segunda-feira, março 10, 2008

O carácter relativo da putrefacção

Está um vento de loucos e o passeio das meninas teve de ser muito curto.
A Morena abocanhou uma massa orgânica castanha e espalmada, e manteve-se muito ciosa dela. Não tentei arrancar-lha da boca, pelo que a trouxe para cima.
Dói-me tudo, enquanto na cozinha se delicia às escondidas com o pitéu. Pode ser uma posta de peixe-espada putrefacta ou uma rata dos canos atropelada. Prefiro que seja uma rata dos canos, só por causa do nauseabundo cheiro a peixe que me há-de ficar no tapete.

domingo, março 09, 2008

Linguagens seculares e blogues

As linguagens seculares estão em declínio. Penso que o fenómeno reflecte, inapelavelmente, o tempo pouco rigoroso que atravessamos e atravessaremos. As linguagens seculares carregam o peso da erudição, de um discurso nem sempre fácil, reclamando concentração, e os tempos são outros: o leitor procura, na literatura, como no resto, o fácil e o rápido, conclusão a que chego sem censura: também estou cansada de certos discursos seculares, os quais, frequentemente, pouco me dizem. Os blogues têm sabido responder a esta procura, com texto curto, inteligente e satírico, cuja leitura não exige acurada atenção. Por outro lado, usando as linguagens não textuais, como a "caderneta de cromos", ou seja o fotoblogue, e a praga do You Tube. O You Tube fala pelo bloguista. Exige-lhe menos trabalho, e satisfaz por igual o leitor, confrontando-o com informação nova e inesperada. A questão da autoria é alheia ao leitor do blogue. Não lhe interessa quem produziu o que lê ou vê, mas a emoção produzida.

Este é o estado das linguagens seculares, e é assim porque o mundo mudou, nós mudámos, a cultura mudou. Deseja-se interacção, imediatismo e intensidade. A ficção tem dificuldade em superar a intensidade da vida real. O carácter excessivo da vida real colide com o pudor da ficção. Como ficcionar a realidade sem a tornar inverosímil, sem a transformar numa novela das 7? A ficção perdeu pathos. A grande literatura perdeu pathos. Os leitores emocionam-se com o big brother, por excelência a novela da vida real, e é nesse aspecto que o blogue de quotidiano, diarístico, confessional, entra, e funciona. O blogue torna-se uma espécie de big brother que o autor manipula a gosto, seleccionando as imagens do seu real que quer passar. E passando-as, escolhe a música de fundo com que pretende que sejam visionadas. A vantagem do blogue no qual se insere O Mundo Perfeito, e o seu sucesso, está neste equilíbrio inconfessado, nunca verdadeiramente declarado, entre o real e o ficcional. Por vezes não interessa nada ao leitor que aquele poste seja a realidade. Por vezes, só consegue lê-lo como autobiografia em estado puro. Para mim, enquanto bloguista, tanto faz. O texto postado é para o leitor aquilo que o leitor precisar de ler nele. Nisto, o blogue revela uma plasticidade insuperável, e é um meio de comunicação absolutamente surpreendente.

A actual tendência para a uma literatura rápida, curta, confessional, regista visível crescimento a nível editorial. Não me lembro de as livrarias exibirem tantas novidades editoriais na área do memorialismo, do texto biográfico e autobiográfico bem como irónico, auto-irónico. Os leitores procuram a confissão, o documento: mais uma vez, o pathos da vida real que tão bem serve o blogue-diário.
N' O Mundo Perfeito, por exemplo, os leitores preferem as aventuras pseudo-verídicas da Isabela, operária suburbana, solteirona, com excesso de peso, uma mãe, duas cadelas, que trabalha numa fábrica de parafusos, e evidencia uma certa má relação com os homens e o sexo. A Isabela tem um passado de vivências exóticas e intensas, sonha um futuro qualquer que há-de vir, e narra as aventuras da sua vida solitária e social, os amores e desamores, traumas, medos, caprichos, incoerências, revelando uma humanidade tão chã quanto nobre, com a qual o leitor vulgar se pode identificar. "A Isabela é perfeita, mas a Isabela não é perfeita. A Isabela é como eu ou a Isabela é tudo o que desprezo. Amo-a. Odeio-a." Escreva a Isabela bloguista o que escrever, o que até poderá ser a fórmula química da vacina contra a sida, e os leitores não recusarão ler e comentar, mas o que vende, o que aqui se procura, é a personalidade amorosa, mas brutal, contraditória, radical, teimosa, idealista, bastante romântica e vagamente fora de moda e contracultura da Isabela, que se pode amar e odiar livremente, a quem podemos deixar declarações de amor ou insultos, coisa que não podemos fazer relativamente à Clara Ferreira Alves ou outras "personagens" pelas quais sentimos igual paixão. As linguagens seculares pouco entram neste insuperável trânsito de pathos. Desprezam o confessionalismo, olham-no tão de lado quanto possível, mesmo que se declare contaminado.

