sábado, junho 10, 2006

A maluca do Expresso

Aqui na minha rua sou a única alma que lê o Expresso. É uma tradição. Habitei-me a fazer as palavras cruzadas a meias com o meu pai, e mantive o hábito. Antigamente, no tempo em que se vasava o balde do lixo directamente para o contentor - o que a gente se divertia nesse tempo! - as folhas largas davam jeito à minha mãe para forrar o caixote, porque parece que absorviam melhor.
Eu sobrevivi à maquiavélica direcção de José António Saraiva, escritor, futuro Nobel da Literatura. Não foi fácil. Andei anos com um nó na garganta.

Ora, moro neste bairro há 22 anos, com um intervalo de 7 em que estive emigrada no Alentejo por causa dum part time que lá me arranjaram, mas mantive sempre cá a casinha e o cartão de eleitor, e nunca, nunca, nunca, esclareça-se isto bem, nunca, em duas décadas vi alguém do bairro a ler o Expresso no café.
Aqui, as pessoas lêem o Correio da Manhã e A Bola. Antigamente, o Avante, mas agora os tempos mudaram um bocado. Os intelectuais da zona arriscam um Diário de Notícias, com um bocado de vergonha, verdade seja dita, mas, caramba, existe ou não livre arbítrio? Ler o JL na rua é que já seria provocação, isso reconheço, mas o DN, vá lá.
Toda a gente me conhece; até me cumprimentam,"olá, vizinha, então como vai a mãezinha?", mas quando querem falar sobre mim, uns com os outros, dizem, "aquela das cadelas", ou então, "a maluca do Expresso". Ou só "a maluca". Ninguém se engana.

Hoje fui comprar o Expresso eram umas 10h30. Cedo, portanto. O Expresso sobra sempre no quiosque. O homem tem Expressos até ao sábado seguinte.
Hoje, não havia. Abri a boca de espanto; senti uma momentânea baixa de tensão arterial. Demorei uns segundos a recuperar, e perguntei depois ao senhor Tó Mané, "não enviaram? Ainda não chegou?". "Não, vizinha, já foram todos?" "Já foram todos?! Às 10 e meia já foram todos?! " "Sabe, é que hoje trazia a bandeira!" "A portuguesa?!" "Então qual é que havia de ser, dona Isabela?!" "Ahhhh..."
Quando consegui voltar a mim, comprei o Diário de Notícias. Há sempre muitos. O senhor Tó Mané entregou-me o jornal juntamente com um cachecol a verde e vermelho apresentando uma maiúscula inscrição: PORTUGAL. Era brinde. Devolvi-lho, rapidamente.

Agora estou arrependida, porque cheguei a tocar no objecto, e penso que era de bom material para puxar o brilho aos sapatos engraxados.

Portanto, hoje, no meu bairro, uma quantidade razoável de vizinhos comprou, pelo preço do Expresso, uma bandeira nacional. Se calhar duas. Poucos lerão o jornal, mas, hoje, a rua estará mais enfeitada. Apetece-me olhar à volta e bater às portas das bandeiras novas pedindo emprestado o jormalinho.
O que interessa o pão desde que tenhamos circo?

terça-feira, junho 06, 2006

Professores com vida de magnatas - I


Salários dos professores do 2º e 3º ciclos do ensino básico e secundário? Tabela de 2005? Apresentam-se contas de situações reais.


O professor Luís, que fez o favor de me emprestar o recibo,
lecciona há 17 anos, e encontra-se no escalão.
Clique com o rato sobre a imagem, e escolha a dimensão em que pretende visioná-la


Em Janeiro, deveria ter-se submetido a avaliação para ascender à fase seguinte; porém, dado que as progressões na carreira se encontram "congeladas" há mais de um ano, não pôde fazê-lo. Portanto, o docente conta, hoje, e contará, não sabe até quando, com o mesmo tempo de serviço que possuía em 2003 - 14 anos. Como se o tempo tivesse parado aí.
Para o autor deste blogue, o qual indica valores salariais em bruto, a situação parece tornar-se "interessante" a partir do 8º escalão (2058,39 € ilíquidos, deduzidos de descontos para a Caixa, a ADSE, IRS).
O escalão mais elevado é o 10º (2856,54 € deduzidos, já se sabe).
Se o tempo de serviço não tivesse sido "congelado" ao nosso professor, este atingiria o topo de carreira dentro de 8 anos, com 25 anos de serviço, aí se mantendo, até à aposentação, tendo como único benefício a redução progressiva do tempo lectivo semanal.

Neste momento, relativamente à sua avaliação para acesso ao escalão seguinte, e de acordo com a Lei, o professor sabe apenas isto:

1- Exerceu as funções lectivas, não lectivas, administrativas, e outras, que lhe foram atribuídas, tendo cumprido as suas obrigações profissionais, tal como estipulado na legislação, e aceite como moral universal.

2 - Realizou as necessárias acções de formação pedagógica para adaptação a novos recursos, curricula e técnicas de trabalho.

