quarta-feira, abril 06, 2005

Turismo

No âmbito do processo de falência do Modelo Turístico Algarvio, para o presente efeito representado pela Sociedade Gestora de Empreendimentos Turísticos e Imobiliários, que teve a sua sede no Hotel da Rocha, praia do mesmo nome, em Portimão, encontram-se à venda, por negociação particular, através de propostas que deverão ser remetidas em carta fechada, «uma viatura marca Toyota, modelo Hiace, de matrícula RP-63-66, com motor partido e em avançado estado de corrosão», 329 colchas, 560 fronhas, 1858 lençóis, um número indiscriminado de toalhas de bidé e uma «cadeira rotativa/giratória estofada a veludo» (na ausência de informação suplementar presume-se que se não roda pelo menos gire). Uma pechincha. Mais informações, v. p. 81 da edição de hoje do Diário de Notícias.

terça-feira, abril 05, 2005

O estatuto social

As meninas do Ministério da Agricultura que roubaram o curso na Tapada da Ajuda, acrescentando-se as suas primas e tias da Linha com nome diminutivo, bem certo é que vieram trazer uma luz nova, e uma esperança nova, ao tão depauperado mundo rural. Antigamente fazíamos compota – e comíamo-la em exclusivo, recusando-nos a ingerir uma colher que fosse de chá da inglesa vendida no Jumbo à dúzia com belíssimo design no rótulo; mas compota da nossa, caseira, não exportávamos um frasco que fosse meio metro afora do perímetro da quinta; e olhavam-na de lado. Mas agora é bem receber os amigos no Restelo e puxar dum frasco enrolhado com cortiça e um paninho de quadradinhos azuis atado por dois fios de ráfia – dizendo «isto é lá da minha produção em modo biológico».

O certo é que o estatuto social dos agricultores subiu em flecha. No mês passado, como se devem ter apercebido, a minha amêndoa foi gabada na Única a quatro colunas e uma gralha incómoda na legenda da fotografia em que apareço com um barrete copiado àquele veterinário da Quinta das Celebridades que comprei na baixa pombalina (o barrete). A amêndoa, que até há bem pouco tempo produzia ao preço da chuva no tempo em que chovia, e vendia com dificuldade, ascende agora a um valor acrescentado de seis vezes o quilo.

Eu tinha-me dirigido à Direcção Regional da Agricultura, ao departamento do subsidiozinho; fui recebido por uma menina de bota de prateleira, calcinha de ganga muito justa atrás e à frente e uma camisa atada na parte inferior por um nó displicente que lhe deixava à mostra o umbigo; expliquei então que vinha à mor do anúncio das ajudas ao modo de produção biológico; mas que havia um óbice, e que era esse o de os meus pomares serem já explorados, sem subsídio, em modo de produção biológico. «Ah, mas sem a certificaçãozinha», explicou a menina engenheira agrónoma. E portanto preenchi os impressos, foi muito simpática; visitou a quinta; provou da compota e do medronho, e das amêndoas, e acabou por ficar lá em casa – nasceu na rua do Século mas passa-se com o mundo rural. No fim de semana definimos um plano de acção (que vai das compotas agora caríssimas, à amêndoa, à alfarroba vendida a um operador sujeito a controlo por organismo privado de certificação; etc); ela tem amigos nos jornais e na SIC, e uma tia de Lisboa que me garante o escoamento; e a minha amêndoa, gabada na Única, posto que produzida exactamente como antes, vale agora seis vezes mais do que no tempo em que não havia meninas destas a fazer extensão rural, nem subsídios - e o meu estatuto social era uma merda.

segunda-feira, abril 04, 2005

O colete

Hoje, dezasseis horas. Um agente da brigada territorial da GNR manda-me parar. Eu paro; encosto à berma; desligo; acciono o travão de mão; pego no colete retrorreflector; saio da viatura (os polícias dizem sempre «viatura») vestindo o artigo amarelo-verde-fluorescente; o senhor agente diz que não é preciso, que a regulamentação está ainda pendente; pergunto-lhe: «mas o colete, senhor agente, deve ser usado porque é útil, ou porque um diploma legal o exige?» Há anos que rezo por uma oportunidade de questionar assim um agente da brigada territorial.

Porque quem não sabe é como quem não vê!

