domingo, maio 11, 2008

Dos ficheiros anexos enviados por engano

Havia de ser poético eu chegar amanhã de manhã à fábrica e dizer à chefe da linha de montagem, desculpe, Maria Ermelinda, mas embora inicialmente eu tivesse negado a existência daquelas metas a atingir, aquelas que a gente sabe, e piscava-lhe o olho, admito agora a sua existência, sim, é verdade, disseminada por todas as filiais, sendo que foram divulgadas porque alguém as enviou por engano num inofensivo ficheiro informático anexo, não faço ideia quem. Erro humano. Um erro natural, que toda a gente comete.

Não sei que consequências teria na minha avaliação, mas se calhar não seria promovida com direito a operar numa máquina de parafusos mais moderna que a gente agora lá tem, que dando a ilusão que os faz mais direitos, na verdade apenas despacha mais unidades por minuto.

Profetas

Aos domingos, na minha rua, Testemunhas de Jeová impecavelmente vestidos, lavados, escanhoados, maquilhados, perfumados, passeiam-se para baixo e para cima com Bíblias camufladas em pastas de bom aspecto, e folhetos anunciando a salvação ou a perdição. Param para conversar uns com os outros, entabulando diálogos atravessados por o senhor Jeová é o caminho, só no senhor Jeová está a salvação do pecado. E vão prestando culto uns aos outros, pelos passeios. Quando os vejo caminhar na minha direcção, de olhos brilhantes na antecipação da presa fácil e luzidia: uma senhora simples, sorridente, parecendo desocupada, passeando os cãezinhos, só não lhes cruzo as voltas se não posso. Quando não há escapatória possível, aceito os folhetos coloridos com mensagens edificantes sobre os males do mundo, que não cabem lá todos, na sua indescritível vileza, e, sorrindo, pedindo mil desculpas, esquivo-me, afirmando que deixei os filhos sozinhos em casa, e consigo, às vezes até me dão raspanetes, que não devia deixar as crianças sozinhas, que devia deixá-las numa vizinha, por exemplo. A minha vida tem sido uma expiação de pecados que não cometi, mas que prefiro confessar, por parecer mal não os ter cometido.
Apesar destes tempos de grande perturbação moral, de grande confusão entre o mal e o bem, de profunda agressividade relativamente ao outro, encarado como intruso e nunca como portador de boas novas - pergunto-se se não terão sido assim todos os tempos?! - parecem-me particularmente corajosas estas pessoas, sobretudo os jovens rapazes e raparigas, e os velhotes, que abandonam o conforto do seu sofá, e dos seus afazeres, para caminharem pelas ruas interpelando transeuntes de má cara sobre a salvação e Deus, essa ideia em que ninguém acredita, que ninguém está disposta a pensar ou a ouvir. Essas pessoas que lutam contra a maré por uma ideia que para os outros não passa de uma palavra risível.



quinta-feira, maio 08, 2008

É tudo uma questão de organização

Os meus amigos vêm cá muito ao blogue, mas não é para comentarem, é só para lerem e depois me dizerem "não me convences com essa de que te adaptaste, e não sei quê; tu sempre foste assim...", e também aproveitam bastante para saber de mim, se estou bem, se constipada, se com muito trabalho ou uma grande neura; por conseguinte, aproveito para lhes deixar a seguinte mensagem: tudo bem, quando cá vêm aos fim-de-semana, mexam nos livros à vontade, nos cd's, nos dvd's, podem fazer pilhas no chão daqueles que querem ouvir, e espalhar os livros e dvd's pelos sofás, por categorias, aqueles que vos hei-de emprestar "já", e os que hão-de levar "depois", e mesmo as revistas, estejam à vontade, mas depois de fazerem a escolha voltem a meter tudo no lugarzinho, sobretudo os cd's e dvd's nas respectivas caixas, que hoje já é quinta-feira e eu ainda ando nesta sala a tropeçar em objectos de arte, e magoo-me nos pés.

quarta-feira, maio 07, 2008

Parto, e não voltarei

Foto de Tom Stoddart


Foto de Shehzad Noorani, Bangladesh


Foto Morris Berman, Helping Hands, USA

terça-feira, maio 06, 2008

Mensagem para o Banco Alimentar contra a Fome

Sou operária numa fábrica de parafusos, o ordenado é curto e lamento não ter podido ajudar. Faço compras no Minipreço e no Lidl de onde trago, por 40 euros, o dobro do que consigo comprar no Jumbo ou no Continente ou no Modelo.
Se montassem a vossa banquinha à porta dos supermercados baratos, onde se adquirem artigos não noticiados na televisão, entre outros, talvez alguns pobrezinhos que comem produtos de marca que não me chegam ao nariz - para guardarem o pouco que têm para tabaco e bejecas - pudessem comer produtos brancos, como eu, que sabem tão bem e são tão alimentícios e custam menos a quem dá.

sábado, maio 03, 2008

Os sinais do amor

Eu e a Morena estivemos ontem com insónias, e perguntei-lhe se me queria ajudar a comer um pacotinho de pinhões que sobrou do Natal. Tendo ela concordado, fui procurá-lo, metemo-nos entre os lencóis, muito encostadinhas, e fomos partilhando o saquinho. A Micas ouviu-nos tasquinhar e veio à cabeceira da cama exigir o seu quinhão. Ou bem que é para todas, ou não é para ninguém. E foi dois à Micas, dois à Morena, dois a mim.
Hoje de manhã, ao fazermos cama de lavadinho, descobrimos mais de 30 pinhões espalhados pelos lençóis, e debaixo das almofadas. Comemo-los directamente, enquanto lhes dizia, "eis a nossa cama manchada pelos sinais do amor".

quinta-feira, maio 01, 2008

Da poesia

"Vou escrever um poema sobre ti," disse eu a uma ave.
A ave respondeu, "As tuas palavras serão tão coloridas como as minhas asas?"
"Não," retorqui.
"As tuas palavras serão tão doces quanto a música da minha voz?"
"Não," voltei a responder.
"As tuas palavras poderão voar o voo das minhas asas?"
"Não."
"A minha vida estará nas tuas palavras?"
"Não."
"Como poderás então escrever um poema sobre mim?" perguntou-me a ave.
"Porque te amo," disse.
A ave exclamou, "O que tem o amor a ver com palavras?"

Versão minha de um poema em língua inglesa, de Harivansh Rai Bachchan, por sua vez traduzido do hindu, não faço a menor ideia de onde.


O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...