terça-feira, outubro 09, 2007

Grandes campanhas falhadas II


Todos leram nos jornais que o Ministério da Educação tem estado a oferecer computadores portáteis, bem como respectiva placa para banda larga, aos alunos do secundário que beneficiam do escalão 1 da Acção Social Escolar (ASE), ou seja, aqueles cujo rendimento do agregado familiar é tão baixo que não chega para pagar a conta da electricidade doméstica. Os alunos do escalão 2, cujos familiares conseguem pagar a electricidade de vez em quando, mas que mandaram desligar o telefone, beneficiam de um desconto bastante vantajoso. Os restantes alunos sem benefícios sociais podem obter o mesmo portátil pelo valor inicial de 150 euros, mediante contrato de fidelização com uma empresa de telecomunicações, e por módica quantia. Grande negócio. Para todos: empresa, governo, e, por último, os alunos.

Eu estudei sem computador. Batia os trabalhos à máquina e requisitava livros na biblioteca. O computador, o acesso à net e os downloads não me beneficiaram. Não tenho nada contra a internet. Já nem vivo sem ela. Bem usada é útil a todos. Mas acordemos que o sucesso escolar não depende da posse de um portátil pessoal, em nenhum nível de ensino. Pelo contrário, conheço alunos, alguns são da minha família, cujos pais precisaram de lhes vedar o acesso ao computador para que começassem a tirar uma ou outra positiva de vez em quando.
Creio que a fabulosa campanha "1 aluno, 1 computador" se transformará, no final do ano lectivo, em "a cada aluno o seu chumbo". O barato sai sempre caro.

segunda-feira, outubro 08, 2007

Foi mais enganado do que eu

No canal 2 da RTP, acabei de ouvir um coleccionador de arte afirmar que fez psicanálise durante dez anos, quatro vezes por semana, e que continua a precisar que gostem dele. Quem é que não precisa?!

domingo, outubro 07, 2007

Ao menos usem aliança para a gente perceber logo


Entrou um colega novo lá para a empresa. Desde que chegou, tem-se chegado muito a mim.
"Olá, colega, então que fazes por aqui hoje?", pergunta-me, penetrando-me o olhar com uma espécie de visão raio X que me atravessa de um lado ao outro da testa. O raio do homem ainda me arranja algum descolamento na retina.
Considerando que trabalhamos ambos na mesma fábrica de parafusos, e que ambos produzimos artigos de tamanho médio, e exactamente na mesma secção, gostaria de saber que raio de pergunta é aquela? A resposta correcta seria "faço exactamente o mesmo que tu, ora essa!" Mas não, não posso retorquir de tal forma e tornar-me indelicada. É preciso ver que enquanto me penetra o olhar, o colega sorri com a boca toda, pelo que lhe respondo, sorrindo também, de fugida, meia de lado, "Adianto uns trabalhos. Tem de ser. Compreendes..."

Os homens muito gulosos embaraçam-me. Quando se torna muito óbvio que me estão a fazer a corte, e olhinhos ternos, e sorrisinhos, e me querem tocar na mãozinha, e fazer conversa sem terem nada para dizer, seguros do implícito "eu sei que tu estás a perceber que estou interessado", sinceramente, envergonham-me. Torna-se contraproducente, porque só penso em fugir. Assim não dá, não consigo.
Gostava tanto que estudassem uma conversa qualquer, de forma a que eu não percebesse tratar-se de medíocre engate, e deixassem correr. Liam-me uns poemas. Levavam-me a umas livrarias com café. Ao cinema. A passear não sei onde. Explicavam-me a teoria do big bang pela trigésima-quinta vez, ou como se faz uma ponte suspensa, ou lembravam-me os princípios da trigonometria. Depois logo se via o que é que dava. É que não vou a lado nenhum com conversa de engate. É oca; é óbvia. Com uma mulher do meu género não dá.
Em alternativa, parecer-me-ia bem que o meu colega arranjasse coragem para dizer, "Ó Isabela, sais às quê? Anda ali à Cruz de Pau tomar um café!" Eu diria que sim, já a perceber tudo, pois, mas ia, e o homem explicava-se, desengasgava, e eu faria um esforço enorme para não me rir, mas ele não daria por nada, e pelo menos tinha do seu lado a prova maior que para mim constitui a coragem. Coisa mais linda, e rara, a coragem! Se calhar até tinha sorte. Se calhar até o deixava ver-me os olhos ao fim-de-semana, e quatro ou cinco anos depois quem sabe se não estaria quase a deslizar-me a alça do soutien.
Quando gosto de um homem, tenho uma técnica: digo-lhe. Não ando a empatar com linguagem corporal que só embaraça, e verbal, "não sei quê, o que é que andas aqui a fazer". Conclusão, ou o colega novo é cobardolas, e não serve, ou é dos casados, e sem aliança, e, logo, também não serve.