A Júlia Pinheiro acabou de dizer ao seu assistente de programa: "vai lá então andando que nós já nos vimos daqui a bocado!"
Bem, Júlia, quem sou eu para meter a seara em foice alheia!; vocês é que sabem da vossa vida - mas, desculpe lá, assim em época de luto nacional, não acha que se devia controlar um bocadito?!
Mais respeitinho não se perdia!

domingo, abril 03, 2005

100%

Estacionei, subi pelas escadas rolantes que desembocam no meeting point do centro comercial, a fervilhar de povoléu; esfomeada, ferida de colossal neura. Precisava de comer qualquer coisa rapidamente, um leite creme, por exemplo, um avantajado leite creme no restaurante típico alentejano, qualquer coisa substancial, porque a fome era muita; já não comia desde o almoço, ou seja, já lá iam 3 horas...
A caminho do piso 2, onde seria possível saciar-me, atravessei o labirinto de corredores com lojas que, nos centros comerciais, obrigatoriamente temos de cruzar até chegar aos lugares que interessam. Parei numa montra de anéis; ficavam-me todos bem e imaginei-os na minha mão, esticando os dedos; olhei para a montra de relógios modernos, deitei-lhes o olho, lembrei-me de como preciso de um relógio decente; passei uma loja de roupa e estaquei, hipnotizada: uma blusa de linho branco, 100%, levemente bordada por finíssimo fio azul, corte medieval... que bem ficava com as calças de ganga novas. Entrei, arrebatei-a do bastidor, escolhi uma écharpe esvoaçante a condizer... entretanto, os olhos foram bater numa outra, excelente algodão, 100%, decotada no peito e nas costas para lá do razoável, estampada, duas orquídeas cor de lava, exactamente no tom da saia nova, comprada com as calças...
Escolhi uma gargantilha a condizer, para que o peito não ficasse tão nu. Gabinete de provas.
E não é que aquilo me ficava deliciosamente, como se tivesse sido costurado de propósito para o meu corpo, o meu tom de pele, a minha cor de olhos e cabelo! Tudo. Mirei-me, aprovadora. Saí do gabinete de provas para me observar no espelho maior, de longe... Remirei-me, ofereci-me com agrado a todos os olhares - que agradeci, com um leve sorriso.
Retornei ao gabinete de provas, dobrei com cuidado a farpela, procurei o cartão de crédito, e, num ápice, dei comigo na caixa; logo a seguir, fora da loja, com um saco na mão. Feliz, feliz, feliz... sem vestígios de fome, enojada só de pensar em leite creme, os olhos a brilhar, fabuloso humor...
Fui sentar-me, muito civilizadamente, numa pequena mesa redonda do Café de Roma, a beber, com classe, uma meia de leite com adoçante, de perna cruzada, pescoço levantado, sentindo-me a mulher mais sexy do planeta, antecipando os maravilhosos dias que a metereologia me vai oferecer, esta semana, para que possa estrear os trapinhos novos e sair à rua como uma deusa - é como me vou sentir quando me olhar ao espelho, dez segundos antes de atravessar a porta! - caminhando natural e indiferentemente, fazendo de conta que não sei que estou maravilhosa, que sou maravilhosa, fazendo de conta que sou todo o meu perfume, a totalidade da minha cor, o rasto a fêmea que deixo atrás dos meus passos.

A moral da história, claro, deixo ao vosso critério.

Os aviões é uma chatice

«A rainha não vai estar presente na cerimónia do casamento civil, enquanto o príncipe Filipe anunciou que não sabe se conseguirá chegar a tempo de uma viagem ao estrangeiro.»

Passei-me dos carretos!

Estava a controlar-me, porque sou uma rapariga muito respeitadora das tendências alheias, mas, não aguento, não aguento, não aguento, não aguento, não aguento, estou a rebentar...
O que é demais, é demais! Quando uma beata de 81 anos chega ao ponto de nos dizer que não se pode ligar a televisão, a coisa atingiu dimensões insuportáveis...
Estou aqui a ouvir missas e documentários sobre as visitas do papa a Portugal, provenientes de uma televisão aos berros, situada no quarto esquerdo, desde sexta-feira!!! Comparadas com isto, as telenovelas da 4 chegam a ser desenjoativas!
Declaro boicote a todos os blogs que escreverem uma única sílaba sobre o percurso de vida de João Paulo II, bla, bla, bla. Isto é muito simples: se um título começar pelas letras p-a, ou j-o-ã, ou d-i-p-l, não leio mais!
Se fosse papisa já a tinham enterrado e acabavam-se as merdas!

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...