma casa cheia de janelas viradas a Nascente, sem vidro duplo ou aquecimento central?

2. Como reinserir o código do rádio do carro, quando a bateria vai completamente abaixo e bloqueia o sistema todo?

3. Quem é que este ano me preenche a porcaria do impresso do IRS?

4. Como manter, por mais tempo, a meia lua branca da manicure francesa?

Ciúmes do blog

O meu afilhado, que já é crescido, perguntou-me o nome deste blog. Respondi, esperando que se esquecesse rapidamente. Não esqueceu, e eu tremi. Ainda tremo, mas que se lixe!
Compreendo que se iniciem blogs com o nomezinho de família estampado. É giro. Além disso, os blogs servem inúmeros objectivos. Eu, por exemplo, estou a pensar começar um totalmente dedicado a problemas de manicure. Gosto de saber que o Mexia é o Mexia, mas não o fazia; isto é uma actividade paralela e clandestina, e assim se deve manter. Nada de conhecimentos familiares; amigos, só aqueles que já não nada por nós; emprego, nem sonhem. Mulheres, maridos, namoradas e namorados, só na hora da morte, e se for mesmo necessário: morrem de ciúmes do blog. Já vi muito acasalamento começado num blog, acabar por causa do mesmo. É fatal.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...