quarta-feira, outubro 04, 2006

Segundo pensamento na alba

O raio do soutien aperta-me nas costas; ao longo do dia, vai deixar-me um vinco escuro na carne; um vinco vernelho cor-de-carne torturada; logo à noite há-de picar-me a pele apertada, quando o tirar de repelão, como se já estivesse enterrado na pele, e hei-de ter nesse sulco uma comichão mórbida, que não poderei coçar até sangrar, apenas massajar com talco, massajar, massajar docemente as feridas do dia. Vai ser o meu cilício dissimulado sob a blusa. Para meu castigo de qualquer coisa. Que não quero fazer.

Alba do bairro da lata

O azul-prateado-mate do Mar da Palha, às seis e cinquenta e cinco, destaca-se do azul-prateado-brilhante do céu, sobre si, alimentado por luz própria atravessada de fiapos cinza-azulado, branco-sujo, que se depositam horizontalmente sobre as terras do Barreiro e Montijo, conforme as avisto da minha janela.
Só às sete e vinte e pouco, pelos meandros dos fiapos cinza, se acende, do nada, um fósforo de amarelos fortes, que vai clareando, contaminando rapidamente toda a altura onde antes residia apenas um azul prateado de céu simples, alimentado de brilho próprio.
E só depois se pode dizer, "lá fora há luz, de novo!" Demasiada. Excessiva luz crescente.

terça-feira, outubro 03, 2006

Como dormir sem drogas, curando a ansiedade de forma natural

O desabrido leitor(a) estenda-se ao comprido no seu sofá, com o seu chá de estimação, e a televisão na 2, enquanto começa a passar A Letra L. Tape-se com uma mantinha e deixe-se ir apagando ao longo do entusiasmante enredo; prepare-se para acordar às 4 da manhã com a voz do pastor da igreja do Brasil, "nós podemos curá-lo, meu irmão!"

segunda-feira, outubro 02, 2006

Um blogue-tempestade

Manter um "blogue-tempestade" acarreta pressões de dentro, dos próximos, relativamente ao que se publica, e não se devia, e dos de fora, leitores mais ou menos assíduos, relativamente ao que consideram que o blogue é ou deveria ser.
Quase todos acham que podem interferir, definindo orientação temática, pedindo explicações sobre textos e respostas a comentários.
Há os que me alertam para o facto de eu ser melhor nisto do que naquilo, sendo que, portanto, estou a perder-me naquilo. Há os que acham que isto deveria ser um livro, uma revista de actualidades, um consultório de sexualidade, o espaço privado de uma diva sem donos ou donas, uma coisa com classe ou sem classe alguma... imensas opiniões.
Muita, muita resistência à mudança.
De forma geral, penso que se desse ouvidos a tudo o que me pedem, se não fosse caprichosa, irredutível, teimosa, se não fizesse no blogue só o que me apetece, e só, e não o gerisse como me dá na gana, conforme a lua, conforme me correu o dia de trabalho, quase sempre nos limites do irrazoável, excedendo-me, barafustando, boicotando, já tinha encerrado portas. Se alguém perdia, como às vezes me dizem, estou-me espalhafatosamente nas tintas: eu cá perdia, porque eu preciso disto como de pão para a boca!
Por isso, valha-me eu!


Maluca de caixão à cova

Há uns tempos alguém me aconselhava a não mencionar publicamente a existência de uma psicanalista na minha vida, para que essa confissão de fraqueza mental não desmerecesse a qualidade das minhas opiniões - foi a forma que encontrou para desmerecer uma opinião que emiti!
Acho bastante graça aos tabus das doenças mentais, ao medo que nos considerem malucos, que sejamos de facto malucos - e quanto mais tememos, mais fugimos, mais nos esquecemos da loucura inata. Esse caos melhor ou pior ordenado.
Posso, portanto, escrever fartamente sobre a minha ginecologista, o meu ortopedista, a minha cirurgiã plástico-reconstrutiva, a minha médica de clínica geral, o dermatologista... Neurologista, com cautelas, ainda vá, porque posso ser doente dos nervos; assim uma doença muito vaga dos nervos. Um desgosto que me deixou com uns tremeliques... Que seja desgosto de amor, mas coisa séria, ou morte de familiar próximo.
Agora, psiquiatras, psicanalistas, psicoterapeutas, psicólogos: ai que vergonha! Vade retro; ninguém os consulta. Nem sei como há por aí tanto profissional da área, nem de que vivem!

