terça-feira, maio 31, 2005

Novas matrículas

Eu também tenho uma história de matrículas: quando era pequena, aí pelos sete, correu o boato - nunca cheguei a saber se era verdade! - que quem conseguisse reunir numa folha, umas a seguir às outras, com esferográfica Bic, 1000 matrículas de carro ganhava um brinde qualquer da Coca-Cola! Uma bicicleta, acho.
Eu cá, ia para a esquina da avenida 24 de Julho com outra qualquer, que não me lembro, mas que ficava mesmo junto à Mesquita e às Finanças e à Escola Especial, recolher dados das chapas verdadeiras, isto se a minha mãe me deixava, o que era raro; se não deixava, fazia como os outros, inventava: MLF-32-25; MIH-04-78; MEP-43-10... mas nunca cheguei às 1000, não sei porquê. Se calhar porque, aos sete, mil é um número muito grande.
Passava tardes nisto.
A verdade é que nunca tive bicicleta.
A verdade é que nem sei andar de bicicleta.

Mas como (não tenho dúvidas e ) raramente me engano...


Simone de Beauvoir

No dia em que um homem, um qualquer!, no delírio dos 39º de febre, mostrar espírito de missão e sacrifício para se levantar e ir ao respectivo blog editar um texto de 7 linhas, e puder prová-lo!, eu admitirei a muito eventual possibilidade de questionar, aqui ou ali, uma ou outra das teorias de feminismo social de Simone de Beauvoir, Kate Millett, Shulamith Firestone, Luce Irigaray, Elaine Showalter and so on.

Âmbito, 2

Eu e a Isabela por uma vez parece estarmos de acordo. Um blog serve para quê se não for para nos insinuarmos no mundo e tirarmos proveito dele (do mundo)? Este, O Mundo Perfeito, é o meu quarto blog: sou costumeiro e useiro, e vou fechando as lojas para obras quando a coisa começa a não dar - não sei se me faço entender.

Tive um blog sobre a punheta, pela razão simples de que as meninas achavam piada, a-brincar-a-brincar, e à mor delas, da punheta e da brincadeira, recebia propostas que me ia prestando a aceder fora dos automatismos; mas depois caiu no rame-rame (e a piroca doía-me) e encerrei.

Mais tarde abri um blog sobre livros técnicos: untei os editores, gabava-lhes as capas, falava bem dos volumes sobre vernalização e fosfatos que metiam nas prateleiras do hiper, atingi as 120 páginas únicas/dia, fui a dois lançamentos no Bairro Alto - e acabei por ver editado, com pompa e circunstância, na Feira do Livro de 2004, o meu (já devem ter ouvido falar) «Tratado Sobre a Condução da Meloa com Duas Guias em Estufa»: fechei a seguir.

Depois foi o filão do Turismo: criei uma treta sobre viagens na América Latina, com muito típico e cabaninhas em caniço e o caralho em cujas imediações rastejavam cobras amestradas dos documentários, e o sol pondo-se, meti-me numa sociedade por quotas de emissão de vauchers - enriqueci. O blog, disfarçado de registo poético e antropologia (pagávamos a um estagiário a recibos verdes pago pelo Centro de Emprego) ainda aí está - mas não dou o link, que é para que permaneça na obscuridade, e eu já lá não escrevo.

Meti-me agora, guloso de ver no que davam as mensagens de mail, e com esperanças, no Mundo Perfeito. Nada: os mails vêm todos endereçados à Isabela, que parece que tem mel na sintaxe. Pondero, por conseguinte, riscar-me da inscrição.

Se um blog não serve para dar umas quecas, para marcar encontros na praia em fins de Novembro enquanto o povão deambula pelo Colombo ou pelo Forum - serve para que raio de ocorrência? Sim, a gente anda aqui a fazer o quê?

domingo, maio 29, 2005

Âmbito

Há limites. Há coisas com que uma pessoa, por mais voltas que dê, não pode concordar.
O Controversa Maresia mandou publicar, em Diário da República, uma portaria regulando a actividade bloguística.
Transcrevo o artigo 4º, e vejam lá se encontram nisto alguma graça:
"Âmbito de aplicação
1. Um blogue não deve expor intimidades do blogger.
2. São estritamente proibidas, fotos do próprio, de familiares ou de animais de estimação.
3. Letras de canções e poemas, devem ser evitados.
4. Um blogue não pode servir para pagar favores, nem para fazer amigos, mover influências, dar umas quecas, massajar egos ou brincar com templaites e, muito menos, para despejar insignificâncias. "
Mas, afinal, vamos lá ver, uma pessoa anda na blogosfera para quê?

