quarta-feira, setembro 28, 2005

O azulejo do Benfica

Sábado, 10h30, quiosque dos jornais:

- Ó chefe, atão ainda tem azulejos do Benfica?
O chefe, arrrebatando uma folha a jeito, ao lado da caixa, que apresentava já sinais de bastante uso desde as 9h00:
- Ó amigo, eu vou-lhe mostrar isto para você ver queu não ando aqui a enganar ninguém... tá a ver aqui este número: 7, não é?! Pois, isso foi o que eles escreveram aqui - vieram 2! Isto é para que veja! Sete... e vieram 2! E depois nós é que damos a cara ós clientes!
A senhora que perguntava pela peça de uma colecção que vem com o não sei quê - era um garfo ou uma faca:
- Pois, olhe cumeu marido só conseguiu na Costa. Veja bem, daqui à Costa para arranjar um azulejo!
- É queu já venho a pé lá de cima, desde a central de camionagem, a perguntar em todó lado, e ainda só arranjei este! Tá ver, não tá, chefe! Desde as camionetas! Cambada de corruptos! E depois querem cu país ande prá frente!

Mensagem numa garrafa, 6

Quem cria arte vive muito calado; é por isso que não passam nos psicotécnicos para trabalhar em centrais de atendimento ao público. Depois queixam-se de que este mundo não os compreende... não falam!

terça-feira, setembro 27, 2005

Mobiliário irrecuperável

Acabei de ver os homens da Junta arrojarem o velho sofá grande que estava em casa da minha mãe.
Carregaram o mono doméstico (recolha às terças e quintas, das 13 às 17) para um atrelado que se afastou em direcção ao cemitério dos monos, onde estes jazem, à chuva e ao sol, até se desfazerem de mofo e sede.
Eu preferiria um grande auto-de-fé para monos. Seria mais digno.

Eu vi, agora, o velho sofá partir. Enquanto assistia às exéquias, as únicas palavras que me ocorreram, foram, “fizemos tanto amor nele”, “fizemos tanto amor nele”, fizemos tanto amor nele”, “tanto amor”.
Olha, se calhar, isto é que foi mesmo o fim final. Olha, se calhar acabou aqui. Acabou, não acabou?
É que os finais também suplicam o seu para sempre.

Os animais selvagens


Foto de Denis Piel, 1985

- Tente nunca se apaixonar por um animal selvagem, Mr. Bell - aconselhou-o Holly. - foi aí que o Doc errou. Estava sempre a trazer animais selvagens lá para casa. Um falcão com uma asa partida. Uma vez apareceu com um lince adulto a coxear. Mas não podemos confiar o coração a um animal selvagem: quanto mais lhe damos, mais forte fica. Até ter força suficiente para largar a correr para a floresta. Ou voar para uma árvore. E depois para uma árvore mais alta. E depois para o céu. É o que lhe vai acontecer, Mr. Bell, se se apaixonar por um animal selvagem. Acaba a olhar para o céu.

Truman Capote, Boneca de Luxo

Mr. Bell concentrou-se na bebida, chocalhando os cubos de gelo no copo, o que lhe levou dois, três minutos.
- Ouça, Holly, isto, raramente conseguimos ver: nós procuramos iguais! Doc não errou, mas, certo, ele não sabe que um animal selvagem, ferido, procura outro que lhe lamba as chagas com a língua benta: por exemplo, a vulva lacerada dum parto difícil, você saberá isso melhor que eu - o peito aberto pelo estilhaço de um projéctil...
Oh, Holly, os animais selvagens buscam os do seu clã, rondam-se, cheiram-se e enroscam-se, após o que, num irreprimível impulso heterofágico, se atacam e destroem e condenam, retirando-se à cata do próximo animal ferido, do próximo igual, disposto a lamber-lhe as últimas feridas.
Mas você já observou de perto um animal selvagem, em sofrimento? Veja-os no zoológico, todos eles feridos de morte. Fitou-os nos olhos? Diga-me, não a incomoda aquilo? Não lhe apetece libertá-los, levá-los para a quinta da sua tia Jamie, curá-los, e ficar a vê-los voar para a floresta, de onde regressarão feridos, ou de onde não regressarão?
Minha santa Holly, você deixou o liceu há quê, dois anos?! Ttrabalhando neste lugar, é provável que já tenha visto de tudo, mas escute: Doc não errou: apaixonou-se por um animal selvagem! Mas, oh Deus, como explicar-lhe isto: se você se apaixonar por um animal doméstico, pode acabar o resto dos seus dias a olhar para o lodo da terra!

segunda-feira, setembro 26, 2005

Técnicas de caça

A minha namorada adora colocar-me gelo por todo o corpo. Já estou farto desta situação, pois devido às correntes de ar cheguei a ficar constipado. Será o comportamento dela normal?