sábado, outubro 06, 2007

Geografia dos Sábados à tarde

Foto: Samantha Wolov

Encontrávamo-nos na Cruz de Pau.
Ele tinha um blusão de ganga justo, e umas calças do mesmo material, afuniladas, ruças. A roupa era sempre a mesma. Uns ténis de pano. Brancos. Encardidos. Ou pretos cheios de pó. A tiracolo, uma sacola de carneira escura, gasta, com autocolantes do Che, anti-nucleares, anti-fascismo, pró-liberdade, pró-Cuba, pró-Abril.
O passe dele servia para as carreiras de Paio Pires até à Cruz de Pau; o meu dava para todo o lado.
Descíamos até à Amora. Regressávamos ao centro, junto à estrada nacional 10. Às vezes ele tinha ido a pé com o pai até à Siderurgia. Eu não sabia o que era um cabouqueiro. Ele ria-se. Como era possível alguém não saber o que era um cabouqueiro?! Quando chovia muito resgardávamo-nos debaixo das varandas ou dos telheiros das lojas, ou entrávamos nas cervejarias para secar a roupa e descansar do frio; ele pedia uma imperial e um pastel de bacalhau. Ou um café e um mil-folhas. Trazia duas ou três moedas, não mais.
Os nossos encontros tinham três objectivos muito precisos: discutirmos política e cultura, e discordar; olharmo-nos de novo, fascinados, após uma semana de ausência; beijarmo-nos encostados às paredes da Cruz de Pau, nas esquinas da Cruz de Pau, nos bancos da Cruz de Pau, nos vãos de escadas da Cruz de Pau, a céu aberto na Cruz de Pau, e desejarmos o dia em que havíamos de fazer amor, fosse onde fosse, para podermos calar-nos, e concordar.
Eu considerava-o bastante radical de esquerda; ele via-me muito arraçada de direita. E entre beijos e trincas e as juras, que nunca... sorríamos.
Ele não se lembra disto, mas a Cruz de Pau ainda ali está. E eu também.

terça-feira, outubro 02, 2007

Grandes campanhas falhadas

Conheço muito bem o uso que os velhotes fazem dos telemóveis. Há uns meses comprei o primeiro à minha mãe e, claro, prestei-lhe a assistência possível: gravei-lhe o meu número na tecla 1, o da sobrinha favorita na tecla 2, o do irmão na tecla 3; logo a seguir, ensinei-a a carregar no botão verde para realizar a chamada ou atender, e no vermelho para desligar. Expliquei-lhe que quando o aparelho ficasse sem bateria tinha de o ligar à corrente com "este cabo, assim", depois carregar "neste botão, aqui" e "pôr estes quatro números". Mas os dedos da minha mãe, não sendo maiores que os meus, apanham três botões de uma vez, e quando lhe telefono atende-me carregando no botão vermelho, e depois diz que o telefone não atende bem, e quando me quer ligar, liga para a minha prima, ou vice-versa, e quando se lhe acaba a bateria telefona-me para o fixo para me informar, muito chateada, que "o telemóvel estragou-se".
Ora, a minha mãe até tem óculos, vive num prédio com vizinhas, e vê os Morangos com Açucar. Permitam-me, agora, imaginar a cara dos velhotes que vivem isolados nos confins interiores do País, sem óculos, sem vizinhos, sem filhas a viver a dois passos, no momento em que receberam os telemóveis distribuídos pelo governo para combater o isolamento. O que eu dava para ter lá estado!


segunda-feira, outubro 01, 2007

Na minha mala de enxoval


Antigamente, a minha mãe não me deixava mexer na mala do enxoval, nem eu queria. Detestava as peças antiquadas diversas que me tinham oferecido aos oito anos, e depois aos treze, mais as que ela me tinha comprado porque haviam de me ser muito úteis, um dia, quando tivesse marido, filhos e uma casinha, a qual pertenceria sobretudo aos últimos, embora eu aí desse o litro como uma escrava de facto caseira.
Na minha mala do enxoval, de madeira sólida, trabalhada à mão pelos negros de uma qualquer marcenaria de Lourenço Marques, que cá veio parar nas entranhas de um contentor de retornados, não sei se se lembram, havia, ainda há, têxteis com padrões psicadélicos dos anos 70, nomeadamente os de cozinha, e outros com bordados e decorações intemporalmente românticos, nomeadamente a roupa de cama, sobretudo os lençóis da noite de núpcias - a qual, se bem me lembro, veio a acontecer à tarde, numa pensão barata, embora já não esteja bem certa.
Hoje, a minha mãe já me dá acesso à mala de enxoval, e autoriza-me a retirar de lá tudo o que me apeteça, porque, coitadinha, perdeu a esperança, e justificadamente. Assim, abro a minha mala de enxoval, com cuidado, não tirando nada, apreciando com gozo, apenas, as peças tão retro, tão bonitas, que não poderia pôr a uso sem estragar, e que não quero estragar porque são únicas e insubstituíveis. De maneira que abrir a minha mala de enxoval se transformou numa espécie de ida ao antiquário.


A minha actual vida de casada

Sem pensar, refiro-me à cama que permanece no meu intacto quarto, em casa da minha mãe, como a minha cama de... solteira.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...