Consolação


Palmilhavas milhas de labirintos no meu corpo, a noite e manhã e a tarde, e desvendavas mistérios para uso comum.
Saboreava esses instantes e aqueles em que, puxando, apertando a glande entre a língua e o palato, sentia o teu pénis pulsar completo e indefeso, no nicho que a minha boca e mãos e dedos compunham para ti.
E mais do que tudo, mais do que tudo, queria esses teus momentos de mercê absoluta, em que perdias o nome, a idade, o nascimento e eras, tremendo, apenas meu, apenas um, e sobre mim recaía a decisão da nossa vida ou morte.
E esse poder descontrolava-me a um ponto que se reflectia no teu órgão, na abertura da tua uretra, que era inteiramente minha e eu tinha e eu esgotava para nosso eterno consolo.

sábado, maio 28, 2005

E hidratar

Bem, fui tomar banho. De vez em quando - convém.

Jardins de delícias



Tenho medo de aranhas, osgas e baratas. De ratos, de cobras e enguias. Tenho medo de filmes de terror, de ficar sem net, do preço da gasolina, da idade da reforma, do congelamento das progressões na carreira...
De homens não tenho medo, nunca tive - tirando o meu pai, ou, se calhar, por causa dele; jamais perco uma oportunidade para lhes mostrar quem é que os tem bem cheios, bem pretos, bem no sítio!
Mas, admito, existe uma situação (ok, talvez duas!) em que fraquejo perante o macho, em que concedo serem as suas armas as mais fortes, e me dou de imediato como vencida: quando descalçam os sapatos!
Senhor, mais valia enviarem-me para qualquer gazeamento da I Guerra Mundial; preferível La Lyz!

A questão de saúde pública que hoje pretendo aqui trazer, agora que o tempo aquece e se justifica amplamente, tem a ver com o ininteligível motivo por que não apresentam, os homens, pés macios, bem tratados, apresentáveis, como as mulheres. Pés que apeteçam olhar, com uns dedos lindos a sobressair fora da sandalinha, que apeteçam beijar e tudo.
Onde é que os homens foram desencantar a ideia peregrina de que os pés são para trazer entalados em sapatos irrespiráveis durante todo o ano? E que é suficiente lavá-los de vez em quando?
Conheci um funcionário público de secretaria, um homem asseado, que a primeira coisa que fazia, ao chegar a casa, todos os dias, pontualmente às 18h00, era depositar os pezinhos moles no bidé e lavá-los religiosamente com sabão de glicerina. Não eram pés, eram duas tiras de choco, brancas, mortas, feias...
Nós, mulheres, estávamos bem arranjadas se nos limitássemos a lavar os pezinhos. Era adeus fetiche!
Os pés dos homens são tão lindos como os nossos, mas é preciso que os deixem medrar, que os deixem ser lindos. Que usem sandálias quando é para usar sandálias e sapatos e botas quando é para usar sapatos e botas. Que cuidem deles como nós cuidamos, que cortem as unhas em vez de as arrancar, que lhes dêem uma forma, que lixem as calosidades, inclusive no calcanhar e na planta do pé (uma vez por semana - depois do banho!), e depois os hidratem, massajando-os com um creme mais ou menos gordo (todos os dias). Que os deixem apanhar sol, ficar morenos! Que lhes ofereçam um banho especial de folhas de eucalipto esmagadas ou de rodelas de limão ou de óleos naturais, de vez em quando. E se não souberem fazer nada disto ou não estiverem para tanto, entrem num(a) pedicure e diponham-se a gastar 10 euros para usufruir de pés decentes e desejáveis. Mas arranjem-nos, valorizem-nos!
E se têm pé-de-atleta, apliquem-lhe o Canesten, se faz favor, de manhã e à noite. Sim, pode ser com o hidratante. E vão ao médico, e peçam o anti-fúngico em comprimidos. Mas não nos matem de mau cheiro, por amor de Deus! Um par de peúgas de homem por lavar, dentro de uma casa, equivale a 10 caixotes do lixo entulhados na cozinha, com restos de sardinha, há pelo menos cinco dias!

Os pés não são rodas de tractor, são partes sensíveis do corpo. Lugares sensuais que não queremos desperdiçar por nada. Porque nós, no corpo dos homens, aproveitamos tudo. O centímetro que está ali adiante, e já lá chegamos!, pode ser ainda melhor que este aqui, este agora, debaixo dos nossos lábios. Queremos todos os bocadinhos; brincar com eles horas a fio.
Também queremos trincar-lhes os dedinhos dos pés. E outras brincadeiras, que agora talvez não seja hora... Mas queremos dedinhos e curvinhas apresentáveis, macios, saborosos, e não cepos grossos de madeira, escamados e encardidos.
Portanto, ó jardins de delícias!, tratem dos pezinhos agora, que nós, prometo eu, tratamos de vós depois.

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...