sexta-feira, abril 29, 2005

Escolher sapatos [2ª parte]

Num pé é que começa o resplendor
da lenta sedução. É o meu fetiche:
a fáscia, a arcada, a curva do abductor,
o subtalar (o resto que se lixe:

os seios já impondo o seu domínio,
as mãos quando nos tocam, a voraz
oscilação das ancas, o fascínio
da coxa irreprimível e audaz,

as nádegas, o torso, o odor do sexo,
os lábios, os joelhos ou os dentes):
diante dum flexor ou do complexo

tricípete sural – fique-se mudo.
(Mas elas sabem lá – as displicentes! –
que às vezes um sapato fode tudo...)

Escolher sapatos


www.aerosoles.com

A sandalinha é a preta. Comprei-a há um mês, e ainda não a estreei. Precisava de um outro par meia-estação. Mais contido, mais primaveril, mais "meio caminho". Branco. Creme. Um par de sapatos tem de permitir todas as combinações cromáticas possíveis.
Usar sapatos é uma ciência requintada. Um par de sapatos, como uma peça de roupa, não se limita a proteger. Possui uma linguagem própria, que se entende ou não. Que revela ou esconde. Veste ou despe um pé. E um pé de mulher detém certo poder. É preciso saber usá-lo, ou seja, saber muito bem como se quer vesti-lo e despi-lo e quando e onde.

Na última semana, em busca do par de sapatos perfeito para a Primavera, entrei em cerca de 40 lojas. Ora, isto, supondo que cada uma dispõe, para mulheres, de um stock de 50 exemplares diferentes, terei visto, até hoje, 2000 pares de sapatos e sandálias. Nenhum era o que procurava! Ou demasiado arejados ou excessivamente fechados. Ou de salto muito alto e desequilibrante ou com ele raso, baixo - o que, como se sabe, não enaltece o rabo, e não colabora, em nada, para o movimento pendular de que tanto gostamos. Ou muito design futurista ou muito retro enfeitado.
Não pode ser! Tem de haver aqui alguma sensatez, algum meio-termo. Tem de existir o sapato de Primavera que procuro: suficientemente casual para usar com calças de ganga, mas com o toque juvenil-romântico que possibilite combiná-lo com uma saia de linho cor-de-rosa. Um sapatinho que se possa calçar no emprego, sem ser muito vistoso, mais avec quelque chose que permita levá-lo à vernissage sem parecer que se cai ali directa do trabalho.
Ou seja, o sapato que me escapa; ou que, para meu mal, ainda ninguém engendrou, o que me obriga a continuar com os de Inverno ou, em alternativa, a estrear as sandalinhas fetichistas que estava a guardar lá mais para diante.

Resta-me informar que o meu número é o 37 e meio.

quinta-feira, abril 28, 2005

Pêssegos maduros

Este resumo não está disponível. Clique aqui para ver a mensagem.

Gustave Courbet, The Sleepers, 1866

Isto há-de ter uma explicação



Estudos recentes demonstram o que Emmeline Pankhurst e suas amigas muito anti-românticas sabiam à exaustão há mais de cem anos: que o desejo ataca indiferentemente meninos e meninas; que ao prazer é por igual que sucumbem homens e mulheres; e que, afinal, uma rapidinha ocasional, com um parceiro de circunstância, pode ser para as senhoras uma das experiências sexuais mais gratificantes e de mais futura memória.

Pois agora, depois de tanta conquista, de tanto código revisto, as cavalheiras queixam-se que a média do encabanço se contém nuns míseros e escandalosos quatro minutos – e que já não há romantismo...