Isto seria o que eventualmente teria dito sobre o tema "O modo como as linguagens seculares (que aprendemos sem ter em conta a rede) se moldam, hoje em dia, à rede e mais concretamente aos blogues", caso esta conversa tivesse ocorrido na Casa Fernando Pessoa, no passado dia 6. Como não aconteceu, deixo aqui a minha participação. Para a próxima, por favor, convidem-me a participar via net, e assim posso vir logo para casa vestir o pijama e meter-me debaixo do aquecedor enquanto vejo o telejornal.



Até tinha feito este esquema das ideias principais, à hora do almoço. Usei-o agora para escrever este texto.

terça-feira, março 04, 2008

Os altos e baixos do Poder

Montagem pedida emprestada ao Kaos in the Garden (ele ainda não autorizou o empréstimo...)

A luta dos professores pelo direito a uma avaliação justa e digna, tal como a que devem aos seus alunos, remete-me para uma reflexão que tem a ver com os altos e baixos do Poder, ou seja, o poder do Poder, questão que hei-de moer enquanto não puder matar.

As reivindicações dos professores relativamente às alterações do sistema educativo, que criaram duas classes diferentes de docentes-colegas iguais, excepto em tempo de serviço prestado, são hoje rigorosamente as mesmas de há ano e meio atrás. Nessa altura preparava-se a aplicação do sistema de avaliação de que agora se fala. A diferença é que há um ano atrás, para a opinião pública, os professores eram uma classe preguiçosa e cheia de privilégios. Foi essa a imagem que o poder político, encabeçado pela sombria ministra, promoveu, entre outros através de publicidade que comprou na Imprensa diária, e a que chamou esclarecimento ao público. Pagou, com o dinheiro dos contribuintes, a criação de uma má imagem da classe docente, o que levaria a uma perda de poder dos professores, logo, a uma quebra na sua indesejável força reivindicativa. Tem sido uma das estratégias, sujas, deste Governo.

A mesma Imprensa que deu páginas de opinião anti-professores ao Governo, e divulgou com gáudio a mensagem do Poder, acha, agora, que, se calhar, este sistema de avaliação... é complicado demais, parece a rede do metro de Londres, os prazos são inviáveis...
Manuel Villaverde Cabral afirmou, ontem, no Prós e Contras, que os professores se tornaram uma classe diabolizada pelo poder político. Marcelo Rebelo de Sousa, Domingo passado, declarou que se tinha sentido incomodado com o enxovalho de que tinha sido alvo a ministra no anterior programa de Judite de Sousa, mas que a governante tinha colhido o que semeara. Que a revolta, a tremenda raiva dos professores era consequência de uma desautorização do seu trabalho, do seu estatuto e da sua honra, da qual ela tinha sido a principal agente. Que o desrespeito da ministra pelos professores se tinha reflectido num desrespeito por ela. Ora, o recente volte-face favorável aos professores, e toda a discussão sobre o novo sistema de avaliação dos docentes aprovado pela maioria parlamentar, agora de execução obrigatória, só se tornou possível porque o governo perdeu, nas recentes sondagens, sem apelo nem agravo, a maioria absoluta que já tinha perdido na rua, logo, perdeu poder.