3 - Elaborou o relatório crítico de auto-avaliação, referente aos últimos 3 anos, que deveria ter sido analisado por uma comissão de professores-coordenadores, cujo parecer e proposta de avaliação seria apresentado a conselho pedagógico - com poderes para deferir ou indeferir a promoção.

Eis o que não sabe, ainda, nem prevê:

a) Quando poderá submeter-se a nova avaliação para progressão na carreira, e ascender a esse "interessante" 8º escalão cujo rendimento tanta falta lhe faz?

b) Em que escalão virá a ser futuramente integrado, se a proposta para o novo estatuto vier a ser totalmente aprovada (excepto a parte dos encarregados educação, a mais mediatizada, mas a que apenas serve para produzir o fumo atrás do qual pretendem esconder as restantes propostas fascizóides)?

c) Que planos de vida pode agora fazer o professor Luís? Irá este ano de férias para o Algarve? Poderá mudar de casa e alugar outra maior, porque jã não tem onde meter a papelada?


Não perca os próximos capítulos (logo à noite ou amanhã):


- O quotidiano do professor na sala-de-aula, no corredor, em casa.
- O horário de trabalho do professor, sua gestão e respectiva ocupação de tempos livres.
- Diferença entre tempo lectivo e tempo não lectivo para actividades em sala-de-aula.

segunda-feira, junho 05, 2006

A Lei da Paridade foi vetada para que as mulheres não se sentissem coitadinhas

A Lei da Paridade foi vetada pelo senhor Presidente da República como forma de garantir a democracia, com os seguintes argumentos:

1) Há zonas do interior, envelhecidas e menos escolarizadas, onde não seria possível encontrar 1/3 de mulheres candidatas a listas; a existir, tal obrigação legal poderia redundar num empobrecimento político.
Os malabarismos pré-eleitorais que nesses mesmos lugares se realizam, recrutando candidatos de outros concelhos, mas que por acaso têm ali casa de férias, ou aí nasceram, ou a mulher, ou pararam por lá uma vez para beber uma bica, não contam. Malabarismos aplicam-se só aos homens. Não é o sistema que não funciona no interior, as mulheres é que não são suficientes para alimentar o sistema.

2) A paridade não deve ser conseguida através de mecanismos "sancionatórios e proibicionistas", os quais colocariam a mulher num estatuto de menoridade, como se elas não fossem capazes, por mérito próprio.
Ora deixa-me cá ver se compreendo melhor: não se legaliza a paridade para que as mulheres não se sintam inferiores porque algo assegura o acesso igual. Por outras palavras, se permanecer tudo com carácter aleatório, cada partido escolhendo, livremente, incluir 1% de mulheres, ou 3o ou 70, ficamos todas mais felizes porque não nos transmitem uma mensagem de inferioridade: a de que somos umas coitadinhas que não conseguem lá chegar sozinhas. Isso seria uma terrível descriminação! Porque nós temos mérito, claro que temos mérito - não temos é lugar, mas com o tempo havemos de conseguir...
As pessoas não precisam de leis de apoio e incentivo por serem coitadinhas, mas porque é justo que existam, e porque a Lei tem o poder e a obrigação de empurrar as reformas sociais benéficas para a sociedade. Há casos em que a sociedade muda tão rapidamente que a lei tem de se adaptar; há outros em que as tradições sociais travam, a tal ponto, a evolução de processos, que cabe à mesma Lei promover mudança. Estou a lembrar-me da introdução de quotas, para acesso à universidade, de indivíduos portadores de deficiência, e dos incentivos às empresas que empregam profissionais deficientes. E os negros? Estará suficientemente generalizada a consciência de que um negro ou uma negra licenciados têm mais dificuldade em aceder ao emprego privado que concorrentes brancos em igualdade de circuntâncias? Olha, agora a Isabela endoideceu! Queria quotas para os negros e para os indianos e chineses e o resto?! Eles que vão trabalhar para a terra deles - que quase sempre é esta!


Voltemos à Lei da protecção da maternidade e da paternidade. Tem sido sucessivamente melhorada porque é justo fazê-lo? Ou inferioriza as mulheres e os homens? Foi atribuído estatuto de menoridade aos homens, a partir do momento em que passaram a ter de gozar os dias de licença de paternidade? E as mulheres, teriam tido direito a licença de parto e redução do horário de trabalho, durante a amamentação, se a Lei não as tornasse obrigatórias? As empresas privadas despediriam e cessariam contratos a mulheres grávidas se a Lei não o proibisse?
O impacto social da aprovação de uma Lei da Paridade, mesmo com menor percentagem de participação mínima, teria sido importante, não apenas para a política, mas para a sociedade em geral. Seria uma mensagem de legitimação que chegaria a outras áreas da vida económica, profissional, associativa, e por aí fora. Seria aquilo a que, em psicologia, se designa como reforço positivo: geraria motivação para que mulheres potencialmente interessadas na vida politíca, e para ela capacitadas, ou com vontade de aprender - exactamente como os homens - a ela fossem chamadas. Mas as forças invisíveis do costume, mais interessadas em que as mulheres regressem ao lar para tratar dos filhos e dos afazeres domésticos, largando postos de trabalho que poderiam ser ocupados por varões menos qualificados, no desemprego, e manipularam exemplar e sombriamente, como é hábito. É que as mulheres, quando saem da vida activa para se ocuparem dos filhos, não vão para o desemprego, e isso dá um jeitaço. Nada de modernices!