Os desmoralizados


Alice Neel, Richard in the era of the corporation, 1979

Os homens sofrem do chamado "complexo de filho único", mesmo quando são o terceiro rebento entre cinco irmãos. O excesso de mimo funda-se em nunca terem necessitado de ir à luta, porque, ao nascerem, estava tudo de perna aberta para os receber, para lhes dar sem pedirem, porque eram varões...
Ora, não ir à luta, não refilar, não ter de quebrar elos, receber tudo de mão beijada, ser-se o orgulho da mamã e a realização do papa, paga-se caro! Não sonham alto. Não querem alto. E quem não sonha alto e não quer alto, não vai além! Amolece.
Os homens estão cercados, condenados, e eles sabem-no. Esbracejam, o que de pouco lhes vale. Em Portugal, nós somos já mais de metade dos dez milhões, mais de metade dos contribuintes, mais de metade dos diplomados, mais de metade da massa cinzenta! São factos estatísticos comprovados pelo último censo. Contra isto, batatas! A verdade é que eles, hoje, quando precisam de um urologista, vão à urologista, e quando são levados a tribunal derivado das apreensões de carta por excesso de velocidade, levam a advogada, oficiosa ou não, que tem a espinhosa missão de defender o indefensável, perante a juíza; presente na sala estará, também, a agente de polícia que os apanhou em flagrante.
O gerente da empresa de aluguer imobiliário onde entregam a renda mensal é uma gerenta, e os professores dos filhos são professoras deliciosas, encantadoras, que lhes entontecem a cabeça, perfumadas, enquanto se movimentam rente ao quadro, para cá e para lá, nas reuniões de encarregadas de educação.

E o pior é que estamos cada vez mais bonitas, mais sedutoras, e com a língua mais solta; já não ficamos à espera que se decidam, tomamos iniciativas, não dependemos deles, dizemos-lhes o que bem queremos: chegámos ao ponto de lhes mandar piropos!
Começa a ser preciso muito jogo de cintura! Antigamente era-lhes mais fácil: conseguiam, pensavam eles, distinguir entre feministas e casáveis. As feministas eram feias, peludas, com a voz grossa, ou muito magras ou muito gordas, brutas e sempre com mau feitio; as casáveis eram lindas ou mais ou menos; rapavam a pelunça como deve ser, excepto no Inverno; falavam agudo como a Júlia Pinheiro; quer fossem magras, quer gordas, acabavam iguais, ou seja, gordas; mas sempre caladas, conformadas, sossegadas, e não faziam coisa alguma sem autorização. Agora, leram, estudaram, emanciparam-se (a conjugação pronominal reflexa fala por si!) e estão todas misturadas: as feministas rapam as pernas e o buço, e falam doce; as outras deram em ser umas brutas que não colaboram em nada que um gajo lhes peça, para além de que passam o dia a dizer que têm direitos!
Para eles, realmente, o mundo está às avessas! Já nada é normal. Não existe ordem. Não sabem nunca com o que contar. Sentem-se perdidos.
É que nunca, por nunca ser, estamos satisfeitas! Reclamamos mais, exigimos sempre. Conhecemos bem o texto da Lei; sabemos que, à excepção uma ou outra coisita, imemorialmente legalizada - gostem, não gostem - pouco mais pode abarcar. Já nem conseguimos pedir muito. Temos os mesmos direitos e deveres. E se sonharmos que se coloca a hipótese de no-los negarem, enxovalharem, empunhamos os nossos exemplares da Constituição da República e do Código Civil e mais não sei quê da Família e do Trabalho e fazemos descomunal barulho. Juntamo-nos, escrevemos, telefonamos, enviamos mails, denunciamos nos blogs e nos jornais e onde quer que tenhamos voz (porque temo-la por todo o lado!) E isto, podem tomá-lo como certo!
Crescemos, lutámos, trabalhámos para chegar "ao que se vê". Não ficámos debaixo das saias da mamã, a comer a sopa da mamã, a ter a roupinha passada a ferro pela mamã. Fomos as revoltadas, as ovelhas negras, deixámos de receber amêndoas na Páscoa, fizemos "o nosso bastardozinho" quando nos apeteceu, o qual até criámos em regime de "maternidade celibatária", sem dar contas a ninguém, a não ser ao patronato, que nunca nos facilitou meia hora!
Venham, agora, fazer-nos olhinhos oleados e iletrados, enquanto debitam "ciência de garagem", sorrindo idiotamente, "a senhora está com as jantes todas raspadas dos lancis!"; "a senhora quer que lhe mude o filtro do habitáculo?" - e deitam o olho à monumental peitaça descoberta pela blusa de Primavera; "olhe que senhora já precisa que lhe mude as velas!" - engolem em seco, porque a corrente de ar nos levantou a saia transparente até à virilha; "a senhora está com a direcção toda desalinhada, não sente a trepidação?", ao mesmo tempo que nos miram a calça justa no rabo!
Querem o quê? Quem se habitua a cavalo, já não anda de burro!
Ao menos, escrevam-nos uma carta, com mais de quinze linhas, sem erros de morfologia ou sintaxe! Jurem-nos que, por nós, até vão concluir o nono, à noite, em regime de unidades capitalizáveis. Ofereçam-se para serviço voluntário aos sem-abrigo, em Santa Apolónia!
Porque isto subiu de nível, incontestavelmente, e agora já não se trata só do direito a sermos bem fodidas - e jamais por escassos quatro minutos, que nem dão para aquecer o motor da asa esquerda*. Trata-se de sermos bem fodidas, e de, cumulativamente, nos intervalos, saberem discutir uma pouca de arte, em geral; direitos humanos, ao pormenor... Se não sabem recitar de cor um poema, seduzam-nos com alguma mestria em física nuclear... Apresentem-nos qualquer coisinha que transcenda o mero substituir de um pneu furado!