Os professores foram colocados na mó de baixo enquanto o Governo esteve na mó de cima; agora, que Sócrates e pandilha se têm esforçado por cavar a sua cova bem funda, as estruturas pensantes, e satélites do poder, devolvem aos professores a sua voz. E nisso, a honra perdida.
O poder tem os seus seguidistas, que barato o abandonam por poderes mais poderosos. A ver quais serão estes, por agora. O poder vai e vem. Tira e devolve. Embora seja interessante observar estes fenómenos,
considero que há algo de perverso para os professores no facto de a sua luta estar directamente relacionada com as vitórias e derrotas do Governo. É perverso que a desejável mas improvável saída da ministra da avaliação, implique uma derrota política e moral que o Governo não se pode dar ao luxo de admitir.

Mas termos chegado a um ponto em que os últimos cartuchos de crédito de um Governo dependem, tão só, da substituição da sua ministra da educação, não lhe augura grande saúde. E que nenhuma paz se conceda à sua alma! Deixem-no à merecida voragem das aves de rapina suas iguais. A ascensão e a queda sabem melhor em grande!
Entretanto, os professores preparam uma manifestação histórica para o próximo fim-de-semana, e mal posso esperar pelos episódios que se seguem.

segunda-feira, março 03, 2008

Não sei quê das linguagens seculares

Vou participar nesta conversa sobre blogues, na próxima quinta-feira, na Casa Fernando Pessoa, onde nunca entrei por medo de partir alguma coisa: os óculos do poeta, as teclas da máquina de escrever.
Agradeço as opiniões de leitoras e leitores que, na caixa de comentários, queiram ajudar-me a pensar sobre o tema em questão. Se só quiserem ouvir-me e conhecer-me, bem como aos restantes bloguistas, esses realmente famosos, não esqueçam que é na quinta, pelas 18h30, mais coisa menos coisa, altura em que Dadinho Pit, ai, caraças, que não posso, desculpem!, Eduardo Pitta, fará a apresentação do próximo livro de Luís Carmelo sobre a blogosfera. Se me estiver a enganar, alguém há-de vir corrigir-me.

Os selvagens

Enquanto vigio o passeio das cadelas, observo os miúdos da escola do meu bairro, postando-me do lado de fora do gradeamento. Os putos saem do edifício gritando, e permanecem chiando, berrando, urrando ao longo da meia hora de intervalo, sem razão aparente. Espalham-se pelo pátio e interagem uns com os outros gritando. Não falam, gritam. Gritam muito, ao mesmo tempo, em diferentes tons, sem combinação. Uma coisa medonha.
Penso que também nos fazia bem sermos autorizados a meia horinha diária de gritaria sem censura, sem desconfianças de loucura. Cada um para seu lado, ou em uníssono, criativa ou tradicionalmente. A ideia agrada-me excessivamente. E seria um grande incremento para a indústria dos tampões para ouvidos.

domingo, março 02, 2008

Canibal

Foto: Tomatello

Comer os lábios húmidos de um rapaz que passa por nós, que conhecemos, não sei se alguém ainda se lembra. Quando tinha 15 anos masturbava-me artesanalmente, sempre que podia, por amor aos lábios do Pedro, e pensava Pedro, Pedro, no momento em que me dividia entre o meu corpo e as endorfinas que o transcendem. O Pedro tinha 18 anos, lábios grossos, escuros, húmidos, os quais eu desejava lambuzar e morder e comer, mas estava-me completamente proibido. A namorada chamava-se Mena, tinha um carro que o pai lhe dera pelos anos, era rica, e tinha saído da escola porque não tinha cabeça para os estudos. Ninguém sabia muito bem para que é que ela tinha cabeça, mas era visível que abusava de umas mamas deliciosamente leiteiras, e dum cabelo claro a condizer com uns olhos do Minho; estas seriam, não quero ser má, nem nada, as características mais salientes do seu talento intelectual. O Pedro e a Mena namoravam e passeavam muito de carro, ele adorava-a e eu odiava-a proporcionalmente.
As carnes lentas e leitosas da Mena não obstaram a que, poucos anos mais tarde, o Pedro fosse apanhado pelo pai, num sofá da empresa, com um tal Rui, a fazer não sei quê de que não se falou muito, e a coisa avançou. Acho que casou e teve uma filha, que já deve ter idade para ser minha mãe.
Ontem, na bicha da ponte, apanhei um Pedro no banco de trás do carro que avançava paralelamente, noutra faixa, metro a metro. O rapaz fumava com o braço todo estendido para fora da janela, de cigarro entre os dedos. Tinha as mãos tenras como patinhas de animal que ainda não se formou. Umas mãos lisas, perfeitíssimas, e secas; apetecia trincá-las. E os lábios húmidos e luxuriosos. Um perfeito Pedro. Todo ele era um sólido exemplo carnal de luxúria não ostensiva. Muito jovem, mas homem, o seu corpo não podia conter a força do desejo nem da frescura que o atravessavam. Desejei comê-lo, porque invejei toda essa juventude que rescendia. Era sexual, apenas na medida em que o sexo atravessa, inteiro, o incauto impulso de desejo. Era sexual, mas não havia sexo. Desejei incorporar em mim a humidade lisa da sua ignorante juventude. Desejar trincá-lo, enformou a busca de um prazer indefinido que era, na sua essência, canibal. O prazer consistia em apoderar-me das características da sua juventude em estado tão puro. As minhas mãos seriam as suas mãos. O meu coração, o seu. E claro, possuindo-o, poderia recomeçar outra escrita, sobre tabula rasa.

