sexta-feira, agosto 08, 2008

Filhos de um gajo qualquer


Estava eu a contar-lhe que lera no
El Pais que uma ministra do PP espanhol, com 40 anos, conservadora, mantendo, portanto, posições públicas contra o casamento de homossexuais, contra a dissolução da família tradicional, embora divorciada, se tinha feito inseminar artificialmente com esperma de um gajo qualquer, numa clínica em Barcelona, ou em Madrid, não me lembrava, e que agora era mãe de uma linda criança, só dela.
Respondeu-me que, em 90 por cento dos casos, os nossos filhos são também filhos de um gajo qualquer. E que quando não são, há sempre a hipótese de o amado pai dos nossos filhos se tornar, em poucos anos, num verdadeiro gajo qualquer.
A minha prima afastada é uma mulher muito prática, nada romântica. Já lhe disse que é por isso que os homens têm medo dela. Por este andar, coitada, ainda fica solteirona.

quinta-feira, agosto 07, 2008

Casos da vida - Dany e Vanessa


Sinais exteriores de riqueza


Não têm emprego e pagam a renda da casa de seis em seis meses, só quando a mãe dela vem de visita, limpa a casa e deixa o frigorífico com comida para uma semana, em taparueres da loja dos chineses. O rendimento social de insersão mal lhes dá para carregar o telemóvel com valor suficiente para o envio de mensagens, onde se lê, liga-me que não tenho saldo. Cravam cigarros à malta do café, mas não consomem, apenas se sentam na mesa alheia. Às vezes pagam-lhes uma bica. A malta. À noite, encostam-se ao muro da praça emborcando Sagres choca, que compram no supermercado às garrafas de litro. Podem não ter um Ferrari, nem uns tenis de 200 euros, nem sequer um euro e noventa para o bilhete de autocarro para a Costa, mas têm um pit-bull de orelhas cortadas, de ar feroz, coleira de picos, trela curta. E um pit-bull... um pit-bull mete respeito.

quarta-feira, agosto 06, 2008

Num dia soalheiro, lia o jornal numa casa solarenga


O P2, suplemento de ontem do jornal Público, trazia como tema de capa um artigo sobre a montanha K2, onde há poucos dias morreu mais de uma dezena de alpinistas. Leio todos os artigos sobre arriscadas aventuras de alpinismo, por considerá-lo uma actividade que não lembraria ao Marquês de Sade, se fosse masoquista.

Como actividade de Verão, há lá alguma coisa que substitua um belo livro lido à sombra, no pátio de uma casa solarenga?
Na página 4 do referido artigo, no final da quarta coluna de texto, pode ler-se o seguinte: "Algo de muito semelhante aconteceu em 1995, quando um grupo de alpinistas foi apanhado pelo mau tempo na descida. Um dia solarengo e calmo (as chamadas telefónicas do cume fizeram-se em condições perfeitas)".
Refiro-me a este erro lexical porque se tornou cada vez mais habitual, nos jornais e na blogosfera. É muito raro encontrar o vocábulo solarengo atribuído a um solar (casa), como seria correcto.
Os dias nunca são solarengos, a menos que pretendamos criar um recurso de estilo fazendo uso da palavra como adjectivo expressivo, a qual, de qualquer forma, terá de remeter para o solar (casa). Os dias são soalheiros ou ensolarados. Solarengos, só os solares.

terça-feira, agosto 05, 2008

A menstruação nos anos 70 II


Tínhamos dores lancinantes que nos cortavam a carne da barriga como facas afiadas. Deitávamo-nos em posição fetal, gemendo, e alguém nos preparava sacos de água quente a escaldar, que esborrachávamos contra ao útero para aliviar as dores. Não aliviava muito. Queríamos cauterizar as entranhas. Às vezes pensávamos, depois disto nunca conseguirei ter filhos, mas tivemos, aos dois e três. Não havia comprimidos que nos tirassem as dores. Era assim. As mulheres tinham dores, era preciso sofrê-las. Não comíamos, não bebíamos, ficávamos prostradas à espera que nos passasse aquele calvário, e quando acabava sentíamos que tínhamos parido trigémeos, a ferros. O que poderia ser pior do que aquilo?!

A menstruação nos anos 70 I


Mudávamos os lençóis uma vez por semana. Ao sábado. Se a menstruação nos vinha ao Domingo, dormíamos a semana inteira sobre o sangue seco que nos escorria por entre as pernas, durante o sono. O quarto exalava um cheiro opaco a sangue, a mulher, como uma mítica gruta de resguardada fertilidade.


Puppy, puppy











Algumas considerações totalmente aleatórias sobre Marilyn Monroe:


1. Podia chegar cinco horas atrasada a uma sessão de fotografias. Ninguém reclamava. Os meus amigos não me perdoam 20 minutos de atraso na bicha da ponte.

2. Se fosse viva, seria apenas dois anos mais nova que a minha mãe. Para seu mal, haveria de estar toda esticada e fazer confissões do tempo da Maria Cachucha, como a Beatriz Costa.

3. Foi um desperdício de vida e beleza. Quando somos jovens e belas e com tendências auto-destrutivas, a urgência total não está em procurar um homem e uma caixa de hipnóticos, mas um psicólogo, um bom psicólogo, três vezes por semana, tal como se toma um antibiótico, um analgésico, um retroviral.

4. Não foi apenas uma mulher bela. A sua imagem era doce e inocente como a de um cãozinho com poucas semanas. É tal doçura que a mantém viva, como iconografia do feminino e de um ideal de existência que não há, nunca houve entre adultos que lutam para pagar os empréstimos bancários.

5. Morreu cinco meses antes de eu nascer. Graças a Deus não sou a sua reencarnação.

sexta-feira, agosto 01, 2008

Grávida

Foto: Stefan Beutler



Está na moda na blogosfera, e eu queria muito, muito, escrever postes descrevendo a minha deliciosa barriga grávida. Usar palavras como parir, e expressöes como placenta descaída, tenho pano na cara, sinto o crianço dar pontapés, tenho contracções, o puto está atrasado, ou então, chegou adiantado, o malandro.
Escrever sobre a amamentação, reclamando o peso das mamas como odres, os mamilos gretados, a criança chuchando que nem um bezerro e mijando como um burro. E as noites sem dormir, os babetes babados de tudo, os biberons desinfectados, as idas ao centro de saúde, o teste do pezinho... Não esquecendo os hábitos alimentares da criança, eventualmente mais crescida, já comeu dois ovos kinder, e agora, vejam bem, não quer a sopa, a culpa é da avó que lhe dá tudo o que pede. Não pode comer batatas fritas. Coisinhas assim. Ah, o que eu me regalaria se tivesse um baby blogue.
Mas cada um veio ao mundo para a sua missão concreta, a mim calha-me escrever sobre os bifes de cebolada que estão ao lume, mais a lista de compras da minha mãe, e as cadelas que daqui a pouco querem ir à rua, e se não forem, mijam no tapete, e que não me lembre de fazer reclamações.


O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...