Mote: Sophia Loren, 71 anos, afirma sentir-se tentada a posar nua para revistas.
Preciso mandar emitir passaporte e renovar todos os documentos. Alterei o endereço; eu própria me alterei. Quando me pedem o BI, nas lojas, olham para a foto e para mim, para a foto e para mim, e mandam-me escrever a assinatura 3 vezes - sendo que a assinatura também mudou, e me custa imenso repeti-la igual à do bilhete.
Fui ao fotógrafo do bairro, expliquei-lhe o fim dos retratos: documentação. "Sim senhora, vamos já tratar disso!"
Lá me ajeitou contra o fundo azul, mandou-me sorrir, depois mostrar os dentinhos, e eu obedeci, porque queria ficar bonitinha. E disse-lhe mesmo, "espero ficar bonitinha!", ao que sorriu, cúmplice.
Esperei um bocado, fui ao café, e regressei para levantar o trabalho, já pago. Abri a capa de cartão contendo as fotos e deparo-me com uma mulher desconhecida. A mesma roupa, as mesmas cores de olhos e cabelo, mas não era eu. O cabelo tinha brilho de bebé, bem como os dentes (que até me esquecera de lavar!), e, milagre dos milagres, não tinha quaisquer sinais particulares na cara; nem manchas nem olheiras nem papos nem rugas de expressão. Tudo apagado. Apreciei o efeito da pele sem sardas. Gostei. O problema é que não era eu. Não sou. Aquilo não pode servir para documentação alguma. Mas trouxe as fotos, emudecida, fascinada. Não reclamei. Queria aquele objecto estranho criado a partir do meu rosto.
Mostrei a toda a gente, e foi risota geral. Podia publicá-la aqui, que não me reconheceriam na rua. Fiquei gira. Roubou-me uma data de anos. Fiquei mais composta, mais formal. Pareço uma senhora. O problema é que não sou eu.
Quero as minhas manchas na pele, as minhas olheiras e papos. Quero reconhecer-me.
Duas horas depois fui a uma máquina de fotos tipo-passe, das que encontramos nas estações de transportes, meti as moedas, sorri para o vidro, e saíram 4 retratos escuros e manchados. Era eu. Não era tão bonita nem tão certinha nem tão perfeita, mas era eu, bolas, e respirei fundo, e fiquei sossegada. Não quero ser bonitinha. Quero apenas ser eu.
Preciso mandar emitir passaporte e renovar todos os documentos. Alterei o endereço; eu própria me alterei. Quando me pedem o BI, nas lojas, olham para a foto e para mim, para a foto e para mim, e mandam-me escrever a assinatura 3 vezes - sendo que a assinatura também mudou, e me custa imenso repeti-la igual à do bilhete.
Fui ao fotógrafo do bairro, expliquei-lhe o fim dos retratos: documentação. "Sim senhora, vamos já tratar disso!"
Lá me ajeitou contra o fundo azul, mandou-me sorrir, depois mostrar os dentinhos, e eu obedeci, porque queria ficar bonitinha. E disse-lhe mesmo, "espero ficar bonitinha!", ao que sorriu, cúmplice.
Esperei um bocado, fui ao café, e regressei para levantar o trabalho, já pago. Abri a capa de cartão contendo as fotos e deparo-me com uma mulher desconhecida. A mesma roupa, as mesmas cores de olhos e cabelo, mas não era eu. O cabelo tinha brilho de bebé, bem como os dentes (que até me esquecera de lavar!), e, milagre dos milagres, não tinha quaisquer sinais particulares na cara; nem manchas nem olheiras nem papos nem rugas de expressão. Tudo apagado. Apreciei o efeito da pele sem sardas. Gostei. O problema é que não era eu. Não sou. Aquilo não pode servir para documentação alguma. Mas trouxe as fotos, emudecida, fascinada. Não reclamei. Queria aquele objecto estranho criado a partir do meu rosto.
Mostrei a toda a gente, e foi risota geral. Podia publicá-la aqui, que não me reconheceriam na rua. Fiquei gira. Roubou-me uma data de anos. Fiquei mais composta, mais formal. Pareço uma senhora. O problema é que não sou eu.
Quero as minhas manchas na pele, as minhas olheiras e papos. Quero reconhecer-me.
Duas horas depois fui a uma máquina de fotos tipo-passe, das que encontramos nas estações de transportes, meti as moedas, sorri para o vidro, e saíram 4 retratos escuros e manchados. Era eu. Não era tão bonita nem tão certinha nem tão perfeita, mas era eu, bolas, e respirei fundo, e fiquei sossegada. Não quero ser bonitinha. Quero apenas ser eu.