As tropas sentem-se desmoralizadas! Pudera!
Desvalorizaram-nos quando quisemos ir à escola. Ridicularizaram-nos à data de conclusão dos cursos. Subestimaram o valor do nosso trabalho. Agora, é tarde!
Já não vale a pena tapar o sol com a peneira: para eles é, de facto, uma guerra perdida! Resta-lhes a liberdade de expressão, e não lhes resta muito...

* Segundo a revista Maria, de ontem, p. 48, "Uma sessão normal de sexo dura perto de quatro minutos. Durante esse período perderá perto de 28 calorias, o que equivale a pouco mais do peso calórico de uma maçã."
Quatro minutos?! Estão a brincar! Aprendam a perder tempo! Apliquem-se! Treinem-se! É que, desde que lemos a Maria, (é semanal e vai na edição 1381!!!) já nem sequer fazemos o favor de fingir que estamos a gostar!

quarta-feira, abril 27, 2005

Os direitos

As mulheres estão cada vez mais bonitas – e são cada vez mais sedutoras. Calçam chinelinhas de salto alto deixando adivinhar o pé ao oscilar, desceram a cintura da calça de modo a insinuar uma fita com a marca da cueca, subiram a base da t-shirt acima do umbigo, alargaram a linha inferior do decote baixando-a concomitantemente, usam vestidos opacos muito justos com uma abertura vertical rasgada de costa a costa, abusam da transparência deixando em fundo a calcinha ou o soutien irrompendo – enfim, cativam-nos o olhar e levam-nos na cantiga.

Ora as mulheres só podem vestir assim, só podem permitir-se o poder de nos seduzir de modo tão desenfreado, porque lutaram; isto só é possível depois de um demorado processo de conquistas sucessivas, de muita e acirrada luta, que começou no sufragismo e foi por aí fora até ao que se vê, ainda que na base de tudo estivesse um outro direito mais universal e mais que legítimo: o direito das mulheres a serem bem fodidas. E emanciparam-se, e engatam-nos, e cultivaram-se, inundaram as universidades e saem de lá aos magotes, e lêem. E depois de tudo isto, ah, acusam-nos de que a sociedade as desmerece e desacredita na publicidade e na imprensa, e que os homens criaram o feminino mito da beleza e da estética, e que é preciso recomeçarem a luta pela conquista de direitos que afinal se lhe retiram.

Eu procuro resumir a coisa solidarizando-me, procurando compreendê-las, com as feministas do núcleo duro que se recusam a empinar as tetas ou a rapar os pêlos da axila, e que verberam a chinela de salto. Estas não as papam os mecânicos das oficinas com o olhinho tremeluzente no intervalo de consertar o carreto das mudanças dum Audi, nem a publicidade as menoriza enquanto pessoas. Agora a contradição de mostrarem o umbigo aos transeuntes e em simultâneo clamarem contra o abuso do umbigo nos calendários de parede, não é demanda que me pareça que nos cumpra a nós, homens, dirimir.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...