Espanholeses

Se é aconselhável as portuguesas da raia parirem nas maternidades espanholas, com melhores condições...
Se em Espanha podemos aceder livremente à reprodução medicamente assistida, quando a desejamos, e à interrupção da mesma, como solução indesejada mas inevitável ....
Se os nossos alunos com média inferior a 18,7 valores, pretendendo entrar em Medicina, decidem aí realizar os exames de ingresso às respectivas universidades...
Se a gasolina é mais barata, bem como os automóveis, as mercearias, os frescos da praça e os medicamentos...
Se em determinadas zonas de Espanha é possível arrendar um apartamento de 3 assoalhadas por 375 euros, e se os salários não são mais baixos que os nossos... isso da identidade nacional... do amor à patria... não sei se... quer dizer... se calhar... a pátria, como a família, é quem nos trata bem.


quinta-feira, junho 01, 2006

Poder de compra, custo de vida, etc.

A Joana terá sido assassinada pela mãe e pelo tio no final do Verão de 2004. O caso concluiu-se em Novembro do ano passado. Foi lida a sentença: homicidas condenados a pena máxima, sem direito a liberdade condicional. Não me lembro do nome dos advogados. Acho que nunca soube.
O caso era complexo: não apareceu o corpo da menina, não havia testemunhas muito relevantes, a polícia nunca juntou grandes provas, a não ser a aparência dos réus, bem como a sua frieza emocional. Uns párias que nasceram inocentes, como a própria Joana, cuja existência conhecemos, mas nos obrigamos a ignorar. A vida é amarga para todos. Custa.
É difícil inocentar quem traz a miséria moral, a desgraça e a ignorância tão escancaradamente impressas no rosto. O caso Joana está portanto arrumado.

Os crimes a que reporta o processo Casa Pia foram cometidos durante décadas e tornados públicos em Janeiro ou Fevereiro de 2003. O caso vai na sua centésima segunda sessão. Não sabemos quando será lida a sentença. Sei de cor o nome de dois dos advogados: Ricardo Sá Fernandes e José Maria Martins.
O caso é complexo, contudo, os corpos das vítimas têm ido a tribunal descrever os crimes, situando-os no tempo e no espaço e identificando ocularmente os responsáveis. A acusação dispõe de inúmeras provas documentais e testemunhos indirectos, mas os réus são pessoas importantes, com excelente formação académica, enquadramentos profissionais dignificantes ou mediáticos; pessoas sensíveis que contribuem para campanhas de solidariedade e se emocionam com casos como o de Joana. Não são párias, e é claro que nasceram inocentes. É difícil culpar pessoas reconhecidamente cumpridoras da moral e dos bons costumes. Pessoas educadas, simpáticas, de boas famílias e com boas famílias. O processo Casa Pia não está, por isso, arrumado.

Um corte entre o cérebro e o coração

Jane Goodall, foto DN, 01/06/06

Jane Goodall, ontem, em Lisboa (DN de hoje):

Da espécie humana diz que o cérebro é capaz de coisas maravilhosas, mas também de outras terríveis. Qual será o balanço final, na sua opinião?

Depende de nós e da próxima geração. Mas penso que houve um corte entre o nosso cérebro extremamente inteligente e o coração, ou seja, a compaixão e o amor. Essa rotura faz do ser humano uma criatura perigosa.

Mas o ser humano não terá sido sempre assim?

Não. Se olhar para as comunidades indígenas, verifica que todas as decisões importantes requerem a opinião de um conselho de ancião, que toma em consideração a forma como as decisões afectarão as gerações futuras. Hoje, no nosso mundo, as decisões são tomadas em função da forma como os accionistas vão ser afectados nos próximos três meses. É em função da ganância que se tomam as decisões. Vivemos num mundo absolutamente materialista. Um exemplo: sabemos o que o consumo de combustíveis fósseis está a fazer ao clima do nosso planeta, sabemos da poluição e da chuva ácida e dos seus efeitos na saúde. Os donos das companhias de petróleo amam os netos, como toda gente, então o que se passa? Porque não pensam no seu futuro? É desse corte que falo.

Devemos culpar o capitalismo?

Sim. Isto está acontecer desde a II Guerra Mundial, porque nos tornámos escravos da cultura materialista. O capitalismo até talvez pudesse funcionar bem, não estará nele necessariamente o problema. A questão é que o enfoque é exclusivamente materialista e individualista. Não há dimensão espiritual. Não faz sentido.

Como se pode contrariar isso?

Através do Roots and Shoots [projecto para a juventude iniciado em 1991 por Jane Goodall]. Acreditamos na mudança de atitudes. Temos que mudar a filosofia segundo a qual, para mudar o rumo num país é preciso bombardeá-lo. Temos que mudar a atitude com os animais, que são criados em espaços diminutos para se tornarem comida barata. (...)

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...