À cultura hegemónica calha bem a fobia da maluquice. Fazendo contas por baixo, poupa ao Estado nas comparticipações em longos tratamentos. Depois, claro, poupa em autoconhecimento. E aí poupa muito. Poupa quase tudo.
À cultura hegenónica não interessa que eu me compreenda, que me situe no mundo, partindo de mim para os outros. Que, situando-me, perceba também aquilo de que careço, inclusivamente o que dela não recebi ou não recebo - ou recebo por excesso.
Um dos mais eficazes mecanismos de controle da cultura hegemónica recai sobre a promoção de uma fobia generalizada da loucura, logo, a fuga a tudo o que possa estar proximamente relacionado - psicanalistas, psicoterapeutas, psiquiatras, sexólogos(as) - e sobre a exclusão do domínio público dos assuntos relacionados com a abordagem da saúde mental.
Por isso é que estou proibida de falar da minha psicanalista no blogue.
Não fosse isso, falava!


A minha psic

Não sei se a minha psic lê este blogue. Se não lê é porque não quer, porque já lho nomeei milhares de vezes, em sessões diversas!
Mas não acredito que a minha psic queira descer tão baixo. É uma senhora, e uma senhora não lê blogues.
Não sei se a detesto, mas gostaria que fosse mais como a do Tony Soprano. Queria sentir-me com ela como me sinto com uma amiga, um amante, não como com a minha madrinha, ou com o que é mesmo: uma profissional paga para me ouvir, aceitar tudo, e não me julgar!
Se lhe dissesse isto, responder-me-ia, "é assim que a Isabela me vê? Não coloca, portanto, a hipótese de que eu goste de si?"
"Não! O que lhe pago exclui relações puras - isto é negócio para si, uma coisa qualquer para mim, e não faço a menor ideia do que ando cá a fazer!"

Estou semi-oficialmente zangada com a minha psic desde que na quinta não lhe respondi a um sms: ousou perguntar-me se já estava melhorzinha - isto depois de uma discussão sobre horários, na quarta.
E por que me mandou ela um sms, porquê? E não telefonou, como é habitual, porquê? Hã, hã... primeiro, porque não acredita que estive doente; segundo, porque eu também lhe enviei um sms informando encontrar-me doente! Fez-se pagar igual, a espertalhona. Gosta de matar com os mesmos ferros. A ver se lhe respondo!
A psicanalista do Tony Soprano diz-lhe frases giras como "não tem que foder todas a mulheres que lhe aparecem à frente"; a minha não me diz nada disso. Pergunta-me, "e o que acha a Isabela sobre isso?" "Sobre isso, o quê?" "A sua relação com esse homem em particular!"
A minha psic nunca se comprometeu com nada. Nem uma palavra. Se comento, "hoje está frio, não está?, responde, "a Isabela sente frio?"
Porra, nunca, em todo este tempo, e foram quatro anos, senhores!, four fucking endless years!, para tornar isto mais fluído, cheguei a uma conclusão que não viesse de mim, decidi uma decisão que não fosse da minha lavra, pensei pensamento que não me pertencesse, julguei julgamento que estivesse fora de mim.
Não sei se esta mulher, esta minha psicanalista, fez alguma coisa por mim nos últimos 4 anos, sendo que dois deles foram mesmo, mesmo, mesmo fodidos. E se fez, fui eu que fiz!

Mesmo que usasse com ela este vocabulário tão reles - foder! - ela não o repetiria, como a do Tony Soprano. Já usei, pedindo mil desculpas. "A doutora desculpe, mas tenho de dizer isto com estas palavras - juro que disse tal e qual - "Ele só quer, só quis foder-me!"
Ela responde, "como é que a Isabela pode ter a certeza que ele só quis ter relações consigo?" (Poupo-vos à explicação, por repetitiva!)
Não posso decepcionar a minha psic. Desiludi-la. Permitir que venha a considerar-me uma mal educada. Ela é uma senhora, e eu não sou, afinal, uma mal educada. Sou do bairro da lata, sim, mas ando lavadinha!
Perante ela, apesar de tudo, tenho uma imagem a manter. Custa-me, sinceramente, pagar-lhe tanto dinheiro para ela pensar mal de mim!