J.M. - Santarém

Ela chupa-me os mamilos. Não faço ideia onde a minha namorada ouviu dizer que os homens se excitam desta forma. A verdade é que me irrita bastante, mas não lho consigo dizer.

G.L. Tavira

(Revista Maria, edição desta semana.)

Meninas, parece-vos justo sujeitar os vossos namorados a tais sevícias, só porque leram, na Máxima, uns artigos, que até eu podia ter escrito, sobre como pô-los malucos a ponto de, finalmente, revelarem algum talento?
Pobres rapazes, sujeitos a correntes de ar, a constipações...; chuparem-lhes os mamilos...?! Desta vez estou do lado deles: não se faz: e prejudica a economia do país; é desmoralizá-los!
Os homens não precisam de preliminares. Macho que é macho, o único preliminar que reconhece consiste na emissão de um som de uma só sílaba: não!
Não vale a pena estudar o kama-sutra: basta um não. Mas trémulo. E depois outro. Umas negas hesitantes seguidas de sucessivas pequenas concessões, que eles pensam ter alcançado mercê do seu elaborado esforço de caça.
Explico: lá nos alicerces dos seus cérebros hominídeos, somos ainda o animalzinho inocente e tenro que eles querem abater para comer, o qual, óbvio, foge, por instinto, à perseguição. E do que eles gostam é da fuga seguida da perseguição, da armadilha, do jogo de estratégia e antecipação e, finalmente, do abate, que lhes servirá para manter a auto-estima, "ainda os tenho no sítio", coisa e tal. Portanto, não descansam enquanto não enfiam o balázio na corçazinha mansa que as águas da ribeira volvia, volvia.
O meu conselho sobre preliminares para homens é, pois, o seguinte: sempre "não", "não posso", "não fiz a depilação", "sou da igreja evangélica e nós não podemos", "não estou preparada", etc.: confio totalmente na vossa imaginação; sempre a afastar-lhes as mãozinhas, mas nunca completamente, como se não tivéssemos força, coitadinhas, como se não fôssemos capazes de lhes assentar uma joelhada nos tomates.
"Não, não, não", mas suave, assim como se não soubéssemos bem, permitindo, por fraqueza, umas abertazinhas aqui, acolá, mais adiante. Entendido?

Depois, depende de cada uma de vós, ou se deixam caçar, e, se estiverem muito esfomeadas, lá terá de ser, ou adiam o repasto para uma próxima caçada.
Eu era capaz de adiar, porque, lembrem-se, um caçador a sério não descansa enquanto não reencontra o lindo exemplar de cervozinho do monte que quase feriu, mas não conseguiu abater.

sábado, setembro 24, 2005

Ainda sobre o pega de empurrão

O Dicionário por Soundbytes que os gajos do Casmurro inventaram, merece atenção.

Tenho um prazer especial em dizer "os gajos", porque alguns deles ensinaram-me tudo o que não sei sobre literatura, mas isto, agora, no que respeita à blogosfera, os gajos aos pé de mim são uns meninos de coro e piam fininho, e quem lhes dá a notazinha sou eu!

Amor, havia necessidade de expores assim a nossa vida íntima?

Revista Maria, ainda quente, acabada de sair do quiosque:

«Consultório íntimo», p. 72

Sou um homem de 40 anos, com alguma experiência, Eis que, agora, sou surpreendido por uma mulher que, incrivelmente, me provoca um orgasmo de duração dez vezes maior e acompanhado de espasmos. Nesses três minutos pareceu-me ter experimentado o meu primeiro orgasmo feminino. Será isso possível?

J.F. - Porto

O tempo de um gelado no McDonalds

Sentia-me gulosa e fui ao McDonalds de Almada comer um McFlurry de Oreo. O gelado ia-me sabendo bem, enquanto meditava nas calorias e obser...