sábado, março 01, 2008

Tudo o que há para saber sobre roubo de automóveis de alta cilindrada


Eu sei lá se devo sentir-me ofendida por não pertencer à elite com direito a ser vítima de car jacking! Rejeitando-me sem apelo, os assaltantes estão a dizer-me, "oh, filha, não vales um carapau seco; se queres que a gente se digne considerar-te na nossa lista, livra-te desse Opel Corsa cheio de riscos e compra um topo de gama cujo abafanço valha a pena".
Antigamente, toda a gente tinha direito a que lhe roubassem a carripana, e qualquer marca servia. Havia uns ferros amarelos que metíamos por dentro a bloquear o volante e a embraiagem do Renault. Hoje, para se ser roubado, é preciso, primeiro, uma pessoa endividar-se em empréstimos bancários de valor igual ao do salário, comprar um Mercedes não sei quê, e, logo a seguir, começar a fazer biscates que rendam o suficiente para pagar o carro novo e, já agora, comer; ora, um dos biscates rentáveis será fazer car jacking. Isto, sinceramente, é o mesmo que vender droga para consumir droga.
Quando ouço falar em roubo de carros de alta cilindrada, ocorro-me logo querer saber quem os compra. Estão encomendados? É trabalho feito em free lance? Se estão encomendados, trata-se de pessoas que querem possui-los por quantias menores, suponho, e que pertencem ao mesmo mundo cultural dos assaltantes. O carro já alterado não poderá iludir o facto de ser em segunda mão, e o tipo de transacção realizada, mesmo que no estrangeiro, deverá levantar algumas suspeitas. Portanto, é bastante provável que quem compra um veículo nesta situação, mesmo que roubado em regime de free lance, faça uma ideia do que está a comprar. Quem alinha nestes esquemas de criminalidade, fá-lo porque é importante ter um automóvel caro, mesmo que tenha de se ficar a dever no crédito Jumbo. A bomba dá status. E o status tem sido moeda de troca ao longo dos tempos; com ele se compra confiança, integração, sexo, bajulação, e todas as consequências que daí se tiram.
Em última análise, os culpados do roubo de carros de alta cilindrada são os seus possuidores. Responderam ao estímulo de possuir uma bomba de que muito provavelmente não precisam, só porque sim, e encontram-se a reproduzir o mesmo estímulo, em burros de igual quilate. Quem não precisa de transportar carga e não pode circular a mais de 120 quilómetros por hora, precisa de topos de gama para quê? A mim não me passa pela cabeça passar do Fiat utilitário. Se hoje me oferecessem o crème de la crème dos automóveis, empenhava-o amanhã, e dirigia-me ao concessionário Opel desta praça para trocar o meu velhinho por um novinho com direcção assistida. O restante gastava-o em bacalhau com natas e tratamentos à celulite, por exemplo.

Nota: acabei de ler que o destino de uma parte dos automóveis roubados em car jacking é servirem para um outro tipo de assaltos, no qual se exige que um carro vá dos zero aos 240 quilómetros/hora em meia fracção de segundo. Ora, isso já é motivo plausível para se precisar de um automóvel de alta cilindrada.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...