Isto é algo que as minhas sessões e as de Tony Soprano têm em comum: lamentar o dinheiro que gastamos com "amantes" tão caras, que não nos dão prazer, que nos fodem o juízo!
Detesto a minha psic, e só não lhe minto porque, pá!, pago-lhe demais para lhe mentir!


domingo, outubro 01, 2006

As caudas de luz

Foto de Pedro Arnay, Hebras de Mujer


Sou grande. Ocupo muito espaço. Quando me movimento o ar desloca-se ao meu redor e atinge os outros, levantando-lhes fios de cabelo; se as saias das mulheres são leves, tremem como seda à minha passagem.
Ocupo muito espaço. Toda a vida. Na vida dos outros. Na minha. Sou enorme. Se não têm espaço para mim, não vale a pena começar.
Sou um osso grande, um fémur largo, duro de roer. Se não têm espaço nem tempo nem força, não vale a pena começar. Sou enorme, já disse; bato em todas as esquinas e ando sempre com nódoas negras nas coxas, nas pernas.
Sou demasiado visível. Vêem-me ao longe. Já estão a alcançar-me e a levantar as cabeças.
Encontro pessoas na rua, nas lojas. Olham-me de frente, sorriem sem me conhecerem. São sobretudo mulheres. Quase sempre mulheres. São lindas, velhas, novas, altas, baixas, morenas, louras, como seres de luz vindos de um outro mundo. Estas mulheres que me sorriem, arrastam um cauda de luz como se vestissem de noivas. Vêm ver-me passar. Assomam. Param, fitando-me sem palavras. Sorrindo. Sorrio. Às vezes, para disfarçar, perguntam-me, "este azeite é bom?" E eu, olhando para o rótulo da garrafa, respondo, "sim, é bom, é regular..."
Mas penso, e pergunto-lhes, em pensamento, enquanto retribuo sorrisos, "também não és de cá, pois não?"
Os homens olham-me de outra maneira. O olhar dos homens pesa sobre mim e incomoda-me. Não gosto desses homens, nem da soberba com que me olham, como se pudessem escolher-me entre uma série de objectos de consumo. Gosto de homens que sabem olhar-me como mulheres com cauda de luz. Que aprenderam essa força mista, já não só energia potencial, pura, que se empurra instintivamente na escuridão, cega de todo, mas luz aberta. Luz feita.
Tenho gostos muito simples, embora seja uma mulher enorme, que ocupa espaço no espaço de si e dos outros. E isto é simples: os homens meus contemporâneos, testemunhas da invasão que as mulheres fizeram dos seus territórios, já não podem aceitá-lo apenas, mantendo-se à parte, tratando o assunto como uma catástrofe inevitável da civilização, efeito colateral da democracia dos valores humanos.
Os tanques transbordaram há muito e as águas confundiram-se. Já não há, portanto, territórios estanques. Já não haverá. Não regrediremos. Vivemos no tempo em que os territórios se confundiram finalmente em lama primordial. E o absoluto de tudo isto é uma questão de tempo. De mais tempo. Apenas tempo, que é nada.
Poderemos perder quase tudo: os confortos desta civilização, esta civilização! Seria bom: um novo mundo! Sempre a mesma expressão. Novo mundo! Mas quando tivermos perdido tudo, o velho mundo, não esqueceremos, jamais, conjuntamente, a lama primordial a que estamos regressando.
A estadia é o caminho de regresso a essa lama indistinta, perfeita.
Esperei por este tempo a minha vida inteira. Uma curta vida. Demorou, e bracejei. Não me vendi e não comprei. Não estive calada. Vivi. Olhei. Antecipei.
Não quis um homem dos tempos velhos. Não percebi, durante muito tempo: eu não era igual às minhas companheiras, não fazia as mesmas coisas ao mesmo tempo. Não quis nunca um homem desses. Seríamos incompatíveis. Pertenceríamos a tempos diferentes. Não pude fazê-lo, inconsciente do que não fazia. Eu, e o homem dos tempos velhos, seríamos dois sistemas operativos incompatíveis; pior, oponentes. Sem protocolos de acesso possíveis.
Eu e o homem dos tempos velhos, fitamo-nos e não sentimos piedade, temor ou amor mútuo. Eu e o homem dos velhos tempos, ou nos ignoramos de passagem, por conveniência, ou nos degladiamos sem trégua. Não há espaço para ambos no mesmo lugar.
Há um segredo: eu conheci, muito cedo, um homem que arrastava uma cauda de luz enorme como as das mulheres que me sorriem ao longo da tarde. Éu já conheço esses homens. Eles existem por todo o lado. Por isso, vale a pena esperar, bracejando, ocupando espaço. Sendo enorme. Valeu a pena esperar.


O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...